3.4.21

E quanto ao Autotestes…

 



O problema deve ser meu, mas esta crença de que os cidadãos vão precipitar-se a preencher voluntariamente formulários (que ainda nem existem…) lembra-me a malfadada aplicação Staycovid, que deus tenha em sossego.

Além disso, quem não é completamente «desinformado» sabe que no caso de alguém, mesmo assintomático, reportar um resultado positivo, tem todo um processo pela frente e não será vacinado tão cedo, mesmo que esteja quase à beira de o ser neste momento. Talvez os portugueses sejam menos parvos que se julga…

«Está previsto que os resultados dos testes realizados pelos cidadãos em casa devem ser reportados através de formulários electrónicos criados para o efeito ou, em alternativa, nos casos positivos ou inconclusivos, através de uma chamada para a linha SNS24. Mas apesar de os testes já terem chegado a centenas de farmácias e parafarmácias nestas quinta e sexta-feira os formulários que deviam ter sido criados ainda não estão disponíveis no site https://covid19.min-saude.pt.»
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Salazar? Não resisto

 

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Tempo de missas - saia esta

 


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Uma vitamina por conceber

 


«Quando os meios de comunicação social anunciaram que os habitantes da longínqua cidade de Wuhan, na China, haviam sido atacados por um vírus, tomei conhecimento da notícia, com indiferença, em Goa, longe de imaginar que rapidamente iria transformar-se em pandemia.

Soado o alarme na Índia, na Europa, na América e no mundo inteiro, os sinos tocaram a rebate e as pessoas despertaram para o perigo real que a Covid-19 representava para a humanidade.

Com a conjugação de esforços dos cientistas e utilização de alta tecnologia, sem se olhar para os custos económicos, os laboratórios aceleraram o processo da descoberta de vacinas contra o corona vírus, fazendo surgir, recentemente, uma luz ao fundo do túnel com a anunciada possibilidade de elas poderem ser produzidas e distribuídas com brevidade.

Aguardada com ansiedade, a partir do início da vacinação e apesar de estar a ser processada em escala reduzida, muitos inconscientes e irresponsáveis do mundo inteiro comportam-se como se o problema já tivesse sido solucionado, relaxam na conduta preventiva, desrespeitam o confinamento, menosprezam as consequências extremamente gravosas que daí estão a resultar, esquecendo-se que o problema é de todos nós e não são os hospitais que poderão resolvê-lo se não tiverem a colaboração efectiva de toda a humanidade.

O mundo, por sua vez, respirou de alívio e a esperança iluminou os olhares apreensivos, como se a imunização com a vacina pudesse resolver as questões mais prementes do planeta que habitamos.


2.4.21

02.04.1976 – CRP

 


Estado actual da arte: 45 anos, 14 Estados de Emergência e uma norma travão.
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Carlos Moedas

 


Eng. Carlos Moedas, quem lhe disse o que eu imagino para Lisboa?

Não o trato por tu, já que não conheço de parte alguma. Mas, para seu bem e porque hoje é sexta feira santa, sempre lhe digo que cartazes destes não o levarão longe – continue assim…
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Crise? Que crise?

 


«Ao desafiar o Presidente da República e a Assembleia da República com o envio de três leis que alargavam os apoios sociais ao Tribunal Constitucional, o primeiro-ministro abriu uma página nova na política recente. Pode admitir-se que esse passo tornará mais frágil uma estabilidade já de si precária; pode considerar-se que o confronto é insólito numa governação alicerçada na arte dos expedientes, na imaginação de soluções imprevistas, nos acordos de última hora e, obviamente, na criação de mitos como o famoso “virar da página da austeridade”. Mas estamos ainda longe de poder falar numa crise política grave. O que tem de ser tem muita força e nem o Presidente, nem o PS, nem as oposições desejam moções de censura, chumbos de orçamentos ou eleições antecipadas. O que sobra então deste incidente?

Ao exigir, e bem, o cumprimento estrito das normas constitucionais, António Costa recusou apoiar um precedente, mas abriu outro. Daqui para a frente, o Governo deixa de ter moral para adiar meses a fio a aprovação da Lei de Enquadramento Orçamental. Deixa de ter legitimidade para torpedear a Lei do Orçamento do Estado com cativações. Deixa de ter margem para ludíbrios como o da lei das 35 horas na função pública prometida e anunciada como não tendo custos para o erário. Se tudo for levado à letra, a oposição deixará de ter margem para tentar governar por leis da sua iniciativa e o Presidente razões para defender a estabilidade, a negociação e o compromisso a qualquer custo.

