13.4.19

Marcelo soma e segue




Como escreveu Rui Rocha no Facebook, «Pensando bem, talvez estivesse na altura de Marcelo nomear um familiar que o aconselhasse a não fazer estas figuras.»
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O Bispo do Porto morreu há 30 anos



Bispos do Porto houve muitos, mas «O» Bispo do Porto será sempre, para muitos, António Ferreira Gomes, aquele que, em Julho de 1958, escreveu uma longa e célebre carta a Salazar e que morreu em 13 de Abril de 1989.

A carta em questão, muito crítica da situação política, social e religiosa do país, deu-lhe direito a um exílio de 10 anos em Espanha, França e Alemanha, do qual só regressou em 1969, já durante o marcelismo.

É bom recordar que tinham tido lugar, um mês antes de a carta ser escrita, as eleições a que concorreu Humberto Delgado e que o país se encontrava ainda em grande agitação. Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Era difícil ter acesso ao texto da carta, mas coloquei-o online na íntegra, já há alguns anos. Trata-se de um documento histórico que não deve ser esquecido.
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Brexit e a verdade dos factos



(Fonte: Libération)
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“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)



«As discussões sobre a existência de populismo em Portugal resultam quase sempre na resposta de que este não existe. Os partidos populistas, como o Chega, nunca foram às urnas e não há movimentos populistas capazes de chegar à “rua” com mais do que dezenas de pessoas, como foi o caso recente da tentativa de fazer uns “coletes amarelos” portugueses, mesmo contando com um núcleo duro que incluía os lesados do BES e o PNR. Mas a resposta é errada: o populismo em Portugal está a crescer e, mesmo que ainda não tenha “rua”, domina as “redes sociais”, que são, para muita gente, a única informação que consomem e o único sítio onde “debatem”. Domina também cada vez mais a discussão pública, impregna o discurso político do Presidente da República e dos partidos parlamentares, e está cada vez mais estabelecido na comunicação social, a começar pelas televisões e a acabar na imprensa, mesmo na intitulada de referência.

O populismo define os temas, marca o tempo dos temas muito para além da habitual febre de “novidade” comunicacional, condiciona o seu tratamento e apresenta as suas soluções de que cada vez mais políticos e jornalistas têm dificuldade em se afastar, até porque muitas vezes concordam com elas. A tendência adversarial do jornalismo junta-se a muita cobardia política, de gente acossada e que sabe que não tem moral para falar alto contra a maré populista. O resultado é um debate público inquinado, dominado pelo pathos, quase sem logos, até porque há pouco ethos circulante.

A génese do populismo dos dias de hoje, em democracia, está nesta dicotomia: o povo é intrinsecamente bom, altruísta, honesto, trabalhador, desprovido de más intenções, verdadeiro, deseja o bem para todos, e os “políticos” são o exacto oposto, maus, egoístas, desonestos, preguiçosos, mal-intencionados, mentirosos e desprovidos do sentido de solidariedade, só de interesse próprio. Esta dicotomia não é verdadeira, e acima de tudo é antidemocrática.

Vem, no caso português, de uma longa tradição de demonização da política, dos partidos e da democracia, que encontrou na nossa história sempre mais duros críticos da democracia do que da ditadura, numa tradição intelectual que vem da Grécia antiga. São discípulos de Platão e dos críticos gregos da democracia ateniense, e que, como muitos intelectuais no século XIX e XX, salvo raras excepções, a maioria das quais americanas e europeias de Leste, namoraram sempre mais ideias e regimes como fascismo e o comunismo, do que a “porca” da democracia, demasiado vulgar para lhes dar o papel de “conselheiros” que eles sempre pretenderam. Em Portugal, isso sempre fragilizou a tradição liberal e democrática, na monarquia e na República, e páginas de Ramalho e caricaturas de Bordalo foram usadas pela propaganda do Estado Novo. À ideia da “porca da política”, a que se contrapunha a obsessão do “consenso” e da “unidade orgânica de todos os portugueses”, para além dos partidos e do voto, foi dada consistência propagandística pela Censura durante 48 anos, e ela está mais metida dentro das nossas cabeças do que se imagina.

O que há de novo sobre esta péssima tradição é que a conversação democrática é duramente atingida pela crise das mediações, em particular do debate a partir de factos e não de boatos, maledicências e falsidades, muitos deles colocados deliberadamente por profissionais da desinformação, beneficiando da crise da comunicação social e do ascenso de uma nova ignorância agressiva que serve o populismo como o pão para a fome de comer. Não estamos perante um renascer do fascismo, como alguns dizem, mas de um fenómeno novo que acompanha outras transformações sociais num conjunto complexo, impulsionado por interesses, por manipuladores da democracia, como alguns serviços secretos, pela ganância de algumas empresas tecnológicas e pela apatia e mesmo medo colectivo em lhe fazer frente.

