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19.5.21

Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos



 

EXCERTO DA PROPOSTA aprovada hoje, 19.05.2021, por unanimidade, em reunião da Câmara Municipal de Lisboa, no seguimento de uma iniciativa do seguinte grupo de cidadãos: Alfredo Caldeira / Artur Pinto / Diana Andringa / Helena Pato / Joana Lopes / João Esteves / Luís Farinha / Margarida Tengarrinha / Pedro Adão e Silva / Rita Veloso / Sara Amâncio (os mesmos que já tinham promovido a instalação do Memorial temporário aos presos e perseguidos políticos, na estação de Metro da Baixa-Chiado, em 2019)

«A Câmara Municipal de Lisboa entende prestar justo tributo a quantos se bateram pela liberdade e sofreram a repressão que submeteu o nosso país durante quase meio século. Dando seguimento a uma proposta apresentada por um grupo de cidadãos, pretende se erigir um grupo escultórico que constitua um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos, a instalar no Largo da Boa-Hora, local onde funcionaram os chamados “Tribunais Plenários” de Lisboa, que se distinguiram, a partir de 1945, na repressão de todas as manifestações consideradas “subversivas” pelo regime deposto em 25 de abril de 1974. A criação desse Memorial pretende constituir também uma homenagem às famílias dos presos e perseguidos, permitindo transmitir às novas gerações informações e melhor conhecimento sobre esse período da nossa História, sem esquecer a violência repressiva usada nas então colónias portuguesas. Neste âmbito, pretende a Câmara Municipal de Lisboa intervencionar o referido Largo, aí implantando uma peça escultórica de dimensão que cumpra o propósito definido. Para o efeito, deverá ser aberto concurso público que, em prazo a determinar, permita a apresentação de propostas de arranjo do Largo da Boa-Hora e de conceção e implantação de um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos.

Deverá o referido Memorial conter, de forma bem visível, a inscrição “Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974)”».

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9.5.19

Memoriais e mais memoriais



Estive em Washington na semana passada e vi dois memoriais interessantes, um deles dedicado aos veteranos da Guerra da Coreia, o outro aos da Guerra do Vietname, ambos visitados por multidões.

O primeiro é constituído por 19 estátuas que representam os soldados americanos sobreviventes, com as sombras projectadas num muro com imagens anónimas dos que morreram.

O segundo é um longo muro em mármore, num belo parque, com cerca de 59.000 nomes, gravados em mármore, dos soldados americanos que terão morrido no Vietname. Não é respeitada a ordem alfabética no muro, mas sim em livros que os visitantes podem consultar, com listagens que indicam a localização exacta do nome que procuram.

Claro que se trata dos EUA e nenhum dos memoriais inclui as vítimas não americanas das guerras em questão. Mas ficam sugestões úteis para tanto que falta fazer em Portugal, em termos de salvaguarda da memória em décadas de fascismo – sem esquecer, obviamente, os mortos que lutaram pela independência nas ex-colónias.




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5.4.19

Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos



No âmbito das comemorações do 45º aniversário do 25 de Abril, terá lugar em Lisboa um vasto conjunto de eventos, anunciado no passado dia 3 em conferência de imprensa realizada na respectiva Câmara Municipal.

Destaco a inauguração de um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos, na Estação de Metro Baixa-Chiado, uma iniciativa proposta por um grupo de cidadãos. Fica aqui alguma informação sobre o que esteve na base da referida proposta, bem como imagens que podem dar uma ideia do que poderá ser visto.

Ao longo de quase meio século, milhares de homens e mulheres sofreram, em Portugal e nas então colónias portuguesas, a violência da ditadura implantada em 28 de maio de 1926 e apenas derrubada em 25 de abril de 1974.

Esses homens e mulheres – presos e torturados, condenados em simulacros de tribunais, exilados e deportados, assassinados, impedidos de exercer as suas profissões e modos de vida, que viram as suas famílias perseguidas e humilhadas e as suas obras censuradas – abriram o caminho para «o dia inicial inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio», cantado por Sophia de Mello Breyner.

Mas se a Censura do Estado Novo impedira o conhecimento da sua luta e dos seus nomes, também a Democracia não soube ainda dar a conhecê-los sobretudo às novas gerações.

