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29.8.20

Berlim, hoje



«Nas ruas de Berlim nasceu em 1989 a Liberdade e a esperança de uma nova ordem mundial. A revolução pacífica que comoveu o mundo mudaria a Europa e reforçaria a Democracia alemã, pilar da nossa estabilidade e paz.

Nas ruas de Berlim hoje não havia judeus, nem muçulmanos, nem estudantes asiáticos ou negros. As organizações de estudantes das várias universidades pediram aos seus alunos estrangeiros para não saírem.

Nas ruas de Berlim marcharam hoje grupos de combate da extrema-direita, alguns condenados por homicídio, nas ruas de Berlim pediu-se o derrube do governo, gritou-se morte aos judeus e desfilaram bandeiras proibidas. Houve ataques a jornalistas. Houve grupos que viajaram de toda a Europa e da Rússia. Havia muitas bandeiras de apoio a Trump.

Nas ruas de Berlim os adeptos das teorias da conspiração, os anti-vacinas, os anti-ciência marcharam ao lado de nazis contra a “ditadura do Corona”. O bando de egoístas que não quer usar máscara prefere a ditadura verdadeira a um constrangimento individual.

Nas ruas de Berlim houve católicos, evangélicos, organizações da sociedade civil, organizações anti-racistas a gritar bem alto: “Rua Nazis”. Os alemães saíram à rua.

Há alturas em que é preciso fazer escolhas e a Polícia de Berlim ao ordenar a desmobilização desta “manifestação” fez a escolha certa. Tire-se-lhe o chapéu.»

Texto e imagem de Helena Ferro de Gouveia no Facebook
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27.8.20

Chega! e Pró-Vida um único combate…



Tendo em conta o último post  que publiquei antes deste, e depois do apoio que o Pró-Vida sempre teve de altos responsáveis da Igreja, vêm aí tempos altamente perigosos.


«“Há um projecto político comum desde a coligação com o Chega [sob a designação de Basta!] nas europeias. A defesa da família, o fim da ideologia de género nas escolas e a derrota do marxismo cultural são as nossas grandes bandeiras que o Chega defende”, afirmou ao "Público" Manuel Matias, líder do PPV/CDC.»
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A Igreja não diz nada da apropriação que lhe faz a extrema direita?



«Há anos, a propósito de uma qualquer diatribe minha com os aficionados do ultraconservadorismo católico, um amigo jesuíta lembrou-me o dito popular entre os espanhóis: quando queriam confessar um pecado sexual, iam aos jesuítas; quando se tratava de um pecado social ou económico, confessavam-se à Opus Dei. Parecendo que não, é uma boa caricatura do mundo atual no que toca ao catolicismo.

A parte conservadora da Igreja obceca com a vida sexual alheia, com os gays, os transexuais (desconfio que têm pesadelos todas as noites com a ideologia de género), as mulheres não castas, os contracetivos e, acima de tudo, o aborto. Pobreza, exploração de recursos do planeta (que, afinal, é criação divina para católicos preservarem), racismo, exclusão dos mais vulneráveis, desigualdades sociais? Nada disso interessa. Pessoas por aí a fornicar fora do sacramento do matrimónio é que é grave.

A parte progressista da Igreja, mesmo se mantém a moral sexual, não lhe dá maior relevância. Como os espanhóis bem atestam, as penitências por escapadelas sexuais nas ordens mais progressistas são deveras leves. Já questões de exclusão social, pobreza, doença, abusos do capitalismo desregulado, refugiados, atentados ambientais e todos estes temas quentes sociais e económicos merecem grande atenção.

Este conservadorismo católico cai que nem uma luva na nova direita que se consolidou nos últimos anos. Negacionista das alterações climáticas com causa humana, tem as guerras culturais contra a modernidade como cimento estruturante, endeusamento do capitalismo desregulado, ataque ao Estado social, recusa absoluta de intervenção para corrigir injustiças e distorções e discriminações de longa duração (sejam sexuais, raciais, de classe social). O ódio e a vontade de exclusão dos diferentes, o dogmatismo. Tudo igual.

Até na incapacidade de conceber posições moderadas – considerando-as como a papel químicos do extremo oposto – são semelhantes. Aconteceu-me e acontece-me. Católicos ultraconservadores passaram anos a gritar-me, a cada vez que opinava sobre temas de religião e sexualidade, que não sou católica mas protestante. A nova direita dá-me como marxista – porque não lhes compro as guerras culturais nem construo templos garantindo que os mercados nunca erram.

Donde, não me espantei quando comecei a ler da proximidade entre Steve Bannon e os sinistros setores mais conservadores da Igreja que organizam a resistência ao Papa Francisco. Os media americanos – com aquela ingenuidade americana que vê de forma insuflada o poder dos seus nacionais – apresentavam Bannon como o homem que poderia deitar abaixo o Papa Francisco.

