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20.1.20

Quatro anos sem Nuno Teotónio Pereira


O Nuno morreu em 20 de Janeiro de 2016 - o tempo passa depressa... Retomo um texto que publiquei por ocasião dos seus 90 anos, com um brevíssimo resumo da sua biografia e um vídeo com a intervenção que fez um ano antes.

Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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2.2.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa conversa fascinante (3)



Publico hoje a terceira e última parte de um texto baseado numa conversa que tive com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP). (Parte 1 e Parte 2)

Uma esperança chamada Cuba

Quando Portugal vivia ainda no rescaldo, já desiludido, das eleições presidenciais a que Delgado concorreu em 1958, a vitória de Fidel de Castro em Cuba, em Janeiro de 1959, funcionou como uma verdadeira mola para grande parte dos antifascistas portugueses. Foi uma «grande esperança de uma revolução democrática, de rosto humano, um solução diferente da soviética, que teve um impacto enorme» para EP, uma realidade seguida com «um muito grande entusiasmo» por NTP.

Experiência especialmente importante para este último foi uma estadia em Havana, em 1962, algum tempo depois da crise dos mísseis na Baía dos Porcos. NTP participou então no primeiro congresso internacional que teve lugar em Cuba depois da revolução (e tal aconteceu porque o local tinha sido escolhido antes de 1959), integrado num grupo de arquitectos de muitas nacionalidades – com direito a um discurso de Che Guevara e a um outro de Fidel, «que nunca mais acabava» (mas, segundo um participante cubano, «o mais curto que até então tinha feito»). Depois de grande insistência, NTP conseguiu convencer os responsáveis da rádio cubana a cederem-lhe a gravação do discurso de Fidel, garantindo-lhes que era «para fazer propaganda em Portugal» – o que era rigorosamente verdade. De regresso a Lisboa, promoveu várias audições em casa, religiosamente seguidas por grupos de amigos. Recorda-se bem de uma delas, em pleno rescaldo dos acontecimentos estudantis de 1962, quando Víctor Wengorovius levou consigo, e lhe apresentou, Jorge Sampaio. Conseguiu também realizar uma sessão no Sindicato dos Arquitectos, mas, alguns anos mais tarde, e apesar de não estar identificada, a bobina despertou a curiosidade de agentes da PIDE durante uma rusga e foi levada juntamente com livros e com papéis.

A esperança depositada na revolução cubana foi, para ambos, tão grande como a desilusão com a sua concretização. Mas essa desilusão só viria mais tarde, muito mais tarde – nem conseguem situá-la exactamente no tempo. 


Partidos – adesões e desilusões

Pouco dizem sobre a década de 60 – avançam para o 25 de Abril, ou quase. E, no entanto, foram anos muito importantes nos seus percursos: de intensa actividade nos meios dos católicos progressistas para NTP, cheios de peripécias para EP, começando pela preparação – e falhanço – do golpe de Beja, no dia 1 de Janeiro de 1962 (tema que está precisamente a abordar neste momento, na preparação do segundo volume das suas Memórias).

EP conta como aderiu ao PS. Nos primeiros dias de Setembro de 1973, cruzou-se por acaso com Mário Soares no aeroporto de Madrid, numa escala que este fazia, vindo da América do Sul e de regresso a Paris, onde estava então exilado. EP recorda a preocupação de Mário Soares relativamente a uma conversa tida dias antes com Salvador Allende e à situação que encontrara no Chile (que viria a acabar muito mal, como é sabido, alguns dias depois, a 11 de Setembro). Foi nesse encontro no aeroporto de Madrid que EP foi convidado a aderir ao PS, o que aceitou imediatamente.

Diferente foi o percurso de NTP, hoje também membro do PS: só aderiu em 2002, depois da derrota de Ferro Rodrigues nas eleições legislativas. Antes, pertenceu ao MES, desde a sua fundação, em 1974, até à extinção. Esteve depois ligado à fundação do BE, foi candidato por Portalegre nas primeiras eleições a que aquela organização concorreu, mas viria a afastar-se.