É nesse sentido que uma iniciativa cidadã apresentou à Câmara Municipal de Lisboa uma proposta para levar ao conhecimento da população em geral a memória desses homens e mulheres e da sua luta, através de um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974).

E porque foi numa rua do Chiado a sede da polícia política do regime, sugeriu-se como local dessa homenagem a estação de metropolitano Baixa-Chiado, onde todos os dias passam milhares de pessoas.

Considerou-se a centralidade desta Estação e a sua proximidade com a rua António Maria Cardoso (onde se situava a sede da PIDE/DGS e onde foram assassinados por elementos daquela polícia política manifestantes no próprio dia 25 de abril de 1974) e, mesmo, com o Largo do Carmo, onde se deu a rendição do último Presidente do Conselho da ditadura, ocorrendo em toda aquela zona (Largo do Chiado, Praça Luís de Camões, Rua da Misericórdia, Largo de São Carlos e ruas adjacentes) momentos marcantes daquela data, designadamente em matéria de detenção de agentes e graduados da PIDE/DGS.

Junto às escadas rolantes daquela estação de Metropolitano, que comunicam com o Largo do Chiado, será montado um pórtico com televisores de grande dimensão.

Ao longo dos 48 anos de ditadura, a polícia política prendeu, torturou e acusou milhares de cidadãos e de cidadãs: só em Portugal, registaram-se dois presos políticos por dia. Mesmo sabendo-se que a lista será sempre incompleta, já que, lamentavelmente, 45 anos sobre o 25 de abril de 1974, continua a ignorar-se o número exacto dos presos políticos, as datas de prisão e/ou de “julgamento” de muitos deles e a duração das respetivas prisões – situação que muito se agrava nas antigas colónias, sobre as quais não existem praticamente números credíveis – pretende-se com esta proposta ultrapassar essa ignorância sobre a repressão ao longo de toda a ditadura, fazendo passar nas referidas televisões dezenas de milhares de nomes, bem legíveis, apresentados por ordem alfabética do primeiro nome e, em simultâneo, mostrar algumas imagens de repressão e duas fotografias icónicas: a de um homem e a de uma mulher, compostas, cada uma, por centenas de outras fotografias.



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5.1.19

Nós e a Fundação Mário Soares



Não podemos darmo-nos ao luxo de «perder» a FMS.


Com a morte de Mário Soares em 2017, o futuro do arquivo tornou-se incerto e recentemente o jornal PÚBLICO noticiou que se pondera o seu desmantelamento, sendo provável que muitos dos fundos documentais venham a ser incorporados na Torre do Tombo ou sejam devolvidos aos proprietários, que os colocaram à guarda da FMS a troco do tratamento e da disponibilização pública das suas colecções. Estima-se que mais de 90% dos documentos do arquivo da fundação estejam nesta última situação, incluindo o arquivo pessoal de Mário Soares. Se os dirigentes da FMS optarem pelo desmembramento do arquivo, os responsáveis pela política nacional de arquivos devem contribuir para assegurar a sua integridade. Tal não quer dizer que a DGLAB deva incorporá-lo na Torre do Tombo, pois a vocação deste organismo é guardar documentos produzidos pelos organismos centrais do Estado. Mas há alternativas, como a sua integração na estrutura de arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, mantendo-se o funcionamento nas actuais instalações.»

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22.6.18

Não a um museu contra nós!



Texto subscrito por 100 Negras e Negros, Público, 22.06.2018

«O debate sobre o futuro museu das descobertas ou da viagem que, no essencial, pretende manter a narrativa de glorificação da empresa colonial, tem suscitado um debate intenso na sociedade portuguesa à margem das comunidades negras. Recusando a invisibilidade que nos é imposta, nós, abaixo assinados, cem pessoas negras, estamos presentes como donas das nossas vozes e eco de outras que, por razões diversas, continuam a não poder falar e a não ser ouvidas na sociedade portuguesa.

A ausência das nossas perspetivas nas instituições nacionais e nas discussões públicas está naturalizada e normalizada, rasurando-nos enquanto sujeitos históricos e enquanto contribuidores por excelência para a edificação da sociedade portuguesa nas suas diferentes vertentes. Excluídos do corpo nacional, assistimos a uma disputa pela memória que reforça a glorificação da ideologia colonial e reifica o lusotropicalismo, que continua bem presente, apesar da derrota política do fascismo e do advento da democracia, com a “revolução dos cravos” de 1974.

