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1.3.20

Não é possível prever quase nada na História



José Pacheco Pereira no Público:

«Um homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásia. Vasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto. Podia encher páginas e páginas disto.

Pensem sobre cada um destes factos e andem 30 ou 20 anos para trás e vejam quantos destes acontecimentos seriam previsíveis. Com muito esforço encontramos dois com alguma similitude com eventos passados, o que significa que existe uma débil recorrência: um, mais um falhanço de governos com a construção de uma grande obra pública por uma combinação de negligência e arrogância; outro, a precedente epidemia da gripe das aves, mas mesmo assim muito mais mitigada do que a actual do coronavírus. Mas a maioria é efectivamente surpresa, não se estava à espera e não se previu. Embora possa haver algumas tendências de fundo, no essencial a História é sempre surpresa e é por isso que os homens sábios da política e da acção devem ler Clausewitz. Adaptado aos tempos modernos, isso significa que se se quer atravessar um deserto sólido de chão duro porque não chove há 500 anos, o bom comandante de tanques prepara-se para a chuva e lama.

Fazer planos e previsões dá-nos a sensação psicológica que dominamos o futuro, mas o ruído é a voz da natureza. É por isso que esta coluna se chama o “ruído do mundo”.»
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11.11.19

Salvar a Fundação Mário Soares


«Para além de vastíssima documentação relativa à vida sindical assim como à génese e evolução de numerosos partidos políticos socialistas, sociais-democratas e comunistas, em particular europeus, encontram-se, na Fundação Mário Soares, fundos documentais de vultos da 1.ª República, como Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel Teixeira Gomes; de antifascistas, como Bento de Jesus Caraça, Carvalhão Duarte, Teófilo Carvalho dos Santos; de líderes nacionalistas africanos, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Arménio Ferreira; de fundadores e dirigentes do Partido Socialista, como Jorge Campinos, Francisco Ramos da Costa, Joaquim Catanho de Menezes, Mário Sottomayor Cardia; de activistas políticos e figuras marcantes da cultura portuguesa, como João Bénard da Costa, Sophia de Mello Breyner, Felicidade Alves. 



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29.8.19

Tempos excepcionais (mas não estes)



«Numa das suas dissertações magistrais sobre Maquiavel, o Professor João Bettencourt da Câmara (1948-2017) relembrava que, entre aqueles que, ao longo dos séculos da Civilização se têm dedicado ao pensamento filosófico e científico, houve sempre uma predisposição para julgarem os “seus” tempos de excepcionais na história das relações internacionais e dos povos. Há, efectivamente, períodos de absoluta anormalidade sistémica, sendo que todos os outros momentos, aqueles que compõem a linha de continuidade histórica, não são mais do que o comportamento natural do sistema internacional, em constante estado de tensão e conflito.

Considero que muitos daqueles que, constantemente, se apresentam à opinião pública como descodificadores dos tempos supostamente extraordinários que eles próprios dizem estar a viver, revelam um esquecimento comprometedor ou selectivo da História. Esses “intérpretes”, que em vários fóruns não se cansam de repetir, a cada ano que passa, aquilo que consideram ser momentos únicos e raros no percurso da história política da Humanidade, constroem um raciocínio baseado na omissão ou desconhecimento de acontecimentos, alguns deles recentes, resultante de formatações intelectuais ou de agendas ideológicas que em nada têm a ver com uma análise científica e rigorosa das dinâmicas sociais e políticas.

Por estes dias, há uma banalização do critério de excepcionalidade na classificação dos acontecimentos dos Estados e das lideranças, que ignora, parcial ou completamente, o pensamento criado, os debates gerados, a doutrina produzida, os sobressaltos sociais e conflitos políticos que determinadas épocas ou períodos provocaram no passado. Para estes novos “profetas”, tudo é perigosamente novo num mundo em constante confrontação, com fenómenos que só eles compreendem e sabem explicar. No tempo em que vivem e comentam, neste nosso tempo, portanto, tudo é absolutamente extraordinário, tudo é inequivocamente ameaçador.

Trump, as migrações, Johnson, os populismos, os extremismos, o Brexit e o fim da UE, os nacionalismos, as fake news, por diante… Tudo isto é inédito e único, porque, para estas pessoas, agora, sim, estamos próximos do Apocalipse. É como se fizessem tábua rasa dos dramáticos e sistémicos acontecimentos que ao longo dos séculos foram fazendo parte da evolução das comunidades e dos sistemas políticos. É como se ignorassem o facto de os nacionalismos se terem expressado com toda a sua força no século XIX ou que a História dos povos, desde a Antiguidade, tenha produzido todo o tipo de carniceiros e ditadores. Ou então, é como se menorizassem o apogeu da ascensão dos extremismos e fanatismos no século XX, provocando milhões de mortos e um rasto de destruição.

Veja-se, por exemplo, o caso europeu. Basta recuar alguns anos, até ao período de Guerra Fria, e perceber o que era a vivência por detrás da Cortina de Ferro e a ameaça constante da destruição nuclear. Ou, então, mais recentemente, relembrar as atrocidades que se viveram nos Balcãs no início dos anos 90. Por mais crises do euro, Brexits, Orbáns ou Salvinis que a Europa agora tenha, nunca o Velho Continente – dentro de um quadro de análise que tenha em consideração uma linha temporal considerável – viveu tamanha estabilidade e prosperidade numa área geográfica tão abrangente. Das Flores a Moscovo, nunca a Europa esteve tão perto daquilo que é o sonho da “paz perpétua”. Na altura em que escrevia este texto, Rui Tavares, no seu habitual espaço de opinião no PÚBLICO, concretizava milimetricamente essa tal perspectiva da excepcionalidade do seu (meu) tempo. Numa abordagem legítima, diga-se, Rui Tavares escrevia o seguinte a 21 de Agosto:


9.7.18

O último fôlego do passado colonial português




Uma entrevista, que merece mesmo ser lida, a dois investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, que organizaram o livro As Voltas do Passado, que reúne um conjunto de textos sobre o último fôlego do passado colonial português.
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22.6.18

Não a um museu contra nós!



