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22.4.13

Para a Agenda


(Clicar na imagem para ler)

Sinopse:

«Depois de uma curta "Primavera Marcelista", o País assistiu a uma escalada da violência contra todos os portugueses que enfrentavam a ditadura. Entre 1973 e 1974, mais de 500 pessoas, pertencentes a vários movimentos políticos e oriundas de diferentes classes sociais, foram presas e violentados pela PIDE.
No forte de Caxias, muitas eram sujeitas às mais sofisticadas e brutais formas de tortura, ensinadas através de um manual entregue pela CIA à polícia política portuguesa, enquanto lá fora se preparava a revolução de 25 de Abril.
Depois de meses de sofrimento, os homens e mulheres detidos em Caxias enfrentaram momentos de angústia e incerteza quando souberam que houvera um golpe militar - seria um golpe da esquerda ou, tal como acontecera no Chile, da direita mais radical? Atrás das grades, os prisioneiros enfrentaram essa dúvida durante horas a fio. Sofrendo até ao fim, os últimos presos políticos do Estado Novo só conheceram a liberdade na madrugada de 27 de Abril de 1974 - dois dias depois da revolução que pôs termo a 48 anos de ditadura.»

Sobre esta obra, já escrevi umas notas de leitura
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3.4.13

Um romance, muitas memórias



No próximo Sábado, 6 de Abril, estarei no lançamento desde romance de Afonso Rocha, que retrata um período que vai dos anos 40 ao 25 de Abril de 74, abordando a vida dos jovens no interior do país e nas grandes cidades, a emigração, a guerra colonial, o apartheid e a resistência ao fascismo -  «passeando» por Lisboa, Porto, África e Paris, durante as décadas de 60 e de 70.
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2.12.11

«Nós continuaremos responsáveis pelo futuro»


O título é retirado de um parágrafo do Prólogo de Já uma estrela se levanta, o segundo livro de Helena Pato, publicado este ano (1).

Estamos perante um precioso conjunto de textos, de um modo geral curtos, em que a autora nos conta uma série de episódios da sua actividade de resistência em tempo de ditadura, desde muitas peripécias ligadas a actividades clandestinas até à dura experiência da prisão, da tortura do sono e não só, passando pelo exílio em Paris e pelos ambientes dos portugueses que com ela o partilharam. Relata-nos, também, alguns episódios vividos já depois do 25 de Abril.

É pois de um livro de memórias que se trata, simples, directo e escrito mesmo com humor, num estilo muito próprio de quem tem numa aptidão especial para contadora de histórias. Algumas destas vêm já da sua primeira obra e foram «retocadas», outras terão nascido no blogue «Caminhos da Memória» em que ambas participámos, entre 2008 e 2010 (2).

Fica como sugestão para prenda de Natal. Quem viveu a época gostará de a recordar, quem já nasceu ou cresceu em democracia aprenderá certamente algo com a vida desta mulher corajosa que foi e é uma combatente – e que voltaria (ou voltará…) a ser resistente se a realidade assim o impusesse.

(1) Edições Tágide, 2011.
Saudação, Flausinas, Moedas e Simones, a primeira obra da autora, data de 2006 e foi editada por Campo das Letras.
(2) Uma das minhas preferidas: Um bife na Brasileira do Chiado.
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9.7.10

Memória de uma Cooperativa Cultural


É lançado no Porto, no próximo dia 19, um livro de Mário Brochado Coelho sobre a «Confronto», uma  cooperativa que foi uma peça importante no puzzle da resistência à ditadura durante os seus últimos anos - sobretudo a Norte, mas não só.

Já conheço bem o texto porque vou dizer algumas palavras na sessão da sua apresentação e, também, porque o autor me deu o prazer (e sobretudo a honra…) de me pedir que escrevesse o Prefácio. Trata-se de um trabalho notável de pesquisa exaustiva de actividades, protagonistas e documentos, que permite a  reconstituição de uma história e a preservação da memória - ou não estivéssemos a falar de Mário Brochado Coelho...

Passo-lhe a palavra:

Contrariando a nossa habitual tendência de «fazer história» com base num ponto de vista único centrado exclusivamente em Lisboa, procurei recuperar e dar a conhecer os principais traços do nascimento, actividade, encerramento e significado de uma instituição político-cultural do Porto denominada «Confronto, Cooperativa de Promoção Cultural, SCRL».

Tentei fazê-lo com o rigor possível e fugindo à forte subjectividade e emoção dos que – como eu – viveram intensamente o dia-a-dia desta cooperativa. O discurso tem, pois, um estilo enxuto.