Tanto EP como NTP comentam largamente o papel do MES – o que teve e, sobretudo, o que, segundo eles, poderia ter tido como «braço político» de uma parte do MFA» (expressão de NTP), sua «consciência política», (diz EP). NTP considera mesmo que a cisão ocorrida no MES, em Dezembro de 1974, em razão da qual «saíram os melhores quadros», «foi uma verdadeira tragédia». Sem ela, talvez não tivesse ocorrido «a deriva esquerdista do MFA, que foi fatal».

Hoje são ambos militantes de base do PS, mas muito, muito críticos em relação à actuação do partido a que pertencem. Nas últimas eleições presidenciais, não estiveram juntos: EP apoiou Manuel Alegre, NTP esteve ao lado de Mário Soares. 


O país, a Europa e o mundo

Pergunto-lhes como vêem a actualidade. Transcrevo uma parte do que foram dizendo.
EP – «A coesão social, de que tanto se fala, implica solidariedade entre aqueles que têm muito e os que não têm nada. Em muitos países mais avançados, os muito ricos têm a preocupação de uma certa justiça. Não em Portugal: o nosso capitalismo é mais selvagem do que a maior parte dos outros.»
NTP – «Completamente de acordo.»
Quanto ao futuro, EP afirma que é optimista por natureza, mas que sente angústia com o que se passa no mundo:
EP – «Esta globalização selvagem não anuncia nada de bom. É preciso criar, a nível europeu, um grande movimento de contestação para interpretar esta mudança. Não para acabar com os capitalistas, porque está provado que não é fácil. O que é necessário é criar uma situação de partilha, de interesse comum no desenvolvimento entre empresários e trabalhadores».
NTP – «O capitalismo precisa de ser regulado, a crise actual é uma demonstração da falência do sistema.»
EP – «As rupturas revolucionárias só trouxeram desgraças: a russa acabou, a cubana está num impasse e a chinesa também.»
NTP – «A chinesa traiu os seus próprios ideais e conservou só sistema policial.»
«Uma via reformista ousada», insiste EP. «Completamente de acordo», conclui NTP.

A conversa continuou ainda, com outras memórias e com outras histórias. Já quase a terminar, perguntei a NTP se ainda se considera católico.
«Não, não, sou agnóstico.»
«É uma evolução curiosa, é uma evolução curiosa!», conclui EP.
Para quem me acompanhou nesta conversa, desde o início, não haverá expressão mais adequada: «evolução curiosa». Estes dois homens, nascidos e criados na mesma cidade mas em extremos opostos, social e culturalmente, no plano político e no plano religioso, foram convergindo. São hoje ainda idealistas mas cada vez mais pragmáticos, talvez menos radicais do que muitos esperariam e estão sintonizados em tudo – ou em quase tudo. 
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26.1.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa fascinante conversa (2)



Como tinha anunciado, retomo o relato de uma conversa que tive, em 27 de Maio de 2008, com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP) e que já foi objecto de um primeiro texto publicado neste blogue, por ocasião da morte de NTP. Falaram então sobretudo do início da guerra Civil de Espanha, em Julho de 1936.

No dia 18 de Outubro desse mesmo ano, EP partiu para o Tarrafal, onde ficou até Agosto de 1945. Foi de lá que acompanhou a Segunda Guerra Mundial.
Em Lisboa, NTP começou uma longa evolução pessoal: ao lado do pai, profundamente anglófilo, tomou sempre partido pelos Aliados. «Quando a guerra acabou, era já um democrata», comenta. Para tal mudança terá contribuído, também, a influência da doutrina social da Igreja. Mas quer deixar bem claro que repudiava todas as formas de totalitarismo, «tudo o que fosse fascismo ou que "cheirasse" a comunismo» - em nome das suas convicções religiosas e, também, porque lia os relatos dos crimes do estalinismo. «Em que nós não acreditávamos», comenta EP que era então militante do PCP.