Texto subscrito por 100 Negras e Negros, Público, 22.06.2018

«O debate sobre o futuro museu das descobertas ou da viagem que, no essencial, pretende manter a narrativa de glorificação da empresa colonial, tem suscitado um debate intenso na sociedade portuguesa à margem das comunidades negras. Recusando a invisibilidade que nos é imposta, nós, abaixo assinados, cem pessoas negras, estamos presentes como donas das nossas vozes e eco de outras que, por razões diversas, continuam a não poder falar e a não ser ouvidas na sociedade portuguesa.

A ausência das nossas perspetivas nas instituições nacionais e nas discussões públicas está naturalizada e normalizada, rasurando-nos enquanto sujeitos históricos e enquanto contribuidores por excelência para a edificação da sociedade portuguesa nas suas diferentes vertentes. Excluídos do corpo nacional, assistimos a uma disputa pela memória que reforça a glorificação da ideologia colonial e reifica o lusotropicalismo, que continua bem presente, apesar da derrota política do fascismo e do advento da democracia, com a “revolução dos cravos” de 1974.

A glorificação da ideologia colonial ancora-se na hipervalorização ideológica, política e cultural do colonialismo, quer através do ensino da história, quer através de comemorações recorrentes do passado imperial português que reforçam a quimera de uma suposta excecionalidade lusitana e exaltam um pretenso heroísmo dos seus conquistadores, privilegiando assim uma história que serve um proselitismo político e ideológico para aguçar a “auto-estima” nacional.

Ora, sanar e elevar a “auto-estima” nacional quer através da veiculação de uma história facciosa e que omite parte relevante da verdade histórica, quer pela edificação comemorativa de estátuas, monumentos e museus celebradores do colonialismo e da ideologia colonial, merece toda a nossa contestação. Pois um dos efeitos imediatos do cultivar da magia da época colonial é exatamente o alimentar do racismo histórico e estrutural e o prolongar das hierarquias de controlo e repressão para com as comunidades negras no país, como o testemunham as violências policiais sistemáticas e a segregação de que somos vítimas. É intolerável e merece toda a nossa contestação, que o orgulho nacional seja construído à custa das feridas e da dignidade dos nossos antepassados, eternamente cativos no lugar do subalterno na narrativa oficial.

O período colonial tem funcionado como referencial máximo da capacidade imperial e do apogeu de Portugal no mundo, assim como referencial para a construção da identidade nacional contemporânea, que nele bebe a sua heroicidade. O esplendor de Portugal, como se canta no hino nacional, está localizado na história do colonialismo, considerado o período áureo da História de Portugal, mas para isso omitem-se as violências sistémicas que este período histórico protagonizou, tais como a Escravatura, o etnocídio, a evangelização forçada, as Guerras de Pacificação, o Estatuto do Indigenato e a exploração de recursos. Omitem-se também as histórias de resistência dos povos africanos e indígenas, retratados como os povos sem história, elementos passivos, sedentos de civilização, de cultura e de fé.

Neste cenário, Colonização tem sido traduzida por descobertas, descoberta e descobrimentos. Escravatura e invasão dos territórios de outros povos têm sido confundidos com encontros de culturas, contacto entre povos e expansão marítima. O Tráfico de pessoas escravizadas, levadas como gado para outros continentes, ou seja, a desumanização massiva dos corpos negros, é apelidado de viagem e também de primeira globalização. Evangelização violenta e epistemicídio são retratados como interculturalidade e desenvolvimento. E tudo isto tem resumido a “epopeia dos descobrimentos” a uma sucessão de atos de benevolência da parte de Portugal, que faz com que o próprio sistema colonial português seja considerado suave e excecional pelos próprios.

Fala-se e escreve-se sobre o comércio triangular, sobre o tráfico negreiro e navios negreiros, sobre o comércio atlântico e transatlântico de escravos, referindo-se ao tráfico e animalização de seres humanos, como se os conceitos fossem inocentes e não precisassem de uma revisão crítica. É urgente a descolonização da linguagem que leve à descolonização do pensamento, que leve à descolonização do ensino da História e que leve à descolonização do imaginário, e que isso tenha consequências nas ações do presente.

E hoje, com esta tomada de posição, denunciamos um passado que quer continuar presente e continua a assombrar as nossas vidas quotidianas. Um presente que não pretende avançar para o futuro, contribuindo para a manutenção do estado das coisas, ancorado no passado e na ideologia colonial. O projeto da Câmara Municipal de Lisboa que pretende reforçar o número de instituições dedicadas à celebração do colonialismo português existentes no país, através da criação de um chame-se ele “Museu da Descoberta”, “Museu dos Descobrimentos”, “Museu da Interculturalidade” ou “Museu da Viagem”, inscreve-se nesta dinâmica.

É importante ressaltar que a troca de nomes reflete pouca seriedade no tratamento das questões aqui descritas e, sobretudo, um desprezo por aquilo que são os impactos da conceção de um Museu desta natureza junto da comunidade negra em Portugal. Porque se as Descobertas e as Viagens podem passar do plural para o singular, a Colonização, essa, permanecerá sempre sem grandes margens de mudança, dada a sua consistência histórica de violências várias e ao seu singular impacto que se repercute até hoje na vida de negras e negros de quase todo o mundo.

Não aceitamos um Museu construído sobre os ombros do silenciamento da nossa História, com o dinheiro dos impostos de negras e negros deste país, que não respeita nem valoriza a evolução da própria historiografia e a revisão histórica já feita e em curso, da necessidade de reinterpretação e reconceptualização dos impérios coloniais e do colonialismo.

Não em nosso nome! Porque este é um Museu contra nós, que pretende ser erigido ignorando as nossas demandas, o nosso contributo e a nossa resistência. Nós, negras e negros em Portugal, exigimos à CML uma aposta séria num Memorial de homenagem às pessoas escravizadas, num Museu do Colonialismo, da Escravatura ou da Resistência Negra, que descortine os aspetos essenciais e até aqui secundarizados daquilo que foram os reais impactos da empresa colonial de Portugal no mundo, suas consequências no presente e daquilo que foram os reais contributos das pessoas negras na resistência a esse sistema.