A glorificação da ideologia colonial ancora-se na hipervalorização ideológica, política e cultural do colonialismo, quer através do ensino da história, quer através de comemorações recorrentes do passado imperial português que reforçam a quimera de uma suposta excecionalidade lusitana e exaltam um pretenso heroísmo dos seus conquistadores, privilegiando assim uma história que serve um proselitismo político e ideológico para aguçar a “auto-estima” nacional.

Ora, sanar e elevar a “auto-estima” nacional quer através da veiculação de uma história facciosa e que omite parte relevante da verdade histórica, quer pela edificação comemorativa de estátuas, monumentos e museus celebradores do colonialismo e da ideologia colonial, merece toda a nossa contestação. Pois um dos efeitos imediatos do cultivar da magia da época colonial é exatamente o alimentar do racismo histórico e estrutural e o prolongar das hierarquias de controlo e repressão para com as comunidades negras no país, como o testemunham as violências policiais sistemáticas e a segregação de que somos vítimas. É intolerável e merece toda a nossa contestação, que o orgulho nacional seja construído à custa das feridas e da dignidade dos nossos antepassados, eternamente cativos no lugar do subalterno na narrativa oficial.

O período colonial tem funcionado como referencial máximo da capacidade imperial e do apogeu de Portugal no mundo, assim como referencial para a construção da identidade nacional contemporânea, que nele bebe a sua heroicidade. O esplendor de Portugal, como se canta no hino nacional, está localizado na história do colonialismo, considerado o período áureo da História de Portugal, mas para isso omitem-se as violências sistémicas que este período histórico protagonizou, tais como a Escravatura, o etnocídio, a evangelização forçada, as Guerras de Pacificação, o Estatuto do Indigenato e a exploração de recursos. Omitem-se também as histórias de resistência dos povos africanos e indígenas, retratados como os povos sem história, elementos passivos, sedentos de civilização, de cultura e de fé.

Neste cenário, Colonização tem sido traduzida por descobertas, descoberta e descobrimentos. Escravatura e invasão dos territórios de outros povos têm sido confundidos com encontros de culturas, contacto entre povos e expansão marítima. O Tráfico de pessoas escravizadas, levadas como gado para outros continentes, ou seja, a desumanização massiva dos corpos negros, é apelidado de viagem e também de primeira globalização. Evangelização violenta e epistemicídio são retratados como interculturalidade e desenvolvimento. E tudo isto tem resumido a “epopeia dos descobrimentos” a uma sucessão de atos de benevolência da parte de Portugal, que faz com que o próprio sistema colonial português seja considerado suave e excecional pelos próprios.

Fala-se e escreve-se sobre o comércio triangular, sobre o tráfico negreiro e navios negreiros, sobre o comércio atlântico e transatlântico de escravos, referindo-se ao tráfico e animalização de seres humanos, como se os conceitos fossem inocentes e não precisassem de uma revisão crítica. É urgente a descolonização da linguagem que leve à descolonização do pensamento, que leve à descolonização do ensino da História e que leve à descolonização do imaginário, e que isso tenha consequências nas ações do presente.

E hoje, com esta tomada de posição, denunciamos um passado que quer continuar presente e continua a assombrar as nossas vidas quotidianas. Um presente que não pretende avançar para o futuro, contribuindo para a manutenção do estado das coisas, ancorado no passado e na ideologia colonial. O projeto da Câmara Municipal de Lisboa que pretende reforçar o número de instituições dedicadas à celebração do colonialismo português existentes no país, através da criação de um chame-se ele “Museu da Descoberta”, “Museu dos Descobrimentos”, “Museu da Interculturalidade” ou “Museu da Viagem”, inscreve-se nesta dinâmica.

É importante ressaltar que a troca de nomes reflete pouca seriedade no tratamento das questões aqui descritas e, sobretudo, um desprezo por aquilo que são os impactos da conceção de um Museu desta natureza junto da comunidade negra em Portugal. Porque se as Descobertas e as Viagens podem passar do plural para o singular, a Colonização, essa, permanecerá sempre sem grandes margens de mudança, dada a sua consistência histórica de violências várias e ao seu singular impacto que se repercute até hoje na vida de negras e negros de quase todo o mundo.

