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14.3.18

14.03.1975 – «O dia em que o capitalismo se afundou» (M.Soares dixit)



As semanas que se seguiram ao 11 de Março de 1975 foram naturalmente ricas em acontecimentos e convulsões. Três dias depois, no dia 14, para além de ser criado o Conselho da Revolução, deu-se a nacionalização da Banca e dos Seguros. 

Da imprensa da época:

«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoio-as, aliás, embora previna que “substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa”.
Mário Soares mostra-se mais expansivo. Eufórico mesmo, considerando aquele “um dia histórico, em que o capitalismo se afundou”. Dirá, a propósito o líder socialista, num comício: “A nacionalização da banca, que por sua vez detém (...) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal”.»  (Realce meu)

(Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, edições Expresso / Público, 2006, p. 28.)
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3.12.17

A estrada



«Julho de 1975. O pátio era enorme. Alinhadas a régua e esquadro, as modestas casas térreas desenhavam um rectângulo. Duas portas. Uma para um corredor apertado. Outra para a liberdade das dunas de areia. Pequenas, tinham cozinha e quarto. A casa de banho era ao fundo, só uma, para 13 casas. E uma bomba para tirar água. Era ali, que famílias de pobres trabalhadores passavam as férias. Para mim, era uma festa. Um ritual. Um mês na praia. Prevenia as doenças de Inverno e esquecia os deveres da escola. Brincava até o sono vencer. Os amigos eram todos os anos os mesmos. O João, engenhocas, o Paulo, traquina, o Jorge, calmo, e o Francisco, a referência, não fosse ele o mais velho. Era tão boa a praia. Os banhos com a digestão feita, os gelados ao domingo, as mãos sujas dos matrecos, o bronzeador e a bandeira verde. E os livros.

Depois de almoçar deitava-me no colchão duro da cama de ferro e lia. E foi naquele pátio de gente honrada que um livro me marcou. A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe. Tal era a brutalidade do patrão e o sofrimento do escravo, que várias vezes soluçava até que desisti. Nunca consegui terminar as 170 páginas. Foi uma etapa da minha infância. Talvez a linha de partida da minha consciência.

Comecei a interrogar a vida. Porque havia pobres e ricos. Porque não éramos todos felizes. E se o meu pai me ajudava a compreender melhor o mundo, Jorge Amado, com Os Capitães da Areia, colocou-me na estrada que ainda hoje acredito que é a que nos leva ao melhor destino. Ávido, comia as palavras de Pedro Bala e Gato. Depressa terminei. E no mesmo dia voltei à página 1. Até ao fim. Novamente.

O Gamelas era um homem forte. Guarda-redes de andebol. Trabalhador. Um amigo. Naquele dia de sol, foi ele que me fritou o bife, as batatas fritas e o ovo estrelado. Foi ele que me levou à praia. E foi ele também que um dia me salvou de eu morrer afogado. Eu não sabia da minha mãe nem do meu pai. Mas a vida continuava feliz no pátio. Só aos amigos se confiam os filhos. Chegou a noite e a minha mãe e o meu pai continuavam sem aparecer. Chegou o meu avô. Levou-me. Sem grandes palavras. Soube depois que a antiga vivenda de um industrial, que admirava Álvaro Cunhal e que a alugara ao Partido, tinha sido atacada, apedrejada e incendiada. A minha mãe e o meu pai estavam lá. Na vivenda.

Colado ao vidro de trás da carrinha do meu avô, descemos a avenida muito devagar. A bonita vivenda de azulejos únicos e candeeiros de loiça estava quase toda destruída. O passeio desapareceu. Arrancado. As pedras foram lançadas contra as janelas e paredes. As janelas desapareceram. As paredes estavam todas picadas da força das pedras. A mancha negra do cocktail Molotov deixava imaginar o pior. Continuei sem saber da minha mãe e do meu pai.