Subscritores: Abel Djassi Amado, Abigail Cosme, Abilio B. Neto, Airyton Cesar, Alessandra Brito, Alexandra Santos, Ana Fernandes, Anaximandro Cardoso, Andredina Cardoso, Angella Graça, Ângelo Torres, Anilza Mota, António Tonga, Apolo Carvalho, Ariana Furtado, Aridson Vaz, Beatriz Carvalho, Beatriz Dias, Bruno Sena Martins, Carla Costa, Carla Fernandes, Carla Santos, Carla Sofia Gomes, Carla Viana, Carlos Dias, Carlos Sousa, Cíntia Domingo, Cristina Roldão, Daniel Monteiro, Dara Ramos, Denise Viana, Diógenes Parzianello, Djanira Gomes, Eduardo Djaló, Eunice Rocha, Evalina Dias, Fabião Ocante, Fátima Cande, Fernando Ganga, Flávio Almada, Gio Lourenço, Inês Furtado, Inocência Mata, Iolanda Évora, Ivan Varela, Jakilson Pereira, Jaquelina Varela, Joacine Katar Moreira, João Carlos Barros, João Delgado, Joaquim Matamba, Joceline Pereira, John Kalagary, Jorge Almeida, José B. Pina, José Duarte, José Gueleka, José Monteiro, José S. Fernandes, José Semedo, Kalaf Epalanga, Karin Gomes, Karyna Gomes, Kiluanji Kia Henda, Lolo Arzik, Lubanzadyo Bula, Lúcia Furtado, Luzia Moniz, Maíra Zenun, Mamadou Ba, Manuel Santos, Maria João Pinto, Marlene Nobre, Mónica Furtado, Myriam Taylor, Ndofusu Kiala, Neusa Trovoada, Nina Manso, Noé João, Nuno Dias, Paulo Inglês, Paulo Taylor, Pedro Djassi, Raquel Lima, Raquel Rodrigues, Redy W. Lima, Ricardo Maneira, Rui Mindela, Samanta Semedo, Sandra Costa, Selma Uamusse, Shirley Van-Dúnem, Solange S. Pinto, Suzana Djiba, Ulício Cardoso, Ulika Franco, Ussumane Mandjam, Vítor Sanches, Vuza Ntoko, Zia Soares.»
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1.2.18

27.9.12

Da Memória



No Público de hoje (sem link), mais um texto de Manuel Loff, que ainda se relaciona com a polémica com Rui Ramos mas apenas lateral e não unicamente, pelo que não o divulgo na íntegra.

No entanto, o tema é fulcral e destaco: 

«Uma vez superada uma ditadura, para que nos recordamos dela? Para enraizar a própria democracia que lhe sucedeu? Mas temos bem a certeza de que a democracia em que vivemos radica mesmo na memória da opressão que a precedeu? Os Estados democráticos descrevem habitualmente a sua (re)fundação como resultando da superação e da rejeição da opressão (política, social, étnica, cultural, de género...) que caraterizou as ditaduras que os precederam. Isto significa que há um sentido político, cultural, moral, na recordação de uma ditadura. (...)

Em Portugal, não está encerrado o debate sobre a natureza política do Salazarismo ou o peso da violência e opressão exercida pelo Estado, e muito pouco se discutiu sobre o peso do colonialismo e da Guerra Colonial na vida de milhões de portugueses e de africanos. 

É fácil perceber como a (des)memória das ditaduras é um índice decisivo da qualidade da democracia em que vivemos. Especialmente num momento em que a agressão brutal perpetrada pelos poderes político e económico ao conjunto da sociedade produz uma crise tão evidente da legitimidade democrática, que se faz acompanhar, habitualmente, da crise da crítica do autoritarismo.» 
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24.9.12

Rui Ramos sobre a guerra colonial e o 25 de Abril


Mais um episódio, mais um texto – de Dalila Mateus, hoje, no Público. 

A obediência aos limites espaciais determinados pela direcção do PÚBLICO explica a linguagem telegráfica que se segue.

O historiador Rui Ramos, na parte da História de Portugal que redigiu, alinha abertamente com aqueles que procuram, ainda hoje, criar a ideia de que a guerra colonial era justa e “sustentável ad eternum", estando praticamente ganha, não fora o “trágico” obstáculo do 25 de Abril. Afirma, pois, que “a situação militar não era dramática”. 

A conclusão passa por cima de tudo o que foi dito pelos responsáveis máximos do país, no plano político e militar: Marcelo Caetano, o chefe do Governo, e Costa Gomes, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. E até passa ao lado da opinião da própria PIDE, nó central da teia de informações estratégicas e sua componente essencial. Estes reconheciam que a guerra estava perdida na Guiné. Em Moçambique, diziam que a situação militar se agravava de dia para dia, antevendo também o colapso. E afirmavam que apenas em Angola se vivia numa situação transitória de aparente sossego. Mais reconheciam que os meios bélicos e, sobretudo, os recursos humanos começavam a faltar e que os militares tinham chegado ao fim da sua resistência física e moral. 

Além disso e tal como outros, partindo de dados de significado discutível ou até de ficções, Ramos exalta a política e as realizações do Estado Novo, pois a situação económica, financeira e social do país era a melhor, tendo tão magnífico legado sido desbaratado pela revolução. “Nunca se vivera tão bem em Portugal, com pleno emprego, subida de salários e expansão do Estado social”, afirma.

Ora, nos últimos anos do Estado Novo, baixara o ritmo do desenvolvimento, diminuíra a produção agrícola e recorria-se de forma crescente a importações para cobrir as faltas da produção nacional. A economia portuguesa atrasava-se cada vez mais em relação aos países desenvolvidos. E, simultaneamente, pioravam as condições de vida dos trabalhadores e das classes médias. Em resultado desta política, a parte dos trabalhadores no Rendimento Nacional, que já era das mais baixas da Europa, passou de 35,8% em 1972 para 34,2% em 1973. 

Ramos defende que, com a revolução, a economia portuguesa entrara na era do desastre, com baixa do PIB, aumento do desemprego e da dívida pública. E declara terem sido dissipados, então, 100 milhões de contos em divisas. De modo que as reservas do dr. Salazar teriam pago a revolução.