Substituir a democracia pela demagogia é mais fácil do que travar este processo. Políticos em democracia, fragilizados pela corrupção, pela ignorância, pela partidocracia e pela cobardia de ceder às ondas na moda são os últimos a servir de barreira. E o resultado é que as pressões populistas dão origem a soluções erradas, ou porque punitivas, ou porque ilegais, ou porque ineficazes, ou porque perversas, gerando novos problemas, piores dos que os que se desejam combater.

Já estou a ouvir o sussurro e os berros – e então “os políticos” não têm culpa (uma palavra fundamental do discurso populista) de nada? Têm, têm todas as culpas que os populistas lhes apontam, só que não são “todos”, nem são “os políticos”, como se fossem uma classe à parte. E só no contexto da democracia, dos partidos, das escolhas, do voto, isto se pode melhorar.

Só que estas afirmações não servem apenas para adornar e “moderar” o discurso – devem ser tomadas a sério e na sua substância, ou seja, devem ser um elemento fundamental e estrutural da narrativa sobre a política em democracia. Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”.»

José Pacheco Pereira
(Sem link, recebido por mail.)
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12.4.19

Não é o único.



Hugo van der Ding no Facebook
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O «Capuchinho Vermelho» é sexista?




Devolvam-me um mundo sem loucuras destas!. Tiraram a história do «Capuchinho Vermelho» da lista de leituras aconselhadas a criancinhas por ser sexista??? Ainda se fosse para elas não acharem que todos os lobos são maus, nesta era de respeito sacrossanto pelos animais…
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Parece Imprensa Falsa, mas não é




«Um advogado argumenta em tribunal, num caso de rapto e casamento forçado, que o testemunho de uma mulher não deve valer porque as mulheres ‘são seres – umas mais que outras – muito voláteis. O que hoje é verdade, poderá ser mentira amanhã. Alguém ter a pretensão de interpretar a vontade presumida [da vítima] aquando dos factos é temerário.‘
Outro advogado pede substituição da desembargadora Adelina Barradas de Oliveira num caso de violação de uma rapariga pelo pai porque a juíza, sendo mulher e mãe, seria parcial.»
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Nepotismo por pontos



«"Qual o grau de incompatibilidade? Tem de envolver só membros do governo ou outros órgãos de soberania? Impedimento com cargos autárquicos? Qual o período? Qual o grau de parentesco? Onde se traça a fronteira? Parentes em linha direta?" - António Costa é um mago na formulação de perguntas. Mais de metade ficavam respondidas se desenhasse uma simples árvore genealógica, mas tendo em conta o tanto que no seu mandato se tem dito, e legislado, sobre o que é a família, compreende-se as dificuldades acrescidas - é preciso muito raminho para pendurar pais biológicos, pais afetivos, dadores, duas mães, dois pais, sem contar com a fraternidade adquirida. Mas o que fazer então para responder ao repto do senhor Presidente, criando uma lei em tempo útil?

Pela minha parte, atrevo-me a propor uma adaptação do sistema da Carta por Pontos. Receberíamos todos 12 pontos no cartão de cidadão, que iriam sendo subtraídos por cada contraordenação grave, muito grave, ou crime de nepotismo. Podíamos também ganhá-los, porque estas coisas querem-se pedagógicas. Objetivamente, ficaria assim apenas por definir as infrações que devem ser incluídas em cada categoria. Deixo-vos a minha proposta:

Crime de nepotismo, retirada de 6 (seis) pontos:

Namorados e Amantes - Ninguém dúvida do seu poder de influência. Esses sim, mandam mesmo. É assim desde o tempo de D. Teresa e de D. Afonso Henriques.

Irmãos - Não os de sangue, coitados, que esses toda a gente sabe que só dá vontade de fazer o contrário do que nos pedem. Refiro-me aos outros, aos da Maçonaria e das demais irmandades. Desportivas, inclusive.

Colaços - Porque se acreditava que o leite conferia os mesmos laço do que os do sangue, os filhos das amas dos príncipes recebiam privilégios acrescidos. Se substituirmos copos de leite, por copos de três, percebemos até onde pode chegar o nepotismo.