Agosto de 2017. Num colchão melhor mas numa cama de ferro, combato o calor da serra algarvia. Deixo-me levar pela escrita de Miguel Carvalho em Quando Portugal Ardeu. Passaram 42 anos. Para mim, não. Estou novamente na carrinha do meu avô a descer a avenida. E Miguel Carvalho leva-me a descobrir outras avenidas. Avenidas e quelhos que eu desconhecia. Todo o terror da direita portuguesa. Os atentados. Os assassinatos. Os negócios. As mentiras. As bombas. Os tiros. A CIA. A impunidade. O branqueamento. Sinto o meu pai e a minha mãe. Tento imaginar as pedradas. A raiva que vinha de fora e a fibra que vinha de dentro. As cabeças partidas. O carro que incendiaram. O soldado que morreu. Já não me lembro como foi o nosso reencontro depois de descer a avenida. Pouco importa. Sei que durante muito tempo sentia medo. Até à noite em que acordei ao som do tiro de caçadeira. Na rua, e em frente ao portão de ferro, escrito a tinta branca e letras grandes, ameaçavam o meu avô: “Porco comunista, vais morrer.”

Tinha oito anos. Percorri a estrada. Sem medo. Fui crescendo. O pátio desapareceu. A vivenda continua na avenida. Carrego o fardo das interrogações. Podia ter sido colega do Milhazes em Moscovo, dirigente, deputado ou outra coisa qualquer. Nunca quis nada. Só um mundo para todos. Mas não existe. Um mundo para todos. Há que continuar pela estrada.

No dia dos meus 50 anos recebi um abraço e um embrulho. Desembrulho e o papel rasgado faz antever O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch. Está desde então na minha mesa-de-cabeceira. Um ano. O tempo que o estou a ler. Devagar. Rouba o sono. E ao lado, Forte de Peniche-Memória, Resistência e Luta. Devagar. Faz chorar. Fico com insónias.

A estrada continua.»

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2.12.17

A rede terrorista de extrema direita no pós-25 de Abril


Há alguns dias, pus aqui um pdf com o conteúdo do livro Quando Portugal Ardeu.
Fica hoje uma entrevista muito esclarecedora ao seu autor, Miguel Carvalho. De certo modo, até mais frontal do que o próprio livro, na minha opinião.


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25.11.17

Boa leitura para um 25 de Novembro – «Quando Portugal ardeu»




Conhecer um pouco (não tudo) do que foi a direita-direita, sobretudo depois do fim do PREC.

(É possível fazer download.)
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25.11.1975 – Foi há 42 anos e é sempre a minha música deste dia




«Foi um sonho lindo que acabou»
«É um lindo sonho para viver / Quando toda a gente assim quiser»
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21.11.17

21.11.1975 – O célebre juramento no Ralis



A quatro dias do 25 de Novembro, o juramento de bandeira dos cento e setenta novos recrutas do RALIS, em 21 de Novembro de 1975, ficou para a história como símbolo de fim de ciclo, foi uma espécie de canto do cisne de um PREC que acabava.



Imagens e palavras quase surrealistas quando vistas e ouvidas hoje, mas que funcionam para muitos como uma espécie de relíquia de «um sonho lindo que acabou». Um caminho que ficou para trás mas que não se apaga – nunca.

A notícia no Diário de Lisboa do dia:


20.11.17

20.11.1975 – Quando um governo fez greve



Há 42 anos, os jornais anunciavam que, na madrugada de 20 de Novembro de 1975, a Presidência do Conselho de Ministros tinha emitido um comunicado onde explicava que o VI Governo Provisório decidira «suspender o exercício da sua actividade» até estarem garantidas condições para o exercício da mesma. O próprio primeiro-ministro confirmou-o, algumas horas mais tarde.



Na tarde do mesmo dia, teve lugar uma grande manifestação em Belém, com muitos milhares de participantes, convocada pelas Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa e apoiada pela Intersindical, PCP e FUR. Foi pedida a nomeação de um governo «verdadeiramente revolucionário» e gritou-se, repetidamente, «Suspensão é demissão!»

