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24.3.20

Dia Nacional do Estudante



Segundo a Unesco, cerca de 850 milhões de estudantes de vários níveis, que representam mais de metade dos existentes a nível mundial, estão hoje em casa e não nas suas escolas. Em Portugal, onde se comemora hoje o Dia do Estudante, o mesmo acontece.

24 de Março é, para muitos de nós, uma data inesquecível em que manda a tradição que no juntemos na Cantina Velha de Lisboa, num mais do que tradicional jantar. As inscrições estavam feitas, o espaço reservado, o jantar não acontecerá por razões óbvias. Mas 1962 não será esquecido – nunca, enquanto por cá andarmos.
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14.12.19

14.12.1962 – Uma pesada condenação de Portugal na ONU



No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insiste nas condenações da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada precisamente em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).

Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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24.3.19

24.03.1962 – Dia do Estudante



Como todos os anos, a Crise Académica de 1962 será comemorada pelos protagonistas e amigos, que ainda por cá andam, num jantar que terá lugar não hoje mas amanhã, já que a velha Cantina da Cidade Universitária está fechada ao Domingo. É um ritual a que muitos não renunciam e lá estaremos, quase 200 pelo que julgo saber.

Dos grandes festejos do cinquentenário, há sete anos, ficou para a história uma moção aprovada por todos os presentes – mais de 400 –, na qual «os jovens de 1962» declararam não poder «tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura», numa referência a uma pesada carga policial que tivera lugar dois dias antes. Recordo hoje esse texto:

MOÇÃO

Há 50 anos, a indignação perante uma carga policial sobre estudantes que pretendiam comemorar o Dia do Estudante deu origem ao luto académico que hoje aqui evocamos.

Há dois dias, vimos nas televisões as imagens de polícias carregando de novo sobre jovens, com uma violência desmedida e desproporcionada. Mais vimos o espancamento de jornalistas, pondo em risco a isenta cobertura da carga policial.

Os jovens de 1962 não podem tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura. Assim, os participantes na Crise Académica de 1962, reunidos na Cantina da Cidade Universitária em 24 de Março de 2012, decidem:

- Manifestar o seu repúdio pelos actos de violência policial verificados em Lisboa e no Porto a 22 de Março de 2012;

- Dar conhecimento desse repúdio a Suas Excelências o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro; o Ministro da Administração Interna, o Inspector-Geral da Administração Interno e o Sr. Provedor de Justiça, assim como aos órgãos de Comunicação Social.

Cantina da Cidade Universitária
24 de Março de 2012
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24.3.17

Há 55 anos, o Dia do Estudante



Há cinco anos, comemorámos o 50º aniversário do Dia do Estudante, hoje seremos muitos a voltarmos à cantina velha para festejarmos o 55º. Recordo um texto importante, aprovado por mais de 400 pessoas, em 24.03.2012.

1.1.17

No 55º aniversário da Revolta de Beja



No 55º aniversário da Revolta de Beja, e mais do que a propósito tão pouco tempo depois da morte de M. Eugénia Varela Gomes e do seu filho Paulo, um texto deste último sobre o que foi o sofrimento dos filhos dos lutadores antifascistas. 

Recordar AQUI.
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14.12.16

14.12.1962 – Uma pesada condenação de Portugal na ONU



No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insiste nas condenações da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada precisamente em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).

Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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1.1.16

No 53º aniversário da Revolta de Beja



Há três anos, por ocasião do 50º aniversário do Golpe de Beja, 23 participantes elaboraram um texto, pouco conhecido, e que divulgo de novo. Como afirmam, o objectivo foi «contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista».

«Os subscritores, participantes sobrevivos da Revolta Armada de Beja – cujo quinquagésimo aniversário ocorre no próximo 1º Janeiro – pretendem, através da divulgação pública desta evocação, contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista; e em contraste flagrante com o desvelo comemorativo dedicado ao chamado Estado Novo, seus personagens e afins.

