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1.9.20

Não tem de ser um caos



«O estudo em casa pode ter sido o melhor dos piores recursos em tempos de pandemia, mas hoje sabemos como o ensino presencial é insubstituível. Meses depois do primeiro susto, o regresso às aulas não tem de ser uma impossibilidade, nem um caos.

Assim como o SNS, também a Escola Pública precisa de cuidados e preparação para cumprir o seu papel enquanto serviço público essencial e universal. Com um corpo docente envelhecido e falta crónica de técnicos especializados e trabalhadores não docentes, há muito que as medidas mais importantes estão identificadas. A covid só aumentou a sua urgência.

No regresso à escola, as regras sanitárias são certamente importantes, mas não podem ser asseguradas sem o pessoal de apoio necessário. O distanciamento social deve ser levado em atenção, mas vale de pouco com turmas sobrelotadas em espaços limitados. O ensino de qualidade tem de ser prioridade, mas é ameaçado pela falta de professores, agravada pela necessidade de substituir todos os que se insiram em grupo de risco.

Em Lisboa, o Agrupamento de Escolas Vergílio Ferreira, que esteve aberto durante todos estes meses para receber os estudantes filhos de trabalhadores essenciais, não registou qualquer surto de covid. Isto porque foi possível garantir que tanto o espaço como o número de professores e técnicos eram adequados à quantidade de crianças. Embora na Autarquia de Lisboa (onde o Bloco é responsável pela pasta da Educação) todas as escolas cumpram pela primeira vez os rácios de funcionários por aluno, esse cumprimento é responsabilidade do Ministério da Educação. Se o Governo já estava em falta porque nunca chegou a implementar a revisão de rácios aprovada no Orçamento de 2020, agora tudo isso se tornou insuficiente.

Em Madrid as turmas já começaram a ser desdobradas. Em Portugal essa medida (óbvia) de proteção da comunidade escolar foi rejeitada no Parlamento com os votos contra do PS e da Direita. Foi tempo que se perdeu para preparar o ano escolar que agora começa.

Chegamos hoje a setembro e o Governo não contratou mais pessoal nem fez o levantamento das necessidades de professores. Não preparou a redução das turmas nem assegurou o desdobramento dos espaços, recorrendo, por exemplo, às autarquias. Falta fazer quase tudo, mas isso não é desculpa quando se sabe o que tem de ser feito para evitar que o início do ano escolar seja um caos.»

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18.7.20

Não nos podemos dar ao luxo de criar uma geração perdida


«Não deixemos ninguém para trás, em particular os mais necessitados e mais vulneráveis, não só no seio das sociedades mais desenvolvidas, mas também e sobretudo nas sociedades mais frágeis e afectadas por conflitos. A título de exemplo da impressionante escala do desafio que temos pela frente, recorde-se que actualmente apenas 3% dos refugiados estão matriculados no ensino superior, em comparação com 37% no plano global. E, no entanto, sabemos bem o quanto o ensino superior protege, reforça a resiliência e promove a inovação, as competências e a cultura de empreendedorismo que são cruciais para a recuperação económica e a criação de emprego, constituindo uma base mais sólida para a recuperação sustentada a nível global.

Hoje, no dia do aniversário de Nelson Mandela, que nunca deixou de valorizar a aprendizagem, a educação e o conhecimento como forma por excelência de afirmação da liberdade humana, e que enquanto esteve detido em Robben Island completou um curso universitário por correspondência, lembremos as suas inspiradoras palavras para nos guiar na acção e dar força na luta pela construção de um mundo mais próspero, justo, livre e pacífico – “A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo.”»

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22.6.20

A escola ficou numa redoma



«A todos os que acreditam no discurso fofinho que diz que a experiência de manter os filhos em casa durante quatro meses com aulas através de um computador portátil tem sido enriquecedora, porque confrontou os pais e os docentes com novas exigências, tenho a comunicar o seguinte: acordem desse sonho pateta.

Porque aquilo que encarregados de educação, alunos e professores têm vivenciado desde que a pandemia os afastou do ensino presencial assemelha-se mais a um inferno laranja do que a um céu azul-celeste. Não quero ser tremendista, mas nunca como agora reconhecemos tanta importância aos educadores dos nossos filhos e ao contributo da escola para garantir o equilíbrio emocional dos estudantes e a harmonia das famílias. Bem hajam.

Mas o quadro que se nos apresenta é assustador: termos crianças arredadas, de março a setembro, das rotinas escolares, da aprendizagem, do convívio com colegas e professores, pode ter um efeito devastador sobretudo junto dos mais frágeis, que não beneficiam do fácil acesso às tecnologias, que estão privados de uma boa retaguarda familiar e cujo modesto poder aquisitivo dos pais não lhes permite estar em casa indefinidamente em teletrabalho a ligar e a desligar o "Teams". A isto, acresce o facto de, com o desconfinamento e a reabertura económica, tudo ter avançado menos a escola. Em certo sentido, os alunos ficaram esquecidos numa redoma.

O Ministério da Educação confirmou finalmente que, em setembro, todas as aulas serão presenciais (veremos), mas há ainda um mundo de incertezas até ao fim do verão. O enorme intervalo de tempo sem aulas justificaria que se implementassem medidas mitigadoras, como defende, por exemplo, a Unicef. Uma delas poderia passar por um regresso antecipado, de uma ou duas semanas, que ajudasse não apenas a sarar as feridas do agora, mas fundamentalmente que lançasse bases para o próximo ano letivo, não castigando ainda mais aquilo que se antevê vá ser um arranque de loucos. Sem aulas, sem professores e sem ajuda, houve muitos alunos que ficaram para trás. Nisso, a escola não cumpriu a sua vocação primordial: em vez de criar pontes educativas, ergueu muros de silêncio.»

