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29.6.19
20.5.19
A CML não quer uma rua com os nomes dos assassinados pela PIDE em 25 de Abril de 1974?
Há cerca de um ano, 446 cidadãos puseram «à consideração da Câmara Municipal de Lisboa, e respectiva comissão de toponímia. a proposta de atribuir os nomes de João Arruda, Fernando Gesteiro, Fernando dos Reis e José Barnetto a um arruamento ou lugar da capital. Por dever de memória para com aqueles que viveram a liberdade durante apenas algumas horas e que podem ajudar-nos a dar a essa palavra um significado maior. São eles os heróis improváveis da revolução. Não permitamos que se lhes junte o adjectivo "esquecidos"».
A iniciativa foi bem acolhida a nível da Assembleia Municipal, em reunião de duas comissões na qual estive presente juntamente com Pedro Vieira que encabeçou o abaixo-assinado e a pedido deste. O tempo passou e foi hoje recebida uma comunicação do gabinete da vereadora da cultura da CML, em que é anunciada a recusa. É avançado como motivo principal que «os Cidadãos em causa já se encontram devidamente homenageados» numa placa com os nomes pretendidos numa parede do agora condomínio de luxo que foi sede daquela organização, na R. António Maria Cardoso, em Lisboa. Como se esta iniciativa que tanta luta deu a muitos de nós, e que NÃO foi iniciativa da CML, devesse ser motivo para o alheamento desta, num concelho onde se abrem novas ruas e becos por tudo quando é sítio!
Quando for recebido o texto do «Ofício do Núcleo de Toponímia» (hoje, chegou apenas um mail a anunciá-lo), serão decididas as acções a tomar.
(Pode ser lido AQUI o texto do abaixo-assinado enviado em Maio de 2018, bem como os nomes de todos os subscritores.)
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24.4.19
MEMORIAL AOS PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS
Foi agora criado um «site» associado ao Memorial em questão, que, recordo, será inaugurado no dia 25 de Abril, às 14:00, na estação do metro Baixa-Chaido.
O «site» já tem muita informação, terá mais, e todo o projecto começou assim:
Em 3 de janeiro de 2019, um grupo de cidadãos e cidadãs apresentou ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa uma proposta que visava a salvaguarda da memória da Resistência e das vítimas da ditadura - homens e mulheres presos e torturados, condenados em simulacros de tribunais, exilados e deportados, assassinados, impedidos de exercer as suas profissões e modos de vida, que viram as suas famílias perseguidas e humilhadas e as suas obras censuradas.
Essa Resistência, dos mais variados quadrantes políticos, abriu o caminho para «o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio«, cantado por Sophia de Mello Breyner.
Eis o que agora se pretende honrar com este Memorial.
A Comissão Organizadora
Alfredo Caldeira | Artur Pinto | Diana Andringa | Gaspar Barreira | Helena Pato | Joana Lopes | João Esteves | Luís Farinha | Margarida Tengarrinha | Pedro Adão e Silva | Rita Veloso | Sara Amâncio
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5.4.19
Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos
No âmbito das comemorações do 45º aniversário do 25 de Abril, terá lugar em Lisboa um vasto conjunto de eventos, anunciado no passado dia 3 em conferência de imprensa realizada na respectiva Câmara Municipal.
Destaco a inauguração de um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos, na Estação de Metro Baixa-Chiado, uma iniciativa proposta por um grupo de cidadãos. Fica aqui alguma informação sobre o que esteve na base da referida proposta, bem como imagens que podem dar uma ideia do que poderá ser visto.
Ao longo de quase meio século, milhares de homens e mulheres sofreram, em Portugal e nas então colónias portuguesas, a violência da ditadura implantada em 28 de maio de 1926 e apenas derrubada em 25 de abril de 1974.
Esses homens e mulheres – presos e torturados, condenados em simulacros de tribunais, exilados e deportados, assassinados, impedidos de exercer as suas profissões e modos de vida, que viram as suas famílias perseguidas e humilhadas e as suas obras censuradas – abriram o caminho para «o dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio», cantado por Sophia de Mello Breyner.
Mas se a Censura do Estado Novo impedira o conhecimento da sua luta e dos seus nomes, também a Democracia não soube ainda dar a conhecê-los sobretudo às novas gerações.
É nesse sentido que uma iniciativa cidadã apresentou à Câmara Municipal de Lisboa uma proposta para levar ao conhecimento da população em geral a memória desses homens e mulheres e da sua luta, através de um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974).
E porque foi numa rua do Chiado a sede da polícia política do regime, sugeriu-se como local dessa homenagem a estação de metropolitano Baixa-Chiado, onde todos os dias passam milhares de pessoas.
Considerou-se a centralidade desta Estação e a sua proximidade com a rua António Maria Cardoso (onde se situava a sede da PIDE/DGS e onde foram assassinados por elementos daquela polícia política manifestantes no próprio dia 25 de abril de 1974) e, mesmo, com o Largo do Carmo, onde se deu a rendição do último Presidente do Conselho da ditadura, ocorrendo em toda aquela zona (Largo do Chiado, Praça Luís de Camões, Rua da Misericórdia, Largo de São Carlos e ruas adjacentes) momentos marcantes daquela data, designadamente em matéria de detenção de agentes e graduados da PIDE/DGS.
Junto às escadas rolantes daquela estação de Metropolitano, que comunicam com o Largo do Chiado, será montado um pórtico com televisores de grande dimensão.
Ao longo dos 48 anos de ditadura, a polícia política prendeu, torturou e acusou milhares de cidadãos e de cidadãs: só em Portugal, registaram-se dois presos políticos por dia. Mesmo sabendo-se que a lista será sempre incompleta, já que, lamentavelmente, 45 anos sobre o 25 de abril de 1974, continua a ignorar-se o número exacto dos presos políticos, as datas de prisão e/ou de “julgamento” de muitos deles e a duração das respetivas prisões – situação que muito se agrava nas antigas colónias, sobre as quais não existem praticamente números credíveis – pretende-se com esta proposta ultrapassar essa ignorância sobre a repressão ao longo de toda a ditadura, fazendo passar nas referidas televisões dezenas de milhares de nomes, bem legíveis, apresentados por ordem alfabética do primeiro nome e, em simultâneo, mostrar algumas imagens de repressão e duas fotografias icónicas: a de um homem e a de uma mulher, compostas, cada uma, por centenas de outras fotografias.
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11.5.18
Uma rua para os assassinados pela Pide em 25 de Abril de 74
João Arruda, 20 anos, estudante açoriano a viver na capital. Fernando Gesteiro, 18 anos, transmontano empregado num escritório. Fernando dos Reis, 24 anos, soldado da primeira companhia de Penamacor, de licença em Lisboa. José Barnetto, 37 anos, natural de Vendas Novas.
Os quatro foram assassinados pela PIDE no dia 25 de Abril de 1974. Os quatro deveriam fazer parte do nosso dédalo de ruas, travessas e praças, resgatando-os ao silêncio e à indiferença por onde a cidade os leva há demasiados anos. Levados pelo entusiasmo do "dia inicial inteiro e limpo", rumaram entre dezenas de outros populares à Rua António Maria Cardoso, topónimo de péssimas memórias e esperanças de sobra. Naquele dia, sacrificaram as vidas à liberdade que então começava, abatidos por gente acossada e sem futuro. Uma revolução de cravos no lugar das balas, e no entanto.