Fala-se depois da campanha de Humberto Delgado, em 1958
Esse ano foi decisivo para uma viragem definitiva na vida e nas convicções de NTP. Por causa da campanha presidencial, certamente, mas muito mais pela influência directa de Francisco Lino Neto. Um documento que este escreveu, em Junho de 1958, foi importantíssimo para NTP e foi um marco incontornável na história da oposição dos católicos (1). Recorde-se que a célebre carta do bispo do Porto a Salazar, datada de 13 de Julho de 1958, é erradamente considerada como o primeiro passo da referida oposição, quando, de facto, foi já uma consequência da iniciativa de Lino Neto. A um outro nível, a vida de NTP foi também fortemente influenciada por Natália, sua mulher: com formação e antecedentes políticos radicalmente diferentes, a presença de Natália - que nem sequer era católica - viria a ser decisiva.
Entretanto, EP, juntamente com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, tentou preparar uma insurreição armada que tirasse partido das condições excepcionais criadas pela campanha de Delgado. Mas falharam todas as hipóteses para conjugar esforços e reunir um mínimo de condições indispensáveis.

Volta-se um pouco atrás, a 1956 e à importância da invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, especialmente traumatizante para EP:
«Foi o ano das minhas primeiras dúvidas. Um choque brutal, demolidor. Mas a crença no projecto soviético era tão firme que não abanava à primeira. Comecei no entanto a reflectir, sobretudo pelo facto de os operários das fábricas dos arredores de Budapeste resistirem contra o que era suposto ser o seu próprio governo!»

Dá-se depois um salto: doze anos mais tarde, 1968 e a invasão da Checoslováquia. Aqui, vou deixá-los falar, transcrevendo quase ipsis verbis o que disseram.
NTP - «Então e em relação à Primavera de Praga?»
EP - «Isso aí foi quando percebi tudo, claramente. E rompi completamente [com o PCP].»
NTP - «O que se passou com a Primavera de Praga foi terrível. Se tivesse conseguido vencer, tinha provocado grandes transformações no mundo. Tinha-se propagado a outros países e tinha inaugurado uma época fantástica. Assim, o capitalismo fortaleceu-se e o socialismo afundou-se.»
EP - «Tenho muitas dúvidas, porque a União Soviética estava no auge da sua força, tão grande que era capaz de abalar tudo. E aquela intervenção era indispensável para a consolidação do império soviético.»
E, em jeito de conclusão:
«Acompanhei aquilo tudo com uma paixão enorme, com uma grande ilusão. Uma revolução democrática com rosto humano, como a que, uns anos antes, tinha sido anunciada por Fidel de Castro em Cuba.»

De Cuba, da década de 60 em geral e de tudo o que se seguiu, falarei - falarão eles - dentro de alguns dias. Porque a conversa foi longa e ainda faltam umas tantas histórias.

(1) «Considerações dum católico sobre o período eleitoral», Junho de 1958. Documento publicado em José da Felicidade Alves (edição e coordenação), Católicos e Política. De Humberto Delgado a Marcelo Caetano, (s.d.), 288 p., pp. 17-30. 
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22.1.16

Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa fascinante conversa




Há pouco mais de sete anos, em 2008, juntei Nuno Teotónio Pereira e Edmundo Pedro numa conversa de mais de duas horas, que guardo religiosamente gravada e a partir da qual elaborei três posts publicados então nos «Caminhos da Memória» e também, em parte, neste blogue. Quando NTP nos deixou agora, julgo adequado disponibilizá-los para uma leitura absolutamente fascinante, no meu entender. Aqui fica hoje o primeiro.

************ 

Edmundo Pedro tem neste momento oitenta e nove anos, Nuno Teotónio Pereira oitenta e seis. O primeiro nasceu três dias antes do fim da Primeira Guerra Mundial, o segundo no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano.

Conhecem-se bem, são amigos, participam em múltiplas actividade de carácter cívico. Continuam imparáveis, grandes resistentes durante a ditadura, militantes persistentes em tempos de democracia. Têm hoje, sobre o mundo e sobre a vida, posições muito semelhantes.

Juntei-os, no passado dia 27 de Maio, numa conversa da qual tenho quase duas horas de gravação. Utilizarei hoje apenas uma pequeníssima parte de tudo o que ouvi e guardei – nem chegarei sequer à idade adulta destas pessoas que nasceram ambas em Lisboa, mas em contextos que dificilmente poderiam ter sido mais diferentes.

Edmundo Pedro (EP) vem do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica, mas nem por isso alheada de preocupações sociais.