Só que, no dia 25 de Abril de 1974, não existiam os apregoados 100 milhões de contos de reservas em divisas. Os gastos com a guerra, correspondentes não a 29% mas a mais de 40% das despesas do Estado, explicam o défice orçamental de 5,5 milhões de contos, em 1973. De modo que a balança de pagamentos, depois de muitos anos de saldos positivos, se torna deficitária, o que obriga a uma sangria de 7 milhões de contos de divisas nos primeiros meses de 1974. 

A evolução para défices generalizados revelava que a base produtiva do país era cada vez mais débil e anunciava uma rutura próxima do sistema económico. Foi esta, realmente, a herança do Estado Novo. 

Quanto aos efeitos da revolução, em Dezembro de 1975 e a pedido da OCDE, uma missão do conceituado MIT, constituída por três eminentes professores, esteve em Portugal para avaliar a situação económica e financeira do país. A missão publicou um estranhamente esquecido relatório.

Os economistas mostraram que os resultados de Portugal não eram muito diferentes dos de outros países, pois, em 1975, a queda do PIB era de 2,8% em Portugal, de 3% nos Estados Unidos, de 4% na Alemanha Ocidental e de 4,5% na Itália. Mas, ao contrário de outros países, o consumo pessoal e a participação do factor trabalho no rendimento nacional tinham aumentado em Portugal. E o consumo privado e público evitavam uma maior queda do PIB. De modo que os economistas norte-americanos declaravam: “Para um país que recentemente experimentou uma complexa reforma social, uma alteração total do seu comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal goza, inesperadamente, de boa saúde económica”. 

O jornal PÚBLICO, na sua edição de 15.10.2011, sugeria que, hoje, estamos como no PREC. E titulava: “Portugal arrisca recessão de 3% no próximo ano, a pior desde 1975”. Fica a interrogação: como é que alguém com “boa saúde económica” (MIT dixit) se pode comparar a quem está “gravemente doente” e pode até morrer socialmente com a brutal medicação que lhe estão a aplicar?

Assim, refutando os que, hoje como ontem, falam da “crise na economia” no PREC, os insuspeitos especialistas norte-americanos demonstraram que a revolução deixara o país com “boa saúde económica”. Oxalá pudéssemos dizer o mesmo da situação actual do país. 
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20.9.12

Rui Ramos e o reabrir da polémica sobre a “História de divulgação” do Estado Novo


Continuo a publicação, deliberadamente selectiva, de textos que se inserem na polémica em causa. Hoje, este, de Luís Reis Trogal, editado no Público. 

Em Janeiro de 2011 apresentei uma comunicação sobre a historiografia do Estado Novo num colóquio organizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre outras considerações, abordei criticamente os textos de dois historiadores: Rui Ramos e Filipe Ribeiro de Meneses. Assistimos agora a uma polémica entre Manuel Loff e Rui Ramos, nas páginas do PÚBLICO, que se alargou a um artigo, que não tive ocasião de ler, de António Araújo, a uma pequena, violenta e inconveniente nota de Maria Filomena Mónica, e, depois, a vários outros textos de valor e significado diferentes, entre eles um artigo de um dos melhores especialistas do Estado Novo, Fernando Rosas. 

Não querendo entrar nas questões mais pessoais que se levantaram, achei que não devia ficar de fora, dado que me refiro constantemente nos meus textos à falta de um debate público sobre a historiografia e sobre outros temas de ciência e de cultura. Limito-me, porém, por agora, a isolar e a adaptar o texto que escrevi então sobre Rui Ramos, que faz parte, portanto, de um artigo mais lato e complexo que continua à espera de ser publicado nas actas do referido colóquio. Como se verá, não é, pois, a primeira vez que a obra de Rui Ramos suscita, saudavelmente, alguma polémica. A reedição da História de Portugal em pequenos volumes pelo Expresso, coordenada por este historiador, veio, afinal, reabrir velhas questões. 

A obra, no seu conjunto, mereceu, obviamente, elogios desde a sua apresentação, na Sociedade de Geografia, pelo sociólogo António Barreto, que, sobretudo, louvou o seu sentido narrativo e de fácil compreensão, onde estava ausente um exercício teorizador. No entanto, a parte relativa ao regime Salazar-Caetano, assinada por Rui Ramos, provocou logo alguma discussão, proporcionada pelo trabalho da jornalista São José Almeida, que entrevistou e transcreveu pequenos passos das opiniões emitidas por alguns historiadores do Estado Novo, como António Costa Pinto, Manuel de Lucena, Manuel Loff, Irene Flunser Pimentel, Fernando Rosas, para além de afirmações do próprio Rui Ramos. O artigo teve o sintomático título “A História de Rui Ramos desculpabiliza o Estado Novo” (PÚBLICO, 31 de Maio de 2010). 

Não valerá a pena analisar cada opinião, pois não se chegaria a grandes conclusões, dado até, precisamente, o carácter de curtas passagens que foram extraídas pela jornalista às palavras de cada um dos interlocutores. Apenas poderei resumir esse debate (se é que de debate se tratou) com a própria síntese da jornalista do PÚBLICO: “Rui Ramos lamenta que em Portugal a História seja vista ‘a preto e branco, ou esquerda ou direita’. E que se conviva mal com diferentes interpretações do passado. Mas outros historiadores vêem na mais recente História de Portugal, coordenada por este autor, um discurso que desculpabiliza o Estado Novo e diaboliza a I República. Há mesmo quem fale de ‘legitimação’ do discurso de Salazar. E quem acuse esta História de ignorar a violência daqueles anos”. 

Não entro nessa discussão para que, de resto, não fui convidado, mas posso sim discutir a metodologia de análise de Rui Ramos. 


7.9.12

Polémica historiográfica e ideologias


Porque comecei a divulgar alguns textos que se inscrevem na já longa polémica Manuel Loff / Rui Ramos, continuo com um outro, de João Paulo Avelãs Nunes, editado hoje no Público (sem link). Só publico textos «de um dos lados»? Sim, deliberadamente. O Google ajudará quem quiser encontrar os outros, largamente difundidos na net. 


Visa-se com este texto intervir na polémica travada nas páginas do PÚBLICO a propósito das crónicas publicadas por Manuel Loff, a 2 e 16 de Agosto de 2012, sobre os capítulos relativos aos séculos XIX e XX na coordenada por Rui Ramos: Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro trataram os períodos medieval e moderno; Rui Ramos analisou a época contemporânea. 