Na realidade, o combate e a resistência contra a ditadura e o fascismo em Portugal, constituíram um processo histórico contínuo ao longo de metade do séc. XX. Nesse processo insere-se a Revolta de Beja...porque aconteceu e ficou selada em sangue e morte. A sua importância e significado são-lhe conferidos pelo fluxo histórico no seu todo. Não foi um episódio isolado, fora do contexto da luta comum do povo português pela libertação de um regime ditatorial.

Com efeito, no caso da Revolta de Beja, é fácil estabelecer a sua ligação orgânica com o grandioso movimento de massas/levantamento popular provocado pelas eleições presidenciais em 1958; vindo a ser, exactamente, o general Humberto Delgado o impulsionador da Revolta de Beja e, como tal, figurando em 1º lugar na lista dos 87 incriminados pronunciados para julgamento no Tribunal Plenário Fascista.

Na sequência imediata da Revolta de Beja, eclodiu em Março desse mesmo ano de 1962, a revolta estudantil de maiores proporções contra o regime; o 1ºde Maio desse ano foi assinalado pelos trabalhadores e outros sectores da população com a maior força e amplitude de sempre. E o processo histórico continuou, já com a guerra colonial, por mais 12 anos, até 1974.

Tem sido prática corrente, após o derrubamento do fascismo até aos dias de hoje, minimizar a importância e o significado da Revolta de Beja. Obras antigas e recentes, de pretensa intenção histórico/cronológica, nem sequer anotam o acontecido. Mas bastaria ter consultado a imprensa da época para ver em grandes parangonas a dimensão do impacto e do sobressalto que provocou no País e além-fronteiras. O ditador tão emocionado ficou (citando) “com os acontecimentos das últimas semanas” que perdeu a voz e alguém teve de ler-lhe o discurso na sessão da Assembleia Nacional de 3 Janeiro; e cancelada teve de ser a costumada manifestação de desagravo.

Mas não serão certamente a contrafacção histórica ou a posição negacionista, até hoje dominante, que conseguirá alterar o significado patriótico/cívico/ético da Acção Revolucionária de Beja; que conseguirão apagar no registo da história o facto de “ter acontecido”; que abalarão as convicções e o orgulho, mantido sempre enquanto houve/houver alento pelos revoltosos de Beja, por terem dado corpo e presença e não terem recuado na hora de confirmação.

A 50 anos de distância temporal, neste ensejo evocativo os abaixo-assinados sentem-se felizes por poderem afirmar que a Revolta Armada de Beja insere-se, com honra, no processo histórico de luta e resistência do Povo Português contra a ditadura e o fascismo.

Simultaneamente, manifestam óbvia solidariedade, respeito e admiração, para com todas as outras “memórias apagadas”, por idênticos e obscuros propósitos de desvalorização do historial da resistência antifascista portuguesa.

Resta portanto, aos resistentes sobreviventes da Revolta de Beja saírem em defesa da causa pela qual empenharam as suas vidas, que continua a ser a Causa da Liberdade pela Justiça Social, a qual, neste século XXI, corresponde a ser a Causa contra o retrocesso civilizacional, contra o neoliberalismo que retira todos os recursos da economia real para entregá-los ao capital financeiro, avassalando o mundo e ameaçando o destino das gerações vindouras. 

Assim foi aqui feito,
Evocando o Cinquentenário da Revolta Armada de Beja.
Em Lisboa, na última semana do ano 2011

Airolde Casal Simões / Alexandre Hipólito dos Santos / Alfredo da Conceição Guaparrão Santos / António da Graça Miranda / António Pombo Miguel / António Ricardo Barbado/ António Vieira Franco/ Artur dos Santos Tavares / Delmar Silva / Edmundo Pedro / Eugénio Filipe de Oliveira / Fernando Rôxo da Gama / Francisco Brissos de Carvalho / Francisco Leonel Rodrigues Francisco Lobo / João Varela Gomes / José Duarte Galo / José Hipólito dos Santos / Manuel da Costa / Manuel Joaquim Peralta Bação / Raul Zagalo / Venceslau Luís Lopes de Almeida / Victor Manuel Quintão Caldeira / Victor Zacarias da Piedade de Sousa 
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24.3.15

1962, o Dia do Estudante e uma geração que vai desaparecendo



O dia 24 de Março de 1962, os que o antecederam e todos os que se seguiram constituíram um marco importante na luta contra o fascismo no início da sua penúltima década e forjaram a vida de uma geração de estudantes, que vai naturalmente desaparecendo, mas que se reuniu em massa há três anos para assinalar o cinquentenário dos acontecimentos.