Que Bannon pretendesse reforçar os setores conservadores católicos era esperável. Já que bispos, religiosos e teólogos católicos, de qualquer inclinação, acolhessem alguém com as ideias e o percurso de Bannon, é problemático e reflete muito mal para a Igreja. A ex-mulher acusou-o de violência doméstica, tem atrás de si indícios de antissemitismo, promove ideologia da mais absoluta falta de caridade para os semelhantes (amor ao próximo, toca algum sino?), pretende isolacionismos nacionalistas (quando a Igreja é universal e universalista), aplaude construção de muros e prisão traumática de crianças migrantes. Só nos últimos dias Bannon foi preso por suspeitas de apropriação de fundos, porém já havia abundante matéria para se considerar um crápula sem escrúpulos.

E, no entanto, partes da Igreja associaram-se-lhe.

Não é caso singular. Antes das eleições europeias do ano passado, o Patriarcado publicou um quadro informando os fiéis dos partidos que, dizia, mais defendiam a vida. Declaração de apoio pouco subtil a esses partidos. Entre eles, o Chega. O quadro foi apagado depois de gerar polémica, mas ficou à vista que há, no Patriarcado, quem queira entrar na discussão partidária. E não se se incomode, até recomende, ideologias como a do Chega.

O líder deste partido repetidamente usa imagética e referências católicas. Já se deu como uma espécie de quarto pastorinho de Fátima, escolhido por Nossa Senhora. No twitter declarou querer ter todas as igrejas com ele. É frequente, nos mais ativos apoiantes do Chega das redes sociais, muitos deles da estrutura do partido, garantirem-se devotos católicos, lá pelo meio de publicações de ostensivo incentivo ao ódio aos mais variados e numerosos grupos, que são gente possuidora de uma grande manancial de rancor a distribuir por muitos lados – gays, transexuais, feministas, socialistas, ciganos, imigrantes, negros, refugiados, comunistas, moderados, a lista é quilométrica. A linguagem religiosa, sempre afastada da retórica política desde que tenho idade para me lembrar, é um recurso usado e abusado por esta direita extremista.

O italiano Salvini costuma enfeitar-se com crucifixos ostensivamente grandes e apresenta-se como um defensor da cristandade contra a invasão dos bárbaros maometanos. Na Polónia e na Hungria, a direita baseia grandemente as suas ideias políticas na supressão de direitos das mulheres e dos gays, de acordo com a moral católica mais conservadora.

Regressando à infelicidade Trump, na semana passada descreveu a crise da covid como um teste que Deus lhe fazia. Uma espécie de castigo bíblico: foste tão bem-sucedido economicamente, ficaste tão orgulhoso, que agora te castigo e terás de fazer novamente as tuas maravilhas na economia. Um bispo católico americano, Rick Stika, atacou no Twitter Joe Biden e apoiou Trump como aceitável líder antiaborto. A Kamala Harris menorizou-a como ‘sidekick’, mera ajudante. (Ah, o sexismo.)

Que há setores católicos prenhes de vontade de tornar o aborto no único assunto da política, promovendo uma política económica egoísta, bem como ódio a tudo o que é diferente e inovador – não tenho dúvidas. Conheço vários católicos no processo de radicalização infelizmente comum em pessoas de direita. Há vinte anos aceitavam Guterres como um político catita; presentemente partilham a propaganda dos mais populares sites de fake news de extrema-direita.

Mas causa-me estranheza que a porção progressista da Igreja não reaja mais a estas investidas. O Papa Francisco, afinal, também é dado como marxista por esta turba. No fim de semana, o Papa tuitou pedindo que se parasse de usar o nome de Deus para disseminar ódio e extremismo. Porém só o twitter e só Francisco é poucochinho.»

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20.8.20

A insensatez



«Compreendo e concordo quando se diz que a melhor forma de combater a extrema-direita é dar condições de vida às pessoas. Mas já esta frase em si traz qualquer coisa que incomoda. Dar, quem dá? Uns dão, e outros são as pessoas?

Democracia plena seria uma em que todos fossemos as pessoas, e que essas frases que separam uns dos outros nunca viessem sequer à nossa cabeça. As coisas funcionam quando somos: nós. Temos um excelente exemplo disso que aconteceu agora mesmo. O famoso achatar da curva só era possível se nós fossemos um grupo, fomos. Mas estávamos todos com medo do que pudesse vir a acontecer a cada um, às nossas famílias, amigos. Por isso pergunto-me se esse “nós” conta. Num mundo ideal todos devíamos ter condições, conhecimentos, para poder governar, para participar da feitura das leis. Trabalharmos para a nossa comunidade como nas corridas de estafeta, em que um passa o testemunho ao outro. Não vai acontecer.