Começo por manifestar satisfação profissional e cívica pelo facto de o PÚBLICO estar a viabilizar a divulgação para a “opinião pública” do que poderia ser um debate entre “especialistas” acerca da história contemporânea, das relações entre conhecimento científico e ideologia, da utilidade social da história (das ciências sociais em geral). A utilização inicial de uma linguagem mais adjectivante não justifica nem legitima o recurso a insultos ou a anátemas de cariz pessoal, a recusa em considerar questões substanciais entretanto colocadas. 

Justifica-se, ainda, lembrar que muitos historiadores utilizam hoje, em Portugal como noutros países, as categorias de discurso essencialmente “objectivante”, “revisionista” ou “negacionista” para caracterizar determinadas leituras da realidade. Citamos o exemplo de debates ou polémicas sobre problemáticas como as das desigualdades sociais e de género, como as dos regimes totalitários de tipo fascista e de tipo estalinista, como as do anti-semitismo e do Holocausto, como as do racismo e dos regimes de “independência branca”. 

Uma vez explicitadas algumas referências prévias, diria que concordo com Manuel Loff quando defende que muitos dos textos de Rui Ramos sobre a Ditadura Militar e o Estado Novo podem ser caracterizados como “revisionistas”, o que é diferente de “negacionistas” e, mais ainda, de “fascizantes”. Utilizando uma linguagem “naturalizada” — aparentemente óbvia e indiscutível —, Rui Ramos compararia uma Primeira República ditatorial, “terrorista” e “caótica” (protototalitária?) com um Estado Novo ditatorial mas “moderado” e “comparativamente eficaz” (autoritário).
Discordo, também, de várias das apreciações feitas, no âmbito desta polémica, por Maria Filomena Mónica e por António Barreto. Não consigo perceber a necessidade de Maria Filomena Mónica recusar, de modo totalmente infundado, validade à actividade de Manuel Loff como investigador e docente; de lhe atribuir militâncias políticas “inconfessáveis”, bem como uma postura intelectual “fanática” e “maniqueísta”. Evoco a possibilidade de a Primeira República ser encarada como um regime demoliberal com vectores de autoritarismo e não apenas como uma democracia ou, em alternativa, como uma “ditadura revolucionária”. Contesto afirmações como as de que só “falsos historiadores” consideram operatório aplicar os conceitos de “fascismo” e de “totalitarismo” ao estudo do Estado Novo português; as de que os investigadores e docentes da “esquerda delirante” procuram impedir, em Portugal, que os estudantes universitários “tenham acesso a livros que possam pôr em causa o que os professores lhes dizem nas aulas”.

Relativamente à intervenção de António Barreto nesta polémica, estranho que, a propósito dos comentários de Manuel Loff a alguns dos capítulos da História de Portugal coordenada por Rui Ramos, tenha defendido que aquela obra é o primeiro exemplo em Portugal de uma análise “serena” e “normalizada” da Primeira República e do Estado Novo — ambos, “mais do que qualquer outro período, submetidos à tenaz de ferro das crenças religiosas e ideológicas e ao ferrete das tribos”. Segundo António Barreto, quer em ditadura, quer em democracia, antes dos textos de Rui Ramos existiria apenas “o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas "da esquerda e da direita".”

Para além de ser difícil, por boas e más razões, caracterizar a produção historiográfica de Rui Ramos como “normalizada”, “serena”, e “sem ajustes de contas”, porquê ignorar o trabalho, entre muitos outros, — e citamos apenas “investigadores seniores” portugueses — de historiadores do Estado Novo como António Costa Pinto, António José Telo, César de Oliveira, Fernando Rosas, José Maria Brandão de Brito, Luís Reis Torgal, Manuel Braga da Cruz, Manuel de Lucena e Maria de Fátima Patriarca? A importância da historiografia (das ciências sociais em geral) é demasiado grande para que se tente transformar uma polémica não num debate científico e ideológico, mas num exercício de afirmação de um “pensamento único” e de ataque violento a quem possa discordar das leituras em causa. 
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5.9.12

Cartilha “normalizada” do Estado Novo?


Este texto de Fernando Rosas (Público de hoje, 5/9/2012, sem link) inscreve-se na polémica em curso entre os historiadores Manuel Loff e Rui Ramos (com outros intervenientes pelo meio...). Os artigos de Loff podem ser lidos neste blogue, os outros «andam por aí», não por aqui. 

Não era minha intenção intervir na polémica que neste jornal tem oposto os historiadores Rui Ramos (RR) e Manuel Loff (ML), a propósito dos conteúdos sobre a História do século XX da de que o primeiro é, respectivamente, autor e co-autor. E não o faria, se o inacreditável artigo de Filomena Mónica (FM) publicado nestas colunas (1/8) a tal me não tivesse obrigado. 

Permitam-me que comece por situar a questão, tal como a vejo: é ou não científica e civicamente relevante discutir criticamente os pontos de vista que enformam a versão da História política do século XX subscrita por RR? Eu acho que sim. Porque é um texto bem escrito, porque teve ampla divulgação e, sobretudo, porque é matéria que se prende umbilicalmente com a forma como pretendemos legitimar o presente e fazer o futuro. No meu entender, foi precisamente isso que, à sua maneira e no seu estilo assertivo, mas onde não vislumbro nada de insultuoso ou pessoalmente difamatório para o criticado, julgo que Manuel Loff pretendeu fazer. Na realidade, essa parte da História de Portugal de RR, no seu modo corrente e aparentemente desproblematizador, no seu jeito de discurso do senso comum superficial e para o “grande público”, é um texto empapado de ideologia. Uma ideologia que faz passar a visão da I República como um regime ditatorial, “revolucionário” e de “terror”, por contraponto a um Estado Novo ordeiro e desdramatizado, quase banalizado na sua natureza política e social, transfigurado em ditadura catedrática, em regime conservador moderado e aceitável, apesar de um ou outro abuso. Essa visão — em vários aspectos semelhante ao próprio discurso propagandístico do Estado Novo sobre a I República e sobre si próprio — carece, a meu ver, de qualquer sustentação histórica. E, talvez por isso mesmo, convém salientá-lo, não é subscrita, ao que me parece, por uma significativa parte de historiadores e investigadores que, com diferentes perspectivas, trabalham sobre este período. 