Para nosso infortúnio, porém, nada garante que essa maior transparência, exigência, escrutínio ou equilíbrio de poderes seja possível. Ninguém está interessado nisso. Porque a política em democracia não se faz com fórmulas matemáticas, ainda mais quando no poder está um Governo minoritário. Sem improviso e navegação à vista o Governo tem os dias contados. A “geringonça” foi o que foi e é o que é porque está na sua natureza ser incapaz de andar em linha recta. Se a forçarem a esse objectivo, cai. E se há um pavor no país e na classe política é que o Governo caia.

É por isso que o incidente desta semana significa muito, mas vale pouco. A crise vai agravar-se nas palavras ou na encenação. Mas, com a pandemia em curso, o plano de recuperação à porta, a fraqueza das oposições e o desejo profundo de Marcelo em ser o Presidente-rei que dá coerência ao modelo, o Governo está para durar, cambaleando ou não. Como terá perguntado o primeiro-ministro Jim Callaghan no auge do “Inverno do descontentamento” britânico de 1979, que abriu as portas ao poder a Margaret Thatcher: “Crise? Que crise?”»

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1.4.21

Última Ceia

 


O Zoom não funcionou.
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25 anos sem Mário Viegas

 


Mário Viegas nasceu em 1948 e morreu, muito novo, em 1 de Abril de 1996.

Ver AQUI, num post de 2019, mais informação e vídeos de Manifesto Anti-Dantas, Manifesto Anti-Cavaco e A nêspera, claro.
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Para mais tarde recordar

 

31.03.2021

E aguardo o desfecho do que está em causa com interesse e curiosidade.
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Presos até quando?

 


«Há umas semanas, perguntei no Twitter por que razão os residentes dos lares de terceira idade, mesmo depois de vacinados com as duas doses, continuavam sem poder abraçar os seus familiares. Qual o motivo para a distância higiénica imposta, além de várias outras restrições? A resposta foi rápida. A vacina protegia os velhos, mas não os impedia de contaminar as visitas. Nem valia a pena argumentar que isso era problema da visita, imediatamente respondiam que se tratava de um problema de saúde pública e não individual. Ou seja, fechámos os velhos nos lares para os proteger. Agora, mantemo-los fechados para nos protegermos deles. A inversão moral, que penaliza os mais frágeis da nossa sociedade, não parece incomodar ninguém.

Até ao momento, as vacinas da covid demonstraram ter 100% de eficácia contra casos graves. O medo propagado por tantos de que a vacina não protege contra a infeção e, consequentemente, contra o contágio não tem sustentação a não ser a paranoia de se estar sempre a pensar em tudo o que pode correr mal. Perante estes dados, é simplesmente incompreensível que a política de visitas aos residentes nos lares de terceira idade esteja, no essencial, igual ao que era há um ano.

Muito corretamente, a prioridade na vacinação foi para os lares. Neste momento, todas as pessoas que vivem ou trabalham em lares já terão sido vacinadas com duas doses. Isso quer dizer que é seguro fazer visitas. Não só não há qualquer perigo de provocar um surto seguido de mortandade num lar — a vacina tem 100% de eficácia contra casos graves, vale a pena relembrar —, como as possibilidades de as visitas serem contagiadas pelos velhos são também diminutas. As vacinas de RNA, que foram as aplicadas nos lares, mostram ter uma eficácia de 90% mesmo contra infeções ligeiras.

Como se justifica então que as regras se mantenham? Continuam as restrições à proximidade física durante as visitas e continuam as proibições relativamente a visitas das crianças. Nunca tendo eu concordado com todas estas restrições, ao menos entendia-as. Neste momento, já nem isso. Não percebo em nome de que princípio continuo sem poder tocar no meu pai há um ano. Não percebo por que motivo impedem o meu pai de ver as netas ao vivo, ficando relegadas para um ecrã de um telemóvel. E, felizmente, onde está, tem rede de internet razoável. Mas já se fez algum levantamento para saber quantos lares não têm condições tecnológicas para visitas virtuais? De que tenha conhecimento, não.