Curiosamente, a vida viria a reuni-los, durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que agora tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «O meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Comecei por ler excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

Em Fevereiro, EP, então com dezassete anos, foi preso pela terceira vez. Passou algum tempo numa esquadra em Benfica, foi transferido depois para o Aljube e mais tarde para Peniche. NTP continuava no Liceu Pedro Nunes e, em Maio desse mesmo ano, viveu intensamente a criação da Mocidade Portuguesa:

«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista». Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.

Escreve NTP:
«Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas na direcção de Madrid».

Escreve EP, então preso em Peniche:
«Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».

Riem-se ambos quando lhes leio estes textos. Quase nem querem acreditar e repetem, várias vezes: «É curioso, muito curioso!»

EP faz notar que teria certamente combatido em Espanha se não tivesse sido preso pouco antes da data em que deveria partir para a União Soviética, para uma estadia planeada pelo PCP. Como tantos outros, teria vindo combater ao lado dos republicanos, «onde se julgava estar a decidir-se o percurso e o destino da revolução mundial».

Em Lisboa, NTP envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as tropas franquistas.

Estranhos paralelismos.

Passaram-se, entretanto, mais de setenta anos e está quase tudo por contar: como viveram o desenrolar dos acontecimentos durante a Segunda Guerra Mundial (EP no Tarrafal, NTP já anglófilo), a campanha de Humberto Delgado em 1958 (quando NTP inicia a tua caminhada em direcção à esquerda e uma longa actividade de resistente católico), as invasões da Hungria e da Checoslováquia – e por aí fora.

Outros textos virão.

Deixei o Edmundo sentado ao computador, quase no fim do segundo volume das Memórias, que quer lançar em Novembro por ocasião do seu 90º aniversário. Atravessei a cidade para levar o Nuno a uma sessão sobre Lisboa, que iria prolongar-se pela noite dentro.

Incansáveis, preocupados com a situação actual do país e do mundo, transmitem força e determinação a todos os que os rodeiam – com uma simplicidade desconcertante, corações do tamanho do mundo e cabeças cheias de projectos. 
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No adeus a Nuno Teotónio Pereira



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20.1.16

Nuno Teotónio Pereira



A quem possa interessar:

Velório amanhã, 5ªf, a partir das 16h30, na igreja do Sagrado Coração de Jesus (entrada pela rua de Santa Marta). Funeral na 6ªf, com saída às 13:30, para o cemitério do Lumiar.
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Morreu Nuno Teotónio Pereira


Repubico este «post» escrito por ocasião dos seus 90 anos.

Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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16.9.15

Nuno Teotónio Pereira – mais um prémio



A Universidade de Lisboa atribuiu ao Nuno Teotónio Pereira o seu Prémio deste ano de 2015.

A cerimónia de entrega ocorrerá na Aula Magna, Reitoria da Universidade, Cidade Universitária, Alameda da Universidade, no dia 15 de Outubro, quinta-feira, pelas 17h00, com entrada livre.


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19.7.12

Mais um prémio para Nuno Teotónio Pereira



Nuno Teotónio Pereira, 90 anos, recebeu no passado dia 11, o «Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes», atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Igreja Católica.

Fica o registo:


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31.1.12

Vindos dos antípodas



Fui buscar alguns elementos do texto que escrevi ontem, a propósito dos 90 anos de Nuno Teotónio Pereira, a um post que publiquei em 2008, em resultado de uma longa conversa que tive com ele e com Edmundo Pedro e da qual guardo mais de duas horas de gravação.

O eco que o post de ontem teve em vários sites, blogues e Facebook leva-me a «repescar» uma parte da dita conversa, pelo eventual interesse em recordar, ou dar a conhecer, alguns etapas das juventudes tão extraordinariamente diferentes destas duas pessoas – que hoje são amigas e muito se respeitam mutuamente.

Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano (1922), Edmundo Pedro (EP) três dias antes do fim da I Guerra Mundial (1918). Embora tenham hoje posições muito semelhantes sobre o mundo e sobre a vida, chegaram a este mundo em contextos que dificilmente podiam ter sido mais distintos.

EP veio do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. NTP nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica.