Para além da recordação da efeméride note-se o seguinte: a manifestação foi convocada para o próprio dia, não para semanas mais tarde, e repito que contou com a participação de milhares de pessoas. Num tempo em que não existiam telemóveis, nem internet, foi a rádio, o passa-palavra, telefonemas para empresas e para amigos, que serviram de arautos para a mobilização. E esta funcionou, sem hesitações. Estávamos em período revolucionário (mais exactamente, a escassos dias do fim do mesmo) e havia esperança e espírito de luta – inesquecíveis.

P.S. – Uma recordação anedótica: quando acabou a concentração em Belém, já bastante tarde, estávamos absolutamente esfomeados e nada havia para comer nas imediações. Desesperados, tentámos o restaurante de um hotel e a resposta foi negativa: estavam cheio de retornados e já nada restava. Entre dentes, um colega meu «rosnou»: «A fome é tanta que até um retornado marchava!»

Cinco dias mais tarde… the end.
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9.11.17

09.11.1975 – «O povo é sereno, é apenas fumaça!»



Há 42 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro, os ânimos andavam bem exaltados, o centrão estava bem alinhado e não havia Geringonça à vista.

PS e PPD, secundados por CDS, PPM e PCP de P-ML, convocaram uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro, com o lema: «Pinheiro, em frente, tens aqui a tua gente!». O Terreiro do Paço encheu-se mas ninguém recordaria hoje o facto (todos os espaços se enchiam, dia sim dia sim…) sem as granadas de fumo e de gás lacrimogéneo (mais alguns tiros) que deflagraram durante o discurso de Pinheiro de Azevedo contra as forças à esquerda do PS. Iniciativa de autoria não muito clara e objecto de acusações cruzadas, mas que foi um enorme susto para muitos e gáudio para a esquerda da esquerda que viu a cena em casa, em directo televisivo (as paredes da sala em que estou ainda devem guardar o eco das gargalhadas).

«O povo é sereno, é apenas fumaça!», gritou o então primeiro-ministro, numa tirada que ficou para a pequena história dos últimos dias do PREC.


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6.11.17

06.11.1975 - «Olhe que não, olhe que não!»



Nem os seus dois intervenientes, nem muitos dos que assistiram àquele que foi o mais célebre debate da nossa democracia, estão cá hoje para o recordar. Os outros nunca esquecerão o frente-a-frente entre Soares e Cunhal, em 6 de Novembro de 1975. Durou quase quatro horas – uma eternidade impossível de repetir nas televisões apressadas que hoje temos – e o país parou para ver e ouvir.

Há 42 anos, a poucos dias do 25 de Novembro, eram mais do que raros os pontos de acordo entre Soares e Cunhal. Dessa noite ficou para a história uma frase com que Cunhal respondeu a Soares quando este afirmou que o PC dava provas de querer transformar Portugal numa ditadura: «Olhe que não! Olhe que não!»



Texto com alguns excertos do que foi dito:



Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, Expresso / Público, Lisboa, 2006, pp. 382-383. 
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27.9.17

27.09.1975 – Últimos fuzilamentos do franquismo e reacções em Portugal



Em 27 de Setembro de 1975 foram fuzilados cinco antifascistas espanhóis: José Luis Sánchez Bravo, José Humberto Baena Alonso, Ramón García Sanz, Juan Paredes Manot e Ángel Otaegui. As pressões para que o acto não fosse consumado não resultaram, Franco não cedeu.

Portugal, em pleno PREC, não esperou pela execução e iniciou na véspera, 26 de Setembro, assaltos aos consulados de Espanha em Lisboa e no Porto, ataque a sedes de empresas espanholas e incêndio e destruição da embaixada de Espanha em Lisboa.



(Vídeo e mais informação aqui)
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25.9.17

25.09.1975 - Ainda há quem se lembre dos SUV?