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20.6.20

Não podem estar bons da cabeça



«Esta semana, o assunto natural seria o Orçamento do Estado. Porém, do Palácio de Belém veio outro magno assunto: Lisboa vai ser palco de sete jogos de futebol. As imagens que de lá nos chegaram esclareceram o mistério do paradeiro do ministro da Educação.

Por toda a Europa, gizam-se planos e estratégias para a retoma das aulas. Em muitos países, as aulas já funcionam. Encontraram-se várias soluções. Nuns países, são ao ar livre; noutros, são em dias alternados; há ainda os que recorreram às universidades e estádios de futebol. No caso de França, as aulas funcionarão em pleno já a partir de segunda-feira. Uma preocupação constante é, obviamente, a de recuperar os alunos que ficaram para trás. Como escreve Susana Peralta no “Público”, em Inglaterra haverá programas de recuperação no verão e já se anunciou um plano de contratação de explicadores para os alunos mais atrasados. Na Bélgica, as aulas recomeçaram para os que em fevereiro mostravam ter mais dificuldades.

E em Portugal?! Nada. Na semana passada, o Conselho de Ministros aprovou um Programa de Estabilização Económica e Social (PEES) sem uma linha sobre retorno às aulas. Aprovou-se um Orçamento sem uma linha dedicada ao reforço de recursos humanos nas escolas, que facilitassem a transição e ajudassem estudantes que precisem. O diretor de turma da minha filha nem sabe se, em setembro, as aulas serão presenciais ou não. Como diz Susana Peralta, o ministro da Educação finge que nada disto é com ele. O que já é do domínio do ministro é dar uma prenda aos profissionais de saúde portugueses. E que prenda!: garantir que a Final Eight da principal competição de futebol da UEFA se realiza em Lisboa. Vemos na fotografia que ilustra o artigo como Tiago Brandão Rodrigues estava empenhado nesta magnífica oferenda. É como se, em vez de um ministro da Educação, tivéssemos um organizador de eventos, provavelmente na dependência orgânica da Secretaria de Estado do Turismo (porque organizar o evento da abertura das escolas parece que não).

A hipótese de não haver ninguém a trabalhar no Ministério da Educação ganhou consistência quando a minha mulher me disse que as escolas estavam a pedir aos alunos que devolvessem os manuais escolares. Vamos lá ver. Este ano as aulas só funcionaram no 1º período e numa parte do segundo e há dezenas de milhares de alunos sem apoio dos professores. É capaz de ser um pouco óbvio que os alunos vão precisar dos manuais durante as férias. Pelo menos os que quiserem estudar. Mesmo que não estudem, no próximo ano letivo, os professores terão de cobrir parte da matéria que ficou por dar este ano. Portanto, pensei que as escolas estivessem simplesmente a aplicar os procedimentos dos anos anteriores, sem terem sequer refletido no assunto. Não liguei muito e disse à minha mulher que ficasse tranquila, que era engano e que a nossa filha não devolveria manuais nenhuns.

Mas não ficou tranquila. Teimosa, insistiu que havia um despacho exigindo a devolução dos livros. E mandou-mo. Não é que há mesmo um despacho?! Foi assinado a 9 de junho, pela secretária de Estado da Educação, Susana de Fátima Carvalho Amador, publicado a 16 de junho, e diz que os manuais têm de ser devolvidos até 14 de julho.

Não se trata de esquecimento. Num ano no qual a escola não funcionou durante mais de um período e em que dezenas de milhares de alunos perderam o contacto com os professores, há mesmo alguém na equipa do ministro da Educação que considera que os alunos têm as matérias consolidadas e não precisam mais dos manuais escolares. Imagino que, no próximo ano letivo, quando os professores quiserem ensinar a matéria que ficou para trás, os alunos deverão procurá-la na internet. Se calhar é por isso que os 400 milhões previstos no PEES para a Educação estão destinados à Escola Digital.

Lamento, mas a incompetência não explica tudo. Simplesmente, naquele ministério, não podem estar bons da cabeça.»

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19.6.20

A verdadeira Liga dos Campeões é a educação



«Muitas vozes se levantaram a denunciar o silêncio e inação do Ministério da Educação. Correndo o risco de esquecer algumas pessoas, Alexandre Homem Cristo, Carla Castro, Fernando Alexandre, João Miguel Tavares, Luís Aguiar-Conraria, Maria João Marques, todos escreveram, alguns repetidamente, sobre a forma como seis meses sem escola comprometem o futuro de uma geração. Hoje, junto-me ao coro de indignadas e indignados.

No site da UNESCO, há uma página dedicada aos encerramentos de escolas devidos à pandemia da covid-19. O mapa animado permite segui-los ao longo do tempo. No final de março, o mundo todo surge coberto por um manto roxo (escolas encerradas em todo o país), com muito poucas exceções cor-de-rosa (escolas encerradas em algumas regiões do país). Nessa altura, 91,3% das alunas e alunos do mundo estavam fora da escola. A partir de dia 10 de abril, começam a surgir manchas azuis, que é a cor dos países que reabriram escolas.