Em Portugal, convencionou-se que as pessoas estão em lares porque a família não quer saber delas, porque olham para os velhos como um encargo, porque a lufa-lufa diária não deixa tempo para manter o tecido familiar intacto. O que temos observado é o exato oposto. Há cerca de um ano que quem tem famílias em lares se queixa do regime draconiano imposto. Já foram denunciadas ene situações absurdas. Desde pessoas com demência que, por causa da falta de contacto com os familiares, veem a sua situação clínica agravada. Velhos que nem sequer podem sair para dar o tal passeio higiénico que parece essencial para tanta gente, ao ponto de estar previsto nos decretos-leis dos estados de emergência. Há precisamente seis meses, denunciei nesta coluna a situação de um homem em estado de demência avançado, cego e sem mobilidade que, no seu lar, deixara de receber visitas da filha. Deixou de o poder tirar do lar nos feriados e nos fins de semana. Nas suas palavras, era ela “que o mantinha vivo”.

Como é que as regras se mantêm quando estão todos vacinados? Qual é a lógica? Só há uma resposta: apesar de tantas denúncias dos familiares, a sociedade não quer saber. A resposta às denúncias nunca passa de um encolher de ombros e de uma declaração pesarosa: compreendo, mas tenho pena.

Quando, no Natal passado, os velhos foram obrigados a passar os dias festivos trancados nos lares — acompanhados por profissionais dedicados, sublinhe-se — , muitos familiares fizeram vídeos para serem mostrados na Consoada. Em muitos desses vídeos estava presente uma esperança: já há vacina. Daqui a pouco serão vacinados e poderemos voltar a abraçar-nos. Mas os meses passam e nem se fala no assunto.

Estamos em abril e discutimos o Plano de Recuperação e Resiliência. A reabertura das escolas. A vacinação dos profissionais do ensino. A testagem maciça. A constitucionalidade dos apoios sociais aprovados na Assembleia da República. Enquanto isso, os velhos nos lares estão esquecidos. Há assuntos mais importantes, como a criação de passaportes sanitários que nos permitam passar férias onde quisermos sem grandes engulhos.»

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31.3.21

Maria da Conceição (Xexão) Moita

 


Chegou a notícia, infelizmente esperada. A Xexão morreu ontem, depois de meses a deslizar para o fim, com uma tranquilidade que impressionou até os mais próximos. Com a enorme força serena que sempre teve, nos maus e nos bons momentos, como aquele em que a vimos calmamente a sorrir quando saiu de Caxias a seguir ao 25 de Abril, depois de ter sido detida e torturada pela PIDE uns meses antes.

Para mim, a morte da Xexão é o fim de uma etapa que teve início nos bancos da escola, quando éramos miúdas com 11 ou 12 anos, e que continuou pela vida fora em caminhos comuns ou paralelos, mas sempre com uma enorme cumplicidade sem quebras. É-me difícil imaginar o mundo sem ela.

Uma descrição biográfica da sua vida pode ser lida AQUI.
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31.03.1974 – As últimas palmas para Marcelo Caetano

 


Quinze dias antes tinha falhado o golpe das Caldas, três semanas mais tarde terminaria a ditadura. No dia 31 de Março de 1974, teve lugar um Sporting – Benfica que viria a ficar célebre e não só porque os visitantes venceram por 3-5.

Num texto publicado em 1978, MC comenta: «Quando o alto-falante anunciou que eu me achava no camarote principal, a assistência calculada em 80.000 espectadores como que movida por uma mola oculta, levantou-se a tributar-me quente e demorada ovação que a TV transmitiu a todo o Pais. Isso foi interpretado como repúdio por aventuras militares.»

E é verdade – confirmo eu que lá estava. Houve vaias, mas quem estava na bancada, como eu, nem as ouviu. À minha volta, só o grupo de amigos em que eu me integrava e, umas filas mais abaixo, Vasco Pulido Valente e Filomena Mónica, assistíamos, perplexos, ao entusiasmo generalizado.

Guardo a memória fotográfica desse momento e tive-o bem presente, no Largo do Carmo, no dia 25 de Abril. Estou certa de que muitos daqueles que nesse dia me rodeavam também tinham estado no estádio de Alvalade. Que tinham então aplaudido Caetano e que bateram palmas quando saiu do Carmo num blindado. As multidões gostam de vencedores, não de vencidos.