Contraordenações muito graves, retirada de 5 (cinco) pontos

Ex-mulheres/maridos - A história recente não deixa dúvidas de que são elos de parentesco muito perigosos. Segundo a tese do MP, foram as Ex as principais colaboradoras do eng. Sócrates ou do juiz Rangel. Só para citar dois casos.

Primos - É um dos parentescos com fronteiras mais difíceis de traçar, como diz António Costa, já que tal como nas bebidas alcoólicas, também aqui há graus para todos os gostos. Proponho que tirem mais pontos os que partilharam a adolescência, e podem fazer chantagem com as histórias mais comprometedoras.

Contraordenações Graves, retirada de 3 (três) pontos

Tios - Suspeito que Marcelo Rebelo de Sousa se esqueceu de ponderar o risco desta ligação familiar: o próprio é "tio" dos meninos que frequentam a praia do Guincho, comem gelados no Santini, ou vão às Jornadas da Juventude. Um sarilho que pode impedir milhares de portugueses de ascender a qualquer lugar de poder.

Como Ganhar Pontos

Tal como na Carta, também este sistema prevê a possibilidade de arrecadar pontos. Devem ser atribuídos 3 (três) pontos aqueles que nomearem os respetivos cônjuges, padrastos, cunhados e enteados, porque é óbvio que não têm influência nenhuma. No caso da nomeação da sogra, volta-se à casa da partida, recebendo os 12 (doze) pontos iniciais.

Se não gostarem desta sugestão podemos sempre recorrer ao Código de Conduta ou ao Código Penal. O MP entra por um Conselho de Ministros alargado e pergunta aos presentes se foram favorecidos por algum pagamento da renda da casa, se alguém ali presente lhes ofereceu anéis, viagens ou carros, e fica o assunto arrumado. Mas eu prefiro o nepotismo por pontos. Acho mais justo. E é novo, que é o que interessa.»

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11.4.19

Brumas com uma dúzia de anos



À dúzia não é mais barato, já que tudo isto foi sempre de borla, mas a verdade é que este blogue anda por aí há 12 anos. E eu com ele, todos os dias, aquém e além fronteiras pelos cinco continentes, só o tendo deixado parado quando longuíssimas viagens de avião o deixaram no porão, ou em países em que blogar é mal amado: se bem me lembro, apenas na Birmânia e na parte da China que ainda julga que é um país com dois sistemas.

Repositório de memórias, de efemérides e de simples textos ligados à espuma dos anos, ainda não é desta que o largo – vai avançando de braço dado com o Facebook, o amigo leal que traz muitos dos que aqui aterram, mas que também alimenta com o que se passa por lá.

Este é o 15 679º post aqui publicado. A todos os que o lerem muito obrigada. Com esta música.



La nave va!
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11.04.1964 – A Cooperativa PRAGMA


Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.

É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou-se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.

A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em 11 de Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.

Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).

Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu-se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.

Mais detalhes aqui.
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Pós-Brexit?


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Este País não é para Doutores



«Somos um País com idiossincrasias engraçadas, e esta é uma delas.

Todos querem ser licenciados em alguma coisa, para acederem ao vocativo social do doutor, engenheiro ou afim, que depois usam e convidam os outros a usar como se fizesse parte do seu nome próprio ou coisa que o valha. Ser licenciado é tão importante, que a classe política, especialmente ela, não hesita em tomar atalhos para aceder ao almejado título. Equivalências, cursos sem rigor de avaliação, expedientes vários. Vale tudo, porque vale muito ser licenciado.

Mas também somos o País que despreza os doutores em sentido próprio – isto é, quem tem um doutoramento. Isto não tem uma boa explicação, é da natureza das idiossincrasias, é como é.

Dados publicados por estes dias não enganam. Produzimos Doutores, mas esses Doutores ficam fechados nas Universidades e Politécnicos ou no sistema de investigação da precariedade e do baixo salário. Temos Doutores a produzir licenciados, mestres e mais Doutores e pouco mais.

Estou bastante à vontade para ser crítico disto porque, sendo doutorado, sou professor universitário. Mas, fruto de uma vida de opções errantes, também sou quadro da administração pública e já fui gestor de empresas. E tenho três ou quatro coisas para dizer.

Primeiro, o problema não está só nas empresas que se recusam a ver o valor de um doutorado – já lá vamos – o problema começa no Estado. Não são só as empresas. O Estado, para lá do sistema universitário e politécnico de investigação e ensino também emprega uma quantidade muito pequena de doutorados. Ainda menos que as empresas. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço?