E haverá sempre gente de extrema-direita, haverá sempre o ódio, haverá sempre quem tenha um poster do Hitler em casa. Haverá sempre nostálgicos da ditadura. Haverá sempre nostálgicos da escravatura. O que não se pode é dar espaço a esse gente. O que não se pode é dar-lhes tempo para se organizarem, dar-lhes a oportunidade de se apresentarem com se não fossem estes que mencionei atrás. A nossa sociedade terá sempre imperfeições. Alguns de nós teremos sempre medo de alguma coisa que possa aí vir, e que venha acabar com o nosso bem estar, que venha ocupar o nosso lugar. A extrema-direita serve-se do medo para o transformar em ódio. Quando não temos um inimigo entre nós, haverá sempre quem grite que ele vem aí. Em Portugal essas pessoas ganharam força num momento em que o país estava a melhorar, em que a esperança estava a voltar. Porque são movimentos internacionais, porque o Trump abriu portas para muitas coisas impossíveis de acreditar possíveis nesta época. Porque o partido do Trump nunca quis tirar-lhe o espaço.

Não se pode dar espaço a esta gente, e em Portugal estamos a escancarar-lhes a porta.

Alguns exemplos:

Em 2011 fiz uma pesquisa grande sobre a PSP. Assisti aos primeiros testes de recrutamento para a escola da polícia, assisti a aulas, falei com estudantes da escola de polícia, falei com comandantes de várias esquadras, visitei clubes de polícias, quartos onde dormiam. Fui a manifestações da PSP em frente ao Parlamento. No meu entender esta polícia não é a mesma que conheci em 2011, passaram-se nove anos. Nove anos dá tempo para infiltrar gente com um propósito específico dentro dessa força. Quero acreditar que são ainda uma minoria, mas podem vir a ser mais, podem ter cada vez mais atitudes contra negros, contra ciganos, contra migrantes. Acontecendo isso, haverá uma reação crescente, natural e justa, contra a polícia. A extrema-direita, já com lugar institucional, vai “defender a ordem”, vai mentir, vai ganhar mais seguidores.

Não vejo tudo o que dá na televisão, só posso dar exemplos do que vi.

Conversa entre Marçal Grilo, e Nobre Guedes. Antigos ministros, um pelo PS e outro pelo CDS, em comentários à semana dos mascarados em frente à sede do SOS Racismo, e das ameaças às deputadas, e associações anti-racistas.

Marçal Grilo:

1. A extrema-direita e a extrema-esquerda precisam deste tipo de tema. Precisam disto como do pão para a boca. E depois há uns tontos que ainda não perceberam que isto é um tema dos dois, da extrema-esquerda, e da extrema-direita.

2. A extrema-direita é sempre mais agressiva do que a extrema esquerda. Penso que há aqui uma certa articulação, sobretudo com alguns movimentos alemães neo-nazis porque os alemães sabem muito disto. Têm um grande background desta coisa, sabem muito bem como é que isto se faz porque sabem muito bem como é que isto se fez.

Nobre Guedes:

1. O que está por trás disto é a dificuldade que a esquerda está a ter em lidar com o Chega.

2. O Rui Rio não tem que se meter nisto, mas já o CDS, a Iniciativa Liberal, o Chega, e quem sabe o Aliança, todos eles deviam fazer um esforço de federação para se apresentarem às autárquicas.

3. O espaço da direita tem que ser reorganizado. Estes 3 ou 4% não servem para rigorosamente nada.

Segundo Marçal Grilo há, em Portugal, grupos ligados aos neo-nazis alemães, mas nós não temos nada que ver com isso porque isso é uma coisa lá entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. É isso? E já agora a pergunta que a jornalista não fez: quem é essa extrema-esquerda? São as deputadas ameaçadas?

E Guedes diz que o que está por trás disto é a dificuldade que a esquerda está a ter em lidar com o Chega. Disto? Das ameaças?

Mas logo o seu raciocínio se torna mais explícito: O CDS está a desaparecer, e se não se juntar ao Chega, desaparece. O que o CDS e o PSD, ou pelo menos Rio estão a fazer, é pior do que os republicanos que não retiraram o apoio ao Trump, estão a dar um apoio ao Chega que o Chega nem pediu. E quanto mais apoio lhes derem, mais legitimados ficam, e menos precisarão desse apoio.

Mais um exemplo:

Poucos dias antes destes acontecimentos, ouvimos Ricciardi referindo-se a Mariana Mortágua, membro de um órgão de soberania, “essa figura o melhor que faria era reduzir-se ao silêncio”, “essa senhora devia ter vergonha, e devia era desaparecer de vez”. Consequências: zero.