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Tenha calma, senhor Presidente

 


«“Uma verdadeira UE da saúde”, defende o Presidente da República (DN, 25/03). Se considerarmos a incapacidade demonstrada pela Comissão Europeia para gerir as várias fases da gestão da pandemia, mas sobretudo a aquisição e distribuição das vacinas, tenhamos calma. A comissária Kyriakides tinha uma palavra a dizer sobre este assunto e não o fez. Foi preciso a presidente vir justificar as trafulhices da AstraZeneca limitando-se a uma explicação que parecia um comunicado do laboratório que produz a vacina. A exigência esteve sempre ausente das negociações com os laboratórios. Este é um dos exemplos do ambiente existente na saúde europeia. E não se lhe pode chamar política de saúde porque para o efeito teria de haver escolhas e escrutínio sobre essas escolhas.

Aliás, não se percebe porque existe uma comissária para a saúde e assuntos correlativos, quando na verdade nunca se sentiu que a Comissão Europeia tivesse tido uma palavra sobre o assunto, a não ser sobre aspectos pouco mais do que correlativos. O que existe é a OMS para a Europa sediada não em Bruxelas, mas em Copenhaga, que emite recomendações técnicas sobre as melhores práticas e orientações quanto às políticas de saúde. Basta lembrar a Declaração de Alma Ata nos idos dos anos 70 e a marca que deixou na política de saúde de muitos países em todo o mundo, nomeadamente em Portugal.

Acabou por ser cada país, seguindo genericamente as orientações da OMS, a resolver os problemas complexos que a pandemia veio colocar. Não admira, por isso, que praticamente em toda a parte a técnica da tentativa e erro tenha sido aquela que veio a ser aplicada. Uma vez que a política de saúde é multifactorial, imagine-se o que poderia vir a ser uma política de saúde europeia, em que a distribuição dos determinantes da saúde é particularmente assimétrica e as desigualdades sociais extremamente pronunciadas. Atendendo à variabilidade de desenvolvimento em que cada país se encontra, as várias europas que já existem dentro do espaço europeu iriam contar com mais um parceiro para a sua ainda maior estratificação, uma vez que a rede que conecta as várias políticas sectoriais é particularmente débil, com cada comissariado a trabalhar para o seu gabinete.

Se considerarmos o indicador que melhor traduz o estádio de bem-estar de uma população, a esperança de vida saudável, a discrepância entre os valores de cada país é particularmente significativa, traduzindo o seu nível de desenvolvimento, medido pelos determinantes sociais da saúde - grau de escolaridade, habitação, alimentação saudável, emprego, PIB per capita, rendimento disponível, mobilidade, integração social, suporte social, cobertura e acesso aos cuidados de saúde, meio ambiente, entre outros.

Segundo os últimos dados disponíveis (Eurostat, 2018), os valores extremos deste indicador são: o melhor valor, nas mulheres, encontra-se na Suécia, com 73,7 anos de esperança de vida saudável, nos homens este valor é de 73,4 anos, em Malta. Em Portugal, este valor é de 59,8 anos para as mulheres e de 57,5 anos para os homens. O pior valor, nas mulheres, encontra-se na Letónia, com 53,7 anos e 51 anos nos homens. A média europeia é de 64,2 anos, nas mulheres e 63,7 anos nos homens. Portanto o valor da amplitude de anos de vida saudáveis é de 20 anos para as mulheres (Suécia/Letónia) e de 22,4 anos para os homens (Malta/Letónia). Quanto a Portugal, a diferença para a média europeia, nas mulheres, é de 4,4 anos, e para os homens de 6,2 anos. Se tivermos como referência o melhor valor, esta diferença é de 14,1 anos, nas mulheres (Suécia/Portugal) e 15,9 anos (Malta/Portugal). Feitas as contas, no indicador mais importante de qualquer política de saúde, Portugal encontra-se nos últimos lugares dos países europeus, exigindo grandes investimentos não tanto para a esperança de vida, em que as diferenças entre o valor de Portugal (81,3 anos) e a Suécia, por exemplo (82,6 anos), ou seja, 1,3 anos, mas para a vida depois dos 65 anos, que vai sofrer o impacto da exposição a riscos evitáveis desde o nascimento.

Uma vez que a esperança de vida saudável está associada aos determinantes sociais da saúde, tomemos como exemplo o PIB per capita daqueles três países e o valor das relações entre eles. Portugal com 24.590 € do PIB per capita (2020) representa 42% do valor da Suécia (57.975 €), a Letónia (16.698 €), 29% e a Letónia representa 68% do PIB per capita português. Relativamente à média do PIB per capita da UE (37.104 €), Portugal, Suécia e Letónia representam, respectivamente, 66%, 156% e 45%. Fonte: Trading Economics, 2021.

