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2.5.11

Lançamento especial de um livro há muito esperado

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Como indicado no convite das Edições Afrontamento, será lançado, no próximo Sábado, em Lisboa, Obra Poética de Maria Natália Duarte Silva (Teotónio Pereira).

Se, para muitos, o nome da autora dispensa apresentações, é natural que outros, sobretudo entre os mais novos, precisem de algumas referências, já que ela nos deixou há quarenta anos. Resumo por isso, com algumas modificações, um texto que escrevi há cerca de três anos.

Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira, originária de uma família burguesa típica, nunca aceitou os valores ditos tradicionais que quiseram impor-lhe. Casou-se pela primeira vez, aos dezasseis anos, com Jaime Salazar Sampaio, e fez então parte de uma roda de artistas e intelectuais (que incluía, por exemplo, Luiz Pacheco).

Divorciou-se alguns anos mais tarde e voltou a casar-se, em 1951, com Nuno Teotónio Pereira - ela agnóstica e ele católico, numa igreja, mas com ritual próprio para situações deste tipo. Como não é difícil imaginar, foi muito negativa a reacção da tradicionalíssima família Teotónio Pereira ao ver um dos seus membros casar com uma jovem divorciada e não católica. Natália viria a converter-se, mais tarde, ao catolicismo.

Concretamente por influência da campanha de Humberto Delgado, e de todo o ambiente criado na sociedade portuguesa, e já integrada nas iniciativas dos católicos que entraram então num novo ciclo na oposição ao Estado Novo, passou a uma fase de grande actividade e teve mesmo um papel decisivo na evolução política do marido.

Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, Natália e Nuno foram os grandes impulsionadores de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas» – muitas não teriam pura e simplesmente existido, ou não teriam tido a amplitude que tiveram, sem o empenhamento e a liderança de ambos. Com uma saúde sempre débil, a sua acção exercia-se muitas vezes discretamente na retaguarda, mas com uma eficácia, um espírito combativo e uma tenacidade absolutamente notáveis.

16.4.07

Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930 - 1971)

Durante a preparação do meu livro, recolhi alguns documentos que acabei por não publicar, ou porque me não me pareceram adequados ou, pura e simplesmente, por critérios de razoabilidade quanto ao volume dos Anexos.

É o caso deste texto preparado por Nuno Teotónio Pereira para um colóquio no Museu da República e da Resistência, que teve lugar em 1996.

«1 - Convertida ao catolicismo já na idade madura, não suportou a flagrante contradição entre as solenes e sistemáticas declarações dos políticos do Estado Novo, e da grande maioria dos bispos, em prol da civilização cristã, e a traição permanente às exigências evangélicas, praticadas pela ditadura. Permanentemente revoltada contra a censura, as prisões arbitrárias, a tortura sobre os presos políticos, a violação dos mais elementares direitos da pessoa, a mentira instalada e a injustiça da guerra colonial, a sua luta não conheceu descanso, pois não chegou a ver o 25 de Abril. Pela força das suas convicções, pela coragem e pela determinação que punha em tudo em que se empenhava, pode dizer-se que foi a alma de muitas da actividades contra o regime desenvolvidas nos meios católicos desde a campanha de Humberto Delgado até à sua morte. E fê-lo sempre com um grande sentido de trabalho em comum, suscitando colaborações e entusiasmos.

2 - Entre essas actividades, podem destacar-se:
· o jornal clandestino Direito à Informação, policopiado, de que foram publicados dezoito números de 1963 a 1969;
· a vigília de S. Domingos, com a ocupação da igreja para um debate sobre a guerra colonial, durante toda a madrugada do 1º de Janeiro de 1969;
· o jornal Igreja Presente, impresso em Madrid, passado clandestinamente na fronteira do Caia e depois distribuído pelo país, quando da censura imposta à Imprensa sobre a viagem de Paulo VI à Índia;
· o Manifesto do 101, quando da farsa eleitoral de 1965, que bateu à máquina e para o qual se empenhou em angariar assinaturas;
· a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos , da qual foi, juntamente com Maria Eugénia Varela Gomes e Cecília Areosa Feio, uma das impulsionadoras;
· os cadernos GEDOC, publicados pelo Pe. Felicidade Alves também clandestinamente;
· os Sete Cadernos sobre a guerra colonial, que passou integralmente à máquina em 1970, publicados depois do 25 de Abril pela editora Afrontamento com o título Colonialismo e Lutas e Libertação, e de que foram distribuídos os primeiros exemplares quando da sua morte.


3 - No meio destas actividades, cultivou em alto grau as relações humanas e de solidariedade, através de contactos estreitos e frequentes com perseguidos pela PIDE ou pelo Patriarcado, nomeadamente padres católicos, entre os quais:
· D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, visitado por duas vezes no exílio, em Lourdes e em Alba de Tormes;
· Pe. Joaquim Pinto de Andrade e restantes padres angolanos deportados para Portugal, entre os quais o futuro cardeal de Luanda Alexandre Nascimento;
· Pe. Adriano Botelho, pároco e Alcântara e de S. João de Brito, exilado para a Patagónia pelo Cardeal Cerejeira;
· Pe. António Jorge Martins, obrigado a ir estudar para França pelo mesmo cardeal;
· Pe. Abel Varzim, visitado no seu desterro, na aldeia natal de Cristelo, pouco antes da sua morte; · Pe. Alberto Neto, visitado quando esteve iminente a sua ida compulsiva para o estrangeiro, felizmente não concretizada;
· Pe. Mário de Oliveira, visitado na sua paróquia de Macieira da Lixa, preso por duas vezes e julgado em Tribunal Plenário;
· Pe. José da Felicidade Alves, demitido de pároco dos Jerónimos e impulsionador dos cadernos GEDOC.


4 - Ao longo desses anos de luta, empenhava-se com a maior dedicação à resolução dos problemas familiares, à educação dos filhos e ao cultivo das amizades. Foi uma Mulher, uma Mãe e uma Amiga exemplar, não se poupando a esforços e a sacrifícios, a despeito da sua precária saúde, e dando-se inteiramente a quem precisava do seu apoio ou do seu conselho.
Organizou a publicação de uma colecção de livros para a juventude, em colaboração com Sophia de Mello Breyner e Madalena Ferin – Colecção Novo Mundo – de que foram publicados dez títulos.
Poetisa de rara sensibilidade, publicou o livro de poemas Mão Aberta. Colaborou com um grupo de jovens da JEC na revista Clube 21.
Em sua memória, foi publicado o livro Cada Pessoa Traz em Si Uma Vida, pela editora Afrontamento, há muito esgotado e no qual foram reunidos textos da sua autoria e numerosos e eloquentes testemunhos de pessoas com quem trabalhou ou que foram tocadas pelo seu exemplo».