Não aceitamos um Museu construído sobre os ombros do silenciamento da nossa História, com o dinheiro dos impostos de negras e negros deste país, que não respeita nem valoriza a evolução da própria historiografia e a revisão histórica já feita e em curso, da necessidade de reinterpretação e reconceptualização dos impérios coloniais e do colonialismo.

Não em nosso nome! Porque este é um Museu contra nós, que pretende ser erigido ignorando as nossas demandas, o nosso contributo e a nossa resistência. Nós, negras e negros em Portugal, exigimos à CML uma aposta séria num Memorial de homenagem às pessoas escravizadas, num Museu do Colonialismo, da Escravatura ou da Resistência Negra, que descortine os aspetos essenciais e até aqui secundarizados daquilo que foram os reais impactos da empresa colonial de Portugal no mundo, suas consequências no presente e daquilo que foram os reais contributos das pessoas negras na resistência a esse sistema.

Subscritores: Abel Djassi Amado, Abigail Cosme, Abilio B. Neto, Airyton Cesar, Alessandra Brito, Alexandra Santos, Ana Fernandes, Anaximandro Cardoso, Andredina Cardoso, Angella Graça, Ângelo Torres, Anilza Mota, António Tonga, Apolo Carvalho, Ariana Furtado, Aridson Vaz, Beatriz Carvalho, Beatriz Dias, Bruno Sena Martins, Carla Costa, Carla Fernandes, Carla Santos, Carla Sofia Gomes, Carla Viana, Carlos Dias, Carlos Sousa, Cíntia Domingo, Cristina Roldão, Daniel Monteiro, Dara Ramos, Denise Viana, Diógenes Parzianello, Djanira Gomes, Eduardo Djaló, Eunice Rocha, Evalina Dias, Fabião Ocante, Fátima Cande, Fernando Ganga, Flávio Almada, Gio Lourenço, Inês Furtado, Inocência Mata, Iolanda Évora, Ivan Varela, Jakilson Pereira, Jaquelina Varela, Joacine Katar Moreira, João Carlos Barros, João Delgado, Joaquim Matamba, Joceline Pereira, John Kalagary, Jorge Almeida, José B. Pina, José Duarte, José Gueleka, José Monteiro, José S. Fernandes, José Semedo, Kalaf Epalanga, Karin Gomes, Karyna Gomes, Kiluanji Kia Henda, Lolo Arzik, Lubanzadyo Bula, Lúcia Furtado, Luzia Moniz, Maíra Zenun, Mamadou Ba, Manuel Santos, Maria João Pinto, Marlene Nobre, Mónica Furtado, Myriam Taylor, Ndofusu Kiala, Neusa Trovoada, Nina Manso, Noé João, Nuno Dias, Paulo Inglês, Paulo Taylor, Pedro Djassi, Raquel Lima, Raquel Rodrigues, Redy W. Lima, Ricardo Maneira, Rui Mindela, Samanta Semedo, Sandra Costa, Selma Uamusse, Shirley Van-Dúnem, Solange S. Pinto, Suzana Djiba, Ulício Cardoso, Ulika Franco, Ussumane Mandjam, Vítor Sanches, Vuza Ntoko, Zia Soares.»
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5.5.17

Um grande texto sobre as nossas amnésias



«Hoje, Amílcar Cabral pouco é lembrado, sobretudo em relação ao 25 de Abril que ainda há pouco voltámos a comemorar. Na escola, Cabral confronta Salazar nos manuais de história de uma matéria quase nunca dada, num excerto convenientemente editado para tapar as vergonhas maiores da escravatura e do colonialismo português. Nas universidades, proliferam sobretudo as cadeiras da chamada “História dos Descobrimentos” ou da “Expansão” e os homens lembrados são outros; salvo raras excepções, Cabral aparece quanto muito nos cursos de literatura através de algum poema seu. Nas exposições comemorativas do 25 de Abril, o seu busto espreita num ou noutro cartaz, mas pouco pode dizer.»
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21.12.13

O frio não convida


... neste dia mais curto do ano, mas é uma delícia ver como eram as praias da linha, onde alguns dos nossos antepassados passavam férias, nos anos 20 do século passado. 


