9.2.19

Boa resposta


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Marcelo: uma boa definição



Expresso, 09.02.2019.
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França: 13 semanas de coletes amarelos




«Apesar da violência, as últimas sondagens são esclarecedoras: mais de 60 por cento dos franceses continuam a dizer que simpatizam com o movimento nascido na internet em novembro de 2018 contra os impostos e pelo aumento do poder de compra.

É aqui, no forte apoio popular aos “coletes”, que reside o principal problema do Presidente Emmanuel Macron: não conseguiu resolver a crise com cedências de 11 mil milhões às suas reivindicações nem, a seguir, com o endurecimento da repressão, que provocou várias feridos graves.

Agora, visivelmente, também não o está a conseguir resolver com o “Grande Debate Nacional" que lançou há algumas semanas. O próprio Macron desceu ao terreno para este “debate”. Vai duas vezes por semana às regiões discutir com franceses à média de seis horas por sessão, mas não consegue travar a revolta, muito violenta, nas ruas, todos os sábados.»
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Venezuela: de mal a pior




«Nós faremos o que for necessário. Essa é, evidentemente, uma questão polémica, mas fazendo uso da nossa soberania, do exercício das nossas prerrogativas, faremos o que for necessário", disse Guaidó, numa entrevista à France Presse, depois de questionado se usaria os seus poderes legais como Presidente interino para autorizar uma possível intervenção militar.»
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8.2.19

O mundo está mesmo como nunca o conhecemos


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Ou: quem se lixa é o mexilhão


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Montevideu: ao fundo do túnel, talvez vejam um comboio




Se alguém ler isto e o resto do artigo, e perceber o que andam estes grupos a fazer e se esperam algum resultado, é certamente um génio. 

«Ahora mismo hay tres propuestas internacionales sobre Venezuela: la del grupo de Lima (los principales países latinoamericanos y Canadá), la del Grupo de Contacto (en la que participa España) y la iniciativa de Montevideo. Además de Estados Unidos, por supuesto. Todos exigen elecciones presidenciales. Aunque ni eso está claro. El canciller uruguayo, Rodolfo Nin Novoa, que informó sobre los resultados de la reunión del grupo de contacto, dijo que una condición ineludible para resolver el problema venezolano era “el establecimiento de garantías para un proceso electoral justo” y la convocatoria de elecciones. Minutos después afirmó que si las partes en conflicto en Venezuela acordaran no convocar esas elecciones, no tendría por qué haberlas.

“El canciller uruguayo ha hablado primero como miembro de nuestro grupo, y luego como miembro de la iniciativa de Montevideo”, explicó Josep Borrell, ministro español de Asuntos Exteriores. Eso da una idea de lo fluidas e inciertas que son las cosas. Para Borrell, resulta imprescindible una pronta convocatoria de elecciones “por parte de Juan Guaidó”, al que España reconoce como presidente interino. Para Bolivia, eso no está tan claro. Ni para México, que, con Uruguay, prefiere remitirse a una gestión coordinada con Naciones Unidas. El Grupo de Lima, del que forman parte las principales potencias continentales (como Brasil, Argentina y Canadá) salvo Estados Unidos y México, se alinea más bien con Washington. Donald Trump dice que ya no hay nada que negociar con el régimen de Maduro.»
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Os polícias não podem perder a cabeça



«As reacções dos dirigentes sindicais da PSP à visita do Presidente da República ao Bairro da Jamaica são demonstrativas de uma grave e arreigada incompreensão do papel das forças policiais numa sociedade democrática.

Para Alexandre Moreira, presidente do Sindicato Vertical das Carreiras da Polícia, a atitude do Presidente da República, “ao visitar o Bairro da Jamaica e, tirando selfies com indivíduos suspeitos da prática de crimes, contra a autoridade do Estado, transmitiu e incutiu, mesmo que involuntariamente, um sentimento de impunidade para todos os, alegados e comprovados, criminosos, em detrimento daqueles que representam a autoridade do Estado”. Pelo seu lado, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, Paulo Rodrigues, sobre a mesma visita afirmou, em entrevista na televisão, que “a figura que é representante máxima do Estado desvaloriza, despreza e ignora completamente aquilo que é a missão da polícia. O sr. Presidente da República quis dizer em mensagem, com esta visita, que está no fundo do lado daquelas pessoas, sobretudo daqueles indivíduos que criaram desacatos, um deles com quem tira até uma selfie é um dos que agrediu um profissional da polícia”.

