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5.5.12

Da esperança



Luís Januário publicou mais uma excelente crónica no jornal i de hoje: O Bill já não diz nada

Partindo da morte de Miguel Portas, e da comoção muito generalizada que a mesma provocou, LJ conta duas histórias sobre criaturas imaginárias, imaginadas, cuja perda é sentida como a de seres absolutamente reais. 

Muitos terão sentido a falta de Miguel Portas, e sobre ela escreveram quase sem o conhecerem, como se de um próximo se tratasse quando na realidade não o era. De repente, dezenas, centenas de pessoas sentiram necessidade de elogiar, de contar um episódio, referir um encontro falhado, um telefonema perdido ou até uma simples reunião em que o avistaram a dezenas de metros. No fundo, era sem dúvida também sobre elas próprias que escreviam. Porque, como diz LJ, «não podemos viver sem pão, sem grupos sociais, sem esperança e sem pessoas de referência que exprimem o que há de melhor em nós, o que em nós ainda acredita». 

Confesso que este texto me ajudou a interpretar a onda gigantesca (para mim inesperada e, porque não dizê-lo, que me apareceu por vezes com laivos de um certo exagero) que se ergueu após a morte de uma figura que, em vida, nem sempre foi tão venerada assim. Aconteceu talvez porque se precisava de uma trégua nos dias amargos que atravessamos, de algo de bom que encarnasse optimismo, confiança no futuro, solidariedade. Terá sido afinal a procura, um pouco desesperada, da tal esperança que se recusa mesmo morrer. 
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22.12.11

Farta


Parecerá lugar-comum mas não é: há muito que um texto não me calava tão fundo como o que Luís Januário publicou ontem no jornal «i». Sobretudo porque estou farta, fartíssima, de ver condenar, banir e ridicularizar tudo o que possa ser, ou parecer, referência a qualquer tipo de «utopias». Quem ouse sequer mencionar a palavra é atirado para o inferno de culpas de todos os males a serem punidos e arrumados para todo o sempre na prateleira dos malefícios da História. Como se o passado paralisasse o futuro neste domínio e esgotasse antecipadamente qualquer hipótese não malévola de acreditar que não estamos condenados a este «tardocapitalismo» que nos desgraça. Como se não fosse obrigatório ir vivendo o dia-a-dia «utopicamente». Tudo em nome do medo do dia de amanhã (como seria bom que fosse igual ao de ontem…), das inevitabilidades, do mal menor, dos consensos e das convergências com as suas indiscutíveis virtudes. Em nome do pavor de males maiores, remenda-se, recua-se, assusta-se e lastima-se. Ou, em alternativa, assobia-se para o lado e fala-se do sexo dos anjos.

Por tudo isso, guardarei como um tesouro este excerto da crónica do Luís:

«Finalmente a solidariedade. Baseada no individualismo e num utopismo pós-histórico. Chamemos-lhe já um paratopismo pós-histórico, porque nos chamarão utópicos os que nos querem conformar com a miserável realidade que preparam e por isso melhor será que nos antecipemos na designação. A nossa paratopia considerará as utopias históricas perigosas e construirá respostas limitadas e de mínima dimensão.

Se as respostas globais falharam, é preciso deixar ao tardocapitalismo a ilusão global. Ocupar-nos-emos dessas infinitas mínimas coisas, sem ambição total, deixando os governos, a sua corte e os seus beneficiários a falarem sozinhos num terreno queimado e cada vez mais rarefeito. Seremos monges e monjas e se for caso disso mendicantes, mas sobreviveremos ou hão-de sobreviver os nossos livros, as nossas cabanas, como a cabana de Walden, onde Thoreau pensou a desobediência civil, a nossa música, as esculturas de madeira talhadas como as figuras de Baselitz, com gorros onde se lê ZERO e relógios nos punhos assinalando a hora quase final em que escrevemos estas crónicas.»
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