O auditório da Ordem dos Arquitectos foi pequeno para as muitas dezenas de pessoas que prestaram homenagem a Nuno Teotónio Pereira. Sobretudo colegas, mas também numerosos amigos que se espalharam por cadeiras, recantos e escadarias.
Acto justíssimo para quem, durante seis décadas, deu «um contributo inestimável à arquitectura portuguesa, exemplificado em trabalhos como Habitação Social para Olivais Norte, (…) o edifício "Franjinhas", na Rua Braancamp, ou a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, todos Prémio Valmor.»
Foi um homem velho e doente, de 88 anos, que esteve presente na sessão de ontem. Com dificuldade em andar, cego desde há cerca de um ano e meio. E, no entanto, quando falou, durante vinte e cinco minutos, sem poder recorrer a qualquer espécie de apontamentos por razões óbvias, esteve ali com toda a lucidez e simplicidade, como sempre solidário com tudo e com todos. Disse e redisse, nem sei quantas vezes e de diversas maneiras, que nunca tinha querido fazer nada sozinho e que por isso tinha orgulho em não ser o único autor de muitas das obras referidas e elogiadas.
Sempre foi assim, na profissão e no resto da vida: impulsionador e dinamizador de equipas como nunca conheci outro, militante de uma persistência quase impossível nas causas em que se empenha, certamente uma das pessoas que mais admirei e admiro neste mundo.
Foi duríssimo o golpe que a vida lhe deu e só ontem me refiz do arrepio que me fulminou quando me telefonou, em Abril ou Maio de 2009, para me dizer muito simplesmente: «Entrei nas trevas». Custou-lhe muito aceitar o que lhe aconteceu. Mas levantou a cabeça e regressou à luta. Inteiro como sempre.
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