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15.12.13

O cavalinho do Rossio



Eu nasci portuguesa de segunda, numa cidade linda que dava pelo nome de Lourenço Marques, e vim de lá com pouco mais de nove anos – «retornada» portanto a esta metrópole, muito, muito antes de a palavra «retornado» ser inventada.

Detestei Lisboa desde que pus um pé em terra, depois de uma bela viagem de quase um mês sempre em festa, por essa África acima, no paquete «Pátria» da Companhia Colonial de Navegação. E detestei Lisboa porque se gravaram em mim, para sempre, imagens de uma cidade tristíssima, com pessoas vestidas de preto ou cinzento, a viverem em camadas dentro de prédios, em ruas estreitas, ainda ao som de pregões e de gritos de vendedeiras que espalhavam canastras de peixe pelo chão – tudo coisas que deliciavam a minha mãe, que assim matava saudades da terra dela, e que me horrorizavam e só faziam com que quisesse voltar para a minha. Faltavam-me as acácias vermelhas, a Polana, o calor, os cheiros e sobretudo os grandes espaços.

Mas alguns dias depois de desembarcar levaram-me ao Rossio depois de jantar e rendi-me. Era Verão e a praça pareceu-me enorme, estava cheia de gente e de anúncios luminosos que me deixaram boquiaberta. Um, entre todos, maravilhou-me: um cavalinho todo iluminado, que fazia propaganda do Brandy Constantino e que mexia constantemente as patas, que até andava! Nunca vira nada de parecido, disso não havia mesmo na minha terra. O Rossio passou a ser a minha Broadway e o cavalinho reconciliou-me com Lisboa.

(Imagem daqui
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19.9.13

Nunca é demasiado tarde



Juíza pede a extradição de quatro torturadores do franquismo para que sejam julgados na Argentina.

Notícia detalhada aqui.
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15.6.13

Não esquecer



Há alguns dias, divulguei neste blogue um texto de Artur Pinto sobre o massacre de Oradour-sur-Glane (França), em 10 de Junho de 1944. Lembrei-me entretanto deste conjunto de slides, que ajuda a ilustrar o que foi descrito.


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10.3.13

Manuel Vicente: foi-se um amigo



Todos falam do arquitecto que ontem morreu, da marca que deixou em gerações, da sua truculência lendária, da obra em Macau, da Casa dos Bicos e de tudo o resto. Eu recordo o amigo de décadas.
Nem sei há quantos anos encontrei pela primeira vez o Manuel Vicente, mas aconteceu certamente na década de 60. Lisboa era então uma aldeia ainda mais pequena do que hoje é e navegávamos ambos numa vasta onda de amigos e conhecidos que se cruzavam em iniciativas várias, de lazer e não só.

Hoje podia recordar datas, locais, companhias, um fim-de-semana alongado, um pouco delirante, passado em grupo em Madrid, almoçaradas e ceias tardias. Mas fixo o olhar num quadro que tenho à minha frente: um autoretrato de Malangatana, pintado numa folha do Record, que guardarei como uma relíquia até ao fim dos meus dias e que foi feito no atelier do Manel. Foi lá que conheci o pintor que sempre me tratou por «patrícia» (nascemos na mesma terra) e que, no ano de 72, assentou arraiais em Lisboa e trabalhou entre estiradores e esquadros do seu amigo arquitecto. Era um espaço de encontro e de convívio – inesquecível.

Depois, a vida separou-nos, por tarefas e continentes, e só voltou a reunir-nos, há cerca de quatro anos, quando o Manel me «apareceu» no Facebook como uma prenda caída do céu. A partir daí, à noite, tardíssimo, escrevia ou comentava o que ia lendo, sem papas na língua nem condescendências. 
Comecei recentemente a estranhar a sua ausência, já que o último rasto que me tinha deixado era um desejo de Boas Festas, no último dia de 2012. Até que, ontem, caiu a notícia com toda a brutalidade.

Quando o Malangatana se foi embora, há pouco mais de dois anos, o Manel escreveu-me isto: «Speechless! Um pouco de nós morre sempre com cada grande amigo. Vê lá se te vais aguentando.» Foi ele que não aguentou. 
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No próximo Sábado



A terceira TERTÚLIA NO CAFÉ VÁ-VÁ (Lisboa) terá lugar a 16 de Março.

