15.4.20

Confinamento em tempos de Páscoa


«Estamos a viver o nosso segundo confinamento e, digo-vos, não sabemos qual deles será pior. Porque o confinamento prisional, não sendo voluntário, foi determinado pelo sentido de vida que escolhemos, pela nossa opção ideológica, porque tínhamos um inimigo à vista, que sabíamos quem era e contra o qual lutávamos.»

«Vem isto a propósito da nossa Páscoa, minha e de minha mulher, de há 55 anos. Estávamos ambos confinados, mas no sentido absoluto do termo, obrigados a ficar em determinado sítio, o Forte de Caxias, não podendo daí sair. Ali ficámos até meados de Agosto. Eu, depois de ter passado cinquenta e tal dias no total isolamento dos curros do Aljube, fui parar, juntamente com outros camaradas, a uma sala do rés-do-chão, ela e outras companheiras, a uma outra no 1.º andar. Não me lembro, nem ela, de qualquer comemoração alusiva à época. (…)

E, agora, neste confinamento absurdo, já mais perto dos oitenta, não conseguimos encontrar sentido que nos faça crer no futuro, mesmo que curto, ao aproximarmo-nos do túnel final. Porque fomos obrigados a abdicar daquilo que criámos ao longo das nossas vidas, das filhas e dos netos, afastados do resto da família e dos nossos amigos. Porque ficámos sozinhos, mas não abandonados, numa solidão que nenhum dos modernos meios de comunicação consegue colmatar. Porque a nossa vida sofreu uma profunda alteração, sem que ainda tenhamos encontrado o seu novo ordenamento, nem sequer conseguimos vislumbrar qual será.»

Artur Pinto
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