Em jeito de homenagem, retomo um comentário de José Medeiros Ferreira, um dos grandes activistas de 62 (era então Vice-Presidente da Pró-Associação da Faculdade de Letras de Lisboa ), que participou nas comemorações de 2012 e que morreu há um ano. Neste vídeo, fala da ruptura entre a Universidade e o regime, que a Crise Académica significou, e relata alguns episódios relacionados com a proibição do Dia do Estudante.


(Em A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007)

Há poucos meses, deixou-nos Manuel Lucena, também ainda presente no encontro de 2012, ele que foi o redactor de serviço de grande parte dos comunicados relacionados com a Crise Académica. (Para já não falar de Vítor Wengorovious e de muitos outros que partiram antes.)

Republico um texto que Manuel António Pina escreveu há três anos e que foi divulgado no Jornal de Notícias:.

50 anos depois

Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.
Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.
Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.



Les étudiants ont manifesté, / Par la police, ont subi des sévices. / Ils étaient à Lisbonne, au Portugal. / Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang. / Les bourgeois de la ville ont renié publiquement / 40 années de gouvernement.

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P.S. – Clicando na etiqueta «CRISE 1962», tem-se acesso a uma longa lista de textos publicados neste blogue. 
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24.3.14

A Crise Académica – há 52 anos



Em mais um aniversário do Dia do Estudante de 1962, e do início da chamada Crise Académica, e na semana em que desapareceu um dos seus protagonistas – José Medeiros Ferreira – retomo um vídeo que fez parte de uma grande reportagem realizada pelo Expresso, há dois anos, para comemorar o 50º aniversário dos acontecimentos.

Uma das pessoas que pode ser ouvida no vídeo é precisamente José Medeiros Ferreira. Aqui fica, em jeito de muito simples homenagem. Há cada vez mais «vazios» que nunca mais serão preenchidos.



Retomo também um texto, então escrito por outro grande ausente, e publicado no Jornal de Notícias: Manuel António Pina.

50 anos depois
Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.
Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.
Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.


Les étudiants ont manifesté, / Par la police, ont subi des sévices. / Ils étaient à Lisbonne, au Portugal. / Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang. / Les bourgeois de la ville ont renié publiquement / 40 années de gouvernement.

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P.S. – Clicando na etiqueta «CRISE 1962», tem-se acesso a uma longa lista de textos publicados neste blogue. 
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1.1.14

É bom não esquecer



1 de Janeiro é data para recordar a Revolta de Beja e alguém repescou hoje, no Facebook, um texto de Paulo Varela Gomes, que eu divulguei há dois anos (*). Volto a disponibilizá-lo: à medida que os anos passam, vai-se esbatendo a memória do que foi o sofrimento dos filhos dos grandes lutadores antifascistas.

