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28.8.20

Depois de Trump, o dilúvio



«Corre por aí um meme em que aparece Bernie Sanders ao lado da Ocasio-Cortez, em cima, e Joe Biden ao lado de Kamala Harri, em baixo. A legenda diz: “quando pedes uma Coca-Cola e eles perguntam: ‘pode ser Pepsi’”? Claro que este meme foi feito por um apoiante de Bernie. Se fosse este o sentimento dos democratas, Sanders teria ganho. Só que Biden é o “outro". Aquele que era preferível a Bernie para os centristas e agora será preferível a Trump para os progressistas, sem nunca mobilizar realmente muita gente. E não se pode sentar na vantagem que as sondagens lhe dão, porque o espera o inferno. Para Trump e as suas tropas vale tudo e tudo será feito. Se já é geralmente assim nos EUA,se já é assim com os republicanos há muito tempo, com Trump não há limites para o mergulho na lama.

Nas últimas semanas e na própria convenção republicana, Donald Trump regressou ao que parece ser a sua linha de campanha enquanto as sondagens não lhe correrem de feição: que os EUA se prepararam para o maior golpe da história do mundo. Com ele é sempre em grande. Em causa está a necessidade de alargar o voto por correspondência, devido à covid 19. Na realidade, os democratas até serão os que mais usarão este método de voto. O texto em português mais esclarecedor e sintético que li sobre o tema foi aqui.

A pandemia trocou as voltas a muitos governos. E também as trocou a Trump. Se todos tiveram de improvisar um pouco, a sua resposta foi especialmente incompetente. Uma pandemia não se combate com tweets e polémicas diárias. Nem sequer chega arranjar um inimigo, apesar de Trump, como Bolsonaro, o ter tentado com a China. Não consta que com isso tenha sido salva uma única vida. Para lidar com uma pandemia é preciso mínimos de competência política – e nem assim corre bem – que todo o foguetório de que vive a extrema-direita não consegue simular. E com a pandemia veio a crise económica. A economia, e não o seu discurso incendiário e de ódio, é que lhe podia dar a reeleição. Sobra o discurso da “lei e da ordem” perante a revolta racial. Um discurso que funciona.

Não sei se Trump tem as eleições perdidas. Desde as últimas, em que senti nos EUA coisas bastante diferentes daquelas que por cá se diziam, que desconfio de sondagens e previsões. Sei que tudo está contra ele. E ao lançar a suspeita de fraude eleitoral, Trump dá sinais de nervosismo. Se há quatro anos até um Trump vencia Hillary, pode ser que agora até um Biden vença Trump.

A preparação dos seus apoiantes para a recusa de uma derrota não surpreende. Trump usa a democracia, não acredita nela. Como Bolsonaro, que perante os contrapoderes que qualquer democracia exige põe os seus seguidores a defender golpes militares e o encerramento de tribunais. Todas as instituições e as suas decisões são politicamente contestáveis. Mas contestar é diferente de defender o derrube pela força dos que limitem o poder executivo.

Há uma diferença entre Trump, Bolsonaro ou, à sua pequeníssima escala, Ventura e os outros políticos, sejam moderados ou radicais: eles não têm um projeto de continuidade que exija a preservação das instituições; não têm um programa político que sobreviva ao seu exercício de poder. Eles são o projeto. À sua volta, há quem tenha projeto e os use, há quem tenha interesses e também os use. Bandos de fanáticos e de oportunistas, uns com projetos futuros outros com ganâncias presentes, aproveitam o momento da conquista para a violência ou o saque. Mas eles têm o seu próprio ego como único fim. Não faria qualquer sentido para um político como Trump aceitar uma derrota eleitoral. Ele está nos antípodas de Al Gore, que em nome do futuro do país aceitou uma derrota que estava convencido, ele e muita gente, que não tinha sofrido. Trump nada tem a preservar a não ser o seu próprio poder.»

