«O Cardeal Patriarca de Lisboa, D.José Policarpo, recusou hoje que os escritos recém-conhecidos da Madre Teresa de Calcutá ponham em causa a sua crença em Deus e afirmou que os media “não perceberam nada” ao falarem em crise de fé.»
Se não é crise de fé, então o que é? A imagem de uma crise de fé? Demasiado «magrittiano», para meu gosto.
A revista Time publicou há dois dias um longo artigo sobre um conjunto de textos de Madre Teresa de Calcutá (MTC), agora reunidos em livro que será lançado no dia 6 de Setembro, nos Estados Unidos: Mother Teresa: Come Be My Light.
Trata-se de cartas que a religiosa escreveu a superiores e a confessores e nas quais relata como, ao longo dos últimos cinquenta anos da sua vida, viveu praticamente sempre em profunda crise de fé, indo ao ponto de pôr em causa a própria existência de Deus.
São já conhecidos muitos excertos desses textos. Alguns exemplos: «É tão dolorosa esta dor desconhecida – não tenho qualquer fé.» «Quanto a mim, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não oiço.» «Às vezes, sinto a terrível perda de Deus. Sinto que Deus não é Deus e que ele não existe realmente.» «O sorriso é uma máscara ou um manto que cobre tudo.»
Porta-vozes da Igreja já vieram dizer que nada disto fará parar o processo de canonização de MTC – nada de extraordinário.
O que me choca – e muito – é saber-se que MTC sempre desejou que estes seus estados de alma se mantivessem secretos e que, publicamente, nunca deixou de dar testemunho de uma fé inabalável, nomeadamente no discurso que proferiu quando recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979. Mais: ela pediu expressamente que estas cartas fossem destruídas. Tinha ou não direito a que este seu desejo fosse respeitado?
O reverendo Brian Kolodiejchuk, que tem a missão de reunir elementos a favor da canonização, considera que estes textos são importantes porque reforçam a evidência do espírito de sacrifício a favor dos mais desfavorecidos (mesmo sem o «conforto» da fé). E dá esta justificação extraordinária que pode ser ouvida no pequeno vídeo da BBC que insiro no fim deste post:
«As vidas dos santos são pessoais mas não são privadas».
Vale tudo. O marketing do livro está feito. Só falta que o seu lançamento aconteça no Second Life, com autógrafos de um avatar de MTC.