O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha ”normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica. Peço licença para dizer que, como historiador e como cidadão, não me intimidam. E por isso vamos ao que interessa. 

É bem certo que a I República, e já várias vezes o escrevi, não foi, obviamente, uma democracia nem política, nem socialmente, sobretudo no sentido moderno do termo. Com o seu liberalismo oligárquico, com as suas perseguições políticas (sobretudo na sua primeira fase contra as conspirações restauracionistas) e principalmente sociais (contra o movimento operário e sindical), foi um regime de liberdade frequentemente condicionada, à semelhança da maioria dos regimes liberais da Europa do primeiro quartel do século XX. Mas com o ser isso tudo, foi um sistema imensamente mais liberal e aberto do que o Estado Novo da censura prévia, da proibição e perseguição dos partidos, dos sindicatos livres, do direito à greve e da oposição em geral, da omnipresença da polícia política e da violência arbitrária, da opressão quotidiana dos aparelhos de repressão preventiva e de enquadramento totalizante. E tenho para mim que isso não é banalizável ou “normalizável”. Nem histórica, nem civicamente. É por isso que os valores matriciais da I República puderam ser os da resistência à ditadura salazarista e enformaram, como referência, os constituintes democráticos de 1976. 

Infelizmente, RR não compareceu a este debate. Refugiou-se sob o manto de uma pretensa intangibilidade moral, ou seja, de uma vitimização construída a partir, na realidade, da deturpação dramatizante das criticas do seu interlocutor. FM fez bem pior. Sem aparentar perceber nada de nada, veio à liça reclamar contra o facto de ML romper o consenso que ela acha que existia em torno do “terror republicano”, apodá-lo de “marxista leninista” e de “historiador medíocre” — quem falou de insultar? — sem discutir um único dos seus pontos de vista e confessando desconhecer e não querer conhecer a obra de ML! E embalou: a “deturpação de um texto”, diz FM, está na natureza dos comunistas e apela sem rebuço à censura do “seu” jornal contra tal gente. Isto tudo, claro está, porque, como se terá percebido, FM “gosta de controvérsia”... 

Para mim, ao contrário, acho absolutamente necessário que RR e FM continuem a ter pleno direito à palavra. Pelo menos, isso mantém-nos atentos e despertos relativamente aos “demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa” (António Barreto dixit
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30.8.12

Manuel Loff: Difamação


Tendo publicado (aqui e aqui) os dois primeiros textos de Manuel Loff, inscritos na polémica com Rui Ramos, que não sei está ou não a chegar ao fim, faço o mesmo ao terceiro (divulgado no Público de hoje). 

O debate de ideias não é fácil. E menos ainda quando se o procura evitar arrastando-o para um terreno que se pretende descrever como moral, quase judicial. Rui Ramos (RR), coordenador da História de Portugal que o Expresso que o decidiu oferecer aos seus leitores e que eu critiquei, na parte que lhe cabe, nas minhas duas últimas crónicas no PÚBLICO (2 e 16 de agosto), queixava-se há dois anos de que “vivemos num mundo muito diferente do que eu vivi em Inglaterra ou em Espanha, onde nos mesmos seminários, congressos e departamentos convivem pessoas com ideias muito diferentes, discutindo acalorada ou friamente, mas debatendo ou divergindo” (PÚBLICO, 31.5.2010). Ramos reagira assim quando, no PÚBLICO, São José Almeida o confrontou com as opiniões de vários historiadores (F. Rosas, A. Costa Pinto, M. de Lucena, I. Pimentel, eu próprio, com quem ele, mal ou bem, tem convivido em congressos, júris, comités), entre as quais se formularam críticas mais duras do que aquelas que eu agora dirigi ao seu trabalho.

O debate em torno do livro em questão não é novo e não surgiu do nada. A RR não se lhe ocorreu então de falar de “um simples caso de difamação pessoal”, de “desfaçatez”, de “calúnias” e “falsidades” — tudo epítetos com que me brinda hoje, evitando tratar-me pelo nome e chamando-me “um colunista quinzenal” do PÚBLICO, negando tratar-se de “uma polémica historiográfica ou [de] uma questão de opiniões”. Pela minha parte, habituado a que estou a que se use a tática da vitimização para desviar o debate, não alimentarei semelhante estratégia respondendo a tais epítetos — mas confesso achar que será fácil ao leitor perceber, como quase sempre acontece nestas situações, como todos eles poderiam recair sobre o seu autor...

É, no mínimo, excêntrico que RR gaste uma página inteira deste jornal para responder a “acusações” — a expressão é usada três vezes — “tão absurdas que não deveriam merecer resposta”. E, contudo, quem, como ele diz de si próprio, “há 7 anos que escrev[e] na imprensa semanalmente e particip[a] em programas de TV”, deve saber submeter-se à mesma crítica pública a que sujeita, como ele tem sujeitado, os outros. Sobretudo se publica resultados da sua investigação sob a forma de livro: nessas vestes, sabe que está sujeito ao contraditório e ao debate, regra intrínseca à produção de conhecimento que se pretende científico. E esse debate, mesmo que desenvolvido num jornal e não numa revista especializada, faz-se sempre com um mínimo de regras metodológicas simples, que passam por citar rigorosamente o que se pretende contradizer/discutir — o que fiz com tudo quanto de RR citei, ao contrário do procedimento (esse, sim, manipulador) que ele seguiu para se referir às minhas críticas, evitando fazer citações diretas e permitindo-se, assim, atribuir-me o que não escrevi. Ramos caricatura os meus argumentos e quer responder à caricatura. Se tal fosse admissível seria fácil, mas as minhas crónicas não foram escritas no Inimigo Público...