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3.7.20

Lisboa, mas em território americano




«Centenas de pessoas estão, esta quinta-feira, reunidas na Embaixada dos Estados Unidos, em Lisboa, para comemorar o Dia da Independência dos Estados Unidos, um dos feriados nacionais mais importantes.
Ao que a TVI conseguiu apurar, ainda que não oficialmente, terão sido alegadamente enviados cerca de 1.000 convites e neles estaria a indicação de que o uso de máscara não era obrigatório. (…)
Assim que se aperceberam da presença da comunicação social, a Polícia de Segurança Pública tentou encaminhar todos os convidados o mais rápido possível para o interior da embaixada.»
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3.6.20

Um vídeo esmagador



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O Momento Chernobyl de Trump e Bolsonaro?



«Não foi o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, que derrubou o regime soviético, que se viria a desagregar irreversivelmente com a queda do Muro, em 1989, e com o golpe militar, em 1991. O poder de Gorbachov, que já representava uma transição, fracassou cinco anos depois, no fim de um longo processo em que foi corroído por contradições internas, pelo esgotamento económico e pelo desgaste social, acentuado pela derrota na guerra do Afeganistão. O acidente foi somente um choque que se sobrepôs a essa exaustão. Mas, por isso, foi também um momento trágico que revelou a fragilidade do Kremlin, sobretudo pela tentativa de ocultação, pela revelação da impotência e pela impopularidade que multiplicou. O tempo de Chernobyl foi a mentira e a revelação da mentira e, com isso, o início do fim de uma era.

A pandemia pode ser o Momento Chernobyl da extrema-direita no poder em países poderosos, como os Estados Unidos ou o Brasil. O caso com maiores implicações internacionais será o de Trump que, nas suas deambulações justificativas e na verve desculpatória, revela uma obsessão pelo interesse económico de curto prazo contra a proteção das vidas. E aí entra o efeito Chernobyl: ele precisa de ocultar o desprezo pela população e, sobretudo, a sua calculista impotência perante a doença.

Ora, como estamos nas vésperas da eleição presidencial e as escolhas de Trump são sobredeterminadas pela campanha, sendo este efeito Chernobyl a maior ameaça à sua recondução, todas as suas estratégias assentarão paradoxalmente em multiplicar a chernobylização da política. Para ocultar a ocultação, ele só tem um instrumento poderoso, a poluição política. Nesse sentido, o Presidente soterra o espaço comunicacional com guerras sucessivas, primeiro contra a China, depois contra os médicos, a seguir contra os governadores democratas, depois contra o Twitter, agora contra os protestos antirracistas. A informação pública vive assim em modo de sobressalto, provocado pela técnica angustiante que mobiliza o pânico em modo contínuo. É esta a batuta da sociedade do medo. Ou seja, Trump quer radioativar-se para sobreviver ao seu Chernobyl e, por isso, se esta analogia ilustra o perigo, não contará necessariamente a conclusão da história, sendo que a extrema-direita quer sair mais forte da pandemia aterrorizando a sociedade e impondo o autoritarismo como o novo normal.

Bolsonaro repete a estratégia mas em registo de milícia carioca, como não podia deixar de ser. É a família e os seus negócios que estão em causa e entende que tudo se conjuga numa conspiração universal para revelar os seus podres. Nesse confronto, resta ao Presidente recuperar a tradição do mandonismo das elites brasileiras e de um coronelismo que parecia exilado em telenovelas de cordel, mas a coligação que o suporta, de empresários que esperam as privatizações do petróleo a deputados interesseiros e a neopentecostais iluminados, começa a fraquejar. Mais uma vez, é o efeito Chernobyl: ele ignora ou esconde o perigo, promovendo a irresponsabilidade sanitária com a desenvoltura de um garoto que fuma o primeiro cigarro, e esse impudor tem um custo reputacional.

