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10.11.20

Moçambique; um enorme drama sem fim à vista

 



«Os grupos armados que há três anos espalham o terror no Norte de Moçambique atacaram várias aldeias, decapitando e desmembrando “mais de 50 pessoas”, incluindo vários rapazes. Os ataques começaram a 31 de Outubro e aconteceram ao longo de vários dias, primeiro em 11 aldeias do distrito de Muidumbe, depois em povoações da região de Macomia, ambas na província de Cabo Delgado.»
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25.3.19

Solidariedade com Moçambique: música em 02.04.2019




«A RTP estará um dia inteiro com linhas abertas para chamadas solidárias e transmitirá "Mão Dada a Moçambique", em que também estarão Benjamim, Gisela João, Márcia, Úria, Sara Tavares e Luísa Sobral.»
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23.3.19

Moçambique: ajudar ou indemnizar?



«Países como Moçambique não contribuíram para o aquecimento global. Não têm indústria, não têm agricultura intensiva, etc. Acho que com países como os EUA ou a China não se põe a questão de ajudar Moçambique; é quase uma indemnização. Esses países têm obrigação de reparar o que fizeram. Moçambique é uma vítima neste contexto, uma vítima absoluta. Isto tem de ser parte da discussão. Não estamos a falar de ajuda. Portugal não faz o favor de ajudar Moçambique. Portugal tem obrigação de reparar os danos que causou. Mas muito mais obrigação tem a China, que até está presente em Moçambique.»

Eduardo Agualusa
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31.12.18

Anos velhos (2)



No Maputo, onde vivi as passagens de ano da minha infância, já são 00:20 de 01.01.2019. Bom ano, Moçambique!
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29.7.18

De que serve doar material escolar a Moçambique? De muito e de nada



Excertos de uma longa reportagem de Bárbara Reis e Nuno Ferreira Santos no Público de hoje:

«Moçambique está em constante experimentação. Reduzir a formação dos professores é hoje aceite como uma má decisão. Há professores que mal sabem ler. Uma empresa portuguesa deu um contentor de material escolar. Foi bem vindo, mas é uma gota no oceano.»

«“Quem vem a pé do Norte, chega aqui e acha que isto é Paris”, diz o escritor António Cabrita, sentado na varanda do seu apartamento em Maputo, semivazio, mas cheio de livros. A frase é dita com tristeza, mas sobretudo como conselho: é preciso sair da capital para perceber o que se passa com a educação em Moçambique.

Três dias a visitar escolas e a ouvir moçambicanos permitem perceber que há milhares de adolescentes acabados de chegar ao ensino primário, milhares de crianças que aos dez anos, com a 4.ª classe feita, não sabem ler nem escrever, e que um milhão não está sequer na escola. Para não falar das aulas debaixo das árvores, das escolas sobrelotadas, das “segundas turmas”, das salas com 70 alunos, da média de uma hora e 41 minutos de aulas por dia, ou da fraca formação dos professores primários: com a 10.ª classe (10.º ano português) e um ano de formação psicopedagógica, qualquer pessoa recebe uma bata branca para ensinar.

PUB Em Moçambique, isto representa progresso. Em 1975, havia 3% de pessoas alfabetizadas, durante anos o país esteve em último lugar nos índices mundiais de pobreza, após duas décadas de guerra civil os livros tornaram-se um luxo exótico, as elites políticas têm uma formação muito frágil, o Estado não dá prioridade à educação, as exigências no ensino não param de baixar.

No entanto, bastaram 15 minutos no centro de Maputo a folhear exames finais do 1.º ano da faculdade — os alunos de António Cabrita — para ser evidente a dimensão do problema. Que é gigantesco, concordam professores, políticos, funcionários de organizações não governamentais, especialistas em educação, jornalistas e analistas ouvidos pelo PÚBLICO.

“Os alunos chegam à universidade tão mal preparados que, no primeiro dia de aulas, peço sempre que leiam um texto em voz alta. Percebo logo os que têm dificuldade em ler qualquer coisa que não seja muito simples. Alguns parecem miúdos de sete anos. Moçambique perdeu o contacto com os livros durante 19 anos. Hoje, nas universidades, apanhamos os filhos desse vazio”, diz Cabrita, escritor português e antigo crítico do semanário Expresso que, “vítima de um erro de geografia amorosa”, se mudou para Maputo há 15 anos. (…)

“Não foram só as pontes que foram destruídas nos anos da guerra”, diz António Cabrita, professor de Dramaturgia na Escola de Comunicação e Artes, um braço da UEM. “As províncias ficaram isoladas. Um livro sai aqui e não chega a Nampula”, a “capital do Norte”. “Mas também não chega a Quelimane”, mais a sul, mas a 1600 quilómetros de Maputo. “A última livraria de Nampula fechou há um ano.”