44 anos depois, os abaixo-assinados põem à consideração da Câmara Municipal de Lisboa, e respectiva comissão de toponímia. a proposta de atribuir os nomes de João Arruda, Fernando Gesteiro, Fernando dos Reis e José Barnetto a um arruamento ou lugar da capital. Por dever de memória para com aqueles que viveram a liberdade durante apenas algumas horas e que podem ajudar-nos a dar a essa palavra um significado maior. São eles os heróis improváveis da revolução. Não permitamos que se lhes junte o adjectivo "esquecidos".
Pedem deferimento, os abaixo-assinados:
Adília Rivotti, antropóloga / Afonso Gonçalves, desenhador / Afonso Moreira, médico / Agostinho A. Gaspar Gralheiro, reformado / Albertina Costa, assistente social / Alda Barreto, reformada / Alda Rocha, comunicadora de ciência / Alexandra Silvestre Coimbra, psicóloga / Alexandre Abreu, economista / Alexandre Café, operário / Alexandre Martins, jornalista / Alfredo Poeiras, mestre vidreiro / Alice Carvalho, professora / Alice Vieira, escritora / Alina Silva, assistente social / Álvaro de Abreu, operário fabril e militante comunista / Amadeu Baptista, escritor / Amaro Franco, alfarrabista / Ana Amélia Bouça Monteiro, bancária reformada / Ana Benavente, professora / Ana Berkeley Cotter, tradutora / Ana Catarino, antropóloga / Ana Deus, psicóloga / Ana Luísa Rodrigues, jornalista / Ana Mafalda Pires, arquitecta / Ana Margarida de Carvalho, escritora / Ana Maria Monteiro, trabalhadora independente / Ana Matos Pires, médica psiquiatra / Ana Moreira, designer / Ana Neves, psicóloga / Ana Nunes, professora / Ana Nunes Cordeiro, jornalista / Ana Paula Meneses, técnica de teatro na reforma / Ana Ramos, animadora socio-cultural / Ana Reis Saramago Matos, galerista e curadora / Ana Sofia Costa, antropóloga / Ana Sofia Fonseca, jornalista / Anabela Aguiar, professora / Anabela Mota Ribeiro, jornalista / André Abreu, estudante/livreiro / André E. Teodósio, actor / Andreia Azevedo Moreira, funcionária pública / António Alberto Alves, livreiro e sociólogo / António Bettencourt, professor bibliotecário / António Cabrita, escritor / António Castanheira, biscateiro / António Diogo d’Orey Capucho, arquitecto / António Gamboa, maquinista ferroviário / António Gouveia, contador de histórias / António Mariano, estivador / António Neto Brandão, advogado / António Rosado da Luz, economista e coronel reformado / António Sérgio Curvelo Garcia, engenheiro químico / Armanda Paula Silva, técnica de farmácia /Augusto Brito, funcionário público / Barbara Baldaia, jornalista / Bárbara Reis, jornalista / Belandina Vaz, professora / Bernardo Mendonça, jornalista / Bruno Carapinha, funcionário público / Bruno Rebelo, técnico comercial / Bruno Simões Castanheira, fotojornalista / Carla Barroso, professora e tradutora / Carla Dias, educadora artística / Carla Fonseca, doméstica / Carlos Mendes de Sousa, professor / Carlos Moreira, reformado / Catarina Coutinho, professora / Catarina Félix, técnica superior de história / Catarina Homem Marques, assistente editorial / Catarina Rodrigues, psicóloga / Catarina Vieira e Castro, professora / Célia Costa, produtora cultural / César Laia, investigador / Céu Ribeiro, professora / Clara Farracho, socióloga / Cláudia Diogo, livreira / Cláudia Marques, designer / Claudia Martins, professora / Cláudia Santos Silva, arquitecta / Cristina Aragão Teixeira, consultora de Comunicação / Cristina Basílio, professora / Cristina Gameiro, arqueóloga / Cristina Paiva, actriz / Daniel Filipe Martins, consultor estratégico / Daniel Martins, arquitecto / Dário Duarte, informático / David Almeida, actor / David Crisóstomo, estudante / Denise Pereira, poeta / Diana Barbosa, gestora de comunicação / Diogo Coimbra, chef de cozinha / Duarte Pereira, livreiro / Duarte Rocha Martins, arquitecto / Edgar Medina, argumentista / Eduarda N. Pinto Basto, reformada / Eduardo Antunes, técnico de formação / Eduardo Viana, arquitecto / Eliana Tomaz, designer / Elisa Seixas, professora / Elsa Ligeiro, editora / Emiliana Silva, professora / Eugénia M. Pires, economista / Fábio Duarte, estudante / Fátima Pina Cabral, médica / Fernanda Neves, actriz / Fernanda Riflet, professora ensino secundário, reformada / Fernando Guimarães, professor / Fernando Pereira, artista /Filipa Alves Coelho, urbanista / Filipe Correia, professor / Filipe Homem Fonseca, guionista / Filipe Prior, técnico de informática / Filipe Rodrigues, alfabarrabista / Filipe Rosas, médico / Filomena Tavares, trabalhadora independente / Francisco Craveiro, estudante / Francisco Belard, jornalista / Francisco Pedroso, engenheiro / Francisco Rebelo, assistente técnico / Francisco Ribeiro, bancário / Gabriela Lourenço, jornalista / Gabriela Ruivo Trindade, escritora / Gaspar Matos, bibliotecário / Glória Franco, educadora de infância / Gonçalo Calado, professor / Gonçalo Frota, jornalista / Gonçalo Mira, editor / Gonçalo Santana, director criativo e autor / Guilherme Pires, editor e tradutor / Hélder Beja, jornalista / Hélder Gomes, jornalista / Helena Abreu, professora reformada / Helena Ales Pereira, assessora de comunicação / Helena Alves, Gestora / Helena Alves Velho, psicóloga clínica / Helena Araújo, engenheira química / Helena Dias, jurista / Helena Mendes, pintora / Helena Romão, musicóloga / Henrique Dória, escritor / Humberto Rocha, escritor / Hugo de Sá Nogueira, operador de som / Ilda Roquete, actriz / Inês Bernardo, produtora / Inês Castro, professora / Inês Lago, antropóloga / Inês Meneses, desempregada / Inês Pinto, estudante / Inês Rodrigues, professora e revisora / Inês Subtil, jornalista / Irene Alexandra da Silva Duarte, técnica de vendas / Irene Flunser Pimentel, historiadora / Isabel A. Ferreira Gould, investigadora / Isabel Caldeira, professora / Isabel Godinho, professora / Isabel Leiria, professora universitária aposentada / Isabel Minhós Martins, editora / Isabel Sofia Carreira, advogada / Isabel Vasconcelos Ferreira, professora aposentada / Isaura Lobo, produtora cultural / Jaime Rocha, escritor / Joana Lobo Antunes, comunicadora de ciência / Joana Lopes, gestora reformada / Joana Manuel, actriz / Joana Oliveira, psicóloga / Joana Teixeira Silva, trabalhadora independente / João Albuquerque, investigador / João Almeida, químico / João Bacelo, biólogo / João Branco, engenheiro / Joao Carlos Lages, advogado / João Carlos Martins, investigador / João Carvalho Pina, fotojornalista / João Costa, produtor gráfico / João Eduardo Costa, programador web / João Fazenda, ilustrador / João Freitas, empresário /João Gaspar, biólogo / João Louçã, antropólogo / João Manuel Rocha Pinheiro, trabalhador agrícola / João Miguel Louro, gestor de equipa / João Miguel Pires Ventura, professor / João Monteiro, estudante de doutoramento / João Paulo