Desta vez, pretende-se abrir espaço a narrativas pessoais, a partir de «OBJECTOS COM HISTÓRIA» – objectos que evocam lembranças, memórias afectivas, com valor pessoal e simbólico para quem viveu o período do fascismo.
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12.1.13

Memória: uma nova «Casa» online



A plataforma Casa Comum foi lançada ontem, mas é resultado de um trabalho de mais de doze anos de recolha e digitalização de documentação dos diferentes países de expressão portuguesa, realizado pela Fundação Mário Soares.

Trata-se de um espaço de memória colectiva, neste momento com mais de 1 milhão e 500 mil objectos digitais, aberta também ao presente e às novas realidades culturais e sociais dos diferentes países.

«Não há Futuro sem Memória», lê-se num dos painéis de apresentação do projecto e é bem verdade. Fica a sugestão para um Sábado de Inverno– um «passeio» por esta nova casa, sem sair do sofá. 
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27.9.12

Da Memória



No Público de hoje (sem link), mais um texto de Manuel Loff, que ainda se relaciona com a polémica com Rui Ramos mas apenas lateral e não unicamente, pelo que não o divulgo na íntegra.

No entanto, o tema é fulcral e destaco: 

«Uma vez superada uma ditadura, para que nos recordamos dela? Para enraizar a própria democracia que lhe sucedeu? Mas temos bem a certeza de que a democracia em que vivemos radica mesmo na memória da opressão que a precedeu? Os Estados democráticos descrevem habitualmente a sua (re)fundação como resultando da superação e da rejeição da opressão (política, social, étnica, cultural, de género...) que caraterizou as ditaduras que os precederam. Isto significa que há um sentido político, cultural, moral, na recordação de uma ditadura. (...)

Em Portugal, não está encerrado o debate sobre a natureza política do Salazarismo ou o peso da violência e opressão exercida pelo Estado, e muito pouco se discutiu sobre o peso do colonialismo e da Guerra Colonial na vida de milhões de portugueses e de africanos. 

É fácil perceber como a (des)memória das ditaduras é um índice decisivo da qualidade da democracia em que vivemos. Especialmente num momento em que a agressão brutal perpetrada pelos poderes político e económico ao conjunto da sociedade produz uma crise tão evidente da legitimidade democrática, que se faz acompanhar, habitualmente, da crise da crítica do autoritarismo.» 
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3.2.12

Contra a impunidade


(Contributo de Jorge Pires da Conceição.)

Espanha: Cantores, escritores, actores, poetas e membros de associações de preservação da memória num concerto de apoio às vítimas do franquismo.

«En los últimos días han arrancado numerosas iniciativas en solidaridad con el juez Baltasar Garzón, que está siendo juzgado por haber tratado de investigar los crímenes franquistas, y en apoyo a las miles de víctimas que buscaron ayuda en el magistrado de la Audiencia Nacional, suspendido temporalmente en funciones. Varias manifestaciones y concentraciones ante el Tribunal Supremo, así como multitudinarios actos con abogados, juristas, políticos, y miembros de las asociaciones de memoria y del mundo de la cultura han mostrado su disconformidad con el proceso que está siguiendo el Alto Tribunal contra Garzón.»

Notícia completa aqui.




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13.12.11

Uma nota azul


O Jornal de Negócios deixa a pergunta: «Ainda se lembra das notas que existiam antes da entrada do euro?» e exibe uma bela colecção que nos faz recuar mais do que uma década. Há muito tempo que não se falava tantos de escudos et pour cause

Para mim, com esta D. Maria, veio também a recordação das dores de cabeça que me causou nos idos de 80, mais precisamente em 1984 (sem que George Orwell tenha nada a ver com o assunto…), quando a IBM trabalhava com a SIBS na preparação do lançamento do sistema Multibanco, que viria a arrancar em Setembro de 1985. Nem tento descrever a complexidade do que estava em causa, quando muito do que hoje é absolutamente trivial era, nessa altura, pioneirismo puro e duro - que resultou, e de que maneira, fazendo de Portugal um indiscutível caso de sucesso, louvado e visitado.