Na quarta-feira, sobravam 62,3% dos alunos afetados por encerramento de escolas. Uma parte substancial destes estão nos continentes sul-americano e africano, onde persiste um encerramento quase total das escolas. Em África, é uma catástrofe humanitária. Durante a epidemia do ébola, houve um aumento de abusos sexuais e gravidezes nas adolescentes. Esta semana houve um apelo de várias organizações, devido ao risco acrescido de mutilação genital por as meninas estarem fora da escola. Mas não é só em África que a escola é um instrumento de controlo social para situações de risco. Na semana passada, a Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil anunciou um preocupante aumento nas denúncias de situações de crianças que estão a trabalhar, sobretudo na restauração. Também há um agravamento da violência doméstica, que vitimiza especialmente mulheres e crianças.

Ainda segundo o site da UNESCO, neste momento, na Europa, a norma é ter escolas a funcionar. Vários países já abriram todas as escolas: França, Suíça, Áustria, Croácia, Estónia, Suécia, Noruega. Todos os outros, à exceção de Portugal, Itália e Irlanda, estão abertos de forma “localizada”, que é como quem diz, com algumas partes do país fechadas e outras não. Fazemos, portanto, parte da minoria de três países com escolas encerradas.

Em todos estes países, foi necessária criatividade para reorganizar o ensino em face da pandemia. Algumas escolas estão abertas em dias alternados, horários parciais, com aulas ao ar livre. Na Bélgica, a opção no ensino secundário foi chamar às escolas apenas os alunos que em fevereiro estavam com maior dificuldade de progresso na aprendizagem. Houve quem mudasse de ideias. De novo na Bélgica, onde inicialmente apenas os alunos do sexto ano iam regressar às escolas por estarem em fim de ciclo, o governo acabou por voltar atrás e colocar todas as crianças do ensino básico na escola com horário normal e turmas completas. Macron, que tinha as escolas abertas a meio gás, anunciou esta semana que a partir de segunda-feira todos os alunos do primário e secundário vão estar na escola de forma obrigatória, com horário completo.

E no ano letivo que aí vem? Por enquanto, o que está anunciado é um programa de 400 milhões para equipamento digital. Mas caramba, se o ensino à distância funciona tão mal, será apenas por falta de equipamento? A equipa do economista Raj Chetty, da Universidade de Harvard, teve acesso a informação da plataforma de ensino de matemática à distância Zearn, que já era utilizada por muitas escolas antes do confinamento. O gráfico mostra o número de sessões completadas numa semana de confinamento, comparadas com o pré-confinamento, por código postal. Ou seja: 0% quer dizer que não mudou nada, -60% quer dizer que há uma quebra de 60% no progresso das crianças. Os resultados estão à vista: os códigos postais correspondentes a zonas mais ricas tiveram uma pequena quebra inicial, mas os jovens rapidamente se adaptaram à nova realidade e voltaram ao progresso pré-covid. Já nas áreas geográficas medianas ou pobres as quebras atingem 60%. Se isto se explicasse por falta de meios técnicos, seria demasiado fácil. O problema é que nas famílias com menos educação, empregos menos flexíveis e maiores angústias económicas ligadas à crise, as crianças estão sem ajuda frente ao ecrã.

Para colmatar o atraso das crianças desfavorecidas, são precisas horas de contacto presencial com docentes. É por isto que em Inglaterra o governo vai organizar programas de recuperação no verão e já anunciou um plano de contratação de tutores (se preferir, explicadores) para colocar nas escolas em setembro, ao serviço dos alunos que perderam o comboio da aprendizagem nestes meses de confinamento. Segundo a Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, na publicação “Perfil do Docente” do ano letivo 2017/2018, os docentes com mais de 50 anos são 48% no terceiro ciclo, 52% no segundo, 38% no primeiro e 51% no pré-escolar. Em face do risco da covid-19 ligado à idade, por aqui é mesmo urgente reforçar recursos humanos, em vez de comprar Magalhães.

No meio disto tudo, onde está o ministro da Educação? Pode ser que tenha excelentes razões para não acompanhar os seus parceiro europeus na abertura das escolas. Mas então tem obrigação de as partilhar connosco. Pode ser que tenha informação sobre o sucesso do ensino à distância diferente da que tem sido anunciada, a última das quais pela própria Fenprof, que dizia que mais de metade dos professores não conseguia contactar com todos os seus alunos. Duvido. Uma das partes mais inaceitáveis do silêncio do ministro é a absoluta falta de estatísticas oficiais sobre o grau de cobertura do ensino à distância. Será mesmo que Tiago Brandão Rodrigues não quer saber? Ou será que os números que tem na secretária são tão maus como os da Fenprof e ele não quer que nós saibamos?

Afinal, não era preciso procurar muito para encontrar o ministro da Educação. Estava na quarta-feira em Belém regozijando-se com o país político em peso devido à escolha de Portugal para acolher meia dúzia de jogos de futebol. O espetáculo mediático, em direto do Palácio de Belém, foi confrangedor. Nada menos do que o Presidente da República, o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o ministro da Economia, a ministra da Saúde e ainda o secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Para além de Tiago Brandão Rodrigues, claro. Que ele sabe o que realmente importa para o futuro do país e não ia perder esta festarola. Senhor ministro: a verdadeira Liga dos Campeões é a educação. Já chega de fingir que não é consigo.»

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13.6.20

Não funcionou



«Não eram necessárias grandes avaliações para se descobrir o óbvio: fechar as escolas não funcionou. Não me entendam mal. O encerramento das escolas era uma inevitabilidade (as famílias já estavam a impedir que os filhos fossem às aulas), foi decisivo para conter a propagação da pandemia e, na altura, era um sinal que tinha de ser dado à sociedade.