RR inventa até que eu lhe teria chamado fascista por escrever o que escreveu — adjetivo (com aspas, como se de uma citação minha se tratasse!) que usa três vezes na sua resposta. Imagino que queira arrastar-me para alguma alucinação sua de 1975, mas não o sigo. RR não precisa de ser fascista para ser um empenhado relativizador da leitura histórica da ditadura salazarista, que procura há anos desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo para a tornar banal, comum, no contexto histórico em que ela se desenvolveu, usando argumentos que se conhecem há muito na Alemanha, em Itália, em Espanha, em França, entre outros, para relativizar experiências ditatoriais sobre cuja condenação se baseiam as democracias contemporâneas europeias, procurando branquear a imagem das ditaduras, quer reduzindo o seu peso histórico específico, quer contaminando todas as outras experiências políticas contemporâneas com a mesma suspeição moral. Há 15 anos que estudo este fenómeno; nada do que Ramos escreve me parece novo.


26.8.12

Há 10 anos ou pouco mais



A «Revista» do Expresso, ontem divulgada, foi a terceira de quatro edições especiais destinadas a comemorar os 40 anos de existência do jornal, que se completam no próximo dia 1 de Janeiro. Este número abrange o período 1993-2002. 

Ainda não cheguei ao fim da leitura, mas o que vi dá matéria de reflexão mais do que suficiente: como foi possível chegarmos ao ponto em que estamos, a partir de onde nos encontrávamos há 20 ou mesmo há dez anos?!

O texto de Clara Ferreira Alves «Parecia o fim da História» espelha bem, a meu ver,  uma parte da «história»:

«Vivíamos numa campanha alegre. Tudo se vendia e tudo se comprava. Todo o país era um "projecto". Quem olhasse um pouco para o que se passava lá fora estaria atento aos sinais, mas em Portugal, o oásis, ninguém queria saber dos sinais. O Muro tinha ruído, a União Soviética tinha implodido, o mundo banhava-se na luz astral do capitalismo como sistema perfeito.»

Texto, na íntegra, AQUI
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23.8.12

Manuel Loff versus Rui Ramos (e vice-versa)


Divulguei neste blogue o primeiro e o segundo capítulos de «Uma história em fascículos» de Manuel Loff. Depois disso, Rui Ramos respondeu, num texto pode ser lido por exemplo aqui.
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16.8.12

Manuel Loff: Uma história em fascículos (II)


No passado dia 2, divulguei um primeiro texto de Manuel Loff. Fica aqui o segundo (Público de hoje, sem link). Leitura mandatória.

O Expresso decidiu oferecer gratuitamente aos seus leitores a História de Portugal em 9 fascículos, coordenada por Rui Ramos (RR). Nela, apresenta-se-nos uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista, procurando aquilo que, até hoje, ninguém na historiografia séria e metodologicamente merecedora do nome tinha tentado: desmontar a natureza ditatorial do Estado Novo. Como comecei a expor aqui há duas semanas atrás, é inaceitável que se pretenda consagrar uma leitura tão manipulada da História. 

Para RR, o salazarismo era “uma espécie de uma monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da República eleito por sufrágio direto e individual” (pp. 632-33), que “reconhec[ia] uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de ação próprias e hierarquias e procedimentos específico”, mas que só “não admitiu o pluralismo partidário” (p. 650). Nada se diz sobre o papel das eleições como simulacro de legitimação popular ou a fraude generalizada, realizada mesmo quando nenhuma candidatura alternativa se atrevia perante a do partido único, para inflacionar artificialmente a votação e simular um consenso que não existia. 

É inacreditável ver produtos típicos da fascização da sociedade, importados diretamente do fascismo mussoliniano, como foram os sindicatos nacionais, as casas do povo (verdadeiras “associações de socorro e previdência” que “desenvolviam atividades desportivas e culturais”) e os grémios corporativos, descritos como meras “associações” de “representação da população ativa” (p. 644), sem se escrever uma linha sobre a guerra total aberta aos sindicatos livres do período liberal, feita de prisões, deportações e mortes. 

Para RR, a repressão, definidora de qualquer ditadura, “tem de ser colocada no contexto do uso da violência na manutenção da “ordem pública””. Sem citar documentos, Ramos faz aquilo que ele próprio diz que “os salazaristas fizeram sempre questão” de fazer: “Comparar os métodos repressivos [de Salazar] com a ‘ditadura da rua’ do PRP” (p. 652), sustentada sobre o “trabalho sujo” de “gangues chefiados por ‘revolucionários profissionais’” (p. 591), empurrando o leitor a achar que a I República fora muito mais violenta que a ditadura. Esta teria sido tão generosa que muitos “conspiradores e ativistas conservaram as suas posições no Estado em troca de simples abstenção política”; contrariando quase tudo quanto se escreveu na História social e da educação do salazarismo, diz-se que “não houve saneamentos gerais de funcionários” (p. 653)! Pior terá sido a Revolução de 1974-75, em que “20 mil pessoas [se] viram afastadas dos empregos” e “pelo menos 1000 presos políticos” terão sido detidos, “7 vezes mais do que no fim do Estado Novo” (p. 732)... 

Espantados? Para RR, o salazarismo, afinal, “não destoava num mundo em que a democracia, o Estado de Direito e a rotação regular de partidos no poder estavam longe de ser a norma na vida política”. A democracia não existia nem na “Europa ocupada [sic] pela União Soviética”, nos “novos Estados da África e da Ásia” ou “mesmo na Europa democrática”, que “produziu monopólios de um partido (...), sistemas de poder pessoal (...), restrições e perversões” como “a proibi[ção] de partidos comunistas” ou “tortura e execuções sumárias” (p. 669). Em 1968, substituído Salazar por Marcelo, “a democratização não estava na ordem do dia” no mundo. Os “constrangimentos policiais”, justificados “no resto do Ocidente” pela “‘luta armada’ da extrema-esquerda” (pp. 697-98) que se inicia no final dos anos 60, eram semelhantes aos do Estado Novo. Eis aquilo que me parece puro cinismo: a democracia, afinal, não existia em lugar nenhum, o que esbate qualquer diferença entre ditaduras e sistemas liberal-democráticos, onde a violência do Estado e de classe coexiste com um mínimo de liberdade de ação para partidos e movimentos que contestem o Estado e os ricos. 