Se o Estado, que é a maior organização de recursos do País não internaliza o valor que a contratação de doutorados lhe pode trazer na sua política de contratações, podemos esperar que as PME’s o façam? Noutros Países da Europa a Administração Pública emprega, fora do sistema do Ensino Superior e Investigação, como quadros, 10 ou 20% dos Doutorados. Em Portugal, menos de 4%. É poucochinho e alguém devia olhar para isto. A caridade começa em casa e um bom exemplo vale mil proclamações políticas.

Segundo, nas empresas, onde normalmente se coloca o foco, a situação é igualmente confrangedora. Apenas um pouco mais de 4% dos doutorados é absorvido pelas unidades produtivas privadas. Uma economia de baixos salários, empresários apostados na renda confortável da pouca concorrência e no uso de capitais alheios associados à falta de escala nas empresas – temos poucas grandes empresas, e mesmo essas, muitas vezes em sectores de mão de obra intensiva, que convidam a procurar quantidade e não qualidade – são fatores importantes, mas não serão o único.

Terceiro, num País onde um doutorado é visto como uma espécie de cientista maluco, capaz apenas de pensamento abstrato e hermético, com zero sentido prático da vida e pouco dado a visão de negócio o preconceito impera. Talvez isso explique porque é que em muitas empresas, doutorados, nem com 50% de desconto.

Sim, porque há programas de apoio a estas contratações, abertos neste momento, em que são elegíveis os custos salariais com a contratação de doutorados até ao montante de 3.209,67 euros/ mês, e além do salário base, são elegíveis os respetivos encargos sociais obrigatórios, nomeadamente as despesas com a segurança social e o seguro de acidentes de trabalho. O Estado, durante 3 anos, paga. Não é coisa pouca. De pouco serviu. O preconceito tem falado mais alto.

Quarto, os doutorados, por sua vez, se calhar também não estão muito motivados para ir para as empresas. Ir para as empresas, diga-se, é muito menos cómodo que ficar na Academia, onde até podemos não ser muito valorizados, mas ao menos estamos com a nossa tribo, que nos compreende.

Como se quebra esta quadratura que rouba ao País parte do retorno económico que este investimento em qualificação deveria trazer?

Há bons exemplos – desde logo os Laboratórios Colaborativos juntam debaixo do mesmo teto empresas e unidades de investigação – mas não será uma medida única que irá resolver isto. É preciso abrir várias frentes e explorar diferentes abordagens. Em suma, é preciso mudar mentalidades, e isso demora.

Dá-se, de forma inoportuna, o caso de que tempo é o que não temos. A transformação do trabalho está aí e ou estamos na vanguarda, ou estamos condenados. A capacidade de integrar doutorados nas empresas e nas organizações vai fazer a diferença entre a vida e a morte de muitos modelos de funcionamento. Somos demasiado pequenos para desperdiçarmos recursos. Estou tão preocupado com isto que estou no Colabor, onde se juntaram empresas, centros de investigação e organizações da área social, com apoio do Estado, para em conjunto e sem preconceitos pensarmos como nos adaptamos a tudo isto. E já começámos.»

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10.4.19

Ele nunca se engana e raramente tem dúvidas


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10.04.1924 - Sebastião da Gama



O nome de Sebastião da Gama nunca terá dito muito a alguns, outros tê-lo-ão já esquecido, mas a verdade é que faria hoje 95 anos. Morreu novíssimo, com 27, não cheguei a encontrá-lo, apenas conheci a sua viúva, minha homónima, alguns anos mais tarde.

Deixou pegadas pela Arrábida, terra de eleição de algumas das minhas férias e  habituei-me a lidar com a saudade a que alguns, muito próximos dele e de mim, jamais se habituaram. Uma dessas pessoas – Maria de Lourdes Belchior – escreveu um longo prefácio para Campo Aberto e deu-me um exemplar, que tenho aqui à minha frente, com dedicatória: Natal de 1962... E, dela, sou eu que tenho saudades.

Um poema de Cabo da Boa Esperança.

Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!…

E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam! 
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Donos de Portugal




Vale muito a pena ver a versão completa do documentário:


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O regresso do velho fantasma da privatização da Caixa



«Numa entrevista desta segunda-feira ao “Eco”, Rui Rio terá deixado uma mensagem críptica que, segundo o jornal, terá sido: “sou favorável a que a CGD mantenha uma maioria pública de capital, mas estou aberto à abertura de critérios de gestão privados.” A coisa caiu no silêncio profundo que seria de esperar, dado que aparentemente não se refere a qualquer família em especial.