Mas as evidências não deixam margem para dúvidas. Nesta semana, o “Wall Street Journal” dava conta de que, nos EUA, estimativas preliminares sugerem que, quando regressarem as aulas, as aprendizagens de leitura corresponderão a 70% das de um ano letivo normal e, em matemática, em redor dos 50%. Estes valores são significativamente mais baixos em famílias com menores rendimentos e mais afetadas pelo confinamento.

Entre nós, a Fenprof, com base num inquérito a 3500 professores, chegou sensivelmente às mesmas conclusões. Em meados de maio, mais de metade dos professores (55%) ainda não tinha conseguido contactar todos os alunos, uma maioria esmagadora considerava que as desigualdades se agravaram (94%) e uma grande percentagem (60%) sustentava que o apoio do Ministério da Educação tinha sido negativo (sic).

Numa sociedade que vem recuperando, muito lentamente, nos indicadores de abandono escolar precoce e em que persiste um profundo défice de qualificações, estes meses de ensino à distância deviam fazer soar todos os alarmes. Estamos perante um exemplo gritante de impacto assimétrico da pandemia: com o afastamento físico e simbólico da escola pública, as desigualdades agravam-se e o país delapida um património de conquistas recentes.

A Fenprof tem razão no diagnóstico. A questão, agora, é como resolver o problema. O ensino à distância foi melhor do que nada e tenderia sempre a assentar em bases frágeis (até porque, como é reconhecido no Programa de Estabilização Económica e Social, há défices estruturais de competências digitais na escola, área em que o país esteve dez anos parado).

É impensável, em setembro, iniciar o ano letivo sem aulas presenciais. Só que, tal como colocadas hoje, as exigências de distanciamento físico inviabilizam qualquer forma alternativa de abertura das escolas (não há nem instalações nem professores nem horários para desdobrar turmas). Resta, como tal, flexibilizar as regras e abrir normalmente o ano letivo — com cuidados sanitários acrescidos e coletivamente preparados para, se for caso disso, fechar escolas de um dia para o outro e massificar testes.

Sobra um problema. Como temos percebido, entre os professores a incidência de membros de grupos de risco é desproporcional. Desenhe-se um mecanismo adequado de juntas médicas e financie-se a aposentação para quem corre riscos a dar aulas. Fica certamente mais barato do que o preço que o país pagará se as escolas se mantiverem fechadas. Estou certo de que a Fenprof, tão preocupada com as desigualdades, não deixará de apoiar.»

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27.5.20

Querem mesmo um ensino sem aulas presenciais?



«Confesso que fiquei surpreendido quando ouvi um dirigente sindical criticar a abertura das aulas para o 11º e 12º anos. O que começou por dizer pareceu-me convincente: é preciso garantir a segurança de alunos, professores e funcionários. Mas depois acrescentou, se bem registei, que preferia que se mantivessem as aulas à distância. Eu não prefiro. Por isso é que gostaria de ter ouvido algo mais, que temos que nos mexer para ter as condições para voltar à vida das escolas. O mais depressa possível. Sem aulas presenciais não há ensino.

É provável que sem aulas presenciais também deixe de haver professores. De facto, manda a prudência que se tenha em conta que, se o sistema de ensino for só uma telescola, alguém um dia imaginará que basta um vídeo das aulas de cada cadeira e que se pode repeti-lo ad infinitum. Umas dezenas de figurantes contratados para apresentarem um texto e um powerpoint e está dado o curso. Ponham-lhe o bastão na mão e já verão como é o vilão, saltar da telescola para a youtubescola será um ápice. Este risco profissional pode ser grave, mas ainda assim não é a única ameaça. Até sugiro aos leitores, sentindo o ceticismo de alguns que leram as últimas linhas, que esqueçam por completo esta questão. O que não se pode ignorar, em contrapartida, é que o encanto das novas tecnologias não substitui a relação entre os docentes e os alunos, a atenção ao detalhe, a aprendizagem viva, a insistência e a resposta imediata, as dúvidas durante e no fim da aula, a conversa nos intervalos, as atividades extracurriculares, a forma como os estudantes se envolvem com a escola.

Se quem estuda não reconhecer a escola como o seu lugar de aprendizagem e de socialização e ficar reduzido a aulas por ecrã no canto da sua casa, o percurso da maior parte dos alunos será um desastre. Por exemplo, o ministério da educação de França calcula que, durante os dois meses de confinamento, já 5 a 8% dos alunos “descolaram”, mas o facto é que nesse país chega a 40% a percentagem dos que não entregam regularmente os trabalhos. O sistema educativo não resiste ao artificialismo da distância e pode até acentuar alguns dos seus principais defeitos, dado que a tendência vai ser multiplicar o tpc, inundar os alunos de obrigações, exigir aos pais que vigiem, tutelem e complementem a educação, ocupando obsessivamente o tempo como se isso impedisse as distrações.

Vai ser um ensino-lantejoula, uma coisa assim tipo EdTech, dizem-nos, as aulas vão passar a ser videojogos, uma maravilha, assim a modos que um Fortnite levezinho, vão multiplicar-se as aplicações e os sistemas de motivação, até de vigilância (algumas universidades discutem se podem obrigar os alunos a fazer exame com as câmaras dos computadores ligadas), criando uma feira popular de conteúdos clicáveis. Acabou a hierarquia e a autoridade, a educação passou a ser horizontalizada, dizem e repetem, e eu desconfio. Sem aulas presenciais não há ensino, insisto.

Sem escola física, que aproxima as crianças e os jovens, cada um fica fechado no lugar de onde vem e sobra a desigualdade. Sem universidades e politécnicos não há nem ensino de excelência nem investigação. Sem comunidade escolar não há obrigações nem para os professores nem para os estudantes, nem para as suas famílias.