Serão, porventura, muitos os que poderão encontrar neste trabalho algumas referências importantes sobre as suas vidas, a sua formação pessoal e os seus sonhos de um futuro melhor. Procurei retirar do silêncio iniciativas, pessoas, factos, indignações e resistências que marcaram de modo significativo a vida política de vários sectores da intelectualidade portuense e nortenha da segunda metade dos anos 60 e início dos anos 70 do século passado (1966-1972) e que serviram de escola para variados e diferentes ramos de pensamento inovadores, alguns dos quais foram determinantes, por vezes, nas práticas política e social nacionais durante a(s) década(s) seguintes.

A Confronto foi um lugar de diálogo entre pessoas, ideias e grupos diferentes mas que se situavam dentro de um quadro mínimo de defesa dos direitos humanos e oposição política ao regime fascista de Salazar e Caetano. Colocou em «confronto» perspectivas diversas de intervenção cívica, ética e social, ensinando cada um a conhecer e respeitar as diferenças dos demais ao aprender a descobrir nelas todos os seus tesouros escondidos. Mostrou que a realidade é rica em diversidades e que ninguém é portador de uma qualquer verdade absoluta. Provou, por fim, que o ser humano é simultaneamente uno e complexo.

(N.B. - MÁRIO BROCHADO COELHO é autor das obras Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade, 1971, Porto, Edições Afrontamento; Uma Farsa Eleitoral – O Caso do Sindicato Metalúrgico de Aveiro, 1973, Porto, Edições Afrontamento; Lágrimas de Guerra (diário), 1987, Porto, Edições Afrontamento; Cinco Passos ao Sol (poesia), 1991, Porto, Edições Afrontamento; A Liberdade Sindical e o Quadro Estatutário das Associações Sindicais (separata), 2004, CEJ/IGT, Coimbra Editora.)
...

9.5.08

Livro de Memórias - Lançamento











(Clique na imagem para aumentar)

José Dias nasceu em Braga, em 1948. Foi dirigente católico, estudantil, partidário, sindicalista e associativo e assessor político.
Reside actualmente em Coimbra, onde preside ao Conselho da Cidade.

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P.S.– Nem sei há quantos anos conheço o Zé Dias (é assim que gosta que lhe chamem), mas contam-se por décadas. Andámos juntos em lides semi-clandestinas, nos idos de 60 e 70. Estivemos muitos anos desencontrados e, em 2007, ele redescobriu-me e fez-me descobrir Coimbra – devo-lhe mais essa.

25.11.07

«Rio das Flores» e «Rio de Sombras»


São semelhantes os títulos de dois livros que saíram quase ao mesmo tempo – um de Miguel Sousa Tavares (MST) e outro de António Arnaut (AA) (*). Mas não só os títulos os aproximam: ambos são romances que pretendem tratar de História através de histórias.

Sobre Rio das Flores, muito já foi escrito. Sobretudo depois da crítica, absolutamente arrasadora, que Vasco Pulido Valente fez no Público de 24/11, não apetece dizer muito mais.
Limito-me portanto a referir que, eu que gostei muito de Equador, me aborreci com a leitura de muitas das mais de seiscentas páginas deste novo livro. Sobretudo porque me ficou a impressão de que MST quis «aproveitar» («rentabilizar») o material que reuniu em três anos (?!...) de pesquisas, metendo-o à força em longas lições de história-contada-a-pobres-ignorantes, muito para além do que era adequado para uma contextualização correcta dos acontecimentos ficcionados. Não se percebe se quer aproveitar a História para contar uma história ou o contrário – senti isso permanentemente durante a leitura, o que é francamente desagradável.

Rio de Sombras aparece como um projecto bem mais modesto e, nessa exacta medida, mais conseguido. AA é um homem de outros ofício que não o de escritor, que resolveu deixar um romance que é, de facto, um livro de memórias ficcionadas. Nele percorre duas décadas da vida política portuguesa (a acção começa em 1968, na guerra colonial em Angola, e termina em 1988, simbolicamente com o incêndio do Chiado), através das vivências militantes e amorosas das suas personagens nos últimos anos do Estado Novo, no 25 de Abril, no PREC e nos anos que se seguiram «...em que as águas límpidas do sonho de Abril se transmudaram no lodo do desencanto, embora reste ainda uma nesga de esperança...» (**).