Uma revista médica de referência, "The Lancet", publicou este 9 de maio um editorial defendendo uma política de saúde pública no Brasil contra as investidas do Presidente: “Ele deve mudar drasticamente a orientação ou ser o próximo a demitir-se.” O médico e editor da "Lancet", Richard Horton, explicou à "Folha de São Paulo" porque critica tão duramente a estratégia Chernobyl do Presidente: “A política criada por Bolsonaro pode ser chamada uma guerra contra a ciência, e ela colocou o Brasil numa situação de grande risco. O país está certamente mais fraco e vulnerável por conta disso. Em vinte anos da "Lancet", acompanhámos o desenvolvimento da ciência no Brasil como um dos grandes sucessos do país, com polos internacionais de excelência. Os cientistas brasileiros são líderes globais em muitos domínios, e esse é um recurso poderoso no qual um país deve apoiar-se para o bem da sua população. E é nada menos que uma tragédia que o Governo não reconheça, abrace e apoie essa comunidade. É por isso que chamo ao comportamento de Bolsonaro uma traição ao seu povo. E isso é imperdoável.”

A palavra não é excessiva. Este Chernobyl, como o anterior, chega-nos pelos caminhos do acidente, mas a resposta tornou-se uma traição. Pode ser que Trump e Bolsonaro resistam, se conseguirem acumular a violência suficiente para submeterem os seus países. Não deixam de ser o que são, gente cuja mesquinhez não hesita perante a traição ao seu povo.»

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1.6.20

A outra América




«Em vez de investir contra quem gritava palavras de ordem, Swanson retirou o seu capacete de protecção e poisou o seu bastão, perguntando à multidão: “O que querem que façamos?” A resposta fez-se ouvir: “Caminhe connosco!” E, no vídeo que registou o momento, o xerife parece não ter sequer pensado duas vezes: “Quero que isto seja uma parada, não um protesto. Vamos caminhar!”»
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30.5.20

Para podermos respirar



«”Não consigo respirar”. O grito, como é sabido, não é de nenhuma vítima da Covid-19, mas sim de George Floyd, o cidadão negro, afro-americano, de 46 anos, que foi executado barbaramente por um polícia em Minneapolis. A frase foi repetida dezenas de vezes, em estado de aflição, enquanto o polícia continuava a esmagar com o joelho imperturbável a garganta de Floyd. Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, o polícia não se “ajoelhou no seu pescoço”. Asfixiou-o deliberadamente. Floyd não morreu por isso em nenhum “incidente”. Perante os apelos dos transeuntes para que o deixassem respirar e a passividade criminosa dos restantes agentes policiais, que recusaram prestar qualquer assistência a uma pessoa que estava a ser assassinada, George foi linchado por quem tem, supostamente, a missão de proteger os cidadãos.

“Não consigo respirar”. Foi também este o grito, repetido desesperadamente mais de uma dezena de vezes, por Eric Garner, cidadão negro que tinha 43 anos quando foi estrangulado ate à morte, durante mais de 15 segundos, em julho de 2014, por um agente da polícia de Nova Iorque, também ele um homem branco. O caso, seis anos antes numa outra cidade, e que terminou sem qualquer condenação do homicida, tem todas as afinidades possíveis com o de Minneapolis. E mostra como nada parece ter mudado para todos aqueles que não podem sentir-se seguros se a polícia estiver por perto.

Enquanto tantos se mobilizam, um pouco por todo o mundo, para combater um vírus que nos impede de respirar, para que haja ventiladores capazes de salvar vidas, há outras vidas e outros corpos que são tratados como se não tivessem direito a viver. Como se o poder pudesse dispor deles e eliminá-los.

A asfixia dos negros não vem, como se sabe, de agora. Estes episódios estão longe de ser acontecimentos isolados. Muito menos são tristes coincidências. São, de facto, a expressão da política do racismo estrutural, que é brutal nos Estados Unidos, mas não só. Estas histórias, que nos revoltam por dentro, existem porque foram conhecidas, porque alguém filmou e nós as testemunhámos. Imaginem agora quando não há ninguém a registar o que acontece, quando é no silêncio e na impunidade absoluta que estes assassinatos acontecem. Quantos não existem, todos os dias? Quanta violência racista é perpetrada sem que nunca ninguém seja condenado por isso? Sabemos bem, em Portugal também. É preciso lembrar Alfragide, por exemplo?