Da violência colonial, dos massacres perpetrados contra africanos, nem uma palavra! E a guerra? “A opção [de recusa de sair das colónias] não pareceu inicialmente excêntrica na Europa” porque “a retirada europeia de África só começou em 1960”, omitindo que ela começara dez anos antes. Se a guerra colonial (nunca assim designada, claro) “foi o maior esforço militar de um país ocidental desde 1945” (p. 680), as “guerrilhas” tiveram “reduzido impacto”, a guerra “não foi demasiado cara” e era “pouco mortífera”, e, “talvez por isso, o recrutamento nunca foi um problema” (pp. 684-85), o que é talvez o erro factual mais despudorado de todos quantos RR comete! Em resumo, “a guerra foi aceite” (p. 685) pelos portugueses. 

Dedução lógica: o que nos habituámos a chamar uma ditadura não era mais do que um regime semelhante aos que por lá fora havia, melhor até, no campo da repressão, do que muitos, a começar pela I República e o 25 de Abril! Em tempos de transição do Estado Social para o Estado Penal, como designa o sociólogo Loïc Wacquant à criminalização dos dominados que se opera nos nossos dias, o salazarismo voltaria a ser um regime para o nosso tempo!

2.8.12

Manuel Loff: Uma história em fascículos... (I)




Apesar de estar muito longe de Portugal, cheguei a este texto do Público de hoje, 2/8/2012, e parece-me importante disponibilizá-lo aqui.

O Expresso está a oferecer gratuitamente aos seus leitores uma História de Portugal dividida em nove fascículos, apresentando-a como “um dos livros mais vendidos de sempre” entre os que se dedicaram à nossa história. O Expresso acha (eu não) que este é “hoje reconhecido como um dos melhores livros sobre a História de Portugal”, e terá querido disponibilizá-lo a dezenas de milhares de leitores para quem é apetecível uma síntese em 900 páginas da “história de um grande país”. 

O livro é coordenado por Rui Ramos (RR), um historiador especializado na Monarquia Constitucional e na I República portuguesas mas que se encarregou nesta obra de cobrir também o período entre 1926 e a atualidade. As épocas medieval e moderna estiveram a cargo de dois historiadores (Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Monteiro) cujo trabalho não comentarei. Dedicarei esta e a próxima crónicas especificamente ao trabalho de RR, que concebeu e coordenou a obra e disse há dois anos que ela pretendia ser meramente “uma porta de entrada na História”, e “aguçar o apetite do leitor”, descrito como “exigente” (Prólogo, p. II), e “fazer com que as pessoas queiram ir ler mais” (PÚBLICO, 31.5.2010). Esperemos que sim. 

RR não é um historiador qualquer; a sua visibilidade pública é ajudada, como em pouquíssimos casos, pelo seu acesso às tertúlias televisivas e à imprensa, onde se tem destacado como uma das penas mais sólidas da direita intelectual portuguesa, que reivindica “o prazer da provocação intelectual e reconhece um aguçado espírito de contradição, sobretudo quando o alvo é a esquerda” (Ler, janeiro 2010). Para percebermos o que RR entende por “provocação”, e em resposta a quem acha — como eu — que o seu trabalho é puro revisionismo historiográfico política e ideologicamente motivado, ele entende que “toda a História é revisionista” e nela “é necessário afirmar originalidade” (PÚBLICO, 31.5.2010). 

Centremo-nos hoje na narrativa que RR faz do papel de Salazar na história. Para ele, o Estado Novo era “um regime assente (…) no monopólio da atividade legal por uma organização cívica de apoio ao Governo”, e esta é a forma como ele classificará sempre o partido único da ditadura, com “a chefia pessoal do Estado” entregue a “um professor catedrático introvertido”, um homem “de outra espécie”, com “nada de uma personagem ditatorial” como a dos líderes da Europa fascista do tempo (pp. 627 e 638-39). Neste campo, a primeira das suas preocupações é a mais comum entre os historiadores da área de RR: desenhar um Salazar sensato e algo neurasténico, que não gostaria de uniformes (apesar da origem militar do regime e do seu caráter inevitavelmente policial e repressivo) e que nada teria a ver com Hitler, Mussolini ou Franco. O “pobre homem de Santa Comba”, como o ditador se definiu a si próprio, teria “para Portugal objetivos simples” pois propunha-se “fazer viver Portugal habitualmente” e “queria instituir uma “ditadura da inteligência” para “fazer baixar a febre política” no país e “reencontrar o equilíbrio” (p. 639). 

A segunda originalidade de RR decorre daqui e descola totalmente da realidade: oferecer-nos um Salazar liberal, por oposição aos republicanos de 1910 (um dos ódios de estimação de RR), que, praticamente totalitários, teriam estado empenhados em fazerem da sua “revolução” uma “transformação cultural violenta” feita por um “Estado sectário” (pp. 585-86)! Salazar, pelo contrário, queria “assentar o Estado, não na “abstração” de indivíduos desligados da sociedade e arrastados por ideias de transformação radical, mas no que chamou o “sentimento profundo da realidade objetiva da nação portuguesa””. Para RR, “a “missão” do líder” era a de “reconciliar os portugueses com essa “realidade”, e ao mesmo tempo ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis”. Em resumo, “o seu modelo implícito era o que no século XIX se atribuíra aos “ingleses”, prático, “pouco sentimental”: “Eu faço uma política e uma administração bastante à inglesa”” (pp. 639-40) — isto é, um Salazar primeiro-ministro da rainha Vitória... Se acompanharmos as suas crónicas no Expresso, a lição da História para a análise da crise atual parece evidente. Hoje, “a austeridade é, no fundo, a vida depois de desfeitas as últimas ilusões do passado” – exatamente como Salazar, que “tinha ambições, mas não ilusões” (RR, in Sábado, 14.1.2010), se havia empenhado em “reconciliar os portugueses com a realidade” e em “ajudá-los a adotar modos de vida sustentáveis”! E o que é que, na opinião, de RR foi insustentável no nosso passado recente? “Uma classe média de funcionários (…), uma economia de trabalhadores e empresários protegidos, e a estatização de grande parte dos serviços (educação, saúde) e da segurança social” (Expresso, 28.7.2012). 

RR leva à prática o que ele próprio estabeleceu como o fim “desta História de Portugal [o de] despertar a atenção para a importância da História como meio de dar profundidade à reflexão e ao debate público sobre o país.” Para ele, “a História (…) é uma maneira de pensar” (Prólogo, p. IV). Tem toda a razão. E a sua está bem à vista. 
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