Curiosamente, a vida viria a «reuni-los», durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «o meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Li-lhes excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

Em Fevereiro, EP, então com dezassete anos, foi preso pela terceira vez. Passou algum tempo numa esquadra em Benfica, foi transferido depois para o Aljube e mais tarde para Peniche. NTP continuava no Liceu Pedro Nunes e, em Maio desse mesmo ano, viveu intensamente a criação da Mocidade Portuguesa:

«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista».

Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.

Escreve NTP: «Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas em direcção a Madrid».

Escreve EP, então preso em Peniche: «Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».

Riem-se ambos quando lhes leio estes textos. Quase nem querem acreditar e repetem, várias vezes: «É curioso, muito curioso!»

EP faz notar que teria certamente combatido em Espanha se não tivesse sido preso pouco antes da data em que deveria partir para a União Soviética, para uma estadia planeada pelo PCP. Como tantos outros, teria vindo combater ao lado dos republicanos, «onde se julgava estar a decidir-se o percurso e o destino da revolução mundial».

Em Lisboa, NTP envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as tropas franquistas.

Estranhos paralelismos, revisitados tantas décadas mais tarde. De duas pessoas que, desde ontem, estão ambas na casa dos 90.

(A partir daqui. Continuação da conversa aqui e aqui.)
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30.1.12

Nos 90 anos de Nuno Teotónio Pereira


Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afecta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquitecto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de actividade profissional dedicada à «arquitectura e cidadania»; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida.

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e  envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua «conversão». E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959…

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de actividade dos que vieram a ser designados como «católicos progressistas». Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adoptaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, directa ou indirectamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de acções conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram.

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito activa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.

Há pouco menos de três anos, a vida deu-lhe um golpe cruel: cegou, mais ou menos repentinamente. Mas continuou preocupado com tudo e com todos.

Há cerca de um ano, a pretexto do lançamento de um livro sobre uma cooperativa lançada no Porto nos anos 60 (a Confronto), um grupo de amigos decidiu prestar-lhe uma espécie de homenagem e foi sem surpresa que viram encher-se um auditório com várias centenas de pessoas. Para todas elas, o Nuno foi – e é – uma referência, um marco de vida e objecto de uma enorme gratidão.

A encerrar a referida sessão afirmou: «Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. (…) Além da perda da visão. Estou emocionado, mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que eu conheci na luta contra a ditadura, naqueles anos difíceis. (…) Os dias de hoje, e porventura os de amanhã, vão exigir acções múltiplas, fortes, convictas. e por vezes decisivas, para que o mundo seja melhor para todos. (…) Muito obrigado.»

Neste vídeo, a sua intervenção na íntegra:


P.S. - Post republicado por:
* Centro Nacional de Cultura
* Forum Abel Varzim
* Esquerda.net

* Não Apaguem a Memória!
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24.2.11

Para mais tarde recordar


A sessão de homenagem a Nuno Teotónio Pereira, que teve lugar no passado dia 5 de Fevereiro, foi inteiramente filmada e o respectivo DVD pode ser adquirido por quem estiver interessado (*).

Além de todas as intervenções – incluindo a do próprio Nuno -, contém muitas fotografias, filmagens da audiência e alguns testemunhos gravados.

Fica a recomendação: recorra-se a este tipo de «documentação», sobretudo em sessões informais em que os oradores não escrevem o que dizem. São um instrumento precioso para quem, no futuro, quiser informar-se sobre acontecimentos deste tipo e ver e ouvir os respectivos protagonistas. Com um atractivo adicional: são a custo zero para os organizadores, já que as empresas que filmam apenas cobram aos compradores do DVD.

(*) Posso indicar o canal, se me for enviada mensagem para o meu endereço de email (que está na barra lateral).
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13.2.11

Evocações, homenagens


Frei Bento Domingues publicou, no Público de hoje, um texto sobre uma sessão de homenagem a Nuno Teotónio Pereira, na qual foram evocadas as actividades de duas cooperativas fundadas nos anos 60 – a Pragma e a Confronto –, sessão essa que já foi largamente noticiada neste blogue.
Antes de mais, refira-se que o Frei Bento não foi só um entre as centenas de participantes que encheram a sala, nem sequer um simples compagnon de route de grande parte deles, mas sim um protagonista, desde as primeiras horas, de tudo o que esteve em causa naquela tarde: a Pragma, a Confronto e muitas outras iniciativas, legais e clandestinas, que envolveram católicos progressistas, e não só, nas lutas contra a ditadura.
De louvar que tenha decidido recordar publicamente a pessoa da Natália Teotónio Pereira, através da publicação de parte de um texto escrito pelo Nuno e que foi publicado originariamente neste blogue.