Lida com cuidado, a segunda parte da frase não tem qualquer significado: a CGD é gerida como qualquer banco, logo com os tais “critérios de gestão privados”, ou seja, concede crédito e escolhe operações financeiras segundo a regra da rentabilidade e da gestão de risco que faz parte do negócio bancário normal. Portanto, nada no seu regime de propriedade altera essa norma de gestão, para o melhor e para o pior. Então, o que importa é a ideia, essa também antiga, de uma “maioria pública da capital”, que é a forma mal amanhada de sugerir uma “minoria privada de capital”. Tudo mansinho, como aliás ocorreu no passado com as privatizações, nunca começaram pela declaração de uma vontade de alienação completa e, no entanto, foi sempre aí que terminou o processo.

Quem lê estas linhas, gente avisada, bem se lembrará de que existe uma espécie de latência no PSD sobre a privatização da Caixa, com recaídas de quando em vez: na época mais recente, a proposta surgiu num livro de Passos Coelho, então ainda candidato à liderança do PSD, depois houve algum ensaio na preparação do programa do Governo, até que os outros bancos ou alguém acima deles se colocou no caminho. O facto é que os acordos com a troika não incluíram a CGD-banco na lista das privatizáveis, mas não pouparam a CGD-seguros, que representava um terço do mercado e a mais poderosa das seguradoras, a Fidelidade.

Houve depois um abanão com os dois processos de recapitalização, em 2012 e em 2016-17, obrigando mais uma vez o banco a ceder parte do seu negócio a concorrentes no estrangeiro, ou garantindo-lhes uma generosa renda por aplicações de capital. Que agora, em vésperas de eleições, venha Rio sugerir, sem chegar a propor, uma entrada de privados no capital da CGD, tudo como se fosse um simples ajustamento de carteira, pode ter mais que ver com a necessidade de disparar em todas as direções do que com um programa coerente.

Em todo o caso, coerência não tem nenhuma. Todas as privatizações e vendas de ativos na banca portuguesa ajudaram a destruir os centros de capital nacional, e levaram o BCP, o BPI e o Novo Banco para as mãos de interesses angolanos, catalães e norte-americanos, sendo nuns casos concorrentes diretos e noutros aventureiros avulsos. Ter a Caixa nas mãos do Estado é a única garantia de um sistema de crédito gerido em Portugal, no mínimo.

Bem sei que, no dia em que nos bater à porta a próxima vaga de austeridade, os credores exigirão parte da Caixa. Talvez devêssemos então olhar para este tipo estranho de família que, do PSD aos agentes financeiros, está tão interessada em ir banalizando a ideia de que lhe cabe ficar com uma parte do maior banco português. Água mole em pedra dura, esta velha ideia vem por vagas, testa o terreno, explora a desatenção, procura os elos fracos, vai tentando os dirigentes do PSD, cola-se aos liberais. O seu argumento é tremendo, revelador e evidente: o privado gere melhor a banca. Como se tem visto, não tem?»

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O Grito


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9.4.19

Eleições na Índia – para além do imaginável



Um milhão de assembleias eleitorais, eleições em sete fases, entre 11 de Abril e 19 de Maio, mais de 2.000 partidos, taxa de analfabetismo de 64,8%.

(Expresso diário, 09.04.2019)
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09.04.1974 – Quase no fim da ditadura, a última acção armada



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.
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Parlamento Europeu, Salvini and friends




«"Estamos a ampliar a comunidade, a família. Estamos a trabalhar para um novo sonho europeu", disse Matteo Salvini, líder da Liga e vice-primeiro-ministro do governo de coligação italiano. (…)

O objetivo é ser "o grupo mais importante no Parlamento Europeu", insistiu Salvini, referindo que Milão vai ser palco, a 18 de maio, de um grande comício europeu de partidos nacionalistas. (…)

Os vários partidos nacionalistas estão de acordo em questões como o euroceticismo e a hostilidade ao Islão politico ou ao multiculturalismo, mas divergem noutros aspetos, como a economia, em que por exemplo a AfD defende a economia de mercado e a RN o protecionismo, ou a política externa, em que os elogios de Salvini e Le Pen ao presidente russo, Vladimir Putin, desagradam aos nacionalistas polacos e finlandeses.»
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EDP, a viúva-negra