Será que, no entender deste dirigente sindical, os agentes da PSP estão de um lado e as pessoas que vivem no Bairro da Jamaica do outro? Será que a missão dos agentes da PSP de que fala é a de combaterem as pessoas de um bairro? E isto por existirem nesse bairro pessoas que criam desacatos? Será que, na opinião deste dirigente sindical, o Presidente da República devia optar entre estar do lado dos habitantes do Bairro da Jamaica, sobretudo os que criaram desacatos, ou do lado dos agentes da PSP?

Acrescentou, ainda, este dirigente sindical, num momento particularmente infeliz, que se o Presidente da República queria “ver edificações degradadas, podia ter ido à Calçada da Ajuda em Lisboa ou à Bela Vista do Porto (instalações policiais), que em matéria de instalações vergonhosas ganham à Jamaica”.

Como é evidente – e o Presidente da República viu-se, de alguma forma, obrigado a afirmá-lo publicamente –, é uma vergonha que os dirigentes sindicais da PSP não percebam que as forças de segurança, a quem a sociedade confere autoridade e armas, estão num nível distinto da comunidade que servem e protegem, não podendo colocar-se em oposição ou comparar-se com parcelas dessa mesma comunidade.

A função da PSP é assegurar a ordem, a tranquilidade pública e a segurança bem como proteger as pessoas e bens, garantindo, assim, os direitos e liberdades de todos os cidadãos, bem como o funcionamento das instituições democráticas. Para cumprirem esta missão, os agentes da PSP têm de ser profissionais, obedecer aos protocolos estabelecidos e serem, naturalmente, ponderados na sua actuação. Não podem entrar em discussões de rua nem perder a cabeça. Têm de ter, não só escudos físicos para os proteger das agressões materiais, como também escudos interiores para os distanciarem das provocações e ofensas.

A sua missão é particularmente dignificada em qualquer sociedade e traz responsabilidades e deveres de actuação que não são compatíveis com estas comparações entre as instalações degradadas de algumas esquadras e as notoriamente difíceis condições de vida de parcelas da nossa comunidade. Na verdade, é uma comparação que torna a PSP numa outra qualquer parcela da comunidade e que ignora a sua realidade e dignidade institucional. Ou será que se pretende institucionalizar uma competição entre polícias e os habitantes de bairros degradados?

É exactamente esta absurda e perigosa noção de nós, de um lado, e eles, do outro que, de resto, muita gente procurou alimentar, que o Presidente da República, ao deslocar-se sem aviso prévio ao Bairro da Jamaica, quis evitar que se espalhasse e criasse raízes na nossa sociedade e, em particular, nesse bairro.

Uma visita absolutamente coerente com a sua política, desde o início anunciada, de descrispação e de procura de consensos e entendimentos dentro da sociedade portuguesa. Uma visita que reforça, de forma evidente, a sua função de Presidente de todos os portugueses.

Quando os dirigentes sindicais da PSP perceberem isso, estaremos, seguramente, a viver numa sociedade com mais segurança e tranquilidade.»