Baltazar, jornalista / João Paulo Roubuad, professor / João Pico, editor de vídeo / João Ribeiro, professor universitário / João Silvestre Lima Andrade, empresário agrícola / João Vieira, guionista / João Villalobos, consultor de comunicação / Joaquim Carreira, cidadão / Joaquim Gonçalves, livreiro / Joel Neto, escritor / Jorge Almeida e Pinho, professor / Jorge Carneiro, engenheiro informático / Jorge Carvalho, funcionário público / Jorge Freitas, professor / Jorge Martins Rosa, docente universitário / Jorge Morais, professor universitário / Jorge Pinto, engenheiro e utopista / José Alexandre Ramos, técnico administrativo financeiro / José Armando Mendonça Carmo, aposentado / José Bandeira, cartoonista / José Carlos Tavares, jardineiro / José Júlio Curado, árbitro, professor e organizador de torneios de bridge / José Luís Cardoso, instrutor / José M. Carvalho, professor / José Manuel Duarte Fernandes, professor do ensino secundário / José Manuel Ferreira dos Santos, empregado de escritório / José Manuel Marques da Silva Tavares, designer e cenógrafo / José Mário Silva, jornalista / José Nuno Pimentel, jornalista freelancer / José Rui Ferreira, engenheiro electrotécnico / José Silva Pinto, jornalista / José Vale, museólogo / José Viana, vendedor / Judite Lopes, desempregada / Juliana Maar, fotógrafa / Laura Faia, assistente editorial / Laura Ramos, jornalista / Lena d'Água, cantora / Leonardo Conceiçao, psicólogo / Leonor Cintra Gomes, arquitecta / Lígia Esteves dos Santos, professora / Liliana Pacheco, coordenadora editorial / Lina de Lonet Delgado, jornalista / Luís Bernardo, técnico de projectos / Luís Brântuas, contabilista / Luis Carlos Tavares Severo, arquitecto / Luis Ferreira, designer gráfico / Luis Filipe Cardoso, empresário / Luís Gomes, mediador de seguros / Luís Gomes, marinheiro e jornalista / Luís Graça, linguista e professor / Luís Guerra, jardineiro de livros / Luís Januário, médico pediatra / Luís Leiria, jornalista / Luis Manuel Santos Silvestre, reformado / Luís Martins Pote, psicólogo clínico / Luis Miguel Oliveira, crítico e programador de cinema / Luís Pimenta Lopes, professor/investigador / Luisa Borges, professora e investigadora / Luisa Lobão Moniz, professora / Luísa Sol, arquitecta e investigadora / Lutz Bruckelmann, arquitecto / Madalena Silva, funcionária pública / Mailis Gomes Rodrigues, investigadora / Manuel Barbosa, comercial / Manuel Cruz, reformado / Manuel Graça Dias, arquitecto / Manuel Henriques, arquitecto / Manuel Lourenço de Castro Rodrigues, director comercial / Manuel Marcelo Curto, embaixador jubilado / Manuel Vieira, assistente social / Manuela Brito e Silva, reformada / Manuela Carvalho, professora aposentada / Manuela Correia, psiquiatra / Manuela Rombo, farmacêutica / Márcio Mendes, arquitecto / Marco Dias, director de arte e artista / Margarida Belchior, professora / Margarida Duarte, documentalista / Margarida Ferra, assessora de comunicação / Margarida Louro, professora / Margarida Pino, bibliotecária / Margarida Rendeiro, professora e investigadora / Margarida Salema, investigadora química, reformada / Margarida Varela, professora / Maria Abranches, advogada / Maria Adelina Alves Coelho, reformada / Maria Catarina Horta Salgueiro, tradutora / Maria da Graça Moreira, comerciante / Maria de Lourdes Baginha, professora / Maria de Lourdes Delgado Raínho, dona de casa / Maria de Lurdes Guerra, professora / Maria do Rosário Pedreira, editora / Maria Estudante, terapeuta / Maria Eugénia Alves, professora / Maria Helena Pato, professora / Maria Inês Gameiro, investigadora / Maria João António, pós-produção de filmes / Maria João Luis, actriz / Maria João Pessoa, advogada / Maria Jorgete Teixeira, professora / Maria João Carvalho, professora / Maria João de Sousa Caetano, jornalista / Maria José Almeida, guia intérprete / Maria José Vitorino, professora e bibliotecária / Maria Leonor Castro Nunes, criativa / Maria Leonor Lourenço da Costa, publicitária / Maria Leonor Pereira, gestora / Maria da Natividade Esteves, professora / Maria Manuel Viana, escritora / Maria Manuela Ramos, professora / Maria Ofélia Janeiro, gestora de reclamações / Maria Otília Teixeira Barbosa, psicóloga / Maria Ribeiro, professora / Maria Rosa Pinto, assessora de imprensa / Maria Soledade Alves, reformada e avó / Maria Teresa Dias Pereira, escritora / Maria Tomaz, assistente social / Mariana Avelãs, tradutora / Mariana Garcia, guionista / Mariana Pinto dos Santos, historiadora de arte / Mário Cunha, argumentista / Marisa Filipe, empresária / Markus Almeida, jornalista / Marta Carreiras, cenógrafa e figurinista / Marta Martins, gestora cultural / Marta Rema, produtora / Marta Romana, gestora de formação / Marta Serra, marketing / Miguel Barros, técnico especialista no gabinete MAI / Miguel Gonçalves Mendes, realizador / Miguel Lima, sonoplasta/técnico de som / Miguel Marujo, jornalista / Miguel Morais, desempregado / Mónica Pereira, jurista / Nelson Almeida, customer service manager / Nelson José Paiva, músico / Noélia Oliveira, jornalista / Nuno Artur Silva, autor / Nuno Félix, consultor / Nuno Filipe Ribeiro, bancário / Nuno F. Coelho, consultor de comunicação / Nuno Garcia, knowledge manager / Nuno Martins Ferreira, Professor / Nuno Miguel Guedes, jornalista / Nuno Miguel Madeira Beato Alves, técnico superior jurista / Nuno Oliveira, agricultor / Nuno Rapaz, engenheiro / Nuno Rendeiro, engenheiro civil / Nuno Saraiva, ilustrador / Nuno Serra, geógrafo / Pamela Peres Cabreira, historiadora e investigadora / Patrícia Gonçalves, cientista / Paula Cabeçadas, técnica de Informação / Paula Godinho, professora universitária / Paula Pereira, investigadora científica reformada / Paula Vasconcelos Machado, advogada / Paulo Ferreira, consultor / Paulo Galindro, ilustrador / Paulo Garcia, arquitecto / Paulo Gil, docente universitário / Paulo Granjo, antropólogo / Paulo Jorge de Jesus Topa, professor / Paulo Jorge de Sousa Pinto, historiador / Pedro Baptista-Bastos, advogado / Pedro Diniz de Sousa, técnico de informática / Pedro Filipe Oliveira, actor / Pedro Fiuza, escritor e encenador / Pedro Lascasas, jurista / Pedro Mendonça, dirigente do LIVRE / Pedro Miguel Caetano Martins, psicólogo / Pedro Miguel Esteves Fernandes, professor / Pedro Miguel Pereira, psicólogo / Pedro Miguel Silva, consultor / Pedro Miguel Silva, jornalista e promotor de eventos / Pedro Sérgio Marques Álvares Pereira, professor / Pedro Sousa, publicitário / Pedro Ventura, historiador / Pedro Vieira, guionista e ilustrador / Prazeres Filipe, administrativa / Raquel Gonçalves, jornalista / Raquel Misarela, conservadora-restauradora / Raquel Patriarca, bibliotecária / Raquel Ribeiro, professora e jornalista / Raquel Rocha, estudante / Raquel Simões, designer / Raquel Sofia Moutinho Magalhães, professora /Raquel Varela, historiadora / Renato Costa, advogado / Ricardo Alves, sem profissão / Ricardo Duarte, jornalista / Ricardo Espírito Santo, realizador / Ricardo Fernandes dos Santos, arquitecto / Ricardo Gonçalves, editor/realizador/argumentista / Ricardo J Rodrigues, jornalista / Ricardo Paulino, arquitecto / Ricardo Santos Morte, empresário / Rita Bettencourt Rodrigues, livreira / Rita Correia, psicóloga / Rita Brutt, actriz / Rita Sá Marques, antropóloga / Rita Tomás, assessora de comunicação / Rita Veloso, linguista e professora / Rosa Azevedo, produtora / Rosa Barreto, bibliotecária / Rosa Rebelo, professora aposentada / Rosa Ruela, jornalista / Rosário Freitas Paiva, administrativa / Rosário Melo, produtora de eventos / Rui Alves de Sousa, blogger e podcaster / Rui Anselmo, livreiro / Rui Almeida, auxiliar administrativo / Rui Cardoso Martins, escritor / Rui M. Pereira, antropólogo / Rui Tavares, historiador / Rui Zink, professor universitário / Rute Coelho, advogada / Safaa Dib, dirigente do LIVRE / Samuel Alcobia, arquitecto paisagista / Sandra Alvarez, tradutora / Sandra Barreira, advogada / Sandra Borges, produtora / Sandra Gonçalves, jornalista / Sandra Monteiro, jornalista / Sandra Rocha, fotógrafa / Sara Figueiredo Costa, jornalista / Sara Gamito, advogada / Sara M. Barbosa, professora / Sara Rodi, escritora / Sérgio Lemos, médico / Sérgio Letria, programador cultural / Silvia Alves, designer / Silvia Bentes, farmacêutica / Sílvia Margarida de Leão Borges, enfermeira / Sílvia Moldes Matias, administrativa / Sofia Henriques Cardoso, professora ensino secundário / Sofia Lorena, jornalista / Sónia Oliveira, tradutora /Sónia Marques da Silva, livreira / Soraia Martins, tradutora / Susana André, jornalista / Susana Carvalhinhos, ilustradora / Susana Duarte, programadora cultural / Susana Saraiva, professora / Susana Verde, guionista / Tânia Raposo, consultora editorial / Teresa Nicolau, jornalista / Teresa Sampaio, editora / Teresa Sousa de Almeida, professora universitária aposentada / Tiago Mota Saraiva, arquitecto / Tiago Patrício, tarefeiro / Tiago Reis, estudante / Tiago Rodrigues, encenador / Tiago Simões, arquitecto / Vanda Baltazar, empregada bancária / Vanessa Almeida, investigadora / Vanessa Filipe, arqueóloga / Vânia Maia, jornalista / Vera Silva, alfarrabista / Victor Barros, livreiro / Vítor de Sousa, investigador / Vitor Rodrigues, livreiro / Vitor Sérgio Ferreira, sociólogo
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19.12.17
2.8.16
27.4.16
27.04.1974 – O dia em que os PIDES chegaram a Caxias
O Diário de Lisboa de 27 de Abril relata que, na madrugada desse dia, 170 agentes da PIDE foram levados da António Maria Cardoso para a prisão de Caxias, depois de cerca de outros 200 terem fugido por uma passagem subterrânea que ligava a sede daquela polícia a um outro prédio.
19.12.15
26.4.14
Regressando a 25: à noite, quando a PIDE matou
(A nova placa, colocada esta semana, depois de a anterior ter desaparecido.)
Por volta das 20:30 do dia 25 de Abril de 1974, a partir das janelas da sede da PIDE, hoje transformada no condomínio de luxo, os pides abriram fogo indiscriminado, do qual resultaram quatro mortos e algumas dezenas de feridos que foram socorridos pela Cruz Vermelha e encaminhados para o Hospital S. José e Hospital Militar.
Pouco depois, unidades de Infantaria 1 (Amadora) e Cavalaria 3 (Estremoz), equipados com dois carro de assalto e uma autometralhadora, criam um perímetro estratégico em volta do edifício da PIDE/DGS.
(Som do Rádio Clube Português)
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12.4.14
Os feridos do dia 25 de Abril
@Alfredo Cunha
Se se recordam recorrentemente os cidadãos assassinados pela PIDE, ao fim do dia 25 de Abril de 1974, na Rua António Maria Cardoso, raramente se noticia que também houve feridos, uns ligeiros e outros graves. Nenhuma razão para que os nomes que são conhecidos não sejam lembrados, 40 anos depois de terem sido também vítimas, nas primeiras horas de liberdade.
• Aarão de Almeida, de 44 anos;
• Adriano de Carvalho, de 37 anos;
• Agostinho Manuel Soares, de 18 anos;
• António José Santos Lima, de 17 anos;
• António Maria da Cruz, de 18 anos;
• António Pereira Esteves, de 35 anos;
• António Ribeiro, de 20 anos,
• Armando Nascimento Pereira Reis, de 26 anos;
• Armindo Fernandes de Oliveira, de 16 anos;
• Camélia Ferreira Pimenta, de 23 anos;
• Fernando Pereira, 17 anos;
• Fernando Simão Martins, de 16 anos;
• Francisco José da Silva Ramos, de 20 anos;
• Joaquim Inácio Ruivães Cristo, de 19 anos;
• Jorge Salgueiro Costa, de 24 anos;
• José Dinis Pereira, de 26 anos;
• José Luís Bernardes Fernandes, de 19 anos;
• José Luís Gutierres, de 19 anos;
• José Valente da Silva Mendes, de 19 anos;
• Luís de Oliveira, de 20 anos;
• Manuel Pereira Alves, de 24 anos;
• Maria da Conceição Neto, de 20 anos;
• Maria dos Anjos Afonso Santos Martins, de 21 anos;
• Maria Manuela Cortes Flores, de 23 anos;
• Rogério Teixeira Figueira, de 21 anos;
• Rogério Paulo Osório, de 18 anos;
• Rui Eduardo Alves Morais, de 19 anos.
(Fonte)
Em O Século, de 26 de Abril, notícia detalhada sobre os mortos e os feridos, ligeiros e graves, que deram entrada naquela unidade hospitalar.
Fica aqui também o som da reportagem do RCP:
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3.4.14
Para a «pequena história» de um grande concerto
A propósito de um espectáculo realizado há poucos dias no Coliseu de Lisboa, e que comemorou um outro que teve lugar no mesmo local há 40 anos, o Centro de Documentação 25 de Abril divulgou no Facebook o «Relatório da Brigada de fiscais da Repartição de Fiscalização e Contencioso da Direcção de Serviços de Espectáculos sobre o I Encontro de Canção Portuguesa em 29 de Março de 1974».
Fica aqui para a posteridade, com uma nota especial que me foi enviada pelo meu amigo Alexandre Romeiras: descobriu agora que um dos elementos da referida Brigada, que assina o relatório (Malta Romeiras), era seu familiar próximo. Muitas histórias haverá ainda enterradas em arquivos espalhados por esse Portugal fora!
Contribuição para a história do concerto do Coliseu.
O meu pai tinha três primos direitos:
- Cel Romeiras, com intervenção (contrária) no 25 de Abril – contou-me o Sousa e Castro que teve uma pistola apontada à cabeça, mas a coisa resolveu-se.
- Morgado Romeiras, diretor de abastecimentos da CM Lisboa, saneado, por levar para casa, ao longo de muitos anos, víveres sem fim.
- Juiz Malta Romeiras, que assinava mandatos de captura para o Rapazote (Ministro do Interior), após a prisão dos ativistas pela PIDE, para «legalizar» o acto. Foi considerado agente da PIDE, constando da lista, publicada na imprensa, dos que não se apresentaram.
