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6.12.20

Natal em Agosto?

 


Os portugueses adaptam-se a tudo. Hoje, o restaurante onde almocei às 12h, estava bem mais «composto» do que nas semanas passadas e, em breve, teremos horários de europeus do Norte – benefícios colaterais de emergências. 

Pena é que o governo não tivesse proposto festejos do Natal em Agosto, quando as autoridades nos aconselharam a dar a volta em Portugal como turistas. A segunda vaga não teria sido pior do que foi por esse motivo, tinha-se evitado a complicação ontem anunciada e os respectivos riscos, até estavam cá os emigrantes que escusavam de gastar dinheiro agora, Marcelo tinha-nos desejado Boas Festas em calções e eu tinha recordado a minha infância em Moçambique, com árvores de Natal ao ar livre, luzinhas, flocos de neve e 40 graus no termómetro. Fica a sugestão para 2021, se necessário for.
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25.12.18

Conselho para as últimas horas


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Pedro Tamen: «Não Digo do Natal»




Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen, in Antologia Poética 
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24.12.18

Um Natal bom



Com tantos amigos como o Tintim ou nem por isso, um Natal bom para quem passar por aqui.

Compras da última hora?


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Ela - sempre



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Ladainha dos póstumos Natais




Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

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23.12.18

O Natal do Sinaleiro. Para quando o Natal da EMEL?


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António Gedeão – «Dia de Natal»




Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros- coitadinhos- nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua
miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus
nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso
antimagnético.)


Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.


Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de
cerâmica.


Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.


A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra- louvado seja o Senhor!- o que nunca tinha pensado
comprar.


Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.


Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.


Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.


Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.


Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.


Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.


Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.



António Gedeão
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20.12.18

Pressas para o Natal, pressas para tudo



«Este ano o Natal começou mais cedo. Mal as praias davam por finda a estação dos banhos (os vigiados, claro está, que os outros dispensam limite no tempo), já surgiam em prateleiras e montras, primeiro a medo e depois com destemor, as primeiras quinquilharias natalícias. E lá vieram as árvores-miniatura, Pais-Natais para todos os gostos, bolas reluzentes e enfeites dourados, azevinho falso e luzes, muitas luzes, em caixinhas a exibir as maravilhas do LED. E também não tardaram os doces. Em Outubro, já espreitavam bolos-rei. E enquanto se iam pendurando pela cidade (e isto foi visível em Lisboa) as iluminações do costume, à espera do dia exacto para accionar as ligações, as lojas misturavam à doçaria habitual os sazonais sonhos, coscorões ou fatias douradas, que, a julgar pelo dia seguinte, tinham já clientela. É talvez fatalidade moderna, esta correria. E nem sequer é de hoje, vem de trás. Nas férias de Verão começa a “despachar-se” o Natal, no Natal já se fala da Páscoa, que num atropelo se sucede ao carnaval e desliza para os Santos Populares, que também se “despacham” a bom ritmo para encher praias e hotéis de gente apressada que anseia pelo Natal – para voltar a completar o infindável circuito das festas movidas a comércio, com reservas cada vez mais antecipadas, talvez na redentora esperança de que, assim sendo, se garanta longevidade. Um bilhete comprado para daqui a um ano dá-nos, ao menos, o conforto de pensar viver até lá; coisa que não preocupa minimamente o vendedor, claro, e daí ter-se generalizado a prática dos seguros para cancelamentos imprevistos: uma viagem, uma doença, coisas piores.

Os espectáculos, em particular os musicais, já vivem num ciclo infindável. Acabado um festival, começa-se logo no dia seguinte a vender bilhetes para o próximo. É só daqui a um ano, mas que importa? Alguns até esgotam com muitos meses de antecedência. Talvez comecem a vendê-los para mais anos, anunciando logo um cabeça-de-cartaz qualquer, ou exibindo apenas a sua própria fama e nome. Por exemplo: o NOS Alive começou a vender bilhetes para o Passeio Marítimo de Algés mal terminou a edição deste ano, agitando o trunfo de “124 actuações em 3 dias esgotados”, o que para início bastava. Agora, já com nomes anunciados (The Cure a abrir e Smashing Pumpkins a fechar), será mais fácil. É só em Julho, mas a julgar pelos anos anteriores, devem vender a bom ritmo.

Não só eles, também os festivais Vodafone Paredes de Coura (Agosto), EDP Vilar de Mouros (Agosto), MEO Sudoeste (Agosto), NOS Primavera Sound (Junho), Bons Sons (Agosto), EDP Cool Jazz Fest (Julho), Monte Verde (Agosto), Laurus Nobilis (Julho) ou Soam as Guitarras (Abril), entre tantos outros que enchem recintos e por aí virão mais uma vez, já abriram a “caça” ao cliente ávido. E há, a par deles, espectáculos avulsos à distância de meses que também já esgotaram, como Michael Bublé, em Setembro, com data extra em Outubro. Daqui não virá mal ao mundo, note-se, mas tal pressa torna-se obsessiva. E o burburinho avoluma-se nesta época, com as empresas a criarem “pacotes de Natal” para o “sapatinho”.

Porém, quando se olha com vagar e lucidamente para a vida, às vezes escrevem-se coisas como esta: “Começo a olhar para as estantes e a notar, com melancolia, as obras que ainda não li e já não vou ter tempo de ler. As ideias que não vou conhecer e outras que não tive tempo de aprofundar. A música que já não vou ouvir e outra que não voltarei a ouvir. Dito assim, parece que tudo isto são apenas palavras. Mas, dentro de mim, tornou-se uma ferida profunda e muito sentida. É a consciência, ao vivo e a quente, de tudo quanto desperdicei.”

É uma pequeníssima passagem do recém-editado Aperto Libro, Páginas de Diário I – 1977-1980 (virão mais!) do escritor e poeta Eugénio Lisboa. Aquelas linhas, escreveu-as ele em Agosto de 1989, quando deparou com a “evidência” de “viver a última etapa” da sua vida. Mas passaram-se quase trinta anos e ele continua activo e lúcido, a escrever e a editar, ainda que certamente sem ler ou ouvir tudo o que queria (como todos nós). Porque a vida, mesmo quando parece longa, é sempre breve para o inatingível horizonte do pleno conhecimento. Talvez por isso devamos deixar, num gesto compensador, as pressas de lado, dando o devido valor a cada momento antes de inevitavelmente (há tempo) passar ao seguinte. Feliz Natal.»

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19.12.18

Natais em exílios e clandestinidades


Nuno Ramos de Almeida resume a sua experiência. Era assim.


«Tive a sorte de nascer num tempo em que pude ver o escuro e a madrugada. Mesmo quando anoitece, sei que é possível ver o sol nascer com uma claridade que varre tudo ao seu redor, nem que se tenha de fixar a cara de alguns e escolher uma pedra.»
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24.12.17

Natal, Natal



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Não Digo do Natal



Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen, in Antologia Poética 
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23.12.17

Esta sai todos os anos


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Ladainha dos póstumos Natais



Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

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