Regresso à D. Maria. Na fase de testes finais de um grupo de máquinas ATM, realizados já nem me lembro em que país, esta e só esta nota «não passava», sem que se conseguisse identificar o motivo e foram necessários muitos dias, julgo que semanas, para que o problema fosse resolvido. E eu fiquei sempre a olhar  de esguelha para a dita nota. Até hoje quando a revi!

Agora, os «anõezinhos» (nome simpático pelo qual ficaram conhecidas as misteriosas máquinas, tão inteligentes que pareciam ter dentro um homem pequenino…) já devem ser capazes de reconhecer tudo o que imaginar se possa, desde reais a rupias e, sobretudo, yauns. E, para já, ainda nos entregam euros.
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8.12.11

Quando eu perdi uma Nossa Senhora


Revejo a cena, algures não muito longe da praia da Polana, num pavilhão ao ar livre que servia de sala de aula ao que hoje seria a pré-primária, com um calor absolutamente abrasador de um Verão moçambicano.

Foi aí que tive o primeiro choque religioso de que guardo lembrança, quando percebi, já nem sei bem como, que só havia uma Nossa Senhora e não duas, tão diferentes que me habituara a vê-las! A da Conceição sempre me tinha parecido mais bonita e mais importante do que a outra porque tinha aos pés muitos anjinhos e não uns pobretanas de alpercatas, pairava nas nuvens e não em cima de uma árvore mais ou menos raquítica, marcava no calendário o dia da mãe (e a minha até se chamava Conceição…) e, sobretudo, dava direito a um dia com praia e sem escola.

Os anjinhos há muito que foram à vida (o meu filho já sempre os confundiu com a abelha maia…) mas parece que ainda não é desta que vamos perder o feriado. Lá chegaremos…
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7.12.11

Uma das grandes fugas da nossa História


Em 4 de Dezembro de 1961, oito presos políticos personificaram uma fuga do forte de Caxias, não menos espectacular do que a de Peniche ocorrida quase dois anos antes, mas muito menos conhecida provavelmente porque não envolveu a pessoa de Álvaro Cunhal.

Derrubar um portão de um forte com um carro blindado, supostamente oferecido por Hitler a Salazar, e fazê-lo depois de uma longa preparação que implicou que o seu principal intérprete tenha fingido «rachar» (ou seja passar para o lado da polícia) para se movimentar à vontade e preparar todos os detalhes, nada tem de trivial e é digno de homenagem e admiração. Pertencerá para sempre ao nosso património – material ou imaterial, como se preferir, mas bem real e a ser preservado.

O Diário de Notícias publicou no passado Domingo uma longa reportagem sobre o assunto, com alguns defeitos mas onde os factos são descritos com o detalhe possível. Vale muito a pena lê-la.

1961, Anno Horribilis para Salazar. Faltava a cereja em cima do bolo: daí a uns dias, cairia Goa...

(Clicar e aumentar cada uma das imagens.)
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3.8.11

Samudaripen – o massacre dos ciganos


Contributo de Jorge Pires da Conceição.

Thorbjørn Jagland, Secretário Geral do Conselho da Europa, fez ontem um apelo aos Europeus para honrarem a memória dos ciganos mortos pelo regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, comprometendo-se a construir um futuro melhor para as gerações vindouras.

Este apelo surgiu na véspera de uma data fatídica para o Povo Cigano (os Roms ou Roma, de Romani), a noite de 2 para 3 de Agosto de 1944, em que muitos milhares ou dezenas de milhar de ciganos foram massacrados no Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau.

Calcula-se que, entre 1939 e 1945, mais de 500.000 ciganos tenham sido mortos pela Alemanha e seus aliados. Há estimativas que apontam para cerca de 680.000 mortos. Havendo mesmo quem quantifique em 1.500.000, embora tal número possa ser excessivo, atendendo a que outra estimativa indicava que a população Rom antes da II Guerra deveria rondar um milhão de pessoas. De qualquer modo são números que caracterizam tal mortandade como um Genocídio - o Samudaripen (ou Pharrajimos, ou Porajmos ou Porrajmos), palavra(s) usada(s) para mencionar o genocídio dos ciganos à mão do regime nazi.