Este último tinha um filho, Filipe Malta Romeiras, da minha idade, nazi, suásticas como botões de punho, conhecido também pelas provocações e sovas ao Jorge Silva Melo, com o seu grupo.
Um dia houve uma manifestação em frente ao Centro Cultural Americano, na Duque de Loulé, e ele estava em casa de um colega de curso aí residente, à janela. Pois foi ao telefone da casa denunciar todas as pessoas que conhecia, incluindo o dono da casa!!! (...)
Descobri ontem o relatório anexo relativo ao concerto do Coliseu de há 40 anos. Comprova que era agente da PIDE, ou a censura tinha outros agentes? (dúvida minha)
Considerando o relatório uma pequena maravilha, junto em anexo.
Para a pequena história.
Ver as restantes quatro páginas:
1.4.14
Quantas mortes são necessárias?
Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1, a propósito do desaparecimento, da fachada da ex-sede da PIDE/DGS, da placa com os nomes dos mortos de 25 de Abril:
- Quantas mortes são necessárias
para que a sua memória seja guardada e respeitada?
- Depende. Próximo de nós ou
longe de nós?
- Varia?
- Claro. Próximo de nós, um pode
ser bem mais que suficiente. Longe, não basta.
- Como não basta?
- Um jornalista inglês, McLurg,
falando daquilo que Eça de Queiroz descreveu, em Cartas de Paris, como a «abominável
influência da distância sobre o nosso imperfeito coração» e em teorias da
comunicação se diz lei da proximidade espacial ou geográfica, criou mesmo uma irónica
escala de noticiabilidade relativa para os desastres, em que um europeu
equivale a 28 chineses, e a que o jornalista Daniel Ricardo se refere, também
com ironia, como fórmula de número de mortos por quilómetro.
- Tudo depende então da
distância?
- Não só. Há outras proximidades.
De tempo, de cultura, de afinidade. Por exemplo: excepto em casos de Censura,
um morto das “nossas” tropas vale sempre mais, muito mais, em termos
noticiosos, que todos os mortos do “in” – ou, até, desses civis que como
cantava Zeca Afonso, “morrem sem tal saber” e nunca passam da categoria de
“danos colaterais”. Mas, em Leçon de Choses, traduzido por David
Mourão-Ferreira, Guillevic escreveu, O
sangue de um morto por acidente/ Não é o mesmo, na rua,/ Que o de um morto pela
liberdade, / Derramado na mesma rua. //Tem cada qual um modo particular //De
ser vermelho e de gritar.”
- Deve ser isso que mos torna tão próximos, a esses
mortos frente à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, a 25 de
Abril de 1974.
- Mas parece que teriam tido que
ser mais, para conquistar o direito à memória.
Um seria bastante, mas pelos
vistos há quem os considere tão poucos que não merecem ser recordados numa
placa no condomínio em que este país amnésico permitiu que se transformasse o
que deveria ter sido, obviamente, um espaço de memória da Resistência.
- Quantos te parece então que
teriam de ter sido, para não tentarem retirar de vez em quando a placa?
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3.10.12
25.5.12
À Espera de Gustavo
Um texto de Rita Veloso.
Ana Maria estava nervosa. Era dia de o Aurélio voltar para casa e ela aguardava o seu telefonema para lhe dar sinal de que a zona estava segura. Desta vez, não era necessário pendurar panos na janela ou ir marcar árvores pré-estabelecidas. Bastava ele telefonar e ela dir-lhe-ia que o Gustavo viria jantar. Não sei se o jantar da senha tinha data prevista, se bastava isto:
— «O Gustavo vem cá jantar.»
Ana Maria e Aurélio Teixeira de Barros eram os nomes que constavam nos seus BI falsos. Era fácil, na altura, conseguir um BI com uma identidade nova. À volta do Arquivo de Identificação havia sempre gente a quem se podia pagar (dois contos, seria?) para servirem de testemunhas. Bastavam duas pessoas que garantissem que nos chamávamos assim, que tínhamos nascido ali, naquele dia e daqueles pais, que morávamos acolá, que éramos casados. Ana Maria Teixeira de Barros. Muitos anos mais tarde, já depois do 25 de Abril, ainda o meu pai lhe chamava Ana Maria. Dos vários nomes que teve, este foi o que se aguentou mais tempo. Às vezes ouvíamo-lo começar, numa ponta da casa: «Ó, ó, ó...» O hábito era mais forte. Já nem ligávamos, todas sabíamos que era por ela que ele chamava. «Ó...» Ainda hoje, se oiço alguém gritar «Ó...», olho em volta à procura dela. A minha mãe só soube o verdadeiro nome dele em 1969, com a emersão forçada da clandestinidade. Conheceram-se sete anos antes. A casa dela e do marido era uma das muitas casas de apoio do Partido. Deram-lhe guarida. Pouco tempo depois, ela divorciou-se e mergulhou na clandestinidade com aquele homem de quem nem o nome sabia.
— «Tu nasceste na clandestinidade» — explicava-me, quando me contava a minha pré-história, cheia de mudanças de casa, fugas, algumas perseguições. Aos oito anos, fiz uma troca com uma colega da primária: ela ensinava-me o que era uma prostituta, eu ensinava-lhe o que era a clandestinidade. Imensamente esclarecida, fiquei a saber que uma prostituta era uma mulher que se vendia por dinheiro. O que vendia e se haveria outras formas de pagamento, não percebi. A minha colega não ficou melhor. A clandestinidade era o prédio (secreto) onde viviam os comunistas. Tirando aquele complemento circunstancial de lugar — «tu nasceste na clandestinidade» —, nada explica a minha definição. Vivíamos no isolamento quase total, num universo de quatro, como nos desenhos infantis, mamã, papá, eu e a mana, com raríssimas incursões às casas dos vizinhos que partilhavam o famigerado prédio (raríssimas e às escondidas do meu pai, claro está, senão lá teríamos de nos mudar outra vez).
Apaixonaram-se sem ela saber o nome dele nem qualquer pormenor da sua vida que não o ser um clandestino comunista, grande, bruto, mordaz e inteligente, que gostava de Pessoa, e com um olhar incisivo que mostrava que já tinha percebido o que estávamos a sentir ou a pensar, ainda antes de nós nos apercebermos de que sentíamos ou pensávamos fosse o que fosse. Bastou. Quando estava grávida, ele sugeria-lhe nomes para os filhos. Muitas vezes desconfiou de que ele ia buscar aqueles nomes horríveis à família e que pelo meio estaria o dele. É bem possível.
Ficava sempre nervosa nos dias de regresso do Aurélio. Apurava o ouvido, a tentar detectar a motorizada, qualquer barulho inesperado a deixava alerta. Podia vir ele, podia vir a PIDE. Não que achasse que ele vergasse na tortura, mas não era só dele que dependiam... O Verdial tinha sido preso havia uns tempos e uma das casas que denunciou foi a deles. Por sorte, tinham-se mudado uns dias antes, pela simples coincidência de ela se ter cruzado na rua com um antigo controleiro, o que quebrava a segurança da casa. Daquela vez, antes da motorizada tinha de vir o telefonema. E já tardava. Não sabia o que fazer às mãos, tudo lhe caía. Manteve a rotina com as miúdas, refeições, banhos, brincadeiras. Uma com cinco anos, outra com dois e meio, não podia sequer desabafar. Ligou a televisão para se distrair.
Era já de noite e as miúdas dormiam; entretinha-se com uma qualquer tarefa doméstica, quando, numa peça de teatro que passava na televisão, ouviu:
— «O Gustavo não vem.»