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7.2.19

João Bénard da Costa



Faria hoje 84 anos. Saudades dele, de uma geração que está a desaparecer, até de uma grande festa de Carnaval num 7 de Fevereiro, já lá vai quase meio século.
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Mujica e a crise na Venezuela




«O ex-presidente uruguaio José "Pepe" Mujica defende que, para evitar que a crise na Venezuela termine em uma guerra, é preciso haver eleições gerais no país, com um forte monitoramento internacional que garanta a participação de todas as correntes políticas. (…)

BBC - O senhor fala em regime de Maduro. Então, para o senhor trata-se de uma ditadura? 
José Mujica - Não vou entrar nessa questão, porque se quero negociar, não posso insultar. Tenho que reconhecer a realidade. Também não vou insultar o senhor presidente autoproclamado. Para encontrar uma saída, é preciso ter a delicadeza necessária.»
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07.02.1927 - Juliette Gréco



Juliette Gréco faz hoje 92 anos e nada encontrei sobre a sua vida recente, a não ser que, há menos de um ano, morreu o seu marido e cúmplice permanente de há mais de meio século, Gérard Jouannest, pianista e compositor que trabalhou por exemplo com Jacques Brel, para quem compôs várias canções, entre as quais a mais do que célebre «Ne me quitte pas». Aliás, foi através de Brel que Gréco o conheceu.

Além de alguns vídeos, fica um texto publicado quando chegou aos 90 e uma bela entrevista um pouco mais antiga.
Uma bela entrevista de há dois anos: «Cela fait 88 ans que je suis en guerre».













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Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista



«Num mundo em mudança, as mudanças nem sempre são bem aceites. A igualdade como ideal tem 230 anos contados a partir da Revolução Francesa, mas, como prática, é ainda e apenas, uma ideia. Num Portugal que não é monocromático, a pedagogia da cor é uma Escola com muito insucesso. Vem isto a propósito da agitação em torno de episódios de discriminação recentes. Recentes, mas velhos de décadas, num país em que preto é cor de viuvez, de perda, de luto e de luta. Falar de discriminação, de racismo, de xenofobia, de misoginia, de sexismo ou de homofobia é trazer à tona uma sociedade plena de imperfeições. Uma sociedade que permanece radicalmente inculta e afastada dos ensinamentos científicos do nosso tempo. Uma sociedade que resiste à mudança. Uma sociedade que tem ainda um sentimento de perda de um império que nunca, verdadeiramente nunca, existiu. Uma sociedade que nunca compreendeu o século XX enquanto tempo de emancipação e de liberdade para os povos não Europeus. Uma sociedade que bate no peito, mas não assume a sua quota parte de culpa nessa ode à desgraça que permitiu a escravatura e o tráfico negreiro. Uma sociedade que luta há 500 anos para não integrar os ciganos que, resilientes, se mantêm por aqui. Uma sociedade que manteve ardentes atos de fé nas principais praças das nossas cidades e campos de desterro em vários continentes. Uma sociedade que nega o seu racismo endógeno, mas segrega, separa e exclui a diferença, os diferentes.

Volto à Jamaica, também eu sem câmaras fotográficas e sem jornalistas. A Jamaica é toda uma metáfora de colonialismo e neocolonialismo. Plena de contradições e de sucessivos exercícios de poder (ou de inércia) acaba no que é hoje. Aqui a Jamaica é toda uma metáfora porque urbanização do Vale de Chícharos no Seixal não tem o mesmo impacto do que ser Jamaica. Paredes de tijolo cru, fios elétricos expostos ao vento e parabólicas apontadas ao mundo. Grafitis e retratos de heróis nas paredes. Cheiros de outras gastronomias, sons de outros continentes, palavras de outras línguas. E ausências, muitas ausências. De um Estado que há muitos anos falhou na integração destes imigrantes e dos seus filhos; de uma política de habitação inclusiva; de uma política efetiva de combate à exclusão social; de um elevador social que impeça a reprodução das desigualdades. Faltam políticas de integração social que sejam municipais, metropolitanas e nacionais. A Jamaicaé uma metáfora de um país que tem no outro extremo as Quintas (a do Lago; a da Marinha, as do Douro). Uma metáfora de um país de desigualdade social profunda e da incapacidade de olhar este desafio de frente.