Aquilo que é necessário

Na manhã do dia 1 de Janeiro de 1962, eu, o meu irmão e as minhas duas irmãs fomos acordados, não pelo meu pai ou a minha mãe como era costume, mas por um tio e uma tia. Mandaram-nos vestir um roupão sobre os pijamas e acompanhá-los. Atravessámos a curta distância que separava da casa do meu avô materno a casa onde vivíamos, e à qual nunca mais voltei. Durante semanas só nos disseram coisas vagas. As empregadas do meu avô calavam-se de repente quando passávamos. Soubemos depois que a família não tinha a certeza que o meu pai sobrevivesse aos ferimentos de bala que sofrera no ataque ao quartel de Beja na madrugada daquele dia 1. A minha mãe estava presa. Voltou para casa um ano e meio depois. Ele, ao fim de seis anos. Lembro-me: a minha mãe, a quem não deixaram abraçar os filhos pequenos, encharcando com lágrimas os punhos cerrados de fúria com que agarrava as grades do parlatório de Caxias. O nosso terror. O meu pai, numa cela da Penitenciária de Lisboa, entubado, magríssimo, a voz quase apagada, um fantasma desvanecido contra a luz da janela, aquele homem que eu recordava grande, alegre, garboso na sua farda. Desapareceu de vez a infatigável alegria do meu irmão, um miúdo palrador e de olhos cheios de luz. Ganhou dificuldades de fala e endureceu. Nunca mais encontrou a paz. Por mim, fui adolescente a querer ser homem sem ter para isso pai. Não foi fácil e não se tornou menos difícil depois. As minhas irmãs, eu sei lá, nunca falamos disso. A família juntou-se para nos acolher e ajudar, houve amigos que estiveram à altura da ocasião, mas vivíamos com alguma dificuldade. Quando a minha mãe foi libertada, tinha perdido a profissão que a PIDE a impediu de retomar. Arranjou os empregos possíveis. Dormia pouquíssimo, trabalhava loucamente e aguentou tudo. Só perdeu a juventude e a saúde.

Quando visitávamos os meus pais em Caxias, em Peniche, encontrámos pessoas que sofreram muito mais que nós e estavam muito mais desamparadas. Especialmente os familiares de militantes do PCP, gente heróica sem bravata. Aprendemos que, para além dos nossos pais e dos que, com eles, foram a Beja (alguns, com menos sorte e resistência física que o meu pai, para lá morrerem), havia em Portugal muitas pessoas rectas que, ao fazerem o que era necessário fazer, causaram danos colaterais como aqueles que a minha família sofreu. Aprendemos que é mesmo assim, que nada se consegue sem danos colaterais. Aprendemos também, todavia, que a maioria das pessoas não suporta esta ideia e quer somente paz e sossego. É a vida, mas felizmente haverá sempre aqueles que são maiores que a vida. Se os não houvera, a iniquidade venceria necessariamente.

Coincide com os 50 anos da Revolta de Beja a perseguição movida pelo regime que hoje vigora em Portugal contra Otelo Saraiva de Carvalho, o operacional responsável pela revolta seguinte, o 25 de Abril de 1974. Que isso não nos impeça de dizer e fazer o que é necessário. A iniquidade não pode vencer.

(*) Divulgado em 7/1/2012, sem link, no suplemento, P2 do Público, o texto está agora online (acabo de o descobrir...), inacreditavelmente atribuído, pelo próprio jornal, a outro autor!

P.S. (7 de Janeiro): depois de contacto meu com o jornal, o erro foi corrigido e a autoria está agora atribuída a PVG.
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28.6.13

Ainda não bateram o recorde nacional, mas lá chegarão



Em 1962 levaram 1 500 estudantes, ontem só um pouco mais de 200 cidadãos – mais exactamente 226, dos 14 aos 80 anos, com as mais variadas orientações políticas, que se apresentarão em Tribunal no próximo dia 12 de Julho, depois de os advogados terem exigico o prazo legal a que têm direito para elaborar a defesa.

Os tempos são outros e as circunstâncias também? Certamente. Mas talvez seja um bom exercício procurar diferenças e reflectir em semelhanças. 
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1.5.13

A-SSA-SSI-NOS! A-SSA-SSI-NOS! – 1º de Maio de 1962


Um texto de Helena Pato, incluído no seu livro «Já uma estrela se levanta».

Seguíamos num Volkswagen – eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo Noales, com quem já casara, tinha recebido do chefe de redacção do República a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar inevitavelmente de alto a baixo, é claro. Ao seu lado, um amigo, um camarada nosso, que estava connosco por ser um dos organizadores. No banco de trás seguia eu, impaciente e receosa.

Nas vésperas tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1.º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, o «1.º de Maio» era assunto subversivo cuja referência pública, escrita ou em voz alta, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões na nossa casa, em Campo de Ourique – tudo muito discutido, muito preparado à porta fechada, mas nada passara por mim. Apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e abundante informação acerca das greves que nos últimos meses despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores de Lisboa.

Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 da tarde. 1º de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. Depois, foram décadas a gritar: «A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, ao olharmos para as lojas e para os cafés, a calma e a óbvia normalidade assustaram-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Seria aquele o resultado de tanto trabalho de organização de tantos meses a fio?
«Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!» Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente que parecia explosivo no crescendo das greves, iria dar assim em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada e que já revelara de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal onde estava esse povo? «Tem calma, Lena, ele vai aparecer!» O Povo amedrontara-se? Não se atrevia a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam defrontado por mais do que uma vez durante esse mesmo ano? 1500 jovens presos num só dia, em Março, na Cidade Universitária, e agora ninguém se mexia?
«Esta manifestação é política, amiga, não é associativa… hoje é mais complicado arriscar!», lembrava o camarada ciente de uma experiência de luta que eu admirava.

De uma coisa eu tinha a certeza: a tarde estava mais quieta do que o habitual à mesma hora. A Baixa parecia adormecida. Dava-me a impressão de que a acção prevista teria sido prematura ou as expectativas demasiado grandes, que o medo trancara os lisboetas em casa e que os empregados e os lojistas – comércio, moda, capelistas, pastelarias, cafés – estariam a abandonar os estabelecimentos, aos poucos, para fugirem da confusão. Mas por onde parariam os bancários, que tinham prometido uma boa adesão? Continuávamos ansiosos, a rodar, rua abaixo, rua acima, repetitivamente, devagarinho, varrendo metodicamente um espaço cruzado por artérias quase vazias.

Emudecêramos. Somente meia dúzia de estudantes nossos conhecidos passou por nós. Que era feito do pessoal da outra banda? Então os operários da Siderurgia? E os da Lisnave? «Espera e verás, camarada… Hão-de vir, virão em peso… Sabemos que vão estar em força.» Qual quê! Algum comércio ia-se fechando ao nosso lado, e eu desanimada. Havia quem, à porta das lojas, se metesse para dentro e quem saísse para os passeios – caminhavam imperturbáveis, eles de chapéu na cabeça, elas de malinha no braço. «São donos das lojas e caixeiros, já se sabia, Lena… Pouco se contava com eles…»

Começámos por ver a guarda nacional republicana a cavalo, em grupos – três agora, quatro depois –, a avançar pela Rua Augusta, vinda do Terreiro do Paço. Postura sobranceira, a exibir a força.

Quando se cruzou connosco, o Alfredo apressou-se a colocar no vidro do automóvel, em posição de boa visibilidade, uma pequena cartolina branca com os dizeres IMPRENSA – JORNAL DIÁRIO, desenhados na véspera, omitindo tratar-se do República para não chamar a atenção. Não queria dar-lhes qualquer pretexto para detenção, pois referir o jornal República era falar de oposição ao regime. (Continuar a ler)

11.10.12

Roma, 11/10/1962 – Um Concílio



O Vaticano II teve início exactamente há 50 anos e durou cerca de três. Hoje, a imprensa mundial assinala o facto com relatos, testemunhos e apreciações.

Por vários motivos e em diversas instâncias, já escrevi sobre esta importantíssima fase da Igreja católica, que vivi intensamente, e participei num debate sobre o tema há cerca de um ano. Retomo muito resumidamente algo do que penso.

A grande esperança que o Concílio trouxe ao mundo católico foi que se estivesse a viver o início de uma nova era em que a primazia do «povo de Deus» vencesse a rigidez de uma estrutura hierárquica, rígida e esclerosada, onde tudo chegava do topo à base em perfeita harmonia, por uma correia de transmissão sem falhas nem desobediências. Ou, por outras palavras em que melhor nos entendemos, para a que a Igreja se tornasse uma instituição verdadeiramente «democrática».

Com a ajuda das características pessoais do «bom papa» João XXIII, e com as pressões de teólogos altamente qualificados, quase tudo foi posto em causa e, a páginas tantas, era de crer que não ficaria pedra sobre pedra: desde contestação de dogmas nunca vista, a modos de actuação com séculos de existência. Esses teólogos (entre os quais Ratzinger, o actual papa…) agruparam-se numa revista internacional de teologia – a Concilium – cuja versão portuguesa foi editada pela Moraes e que teve um papel decisivo, primeiro para a dita esperança e bem depressa para a grande desilusão de muitos que rapidamente bateram com a porta (entre os quais eu própria). 