Não teve dúvidas sequer. Não era mais supersticiosa do que qualquer um, mas nesse momento soube. Soube que tinha de sair dali e de nos pôr em segurança. No dia seguinte, livrou-se do que pudesse ser comprometedor, emalou o essencial e fomos procurar refúgio na quinta de uns amigos, nos arredores de Lisboa. A mala incluía apenas duas ou três recordações de sete anos em comum: alguns livros do Pessoa e o «Aureliano», do Aragon, onde eu imagino que o meu pai se tenha inspirado para escolher o seu nome falso. Enquanto entrouxou sete anos e nas longas semanas que se seguiram, ouvia permanentemente o Bécaud a cantar-lhe ao ouvido.
«Et maintenant que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie
De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie»
A história deste dia na vida da minha mãe, ouvi dezenas de vezes, a propósito disto ou daquilo. O meu pai nunca nos contou como foi o dia dele. Soube (pela minha mãe? Por amigos dele? Por ele, a contar a amigos? Não sei dizer) que foi preso numa reunião do C.C., juntamente com os «comparsas», e que adormecera pouco depois de chegar à prisão, para frustração da PIDE, amesquinhado que ficou o terror da tortura para que já esfregava as mãos. Um dia encontrei este relato, numa carta escrita em Peniche, no dia em que fez dois anos que foi preso. Infelizmente, o pragmatismo da minha mãe levou-o a reescrever uma carta inicial, sintetizando o dia em sete linhas. A original, mais desenvolvida, deve ter ido parar à lixeira da prisão. Mesmo assim, a sua personalidade analítica e a sua escrita irónica constroem um testemunho que vale a pena. Pelo menos para mim.
«Esta é uma segunda carta. A primeira tenho-a para ali. (...) Já não sei bem como — e não gosto de reler-me — encontrei-me a descrever-te as primeiras horas da manhã deste dia 25 de Maio, mas em 1969; de como as coisas se foram reflectindo na minha cabeça, com uma lucidez, uma calma e também uma coragem de que no próprio momento se vai tendo consciência e espanta; de como as coisas se sucederam, levemente teatrais, às vezes sarcásticas, às vezes violentas, um pouco ridículas como todas estas coisas são, sempre muito tensas, até que – na posição mais incómoda, com espanto geral de todos os comparsas, no auge da tragédia (1.º acto) – adormeci profundamente como um justo. Depois tombara na indesculpável patetice de te contar um pouco destes 730 dias... Reli-me. Ouvi-te a falar-me de retórica, dos disfarces, da autenticidade. Finquei o olhar neste espaço fechado que me cerca e fui concluindo que era forçoso dar-te razão, que nada daquilo te poderia interessar senão muito literariamente (coisa que não sou) e que se impunha para nós ambos escrever-te uma outra carta. É esta.»
(Imagem daqui.)
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21.4.12
Um terrivel testemunho [25 de Abril -4]
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Quando encontrei ontem o Fernando Vicente, no jantar comemorativo do 25 de Abril, lembrei-me de que nunca tinha divulgado este seu testemunho. Aqui fica.
Fernando Vicente nasceu em 12 de Junho de 1941. Foi dirigente estudantil de 1962 a 1967, no Instituto Superior Técnico, onde completou o curso de engenheiro civil. Durante o serviço militar obrigatório, esteve na guerra colonial, de 1968 a 1971. Em 10 de Novembro de 1972, foi preso pela PIDE que o acusou de pertencer ao PCP. Foi submetido a tortura de 14 de Novembro a 17 de Dezembro de 1972.
Militante do PCP de 1962 a 2009, foi um dos quadros mais responsáveis pela realização da Festa do Avante, de 1977 a 2004, e membro do Comité Central deste partido de 1975 a 2004.
Há cerca de um ano relatou, na SIC, as torturas a que foi submetido pela PIDE, quando foi detido em 1972. Terá sido o preso político que a mais tempo de tortura do sono foi submetido (31 dias e noites em 33 dias), em três períodos consecutivos de 5, 13 e 13 dias e noites sem dormir.
. 14.4.12
Ó mãe, eu não posso faltar!! Eu hoje tenho prova escrita!
Este blogue vai publicar, nos próximos
dias, posts relacionados com o 25 de Abril. Este é o primeiro, da Rita Veloso,
e é divulgado hoje porque nele se refere uma carta escrita há exactamente 41
anos.
Há 38 anos a minha mãe acordou-me era
noite cerrada e disse-me que me ia deixar em casa dos meus tios.
Protestei muito, porque ia ter uma prova
escrita e toda a gente sabe que as provas na 1.ª classe são muito importantes.
Não me ligou nenhuma e não me levou à
escola...
Desde então tenho protestado por não me
ter levado com ela para o Largo do Carmo.
Acompanhei a família a seguir os
noticiários, o Fialho Gouveia a fumar desalmadamente enquanto dizia coisas
totalmente incompreensíveis, para mim, pelo menos. Era uma revolução, uma
revolução, diziam os meus tios histérico-nervoso-jubilantemente!
Mas só percebi bem o que isso queria
dizer passados dois dias, quando cheguei a casa depois de umas rotineiras
compras e o meu pai estava sentado no sofá... Aqui? Nesta sala? Em casa?? Neste
sofá vermelho?? O lugar natural do meu pai era o Forte de Peniche, quando muito
o Hospital-Prisão de Caxias. Preso político desde os meus dois anos e meio, ele
estar em casa era improcessável.
(Ah!, preso político queria dizer que
tinha sido preso por política e política não queria dizer roubar carros nem
bancos, como a minhã irmã em vão tentava explicar aos colegas na escola.)
Ao fim de cinco anos a vê-lo através dos
quadradinhos dos vidros do parlatório ou na sombria sala vigiada das visitas
comuns, ter direito a um colo no MEU sofá vermelho foi muito bom!
Obrigada, MFA, Salgueiro Maia, também por
isso!
Nas semanas seguintes já organizava as
manifs do colégio (com direito a porrada dos esquerdistas e tudo!), fornecendo
as letras das músicas da revolução. A minha preferida era o Hino de Caixas;
assim lia eu até a minha mãe me corrigir...
Há 6 anos, no Rossio depois da manif
"furtaram-me" a mala. Lá dentro tinha o meu caderno da 1.ª classe, do
período Março-Abril. Era um registo enternecedor daquela época, com um desenho
fabuloso do primeiro 1.º de Maio, outros com dois burros copiados do livro de
leitura, com as legendas de Marcelo Caetano e Américo Tomás e um Sol a rir às gargalhadas,
ou ainda aquele do aquário com peixes, em que só um terço da água tem cor e ao
lado tem a legenda rebelde "Agora não pinto mais, porque fiquei sem
tinta". Como apanha também Março, o antes era visível
em respostas dos TPC:
P: Qual a profissão do teu pai?
R: O meu pai de momento não trabalha.
P: Gostarias de ter a mesma profissão?
R: Eu cá não gostava nada!
Nunca recuperei esse caderno, nem outros
documentos idênticos que levava... E eram a única coisa que de verdadeiro valor
estava na mala.
Há pouco tempo ganhei coragem para abrir
a caixa das cartas que o meu pai enviou à minha mãe durante aqueles cinco anos.
Permitiu-me ouvi-lo com ouvidos de adulto, tão diferentes dos que tinha quando
morreu... Partilho um excerto, longo, de uma delas, escrita a 14 de Abril de
1971, ou seja, há 41 anos. Diz que escreve como gostaria um dia de falar com as
filhas. Nós ouvimos.