Há 42 anos, o centro de Lisboa preparava-se a esta hora para uma grande manifestação dos SUV (Soldados Unidos Vencerão) – uma auto-organização política de militares, clandestina, que se definia com «frente unitária anticapitalista e anti-imperialista» e que fora anunciada no início do mês, algures num pinhal entre Porto e Braga, numa conferência de imprensa transmitida pelo Rádio Clube Português, em 7 de Setembro.

Organizaram desfiles em várias cidades, mas julgo que nenhum teve a dimensão do de Lisboa, em 25 de Setembro, com apoio de partidos como o MES, a LCI, a UDP e o PRP. Centenas de soldados fardados, acompanhados por representantes das comissões de trabalhadores e de moradores e por uma verdadeira multidão, subiram do Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII, onde teve lugar um comício. No fim deste, foram desviadas dezenas de autocarros da Carris, que levaram quem quis até ao presídio da Trafaria, de onde, pelas 2:00 da manhã, foram libertados dois militares que se encontravam detidos, precisamente por terem distribuído panfletos de propaganda da manifestação.

Para se perceber um pouco mais do que estava em causa, vale a pena ler o MANIFESTO com que os SUV se apresentaram na conferência de imprensa de 7 de Setembro.


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19.9.17

19.09.1975 – Na posse do último Governo Provisório




No dia 19 de Setembro de 1975, tomou posse o VI (e último) Governo Provisório. Chefiado por Pinheiro de Azevedo, durou até 23 de Julho de 1976, data em que entrou em funções o I Governo Constitucional.

Na imagem, um excerto do discurso do primeiro-ministro, no acto da tomada de posse do novo governo (*). Delicioso – no mínimo. Comentários para quê...

(*) Na íntegra, aqui.
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18.8.17

18.08.1975 – Vasco Gonçalves em Almada



Eu já publique mais de uma versão deste texto, mas regresso ao mesmo, já que foi um marco que os mais novos nunca entenderão, mas que aqueles que viram e/ou ouviram nunca vão esquecer.

Há 42 anos, Vasco Gonçalves fez em Almada, com 15.000 pessoas presentes, um discurso que durou uma hora e meia e que foi transmitido em directo pela RTP (texto, na íntegra, aqui) e que seria o princípio do fim de muitas coisas e o ponto de partida inevitável para muitas outras. Um discurso dramático que acabou com Vasco Gonçalves lavado em lágrimas.

Uma curtíssima amostra:



Dramática foi também a carta que Otelo lhe escreveu 24 horas depois: «Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa História. Agora companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste País ao assim proceder. (...) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário.»

O V Governo Provisório, que tomara posse dez dias antes, tinha as semanas contadas e não houve muralha de aço que lhe valesse. A 19 de Setembro, Pinheiro de Azevedo assumiria as rédeas do VI. O 25 de Novembro estava à vista. 
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7.8.17

07.08.1975 – É conhecido o «Documento dos Nove»



O «Documento dos Nove» (também conhecido como Documento Melo Antunes) é imediatamente associado a 1975 mas há muito quem o relacione com o 25 de Novembro e julgue portanto que foi publicado perto dessa data. Não é o caso: foi divulgado, no Jornal Novo, em 7 de Agosto de 1975.

«Os Nove» eram Melo Antunes, Vasco Lourenço, Sousa e Castro, Vítor Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves e Vítor Crespo, mas o manifesto foi ainda assinado por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Costa Brás, Salgueiro Maia, Rocha Vieira, Fisher Lopes Pires e outros membros das Forças Armadas.

Em pleno Verão de 1975, na véspera da tomada de posse do célebre V Governo Provisório (o último a ser presidido por Vasco Gonçalves), os signatários quiseram posicionar-se em contraponto às teses políticas do documento «Aliança Povo/MFA. Para a construção da sociedade socialista em Portugal», apresentado um mês antes (em 8 de Julho) e passaram a representar publicamente a facção moderada do MFA, recusando «tanto o modelo socialista da Europa de Leste como o modelo social-democrata da Europa Ocidental, defendendo um projecto socialista alternativo baseado numa democracia política, pluralista, nas liberdades, direitos e garantias fundamentais».

