Mostrar mensagens com a etiqueta angola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta angola. Mostrar todas as mensagens

14.9.16

MPLA: um livro no banco dos réus



Agora que a questão angolana já saiu da nossa agenda mediática, vale a pena ler um texto de Carlos Pacheco, historiador luso-angolano, no Público de hoje: Um livro no banco dos réus: triste espectáculo do MPLA. (Note-se que não conheço nem o autor, nem o livro, mas não é isso que está aqui em questão.)

Alguns excertos:

«Hoje em dia o MPLA como antigo movimento de rebelião que se alçou em armas contra a “intrusão intolerável” do colonizador para defender os direitos pátrios dos angolanos pouco se distingue do inimigo colonialista que combateu. Com iguais tiques de arrogância e poder ergueu uma fronteira cerrada à sua volta e obstina-se em ser o único porta-voz da linguagem do independentismo e em se atribuir a si a prerrogativa de posse de todo o conhecimento da história da luta armada de libertação nacional. Pela ameaça e pela repressão fixou a preeminência dos seus direitos ao arrepio dos direitos dos outros. Um espectáculo lamentável que Albert Camus definiria como espectáculo da “sem-razão” ou do absurdo. (…)

Exemplo paradigmático é o livro por mim publicado recentemente, Agostinho Neto, o Perfil de um Ditador. A História do MPLA em Carne Viva. (…)

No meu caso concreto, imputou-se-me o “delito” de incorrer em crenças alheias à pátria angolana e de ser um saudosista do colonialismo. Mas não bastasse este alarde agressivo de chauvinismo e autoritarismo, ainda se tentou amortalhar a obra com a etiqueta abjecta de “insulto ao povo angolano”, como se o MPLA fosse o detentor da arca mágica da vida ou tivesse a representatividade exclusiva de falar em nome da totalidade de milhões de homens e mulheres que compõem a realidade histórica e social de Angola. (…)

Em resumo, o Partido-MPLA coloca-se acima das leis, do país e dos cidadãos e imiscui-se em esferas de actividade que não lhe dizem respeito. Os políticos devem ocupar-se da política e deixar aos historiadores, literatos e a outros profissionais de humanidades o exercício do seu mister. (…)

Ora o discurso da mais alta instância do MPLA é também um regimento de palavras, só que de palavras burlescas e sobranceiras, próprias de quem detém a vara do mando há muito tempo e abusa dela em demonstrações políticas de desprezo e descortesia. Fui condenado em praça pública de modo injusto e tirânico sem que os meus juízes tivessem, ao menos, o cuidado de ler o meu livro com escrúpulo e espírito hermenêutico segundo a história. Ao invés, numa exibição de proselitismo exacerbado, tiraram conclusões apressadas a partir de fragmentos saídos na comunicação social. Esqueceram-se esses “juízes” partidários que as leis fundamentais da República são civis e o Bureau Político ou qualquer outro órgão superior de direcção, incluindo o mais alto representante do aparelho de Estado, se subordinam a tais instrumentos jurídicos. O Partido não impera sobre as leis, tal como imperavam os reis nos sistemas monárquicos absolutos. De acordo com o princípio constitucional da dignidade, as leis prescrevem que todo o cidadão é credor do respeito incondicional à sua dignidade e que este princípio é concretizado no direito à identidade, mas acima de tudo no direito ao bom nome. Ao usar de termos iníquos, o Bureau Político arbitrariamente calcou todos os pressupostos e consequências que dão substância a esta matéria jurídica.» 
.

23.8.16

Angola, ainda

Parece que não se pode falar de Angola porque vivem lá portugueses



«Já perdemos a conta à quantidade de vezes que alguém defende o silêncio, a cabeça baixa ou a defesa incondicional do regime de Angola invocando um argumento: é preciso não prejudicar os interesses dos portugueses e das empresas que escolheram aquele país para trabalhar.