Encontramos os factos e as pessoas concretas (Soares, Cunhal, Sá Carneiro, muitos outros e até o próprio António Arnaut) relembrados, descritos e caracterizados com simplicidade. À medida que as histórias dos «heróis» do romance se vão desenvolvendo, aparecem os meandros das querelas políticas e partidárias.

AA pisca também o olho à maçonaria, mas aqui não abre a porta e é pena. Ele, que tão bem a conhece, podia ter-nos deixado entrar que não viria daí mal ao mundo – nem mesmo ao maçónico.

Literariamente, o estilo é demasiado rebuscado, pelo menos para meu gosto. Mas lê-se bem – eu li bem...

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(*) Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores, Oficina do Livro, Lisboa, 2007, 632 p.
António Arnaut, Rio de Sombras, Coimbra Editora, Coimbra, 2007, 376 p.

(**) A maior parte dos acontecimentos tem lugar em Coimbra, o que não é de somenos importância: julgo que, com a habitual sobranceria centralizadora, os lisboetas (nos quais me incluo por aculturação) nunca procuraram saber como foram vividos, concretamente, o 25 de Abril, o 1º de Maio de 74, o PREC e tudo o que se seguiu fora de Lisboa, do Alentejo (e de Rio Maior...).

24.11.07

«Brumas»

A versão portuguesa de Le Monde Diplomatique de Novembro traz uma recensão crítica do meu livro.

Para o Daniel Melo, aqui ficam os meus agradecimentos.

21.11.07

Voo rasante?

Tinha uma expectativa elevada quanto a este livro (*):

- Porque era grande a minha ignorância quanto aos meandros pós-independência em Moçambique, embora por lá tenha nascido e vivido a infância – portuguesa de segunda, com a honra que quiseram conceder-me.

- Porque há muitos anos que conhecia de nome o mítico autor, moçambicano branco que aos vinte e poucos anos fugiu para o Tanganica num avião da Força Aérea Portuguesa para se juntar à luta da FRELIMO e que ocupou depois, no novo país, um sem número de cargos ao mais alto nível.

Acabada a leitura, o principal sentimento que fica é o da desilusão (**). Em quase 300 páginas, vêem-se passar décadas de factos narrados «operacionalmente», quase como se se tratasse de um relatório a ser apresentado a umas quaisquer autoridades. Nem discuto se há incorrecções, responsabilidades incorrectamente atribuídas ou muitas omissões (até é normal que existam), porque não tenho competência para o fazer. Mas pede-se mais a um livro de Memórias. Pede-se distância e reflexão. Pede-se, também, que transpareça um mínimo de calor humano através do que se vai contando. Ora este texto é desagradavelmente gélido.

O mais grave é, no entanto, que Jacinto Veloso revela (ou quer revelar, nem me interessa a distinção) uma ausência de cultura política e de posicionamento ideológico para além do admissível. Dois exemplos:

- De uma longa entrevista concedida, em Moçambique, a propósito do livro:
«Machado da Graça – O afastarmo-nos da União Soviética e aproximarmo-nos do Ocidente trouxe-nos para esta situação em que estamos agora, de capitalismo aberto. Seria este o interesse nacional?
Jacinto Veloso – Não, eu acho que não. O interesse nacional, na minha perspectiva, como membro da Frelimo, e como político da Frelimo, é produzir riqueza, sim senhor, mas é resolver os problemas sociais e económicos do país, do povo moçambicano. Este é que é o interesse. E este é o interesse que, desde o início, existe. Só que pensámos que íamos por um certo caminho e afinal tivemos que ir por um outro caminho. Que é este caminho do capitalismo. Hoje a situação é um bocado complicada, um capitalismo um bocado selvagem, mas é uma fase (...)».


- Do livro, pp. 253-254:
«A confrontação Leste-Oeste deu lugar à chamada globalização, uma teoria moderna pela qual os países são globalizados por outros, que são os globalizadores, política com a qual convivemos até hoje».

Fiz-me entender?

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(*) Jacinto Veloso, Memórias em Voo Rasante. Contributos para a História Política Recente da África Austral, Papa-Letras, Lisboa, 2007, 290 p.
(**) Aconselho a leitura da análise muito crítica de João Tunes, no
Água Lisa (6).

3.10.07

«Brumas»

O Prefácio, a Sinopse e o Índice de Entre as brumas da memória estão publicados no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (dirigido por D.Manuel Clemente, bispo do Porto).

Touchée...

8.7.07

Comum? Nem o livro, nem o autor

A obra de João Freire, Pessoa Comum no Seu Tempo...(*) já foi detalhadamente analisada na net por quem de direito, entre outros por José Pacheco Pereira e por Rui Bebiano.