Vale e pena ler ou reler este Documento dos Nove, sabendo o que sabemos hoje e estando onde estamos. É um exercício que aconselho a quem se interessa por esse ano crucial e absolutamente decisivo da nossa História relativamente recente, por aquilo em que ele a condicionou e condiciona ainda. Discuti-lo deste ponto de vista daria pano para mangas, mas nem tento. Mas não resisto a transcrever um parágrafo que resume, de certo modo, aquilo que «Os Nove» defendiam e prometiam:

«Lutam por um projecto político de esquerda, onde a construção duma sociedade socialista – isto é, uma sociedade sem classes, onde tenha sido posto fim à exploração do homem pelo homem – se realize aos ritmos adequados à realidade social concreta portuguesa, por forma a que a transição se realize gradualmente, sem convulsões e pacificamente.» 
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23.7.17

Notícias de um Verão tórrido



No dia 23 de Julho de 1975, este cartaz foi capa do Diário de Notícias.

Juntamente com a cantiga («Força, força, companheiro Vasco»), deu corpo à campanha da 5.ª Divisão, de apoio a Vasco Gonçalves, iniciada quatro dias antes. Foi sol de pouca dura, como é sabido: o IV Governo Provisório caiu em 8 de Agosto, dia em que teve início o V que viria a durar pouco mais de um mês.


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16.7.17

Manifestações com blindados



Há 42 anos, os roubos de armas já existiam mas eram histórias de outras carochinhas, secretários de Estado a ver futebóis à borla era coisa que não incomodava ninguém e o dr. Gentil Martins já dizia alarvidades como sempre disse.

O IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, vivia na maior das efervescências o seu último mês, o PS já o abandonara há cinco dias e o PPD fez o mesmo precisamente na madrugada de 16 de Julho. Seguiram-se, no mesmo dia, João Cravinho e Jorge Sampaio, então independentes, que justificaram a decisão num longo documento de 14 páginas, em que concluíam que «a crise geral do sistema» resulta «de a burguesia se mostrar já incapaz de governar e de o proletariado não ser ainda capaz de o fazer».

Mas o que marcou essa data, sobretudo para quem a viveu, foi uma «manifestação unitária pelo poder popular», que desfilou pelas ruas de Lisboa para exigir a «dissolução da Constituinte», «controlo operário», a queda do Governo Provisório e a instalação de um Governo Popular. Convocada pelas comissões de trabalhadores e de moradores, contou com a adesão da UDP, CMLP, CRTSM, MES, ORPC (m-l), PRP-BR e AEPPA (Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas). Nada de especialmente novo para os tempos que iam correndo, não fosse o facto de, pela primeira vez, terem participado centenas de militares fardados e com blindados, Dinis de Almeida incluído.

Noticiava o Diário de Lisboa do dia seguinte: «O traço dominante da manifestação de ontem foi a fusão, no mesmo corpo popular, de trabalhadores e soldados que durante larga parte do percurso ocuparam conjuntamente os veículos militares armados, numa demonstração pública sem precedentes do reforço da linha revolucionária no Exército e da compreensão da sua cada vez maior evolução para uma forma de braço armado do povo.»

O resto do Verão não arrefeceu e acabou como é sabido. 
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8.7.17

Rebobinemos até 8 de Julho de 1975



O Verão de 1975 foi bem mais tórrido do que o de 2017, apesar de incêndios e de assaltos a paióis. E precisamente em 8 de Julho de 1975, foi aprovado pelos 240 membros da Assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida durante 18 horas, o «Documento-Guia da Aliança Povo/MFA». Longo foi o enredo das peripécias que precederam a sua existência e aprovação, como fortes foram as reacções negativas imediatas que provocou, nomeadamente de PS, PSD e CDS.