Não estou a dizer que Ricciardi esteve por trás das ameaças subsequentes, mas ele para além de banqueiro é um homem do futebol, e sabe-se que há claques de futebol ligadas a grupos de extrema-direita. E por isso, quem me garante que Mortágua não está na lista das ameaçadas por causa do que ele disse? Porque é que não está Catarina Martins, por exemplo? As deputadas Beatriz Gomes Dias, e Joacine Katar Moreira são claramente ameaçadas por esses racistas pela sua cor de pele.

Quando o Presidente da República apela à calma e à sensatez, eu concordo. Sensatez é o que se pede, mas não é com tanto silêncio e passadeiras vermelhas que se é sensato.»

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14.8.20

Extrema-direita: a saga continua




«A história tornou-se conhecida na quinta-feira com um comunicado enviado ao PÚBLICO pela Frente Unitária Antifascista. Nessa nota, a organização dá conta das ameaças recebidas através de mensagens. “[No] fim do mês estaremos em Braga. Sabemos onde dormes. Vamos iluminar-te o cérebro. Nos não perdoamos. Nós não esquecemos”, lê-se nas mensagens. “O Babalu Ma [Mamadou Ba] já foi avisado, o próximo a sentir a nossa presença serás tu. Não vais conseguir correr pela ribanceira abaixo nem te vais esconder.” Numa fotografia enviada pela Frente Nacional Antifascista é possível também ver uma parede grafitada com uma suástica e a frase “ANTIFA. Jonathan chibinho, estás morto”.»
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Passividade é cumplicidade



«Há um tema recorrente na discussão sobre a extrema-direita que se pode resumir na frase: “isso é o que eles querem”. Devemos indignar-nos perante cada provocação da extrema-direita? “Não lhes dês palco, isso é o que eles querem”. Devemos fazer de conta que não reparamos nas suas provocações, para não lhes dar palco? “isso é o que eles querem; se não reagires eles aproveitam para ganhar espaço”.

O que está de errado nesta premissa, seja qual for a conclusão, é que passamos a determinar as nossas atitudes e decisões por aquilo que “eles” querem — mesmo que seja sob o pretexto de fazer exatamente o contrário daquilo que “eles” querem. E assim perdemos rasto ao fundamental: o que é que nós queremos? Nós — os defensores da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos — qual é a nossa vontade? Que agenda política queremos que seja a dominante? Que narrativa deve ser a nossa, inadulterada e independente das pressões, caprichos e provocações de adversários e inimigos?

Esta pergunta, por ser a fundamental, deveria ser a de mais fácil resposta para nós. Tem também de ser a que mais imediatamente temos na ponta da língua, sob pena de confundirmos matérias puramente táticas, e como tal mutáveis, com aquilo que para nós tem de ser estratégico ou, mais ainda do que isso, cardinal e imutável.

Felizmente, a resposta é simples: o que os defensores da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos querem é a defesa intransigente da democracia, do Estado de direito e dos direitos humanos. É isso que nos une, ainda antes de sermos de esquerda ou de direita, de cima ou de baixo, de trás ou da frente. É nossa a defesa intransigente das instituições democráticas. É nossa a defesa intransigente dos direitos, liberdades e garantias consagrados na Constituição. É nossa a defesa intransigente dos direitos humanos, de que ninguém possa ser discriminado por cor de pele, orientação sexual, origem étnica ou opinião. É nossa a defesa intransigente de que a democracia e o Estado de direito se fazem de pessoas concretas, que merecem e têm de viver sem medo, sem insegurança, sem ameaças.

E essa defesa que é nossa e nos deve unir para lá de todas as diferenças, tem de se fazer de forma permanente, assumida e clara. A própria noção de que deveríamos calibrar esta defesa em função dos desejos ou das táticas de outros já é em si mesma uma cedência. Causa por isso espanto que três deputadas da República — Beatriz Gomes Dias, Joacine Katar Moreira e Mariana Mortágua — tenham esta semana sido ameaçadas de morte sem que isso tenha gerado um coro unânime e imediato de condenação, da esquerda à direita. Causa por isso espanto que cidadãos e associações — incluindo a SOS Racismo e o Conselho Português de Refugiados — tenham sido incluídos nessas mesmas ameaças, e coagidas e intimidadas por uma manifestação de mascarados empunhando tochas — sem que tenha havido uma mais vigorosa reação dos órgãos de soberania.