Em 1966, João Bénard da Costa escreveu um texto que, durante muito tempo, foi uma referência do que acabo de dizer, reflectindo ainda a fase da esperança mas já com uma grande carga de dúvidas: «A Igreja e o fim dos constantinismos». Foi publicado em O Tempo e o Modo (nº 37, Abril de 1966), embora tenha sido preparado precisamente para uma das sessões ligadas à revista Concilium e está online para os mais curiosos. Nele é citado Hans Küng, precisamente a propósito dessa era pós-conciliar: «Será a realização de uma grande esperança ou será uma grande decepção. A realização duma pequena esperança – dada a gravidade da situação mundial e as necessidades da cristandade – seria uma decepção». E foi. 

Para mim, é desde então absolutamente claro o que em tempos resumi simplisticamente neste termos: «Com a distância que o tempo cria, parece hoje evidente que o Concílio não desiludiu por acaso ou por engano. O que se passou foi que a Igreja, ao mais alto nível, recuou, num sábio exercício de sobrevivência. A pesada pirâmide sobreviveu a um terramoto – abanou, mas não ruiu. A grande diferença em relação ao que se passou muito mais tarde numa outra pirâmide, a da União Soviética, foi que a Igreja resistiu quando percebeu que estava ameaçada. Durante o Concílio, também ela arriscou uma glasnost, uma abertura à sua maneira. Iniciou então um tímido aggiornamento, mas travou-o a tempo de não deixar que ele se transformasse em perestroika. Por isso se deu a debandada de muitos, com maiores ou menores angústias existenciais. A estrutura não cedeu – cederam eles.»

Ratzinger, o actual Bento XVI, foi um dos que mais rapidamente percebeu tudo isto e que tomou em mão, com outros, as rédeas do recuo. Talvez para evitar uma implosão. E assim chegou a papa. 
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12.4.12

Desenhar a liberdade numa cela de Caxias



(Pintura de Mário Silva, feita em Caxias, em 1962)

Regresso à Crise Académica de 1962 porque João Gaspar, editor-executivo do Jornal Universitário de Coimbra «A Cabra», me enviou agora este texto. Faz parte de um número especial daquela publicação – «50 anos de Dia do Estudante»  – que eu já tinha referenciado.


Em 62, estudantes disseram que não ao regime, vaiaram o reitor e ainda desenharam a democracia numa cela de Caxias. Esta é a história de gente que se fez candeia no meio da desgraça.
 
Quatro da manhã e o ambiente na sala é tenso. O receio espalha-se pelos olhos dos presentes e não há espaço para muitas falas. Os colegas que manifestavam apoio ao cerco na rua já haviam sido dispersados brutalmente pela polícia. 

Vão espreitando à janela. Lá fora, já conseguem ver as carrinhas da PSP. O cerco aperta-se e as movimentações sugerem que a barricada vá ser arrombada. Reúnem-se todos na sala e sentam-se no chão à espera de ouvir o estrondo de cadeiras e mesas a cederem à entrada da polícia de choque. São uns gorilas, homens de negro dos pés à cabeça, de capacete, armados até aos dentes, e que aparecem em tantas histórias como carrasco de rebeldias durante o Estado Novo.

O coração apressa-se e o estrondo ouve-se. A barricada é abatida pela força e os polícias de preto apressam-se a chegar à sala onde 150 estudantes estavam sentados. Num impulso repentino, imposto pelo medo do embate, meia dúzia de estudantes levanta-se e começa a cantar “A Portuguesa”. Todos os outros imitam o gesto. No meio, vozes tremelicam de tantos nervos. A polícia de choque hesita e fica sem saber o que fazer. Pára diante dos estudantes, de pé, a entoarem o hino nacional. O cântico acaba e os polícias começam a encaminhar os estudantes para fora do Palácio dos Grilos, que não oferecem resistência. Evita-se a pancada. O comandante da polícia, reconhecendo, entre os estudantes, Mário Silva, dirige-se a ele:

-Estão aqui todos?