«Ainda não foi votado nem sujeito a alterações, mas o relatório preliminar elaborado pelo deputado do Bloco de Esquerda Jorge Costa evidencia que, nos últimos anos, os consumidores andaram a pagar muito mais pela eletricidade do que aquilo que deviam. Nem vou falar aqui que a EDP foi beneficiada porque, tal como na Caixa Geral de Depósitos, a elétrica foi usada e usou dos vários governos que permitiram as tais rendas excessivas que o relatório do inquérito parlamentar parece apontar. Para já, há uma premissa importante: os factos que o inquérito analisa são referentes a uma empresa semipública em que os governos tinham, não só uma influência política, como também o peso acionista de quem mandava. Ou seja, quem esteve à frente dos executivos poderia decidir o que entendia sobre a política energética e, acima de tudo, definir o que a EDP deveria fazer. O problema aqui é que, quem transferiu dívidas dos consumidores para o sistema tarifário, foram os próprios governos, principalmente os liderados por José Sócrates e Passos Coelho, que utilizaram a empresa para tapar buracos das contas públicas: ou através dos lucros da empresa ou da sua privatização. António Mexia, até ver ou ser provado, apenas fez o que os acionistas pediam. Como presidente-executivo entregou resultados. Muito elogiado na altura, muito criticado agora. Terá a EDP influenciado as políticas governativas de forma a que a empresa e os seus gestores fossem beneficiados? Será uma resposta a ser dada pelos tribunais. O relatório preliminar faz várias recomendações, entre as quais que a empresa, completamente privada, faça o ressarcimento de alguns ganhos que os contratos e as leis na altura permitiram. E são às centenas de milhões de euros. Desde os famosos CMEC, às tarifas das eólicas ou à extensão do domínio hídrico. Tal como o Governo de Passos Coelho "alindou a noiva" para a sua venda aos chineses, quer-se agora tornar a noiva uma viúva-negra.»

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8.4.19

08.04.1929 - Jacques Brel: seriam 90



É um ritual a que regresso todos os anos: recordar que Jacques Brel seria hoje um velho se não tivesse adormecido demasiado cedo: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps» – disse ele



Um dos meus monstros mais do que sagrados, com um registo especial: tive a sorte de o ver e ouvir, em pessoa, era ele jovem e eu muito mais ainda... Em Lovaina, na Bélgica, num espectáculo extraordinário a que se seguiu, já na rua, uma cena de pancadaria entre valões e flamengos, com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada. Tudo porque Brel, em terra de flamengos, insistiu em cantar um dos seus êxitos – Les Flamandes – onde uma parte das suas compatriotas não é muito bem tratada. Ele era assim.




Algumas das minhas preferidas:







E a inevitável:


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Até os pandas chineses já vêm ajudar a Europa!



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Poderá o Brexit ajudar-nos a compreender a Europa?



«O Brexit é uma versão local da conjuntura pós-liberal da Europa contemporânea. O Brexit demonstrou a desilusão com a classe política dominante, a ascensão de valores alternativos e o caos causado por uma rutura com o passado sem a apresentação de alternativas claras. Essa rutura é dramática e as suas implicações são profundas. Portanto, não é exagero dizer que estamos a viver tempos revolucionários ou contrarrevolucionários. O Brexit pode parecer um caso especial, mas a Polónia, a Holanda, a Áustria, a Dinamarca, a França e a Itália têm as suas próprias experiências turbulentas, com a Alemanha a ser lentamente contagiada com o vírus iliberal dos seus vizinhos. Um Brexit mal gerido piorará a situação, não apenas em termos económicos, mas também em termos de democracia e cultura política.

Três lições universais

Primeira, e mais óbvia, o Brexit é um caso típico de rebelião dos eleitores contra os políticos de centro-direita e de centro-esquerda que estiveram no comando dos seus governos nas últimas três décadas ou mais. Os eleitores já não estão dispostos a aceitar partidos oligárquicos e decisões tomadas por órgãos não eleitos. Eles fartaram-se de políticas migratórias e externas ineficientes a criarem inimigos e a incubarem terroristas. Eles estão cansados de estradas, hospitais e escolas que não funcionam. Cada nova eleição mostra a mesma tendência - a velha guarda está a ser castigada e os recém-chegados estão a ser recompensados. Este último grupo inclui não só os xenófobos, mas também os partidos Verdes ou várias entidades novas e não identificadas, como o Partido da Primavera na Polónia ou o Fórum para a Democracia na Holanda.

Segunda, o Brexit mostra que a contrarrevolução não é apenas uma mudança de guarda, é também uma mudança de mentalidade. A luta é sobre a noção do que é uma boa sociedade. Sob fogo estão os pilares normativos da ordem liberal: o pluralismo político e a tolerância cultural, os direitos das minorias e a sociedade multicultural, as fronteiras abertas e a soberania compartilhada. A União Europeia está sob fogo não só devido à sua rigidez e défice democrático, os críticos veem a UE como um veículo que dissemina valores "estrangeiros" que destroem as tradições nacionais e religiosas dos países. Eles argumentam que a solidariedade económica requer fortes laços culturais e que estes estão a ser diluídos pelo projeto de integração. Eles acreditam que qualquer redistribuição significativa e justa é inconcebível numa Europa com fronteiras abertas.