Eu compreendo o que quer dizer o Presidente da República quando apela à “sensatez” na reação, e quando diz ser “tão condenável uma manifestação racista com contornos criminais contra deputados como contra outro cidadão”. Mas não por acaso nos EUA uma ameaça de morte a um congressista é imediatamente crime federal e merece visita dos serviços secretos mesmo que o autor dela seja maluquinho — porque um ataque às pessoas que transitoriamente representam a democracia é um ataque à democracia. Pouco importa em quem votámos, que diferenças ou que afinidades temos, as três deputadas que foram ameaçadas — duas delas mulheres negras, já por muitas outras vezes atacadas com discurso de ódio — são deputadas de nós todos e devemos-lhes que possam exercer o seu mandato em segurança, e em sossego para as suas famílias, que foram também visadas pelas ameaças.

Compreendo também — e espero verdadeiramente que seja o caso — que haja averiguações a fazer discretamente pelas forças policiais e de investigação. Mas também não por acaso, na Alemanha a agência de segurança que investiga este tipo de crimes se chama de Serviço Federal de Defesa da Constituição. Porque é de defesa da Constituição que se trata, contra grupos que desejam subvertê-la. E porque sabemos, nomeadamente através de copiosas e profundas investigações jornalísticas, que há ligações entre a extrema-direita portuguesa e os neo-nazis alemães (que ainda recentemente mataram políticos), e que os elementos que destes grupúsculos fazem parte já tiveram no passado participação em crimes violentos de índole racial e política. As investigações, por discretas que tenham de ser, não podem prescindir de uma sinalização política clara, por parte do governo e dos partidos parlamentares, de que a Constituição é mesmo para defender sem tergiversações contra os cultores da intimidação e da violência política — todos eles, venham de onde vierem, ainda que nos últimos anos em Portugal seja unicamente da extrema-direita que estejamos a falar.

O que é inaceitável não pode ser aceitado. Isso deve ser dito sem nenhuma hesitação, e logo à cabeça. O que é que “eles” querem? A única coisa que quero saber é que não vão conseguir — e ponto final.»

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A extrema-direita reorganiza-se


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12.8.20

Não se leve a sério, não...



«Um grupo de dez pessoas recebeu uma ameaça por email a intimá-las a abandonar o “território nacional” em 48 horas e a rescindir “as suas funções políticas”. Entre elas estão as deputadas Beatriz Gomes Dias, Mariana Mortágua (do Bloco de Esquerda) e Joacine Katar Moreira (deputada não inscrita), Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, Danilo Moreira, sindicalista, Jonathan Costa e Rita Osório, da frente unitária antifascista, Vasco Santos, do Movimento Alternativa Socialista, e Melissa Rodrigues, do Núcleo Anti-racista do Porto.

No email que foi enviado na noite desta terça-feira, os autores que se identificam como Nova Ordem de Avis-Resistência Nacional, ameaçam aqueles cidadãos dizendo que, se o prazo for “ultrapassado, medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português”: “O mês de Agosto será mês da luta contra os traidores da nação e seus apoiantes. O mês de Agosto será o mês do reerguer nacionalista.”»

(Daqui)
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3.1.20

Acontecimento internacional: a ascensão da extrema-direita



«A extrema-direita governa a Hungria e a Polónia. Tem posições relevantes na Suécia, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Itália, Espanha e em todo o antigo bloco de leste. Nos Estados Unidos, com a vitória de Donald Trump, normalizou-se, servindo de exemplo global na sua forma de atuar. Nas Filipinas conseguiu montar um máquina de crime organizado em nome da segurança pública. Mas foi o Brasil que serviu, pela proximidade cultural e linguística, de modelo para a nova extrema-direita portuguesa. Em Portugal, posto o pé na porta do Parlamento, o seu crescimento é inevitável. Porque se integra num fenómeno global. Ainda mais quando, apesar das experiências de outros que podemos observar, a comunicação social e os outros partidos mostram não saber lidar com o fenómeno.

Perante este fenómeno, que pode mesmo destruir as democracias ocidentais, temos de compreender as razões do voto, agir sobre elas e traçar linhas vermelhas para os seus protagonistas.

As razões do voto são diferenciadas e complexas. Numa lista grosseira e superficial, identificaria um processo de globalização que, tendo coincidido com o desmantelamento de várias almofadas sociais, correspondeu à expulsão de milhões de cidadãos da promessa de prosperidade; a retirada de poder aos Estados Nacionais, que correspondeu a uma alienação democrática dos cidadãos; a crise financeira de 2008, que teve efeitos globais muitíssimo mais profundos do que conseguimos ainda compreender; uma distribuição entre trabalho e capital cada vez mais desigual, com um crescimento das desigualdades internas nos países desenvolvidos para próximo do período antes da segunda guerra mundial; o esmagamento das classes médias, sem as quais a extrema-direita historicamente nunca vinga; e uma crise dos mediadores, que tornou a manipulação muito mais fácil.