Por isso, ao ouvir o ministro elogiar o B-learning, um estranho e mal definido cocktail de aulas virtuais e algum atendimento individual, fico ainda mais preocupado. E se, em vez de perdermos tempo com fantasias, pensássemos em soluções mais interessantes? E se fossemos pelo caminho de turmas menores, equipas de professores nos primeiros anos, horários mais curtos e mais desencontrados no secundário? Se começasse a produção de conteúdos de apoio pedagógico pelo ministério da educação, para tornar as aulas mais interessantes? Tudo menos o facilitismo deslumbrado com um mundo virtual em que há entretenimento, mas não há certamente uma educação completa. Se não queremos desistir dos estudantes, devolvamos-lhes a escola, o mais depressa que for possível.

NB- É público e notório, mas registo a declaração de interesses: sou professor e, portanto, profissionalmente envolvido na escolha sobre o tipo de ensino que vamos ter.»

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17.5.20

Escolas


Portanto, as crianças e os adolescentes do Ensino Básico (e do 10º ano) são talvez os únicos portugueses que, na sua totalidade, estão proibidos de regressar ao seu local de trabalho, pelo menos até Setembro.
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13.5.20

E quanto a Creches…



Já saiu o documento emitido pela DGS, que pode ser lido AQUI

Regras realistas, razoáveis? Quem trabalha no domínio duvida ou nega e as reacções continuam. Não esquecer que tudo isto se aplica também às AMAS…
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9.5.20

Creches? Talvez com jaulas…




Mais vale ler toda a notícia, mas eu não sei, nem consigo imaginar, como é que isto tudo vai funcionar com crianças até aos 3 anos.

Pelos vistos não é só cá, como se vê pela imagem: mais valia que arranjassem jaulinhas individuais e metessem lá as criancinhas!
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15.4.20

Uma história do arco da velha (1)



O autor cumpre aqui a promessa de fazer render a prosa e oferece o seu contributo à telescola. Como TPC (Trabalho Para Confinamento), os telealunos devem traduzir o texto que se segue do português coloquial para o formal, de preferência no formato de banda desenhada.

«O Zé dos Anzóis deitou-se com as galinhas, falou com os seus botões, consultou o travesseiro e ferrou o galho com um olho aberto e outro fechado. Habitualmente despertava com o rabo virado para a Lua, mas naquele dia acordou com os pés de fora porque na véspera lhe tinham dito que ia estar feito ao bife. A informação fê-lo ficar com o bicho carpinteiro e a sensação de ter as orelhas a arder. Sentiu a pulga atrás de uma orelha e a impressão de lhe estarem a fazer o ninho atrás da outra. Sem saber para onde se virar, por causa dos maus lençóis em que se encontrava, deixou-se ficar de molho, a passar pelas brasas e a pensar na morte da bezerra. Há alguém a querer fazer-me a cama, concluiu.

Levantou-se de pé atrás e com a telha. Sentiu uma pedra no sapato, disse para si próprio meti a pata na poça e tenho de descalçar esta bota. A barriga deu horas, apeteceu-lhe matar o bicho e dar ao dente. Estava com água na boca, mas tinha a sensação de que o caldo se tinha entornado e que cheirava a esturro. Não estava disposto a engolir sapos vivos naquela caldeirada, mas a coisa não ia ser canja. Que berbicacho!

Na véspera tinha levado com um balde de água fria. Tinha a cabeça em água e água pela barba. Pôs as barbas de molho e decidiu que não podia lavar as mãos, nem sacudir a água do capote, pois já era tempo de deixar de andar entre os pingos da chuva. Se querem lavar a roupa suja, ele iria levar a água ao seu moinho, nem que tivesse de remar contra a maré, sem abandonar o barco, nem meter água. Tudo aquilo trazia água no bico, mas não podia borrifar-se para o assunto. As coisas não podiam ficar em águas de bacalhau.

Estava com cara de pau e olhos de carneiro mal morto, quase a amarinhar pelas paredes acima e a bater com a cabeça nas paredes, mas sabia que não podia enterrar a cabeça na areia. Sentia-se na corda bamba e no fio da navalha, parecia uma barata tonta à nora sem saber a quantas anda. Duvidava ser capaz de dar conta do recado porque a coisa estava mal parada!

Pôs a mão na consciência. Tinha-se posto a jeito e dado barraca. Saiu da casca e dos eixos, pisou o risco, e, por isso, arranjou lenha para se queimar e sarna para se coçar. E também borrou a pintura quando meteu o pé na argola com aquele passo em falso, tendo sido apanhado com a boca na botija. Um bilhardeiro que queria mexer os cordelinhos cortou-lhe na casaca, meteu a foice em seara alheia, o bico onde não é chamado e deu com a língua nos dentes, o que fez com que lhe descobrissem a careca. Mas o tiro ia sair-lhes pela culatra.

Deixa-os pousar! Queriam entregá-lo aos bichos, mas ele não iria fazer figura de urso nem estava disposto a ser o bode expiatório de uma história do arco-da-velha. Atiraram-lhe uma casca de banana e andam com macaquinhos no sótão, mas o melhor é tirarem o cavalinho da chuva. Não ia ficar de braços cruzados, dar o braço a torcer e a mão à palmatória, meter o rabo entre as pernas, fugir com o rabo à seringa, enfiar a viola no saco ou baixar a bola, decidiu.