Paulo Portas, assumindo a sua confessada faceta de Oliveira da Figueira, invocou há dias esse mesmo argumento: é preciso criar uma boa relação com Angola para "proteger os 100 mil portugueses, as duas mil empresas", etc. etc. É um mau argumento. Na relação intensa entre Portugal e Angola há dependências mútuas. (…)

Esta influência vai além da economia e estende-se aos partidos políticos e outros centros de influência. Para a elite angolana, Portugal é um refúgio - um lugar familiar e onde têm laços (ao contrário do que acontece com o parceiro China), onde podem estacionar o dinheiro longe do risco do seu país.

Quem, como Portas, exacerba a dependência portuguesa face a Angola - uma posição estranha para alguém que falava muito em soberania durante o programa da troika - passa deliberadamente ao lado da outra dependência, a de Luanda face a Lisboa. Fá-lo por erro de leitura - ou, tratando-se de pessoas inteligentes, porque tem interesses a defender.

Dirão alguns que é legítimo fazer negócios em Angola. Eu também acho que é. E que é legítimo defender o regime para defender esses negócios. Neste último ponto divergimos. Portugal não tem de se imiscuir na governação de outro país soberano - não tem de dizer aos angolanos como serem angolanos. Mas não é disso que estamos a falar, pois não? Do que falamos é do cortejo vexatório de subserviência nos últimos anos, do pedido de desculpas de Rui Machete em Luanda, em 2013, à romaria dos partidos (com honrosa excepção do Bloco) ao beija-mão ao presidente do MPLA, passando pelo receio palpável com que o primeiro-ministro e o Presidente da República comentaram publicamente o caso Luaty Beirão.

É fácil perceber como, do ponto de vista moral, esta é uma posição muito frágil quando falamos de Angola. É fácil ver que o potencial de retaliação de Luanda é limitado. E é importante perceber como esta posição totalmente acrítica defende mais os interesses de alguns do que os da política externa de longo prazo de Portugal em Angola - o risco político naquele país é grande e nunca se sabe quem vai mandar depois de amanhã. Talvez um pouco mais de coluna vertebral e de inteligência estratégica não fizesse mal.»

18.8.16

J. E. Agualusa sobre o congresso do MPLA




«O cuidado a ter com a vasta comunidade portuguesa em Angola justifica esta participação dos partidos no congresso do MPLA?

Acho que é exactamente o contrário. Quando se pensa numa relação a longo prazo, tem que se pensar na relação entre povos, não na relação entre regimes. Este foi o erro que se cometeu com a África do Sul no tempo do “apartheid”, quando se apoiou o “apartheid” até ao fim. Isso não beneficiou nada a comunidade portuguesa, pelo contrário, prejudicou imenso a comunidade portuguesa, que ainda hoje é vista como uma comunidade que apoiou o “apartheid”.

A longo prazo, esta atitude não beneficiaria em nada a comunidade portuguesa, que hoje já não é vista com bons olhos em Angola. É vista como uma comunidade que sustenta o regime. Há diferentes comunidades portuguesas em Angola, há portugueses que estão em Angola há muito tempo e estão perfeitamente integrados e depois há estes novos portugueses que foram em busca de negócios, tentarem fazer a sua vida sem terem grande ligação aos angolanos, nem procurarem ter essa ligação. São comunidades muito diferentes, mas, de uma forma geral, este tipo de atitude não beneficia nada.» 
.

17.8.16

Onde vão já os porcos a andar de bicicleta…




«Hélder Amaral frisou que hoje a linguagem é comum aos dois partidos, depois de algum distanciamento entre as duas forças políticas, salientando que "é um caminho natural que se foi fazendo" e que o CDS fez aquilo que tem feito sempre, que é "saber ler os tempos, os sinais, adaptar-se e atualizar-se".» 
.

4.5.16

Em defesa dos direitos políticos e pela libertação dos 17 ativistas angolanos



«Não há lógica nem conveniência que silencie o nosso protesto perante a flagrante violação dos valores e princípios da democracia, do estado de direito e dos direitos humanos que está a verificar-se em Angola no processo que condenou 17 jovens ativistas – um dos quais luso-angolano – a pesadas penas de prisão, acusados do crime de “actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” por terem realizado a leitura colectiva do livro “Da ditadura à democracia” de Gene Sharp. Partilhamos a convicção de que não há democracia sem liberdade de expressão e reunião e que o seu exercício não pode ser motivo de incriminação. Razão suficiente para nos juntarmos e promovermos uma Sessão Pública em defesa dos direitos políticos em Angola e pela libertação e absolvição, como pede o recurso judicial, dos 17 ativistas detidos.»

