6.12.19

O tal país de doutores e engenheiros



«Um dos mitos mais perniciosos que a mentalidade salazarista nos deixou foi o de que Portugal era um país com um problema de excesso de mobilidade social ascendente por via da educação. Todos ouvimos a estigmatizadora voz de certas elites criticando querermos ser "doutores e engenheiros".

Ainda hoje assistimos ao estranho caso de nos faltarem médicos, mas a Ordem dos Médicos achar que há vagas a mais no acesso a Medicina. Não tarda faltar-nos-ão professores.

Esse tal país de doutores e engenheiros vai, segundo o Relatório do Estado da Educação recentemente publicado pelo Conselho Nacional da Educação, falhar a meta da União Europeia de que 40% dos adultos entre os 30 e os 34 anos tenham concluído uma formação do ensino superior. Esse tal país tem um ensino superior que não cresce há 20 anos e tem hoje menos alunos do que em 2001, segundo a Pordata. Nesse país há uma corrente maioritária, não só à direita, mas também no Partido Socialista, que defende que os alunos do ensino superior público devem pagar propinas, porque têm acesso a um privilégio e não a um serviço público a que deveriam ter direito. Permite-se que as propinas dos mestrados atinjam valores exorbitantes, se as instituições de ensino superior assim o entenderem.

Havemos de chegar à meta da União Europeia por inércia demográfica, mesmo sem expandir o ensino superior. Talvez até já lá estivéssemos se não fosse o saldo migratório de diplomados ser quase de certeza francamente negativo, embora eu não disponha de dados exatos sobre este ponto.

Mas o que nos devia preocupar não é a meta, é a contradição profunda entre esse mito salazarista e a realidade do trabalho e da vida no século XXI. Bem vistas as coisas, o último grande visionário da expansão do ensino superior foi, ainda no marcelismo, Veiga Simão, injustiçado pela democracia enquanto ministro da Educação com um papel precursor na democratização do ensino, que incluiu a diversificação territorial das universidades e a criação da rede de institutos politécnicos.

As universidades e os institutos politécnicos, muitas delas, parecem hoje estar confortáveis com o estatuto de guardiões das elites passadas contra a necessidade de uma frequência muito mais alargada do ensino superior. Muitas delas fecharam as suas portas aos trabalhadores-estudantes, reagiram mal à ideia bem concebida por Mariano Gago do acesso de maiores de 23 anos aos seus cursos, gostam do atual sistema de acesso que se centra totalmente em notas de exames, anacronicamente, sem ter em conta muitas outras dimensões da vida dos estudantes que podem ser relevantes e que muitos outros países encorajam a incluir nos processos de candidatura.

Mais surpreendentemente, não se vê instituições portuguesas nas grandes redes de ensino superior online, nem a oferecer ensino à distância, nem com vontade de atrair estudantes que não venham aos 18 anos do normalíssimo percurso académico no ensino secundário. A minha assistente na administração do Banco Mundial - de que me preparo para sair - está inscrita num mestrado a distância de uma universidade da costa Oeste, trabalhando em Washington D.C. Por cá, o ensino superior, todo ele, desdenha de ter um papel na educação e formação ao longo da vida.

Há algo anormal quando me é fácil inscrever online, estudar em casa e obter um diploma de uma unidade curricular em Harvard ou no MIT e não o posso fazer em quase nenhuma universidade portuguesa. E com isto estamos a tirar oportunidades aos nossos cidadãos, a prejudicar a nossa competitividade no século XXI e a diminuir a nossa possibilidade de conseguir a transição digital e participar na economia do futuro.

Apesar disso, o debate sobre ensino superior continua a ser quase só sobre ingresso de jovens e o modo de entrada dos alunos do ensino profissional. Mais coisa menos coisa, o mesmo debate dos anos 60 do século passado, quando não se deixava os alunos das escolas comerciais e industriais entrar na universidade em igualdade de circunstâncias com os do liceu. Alguém espalhe por aí a notícia de que o ensino superior está no século XXI e somos um país com poucos doutores e ainda menos engenheiros.»

.