20.4.19

Somos estáveis, não éramos?



«É um sinal dos tempos que devia fazer soar todos os alertas. Um protesto silencioso, que ninguém antecipou (da comunicação social ao Governo, passando pelo patronato e serviços de informação), consolida a ideia de que, também em Portugal, os mecanismos de representação se estão a transformar radical e paulatinamente.

Quando nos regozijamos por não existirem, entre nós, novos partidos, que por simplismo etiquetamos de populistas, tendemos a sobrevalorizar o papel dos partidos e, ao mesmo tempo, a subestimar os sintomas de fadiga dos restantes mecanismos tradicionais de representação e a emergência de novas organizações. Como sempre acontece, é no mundo do trabalho que se vislumbram os primeiros sinais do novo. E, em Portugal, tem havido bem mais novidades do que somos levados a crer.

Há, aliás, um padrão recorrente: a erosão dos velhos sindicatos, que negoceiam, chegam a acordos, mas representam cada vez menos, é acompanhada pela emergência repentina de novos movimentos, mais inorgânicos, reivindicativos e, também, disruptivos.

A escalada de conflitualidade social tem, é claro, raízes na ideia de que há uma folga orçamental que pode ser gerida, pela qual todos competem, mas assenta, essencialmente, na transformação da própria natureza do protesto. Cada vez mais, o direito à greve é, de facto, exclusivo de uns quantos gate-keepers, que, pelos lugares estratégicos que ocupam nas sociedades, podem causar grande perturbação, com pouco esforço e escassa proporcionalidade entre caderno reivindicativo e danos causados a terceiros.

Sintomaticamente, o velho movimento sindical português, sempre acusado de maximalismo e de viver sob a alçada do PCP, canaliza o protesto para os canais institucionais, cumpre os serviços mínimos e, de certa forma, ajuda à manutenção dos equilíbrios do regime que duram desde a transição para a democracia.

Hoje, assistimos à formação de uma realidade distinta. A fragmentação das estruturas de representação de interesses coexiste com reivindicações esparsas e incontidas — muitas das vezes, nas margens da legalidade e que visam, por exemplo, promover a evasão contributiva. Tudo isto marcado pela ocupação de lugares contraditórios: com ordens profissionais que agem como sindicatos, patrões que são também sindicalistas ou comissões de trabalhadores que reinventam o basismo.

Há, é óbvio, aspetos positivos nesta transformação. Desde logo, um incremento no pluralismo — ajudando a corrigir défices crónicos em Portugal — e mais representação do mundo do trabalho. Mas os motivos para otimismo quase que terminam aí. A maior novidade são mesmo os fortes indícios de formação de uma nova ordem política, que se vai instalando de forma larvar. Como acabaremos por descobrir, os coletes amarelos não têm de chegar sempre de colete e muito menos de amarelo.»

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