Estes valores servem para demonstrar que o SNS tem cumprido bem o seu papel, contribuindo para que o valor da esperança de vida seja equivalente aos países europeus mais desenvolvimentos. O SNS português, mau grado os seus défices, trata bem os doentes que lhe vão bater à porta. O grande défice encontra-se naqueles aspectos que contribuem para se ter uma população mais saudável, isto é, determinantes sociais da saúde que aumentem a esperança de vida saudável. E para colmatar estes défices seriam necessários grandes investimentos, não só em Portugal, sendo duvidoso que a EU estivesse disponível a fazê-lo. Portanto, vamos devagar. Questione-se que política de saúde é mais desejável. Investir em instalações e equipamentos pesados para darem resposta à doença, ou investir na promoção da saúde e na prevenção, sem menosprezar o tratamento da doença? Se um dia vier a colocar-se na agenda política uma UE da saúde, é respondendo a esta perguntas que se deve começar. Fora deste quadro é continuar-se a expandir os recursos para tratar as doenças oncológicas, as cardiovasculares, os AVC, a diabetes, as doenças pulmonares e mais aquelas que podem ser prevenidas, mas que só se dá conta delas no gabinete médico.

Fazer uma discussão destas em cima de um vulcão em actividade, é correr o risco de no fim só haver vulcão. Comece-se pelos alicerces, se for essa a intenção. E os alicerces consistem em melhorar as condições de vida das pessoas.»

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30.3.21

E funcionava…


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Primeiro sabem-se as respostas



 

Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas inacabadas.

Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa
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A lei e o travão

 


«A criação de uma nova prestação social esteve no centro do debate entre o Bloco e o Governo na negociação do Orçamento do Estado para 2021. António Costa garantia então ter correspondido às preocupações do Bloco e prometeu uma nova prestação social para responder à violência da crise. Para o Bloco, era muito claro que as regras propostas pelo Governo iriam resultar numa redução dos apoios já existentes. Tal como explicamos na altura, essa foi uma das razões para o voto contra o Orçamento.

A realidade não demorou muito a comprovar a posição do Bloco. O novo apoio excluía tanta gente que, poucos dias depois de entrar em vigor, o Governo viu-se obrigado a repor os apoios aos trabalhadores independentes que vigoraram em 2020, tal como proposto pelo Bloco. Mas, de novo, a medida do Governo trazia um truque: em vez de assentar na perda de rendimentos face a 2019 (antes da pandemia), tomava como referência os rendimentos de 2020 (já com grandes quebras de rendimento). Resultado: o apoio aos trabalhadores independentes e sócios-gerentes ficou, para a maior parte deles, reduzido a muito pouco. O Governo corrigiu um erro com outro erro.

Perante isto, o Parlamento determinou que o Governo devia cumprir a sua promessa. A proposta do Bloco, aprovada por todos os partidos com exceção do PS, impõe o cálculo com base nas perdas face a 2019 e não a 2020. Outras propostas, também aprovadas pelo Parlamento, garantiram reconhecimento aos profissionais do SNS que trabalharam além do seu horário e o apoio aos pais em teletrabalho e assistência a filhos e dependentes. São medidas cuja importância ninguém contesta... a não ser o Governo.

O presidente da República promulgou esta semana a nova lei dos apoios, apesar da enorme pressão do Governo para que fossem vetados. O Governo foi, aliás, mais longe, ameaçando enviar as medidas para o Tribunal Constitucional. É lamentável que o PS, que no passado aceitou juntar-se aos partidos de Esquerda para recorrer ao Tribunal Constitucional contra os cortes da troika, admita agora voltar ao Palácio Ratton para travar apoios a quem mais precisa. É lamentável que alegue justificações financeiras quando deixou por gastar 7000 milhões que estavam previstos no Orçamento suplementar de 2020. É lamentável que o Governo que fechou os olhos ao esquema que permitiu à EDP fugir com 110 milhões se mostre agora implacável contra um apoio de 38 milhões de euros por mês para apoiar quem mais precisa.