São quase 600 páginas e mais de 2 000 notas de rodapé e começo por confessar que estive quase a desistir da leitura, aí pela p.70, tal era o enfado provocado pela avalanche de pormenores sobre tios, primos, amigos e casas. Se houvesse no livro alguma ponta de sentido de humor (mas não é o caso), teria chegado a pensar que o autor se estava (nos estava) a divertir. O meu fascínio por Memórias e um conselho de Rui Bebiano, que me disse para esperar pelos capítulos 4 e 5, fizeram-me continuar e não me arrependi. Mas, dentro do género, nunca li nada de tão estranho (estranha e incompreensível sendo também a capa!...).

Do autor, fiquei com a impressão de que é alguém que esteve sempre um tanto fora de quase todos os mundos em que foi vivendo – há sempre uma distância de tudo e de todos. A mesma, aliás, que se sente em relação aos seus possíveis leitores – parece mesmo não se preocupar muito em saber se virão a existir e não lhes facilita a vida com o seu estilo de escrita, o que por vezes é insólito e chega a ser interessante. Por outro lado, respira-se humildade e honestidade à prova de fogo – está-se na presença de alguém a quem se compraria facilmente um carro em segunda mão.

Da obra, que li até ao fim, mas – aqui me confesso – saltando muitas notas de rodapé, ficou-me informação interessantíssima, da qual destaco especialmente as vivências sobre o anarquismo em Portugal, antes e logo a seguir ao 25 de Abril, domínio em que era e sou especialmente ignorante. (O primeiro contacto «físico» com o dito terá sido, já lá vão décadas, numa noite de insónias em casa de César de Oliveira, no Porto, onde folheei uma coleçcão de A Batalha, arrumada numa estante por cima da minha cama.)

Além disso, reconheço que fica todo um manancial precioso para a história da sociedade portuguesa no século XX.

Quem seja, como eu, mais ou menos da geração de João Freire, e tenha vivido em Lisboa e / ou nos principais eixos luso-europeus, encontra, entre as 4 000 pessoas que o autor estima ter conhecido ao longo da vida, largas dezenas de nomes de compagnons de route e de amigos próximos (até na Marinha e no Colégio Militar), estranhando só não ter esbarrado na vida com o próprio João Freire. Mas de certo que isso não aconteceu – nunca mais o teria esquecido.

(*) João Freire, Pessoa Comum no Seu Tempo. Memórias de um Médio-Burguês de Lisboa na Segunda Metade do Século XX, Afrontamento, Porto, 2007, 596 p.

25.6.07

«Memórias» no Abrupto

José Pacheco Pereira (JPP) escreveu dois artigos no jornal «Público» (de 9 e 16 de Junho) sobre Memórias dos Tempos Radicais, que depois publicou com desenvolvimentos adicionais no Abrupto e que podem ser lidos aqui. Textos extremamente interessantes, no meu entender, que mostram, muito bem e sinteticamente, convergências e especificidades.

No segundo (versão Abrupto), a propósito do meu livro Entre as Brumas da Memória..., JPP afirma que desaguaram na LUAR e no PRP/BR «...muitos católicos que começaram a sua militância na Igreja pós-conciliar e se foram radicalizando politicamente».

Recebi alguns comentários a esta afirmação, frisando que, percentualmente, foram poucos – e não muitos – os que fizeram tal percurso e que era importante eu esclarecer este ponto. É certo que, tendo em conta o conjunto dos chamados «católicos progressistas» do fim da década de 60, a esmagadora maioria não se «radicalizou» aderindo a algum daqueles movimentos. Não tenho números (Alguém os terá?! Não ficaram ficheiros para a posteridade, com nomes, profissões e credos religiosos...). Sei que a participação de católicos (ou ex-) na LUAR foi numericamente mais significativa do que no PRP/BR, talvez por aquela organização ter realizado as suas primeiras acções muito mais cedo do que as BR (Maio de 1967 versus Novembro de 1971), em plena crise do catolicismo pós-Vaticano II, e porque o PRP propriamente dito só foi fundado em 1973.

Com certeza que JPP sabe que se trata de um «muitos» relativo. Aliás, ele próprio fez a separação das águas dentro das oposições dos católicos na recensão do meu livro, também no Abrupto (e na revista «Sábado»).

E já agora: dadas as circunstâncias, os percursos pessoais e todos os outros condicionalismos, não fomos assim tão poucos...