A inevitabilidade de olharmos as migrações como uma realidade que veio para ficar obriga-nos a repensar a comunidade social que somos. O racismo nativista virulento que vem surgindo em segmentos da população em países à nossa volta é o mesmo que ainda transparece de algumas das relações entre seres humanos aqui. Não há um racismo bom e um racismo mau. Há apenas estupidez nas ações que assumem a cor da pele como fator de discriminação naturalizada. O racismo é uma naturalização das desigualdades e uma garantia de que não desaparecerão. Em vez de racismo podíamos falar de xenofobia, de discriminação social ou de bullying estrutural, o país seria o mesmo, as dimensões de exclusão seriam alternativas. Terminar de vez com o racismo ou a xenofobia é trabalho para toda uma sociedade. É preciso criar uma estrutura nacional que reúna todo o muito que já sabemos sobre o tema e o devolva sob a forma de um programa nacional de combate ao racismo e à xenofobia. Mudar estruturas (como a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial transformando-a num regulador social e conferindo-lhe peso político e visibilidade social), criar conteúdos formativos para as autoridades e magistraturas, alterar a legislação de forma a cumprir e fazer cumprir o artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, descolonizar os materiais formativos com que se socializam as crianças e jovens nas Escolas. A sociedade portuguesa, toda ela nas suas múltiplas componentes, necessita de um upgrade civilizacional que permita ultrapassar os 230 anos que temos de atraso na integração social da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Também da Jamaica, numa inspirada “Redemption song” veio o mote “Emancipate yourselves from mental slavery. None but ourselves can free our minds”

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6.2.19

Nem Maduro, nem Guaidó



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Dica (846)



The World, Built by China (Derek Watkins, K. K. Rebecca Lai e Keith Bradsher) 

«China envisions a vast global network of trade, investment and infrastructure that will reshape financial and geopolitical ties — and bring the rest of the world closer to Beijing.
It is a modern-day version of the Marshall Plan, America’s reconstruction effort after World War II, which created a foundation for enduring military and diplomatic alliances. China’s strategy is bolder, more expensive and far riskier.»
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06.02.1932 - O dia em que nasceu François Truffaut



François Truffaut nasceu em Paris e faria hoje 87 anos, morreu muito cedo (com 52), mas deixou-nos 26 filmes que o mantêm connosco. Com uma infância atribulada, que acaba por retratar parcialmente em «Les quatre cents coups», Truffaut fundou um cineclube aos 15 anos e foi rapidamente descoberto por André Bazin que viria a ter uma influência decisiva na sua carreira, introduzindo-o junto dos grandes nomes da época e nos celebérrimos «Cahiers du Cinéma». Tornou-se um dos principais representantes da «Nouvelle Vague» francesa e, nesses tempos áureos do cinema francês, era sempre com ansiedade que se aguardava a estreia de um novo título.

Alguns entre muitos inesquecíveis: «Baisers Volés» (1968), «Les quatre cents coups» (1959), Fahrenheit 451 (1966) e o último dos seus filmes, estreado um ano antes de morrer: «Vivement dimanche!» (1983).








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Esquerda / Direita



Nas redes sociais, e também nalguns órgãos de comunicação social, há umas tantas pessoas que, a propósito de tudo, mesmo que se esteja a falar da hora do nascer do Sol, fazem questão de frisar que a esquerda diz que este acontece às 7:37 e a direita às 7:38. Vêem fosso ideológico em tudo o que mexe e daí tiram elogios ou condenações a torto e a direito. E não, não é pura coincidência que sejam frequentemente os mesmos a afirmar «Eu sou de esquerda, mas…» (ou de direita, mais raramente, está pouco na moda…).