Na crise, o Governo tentou impor um travão aos apoios que protegem as vítimas desta crise. Que o Parlamento tivesse derrotado esse erro é uma garantia de justiça para muitos milhares de pessoas.»

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29.3.21

Os velhos que paguem a crise

 

António Bagão Félix publicou este texto no Facebook. Claro que os professores o arrasaram em todos os murais em que foi partilhado. Os velhos que paguem a crise…

DE NOVO, OS MAIS VELHOS DISCRIMINADOS

A forma clássica de subverter uma regra é enxameá-la com excepções. Na fase 1 da vacinação contra a Covid-19, excepções não faltam. Excepções à la carte, por “engano”, por casuísmos, por repescagem, por pressão (ou medo) de grupos.

Revela um recente estudo nacional que “a idade é o factor que mais peso tem na mortalidade por Covid-19”. Os dados actuais mostram que as pessoas com 70 ou mais anos que morreram com Covid-19 são 88% do total de óbitos.

Começou, hoje e em força, a vacinação determinada pela DGS no “no âmbito da resiliência do Estado (sic!), dos docentes e não-docentes dos estabelecimentos de ensino e educação (…), de acordo com o plano logístico que será implementado (sic!)».

Citando dados oficiais do Ministério da Educação, a idade média dos docentes varia, conforme os níveis de ensino, entre 46 e 49 anos. E , de acordo com os dados oficiais da DGS reportados a ontem (26/3/2021), no grupo etário da população entre 40 e 49 anos, os óbitos registados correspondem a 0,1% dos infectados (156 mortes para 136 302 doentes), enquanto nas pessoas com mais de 80 anos, o valor é de 16,3% (11 089 óbitos para 68 009 doentes) e nas pessoas entre 70 e 79 anos, é de 6,6% (3568 óbitos para 54 405 doentes).

Como era de esperar, as televisões, no seu frenesim pavloviano, mostraram-nos mais não sei quantos braços e agulhas, desta vez de professores e outros profissionais escolares (eu já acho que conheço umas boas centenas, tantas vezes são repetidas tais cenas!).

Não questiono a necessidade da sua vacinação à frente de outros grupos, ainda que me custe a perceber qual é a intensidade do risco se comparada, por exemplo, com pessoas que exercem a função de caixa nos supermercados ou com o pessoal das farmácias.

Mas, o que de todo não compreendo é subverter a ordem prevista, à frente de muitas pessoas de idade ou com doenças associadas, nomeadamente com mais de 80 anos (e não são poucas), que ainda esperam a sua chamada.

Há menos vacinas disponíveis por um contrato “angélico” que a douta Comissão Europeia firmou com os tudo menos angélicos laboratórios? Sim, é verdade. Então, se há menos vacinas disponíveis, aumentam-se os grupos a recebê-las na fase 1? Eis, assim, em poucas palavras, este paradoxo vacinal em marcha.

Até agora dizia-se que havia falta de técnicos para vacinar e algumas insuficiências logísticas. Com o pessoal das escolas, tudo se modificou e fala-se de “vacinação em massa”. Muito bem, é de aplaudir. Então porque não antes quando se tratava apenas das pessoas mais velhas?

Enquanto os governantes e as autoridades públicas continuam a descobrir aspectos simbólicos para estarem presentes na “festarola” da vacinação (a primeira vacina aqui, a primeira vacina acolá, a vacina número x, a vacina um milhão, a vacina deste grupo ou daquele, etc.), com a companhia de câmaras sempre ávidas para filmar “picas” e dar palco político ao acontecimento, esta perversão feita de atrasos, dificuldades e ultrapassagens é de uma grande afronta para com a população mais velha e necessitada. Um despudor só possível porque os velhos não são força de pressão, não têm sindicatos temíveis, não são um alvo eleitoral (inacreditável como todos os partidos não reagem, certamente olhando utilitariamente para a força do voto de outros grupos…) e a sua morte é encarada, no plano geral, apenas como mais uma estatística anestesiante, acolitada pelo discurso da hipocrisia e pela indiferença da desmemória.

É contra este silêncio acomodatício, contra esta prática discriminatória, contra o resvalar da ética que tem na vida o seu valor supremo, que aqui me insurjo. Não aceito que os governantes e autoridades tratem, de facto, os mais velhos como papalvos ignorantes, acríticos e acomodados.

