30.8.19

Bem-vindos ao centro interpretativo do estado novo


a minha avó era analfabeta, tal como os seus quatro irmãos. teve dois filhos de pai incógnito. a minha mãe fez a terceira classe, após o que veio ainda criança para lisboa para servir numa casa. conheceu o meu pai, que era um intelectual: teve direito a completar o quarto ano. a vida dele dava um livro, que não cabe aqui. chegaram a viver seis, sete, na mesma casa com dois quartos. dividiam-se as despesas, as refeições. não se metiam em política, bastava-lhes o medo do futuro e do passado, o medo do regresso da fome, medo esse que ainda verteu para os filhos. eu, nascido em liberdade, ainda dou um beijo num pão que tenha de deitar para o lixo. não consigo evitá-lo. graças à antítese de tudo o que representava esse tempo, tenho hoje uma vida de privilégio. é escusado gastarem dinheiro em obras e campanhas. o museu já está de pé na vida de muitos (demasiados) de nós.

sejam bem-vindos ao centro interpretativo do estado novo.

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