1. No passado dia 5, numa grande sala, completamente cheia, da igreja do Sagrado Coração de Jesus, obra arquitectónica de Nuno Teotónio Pereira e de Nuno Portas, declarada, em 2010, monumento nacional, foi prestada homenagem a Nuno Teotónio Pereira, lembrando duas cooperativas – a Pragma (Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária, 1964-1967, Lisboa) e a Confronto (Cooperativa Cultural, 1966-1972, Porto) – às quais esteve intimamente ligado, desde a fundação até serem encerradas pela ditadura.

Nuno Teotónio já recebeu muitas homenagens, condecorações e prémios. Todos são insuficientes para celebrar esta personalidade rara. Na sua intervenção, Jorge Sampaio marcou, com ênfase, que esta figura não pode ser anexada por ninguém. Não cabe em nenhuma classificação, em nenhum grupo, em nenhuma das suas obras. Sempre empenhado no concreto, fica sempre acima das circunstâncias.

No final da sessão, Nuno Teotónio agradeceu: “Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. Além da perda da visão. Mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa, e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que conhecemos e lutaram naqueles anos difíceis”.

2. Esta homenagem, muito bem preparada, incluía uma apresentação do livro de Mário Brochado Coelho, Confronto – Memória de uma Cooperativa Cultural, Porto 1966-1972, das Edições Afrontamento. A Confronto foi um lugar de diálogo entre pessoas, ideias e grupos diferentes mas que se situavam dentro de um quadro mínimo de defesa dos direitos humanos e oposição política ao regime fascista de Salazar e Caetano.

Como o próprio autor sublinhou, contrariando a nossa habitual tendência de “fazer história” com base num ponto de vista único centrado exclusivamente em Lisboa, procurou recuperar e dar a conhecer os principais traços do nascimento, actividade, encerramento e significado desta instituição político-cultural do Porto. Ao longo dos anos, a Pragma, situada em Lisboa, foi sempre conhecida, referenciada e glorificada, e a Confronto, como era do Porto, era a ignorada. Era como se não existisse. Mário Brochado Coelho, ligado à Pragma desde o começo e um dos fundadores da Confronto, resolveu acabar com esta ignorância, traição à memória e à verdade, mediante uma rigorosa investigação. O resultado está, agora, num livro notável e absolutamente incontornável.

Júlio Pereira, das Edições Afrontamento, lembrou a história militante deste nome, recebido dos Cadernos Afrontamento dos anos 60, pois “quando a desordem se torna ordem, uma atitude se impõe: afrontamento”.

6.2.11

Com Nuno Teotónio Pereira – ontem em Lisboa


Sobre o conteúdo da sessão de homenagem a Nuno Teotónio Pereira, leia-se o texto que José Pedro Castanheira acaba de publicar no Expresso online.

Mas acrescento algumas linhas.

Foram horas a olhar para uma imensa plateia de mais de trezentas pessoas, não só de católicos e ex-católicos activistas desde os anos 60, mas também de muitos outros compagnons de route que, ao longo de mais de cinco décadas, se habituaram a ver na pessoa do Nuno o grande impulsionador de um sem número de actividades, políticas e cívicas, e que aderiram a uma iniciativa anunciada através da internet, sem envolvimento de organizações (juntaram-se depois e estiveram ontem presentes) e organizada por um pequeníssimo grupo de amigos. Muitos cabelos brancos e rugas vincadas, mas também jovens, filhos e até netos que cresceram habituados a ver o Nuno sempre por perto. Um grande conjunto de pessoas que raramente se encontram porque a vida as foi dispersando, mas que retomam imediatamente a cumplicidade passada, porque, ao contrário de outras arenas, por aqui não passaram cisões geradoras de ódios que tornariam inviável este tipo de convivências. Pensei nisso várias vezes ontem, talvez por conhecer a maioria esmagadora de quem estava à minha frente.