Duas notas finais:

1.Enquanto as televisões (e não só) nos dão doses inimagináveis de noticiários sobre a pandemia e nos oferecem comentários e opiniões do momento e de toda a espécie, esta situação diferenciadora é noticiada como absolutamente normal, senão mesmo virtuosa. E até se permitem, intencionalmente, ou por ignorância ou preguiça, fazer política capciosa. Dois exemplos: no nosso percurso da vacinação em que, por razões alheias, mas também por motivos próprios, há atrasos e ziguezagues, a notícia é sempre “enriquecida” com o solícito advérbio “já”. Por isso, gostam de nos informar quer “já foram vacinadas x pessoas”, como se, euforicamente, estivéssemos adiantados, em vez de rigorosamente dizerem “foram vacinadas x pessoas”.

2. Quando nos falam do desgraçado Brasil (e de outros países na Europa) induzem-nos a ideia de que, em termos comparativos, estamos bem melhor. Mas, infelizmente não é o caso. Aliás, basta fazer uma simples conta. O Brasil tem 209,5 milhões de habitantes e Portugal tem 10,28 milhões, ou seja os brasileiros correspondem a 20,4 vezes a nossa população. Como temos, à data de hoje, 16 819 óbitos, o número de mortes correspondente à dimensão populacional do Brasil seria de 16 819 x 20,4 = 343 107 pessoas. Como se constata, um valor mais elevado do que as mortes ocorridas no Brasil que são, à data também de hoje, de 307 112.
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Em nome do futuro e da decência

 


«No dia 15 passaram dez anos sobre o início da Guerra na Síria, um conflito cuja duração já ultrapassou a soma das I e II Guerras Mundiais, e que fez disparar o número de deslocações forçadas para valores que ultrapassaram os atingidos na II Guerra Mundial.

Em 2015 chegavam à Europa cerca de um milhão e meio de requerentes de asilo. As mortes no Mediterrâneo e as imagens de guerra entravam pelas nossas casas dentro à hora do telejornal.

Desde aí a Europa mostrou-se incapaz de construir uma resposta decente para o pouco que lhe é pedido. Quando comparamos aquilo que qualificamos como “crise” com o número de refugiados per capita acolhidos em países como o Líbano, a Jordânia e a Turquia, coramos de vergonha.

Falta de vontade política, falta de solidariedade com os chamados países da linha da frente, cedência e/ou temor ao apelo populista ao racismo e à xenofobia? O certo é que a partilha de responsabilidade, indispensável à construção de uma política de asilo e imigração comum, parece cada vez mais distante de ser atingida.

Desde aí, a real dimensão de chegadas tem-se desenvolvido em sentido oposto às tensões criadas relativamente ao acolhimento e integração.

Há mais de cinco anos que a Comissão Europeia e os Estados-Membros persistem em responder com paliativos orientados por uma lógica securitária, de contenção, dissuasão e externalização.

O exemplo do campo de refugiados de Moria ergue-se como o expoente máximo da vergonha e do falhanço da União Europeia.

O Novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Europeia em Setembro acabou por se reduzir à cedência aos que sempre se colocaram fora de qualquer sistema de partilha de responsabilidades, abdicando da solidariedade vinculativa substituída pela mera escolha entre a abertura ao acolhimento, através da recolocação dos refugiados entre os diferentes Estados-Membros, ou o patrocínio de processos expeditos de retorno para aqueles que não tenham direito à protecção internacional, ou seja, teremos mais do mesmo. Os países da boa vontade continuarão a acolher, os outros poderão lavar a consciência ao patrocinar o retorno de migrantes.

Ao Parlamento Europeu resta agora discutir, trabalhar, lutar para melhorar o que for possível nos diferentes instrumentos que darão corpo ao Pacto. Sim, o que for possível neste tempo avesso a grandes golpes de asa.

Procurar salvaguardar que: o processamento expedito dos pedidos de asilo não se transforme em processos sem garantias de respeito pelos Direitos Humanos; os canais legais para a imigração não se cinjam aos altamente qualificados; a cooperação com países terceiros não fique refém de lógicas securitárias de pura retenção ou externalização da política de migração e asilo, mas que obedeça à busca da estabilidade e do desenvolvimento necessários a que a imigração seja uma opção e não um caminho sem alternativa.

Talvez nesta área a pandemia sirva para nos ensinar algo. Segundo a Comissão Europeia, os imigrantes constituíram – e continuam a constituir – 13% dos trabalhadores essenciais em sectores-chave como a saúde ou a agricultura.