Isto é tão inútil e tão cansativo!...
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A sua amiga negra



«Eu sou negra. Devido a artigos que já publiquei aqui no PÚBLICO sobre racismo, tenho amigos e amigas brancas bem chegados que me dizem que uma negra a escrever sobre o racismo é menos levada a sério que uma pessoa branca. Até fazem a comparação com um homem que escreve a favor do feminismo. Um homem branco que escreve com uma perspectiva anti-racista ou feminista é mais ouvido, não é? Legitima a causa. Pode até ser admirado. É lindo. E o impacto é diferente. Sofre menos retaliações, quando sofre. Nas últimas semanas, a seguir aos acontecimentos no bairro da Jamaica, tenho lido uma série de artigos sobre o racismo. Embora os primeiros artigos escritos por pessoas negras comecem a aparecer a conta-gotas, a discussão foi feita maioritariamente por homens brancos. Será que os meus amigos e amigas brancas têm razão? De qualquer forma, neste artigo posso posicionar-me como a amiga negra dos leitores, sobretudo se o leitor não tiver uma amiga ou amigo negro para fazer o que sabiamente sugeriu Rui Tavares. Embora não seja das minhas experiências pessoais com as diferentes formas de racismo que quero falar neste texto.

Com o objetivo de gerar reflexão positiva entre pessoas brancas, vou seguir o raciocínio dos meus amigos e, num ato de exercício intertextual, vestir-me-ei com a “voz branca” e empática da académica Robin Diangelo. Ela é uma mulher branca, norte-americana e escreve, estuda e fala sobre o racismo e anti-racismo para pessoas brancas. Publicou em 2018 o livro White Fragility: why it is so hard for white people to talk about racism (livro ainda não traduzido para português), já considerado um “New York Times Bestseller”. Vou deixar aqui algumas das ideias centrais do seu livro, que considero elucidativas e necessárias para a discussão e meditação sobre o racismo no espaço público português actual.

1. O racismo vai muito além do indivíduo. O racismo é um sistema de opressão, assim como o sexismo. Só para citar um dado histórico, os homens brancos deram o direito ao voto às mulheres sufragistas nos EUA em 1920, mas somente às mulheres brancas. Mulheres negras nos EUA só tiveram este direito concedido depois de 44 anos, em 1964. O racismo sistémico começa com uma ideologia, e refere-se às ideias dominantes que circulam na nossa sociedade. Desde o nosso nascimento, somos condicionados a aceitar estas ideias e a não questioná-las, diz Diangelo (p.21).

2. Para entendermos bem o que é o racismo, precisamos primeiro de diferenciá-lo do mero preconceito e discriminação. Preconceito refere-se a um pré-julgamento de uma pessoa com base no grupo social ou racial à qual ela pertence. Discriminação consiste em pensamentos e emoções, incluindo estereótipos, atitudes e generalizações que são fundamentadas em pouca ou nenhuma experiência e que são projetadas em todas as pessoas de tal grupo. Neste sentido, pessoas negras podem discriminar pessoas brancas, mas elas não têm o poder social ou institucional que transforma o preconceito e discriminação delas em racismo. O impacto do preconceito delas em relação às pessoas brancas é temporário e contextual. Pessoas brancas detêm o poder institucional para imbuir o preconceito racial em leis, políticas públicas e educacionais, práticas e normas societárias, de uma forma que uma pessoa negra não tem. Logo, uma pessoa negra pode exercer preconceito e discriminação, mas não pode ser racista, defende Diangelo (p.19, p.22).



5.2.19

Há sempre um «But»


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Na Venezuela, nem tudo é a preto ou branco


 

Gonzalo Gómez é dirigente da Marea Socialista e um dos impulsionadores da «Plataforma para Evitar la Guerra y Por el Referendo Consultivo».
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O pré-aviso


«Sabíamos o que era um pré-aviso de greve. Embora similares, desconhecíamos o que era um pré-aviso de veto até o Presidente da República o ter inventado, a propósito do destino que tenciona dar à Lei de Bases da Saúde que vier a ser aprovada na Assembleia da República se não merecer o voto do PSD. Tudo em nome de um “pacto de regime” e contra o “triunfo de uma conjuntura”. (…)

No caso, o que interessa, porém, é o que esconde o argumento do pacto de regime. Que é, pelo que conhecemos, a síntese das propostas do Governo e do PSD, uma vez que as outras seriam dadas de barato, significando o sacrifício das propostas do BE e do PCP contra o sacrifício da proposta do CDS. Seria o regresso ao almejado bloco central por que tanto se bate veladamente o Presidente da República, numa das matérias em que os campos políticos devem ser particularmente diferenciados. Para o efeito, o regime havia de se resumir a dois partidos, sendo que dois deles fazem parte da solução política deste Governo. Enquanto teoria da geometria variável, esta seria o expoente da incongruência. Seria o equivalente ao cadáver esquisito dos surrealistas.»