Utópico e irrealizável com tudo o que hoje sabemos? Muito provavelmente. Mas com uma ressalva indiscutível: é hoje muito mais difícil mantermos a tal esperança que comanda a vida.

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O texto do Documento está aqui na íntegra, mas não resisto a transcrever a Introdução – que talvez surpreenda uns tantos.

«A aliança Povo-MFA tem sido uma realidade constante do processo revolucionário até ao momento presente. A acção libertadora do 25 de Abril, continuada por todo um conjunto de atitudes do MFA e dos partidos políticos progressistas e pelas medidas de carácter político e económico postas em prática, tem permitido manter um nível suficiente de coesão Povo-MFA. No entanto, a manutenção e consolidação da aliança Povo-MFA passa, numa primeira análise, pela satisfação das aspirações mais profundas das classes exploradas. Neste aspecto, urge prosseguir a obra iniciada em 25 de Abril de 1974. É dentro do âmbito de uma revolução cultural, pela aplicação das potencialidades militares e civis, nos campos técnico, humano e material que se mobilizará decisivamente o Povo para a Revolução. A prática começa a demonstrar este raciocínio, aliás óbvio. Essa premissa sine qua non de consolidação da aliança está em desenvolvimento e criará as condições para que o binómio motor do processo revolucionário português se mantenha e consolide.

Por outro lado, e ainda numa intenção de mobilizar o Povo para a Revolução, é necessário que às massas trabalhadoras sejam asseguradas condições de participação activa, o que passa por formas de organização popular, numa prática democrática, independente e unitária. Torna-se necessário aproveitar, concretamente, esta realidade fundamental, aliança Povo-MFA, estimulando-a e apoiando-a para a defesa e dinamização da Revolução em curso. A defesa e dinamização da Revolução, na sua actual fase, passam pela realização das seguintes tarefas:

a) Fomentar a participação revolucionária das massas, no sentido de criarem e desenvolverem agrupamentos unitários, numa perspectiva de implantação de verdadeiros órgãos de poder popular;
b) Defender a Revolução dos ataques das forças reaccionárias, através de uma consciencialização profunda das exigências do processo e da criação de organismos de defesa;
c) Vencer a batalha da economia.

Enquanto a produção não for suficiente para as necessidades globais do País, será necessário um grande esforço das massas trabalhadoras. É fundamental, portanto, vencer-se a batalha da economia superando o fraco desenvolvimento das forças produtivas, ampliando e desenvolvendo o controlo operário alargando-se o campo do sector estatal e procurando-se a acumulação necessária à nossa independência económica.»

E já lá vão 42 anos! 
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21.6.17

Quando os padres convocavam contramanifestações



A efeméride foi há três dias, mas andávamos então ocupados com dramas humanos imediatos. Mas o passado «não passou».

Há 42 anos, eu estava no Campo Santana, em Lisboa, numa manifestação à porta do Patriarcado, que tinha ali a sua sede, de apoio aos trabalhadores da Rádio Renascença. Não era a primeira vez que o fazia: antes do 25 de Abril, participara em vários protestos contra o cardeal Cerejeira, por atitudes que ele tomava, ou omitia, nas relações entre a Igreja portuguesa e o governo, em tempos de ditadura. Tipicamente, acabávamos sempre refugiados no átrio ou, pelo menos, protegidos pelo gradeamento que, no passeio, rodeava a porta principal – reacção instantânea quando se aproximavam os tradicionais Volkswagen creme nívea da PSP.

Mas, em 18 de Junho de 1975, os ventos eram bem diferentes e foram outros que se refugiaram dentro da sede patriarcal. Passo a explicar, mas muito resumidamente, porque foi longo e complexo o chamado «caso da Rádio Renascença».