Caso a Europa cada vez mais envelhecida continue a desperdiçar o poder regenerador, a energia, o talento daqueles que aqui procuram uma oportunidade de vida com condições de dignidade e segurança, não ficará apenas para trás no quadro da capacidade competitiva global, como terá perdido a decência e disso jamais recuperará.»

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Faz falta a outra, não é?

 

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28.3.21

Daqui, desta Lisboa compassiva

 


Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;

daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...

Alexandre O'Neill,  atrás dos tempos vêm tempos, 1996

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É tempo de tirar as máscaras

 


«Calma. Não são essas. São aquelas que colocamos todos os dias, agarradas à pele, e que nos permitem retardar ou dissimular o confronto com a realidade, quando sabemos que o barco está em chamas há muito tempo. Nos primeiros meses de cada ano são feitas notícias, baseadas em estudos, que confirmam aquilo que uma fatia significativa da população intui sem precisar de estatísticas: que vivemos num mundo de grandes desigualdades. Talvez o problema maior do nosso tempo.

Há semanas, no relatório anual da ONG britânica Oxfam sobre desigualdade, lá vinha que o aumento da riqueza dos dez multimilionários mais ricos do mundo deste o início da pandemia seria suficiente para que ninguém caísse na pobreza, ou que seria possível comprar vacinas para as pessoas do mundo inteiro, ou ainda que bastaram nove meses para os 1000 mais ricos recuperarem o que tinham perdido, enquanto os mais carenciados poderão levar uma década a chegar ao ponto médio antes da pandemia.

Por incrível que pareça, nada de novo. É verdade que a pandemia expôs e intensificou desigualdades (de rendimentos, raciais, de género, etc.), mas os relatórios dos anos anteriores são igualmente pornográficos. No ano passado, a mesma organização, concluía que dois mil bilionários tinham mais riqueza do que 60% da população mundial. Não espanta que, nos últimos anos, quando se tenta denunciar as desigualdades estes 1% sejam evocados em oposição aos 99% restantes.

Não quero negar o papel que esses 1% terão tido nas decisões económicas no Ocidente nos últimos anos, mas reduzir a questão social a essa oposição não permite perceber o que torna possível as assimetrias. Quando muito a denúncia dos 1% oferece consolo moral, mas a verdade é que o sistema que permite que isso aconteça não poderia funcionar sem a colaboração de parte das classes médias e do grande domínio ideológico e cultural do modelo neoliberal que foi sacrificando os que não se lhe adequaram.

No início da pandemia muitos imaginaram que se poderia abrir um novo ciclo que não acarretasse um regresso ao passado — seja ele personificado por fascismos ou experiências socialistas já ensaiadas — ou continuar um ciclo neoliberal incapaz do progresso social, de cuidar do bem comum, de promover a coesão colectiva, de garantir mais igualdade e de proteger a democracia e o planeta. Um ano depois, há mais exploração, direitos retirados, falta de contacto, isolamento e mais submissão a alguns dos efeitos perversos da digitalização. Continuamos sobre ruínas, sonâmbulos, em direcção ao precipício. Interessa-nos apenas sobreviver. A diferença é que agora estamos mais extenuados, abatidos, deprimidos.

O vírus actuou como amplificador destas crises. Mas o caminho não está escrito de antemão. Há quem resista. Há quem lute e se faça ouvir cada vez mais nos últimos tempos (negros, mulheres, comunidades LGBT+, algumas camadas de trabalhadores, etc.) para lá das vozes dominantes. Há quem esteja a aprender a fazer comunidade com aqueles que nunca tiveram acesso a lugares de privilégio. Há quem aposte no afecto e na empatia. Há quem imagine novas formas de organização social que não sejam apenas baseadas no que cada um possui. Há quem não encolha os ombros, utilizando a imaginação contra medos e regressões. Há quem esteja disposto a aprender a viver na incerteza para enfrentar forças negativas.

Nas crises há pessoas que parecem perder a cabeça e outras que ficam mais lúcidas. As crises promovem os efeitos mais contrários. Esperemos que sejam as forças criativas e lúcidas, que procuram um novo caminho, que venham a impor-se, embora neste momento possam parecer um pouco fechadas na sua indignação e também muito dispersas. Seja como for, estava mais do que na hora de tirarmos a máscara social. Já nos basta aquela que agora somos obrigados a usar.»

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