Deu voltas ao miolo e depois resolveu, num golpe de asa, enfrentar o boi pelos cornos. Agora é que a porca vai torcer o rabo. Como não ia dar de frosques, nem pôr-se na alheta, dirigiu-se a toque de caixa pela calada da noite até à reunião. Bateu com o nariz na porta, mas entrou pela porta do cavalo. Sem dar nas vistas, pôs-se à coca.

A reunião começou em cascos de rolha, na casa do diabo mais velho atrás do sol posto, onde o Judas perdeu as botas. Esteve marcada para as calendas, mas foi antecipada para a semana dos nove dias, lá para as quinhentas do dia de São Nunca à Tarde, o dia em que as galinhas tiveram dentes. Em vez de estar à cunha, a sala estava às moscas e só apareceu meia dúzia de gatos-pingados a dizer que ia cair o Carmo e a Trindade, todos eles fisgados em dar cabo do canastro ao Zé dos Anzóis.»

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16.1.20

Educação: mais um passo em direcção o abismo



«Agora as escolas passam a estar legalmente autorizadas a contratar professores de Inglês, Francês, Alemão ou espanhol para dar aulas de Português no 3.º ciclo e secundário desde que tenham feito um “estágio pedagógico” nesta área. Ou possuam “adequada formação científica para o efeito”. Do mesmo modo a disciplina de Inglês poderá ser leccionada por professores de Português, Francês, Alemão e Espanhol e a de Geografia por professores de História.»
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6.12.19

O tal país de doutores e engenheiros



«Um dos mitos mais perniciosos que a mentalidade salazarista nos deixou foi o de que Portugal era um país com um problema de excesso de mobilidade social ascendente por via da educação. Todos ouvimos a estigmatizadora voz de certas elites criticando querermos ser "doutores e engenheiros".

Ainda hoje assistimos ao estranho caso de nos faltarem médicos, mas a Ordem dos Médicos achar que há vagas a mais no acesso a Medicina. Não tarda faltar-nos-ão professores.

Esse tal país de doutores e engenheiros vai, segundo o Relatório do Estado da Educação recentemente publicado pelo Conselho Nacional da Educação, falhar a meta da União Europeia de que 40% dos adultos entre os 30 e os 34 anos tenham concluído uma formação do ensino superior. Esse tal país tem um ensino superior que não cresce há 20 anos e tem hoje menos alunos do que em 2001, segundo a Pordata. Nesse país há uma corrente maioritária, não só à direita, mas também no Partido Socialista, que defende que os alunos do ensino superior público devem pagar propinas, porque têm acesso a um privilégio e não a um serviço público a que deveriam ter direito. Permite-se que as propinas dos mestrados atinjam valores exorbitantes, se as instituições de ensino superior assim o entenderem.

Havemos de chegar à meta da União Europeia por inércia demográfica, mesmo sem expandir o ensino superior. Talvez até já lá estivéssemos se não fosse o saldo migratório de diplomados ser quase de certeza francamente negativo, embora eu não disponha de dados exatos sobre este ponto.

Mas o que nos devia preocupar não é a meta, é a contradição profunda entre esse mito salazarista e a realidade do trabalho e da vida no século XXI. Bem vistas as coisas, o último grande visionário da expansão do ensino superior foi, ainda no marcelismo, Veiga Simão, injustiçado pela democracia enquanto ministro da Educação com um papel precursor na democratização do ensino, que incluiu a diversificação territorial das universidades e a criação da rede de institutos politécnicos.

As universidades e os institutos politécnicos, muitas delas, parecem hoje estar confortáveis com o estatuto de guardiões das elites passadas contra a necessidade de uma frequência muito mais alargada do ensino superior. Muitas delas fecharam as suas portas aos trabalhadores-estudantes, reagiram mal à ideia bem concebida por Mariano Gago do acesso de maiores de 23 anos aos seus cursos, gostam do atual sistema de acesso que se centra totalmente em notas de exames, anacronicamente, sem ter em conta muitas outras dimensões da vida dos estudantes que podem ser relevantes e que muitos outros países encorajam a incluir nos processos de candidatura.

Mais surpreendentemente, não se vê instituições portuguesas nas grandes redes de ensino superior online, nem a oferecer ensino à distância, nem com vontade de atrair estudantes que não venham aos 18 anos do normalíssimo percurso académico no ensino secundário. A minha assistente na administração do Banco Mundial - de que me preparo para sair - está inscrita num mestrado a distância de uma universidade da costa Oeste, trabalhando em Washington D.C. Por cá, o ensino superior, todo ele, desdenha de ter um papel na educação e formação ao longo da vida.

Há algo anormal quando me é fácil inscrever online, estudar em casa e obter um diploma de uma unidade curricular em Harvard ou no MIT e não o posso fazer em quase nenhuma universidade portuguesa. E com isto estamos a tirar oportunidades aos nossos cidadãos, a prejudicar a nossa competitividade no século XXI e a diminuir a nossa possibilidade de conseguir a transição digital e participar na economia do futuro.

Apesar disso, o debate sobre ensino superior continua a ser quase só sobre ingresso de jovens e o modo de entrada dos alunos do ensino profissional. Mais coisa menos coisa, o mesmo debate dos anos 60 do século passado, quando não se deixava os alunos das escolas comerciais e industriais entrar na universidade em igualdade de circunstâncias com os do liceu. Alguém espalhe por aí a notícia de que o ensino superior está no século XXI e somos um país com poucos doutores e ainda menos engenheiros.»