Há meses que ando a ler uma história
universal mediocre, em 20 volumes. (Vê lá tu! Ainda me sucede, como ao
personagem do Eça, dizer depois "escapou-se-me tudo") Ao longo de
páginas e páginas, vão sendo engolidas gerações e gerações. Cartas quase iguais
às que hoje se cruzam, foram já escritas. Transcreve a tradução duma, gravada
em placas de argila há não sei quantos milhares de anos: um homem escreve a uma
mulher perguntando-lhe dum filho, dos parentes, falando-lhe do seu amor, dos
seus projectos e das suas preocupações. Montanhas anónimas de pó! Para quê? Às
vezes, estremeço e caio no Pessoa: "Sempre uma coisa defronte da outra /
Sempre uma coisa tão inutil como a outra / Sempre o impossível tão estúpido
como o real / Sempre o mistério do fundo tão certo como sono de mistério da
superfície / Sempre isto e sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra!"
Mas não é exacto: não foram pó que ao pó regressou; não foram nada
acumulando-se sobre coisa nenhuma. Tudo isto, até estes versos de Pessoa, até
estas palavras, até esta inquietação angustiada, até estas grades, criaram e
acumularam. Estão aqui connosco, todos, neste nosso mundo e em nós. Lembro uma
frase (...) sobre as tendências "naturais" do homem. (...) É do
século XVIII essa óptica de que a "civilização" afasta o homem do que
lhe é natural! Pura idealização a substituir uma outa mística! A história do
homem não é senão a história natural duma espécie animal: a espécie humana.
Bicho sui generis, a sua história é complexa, mais rápida, multiforme, sujeita
a leis também específicas. Mas ainda e sempre uma história "natural":
que outra coisa poderia ser? Dito doutra forma, a natureza do homem constroi-se
num processo histórico; não é qualquer coisa de fixo, transcedente: é o que
historicamente vai sendo. É tolo - e é mau - reduzir a natureza do homem à
bestialidade primitiva: ao viver em hordas, à meia dúzia de gritos guturais, à
promiscuidade, à ainda animalidade do comer, do habitar, do sentir, do amar, do
pensar. Natural também não se confunde com instintivo: negaríamos a realidade
palpável do que melhor construímos e somos - ou podemos ser. À (...) citação
contraponho esta: «é numa fase adiantada da história do homem que se desenvolve
e se produz pela primeira vez a riqueza sensorial "humana", o ouvido
musical, a vista sensível à beleza formal, em suma, os sentidos capazes de
gozos já "humanos". O homem constroi-se a si próprio humano"» Outras
citações ainda mais explícitas eram possíveis. O erro é empobrecer a natureza
humana fixando-a num certo homem duma dada étape histórica. O crime é cobrir
com o manto do "natural" (logo inevitável, logo bom) intuitos ou
sensibilidades ou erros ou caracteristicas grosseiras e mesquinhas - quantas
vezes, afinal, apenas a própria imagem; ou, dito doutro modo, mascarar de
"natural" o que é já rejeitado pelo próprio homem, o que é já hoje
historicamente desumano. Abre-se o caminho ao que se quer e a tudo...
Em quase todas as épocas, grupos de
homens buscam para a vida um sentido alheio ao facto essencial de pertencerem à
espécie humana - ao que chamamos humanidade. E encontram-se sós, angustiados
perante a morte. Alguns atiram-se à conquista cega duma felicidade a curto
prazo, agora e aqui, porque a morte é imprevisivelmente certa. Foge-lhes a
juventude, fogem-lhes os dias. Velhos, velhos, fazem constantemente as contas
ao que ganharam ou perderam: e sempre se perdem por inteiro. Desenfreados (com
mais ou menos verniz supra-espiritual ou supra-sensível), afundam-se em
qualquer ópio: no haxixe ou na sensualidade ou no vinho ou no jogo ou em
qualquer coisa, mais ou menos idêntica. Tentam atafulhar em cada momento uma
eternidade que lhes foge. Revelam por vezes a lucidez de quem sabe que apenas
se atordoa, de quem se sabe um produto alienado e quase sem culpa duma
humanidade que se constrói dividida. "Cadáveres adiados que procriam"
- ainda F. Pessoa. O fenómeno atinge, porém, expressões mais significativas e
complexas em dados momentos históricos: na decadência grega ou romana, no
século XVII da Inglaterra ou XVIII da França, etc; um pouco em toda a parte,
quando esta história tumultuosa que fazemos põe em causa valores estabelecidos
e simultaneamente aliena e destrói os laços dos homens com o humano; quase
sempre, precisamente nas épocas de rotura em que, num outro pólo, transparece
um homem mais humano, se afirma mais rica e exemplar a construção da grandeza
inequívoca do homem. Hoje, também e mais do que nunca: é o mundo marginal dos
hippies, dos provos, dos blusões negros, e o resto - que, afinal, apenas
condensam com maior virulência, como num abcesso, a desorientação de largos
estractos. Mas as caracterísitcas são ainda idênticas: a desumanização, agora
desenfreada, a solidão vazia vazia, o esgotamento, a loucura, o suicídio -
fisico ou não. Alienados no individualismo vazio, no gozo epidérmico,
saltitantes e instáveis na busca do prazer fácil, acordam cada vez mais sós,
mais mortos, mais condenados. Não é uma conclusão moralizante que formulo; é a
constatação do logro, da total ineficácia para construir mesmo e sobretudo uma
qualquer felicidade pessoal, possível apesar de tudo. O homem só se recupera
humano identificando-se com os objectivos naturais (historicamente naturais) da
própria espécie: a ética humanista é válida porque é a única senda possível
para essa identidade (contraditória, turtuosa e turturada, embora) do homem com
a sua humanidade. Eu sei: só se vive uma vida. Individualmente é muito importante,
mas não conduz a nada dar-lhe um qualquer significado imediatista, de
superficie, de flor-da-pele. O encontro com a morte é irrelevante para pedaço
duma humanidade que essa sim se constrói e perdura. Que construímos e em que
perduramos. Naturalmente humana, breve radicalmente humana.
Escrevo-te aos supetões porque
estou de faxina. Não, com certeza, com palavras abertas, não medidas, como
gostava de te escrever. Mas acredita que te escrevo como gostaria um dia de
falar à R e à S, isento, convicto, rebuscando dizer-lhes qualquer coisa de
muito importante para a sua própria vida. Não palavras para me esconder, não
palavras para cobrir fraquezas ou erros ou qualquer outra coisa. Palavras
esforçadas para comunicar com exactidão o que aprendi neste "trânsito mortal".
Porque contraditório, complexo, com isto ou com aquilo, tal como sou - não faço
contas.
27.9.11
Livraria Barata: da PIDE até à ASAE
Foi com um sorriso que li a notícia: um tribunal acabou de absolver a Livraria Barata, libertando-a do pagamento de uma coima de 4.000 euros, que lhe tinha sido aplicada depois de uma fiscalização da ASAE, efectuada em 2007. Por que crime? «Os clientes não conseguiam ver os preços dos artigos expostos na montra.»
Longe de mim desrespeitar a Autoridade em questão, considerar que não é importante ver-se à distância os preços do que se pretende eventualmente comprar, ou defender a «criminosa» utilização de colheres de pau ou de velhos galheteiros em tascas e restaurantes…
Mas a Livraria Barata é um ícone e de ícones «é feita a vida da gente». Fundada em 1957, instalada já então na sua actual localização, na Avenida de Roma em Lisboa, mas em pouco mais do que um vão de escada, ela foi um dos alvos permanentes (julgo mesmo que o principal) das brigadas da PIDE na «recolha» sistemática de livros indesejados pelo regime. Nacionais ou estrangeiros, mais de 4.000 títulos desapareceram dos escaparates durante o Estado Novo.