Agir sobre tudo isto é impossível. Mas a esquerda tem de se dirigir aos “deploráveis”, como lhes chamou Hillary Clinton num momento de honestidade sobre todas as suas próprias limitações políticas. Até porque, ao contrário do que pensam os que analisam esta extrema-direita apenas à luz do passado, ela tenderá a absorver o programa neoliberal de retirada de funções sociais do Estado, como se vê no programa de Paulo Guedes no Brasil e do Chega em Portugal. Estamos a falar de um novo tipo de extrema-direita, que integrara a agenda neoliberal da elite económica. Se a esquerda souber concentrar aí o seu foco pode derrotá-la.

Mas, mesmo compreendendo as origens deste voto e agindo sobre elas, a democracia não pode deixar de ser clara nos limites que impõe. O que passa por contrariar de forma resoluta a ideia que se instalou que nela cabem todo o tipo de organizações, propostas e discursos. Que a democracia é neutra e não tem o direito a defender-se dos que a querem destruir. Uma ideia que a extrema-direita aproveita para usar todas as garantias democráticas para fragilizar a própria democracia.

O Estado Democrático não deve hesitar em agir com firmeza sempre que estas organizações tentem subverter as instituições do Estado, usando-as como palco para campanhas de ódio. Deve ser implacável com todas as tentativas de infiltração nas forças de segurança, apetecíveis como instrumento de repressão sobre os sectores mais vulneráveis da sociedade. Agir sem complexos sempre que a extrema-direita use, de forma profissional e anónima, as redes sociais para espalhar a difamação sobre os seus adversários. E nunca ceder aos que querem impedir que a escola pública ensine valores fundamentais de liberdade, tolerância e respeito pelos direitos humanos, recusando qualquer ideia de que a escola do Estado democrático é um mero prolongamento da vontade de cada pai ou mãe, sem deveres para com valores fundamentais que os transcendem, inscritos na Constituição. Se os democratas cederem em tudo isto, já está derrotada.»

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3.4.19

Extrema-direita: não brinquemos, ela anda por aí mais a sério




«João Martins, 44 anos, traz da sua juventude uma convivência com cabeças rapadas e uma condenação de 17 anos de cadeia (cumpriu metade da pena mais um ano, tendo saído por "bom comportamento") pelo homicídio de Alcindo Monteiro, em 1995, no Bairro Alto.

Tido como o ideólogo destes grupos, principalmente o Portugueses Primeiro, o protagonismo de Martins tem sido notado pelas autoridades que o apontam como "líder emergente" da extrema-direita. Desde Mário Machado, o ex-líder dos skinheads, também condenado no caso do Bairro Alto, que não havia outra personagem com este perfil e capacidade de recrutamento.

Casado, com dois filhos, tem insistido em que o passado ficou para trás e que já cumpriu a sua pena. Os seus dotes de orador e o seu conhecimento aprofundado da ideologia nacionalista podem ser trunfos para o PNR.

"Se, no passado, estes grupos assumiam discursos declaradamente racistas e xenófobos, nos últimos tempos a narrativa é de aclamação da história e da identidade portuguesas. O resultado é que há muita gente, que antes refutava o seu discurso fascista, que se começou a aproximar. Mas na essência são a mesma coisa e não perderam os ideais racistas e xenófobos", sublinha uma fonte policial.

O Observatório Antifascista assinala que "a P1 dedica-se sobretudo a atividades culturais, como conferências e ações de cariz social, lavando a imagem da extrema-direita. A associação pode ser encarada, na prática, como braço cultural do partido de extrema-direita. Desconhece-se se mais membros estarão formalmente ligados ao PNR, mas sabe-se que a associação, ainda que com poucos membros, é um dos polos de recrutamento para a extrema-direita".»
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28.2.19

Pacheco Pereira: leitura mais do que recomendada




Uma boa entrevista de Nuno Ramos de Almeida, a não perder.

Qual a razão por que Portugal parece imune a esta subida da extrema-direita?
Isso é uma coisa que se está sempre a repetir mas que eu não tenho a certeza que seja verdade. Na atual recomposição da direita há o aparecimento de fenómenos que têm expressão não tanto em termos institucionais, como o “Chega” e quejandos, mas a outros níveis.