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15.11.19

A escola tem responsabilidades



«Todas as crianças e jovens têm o dever de ir à escola. E que deveres tem a escola para com eles? O tom em que o PSD e o CDS se pronunciaram sobre educação no debate quinzenal com o Governo sugere que pouco ou nenhum.

Para quem assim pensa há um problema no fim de cada ano letivo quando um aluno não atingiu os objetivos definidos. Mas não têm razão, a retenção é a má resposta que damos a um problema que se forma desde o primeiro dia de aulas, quando uma escola desiste de educar alguns dos seus alunos ou os entrega ao exterior, aos centros de explicações e aos pais, para que compensem essa sua desistência, se tiverem capital social e dinheiro para isso.

Há mesmo quem tenha intelectualizado a ausência de deveres da escola e ache que quando os níveis de retenção descem é porque se instala o "facilitismo", termo inventado por uma corrente de opinião que - como no fantasma que CDS e PSD brandiram - pensa que sempre que melhoram os resultados escolares dos alunos é porque a exigência baixou. Mesmo sabendo que os factos dizem que os alunos portugueses estão a subir nos rankings internacionais de competências adquiridas.

A visão neoelitista que tem muita ressonância na direita (e em alguma esquerda) portuguesa é, no entanto, muito ignorante sobre o que é hoje a educação e para que serve no mundo do século XXI. A escola ocupa um papel nas sociedades modernas que lhe cria um dever especial de preparar todos os seus alunos para viverem numa sociedade complexa, que exige a todos elevado nível de competências, em mudança permanente e que requer uma abertura ao mundo que lhes permita não serem excluídos para a vida logo nos primeiros anos da sua existência. Aqueles que a escola excluir agora muito provavelmente estão lançados numa vida de pobreza e falta de oportunidades. E a escola é responsável por evitar que isso aconteça, porque não pode ser mais um braço da fábrica de desigualdades, tem que ser um instrumento de uma sociedade inclusiva.

A transição da escola irresponsável para escola responsável pelos seus alunos é difícil. Para que a retenção deixe de existir porque a escola é eficaz, muita coisa tem que mudar. Os orçamentos de funcionamento têm que subir. Os quadros de pessoal especializado têm que ser diversificados e adequados ao meio social em que cada escola atua. Tem que haver dentro de cada escola (neste artigo chamo sempre escola aos agrupamentos escolares) poder, competência e recursos para tomar as decisões necessárias no tempo certo. E tudo isto, não ao nível de projetos-piloto ou ações limitadas, mas em todo o território nacional e como prática normal de todo o sistema educativo.

Os governos - alguns deles - bem, têm procurado ter atenção a estas carências e muitos municípios, melhor ainda, têm assumido responsabilidades que permitem criar escolas exemplares. Mas estamos longe de ter atingido o patamar de excelência que necessitamos neste domínio e é muito saudável que o Governo tenha agora a ambição de o atingir.

Os amantes da educação têm um desafio enorme pela frente para criar uma escola responsável pelos seus alunos. E sabem que não é ela que cria a maior parte dos problemas que levam atualmente à retenção, recebe-os da nossa enorme desigualdade social e da segregação espacial. Por vezes, não os consegue mitigar, desiste. Muitas outras vezes consegue e quando consegue põe em funcionamento comunidades educativas inclusivas, que têm muitos protagonistas, mas que passam inevitavelmente por dois perfis da maior importância, a direção e os professores, os maestros e os solistas desta orquestra.

Na minha experiência como sociólogo e como pai já vi escolas prosperar e definhar pelo dinamismo e pela decadência da sua direção. Mas todas as que vi ter sucesso dependeram de um trabalho intenso de professores que acreditam na educação, procuram atualizar-se permanentemente, se dedicam aos seus alunos, têm enorme consciência das suas dificuldades e se mobilizam por eles.

Esse trabalho, infelizmente, não tem sido reconhecido social, política nem salarialmente. Com frequência excessiva tratam-se os professores como se fossem um grupo de gente que se sobrevaloriza, trabalha pouco e tem uma profissão fácil. Nada mais errado. Sem repor uma relação saudável do governo com os professores e sem atuar firmemente na promoção do respeito e dignidade da sua função, sou cético quanto a que se atinjam os resultados pretendidos.

Aos que pensam sobre a escola como Rui Rio faria bem tentarem ser professores, não digo um ano letivo, só um mês.»

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30.9.19

Sem Educação Moral e Religiosa Católica não vale pena ir para a escola



«Sinto-me no dever de dizimar a ideia abjecta do Livre de querer acabar com a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pública. É escusado terminar com uma disciplina que é facultativa. Estamos num Estado laico e, por isso, temos de disfarçar que já não somos um Estado católico nominal. Até aqui funcionava muito bem. A religião católica tornou-se facultativa na escola para que os pais pudessem escolher entre frequentar EMRC ou ir à catequese. É o preço a pagar pela liberdade — as pessoas escolherem alternativas onde praticam a religião católica. Com o recrudescimento da esquerda, agora querem implementar o que está consagrado na Constituição. Não podemos permitir. Já não basta terem limitado a escolha de disciplinas católicas na escola, que se reduziram a uma, quando antigamente havia Álgebra Santa, História dos Três Pastorinhos e mesmo Gramática dos Milagres.

É esta a agenda da esquerda, querem salvar o planeta não sem antes eliminarem totalmente as emissões ideológicas de direita. Se querem eliminar a disciplina de EMRC podiam, ao menos, retribuir e eliminar disciplinas de esquerda, como Português. Todas as pessoas sabem que os professores ensinam poesia aos alunos. Ensinar poesia a pessoas pode levar a que as pessoas possam gostar de poesia. Ultraje! Os leitores de poesia ficam com sentimentos dentro delas que as fazem ficar muito sensíveis. Muitas delas acham que podem, elas mesmas, tornar-se poetas.