20.5.07

A dissidência da terceira via

Li o livro (*) antes de ele chegar às livrarias (porque a editora fez o favor de mo enviar) e, portanto, liberta de quaisquer pressupostos com origem em opiniões alheias.

Entretanto, foram surgindo apreciações. Destaco duas: a de João Tunes no Água Lisa (6) (de um compagnon de route, naturalmente emotiva e entusiástica) e a de Rui Bebiano no Passado/Presente. (**)

Num outro post do mesmo blogue, João Tunes sublinha as semelhanças gráficas entre esta obra e o meu livro Entre as Brumas da Memória. São óbvias: basta olhar aqui para o lado direito do blogue para as ver. São também justificadas: mesma colecção da mesma editora, publicação com dois meses de intervalo, resultado do acolhimento de ambos por um excelente editor (Nelson de Matos), predisposto a dar guarida a excentricidades memorialísticas e históricas deste tipo e que, infelizmente, já deixou a Âmbar. Diz também J. Tunes que «lendo-os, as sensações de semelhança regressam à tona – estão lá todas as “igrejas” e as suas ovelhas tresmalhadas (...), confirmando as enormes semelhanças entre comunismo e catolicismo». Isso daria para muitas e longas considerações, mas hoje não vou por aí.

O livro de Raimundo Narciso (RN) é um importante testemunho, como é o que tinha escrito sobre a ARA, a que já me referi neste blogue. Se os protagonistas das histórias não as contarem, ninguém o fará por eles. Os historiadores poderão vir a «entrar na conversa», mas fá-lo-ão de uma outra maneira. E histórias não faltam a RN...

Gostaria de deixar três breves comentários que a leitura me suscitou e que nem chegam a ser críticas:

1. Na minha opinião, a imagem de Álvaro Cunhal sai de rastos. Não porque RN seja agressivo, nos termos ou nos conteúdos – muito pelo contrário, até mostra uma certa benevolência. Mas se é verdade que não existem no livro quaisquer novidades sobre a personalidade de Cunhal, os detalhes do seu comportamento, no dia a dia e em situações de ruptura, revelam, muito clara e sistematicamente, a prepotência e a intolerância que o caracterizavam.

2. Pode-se ficar com a impressão de que o problema mais importante, quase que o único, era o centralismo democrático, com todo o arsenal de considerações de ordem burocrática que lhe estão associadas. Não vi muitas clivagens ideológicas – falha minha, possivelmente.

3. Quando acabei a leitura – que fiz de um trago – tive a impressão de ter passado algumas horas dentro da Soeiro Pereira Gomes (só lá entrei uma vez, por razões familiares, mas chegou para imaginar agora alguns cenários). Nem sei se isto é uma crítica ou um elogio: se a intenção do autor, que não conheço pessoalmente, era revelar a claustrofobia em que viveu naquela casa, conseguiu perfeitamente o seu objectivo. Mas confesso que me faltou «a leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos», de que fala Rui Bebiano.

Estas considerações não afectam, de modo algum, uma apreciação global muito positiva da obra – importante e de leitura incontornável.


(*) Raimundo Narciso, Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via, Âmbar, Porto, 2007, 200 p.
O autor criou este blogue relacionado com a publicação do livro.
(**) Ignoro, propositadamente, as que já li provenientes de fontes oficiais ou oficiosas do PCP, pela falta de seriedade que revelam.

27.4.07

Livros de Memórias

Embora não exista entre nós uma tradição memorialística significativa, parece que, desde há algum tempo, os livros de memórias estão definitivamente na moda.

Mas este não é novo. Encontrei há dias, mais ou menos por acaso, numa espécie de Feira do Livro, a obra que Raimundo Narciso publicou há sete anos:

A.R.A., Acção Armada Revolucionária – A História Secreta do Braço Armado do PCP, Dom Quixote, Lisboa, 2000, 410 p.

É, de facto, mais um livro de memórias, escrito de dentro das histórias, de leitura extremamente agradável e fácil, apesar do detalhe com que são descritas acções, situações e pessoas; «(...) o registo - por quem o viveu - da luta abnegada, das aventuras, medos, raivas, coragens, de homens e mulheres com nome e rosto (...)».

Fiquei a saber muito mais sobre acontecimentos de que conhecia a existência - mas não a substância - e que localizava mal no tempo.

Para quando documentos semelhantes sobre outras organizações, algumas delas até contemporâneas da ARA e com características, pelo menos parcialmente, semelhantes? Estou a pensar, obviamente, na LUAR e no PRP/BR. Era importante que os protagonistas não desaparecessem sem deixarem o seu legado.