É por isso que me declaro solidário com quem manifesta a sua indignação e a sua repulsa, que são também minhas, contra esse racismo larvar que atira migrantes e negros e pobres para as periferias das cidades e dos empregos mal pagos, para as vias desvalorizadas do ensino e para os transportes cheios e expostos à doença, para as prisões e para os bairros com poucas condições. Para a violência estrutural às mãos das instituições.

Em Minneapolis, esta revolta é já um potente grito coletivo e multirracial que ocupou as ruas, com gente de várias comunidades e pertenças, com igrejas solidárias a abrirem as suas portas para abrigar os manifestantes durante os ataques de gás lacrimogênio da polícia, com comerciantes a anunciar o seu repúdio pelo que aconteceu, com gestos importantes como o de Joan Gabriel, presidente da Universidade de Minnesota, que anunciou, numa carta pública, o corte de todos os contratos com o Departamento de Polícia de Minneapolis e o cancelamento de qualquer pareceria para a segurança de concertos, palestras ou outros eventos daquela instituição.

Está visto, é certo, que vai ser preciso muito mais luta para que as coisas mudem. Hoje mesmo, Omar Jimenez, um repórter negro da CNN que tem coberto as manifestações naquela cidade, foi detido pela polícia em pleno direto televisivo. As imagens deixam qualquer um perplexo – a mim, pelo menos, deixaram-me boquiaberto. Depois de tudo o que se tem passado, Jimenez é levado pela polícia sem que se perceba porquê: “Por que estou preso?”, pergunta em direto. A polícia divulgou mais tarde a sua explicação: o repórter e a equipa haviam sido detidos por não se terem afastados quando receberam essa ordem. A câmara televisiva, caída no chão, continuou a transmitir as imagens em direto.

Os olhos do mundo estão em Minneapolis, porque Minneapolis é em muitos lugares do mundo. George Floyd é hoje o símbolo das vítimas deste vírus insuportável que torna as nossas sociedades irrespiráveis. O racismo mata, de muitas maneiras. E será só pela nossa luta sem tréguas e sem hesitações que poderá ser erradicado.»

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10.5.20

Covid-19: A vacina é o próximo campo de batalha



«A covid-19 tornou-se num campo de batalha na cena internacional. À emergência sanitária somou-se a emergência económica. A seguir, a pandemia ganhou uma terceira dimensão: o conflito sino-americano passou das tarifas para o vírus. A Administração Trump acusa a China de ser responsável pela pandemia. Pequim explora o seu êxito no controlo da covid-19 e lança uma agressiva diplomacia para lavar a sua imagem e alargar a sua influência, designadamente na Itália. Biliões de pessoas esperam ansiosamente por uma vacina, mas esta mesma vacina corre o risco de se tornar em mais uma arma tóxica na guerra da pandemia.

Escrevia-se há três meses, quando o coronavírus ainda mal começava a assustar os italianos e muitos respondiam com um racismo antichinês: “A grande dúvida é saber se a epidemia do coronavírus se manterá como crise sanitária internacional ou se vai transformar-se num fenómeno geopolítico, susceptível de alterar os equilíbrios do sistema internacional. O coronavírus surge como um ‘cisne negro’, acontecimento imprevisível e raro que, combinando-se com outros factores, pode dar lugar a inconcebíveis mudanças. Tudo depende da expansão ou contenção da epidemia ¬e dos seus efeitos na nossa vida quotidiana ou no comércio internacional.” E, em Fevereiro, não tínhamos a ideia da dimensão trágica que a pandemia iria alcançar.

A China começou por se vangloriar da superioridade do seu regime político e dos seus métodos no confronto da doença - uma vitoriosa “guerra popular.” Pequim terá ganho a batalha da opinião interna, mas é improvável que vença a internacional, apesar do esforço em se apresentar como “potência generosa” que auxilia os outros. Mas a batalha das máscaras não lhe correu muito bem. E sofre um inesperado desaire: tencionava proclamar em 2021, no centenário do Partido Comunista Chinês, a duplicação do seu PIB numa só década. O coronavírus estragou a festa.