Comissão Promotora: Ana Gomes, eurodeputada; Bárbara Bulhosa, editora; Cândida Pinto, jornalista; Carlos Vaz Marques, jornalista; Diana Andringa, jornalista; Dulce Maria Cardoso, escritora; Edite Estrela, deputada; Fernanda Câncio, jornalista; Isabel Moreira, deputada; João Semedo, médico; Jorge Costa, deputado; José Eduardo Agualusa, escritor; Lídia Jorge, escritora; Marisa Matias, eurodeputada; Pacheco Pereira, historiador; Pilar del Rio, jornalista; Ricardo Araújo Pereira, humorista; Ricardo Sá Fernandes, advogado; Sérgio Godinho, músico; Sónia Fertusinhos, deputada.

Lista de subscritora/es: Abel Barros Baptista, prof univ / Adelino Gomes, jornalista / Afonso Bulhosa, estudante / Alain Corbel, artista visual / Aldina Duarte, fadista / Alex Gozblau, ilustrador / Alexandra Lucas Coelho, jornalista / Alexandre Quintanilha, deputado / Alfredo Barroso, cronista / Alice Samara, historiadora / Almeida Faria, escritor / Alvaro Dionísio, aposentado fp / Amadeu Brigas, professor / Ana Bárbara Pedrosa, editora / Ana Brandão, atriz e cantora / Ana Luísa Amaral, poeta / Ana Luísa Rodrigues, jornalista / Ana Matos Pires, psiquiatra / Ana Monteiro, coord de campanhas / Ana Nicolau, realizadora / Ana Nunes Cordeiro, jornalista / Ana Passos, deputada / Ana Zanatti, actiz e escritora / Anabela Mota Ribeiro, jornalista / Anália Gomes, reformada / André Barata, prof univ / André Carrilho, ilustrador / André Freire, prof univ e politólogo / André Pinotes Batista, deputado / Anselmo Borges, padre e prof filosofia / Antero Braga, livreiro / Antónia Pedroso de Lima, prof univ / António Araújo, jurista e historiador / António Arnaut, advogado / António Cardoso, deputado / António Lobato Faria, editor / António Loja Neves, jornalista / António Pedro Vasconcelos, realizador / António Pinho Vargas, compositor / António Sampaio da Nóvoa, prof univ / Augusto M. Seabra, critico / Bernardo Pires de Lima, investigador / Capicua (Ana Matos Fernandes), artista musical / Carla Sousa, deputada / Carla Tavares, deputada / Carlos Fiolhais, cientista / Carlos Matias, deputado / Carlos Quevedo, jornalista / Casimiro de Brito, escritor / Catarina Martins, deputada / Catarina Raposo, arquitecta paisagista / Cecília Mateus, agente de actores / Celma Branco, educadora de infância / Cláudia Clemente, escritora / Cláudia Lopes, produtora de eventos / Cláudia Marques Santos, jornalista / Dalila Rodrigues / Daniel Blaufuks, fotógrafo / Daniel Oliveira, jornalista / Dina Lopes paulo, advogada / Diogo Leão, deputado / Diogo Madre Deus, editor / Domicília Costa, deputada / Dulce Furtado, assessora de imprensa / Eduarda Abbondanza, estilista / Eduardo Lourenço, ensaísta / Eduardo Marçal Grilo, administrador da F.C. Gulbenkian / Elza Pais, deputada / Fernanda Fragateiro, artista plástica / Fernando Alves, jornalista / Fernando Anastácio, deputado / Fernando Jesus, deputado / Fernando Rosas, historiador / Filipa Farraia, artista visual / Filipe Melo, músico e escritor / Francisca Parreira, deputada / Francisco Fanhais, músico / Francisco Louçã, prof univ / Francisco Mangas, jornalista / Francisco Rocha, deputado / Francisco Teixeira da Mota, advogado / Garcia Pereira, advogado / Gonçalo M. Tavares, escritor / Gregório Duvivier, humorista, poeta / Gustavo Cardoso, investigador / Heitor de Sousa, deputado / Helder Costa, encenador / Helena Barros, educadora de infância / Helena Botelho, arquitecta / Helena Cortesão Monteiro, gestora / Helena Pinto, vereadora / Helena Rafael, assessora de imprensa / Inês de Medeiros, deputada / Inês Ferreira Leite, prof univ / Irene Pimentel, historiadora / Isabel Allegro de Magalhães, prof univ / Isabel do Carmo, médica / Isabel Magalhães, jornalista / Isabel Pires, deputada / Ivan Nunes, investigador / Jacinto Lucas Pires, escritor / Jaime Rocha, escritor / Jerónimo Pizarro, prof univ / Joana Cardoso, designer, ex-vice pres Amnistia Internacional/Portugal / Joana Estorninho de Almeida, historiadora / Joana Gorjão Henriques, jornalista / Joana