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22.7.18

Política e ética



«Nesta última semana tivemos, em Portugal e no plano internacional, comportamentos de alguns políticos que causam indignação e deixam, ao cidadão comum, acrescidas desconfianças para o futuro. Trump foi, uma vez mais, a expressão limite da amoralidade, da utilização descarada da mentira, da negação de valores e princípios éticos que se exigem no exercício da política. E não faltam por aí atores políticos com total desprezo pela verdade e dispostos a mobilizar os cidadãos contra a democracia e pela negação da política. Na Assembleia da República (AR) assistimos a um comportamento desses: Manuel Pinho achincalhou os deputados e gozou com os portugueses, talvez por acreditar que os buracos nas leis, o espaço para manobras processuais e o arrastamento dos processos judiciais, e a sobreposição do poder económico ao poder político lhe permitirão passar impune. A sua arrogância e sobranceria foram chocantes.

Entretanto, também esta semana, vimos partir um político exemplar - João Semedo - um Homem de enorme humanismo e compromisso com as gerações futuras, que dedicou a vida à causa pública buscando como contrapartida a construção de vida mais feliz para o conjunto dos seres humanos - sempre a partir da defesa dos que mais precisam - e por consequência para ele. Era esse o alimento da alegria que nos mostrava nas horas boas e más dos combates políticos, sociais ou culturais em que se envolveu, a partir de uma militância empenhada primeiro no PCP e depois no BE.

Este contraste desafia-nos a uma reflexão séria sobre o que se passa com o exercício de responsabilidades públicas, com a política e a ética, identificando e denunciando as suas subversões. Imaginemos, por exemplo, uma associação cuja missão é a ajuda a terceiros em situação de necessidade e que nela, oportunisticamente, alguém se oferece para ocupar um cargo de responsabilidade, não para cumprir a missão da associação, mas para retirar do cargo vantagens pessoais de algum tipo. Quando a tramoia é descoberta, o prestígio da associação sofre um duro golpe, da mesma forma que a honorabilidade de todos os que trabalham para essa associação, mesmo a dos mais honestos e dedicados. E basta a existência de um ou outro caso destes para a reputação de todas as associações serem postas em causa. A partir daí, o desconforto de ser confundido com práticas detestáveis não afastará malandros dispostos a obterem vantagens por qualquer forma, mas levará muitas pessoas generosas e honestas a pensar duas vezes antes de se disponibilizarem para assumir responsabilidades.

Nesta sociedade tão dominada pela economia e pela finança, lembremos o palavrão que os economistas usam - "seleção adversa" - para designar situações em que o mau produto expulsa do mercado o bom produto. É claro que falar de política é mais amplo e exigente do que tratar estas questões, mas na verdade a política é para aqui chamada.

O que designa a expressão "classe política" nestes dias? Um grupo sob suspeita a que se associam normalmente epítetos do tipo "o que tu queres sei eu" e "eles são todos iguais" - uma associação de malfeitores. Quem quer ser da "classe política"?

As coisas estão tão mal que há um certo espanto quando se descobre, geralmente demasiado tarde, que há mulheres e homens honrados que dedicam ou dedicaram uma vida inteira à política por convicção e por generosidade. Aí surge uma espécie de ritual coletivo de penitência pública feito de elogios adiados, alguns genuínos, outros hipócritas.

Se queremos evitar que os partidos e outras instituições sejam desacreditados, que as cadeiras do Governo ou da AR não passem a estar em pleno ocupadas por malandros - mesmo que malandros finos, de gravata e muito "bons modos" - são precisos mais do que elogios requentados. É preciso sermos severos contra a conversa do "é tudo farinha do mesmo saco" que polui as caixas de comentários da Internet. É necessário não transigir com o "ele rouba mas faz" que já produziu, mesmo entre nós, candidatos vencedores. É preciso combater os julgamentos na praça pública feitos pelo jornalismo de cordel. É indispensável construir projetos políticos alternativos de rigor e de compromisso efetivo com as pessoas.»

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29.5.15

Economistas versus Políticos



«Depois de o PS ter ido pedir ajuda a um grupo de 12 economistas, para que executassem um plano pré-programa eleitoral, eis que o PSD recusa ir pelo mesmo caminho e junta uma equipa de 20 economistas, em que três deles pedem anonimato (e não se sabe a identidade de outros cinco) para elaborarem um plano pré-programa eleitoral. A democracia é isto. A possibilidade de os partidos poderem escolher caminhos distintos.(...)

Já lá vai o tempo em que os programas de governo partiam de ideias de políticos. Agora já não é bem assim. Um partido que quer ser do arco da governação, e respeitado lá fora, não faz política sem primeiro contratar economistas para definirem que política deve fazer. Ou seja, os economistas fazem o projecto da casa e escolhem a mobília. Cabe à política o papel de decidir em que posição vamos pôr o sofá. Já lá vão, quase, quatro dezenas de anos, desde a célebre rodagem até à Figueira da Foz e ainda continuamos com esta obsessão em procurar um rumo, pondo um economista ao leme. Isto já é mais parvo do que o Sebastianismo.