Cipriano Justo
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«Reconhecer que Portugal foi tão colonial e tão violento quanto os outros faz parte do nosso dever»



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A diplomacia não tem de reconhecer se Maduro merece ser Presidente, mas se ainda o é de facto



«Como escrevi na semana passada, o combate entre Maduro e Guaidó até pode ter tudo a ver com democracia mas não tem nada a ver com legitimidade democrática. Se Maduro foi eleito Presidente numas eleições contestadas, Guaidó foi eleito Presidente por um Parlamento que não tem, num regime presidencialista, esse poder. Se Juan Guaidó não foi eleito por um único venezuelano – nem deputado é –, a Assembleia com que Nicolás Maduro governa é ilegítima. Em resumo, o que está em causa não é a legitimidade institucional, que falta aos dois, é a legitimidade política. Que não vem das instituições, nasce neste momento da rua. É o que acontece quando as instituições deixam de cumprir as regras.

O problema é quando nos tentam enganar. A pressão dos Estados Unidos, acompanhada por meio mundo, nada tem a ver com a legitimidade de um ou de outro Presidente. Os EUA nada fizeram para defender o Presidente Manuel Zelaya, eleito pelos hondurenhos e derrubado por um golpe militar, em 2009. Pelo contrário, hoje sabemos que estiveram ativamente envolvidos na sua destituição. Nunca, na história da América Latina, os EUA foram um fator de democratização. Não é seguramente com Donald Trump que o começarão a ser.

Afastadas as duas fantasias – de que a legitimidade de Maduro ou de Guaidó é o que está em debate ou que a intervenção dos EUA tem alguma coisa a ver com a defesa da democracia –, devemos assumir que o governo em funções não tem apoio popular e só umas eleições presidenciais poderão resolver a desesperada situação da Venezuela. Deve ser esta a pressão internacional.

A legitimidade democrática de um chefe de Estado não é critério de reconhecimento internacional. Se fosse, teríamos de fechar metade das embaixadas em Portugal e no mundo. Não poderíamos reconhecer os chefes de Estado e os governos da China, da Arábia Saudita, do Egito, de Cuba, da Tailândia e de dezenas de países africanos e asiáticos com menor legitimidade democrática do que Nicolás Maduro. No entanto, não só os reconhecemos como mantemos relações diplomáticas estreitas e amistosas com muitos deles. E bem.

O critério para reconhecer um governo e um chefe de Estado é eles serem-no de facto. Só faz sentido deixar de o fazer quando deixam de controlar o aparelho de Estado ou há uma enorme segurança de que deixarão de o controlar rapidamente. Por uma razão simples: só assim se mantêm relações com esse Estado, não apenas com políticos.

É verdade que o reconhecimento de Guaidó como legítimo Presidente da Venezuela se concentrou exclusivamente na sua capacidade de marcar novas eleições. Esse cuidado deve ser sublinhado. No entanto, quando Portugal reconhece Guaidó perde o contacto com o Estado venezuelano, a sua embaixada e as suas estruturas de poder, com exceção do Parlamento, sem qualquer função na representação externa.

Tendo em conta a quantidade de portugueses que vivem na Venezuela, considero esta decisão um seguidismo irresponsável. Ainda por cima, não o faz para reconhecer um Presidente eleito. Fá-lo em nome de um símbolo, que pode vir ou não a ser Presidente. Fá-lo num momento de enorme incerteza, quando não se sabe quem realmente irá governar. E se, por um qualquer milagre, Maduro se mantiver no poder? Portugal deixa de ter qualquer relação com o Estado venezuelano? Volta atrás?