A Administração Trump começou por saudar a “transparência” de Pequim. Quando a covid-19 atingiu a América, Trump virou a agulha e respondeu com a “revelação” de que o novo coronavírus teria nascido num laboratório de Wuhan. O coronavírus passou ser o “vírus chinês”. Pequim teria mentido em toda a linha. Depressa a guerra das tarifas comerciais se prolongava na novíssima “guerra do vírus”.

Efeito na ordem mundial

O veterano Joseph Nye, o cientista político que criou o conceito de soft power, escreve na Foreign Policy que “o coronavírus não mudará a ordem mundial”. Apela à cooperação. E adverte: “Se a política americana continuar neste caminho, o novo coronavírus apenas acelerará a tendência para o populismo nacionalista e para o autoritarismo. Ainda é muito cedo para predizer uma viragem geopolítica que altere fundamentalmente a balança de poder entre os Estados Unidos e a China.”

Na Foreign Affairs, o australiano Kevin Rudd, antigo primeiro-ministro e hoje professor de Geopolítica, especialista na China, faz uma interessante abordagem. Económica e militarmente, Pequim é mais fraca que os EUA. Mas tem sabido manipular habilmente a percepção do seu poderio, ao ponto de convencer turcos e alguns europeus de que o coronavírus ilustra a marcha para a supremacia chinesa. “Diz-se que a percepção é a realidade. Mas, na realidade, não é.”

Aponta três factores que moldarão a ordem mundial: “Mudanças na capacidade militar e na força económica das grandes potências; o modo como estas mudanças serão percebidas no mundo; e as estratégia escolhidas. Com base nestes três factores, a China e os Estados Unidos têm razão em se preocupar com a sua influência mundial pós-pandemia.”

A América é um problema. “A caótica gestão da Administração Trump deixa uma indelével impressão de um país incapaz de lidar com as suas próprias crises. (…) Os EUA parecem emergir [da pandemia] como uma comunidade política mais dividida do que unida, como seria normal numa crise desta magnitude. A contínua fragmentação do sistema político americano é mais um forte constrangimento para uma liderança global americana.”

A Administração Trump agravou o problema “ao enfraquecer a estrutura de alianças dos EUA (que na lógica estratégica convencional seria central para manter a balança do poder em relação à China) e sistematicamente deslegitimar as instituições multilaterais (criando um vazia para a China preencher). O resultado é um mundo crescentemente disfuncional e caótico.”

O teste da vacina

Em Abril, o jornal americano Politico advertia sobre o receio de que Trump incitasse a uma “rixa global” sobre a vacina. “A recente corrida às máscaras, luvas e outras protecções pessoais dá um instrutivo exemplo. Imaginem agora, dizem especialistas e altos funcionários, uma similar competição para obter doses de vacinas: poderia agravar a crise sanitária, deixando espalhar o vírus por muito tempo, devastando os países menos equipados para o combater.”

Lembramo-nos de que Trump tentou negociar com um laboratório alemão o “exclusivo” de uma virtual vacina. Também Pequim não está interessada na cooperação sobre a vacina. Aposta em fazer a sua, tal como Trump. A tentação de controlo da vacina é muito forte.

A comunidade científica internacional continua a colaborar na investigação sobre a vacina. Mas este esforço comum pode não ser partilhado pelas potências concorrentes. Se a Europa surge como pólo dinamizador da cooperação, é incerto o que se passará com os Estados Unidos e com a China. Quem chegar primeiro à vacina comandará a produção e, sobretudo, a distribuição. Seria uma incalculável vantagem política, económica e de prestígio. Uma vacina chinesa seria uma inédita vitória num terreno em que a América sempre foi líder. Criaria uma percepção mundial análoga à do Sputnik soviético: a nova potência que começa a superar a América.

O benefício político da vacina é óbvio. No plano interno, permitiria imunizar prioritariamente a sua própria população, o que além das vidas salvas seria uma importante poderosa arma económica na fase pós-covid.

Esta corrida está lançada e decidirá se triunfa uma lógica nacionalista ou uma lógica cooperativa. A vacina será o grande teste. A decisão muito pesará sobre o futuro modelo das relações internacionais.