Ao lançarmos a sessão, utilizámos a palavra «homenagem» na convocatória e o Nuno não gostou: telefonou-me três dias antes, desagradado por só então se ter apercebido de que seria o centro das atenções. Disse-lhe então o que ontem repeti: que estávamos ali para nos «homenagearmos» também, num reencontro para celebrarmos um passado de que nos orgulhamos e que, de uma maneira ou de outra, ele nos ajudou a construir. E que a nossa presença naquela sala era a prova daquilo que, certamente, ele mais gostaria de ouvir: que ainda não baixámos os braços.

O Nuno encerrou a sessão, com a limpidez e a frontalidade habituais, quase lendárias:

«Estou velho, estou a chegar aos 90 anos. Há órgãos que me estão a falhar. Um deles é a memória, que se está a desfazer como pó, o que me causa um certo sofrimento. Além da perda da visão. Mas estou muito contente, porque esta sessão, tendo sido anunciada como de homenagem à minha pessoa, e não deixando de o ser, fez também justiça a todos aqueles que conhecemos e lutaram naqueles anos difíceis.»

Mais palavras para quê.
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2.2.11

No Sábado


HOMENAGEM A NUNO TEOTÓNIO PEREIRA

No próximo Sábado, 5 de Fevereiro, 16h

Igreja do Coração de Jesus
R. Camilo Castelo Branco, 4 - Lisboa
(entrada pela R. de Santa Marta)

«A década de 60 do século passado e os anos que se seguiram até ao 25 de Abril foram vividos com uma intensidade extrema, com grandes entusiasmos e dolorosas rupturas, corresponderam ao canto do cisne da ditadura sem que então o pudéssemos adivinhar.» (Joana Lopes no Prefácio do livro CONFRONTO – Memória de uma Cooperativa Cultural).

De entre as iniciativas estruturadas levadas a efeito por grupos de pessoas não alinhadas em torno das referências polarizadoras que então faziam resistência ao Regime (PCP, velhos republicanos e pessoas da génese do futuro PS), salienta-se a criação das cooperativas de acção e dinamização cultural PRAGMA (1964-1972), em Lisboa e CONFRONTO (1966-1972), no Porto, tendo em boa medida como referência os passos para “aggiornamento” dados então pela Igreja Católica e despoletados por João XXIII.

As intenções de actividade então publicitáveis, estão bem sintetizadas no texto de César Oliveira e José Carlos Marques «A cooperativa é um lugar geométrico de possibilidades. Pessoas há que vêem nela um centro cultural com possibilidades de se tornar criador. E muitas mais pessoas poderão criar iniciativas, se o quiserem. No nosso meio, não há muitas razões para desperdiçar as mais ténues possibilidades de renovação, invenção, trabalho sério.»

Uma pessoa, em Portugal, pela sua acção, espírito de iniciativa e de incentivação, teve enorme responsabilidade e protagonismo na criação destas cooperativas, de cuja existência é indissociável, sendo mesmo um dos primeiros dirigentes da PRAGMA: o arquitecto Nuno Teotónio Pereira!

É com este pano de fundo que iremos no próximo dia 5 de Fevereiro, pelas 16 horas, homenagear o Nuno Teotónio Pereira, evocando o papel que a PRAGMA e a CONFRONTO tiveram na resistência na fase final da ditadura de Salazar e Caetano, aproveitando ainda para lançar em Lisboa o livro de Mário Brochado Coelho CONFRONTO – Memória de uma Cooperativa Cultural.

Esse evento terá lugar na sala de conferências da Igreja do Santíssimo Coração de Jesus, na Rua Camilo Castelo Branco, em Lisboa, obra emblemática dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, que recebeu em 1975 o Prémio Valmor da Câmara Municipal de Lisboa e que em Novembro de 2010 passou a Monumento Nacional por Decreto governamental.

Este evento constituirá também uma boa oportunidade de reencontros e do que daí, obviamente, possa resultar.

(Sessão da Pragma em 1966)
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