Lopes, dout. em filosofia / Joana Mortágua, deputada / Joana Villaverde, artista plástica / João Bulhosa, designer / João Constâncio, investigador / João Fazenda, ilustrador / João Galamba, deputado / João da Rocha Pinto, historiador / João de Almeida Dias, jornalista / João Luís Barreto Guimarães, poeta / João Paulo Baltazar, jornalista / João Paulo Cotrim, editor / João Pina, fotógrafo / João Pinho, assessor de imprensa / João Salaviza, realizador / João Soares, deputado / João Tordo, escritor / João Vasconcelos, deputado / Joaquim Carlos Matos, reformado / Joaquim Letria, jornalista / Joaquim Vieira, jornalista / Jorge Campos, deputado / Jorge Falcato, deputado / Jorge Leite, prof univ / Jorge Ramos do O, prof univ / José Barreto, historiador / José Carpinteira, deputado / José Gameiro, psiquiatra / José Manuel Mesquita, advogado / José Manuel Pureza, deputado / José Miguel Medeiros, deputado / José Riço Direitinho, escritor / José Soeiro, deputado / José Tolentino Mendonça, poeta / Judite Cília, designer / Lisa Rimil, LAPA / Lúcia Serras Lopes, téc sup f p / Luís Cília, músico / Luís Fazenda, professor / Luís Graça, deputado / Luís M. Jorge, publicitário / Luís Miguel Rainha, publicitário / Luís Monteiro, deputado / Luísa Costa Gomes, escritora / Luísa Salgueiro, deputada / Manuel Carvalho da Silva, sociólogo / Manuela Couto, atriz / Margarida Vale de Gato, tradutora / Maria Antónia Almeida Santos, deputada / Maria Cunha, argumentista / Maria da Luz Rosinha, deputada / Maria do Carmo Matos, reformada / Maria do Céu Guerra, actriz / Maria João Guardão, jornalista / Maria João Lobo Antunes, antropóloga / Mariana Machado, psicóloga / Mariana Mortágua, deputada / Mário de Carvalho, escritor / Marisabel Moutela, deputada / Marta Bulhosa, investigadora / Miguel Cardina, historiador / Miguel Esteves Cardoso, escritor / Miguel Guedes, músico / Miguel Sousa Tavares, jornalista / Miguel Vale de Almeida, prof univ / Moisés Ferreira, deputado / Norberto Patinho, deputado / Nuno Artur Silva, escritor e empresário / Nuno Crespo, investigador / Nuno Miguel Guedes, jornalista / Odete João, deputada / Ozias Filho, escritor / Palmira Maciel, deputada / Paulino Ascensão, deputado / Paulo Corte Real, prof univ / Paulo Pena, jornalista / Paulo Pinto, historiador / Paulo Trigo Pereira, deputado / Pedro Bacelar de Vasconcelos, deputado / Pedro Baptista Bastos, advogado / Pedro Coquenão, músico / Pedro Cortesão Monteiro, prof. Univ / Pedro do Carmo, deputado / Pedro Filipe Soares, deputado / Pedro Gomes, economista / Pedro Marques Lopes, empresário / Pedro Oliveira, prof univ / Pedro Rosa Mendes, escritor / Pedro Soares, deputado / Pedro Teixeira Neves, jornalista / Rachel Caiano, ilustradora / Raquel Ribeiro, escritora, prof univ / Raquel Vaz Pinto, prof univ / Ricardo Rodrigues, jornalista / Ricardo Soares de Oliveira, prof univ / Richard Zimler, escritor / Rita Ferro Rodrigues, jornalista e apres tel / Rita Simões, tradutora / Rosa Ruela, jornalista / Rosário Gama, professora / Rui Cardoso Martins, escritor / Rui Reininho, músico / Rui Tavares, historiador / Rui Vieira Nery, musicólogo / Rui Zink, escritor / Rute Dias, editora / Sandra Cunha, deputada / Sandra Monteiro, jornalista / Sandra Pontedeira, deputada / Santinho Pacheco, deputado / Sara Figueiredo Costa, jornalista / Sarah Saint-Maxent, téc sup da f p / Sérgio Tréfaut, realizador / Sofia Araújo, deputada / Sofia Lorena, jornalista / Susana Almeida, psicóloga / Susana Moreira Marques, jornalista / Teresa Pina, jornalista, ex-pres Amnistia Internacional/Portugal / Teresa Vilaverde, realizadora / Tété Segadães Pereira, empresária / Tiago Barbosa Ribeiro, deputado / Tiago Rodrigues, dramaturgo e encenador / Valério Romão, escritor / Valter Hugo Mãe, escritor / Vanessa Rato, jornalista / Vasco Araújo, artista plástico / Vasco Pimenta, engenheiro / Vasco Pimentel, dir som cine / Vera Tavares, designer / Vítor Sousa, editor / Wanda Guimarães, deputada / Zé Diogo Quintela, humorista / Zé Pedro, músico 
.