É um de muitos sinais num país que, como diz, tem uma elite que não lê e que cresceu sem livros. “Nas revistas, quando aparecem as casas dos políticos, só se vêem bibelots. Os livros têm tiragens de 200 exemplares, mesmo o Mia Couto faz tiragens de 300.” Quando foi à Beira lançar Os Crimes Montanhosos (edições Cavalo do Mar, 2018), com poemas seus e de Mbate Pedro, venderam quatro exemplares na sessão de lançamento, e no debate na universidade, a seguir, não venderam nem um. “E 80% dos escritores moçambicanos são da Beira!” Nos quase 20 anos de guerra, “não se fizeram livros, não se importaram livros, as poucas livrarias que existiam desapareceram, e quebrou-se o circuito dos bens culturais”, diz num fôlego. “Maputo ficou numa redoma.” Em 1975, o Instituto do Livro e do Disco fazia edições de 30 mil exemplares. “Hoje está praticamente parado e as últimas edições tinham tiragens de 200.” A professora primária Delfina Jamince, da escola de Guava, é um bom exemplo da preocupação do escritor. Gosta “muito de ler”, sim. Por exemplo: “Livros de histórias... a Bíblia e livros com ensinamentos.”

Nada disto perturba Isaias Wate, um homem grande com um sorriso proporcionado à sua altura. Operacional da Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo há 22 anos, é ele que nos guia pelas escolas de Manhiça. No escritório, mostra os manuais escolares que a ADPP editou em línguas locais e português, para responder à nova política do ensino bilingue. Onde muitos vêem o futuro comprometido, Wate vê sobretudo a “marcha da educação em progresso”: “Muitos professores têm a paragem do ‘chapa’ a 15 quilómetros da aldeia onde estão colocados para ensinar o ABC. Há chuva, têm dificuldades. Há vento, têm dificuldades. Nasci em 1964 na aldeia de Manjacaze, em Gaza, onde a escola era sinalizada pela árvore mais alta. Não havia mais nada. Foi debaixo dessa árvore que me tornei um cidadão activo. Há alguma dúvida? O professor é um herói nacional.”»
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20.8.17

O meu padrinho mulato nasceu num 20 de Agosto


(Karel Pott ao meio, comigo ao colo)

Há uma meia dúzia de anos, uma troca de comentários num blogue, que já não existe, levou-me a revelações absolutamente inesperadas. Nasci e passei a infância em Lourenço Marques e os amigos, inseparáveis e quase únicos dos meus pais, eram Karel Pott e a mulher. Fui criada praticamente como irmã dos filhos deles.

De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior, em Coimbra. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje (ou pelo menos há uns anos) em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para ser recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo e o procurei em vão.

Com orgulho póstumo, descobri então que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente. Por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924 [à esquerda, na foto aqui ao lado], lamentava que, em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…». Percebi também por que motivo a sua actividade como advogado nunca lhe foi facilitada...

Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.

Poucas horas depois de escrever um texto semelhantes a este, aqui no blogue, recebi um mail de um sobrinho, apareceu-me um neto na Facebook, recebi muitas informações através de bloggers moçambicanos, descobri uma referência de José Craveirinha («o Dr. Karel Pott, que foi uma referência muito forte na minha vida»). Mais tarde, e também no Facebook, retomei contacto, que ainda mantenho, com um dos seus filhos – o «Berty», com quem cresci durante os primeiros anos da minha vida.

Hoje, «regressei» à minha cidade das acácias vermelhas. 
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24.7.17

24 de Julho, Moçambique e caranguejos



Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se. Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano e, portanto, português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há 15 anos. 
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7.9.15

Mia Couto, «Doutor Honoris Causa»



Vale muito a pena ler a intervenção de Mia Couto, no acto de outorga do título de Doutor Honoris Causa, que lhe foi entregue pela Universidade moçambicana «A Politécnica», no dia 2 de Setembro.