Genocídio que em nada difere daquele que os nazis efectuaram sobre o povo judaico, como se pode constatar por algumas declarações:

Commander of Einsatzgruppe D, Otto Ohlendorf said at the Nuremberg trials : " There was no difference between the Gypsies and the Jews. At that time, the same order applied for Both. "

“It was the wish of the all-powerful Reichsfhhrer Adolf Hitler to have the Gypsies disappear from the face of the earth” (SS Officer Percy Broad, Auschwitz Political Division).

“The motives invoked to justify the death of the Gypsies were the same as those ordering the murder of the Jews, and the methods employed for the one were identical with those employed for the other” (Miriam Novitch, Ghetto Fighters’ House, Israel).

“The genocide of the Sinti and Roma was carried out from the same motive of racial mania, with the same premeditation, with the same wish for the systematic and total extermination as the genocide of the Jews. Complete families from the very young to the very old were systematically murdered within the entire sphere of influence of the National Socialists” (Roman Herzog, Federal President of Germany, 16 March 1997).

A repressão sobre os ciganos, porém, não acabou com o fim da Guerra. Em França, os ciganos (que nunca chegaram a ser deportados daqui) continuaram internados até 1946 em campos de reeducação (para serem “socializados” e “sedentarizados”…). Na Alemanha, mantiveram-se todas as medidas que haviam sido tomadas contra eles antes de 1943 e só em 1982 o chanceler alemão Helmut Köhl reconheceu formalmente o genocídio dos Ciganos.

Por isso Thorbjørn Jagland, no seu apelo a todos os Europeus, além de repetir a conhecida frase «Para que nunca mais!», exorta-nos com estas palavras: «Nós devemos criar medidas legislativas para lutar contra a discriminação e promover a integração dos Roms na Sociedade. Conhecer melhor a cultura e a história deste povo, e particularmente os aspectos mais sombrios da perseguição aos Roms, ajuda a criar uma oposição aos preconceitos e à intolerância. O Conselho da Europa quer preservar a memória pelo ensino do Samudaripen nas escolas, paralelamente com outros esforços de promoção da tolerância e da imparcialidade para com os Roms, em todos os países."

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11.6.11

Memória em agenda

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Colóquio - «Usos da Memória e Práticas do Património»
16 a 17 de Junho de 2011


FCSH/UNL Av. de Berna, 26 Edifício I&D, Piso 4, Sala Multiusos 2

«De que falamos quando falamos de memória – social, colectiva, histórica? Referimo-nos aos seus formatos materiais ou evanescentes, à sua remissão para o passado, aos seus reflexos no presente? Porque se erguem lugares de memória ao mesmo tempo que desaparecem os meios de memória? Quando adquiriu tal centralidade nas Ciências Sociais? Estudamos cada vez mais a memória porque as sociedades se ressentem duma ausência de esperança? Que relação estabelece o presentismo, como denegação do devir, com os usos da memória? A evolução do termo, a sua polissemia e as modalidades de abordagem que mesclam disciplinas diversas, conduzem um conjunto de investigadores – antropólogos, sociólogos, historiadores, folcloristas, museólogos - a analisar neste colóquio um conjunto de temáticas. Alguns dos temas perpassaram os debates no âmbito do Seminário de Estudos Aprofundado sobre Usos da Memória, que reúne mensalmente doutorandos, pós-doutores e investigadores seniores. Os usos – e abusos - políticos da memória, da amnésia e da hipermnésia, com remissão para o lugar dos consensos e das memórias contra-hegemónicas; as modalidades do festival, da parada, da patrimonialização, do comemoracionismo, e da «reconstituição»; as propostas da UNESCO em torno da memória material e imaterial, e o papel dos museus; o lugar da educação – e dos educadores – na sua transmissão, sob o peso duma hegemonia; as memórias familiares, tecidas entre ritos e continuidades; as memórias do trabalho, entre o saber-fazer que alimenta a auto-estima e as relações que longamente assentaram no local de trabalho, num tempo de precariedade crescente; a fixidez e a mobilidade, associadas à memória das populações que migram, entre dois mundos; as modalidades de registo e os problemas teórico-metodológicos emergentes das pesquisas em torno da memória – eis alguns dos temas em discussão.»

(Horário e Programa detalhado)
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