4.4.16

PCP: a memória é uma coisa lixada


(Eduarda Sama)

«O PCP foi mesmo um dos partidos que lembraram no parlamento que o governo de Cavaco Silva recusou apoiar na ONU um voto pela liberação de Mandela, em 1987. Cavaco Silva alegava então que não podia intervir nos assuntos soberanos de um outro país e comentar o seu sistema de justiça. O argumento é inaceitável, disse o PCP, e outros partidos insistiram no mesmo. (…) Claro que me dirão que Luaty Beirão não é Mandela. Pois não. Mas os democratas defendem a liberdade de expressão conforme a pessoa em causa? Pois não, por isso Luaty ser diferente de Mandela é irrelevante para este efeito, pois ambos têm direito a serem livres e a protestarem contra um governo de que discordem.»

(Daqui)

2.4.16

Mais uma vez a nossa doença angolana


(Alex Gozblau)

Excertos do texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«O que é que faz PCP, PSD e CDS juntarem-se num voto comum com denso significado político? Angola. O que faz juntar Paulo Portas, Jerónimo de Sousa, Passos Coelho, Assunção Cristas num silêncio mais ou menos incomodado sobre claras e grosseiras violações dos direitos humanos e da democracia? Angola. (…)

Aqueles a que se solta a boca com o que se passa na Venezuela, aqueles que espumam com a viagem de Obama a Cuba, aqueles que correm para escrever artigos indignados com a duplicidade da esquerda face a regimes como o norte-coreano, o cubano, ou o venezuelano, agora explicam-nos que o regime angolano nada tem que ver com o comunismo. É um regime “pragmático”. Lá isso é, mesmo muito pragmático.

O mais espantoso argumento é o que acha que nada se pode dizer sobre o que se está a passar, visto que o que está em causa é o sistema judicial, os tribunais, o “Estado de direito” angolano e isso é tão inquestionável como os tribunais ingleses de juízes e advogados de cabeleira e velhos direitos do júri, onde há habeas corpus e... o primado da lei. Dizer, aliás, o “Estado de direito” angolano devia provocar uma sonora gargalhada, se o assunto não fosse demasiado sério. (…)

Mas há ditaduras e ditaduras. E a questão já não é só ideológica, bem longe disso. Isso era antes e só funcionava para o PCP. Para o PSD, o CDS e parte do PS, é o “pragmatismo” que conta, ou seja, as que estão próximas de nós pelo dinheiro, com essas é que é preciso muita prudência. Na verdade, se investem em Portugal, pagam pelo menos o direito de não serem tratadas como ditaduras, apenas “Estados africanos em construção”, importantes motores de negócios, países mais ou menos exemplares. (…)