O seu fundador – o Sr. Barata – era um caso especial na cidade: não se limitava a esperar a chegada dos agentes, escondia os exemplares que podia e vendia-os, tanto quanto me lembro semi-embrulhados, a quem chegava a tempo de ainda os encontrar.
Recordo, como se estivesse a revivê-lo hoje, um episódio absolutamente típico: num fim de tarde de 1972, espalhou-se no Vavá a informação de que Le Portugal baillonné, que Mário Soares acabara de publicar em Paris, tinha chegado à Barata. Porque nos separavam da livraria poucos quarteirões, partimos em debandada e trouxemos todos os exemplares disponíveis. Hoje ressuscitei o meu, de capa amareladíssima – sem preço marcado...
Claro que a «ASAE» dos livros era muito pior há quarenta anos. Mas a burocracia e a caça à multa têm limites e ainda bem que o Sr. Barata já não estava cá para ser julgado por não mostrar bem os livros – ele que sempre se habituou a ter de os esconder o melhor que sabia e podia.
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25.7.11
O primeiro passo
Texto publicado ontem, no Facebook, por Alípio de Freitas.
A decisão do 2.º tribunal criminal de Lisboa, inocentando os cidadãos Margarida, Carlos e José do atentado ao bom nome do major Silva Pais, último director da PIDE, declarando nulas as pretensões a uma indemnização monetária dos sobrinhos do dito major, abre caminho ao estabelecimento do Direito à Memória e à Verdade de todos aqueles que, ao longo de quarenta e oito anos, foram perseguidos pelo fascismo. Creio ainda, que o actual Estado deve começar a conscientizar-se de que terá de indemnizar materialmente as vítimas do fascismo se elas assim o exigirem.
O Estado português de hoje é o mesmo que se implantou em 1910 com a proclamação da República, que se organizou, segundo as normas dos regimes burgueses, republicanos e democráticos. O fascismo não foi um rompimento com o Estado burguês. Foi tão somente uma ruptura com a democracia. Como aconteceu noutros países. O 25 de Abril quis ser uma Revolução mas teve o seu rumo "corrigido" (?) pelo 25 de Novembro, restabelecendo o regime democrático representativo burguês. Revolução teria sido se ao fascismo se tivesse implantado um regime democrático, representativo e participativo. Se se tivesse erguido uma sociedade nova, com a participação activa dos cidadãos. Lá chegaremos pois a esperança num mundo melhor e mais solidário é a Utopia a perseguir.
Mas o que o tribunal não definiu, nem podia definir, é a responsabilidade que todos temos quando permitimos que se branqueie a História, que se apague a memória e se substitua a verdade por uma vaga e improvável lembrança. Esta luta não é uma obrigação só das vítimas. Também é. Mas não isenta a sociedade do seu dever.
Há mais de duas horas que estou para terminar este apontamento...duas horas a olhar para uma folha de papel , com a cabeça encostada na mão onde tenho a caneta. As lágrimas correm-me pelo rosto silenciosamente. É que de repente, ao imaginar os crimes do major Silva Pais, assaltaram-me, em tropel, as memórias vividas dos dias e anos de lutas de morte para que a liberdade, mesmo oprimida, pudesse sobreviver. E das memórias lidas, ouvidas, adquiridas sobre os crimes cometidos em todos os Tarrafais do mundo, em todos os Gulagues, em todos os campos de trabalho e concentração, em todos os antros de terror, covis de todas as PIDES, KGB, GESTAPO, DOI-CODI, CENIMAR ou que sigla fosse. Todos eles vêm comprovar a marca, o ferrete inapagável do TERROR.
Por mim desejaria que o tempo que tudo apaga, não pudesse jamais apagar a memória desse tempo, para que se não repita.
O juiz António Passos Leite que pronunciou a sentença ilibatória de José Manuel Castanheira, Carlos Fragateiro e Margarida Fonseca Santos a certa altura disse :"a crítica pública deve ser um direito e não um risco".
Os que lerem esta crónica reflictam sobre essas palavras. Hoje paro por aqui.
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30.6.11
Ou a PIDE ou a democracia- um texto de Iva Delgado
Publicado hoje na página do Facebook de Humberto Delgado, a propósito do julgamento relacionado com a peça «A Filha Rebelde».
«Trata-se de ofensa ao bom nome de Silva Pais? De o acusar de um crime que não cometeu? De o enredar em teias de suspeição não provadas? De um simples mal-entendido sobre um cidadão como outro qualquer? Estas questões estão a ser levantadas hoje, num tribunal em Lisboa, como se Fernando Silva Pais tivesse sido um pacato major de um pacato Portugal sob o remanso governativo de Oliveira Salazar.
Os ofendidos, um sobrinho e uma sobrinha de Fernando Silva Pais, invocam o direito à reparação da memória deste e pedem justiça na forma de indemnização monetária. A acusação visa concretamente a peça de teatro "A Filha Rebelde" de Margarida Fonseca Santos, baseada na obra homónima dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz. A peça, segundo a acusação, pode levar o espectador a concluir que Silva Pais foi o mandante do assassinato de Humberto Delgado.
Está em causa a cadeia de responsabilização em regimes ditatoriais. No julgamento dos nazis em Nuremberga, a questão era a de saber se quem se "limitava" a cumprir ordens superiores podia ser desresponsabilizado. A Justiça e a História concluíram que não podia. Mas no caso português, curiosamente, a questão é colocada ao contrário: não se pergunta se Silva Pais responde historicamente pelas ordens recebidas de Salazar, mas sim se responde pelos actos cometidos pelos seus subordinados. Por muito absurdo que possa parecer, é mesmo isso que está hoje em causa.
É confrangedor ver a inversão de valores em relação ao papel dos tribunais na era democrática. Se todos os descendentes de figuras históricas do Estado Novo se aproveitassem da legislação democrática para processar por difamação os autores de livros de história, biografias, ensaios, peças jornalísticas, obras de ficção, peças de teatro, séries televisivas, filmes, etc., teríamos uma paralisação intelectual, artística, histórica e cultural jamais vista. Seria a censura absoluta e total. Pior ainda, os autores praticariam a auto-censura.
O julgamento da história e a memória colectiva seriam abandonadas a si mesmos, à deriva por labirintos da memória individual, por trilhos ínvios do esquecimento, por deturpações oportunísticas.
Alguém pode defender que o Estado Salazarista não era um Estado fortemente hierarquizado? Alguém de boa vontade pode afirmar que qualquer agente do Estado podia agir por conta própria sem informar o seu superior hierárquico? Alguém pode defender que um caso tão notório como o caso Humberto Delgado estaria consignado ao âmbito de subalternos? É não ter noção mínima do que foi o salazarismo.
Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o diretor da PIDE despachava diretamente com Salazar. Ora Salazar escolhia a dedo os seus homens, deles dependia a eficácia do poder, deles dependiam a execução das suas ordens e o cumprimento adequado da sua política.
Querer defender o "bom nome" de seu tio e ao mesmo tempo pretender desresponsabilizá-lo é um contra-senso, para não dizer um mau serviço prestado à "memória" desse alto responsável do Estado Novo. É impensável alhear o major Silva Pais dos actos cometidos pela sua polícia política. Esse papel tem uma configuração histórica própria. Assumi-lo tem mais "dignidade" que a menorização patética, por via pseudo-sentimental, de um parente falecido.
Quem se interessar por este caso e concordar ou discordar com o acima escrito pode dar a sua opinião, divulgar ou simplesmente aderir.»
Iva Delgado
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