-Sim, senhor comandante.

Mentia. Uns quantos tinham-se escapulido para o sótão. Mostram-se documentos e vai toda a gente em carrinhas para o quartel da Guarda Nacional Republicana, na Avenida Dias da Silva. 

Os cerca de 150 estudantes fazem fila à espera de saber o que os espera. São identificados e revistados um por um. Tiram-se fotografias e impressões digitais. A certa altura, aparece o implacável inspector Sachetti, conhecido de tantos que lá estavam. Põe uma secretária e pede para que se faça uma fila com os estudantes. Fica à frente, a separar trigo de joio. Na secretária, rodeado de papéis com o carimbo da PIDE, Sachetti faz perguntas breves e curtas, num ar de satisfação. Finalizado o interrogatório, escolhe para que lado vai o estudante. Chega a vez de José Augusto Rocha, velho conhecido de Sachetti, de tantas vezes que foi exigir a libertação de colegas presos. Sachetti sorria em traços largos, tamanho era o ódio que tinha a José Augusto Rocha. Emanava a perfumes, como sempre. Um cheiro imundo. Impecavelmente vestido, careca, cara redonda, sem pescoço, entroncado. Eis Sachetti e José Augusto Rocha, frente a frente. 

-Finalmente apanhei-o! – diz, triunfal.

José Augusto Rocha, não se intimida com Sachetti, que até já tinha prendido dois dos seus próprios sobrinhos.

-Veremos no futuro… 

Nessa madrugada de 19 para 20 de Maio, vai na primeira carrinha para Caxias. Juntam-se a ele mais 38, enquanto quatro raparigas ficam presas na sede da PIDE em Coimbra. Os restantes estudantes saíam, em liberdade.


Um abalo sem-medo

Não foi preciso 62 para José Augusto Rocha ganhar a consciência de que aquela liberdade tinha muito pouco disso mesmo. Na sua cabeça rodopiavam desde muito cedo os ensinamentos de António Sérgio. Ainda estudante liceal em Viseu, devorou os oito volumes de ensaios do filósofo português. O neorrealismo português, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, era também de leitura obrigatória. Percorriam-se livrarias à procura de obras escondidas, trocavam-se depois à socapa, distribuíam-se panfletos e ensaios franceses rodavam de dono. Os olhos perdiam palas. 

27.3.12

As fotos eram a preto e branco e hoje são a cores (3)


(Clicar para ler)

Na sua coluna semanal no Público, que desta vez incidiu sobre O Dia do Estudante de 1962, António Correia de Campos inseriu este comentário sobre a actuação das forças policiais no passado dia 22 de Março, estabelecendo o paralelo entre a actuação das mesmas agora e há cinquenta anos. 

Há quem considere esta comparação, que outros já fizeram, inadequada pelo simples facto de vivermos hoje em democracia. Como se esta estivesse adquirida para todo o sempre pelo simples facto de termos eleições livres e não estivesse em perigo quando aqueles que têm por missão defendê-la abusam desmedidamente da força que lhes é confiada. 


Foi o que fizeram na passada 5ª-feira. E é por isso que não tenho medo de uma acção armada de Otelo, que não acontecerá. Mas tenho medo deste governo e da polícia do meu país. 
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26.3.12

Também um livro



100 Dias Que Abalaram O Regime - A Crise Académica de 1962, Tinta da China, 2012, 152 p. 

Coordenação de Artur Pinto, textos de: Alexandre Alves Costa, António Sampaio da Nóvoa, Carlos Campos Morais, Eurico Figueiredo, Fernando Rosas, João Marecos, Jorge Sampaio, José Augusto Rocha, José Maria Brandão de Brito, José Marques Felismino, José Medeiros Ferreira, Manuela Bernardino, Maria Benedicta Monteiro, Ruben de Carvalho e Teresa Tito de Morais. 
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As fotos eram a preto e branco e hoje são a cores (2)



«Puxo» para post autónomo um comentário de Diana Andringa àquele que publiquei esta manhã:

«Mais cette fois c'était leur chair, c'était leur sang, les bourgeois de la ville ont renié publiquement 40 années de gouvernement...»