No mundo da pandemia, destacam-se três pólos: Estados Unidos, China e Europa, cada um com as suas forças e fraquezas. Será a Europa capaz de exercer uma influência global de modo a impor a cooperação numa questão de vida ou morte?»

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22.3.20

USA – Da loucura




«As pessoas estão assustadas. Há muito pânico no mundo e as pessoas querem ser protegidas para o pior cenário.»
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21.3.20

Frase do dia


«Bolsonaro é Trump sem a escolaridade obrigatória» 

Pedro Mexia
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7.3.20

Covid-19: um tema inesperado nas presidenciais americanas


«Inesperadamente, este pode vir a ser o novo grande debate americano. Se a covid-19 atingir os Estados Unidos com gravidade, vai ser tema quente da campanha eleitoral, uma notícia pouco agradável para Donald Trump.

Diz a CNN que a América tem meios para pôr em quarentena os suspeitos mas não tem meios para tratar os doentes que não tenham bons seguros. Num caso de epidemia é inaceitável a discriminação entre ricos e pobres. “É muito provável que o coronavírus venha a ser um protagonista de primeiro plano na campanha eleitoral para a Casa Branca”, prevê a socióloga Nadia Urbinati, que ensina nos EUA. (…)

A Administração Trump nada fez para responder à eventualidade de um grande surto nos EUA. Pior, Trump desvalorizou os riscos. “É a sua presidência que está em risco pela covid-19, mais do que a sua vida”, avisa Ferguson. O coronavírus ainda mal desencadeou a queda dos dominós.»

Jorge Almeida Fernandes
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5.3.20

O que não é Bernie será o que não é Trump para ser o que não é Presidente?



«A desistência de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg, nas vésperas da super terça-feira, depois da vitória folgada de Joe Biden nas primárias da Carolina do Sul, fez o ex-vice-presidente ressuscitar como único candidato centrista capaz de enfrentar Bernie Sanders. O voto em Biden foi, para muitos eleitores democratas que esta terça-feira falaram com os jornalistas, um voto no centrista que restava na corrida. Nem contrariado nem entusiasmado.

Umas horas antes de se conhecerem os primeiros votos, o “New York Times” considerava muito provável que Biden vencesse no Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e Virgínia. Que Bernie vencesse na Califórnia (tendo passado a ser, depois da desistência de dois candidatos do centro e a permanência de Warren, improvável que conseguisse a totalidade dos delegados, por mais ninguém ultrapassar os 15%), Colorado, Utah e o seu estado, o Vermont. Estavam em disputa Maine, Massachusetts, Minnesota e Texas (que o apoio de última hora de Beto O’Rourke a Biden pode ter desequilibrado). Todas as vitórias de um e de outro se confirmaram (sendo a mais relevante em delegados, de longe, a Califórnia). E dos estados que estavam em dúvida, Biden ganhou tudo, apesar disso ter acontecido, em geral, por margens pequenas, sobretudo no Texas e Maine. Sanders teve o pior resultado dentro dos resultados que foram previstos.

Bernie Sanders continua na corrida. A vantagem de Biden em delegados não chega a ser esmagadora. Quando escrevo ainda se distribuem alguns, mas está próximo dos 60. Está tudo longe de estar fechado, mas Bernie perdeu o momento. Determinante para a vitória de Joe Biden na Carolina do Sul e em vários dos estados que ontem votaram foram os eleitores negros, sobretudo os mais velhos – enquanto latinos e jovens votaram em Bernie. De certa forma, esse voto não é bem de Joe Biden. É voto de Obama que se transfere para ele por associação. Elizabeth Warren ficou em terceiro lugar no seu próprio estado. Se verá se faz o que devia ter feito anteontem: desistir para o candidato mais bem colocado do campo progressista. Não foi esse o sinal que deu ontem, o que é surpreendente tendo em conta a dimensão da sua derrota e os efeitos que a sua permanência tem.

