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7.9.07

Certezas de cardeal

Ainda a propósito das cartas da Madre Teresa, li no Portugal Diário de 5/9:

«O Cardeal Patriarca de Lisboa, D.José Policarpo, recusou hoje que os escritos recém-conhecidos da Madre Teresa de Calcutá ponham em causa a sua crença em Deus e afirmou que os media “não perceberam nada” ao falarem em crise de fé.»



Se não é crise de fé, então o que é?
A imagem de uma crise de fé?
Demasiado «magrittiano», para meu gosto.

26.8.07

As cartas de Madre Teresa

A revista Time publicou há dois dias um longo artigo sobre um conjunto de textos de Madre Teresa de Calcutá (MTC), agora reunidos em livro que será lançado no dia 6 de Setembro, nos Estados Unidos: Mother Teresa: Come Be My Light.

Trata-se de cartas que a religiosa escreveu a superiores e a confessores e nas quais relata como, ao longo dos últimos cinquenta anos da sua vida, viveu praticamente sempre em profunda crise de fé, indo ao ponto de pôr em causa a própria existência de Deus.

São já conhecidos muitos excertos desses textos. Alguns exemplos:
«É tão dolorosa esta dor desconhecida – não tenho qualquer fé.»
«Quanto a mim, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não oiço.»
«Às vezes, sinto a terrível perda de Deus. Sinto que Deus não é Deus e que ele não existe realmente.»
«O sorriso é uma máscara ou um manto que cobre tudo.»


Porta-vozes da Igreja já vieram dizer que nada disto fará parar o processo de canonização de MTC – nada de extraordinário.

O que me choca – e muito – é saber-se que MTC sempre desejou que estes seus estados de alma se mantivessem secretos e que, publicamente, nunca deixou de dar testemunho de uma fé inabalável, nomeadamente no discurso que proferiu quando recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979. Mais: ela pediu expressamente que estas cartas fossem destruídas. Tinha ou não direito a que este seu desejo fosse respeitado?

O reverendo Brian Kolodiejchuk, que tem a missão de reunir elementos a favor da canonização, considera que estes textos são importantes porque reforçam a evidência do espírito de sacrifício a favor dos mais desfavorecidos (mesmo sem o «conforto» da fé). E dá esta justificação extraordinária que pode ser ouvida no pequeno vídeo da BBC que insiro no fim deste post:

«As vidas dos santos são pessoais mas não são privadas»
.

Vale tudo. O marketing do livro está feito. Só falta que o seu lançamento aconteça no Second Life, com autógrafos de um avatar de MTC.