Seria bom que os dirigentes e os membros do serviço de ordem da CGTP ouvissem a Collette Magny e percebessem que esses jovens indignados e espancados são também a nossa carne e o nosso sangue – e os defendessem em vez de os isolar. Como defenderam, nas crises académicas da década de 60, professores inesquecíveis como Lindley Cintra e muitos, muitos dos bourgeois de la ville

Foi bom ver os de 62 lembrar essa solidariedade entre gerações. O pior que nos poderia acontecer era evoluir como as personagens da canção de Brel... (Precisamente Les bourgeois.)


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As fotos eram a preto e branco e hoje são coloridas



Não foram apenas mais de 400 pessoas que exprimiram a sua indignação perante as recentes cargas policiais, em almoço festivo que comemorava o 50º aniversário de um Dia do Estudante em que também houve bastonadas. Outras vozes se vão juntando à comparação entre duas situações separadas por cinco décadas, como a de Manuel António Pina, hoje, no JN.  

50 anos depois

Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.

Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.

Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.



«Les étudiants ont manifesté,
Par la police, ont subi des sévices.
Ils étaient à Lisbonne, au Portugal.
Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang.
Les bourgeois de la ville ont renié publiquement
40 années de gouvernement»
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25.3.12

O copiógrafo



A memória também é feita de objectos. Na exposição ontem inaugurada na Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, no quadro das comemorações do Dia do Estudante em 1962, está esta máquina – um copiógrafo a stencil – que foi um instrumento precioso ao serviço da liberdade de informação durante a Crise Académica. 

As Associações de Estudantes tinham montado uma estrutura que assegurava a publicação praticamente diária de comunicados, tarjetas e panfletos e que organizava a respectiva distribuição. Esta garantia que os materiais chegassem a todas as faculdades praticamente à mesma hora. 

Imprimir durante a noite, quase sempre em locais diferentes, exigia um árduo trabalho, pois muitos copiógrafos eram manuais – noites inteiras a dar à manivela! A «produção» era depois reunida pelas equipas de distribuição, através de um código que identificava o local de recolha: fazia-se uma chamada a partir de uma cabine telefónica para um determinado número e recebia-se uma resposta em que era dito que se ligasse para um outro número, fictício. Eram os dois últimos algarismos deste, que identificavam o tal local de recolha. 

A PIDE nunca conseguiu descobrir este esquema de funcionamento, que durou meses. 

(Adaptação de um texto publicado num jornal editado para assinalar o 50º aniversário.) 
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24.3.12

Carga policial de 22 de Março – Moção de censura aprovada pelos protagonistas de 1962



Texto aprovado por aclamação, por mais de 400 pessoas que se reuniram na Cidade Universitária de Lisboa para comemorarem o 50º aniversário da Crise Académica de 1962:

MOÇÃO

Há 50 anos, a indignação perante uma carga policial sobre estudantes que pretendiam comemorar o Dia do Estudante deu origem ao luto académico que hoje aqui evocamos. 

Há dois dias, vimos nas televisões as imagens de polícias carregando de novo sobre jovens, com uma violência desmedida e desproporcionada. Mais vimos o espancamento de jornalistas, pondo em risco a isenta cobertura da carga policial. 

Os jovens de 1962 não podem tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura. Assim, os participantes na Crise Académica de 1962, reunidos na Cantina da Cidade Universitária em 24 de Março de 2012, decidem: 

- Manifestar o seu repúdio pelos actos de violência policial verificados em Lisboa e no Porto a 22 de Março de 2012; 

- Dar conhecimento desse repúdio a Suas Excelências o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro; o Ministro da Administração Interna, o Inspector-Geral da Administração Interno e o Sr. Provedor de Justiça, assim como aos órgãos de Comunicação Social. 

Cantina da Cidade Universitária 
24 de Março de 2012
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