O reconhecimento de Juan Guaidó, que implica um corte total de relações diplomáticas com a Venezuela pelo menos até que a oposição conquiste o poder, é um ato exclusivamente político para apertar o cerco a Maduro. Não se faz em nome da democracia, que é uma luta fundamental para os venezuelanos mas um mero pretexto para os Estados Unidos e governos que o acompanham, mas em nome da reconfiguração política do continente. Muitos dos países europeus que quiseram dar este passo podem dar-se a esse luxo. Incluindo o de ficar, caso as coisas tenham um desenvolvimento inesperado, sem pontes de contacto com Caracas. Portugal não.

Dizer isto não é desejar a continuação de Maduro ou levar a não ingerência ao ponto de sermos indiferentes ao que se está a passar na Venezuela. Não embarcar nesta precipitação, que em vez de promover a paz empurra a Venezuela para a guerra civil, é entrar no perigoso comboio de Trump. Não preciso de vos dizer que se o comboio de irresponsáveis conduzido por Bush acabou como acabou, este tem tudo para acabar bem pior.»

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4.2.19

Ainda cá teremos a Rainha de Inglaterra!




Marcelo e a nossa diplomacia tudo farão para mais esta vitória e isto ainda acaba com um visto gold e compra de um palácio à maneira…
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04.02.1961 – O dia em que Angola começou a deixar de ser nossa



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Dica (845)



A outra face da Presidência (Manuel Carvalho da Silva) 

«O presidente da República (PR), que surpreendeu grande parte dos portugueses pela forma descomplexada com que acomodou a solução governativa que havia horrorizado o seu predecessor, pelo estilo pouco convencional com que tem exercido o cargo e, ainda, pela desenvoltura com que se pronuncia diariamente sobre assuntos que são da competência de outros órgãos de soberania, volta a surpreender com pronunciamentos e decisões que parecem revelar uma outra face da Presidência, até agora pouco exposta.

Neste texto vou referir-me apenas a posições assumidas pelo PR a respeito da proposta de Lei de Bases da Saúde, e à decisão de nomear o comentador João Miguel Tavares para a presidência da Comissão das Comemorações do próximo 10 de Junho.»
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O novo ano chinês e a árvore inclinada



«António Costa ainda era presidente da Câmara de Lisboa quando viu um dos fundadores do PS (Alfredo Barroso) deixar o partido por causa de uma intervenção sua na cerimónia do novo ano chinês, em 2015. Na altura, as palavras do autarca – que agradeceu aos chineses a sua contribuição para o facto de Portugal estar, então, melhor do que quatro anos antes – foram consideradas um “tiro de canhão no coração do PS”, e um desrespeito para com os portugueses que continuavam no desemprego e a viver abaixo do limiar da pobreza.

Passaram mais quatro anos. António Costa é primeiro-ministro. A relação com a China evoluiu. As contas portuguesas também. Os chineses são hoje donos de várias empresas estratégicas, públicas e privadas, em Portugal. Relacionam-se bem com as altas esferas da política e da economia. Já cá veio o presidente Xi Jiping para retribuir uma anterior visita do Governo português que tinha uma missão bem definida: captar mais investimento. E, em Abril, há um novo momento nas relações bilaterais, com a visita de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa a território chinês.

Este ano, o convidado especial do novo ano chinês foi Rui Rio, na sexta-feira. O líder do PSD aproveitou o palco no Casino da Póvoa para dizer aos portugueses que deviam copiar mais os chineses, em vez de viverem tanto no imediato. “Se queremos uma sociedade justa, equilibrada e desenvolvida, não podemos estar sempre a olhar para o amanhã imediato”, aconselhou Rui Rio. E acrescentou que “Portugal tem de crescer do ponto de vista económico”, tendo como eixos desse crescimento as exportações e o investimento. “Se olharmos à carência de capital que Portugal tem e ao investimento que temos de fazer, é evidente que a China é um parceiro privilegiado nessa matéria”.