O LIVRO QUE ERA UMA CASA A CASA QUE ERA UM PAÍS

Todos os povos amam a Paz. Os que passaram por uma guerra sabem que não existe valor mais precioso. Sabem que a Paz é um outro nome da própria Vida. Vivemos desde há meses sob a permanente ameaça do regresso à guerra. Os que assim ameaçam devem saber que aquele que está a ser ameaçado não é apenas um governo. O ameaçado é todo um povo, toda uma nação.

Na íntegra aqui.
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25.6.15

A minha terra – Moçambique – é independente há 40 anos



Nasci portuguesa de segunda, numa rua com acácias vermelhas, que nunca esqueci.

Sem qualquer consciência do que significava ser filha de colonos, achando perfeitamente normal que o mainato Fabião estivesse sempre por perto, 24 horas por dia, excepto durante algumas, poucas, nas tardes de Domingo, em que desaparecia através do canavial que separava os quintais dos moradias nem sei exactamente de quê. Sem estranhar que só houvesse meninos brancos na escola, a decorar nomes de estações e apeadeiros da linha do Norte de um Portugal desconhecido, também os afluentes do Dão, e com a árvore de Natal posta numa varanda mas enfeitada com flocos de neve. Com a Polana como praia civilizada e o Palmar ainda totalmente deserto.

Fui «retornada» bem antes do tempo de outros, odiei Lisboa – cinzenta, tacanha e suja – mas por cá fiquei, nem sei se para o bem ou se para o mal.

Hoje, a terra que vi quando cheguei a este mundo comemora 40 anos de independência. Carrega um passado duro, espero que tenha pela frente um belo futuro. Como belo é este hino de que tanto gosto.


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5.1.15

Malangatana morreu em 5 de Janeiro de 2011



Hoje, muito se fala de Eusébio, no primeiro aniversário da sua morte, mas ainda não vi ninguém que referisse que um outro moçambicano, para mim mais importante (que me desculpem os indefectíveis do tal desporto rei...), nos deixou 3 anos antes.

E Malangatana é para mim mais importante, não só pelo extraordinário artista que foi, mas pura e simplesmente porque o conheci e fui sua amiga.

Tenho aqui perto, à minha frente, desde há muitos anos, este auto-retrato que ele pintou numa folha do Record e me ofereceu – é exemplar único. Data de 1972, ano que passou em grande parte em Lisboa e em que convivemos num vasto grupo de amigos. Alguns deles recordaram-me, há meia dúzia de dias, uma história que não resisto a retomar, embora já dela tenha falado em tempos idos.

Talvez ninguém tenha andado aos saltos com Malagantana numa cama elástica e eu andei. Era um daqueles fins-de-semana prolongados, com um feriado que os espanhóis não festejam connosco (5 de Outubro, se não me engano), e mandava a tradição que se desse um salto a Espanha, de preferência em grupo e em caravana. Badajoz era quase sempre o modesto destino mas, dessa vez, foi-se até Madrid nuns belos dias do Outono.

Já não sei bem como nem porquê, um dos serões acabou algures numa espécie de cabaré onde estava em cena um espectáculo mais ou menos ginasticado. A páginas tantas, pediram insistentemente que dois espectadores fossem ao palco e saltassem, alternadamente, em cada uma das pontas de uma cama elástica. O Malanga e eu decidimos entrar na brincadeira e, como ele nunca foi leve e eu ainda não tinha engordado, cada um dos seus impulsos fazia-me subir quase ao tecto, para grande gáudio de toda a assistência – voei, no sentido estrito da palavra, como nunca me aconteceu na vida, nem antes nem depois.

Ao longo dos anos, sempre que nos reencontrávamos, ele repetia, com aquele sorriso inesquecível e do tamanho do mundo: «Patrícia, temos de voltar a saltar numa cama elástica!». Mas não voltámos. Nem voltaremos. Porque ele já deu o salto definitivo – há 4 anos. 
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25.6.14

Terra de acácias vermelhas



Nasci portuguesa de segunda, numa rua com acácias vermelhas que nunca esqueci.