Terceira, o Brexit mostra que quebrar o "consenso" liberal leva ao caos, pelo menos a curto e médio prazos. Isso porque as soluções pragmáticas não são adequadas para resolver conflitos identitários e ideológicos. O liberalismo forneceu a "bíblia" abrangente sobre o que é bom ou mau numa sociedade, não apenas um manual para vencer eleições e ganhar dinheiro. Os iliberais desafiaram as verdades liberais, sugerindo uma nova interpretação do que é racional e normal. O Brexit não é apenas sobre regras comerciais, é sobre a definição do que é britânico e europeu. Os defensores radicais quer da permanência quer da saída acreditam genuinamente que estão certos, e nenhum lado quer ser condenado a passar à história política. Conflitos identitários e ideológicos fundamentais semelhantes estão a acontecer noutros países, sem soluções práticas à vista.

O histórico Conselho Europeu

Nesta quarta-feira, os políticos da Europa terão que tomar decisões com enormes implicações. Aqueles que se vão sentar no Conselho Europeu de 10 de abril devem evitar os erros cometidos pelos seus colegas britânicos. Primeiro, os membros do Conselho não devem tomar o povo como garantido. No Reino Unido, os defensores da permanência convocaram o referendo do Brexit porque achavam que a população estava do lado deles. Os partidários da saída estão a cometer o mesmo erro agora, assumindo que a população continuará a segui-los quando o Brexit começar a esvaziar-lhe os bolsos e a complicar a sua vida pessoal e profissional. As pessoas de ambos os lados do Canal da Mancha têm pouca confiança nos seus líderes e estão divididas nas grandes questões. Quando as coisas aquecerem, poucos políticos europeus poderão contar com um apoio popular esmagador. O radicalismo estará em voga.

Em segundo lugar, os membros do Conselho devem estar cientes da fragilidade da nossa democracia. No Reino Unido, o referendo do Brexit não resolveu as divisões políticas, e o esforço do parlamento para definir a "vontade do povo" terminou em desordem. As decisões tomadas no Conselho Europeu têm uma legitimidade democrática duvidosa e muitos membros do Conselho terão dificuldades em vender os custos do Brexit às suas empresas e aos seus cidadãos.

Em terceiro lugar, a noção de interesses nacionais e europeus é confusa neste momento. No Reino Unido, assistimos a interpretações totalmente opostas de interesse nacional, levando a um impasse. Do outro lado do Canal, os políticos tentam fundir interesses nacionais e europeus com respostas populares diversas. Os candidatos liberais e iliberais têm não só visões diferentes desses interesses, como também visões diferentes de si mesmos.

Em quarto lugar, embora o Brexit seja de facto uma manifestação de um conflito ideológico, a assinatura do acordo de retirada nos próximos dias resolverá pouco da luta em curso sobre a noção do que é uma boa sociedade. Aqueles que vão tomar a decisão a 10 de abril devem ter em mente que estamos apenas no começo do longo e doloroso processo de redesenhar a Europa em termos institucionais, económicos e culturais. A ideia conservadora ou a esperança de que o Brexit permitirá que a Europa mantenha as coisas como estão é uma ilusão perigosa.

Duas visões duvidosas

O problema com a visão liberal da Europa não está relacionado principalmente com os seus valores. Não há nada de errado com uma Europa de fronteiras abertas, tolerância cultural e liberdades individuais. No entanto, esses valores têm sido seguidos de forma opaca nos últimos anos. A abertura, a tolerância e a liberdade beneficiaram as pessoas com dinheiro e acesso informal, deixando grandes camadas da sociedade ignoradas e desfavorecidas. As intervenções militares ilegais e o tratamento desumano dos migrantes ridicularizaram os proclamados valores liberais. Os políticos associados a tais políticas nas últimas décadas dificilmente podem afirmar ser os guardiões da decência, da civilidade e da justiça.

O problema com a visão iliberal da Europa não está relacionado principalmente com a sua legitimidade. A crítica do reinado liberal é justa e os recém-chegados à política não são responsáveis por pressões migratórias, famílias divididas ou instituições europeias disfuncionais. No entanto, as soluções oferecidas para lidar com a "confusão" herdada dos liberais não parecem adequadas. Perseguir ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo não ajudará a lidar com a migração. Atacar os direitos de género e LGBT não fortalecerão as famílias da Europa. Sair da UE não nos tornará ricos, seguros e soberanos.