Está a falar por exemplo de sites como o Observador e a sua opinião?
Sim, porque nessas coisas cria-se primeiro a cama e depois é que se deita nela. E de alguma forma a cama já está a ser criada nas redes sociais, em certos ’think tanks’, e certos ativistas políticos fazem-na todos os dias. E os órgãos de comunicação social têm um papel decisivo nesta loucura justicialista e populista que domina quase todo o ’primetime’ das televisões.
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12.2.19

Como a “primavera europeia” de extrema-direita está a ser preparada à vista de todos



«Uma “primavera europeia” contra “o eixo franco-alemão” dominante. Um “renascimento dos valores europeus” contra os burocratas. Uma rede pan-europeia de partidos nacionalistas. Estas não são ideias novas, são enunciadas pelo menos desde que o Governo italiano de coligação entre a Liga, partido de extrema-direita, e o Movimento Cinco Estrelas (M5E), populista, foi formado, em junho do ano passado. Mas o ministro do Interior, Matteo Salvini, repete-as com cada vez maior ênfase à medida que se aproximam as eleições de 26 de maio para o Parlamento Europeu.

Recentemente, a agência France-Presse noticiou que Salvini, que também comanda a Liga, está a tentar organizar uma frente europeia de extrema-direita. Em janeiro, num encontro com o seu homólogo polaco, falava da convergência de agendas com o partido Lei e Justiça (PiS), no poder em Varsóvia, em temas como a anti-imigração, o anti-islamismo e o euroceticismo. Foi então que falou numa “primavera”, que poderia ser desencadeada por Itália e Polónia, para libertar o continente dos burocratas. Em outubro, ao lado da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, Salvini disse que as eleições europeias inaugurariam uma nova era, caracterizada pela restauração de valores como o orgulho e a dignidade dos trabalhadores comuns.

Mas será mesmo possível criar uma frente europeia de partidos nacionalistas e extremistas para as eleições de maio? O investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) Marco Lisi relativiza: “Salvini tenta ocupar o espaço da direita tradicional, que está em crise em vários países da Europa. Os partidos mais à direita, que já atraem um certo tipo de eleitorado, tentam agora expandir-se e atrair um eleitorado mais moderado, polarizando várias questões, nomeadamente a imigração e a identidade.”

As eleições “abrem uma janela de oportunidade para coordenar essa vontade a nível europeu, com os partidos extremistas a fazerem parceiros e a conquistarem uma maior legitimidade”, comenta o investigador do IPRI ao Expresso. Também isso não é exatamente novo. “As eleições europeias são sempre uma oportunidade para as forças antissistema e extremistas. São eleições em que as forças de protesto conseguem melhores resultados e que normalmente penalizam as mais moderadas”, recorda.

“Os partidos extremistas têm um discurso comum sobre imigração e soberania contra os poderes europeus mas têm opiniões radicalmente diferentes sobre tudo o resto”, sublinha, por sua vez, Simone Tulumello, investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Sendo Itália um país com uma grande dívida, sempre explorou uma maior flexibilidade nos Orçamentos do Estado e a possibilidade de ter défices maiores. Ora, “os maiores inimigos dessa possibilidade são os países do Grupo de Visegrado”, com destaque para a Polónia e para a Hungria, diz ao Expresso.

A própria questão dos imigrantes e a sua distribuição pelos países europeus também abre profundas brechas na hipótese de um entendimento alargado. “Os países do leste são aqueles que nem sequer aceitam um número mínimo dos refugiados que chegam às costas italianas”, junta Tulumello. Por outro lado, continua, a Polónia e a Hungria estão entre os países que mais beneficiaram, nos últimos anos, dos fundos europeus, pelo que até “podem ter um discurso absolutamente contra a Europa mas querem continuar a receber os benefícios”.


26.1.19

Chega um partido populista de extrema-direita a Portugal



«André Ventura entregou, na quarta-feira, no Tribunal Constitucional 7500 assinaturas para formalizar um novo partido: Chega. Não há razão para o Tribunal Constitucional não legalizar esta formação política. O único impedimento constitucional para a criação de um partido é ele perfilhar o ideário fascista. Tal não transparece do que, até agora, é conhecido dos textos fundadores do Chega e das declarações do seu líder.

O problema do Chega é outro – este é o primeiro partido assumidamente populista de extrema-direita que se afirma em Portugal nos mesmos termos em que outros o têm feito na Europa. Mas tal não é proibido por lei. Mais: o populismo tem tido experiências diversas em Portugal, no plano partidário e não só. Nas últimas europeias, foi protagonizado por Marinho e Pinto.

Assim como é bom lembrar que o discurso xenófobo sobre ciganos de Ventura contaminou as autárquicas de 2013, quando Ventura foi candidato a Loures pelo PSD e eleito vereador. Então, ainda que o CDS tivesse o bom senso de lhe retirar o apoio, Passos Coelho manteve-se firme na aposta eleitoral, mesmo com críticas internas de Pedro Duarte, José Eduardo Martins e Carlos Moedas.

Por outro lado, a contaminação populista não surgiu só nos partidos, nem tem sido subestimada apenas pelos políticos. Em nome de audiências e de cliques, a comunicação social é cada vez mais dominada pelo populismo, não só no entretenimento, mas também nos conteúdos informativos e jornalísticos.