Não há nada mais fácil do que escrever poesia, é só colocar palavras ao calha no papel, em que a responsabilidade das palavras fica do lado do leitor, da interpretação que faz, dos sentimentos que lhe transmite. Daí que muitos leitores de poesia queiram ser escritores de poesia: passam a cerrar as sobrancelhas, porque estão em introspecção, compram um caderno Moleskine e passam a sentir que compreendem o mundo quando olham pela janela do metro. Se na esquerda há ódio à religião, saibam que a direita não suporta poetas, a pior espécie de pessoas que existe no éter da existência. Que porcaria de expressão! Falei em poetas e comecei logo a usar palavras de senhoras. Peço desculpa. Se é verdade que há religiões que têm fanáticos e matam pessoas, pelo menos fazem-no de uma forma eficaz, rapidamente. Já um poeta, quando começa a declamar, consegue torturar pessoas durante horas até as matarem de tédio. Agora decidam vocês quem é pior.

Esta proposta do Livre é desumana, sobretudo numa altura em que a disciplina de EMRC foi alargada aos cursos profissionais. Se já é difícil andar numa escola pública, onde pululam as crianças da pior espécie, imaginem o que é serem os maiores falhados dentro de um universo de falhados — os alunos dos cursos profissionais. Retirar o ensino de EMRC a estes seres, a única réstia de esperança para serem salvos pelo Dr. Jesus, é o mesmo que lhes oferecer uma corda, um tamborete e uma trave mestra.

Acabar com uma das últimas disciplinas que ainda confere alguma legitimidade ao ensino público, logo após programação em C++ para recém-nascidos, é em última instância afundar ainda mais o ensino público. É um ter/não ter.

Ter a disciplina de EMRC aproxima o ensino público dos colégios privados ligados à Igreja Católica, estando a maior parte no topo dos rankings de notas escolares. Ter o Dr. Jesus do lado dos alunos implica uma maior probabilidade de haver bom aproveitamento escolar, até porque foi ele que disse: “É mais fácil um menino do Colégio Jesuíta entrar num MBA do que um sociólogo descontar em sede de IRS.” Ter o Dr. Jesus presente nas escolas oferece menores probabilidades de termos alunos a quererem frequentar cursos de Letras.

Não ter o Dr. Jesus curricula implica deixarmos as nossas crianças inocentes de poderem sofrer uma lavagem cerebral por parte do professor de filosofia, que tenta ensinar o sentido da vida através de metafísica, quando deveríamos ter professores de filosofia licenciados em Recursos Humanos; professores que diriam: “O sentido da vida é pensar menos e produzir mais. Só o mercado livre dá sentido à vida.”

Não ter o Dr. Jesus faz com que os professores de História continuem a dizer que o crash da bolsa de 1929 e o 11 de Setembro foram negativos. É verdade que tiveram alguns efeitos menos bons, mas, se há coisa que o Dr. Jesus nos ensina, é que devemos “olhar sempre para o copo meio cheio” (Dr. Jesus dixit in A Bíblia), olharmos para o lado positivo de eventos eventualmente menos bons. No caso do crash da bolsa de 1929, aprendemos que houve consequências negativas, como o nascimento do Estado-Providência, que passou a meter-se no mercado livre — em último caso, se quisermos, no próprio conceito de liberdade. Mas, por outro lado, percebemos que a melhor forma de combater um debacle financeiro é criar entidades financeiras ainda maiores, de modo a que quando essas entidades financeiras voltarem a provocar crises económicas, haverá menos falências de bancos porque o Estado tem a obrigação de salvar o mercado livre. No caso do 11 de Setembro aprendemos que o terrorismo pode ser mau mas, por outro lado, permitiu a ascensão de um dos maiores políticos que o planeta Terra viu nascer: o Dr. Durão Barroso.

Ter o Dr. Jesus na escola é ter a mão direita de Deus na escola que é, como se sabe, um eufemismo para a mão invisível do capitalismo. Não ter o Dr. Jesus é deixar de ter o segurança que ainda conseguia barrar o socialismo à porta e ainda encaminhava algumas crianças para cursos de gestão. Não ter o Dr. Jesus é acabar com a escola pública. O que é triste, não por terminar, mas por ter sido o Livre a reiniciar um processo que o Dr. Pedro Passos Coelho iniciou.

Se pensarmos a fundo, acabar com disciplinas facultativas é cingir os alunos à obrigatoriedade, é impor um percurso único que oprime a liberdade de poder escolher. Impedir alternativas é impor a ditadura da escola pública. Primeiro, a esquerda começou por abater colégios privados, agora está a tentar assassinar a religião na escola, qualquer dia defenestra meninos que vão para a escola vestidos com pólos Lacoste.

Em vez de estarem a propor a proibição de disciplinas facultativas, devíamos todos, enquanto sociedade, oferecer mais alternativas à escola pública, dar maior liberdade ao ensino e referendar novas disciplinas junto dos alunos. Por exemplo, Tourada como alternativa a Educação Física, Rap como alternativa a Português, Excel como alternativa a Matemática, Vídeos de Youtubers como alternativa a Ciências da Natureza, hiperligações da Wikipédia como alternativa a tentar enganar os professores em trabalhos de grupo. E, por que não, referendar se preferem ir para a escola ou não? A liberdade está no poder de escolha, nunca na opressão da escola pública.»

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