Quando a Revolução aconteceu, a Rádio Renascença (RR) era uma das três grandes estações de radiodifusão, a par da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português, com um ambiente relativamente livre dentro dos limites existentes (por pertencer à Igreja), e não foi por acaso que sobre ela incidiu a escolha para a transmissão de «Grândola» como senha para os militares avançarem. Mas, curiosamente, foi lá que teve lugar a primeira greve em serviços de informação, logo no dia 30 de Abril, por uma profunda divergência entre jornalistas e directores, a propósito da cobertura da chegada a Portugal de Mário Soares e de Cunhal. A estação esteve parada cerca de 19 horas, os trabalhadores ocuparam o espaço e o conselho de gerência acabou por abandonar o local. Este foi apenas o primeiro capítulo de uma atribulada história que duraria até Dezembro de 1975, data em que a gestão da estação foi definitivamente devolvida à Igreja.

Pelo meio, o tal episódio de 18 de Junho de 1975. Durante mais uma crise interna, sindicatos representativos de vários sectores – jornalistas, revisores de imprensa, tipógrafos e telecomunicações – convocaram uma manifestação a ter lugar junto do Patriarcado. E teria sido apenas mais um evento, entre muitos semelhantes que aconteciam quotidianamente, não se tivesse dado o caso de ter havido uma convocatória para uma contramanifestação, feita por muitos padres, a pedido do conselho de gerência da RR (texto na imagem, aqui ao lado).

Estava lançado o rastilho para um confronto que teve tiros para o ar dados pela PSP e pela Polícia Militar, muitas pedradas e cerca de 40 feridos, com os manifestantes pró-Patriarcado refugiados no interior do edifício e evacuados já de madrugada em camiões militares.

Antes, durante e depois, foram divergentes os apoios recebidos por cada um dos lados. A UDP foi a primeira organização política a apelar para a participação na manifestação de apoio aos trabalhadores, acompanhada, entre outros, pelo MES, LCI, LUAR, PRP/BR, CMLP, ORPCML, Associação de ex-Presos Políticos Antifascistas, várias comissões de trabalhadores (com realce para a dos TLP), e organizações católicas como a JOC e Cristãos pelo Socialismo. Contra a manifestação, embora com diferentes nuances, declararam-se o PS, o PPD, o CDS, o PDC e o PCP. Estranho? Olhem que não, olhem que não! 

19.5.17

19.05.1975 - O «caso República» que fez cair um governo



O chamado «Caso República» teve o seu início crítico no dia 19 de Maio de 1975, embora as hostilidades internas, entre a Comissão Coordenadora de Trabalhadores (CCT) gráficos e dos serviços administrativos de um lado e a Administração e a chefia de Redacção do outro, tivessem já começado nos primeiros dias do mês.

Na manhã de 19, a CCT decidiu suspender do exercício das suas funções a Administração e a chefia de Redacção, acusando-as de estarem a tentar transformar o jornal num órgão afecto ao Partido Socialista. As instalações do jornal foram ocupadas pelos trabalhadores e a edição desse dia saiu com uma constituição diferente.

O PS organizou imediatamente uma manifestação de apoio à antiga direcção, no Largo da Misericórdia (com a presença, entre outros de Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre), a multidão foi engrossando e gritaram-se palavras de ordem contra o PCP, Álvaro Cunhal e MFA.

Quem estiver interessado nos detalhes desta saga, que foi um marco no PREC dois meses depois do seu início, pode ler um detalhado resumo dos acontecimentos.

O República acabou por estar fechado durante algum tempo e reapareceu nas bancas em 10 de Julho, constituído maioritariamente por elementos das forças armadas e de uma certa esquerda radical. Como consequência destes factos, no dia 7 de Julho, o PS abandonou o IV Governo provisório (o mesmo acontecendo pouco depois com o PPD / PSD) que acabou por cair no dia 17 do mesmo mês.

Era assim o dia a dia. Em 27 de Maio, deu-se a ocupação da Rádio Renascença – outra longa e movimentadíssima história. 
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