3.2.19

Recordações da Casa Amarela



«Por causa da especificidade da sua função, é comum confundir os jornalistas com os meios de transmissão impessoais que utilizam, e esquecer que cada intrépido repórter coexiste no mesmo corpo com um ser humano, muitos deles com sentimentos. É portanto de louvar o profissionalismo exibido nesta semana por toda a equipa de informação da SIC, que, mesmo ocupadíssimos com a sua mudança de instalações, conseguiram manter-nos permanentemente informados sobre a grande notícia da semana: a sua mudança de instalações. Enquanto o resto da imprensa se distraía com Venezuelas, debates parlamentares e outros flocos de espuma, a SIC soube focar-se no essencial - um grupo de pessoas ia sair de um edifício e entrar num edifício diferente, a sensivelmente nove quilómetros de distância.

Violinos. Imagens de arquivo. "A SIC mudou... saiu da zona de conforto... e arriscou." Rodrigo Guedes de Carvalho, não deixando que o tumulto deteriorasse o seu sentido de rigor, apresentou os factos cronológicos, geográficos, arquitectónicos e cromáticos em apreço: "Durante 26 anos, a SIC morou aqui, na Estrada da Outurela, número 119. O edifício conhecido pelas paredes... de tijolos. Uma casa... amarela."

O Jornal da Noite apresentou uma montagem subordinada ao tema "dias de agitação". Drones mostravam panorâmicas de um palácio de cristal nas terras exóticas de Paço de Arcos. Um operador de câmara interrompeu o que parecia ser uma acção de formação sobre o funcionamento de edifícios. Perante uma plateia atenta e curiosa, um perito em portas apontou para uma porta e explicou que se tratava de uma porta. Depois veio o esclarecimento adicional, através da qual o esclarecimento anterior foi semanticamente enriquecido: "É apenas uma das portas. Há outras."

O sentido de turbulência histórica foi transmitido através de imagens de pessoas a transportar caixotes de um lado para o outro, como decerto acontecia na Fortaleza de Sagres antes de partirem as primeiras naus. Mas questões logísticas importantíssimas eram resolvidas recorrendo a princípios científicos de vanguarda. "Venho eu... o computador... os dossiês... o bloco e as canetas...?" "E a cadeira." "A cadeira também?" Raramente o grande público tem acesso aos bastidores da História com "H" grande, mas aqui estava ela a acontecer à nossa frente: na imagem seguinte, uma cadeira foi de facto empurrada ao longo de um corredor. Nada é deixado ao acaso em operações desta natureza.


Numa visita guiada às novas instalações, Clara de Sousa serviu de cicerone a Cristina Ferreira, que se auto-impôs a nobre tarefa de enumerar os aspectos da realidade sobre os quais as pessoas comuns não têm noção: o mundo das régies ("A régie é um mundo que as pessoas não têm noção do que é"), a seriedade do jornalismo ("Eu acho que as pessoas às vezes não têm noção de que o jornalismo é muito sério"), etc.

No dia seguinte, Bento Rodrigues conseguiu a proeza fisiológica de aplicar maiúsculas à palavra "FUTURO" apenas com o seu timbre de voz. Nos tons ofegantes de quem testemunha o módulo lunar a aproximar-se do mar da Tranquilidade, falou de uma "redacção nova, mais tecnológica, e ainda com mais talento". Seguiu-se um directo a partir da tecnológica e talentosa redacção. "Como se vive aí o ambiente, Joana?" O ambiente vivia-se com uma produtora a agachar-se diante de uma máquina de café e a explicar à Joana que tinha desenvolvido um sistema revolucionário de armazenamento de víveres. "Trouxe três caixas. Uma para o café, uma para o chá e outra para o açúcar."

"Tu estás muito emocionada, não estás?"

"Sim, porque isto é... isto é o futuro."

Eram 13.21. O olho da História fitava-nos.

João Moleira foi incumbido de resgatar às paredes abandonadas de Carnaxide um documento simbólico. "Esta... é a primeira licença de emissão da SIC... E Bento... vou levá-la até ti, porque é aí que ela faz falta agora."

"Que bela ideia, João. Porque a vida é feita de símbolos... como esse que tu nos vais trazer. Além do mais, esse papel que autorizou a SIC a ir para o ar remete-nos para o espírito fundador... uma televisão que revolucionou a própria televisão... um sopro de democracia no país..."

Tolhido pela emoção, mas com o documento mais importante desde a Magna Carta devidamente aconchegado na axila, João Moleira encaminhou-se para a saída. "Costuma dizer-se que o último a sair apaga a luz. Aqui as luzes já foram apagadas, resta-me sair uma última vez por esta porta", anunciou solenemente, deixando atrás de si vários funcionários atarefados e uma recepcionista rodeada de luzes acesas. No novo estúdio, Bento Rodrigues continuava a executar empolgantes acrobacias silábicas com o vocábulo "futuro": "O fU-tU-Ro é agora... em Paço de Arcos."

O futuro assemelhou-se muito ao passado recente, permitindo que instrumentos tecnológicos de última geração fossem aplicados à missão tradicional do jornalismo televisivo: acompanhar em directo o percurso de veículos automóveis, enquanto alguém relata com precisão científica aquilo que estamos a ver.

13.37: "O João está já na recta final... a nova morada da primeira televisão privada em Portugal... Está a chegar a Paço d"Arcos, como podem testemunhar nestas imagens... fazendo a rotunda que permitirá depois entrar nas novas instalações da SIC.... Uma vida nova... num dos mais fortes grupos de comunicação do país... que tem sobretudo a independência e a isenção, além da criatividade, como marcas principais.... o carro já está a chegar..."

Chegado ao destino, o portador do documento foi recebido à entrada pelo pivô: dois homens abraçados nos degraus de um novo mundo, com o sentido do dever cumprido, como Lewis e Clark, como Ivens e Capelo. A licença de emissão foi colocada num tripé. "É um papel... mas é muito mais do que um papel." Cabeças acenaram vigorosamente. O país, exaustivamente informado, podia respirar fundo e descansar.»

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