O argumento que pensam ser definitivo e arrasador é da “irresponsabilidade” que seria criticar Angola ou estas pessoas poderosas, porque quem iria pagar o preço seriam os portugueses que lá vivem e trabalham. Não é preciso ir mais longe para perceber que, com este argumento, estão a dizer tudo sobre a natureza do regime angolano e sobre a sua “democracia”. Daí vem a tese de que, “para proteger os portugueses”, têm de dançar com os demónios todos. Claro que não lucram nada com isso. (…)

Mas há infelizmente muitos outros, os que de facto não têm defesa. Os portugueses em Angola, os que precisaram mesmo de ir para Angola trabalhar ao apelo de Passos Coelho para “saírem da sua zona de conforto” e para fugir ao desemprego por cá, esses servem para o argumento do silêncio. Na verdade, nada os protege, muito menos o silêncio, porque é o silêncio da fraqueza e os fracos nada podem quando as coisas endurecerem. Enquanto o regime angolano for o que é, nada os protege. Serão sempre as vítimas de um regime que não hesita em retaliar sobre os mais fracos para proteger os mais fortes.

Mas as coisas vão endurecer mesmo. A crise do preço do petróleo faz escassear os bens que os predadores estavam habituados a ir buscar à cornucópia da abundância. Eles se encarregarão de se guerrear entre si pela pouca água que jorra da fonte outrora abundante. E serão os próprios angolanos, aqueles que hoje vão para a cadeia, que acabarão por falar mais alto. Porque têm razão e são corajosos. É com eles que os portugueses deveriam estar.» 
.

31.3.16

Angola: Som do dia




…depois das vergonhosas votações de hoje, na Assembleia da República, de PSD, CDS e PCP. E também do PS que se limitou a aprovar um texto seu em que «lamenta» os acontecimentos e se absteve no do BE, que os «condena».

Respect para BE, PEV, PAN e 17 deputados do PS. 
.

Assim se vê… o PCP, o PCP…



«Não esquecendo a longa guerra de subversão e agressão externa que foi imposta ao povo angolano e que tantos sofrimentos e destruição causou, o PCP tem sublinhado que não acompanha campanhas que, procurando envolver cidadãos angolanos em nome de uma legítima intervenção cívica e política, visam efectivamente pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas e desestabilizar de novo a República de Angola, com a invocação de argumentos e pretextos já utilizados para justificar a ingerência externa exercida sobre outros países, nomeadamente no continente africano.»

Do Avante!
.

30.3.16

Angola: o governo e o seu «nim»


Augusto Santos Silva confia na legislação angolana.

Claro que o ministro dos Negócios Estrangeiros podia dizer mais, até porque um dos seus embaixadores subscreveu isto. Ou talvez fosse melhor ficar calado.

Esperemos para ver como se comporta o PS, amanhã, quando tomar posição sobre o voto que o Bloco de Esquerda já entregou na AR. 
.

8.1.16

A Assembleia da República e as suas diferentes maiorias




Um voto de condenação apresentado pelo Bloco de Esquerda sobre a «repressão em Angola» e com um apelo à libertação dos «ativistas detidos» teve os votos a favor do PAN e de seis deputados do PS, a abstenção deste partido e do PEV e os votos contra de PSD, CDS e PCP.

Que disse este último? «O PCP demarcou-se totalmente desta iniciativa do BE, apresentando uma declaração de voto na qual se adverte que outras forças políticas "não poderão contar" com os comunistas "para operações de desestabilização de Angola". Reiterando a defesa e a garantia das liberdades e direitos dos cidadãos, cabe às autoridades judiciais angolanas o tratamento de processos que recaiam no seu âmbito, de acordo com a ordem jurídico-constitucional, não devendo a Assembleia da República interferir sobre o desenrolar dos mesmos, prejudicando as relações de amizade e cooperação entre o povo português e o povo angolano.» E a Coreia do Norte ali à esquina. 
.