Para além de todas as diferenças políticas entre Joe Biden e Bernie Sanders, há uma fundamental: a capacidade de Bernie Sanders mobilizar uma campanha resulta de uma adesão a si, ao seu discurso e às suas propostas, não de uma recusa de Donald Trump, a um mal menor ou a uma simpatia difusa. E isso é fundamental para estas eleições. Porque não há uma luta pelos moderados no confronto com Donald Trump. Os moderados que detestam Trump votarão contra Trump. Aliás, Bernie tem, dizem todos os dados em cada uma das primárias abertas, mais simpatia de eleitores independentes e republicanos do que Joe Biden. A luta contra Trump é a uma luta pela mobilização. E não vejo pior característica do que ser o que restou para vencer Bernie.

A verdade é que o mainstream do Partido Democrata, que se virou para Biden, depois para Buttigieg, depois para Bloomberg e finalmente de novo para Biden, uniu-se em torno de um sobrevivente, não de um candidato. Segundo as sondagens à boca da urna, grande parte dos eleitores decidiu o seu voto nos últimos dias. Ao contrário do voto em Sanders, o voto do centro foi um voto no que restava. No entanto, Bernie Sanders não conseguiu resistir às desistências centristas, que deram ânimo a Biden. Joe Biden sai desta terça-noite reforçado e Bernie Sanders em pior forma. Como aconteceu há quatro anos, a cúpula do partido e a comunicação social que lhe está próxima farão neste campanha o que fizeram até aqui, agora com um candidato claro para apoiar. Aposto as minhas fichas numa nomeação de Joe Biden.

Se Biden for o candidato democrata não é difícil antever o que serão as eleições. Iguais às últimas. A receita é a mesma, os eleitores são os mesmos, os ignorados são os mesmos, os frustrados continuarão os mesmos. Os democratas preferem continuar a representar o que cada vez mais norte-americanos sentem ser o “sistema” e isso pode determinar, mais uma vez, a sua derrota. Não chega não ser Trump para vencer. Não chegou em 2016, não deve chegar em 2020. Se a grande qualidade de Biden nas primárias é não ser Bernie e a grande qualidade nas eleições for não ser Trump, o seu provável defeito será o de não ser presidente. Porque, limitando a não ser aquele contra quem concorre, nunca mobilizará os que desistiram da democracia. Todos apostam, no entanto, numa qualidade de Biden: afinal de contas, não é Hillary.»

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9.2.20

Os EUA a caminho da ditadura



José Pacheco Pereira, ontem, no Público:

«Pensam que este título é alarmista e exagerado? Pensem duas vezes, porque o que se passou à volta do processo do impeachment é particularmente perigoso para as instituições democráticas dos EUA. Acresce, e não vou repetir o que escrevi recentemente no PÚBLICO, que Trump não sairá do poder a bem, mesmo que perca eleições.

Considerei durante algum tempo que o sistema de “checks and balances” e que a resistência profissional de muitos funcionários responsáveis, aquilo a que Trump chama o “pântano”, fossem suficientes para travar Trump. Não foi, e é cada vez menos. Essa resistência institucional existe com enormes riscos pessoais na carreira e no arrastar pela lama que Trump e os seus serviçais fazem de imediato para intimidar as pessoas. Mas não é suficiente, e tem cada vez menos meios, pela perversão crescente da autonomia da administração por Trump, através de nomeações políticas, demissões, e enormes pressões, inaceitáveis numa democracia. Sobra parte da comunicação social e é por isso que Trump a apresenta como “inimigo do povo”.

O grave não foi tanto o facto previsível de a maioria republicana no Senado absolver Trump, é tudo o que se passou à volta do processo. Aqui ficam alguns exemplos:

1) Nem vale a pena falar do tema central do impeachment, nos seus dois artigos, que ficou mais que demonstrado, e toda a documentação e testemunhos que vieram a público e que revelam estar provado sem margem para dúvidas: Trump usou de chantagem com o apoio militar votado no Congresso a uma Ucrânia em guerra, para obter o “anúncio” de investigações sobre o rival Biden.

2) A recusa de ouvir as testemunhas mais directamente associadas ao processo ucraniano depois de os republicanos se estarem sistematicamente a queixar que não havia testemunhos em primeira mão (havia), tornou o processo do Senado numa farsa, e o voto dos senadores uma violação do seu juramento.