Sem qualquer consciência do que significava ser filha de colonos, achando perfeitamente normal que o mainato Fabião estivesse sempre por perto, 24 horas por dia, excepto durante algumas, poucas, nas tardes de Domingo, em que desaparecia através do canavial que separava os quintais dos moradias nem sei exactamente de quê. Sem estranhar que só houvesse meninos brancos na escola, a decorar nomes de estações e apeadeiros da linha do Norte de um Portugal desconhecido, também os afluentes do Dão, e com a árvore de Natal posta numa varanda mas enfeitada com flocos de neve. Com a Polana como praia civilizada e o Palmar ainda totalmente deserto.

Fui «retornada» bem antes do tempo de outros, odiei Lisboa – cinzenta, tacanha e suja –, mas por cá fiquei, nem sei se para o bem ou se para o mal.

Hoje, a terra que vi quando cheguei a este mundo comemora 39 anos de independência. Carrega um passado duro, espero que tenha pela frente um belo futuro. Como belo é este hino de que tanto gosto.

13.6.14

As marchas populares na minha terra



Tenho um pequeníssimo espólio de recordações da minha infância passada em Moçambique, mas a minha mãe nunca se desfez destas «Marchas Populares» – com letras e partituras – que, segundo sempre a ouvi repetir, tiveram um sucesso inesquecível na bela cidade das acácias vermelhas.

Em 1945, quando o mundo punha termo à Segunda Guerra, os portugueses de Lourenço Marques (os brancos, evidentemente) desfilavam pelas ruas em representação dos «seus» sete bairros (Alto Maé, Baixa, Carreira do Tiro, Malhangalene, Maxaquene, S. José de Lhanguene e Polana).

Mas, no cortejo, havia também «uma marcha sobre um motivo indígena». Trocado por miúdos, uma marcha de «pretos» e para «pretos», na língua nativa (shironga).



Uma festa de brancos, com um apêndice para os outros. Colonialismo soft? Inconsciente para muitos, confortável enquanto foi possível – à portuguesa. 
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5.1.14

5 de Janeiro – Quando perdemos Eusébio e Malangatana



Mais ou menos inconscientemente sempre associei Malangatana a Eusébio, certamente por terem ambos nascido na mesma cidade (e naquela em que eu nasci também), por serem dois grandes, muito grandes moçambicanos mais ou menos contemporâneos, por terem deixado tantas marcas em Portugal também.

De Eusébio nada tenho a dizer que não tenha sido repetido à exaustão, de Malanga sim, e já o escrevi, porque tive o privilégio de conhecer mais ou menos bem aquele que sempre me tratou carinhosamente por «patrícia».

De que este se tinha ido embora há mais ou menos três anos não tinha dúvidas e, por uma estranha intuição, fui confirmar a data: 5 de Janeiro de 2011. Os moçambicanos, e nós também, passarão a associar 5 de Janeiro a duas grandes perdas, daquelas que sabemos serem inevitáveis mas que esperamos secretamente que nunca virão a acontecer. 
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15.12.13

O cavalinho do Rossio



Eu nasci portuguesa de segunda, numa cidade linda que dava pelo nome de Lourenço Marques, e vim de lá com pouco mais de nove anos – «retornada» portanto a esta metrópole, muito, muito antes de a palavra «retornado» ser inventada.

Detestei Lisboa desde que pus um pé em terra, depois de uma bela viagem de quase um mês sempre em festa, por essa África acima, no paquete «Pátria» da Companhia Colonial de Navegação. E detestei Lisboa porque se gravaram em mim, para sempre, imagens de uma cidade tristíssima, com pessoas vestidas de preto ou cinzento, a viverem em camadas dentro de prédios, em ruas estreitas, ainda ao som de pregões e de gritos de vendedeiras que espalhavam canastras de peixe pelo chão – tudo coisas que deliciavam a minha mãe, que assim matava saudades da terra dela, e que me horrorizavam e só faziam com que quisesse voltar para a minha. Faltavam-me as acácias vermelhas, a Polana, o calor, os cheiros e sobretudo os grandes espaços.

Mas alguns dias depois de desembarcar levaram-me ao Rossio depois de jantar e rendi-me. Era Verão e a praça pareceu-me enorme, estava cheia de gente e de anúncios luminosos que me deixaram boquiaberta. Um, entre todos, maravilhou-me: um cavalinho todo iluminado, que fazia propaganda do Brandy Constantino e que mexia constantemente as patas, que até andava! Nunca vira nada de parecido, disso não havia mesmo na minha terra. O Rossio passou a ser a minha Broadway e o cavalinho reconciliou-me com Lisboa.

(Imagem daqui
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