O clima é hoje outro e as declarações do social-democrata não causaram nenhum tipo de alvoroço, o que mostra que há grande concordância - homogenia mesmo - de pensamento em relação à China.

Entre 2010 e 2016, os chineses investiram em Portugal mais de 7,5 mil milhões de euros, ocupando o sétimo lugar no ranking europeu dos países que mais investimento receberam da China. Se considerado o rácio de investimento acumulado, ponderado pela dimensão da sua economia, Portugal passa para segundo lugar, só atrás da Finlândia. Os números constam do relatório sobre as “Tendências do investimento chinês na Europa”, da responsabilidade de Ivana Casaburi, professora na ESADE Business School (Barcelona).

Em tempos, “aconteceu-nos” uma dependência económica tal face a Angola que, quando os angolanos se viram em dificuldades, também muitos portugueses, em Lisboa e em Luanda, foram contaminados.

É certo que a China mantém um crescimento económico ainda acima dos 6%, apesar da “guerra comercial” com os EUA. O colosso que é a China lidera hoje a globalização e Portugal está a tirar partido, naturalmente, do facto de estar na sua rota de crescimento. E acreditamos todos que uma constipação lá não chegará para causar nenhuma pneumonia cá. Mas como diriam os chineses: “Se o vento soprar de uma única direcção, a árvore crescerá inclinada.”»

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3.2.19

RAP no seu melhor


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Não, não é uma pintura



São refugiados escondidos das autoridades, em Gent, na Bélgica, Janeiro de 2019.

(Via Adriana Costa Santos)
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Recordações da Casa Amarela



«Por causa da especificidade da sua função, é comum confundir os jornalistas com os meios de transmissão impessoais que utilizam, e esquecer que cada intrépido repórter coexiste no mesmo corpo com um ser humano, muitos deles com sentimentos. É portanto de louvar o profissionalismo exibido nesta semana por toda a equipa de informação da SIC, que, mesmo ocupadíssimos com a sua mudança de instalações, conseguiram manter-nos permanentemente informados sobre a grande notícia da semana: a sua mudança de instalações. Enquanto o resto da imprensa se distraía com Venezuelas, debates parlamentares e outros flocos de espuma, a SIC soube focar-se no essencial - um grupo de pessoas ia sair de um edifício e entrar num edifício diferente, a sensivelmente nove quilómetros de distância.

Violinos. Imagens de arquivo. "A SIC mudou... saiu da zona de conforto... e arriscou." Rodrigo Guedes de Carvalho, não deixando que o tumulto deteriorasse o seu sentido de rigor, apresentou os factos cronológicos, geográficos, arquitectónicos e cromáticos em apreço: "Durante 26 anos, a SIC morou aqui, na Estrada da Outurela, número 119. O edifício conhecido pelas paredes... de tijolos. Uma casa... amarela."

O Jornal da Noite apresentou uma montagem subordinada ao tema "dias de agitação". Drones mostravam panorâmicas de um palácio de cristal nas terras exóticas de Paço de Arcos. Um operador de câmara interrompeu o que parecia ser uma acção de formação sobre o funcionamento de edifícios. Perante uma plateia atenta e curiosa, um perito em portas apontou para uma porta e explicou que se tratava de uma porta. Depois veio o esclarecimento adicional, através da qual o esclarecimento anterior foi semanticamente enriquecido: "É apenas uma das portas. Há outras."

O sentido de turbulência histórica foi transmitido através de imagens de pessoas a transportar caixotes de um lado para o outro, como decerto acontecia na Fortaleza de Sagres antes de partirem as primeiras naus. Mas questões logísticas importantíssimas eram resolvidas recorrendo a princípios científicos de vanguarda. "Venho eu... o computador... os dossiês... o bloco e as canetas...?" "E a cadeira." "A cadeira também?" Raramente o grande público tem acesso aos bastidores da História com "H" grande, mas aqui estava ela a acontecer à nossa frente: na imagem seguinte, uma cadeira foi de facto empurrada ao longo de um corredor. Nada é deixado ao acaso em operações desta natureza.