Não é por defender coisas que para a grande maioria dos democratas são hoje absurdas – uma vez que preconizam princípios que chocam com os actuais valores civilizacionais sobre o que é a dignidade da vida humana e o respeito pela diversidade individual – que ao Chega pode ser retirado o direito à legalidade. Se a defesa de princípios anticonstitucionais fosse razão para rejeitar um partido, o PCP tinha sido extinto, já que no seu programa sempre defendeu a criação de uma sociedade comunista, o que não está previsto no articulado constitucional.

Tudo o que Ventura tem defendido não permite catalogá-lo simplesmente como defensor de um ideário fascista ou fascizante. Colocar-lhe esse rótulo é redutor e beneficia-o. Oficialmente, nos textos fundadores, o Chega afirma-se como conservador, nacionalista e defensor da democracia liberal, embora o discurso de Ventura, na prática, contrarie, ataque e corroa a democracia liberal.

A este nível não é relevante a questão empolada da defesa da redução de deputados. Não é nova e insere-se no debate político sistémico tradicional. Foi proposta inúmeras vezes pelo PSD, com sucesso. Em 1976 a Constituição previa entre 240 e 250 deputados, a revisão de 1989 baixou-a para entre 230 e 235 e a de 1997 para entre 180 e 230.

Mas Ventura aposta em temas e num discurso populista nos exactos termos em que se caracteriza hoje o populismo de extrema-direita. Exemplo disso é a sua defesa da pena de morte para o terrorismo, da prisão perpétua para outros crimes, baseado no princípio do olho por olho, dente por dente próprio da Pena de Talião. Mas também a defesa da castração dos pedófilos, a constitucionalização da proibição da eutanásia e a ilegalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, numa rejeição do que hoje está estabelecido sobre as democracias inclusivas e respeitadoras da diversidade individual.

Também lá estão a exclusão dos ciganos e o combate à imigração, com a proposta de fecho de fronteiras, típicas da estigmatização e perseguição por critérios étnicos, rácicos e xenófobos. Ou a exclusão dos mais frágeis e desprotegidos que têm direitos garantidos pela Segurança Social dentro do actual Estado-providência, pilar do modelo social europeu. Ideias que tem defendido em palavras e em cartazes, como é exemplo o mais recente em Lisboa, onde se lê: “Andamos a sustentar quem não quer fazer nada.”

Isto, por si só, não fará de Ventura um Bolsonaro, um Trump, uma Le Pen, um Orbán, um Morawiecki. Para ter sucesso eleitoral, o Chega terá de ter quem se reconheça no primarismo da sua mensagem e vote nele. É possível até que o Chega vá buscar eleitores a todos os partidos e que traga às urnas os que há muito ou desde sempre, por desconfiança no sistema político e nos seus actores, se têm refugiado na abstenção.

Mas parte do sucesso que o Chega venha a ter será sempre responsabilidade dos partidos com assento na Assembleia da República. O populismo combate-se defendendo as regras e dignificando os princípios da democracia liberal na sua diversidade inclusiva. Saiba a comunicação social travar a deriva populista em que vive e os partidos tradicionais fazer face ao populismo dentro de si, com mais sucesso do que noutras democracias europeias, e o Chega não terá espaço para medrar.»

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25.1.19

O que eles andaram para aqui chegar



Mas não estão sozinhos. Bastou-me ouvir alguns excertos da debate quinzenal desta manhã para ficar mais esclarecida. Está mais do que aberta a caça ao Bloco, por uns que rezam por uma maioria absoluta em cima de uma azinheira, por outros simplesmente porque sim. Ou porque não.



«Dirigentes e deputados bloquistas têm recebido nos últimos dias dezenas de mensagens com ameaças de violência física ou mesmo ameaças de morte, insultos, críticas com pendor racista, xenófobo e homofóbico. Receber este tipo de mensagens é habitual para os políticos, mas dirigentes do BE asseguram que a quantidade aumentou significativamente nos últimos meses, e, em especial, para alguns dirigentes como Joana Mortágua, Catarina Martins ou Mamadou Ba. (…)

Esta sexta-feira de manhã, por exemplo, o assessor bloquista Mamadou Ba foi seguido durante largos minutos por dois militantes do PNR que o esperavam à porta de um evento em que ia participar, em Lisboa. Mamadou conseguiu dizer que estava a sofrer "bullying" por parte dos dois homens, mas estes continuaram a segui-lo e a confrontá-lo, numa conversa em tom agressivo, de intimidação, mas sem ameaças concretas. O vídeo deste momento foi mais tarde partilhado nas redes sociais pelos próprios elementos que perseguiram o bloquista.»

O vídeo é este:

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