A única maneira de sobreviver ao tumulto em curso é ouvir e conversar uns com os outros. Isto deve ser praticado diariamente pelos cidadãos comuns. As autoridades europeias e os políticos nacionais não vão resolver as coisas por nós. A Europa está a bater à porta das nossas casas. Chegou a hora de nos levantarmos dos nossos sofás. Esta é provavelmente a lição mais importante do Brexit.»

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7.4.19

07.04.1893 - Almada Negreiros



Almada Negreiros  nesceu em S.Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893.




O Manifesto anti-Dantas, por Mário Viegas:



Vale a pena ouvir um excerto da entrevista que Almada Negreiros concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969 (ano anterior ao da sua morte):


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Lula está preso há um ano



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Uma presença silenciosa



«Ao contrário do que muitos julgam, Al Jolson não foi o primeiro branco a pintar-se de preto para fazer de negro. Desde 1830 - ou seja, muito antes do sonoro The Jazz Singer -, as companhias teatrais itinerantes da América tinham por hábito usar cortiça queimada ou carvão para tisnar a pele dos actores nas representações de episódios da escravatura. A prática prolongou-se no século XX, com Al Jolson mas não só: Fred Astaire, Mickey Rooney, Judy Garland, todos sofreram na tela uma imersão de negrume.

Também entre nós, por bandas de 1875, o actor Nunes, vindo dos Açores, actuava em espectáculos populares na Feira de Belém todo pintado de preto, com uma malha justa colada ao corpo, caracterizado de selvagem africano nu, cantando o tango O Africano, que dizia: "Nasci em Loanda / Bento me chamo / Como azeviche / Preto nasci." Sucede que o actor Nunes, ao que consta, era pessoa de pouco aprumo (e, pelos vistos, nenhum banho), homem de tal forma desleixado que se deitava na cama sem mudar de trajo, e adormecia envolto na sua malha de negro. A malha, claro, começou a abrir buracos e o Nunes, por preguiça, ia pintando com tinta preta as marcas de pele branca que emergiam aqui e acolá. O espectáculo foi um sucesso, permanecendo em cena dois meses. No final, quando o Nunes tirou as ceroulas e a camisola, tinha o corpo todo pintalgado de preto. "Parecia um tigre!", clamou o dramaturgo Sousa Bastos.

Séculos antes do actor Nunes, também Gil Vicente fizera um negro entrar em cena na comédia Frágua de Amor, representada em 1524 por ocasião da boda de D. João III. Cativo de um escrivão, a máxima aspiração do negro era tornar-se branco, "branco como ovo de galinha". Os deuses concretizaram-lhe o desejo, e o negro tornou-se branco, branco no corpo mas não na fala, que continuava a ser "língua de preto". Não era já a cor da sua pele mas essa diferença cultural - ou linguística, se quiserem - que o apartava do mundo dos brancos. E o negro, perdido entre dois universos, menosprezado pelos brancos, receando ser rejeitado pelos da sua etnia, acabou por querer regressar à tez de origem. A cor da pele mudara, os preconceitos não.

Eis um exemplo literário, entre tantos outros, da presença dos africanos na sociedade portuguesa, quase tão velha como a fundação da nacionalidade. Foram por certo muitos, mas ao certo não sabemos quantos. E sempre tiveram entre nós uma "presença silenciosa", nas palavras de José Ramos Tinhorão, autor de Os Negros em Portugal, livro reeditado há pouco, das raras obras que se debruçam sobre essa realidade histórica (o que, por si só, é bem elucidativo do silenciamento e do esquecimento a que tem sido votada a presença dos negros no nosso país). Não se sabe quantos foram, mas foram decerto aos milhares, talvez mesmo milhões. Escrevendo a partir de Évora, em Março de 1535, o flamengo Nicolau Clenardo dizia em carta a um amigo, teólogo em Lovaina, que "os escravos pululam por toda a parte". E acrescentava: "Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou em crer que em Lisboa os escravos e as escravas são mais do que os portugueses livres de condição. Dificilmente se encontrará uma casa onde não haja pelo menos uma escrava destas. É ela que vai comprar as coisas necessárias, que lava a roupa, varre a casa, acarreta a água, faz os despejos à hora conveniente: numa palavra, é uma escrava, não se distinguindo duma besta de carga senão pela figura."