3) A retirada ao Congresso, um “braço igual de governo”, de todos os seus poderes de facto. O Senado trava toda a legislação e em particular todas as medidas a favor dos americanos com menos recursos, para dar a ideia de que o Congresso não funciona, o bloqueio do poder do Congresso de intimar testemunhas e conduzir investigações, a recusa de enviar documentos da administração Trump para conhecimento dos congressistas, a tomada de posições em segredo sem a consulta ao Congresso que a lei exige, em particular em matérias de paz e guerra (o Presidente entende que basta informá-los pelo Twitter),

4) Alargamento do “poder executivo” sem restrições, apenas baseado na vontade discricionária do Presidente, considerando-se imune a qualquer processo por violação da lei (a tese do procurador escolhido por Trump é que o Presidente não pode ser acusado por nada enquanto estiver em funções). Conhecendo-se Trump, depois da absolvição no Senado, vai fazer tudo o que quiser sem restrições, quer no plano interno, quer internacional.

5) A transformação do Partido Republicano num partido de gnomos de jardim, muito contentes por estarem especados, firmes e hirtos, diante da porta do seu senhor.

6) A moldagem das instituições do Estado, a começar pelos tribunais, através da escolha de juízes partidários, muitos sem currículo nem experiência, mas apenas fidelidade absoluta ao Presidente. Outro exemplo muito preocupante do modus operandi da Administração Trump é que, enquanto bloqueia todos os documentos ao Congresso, em particular os respeitantes às declarações de impostos de Trump, o Departamento do Tesouro enviou imediatamente ao Senado os documentos relativos a Hunter Biden.

7) A destruição da imagem dos seus adversários por todos os meios possíveis, alguns ilegais. Trump matou Biden como candidato, porque Biden pai e, particularmente, Biden filho estavam comprometidos num sistema de favorecimento inaceitável na Ucrânia. Nada que os filhos de Trump que gerem as suas empresas não saibam bem o que é, mas o extremo-tribalismo e a moleza dos democratas deixaram-nos de fora. Mas agora irá “sujar” com aquelas mãos pequeninas e aquela poça sem fundo de narcisismo, autoritarismo, violência, todos os outros candidatos, a começar pelo “comunista” Sanders.

8) Mentiras, mentiras, mentiras – nunca um político em democracia usou com maior desplante e mentira como instrumento de poder.

9) Trump inovou todos os métodos de manipulação, aproveitando-se como ninguém da combinação da ajuda russa, dos mecanismos das redes sociais, a utilização indevida dos Big Data por empresas como a Cambridge Analytica, do Twitter para saltar a mediação da comunicação social (deixou de haver os tradicionais briefings da Casa Branca à imprensa), para criar uma ecologia mortífera feita de agressividade tribal. A transformação da política num reality show em que a televisão é utilizada como eficaz máquina de propaganda, em particular a “televisão do Governo”, a Fox News, e a sistemática utilização de comícios e insultos para inflamar a sua “base”.

10) Pelos vistos, os negócios e a bolsa dão-se bem com Trump como já se tinham dado com Pinochet, em particular com a desregulação, mas não é verdade, ao contrário do que Trump afirma, que “nunca” houve Presidentes com melhores resultados na economia. Houve e foram vários.

Os democratas não têm sido particularmente eficazes em responder a Trump. Em parte, por pecados antigos, e por muitas fragilidades e, em parte, porque estão divididos e sem candidato presidencial conhecido, têm dificuldade em se afirmar na luta unipessoal contra Trump. Mas, quer eles, quer muita gente nos EUA estão a começar a perceber que o autoritarismo de Trump é um caminho para a ditadura.

Um dos responsáveis pelo impeachment disse-o claramente, e o gesto de Nancy Pelosi, rasgando o discurso de Trump, é mais difícil de engolir por este do que horas de argumentos racionais que ele não ouve, e muito menos lê. Por isso, um magnífico cartoon de Mike Luckovich representando os pais fundadores da nação americana, Washington, Adams, Madison, a brindar “to Nancy” com uma caneca de cerveja diz muito. Também brindo.»
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