Se, por um lado, este modelo baseado em moldes políticos definidos por técnicos de contas asfixia, de algum modo, a política, o que me parece negativo, por outro, o facto de podermos ter, pelo menos, 11 economistas para cada lado, permite que, em caso de empate - ou seja, caso as propostas sejam muito parecidas -, seja possível tirar as dúvidas através de um jogo de futebol no Estádio Nacional. Recomendava uma equipa de arbitragem da UTAO.»

João Quadros

8.1.14

Serviço público



Um ecossistema político empresarial – Portugal 1975-2013

Visualização interactiva das relações de membros de Governos de Portugal com empresas e grupos.

Clicar AQUI e seguir as instruções. 
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10.8.13

Legalidade e legitimidade



Bem a propósito de muitas discussões do dia nosso de cada pão: 

«Olhemos para alguns exemplos recentes da vida política em Portugal, em que vários políticos tiveram que vir dizer publicamente que agiram dentro da legalidade. Quando um político evoca a seu favor a estrita legalidade, quase sempre se colocou fora da legitimidade, isto é, à margem do próprio princípio que funda e legitima o exercício do poder político, as suas regras e as suas modalidades. A razão pela qual as instituições e os poderes democráticos se encontram hoje deslegitimados não é terem caído na ilegalidade; pelo contrário, afirma Agamben, é porque os poderes e os seus representantes perderam a consciência da sua legitimidade que a ilegalidade se tornou tão generalizada. Nestas circunstâncias, a ideia de corrupção tornou-se difícil de apreender, passou a ser um expediente legal a partir do momento em que o que se corrompeu foi a própria distinção entre o princípio da legalidade e o princípio da legitimidade. Por isso, querer resolver certas questões (como a da possibilidade de os presidentes de câmara se poderem candidatar a outra câmara quando já cumpriram o número limite de mandatos) através do direito, levando às últimas consequências a interpretação da legalidade formal, é entrar na perda irreparável de toda a legitimidade substancial. É promover a hipertrofia da lei por ausência de princípios que definam a legitimidade. Se é verdade que um poder que se pretende baseado numa legitimidade que despreza a legalidade é de natureza reaccionária e totalitária, também é verdade que se a democracia fica reduzida a regras e procedimentos jurídicos e já não resta nenhum outro princípio de legitimação senão os resultados eleitorais, então a legitimidade foi completamente absorvida pela legalidade (que os seus beneficiários dirão que “incontestável”) e deixa de haver qualquer saída para a imobilidade e o vazio em que caiu a máquina política. Não é, porventura, neste ponto que nos encontramos?» (O realce é meu.)

António Guerreiro, Ípsilon, 9/8/2013, p.28
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22.7.13

Partidos? Certamente, mas...



Se há que combater a vaga antipartidos que por aí vai crescendo de dia para dia, por motivos óbvios, isso não deve impedir-nos, bem pelo contrário, de reconhecer a triste e preocupante realidade com que estamos confrontados e que se agravou nos últimos tempos. António Guerreiro retrata-a bem, no Ípsilon do passado dia 19:

«A política, naquilo que dela ainda existe, já não são os partidos que a fazem: são os comentadores os magistrados, os jornalistas etc. Veja-se, aliás, como os homens de partido se tornam comentadores para saírem do espaço despolitizado e entrarem no espaço – exíguo, mas o único que resta – da política. Algum governo, nos últimos anos, se formou com base num projecto de sociedade? Os governos são cada vez mais técnicos e cada vez menos políticos. Maiorias políticas parlamentares elegem e apoiam conselhos de administração da empresa-país, que por sua vez nomeiam burocratas (sempre com uma grande aura de "competência", nem sempre confirmada) para gerir a coisa pública.» 
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13.4.13

Discurso político e Metalinguagem



Vale a pena ler o que São José Almeida escreve, no Público de hoje (sem link), sobre o tipo de discurso político que nos é imposto e que já nem estranhamos de tão habitual se tornou.

Alguns excertos:

«A política vive hoje de mentiras, de discursos falsos, de manipulação de factos. Demonstração disso é a declaração feita pelo primeiro-ministro no domingo, reagindo ao acórdão do Tribunal Constitucional (TC), que considerou inconstitucional normas do Orçamento do Estado (OE), como a cativação fiscal do subsídio dos funcionários públicos e dos pensionistas e reformados no OE.

Quem lê a declaração escrita que Passos Coelho proferiu e não conhece bem o contexto político do país, nem o sistema político, é levado a pensar que o TC extrapolou as suas funções de fiscalização da constitucionalidade das leis e que, por causa de uma inusitada decisão dos juízes-conselheiros, o país entra em crise orçamental. (...)

O discurso político, hoje, é, de facto,(...) um discurso que simboliza o real, que é feito sobre o real, uma ficção, cujos objectivos não são aqueles que são ditos, mas sim apenas a manutenção do poder no grupo que o conquistou e detém, bem como conseguir a obtenção de maior lucro financeiro para quem possui de facto esse poder e que está por detrás de quem governa. Um lucro que é obtido com o empobrecimento das populações do Sul da Europa.

Estamos assim perante um discurso falso que vive de uma metalinguagem, onde as palavras ditas em cascata, encadeadas uma nas outras pela habilidade e treino discursivo de quem as pronuncia, apresentam uma história que agrada a quem a ouve, porque mostra um mundo de fadas e de soluções de varinha de condão, um futuro radioso de sol na terra, que transformará a Europa numa terra de leite e mel. Mas que, quando analisado o seu conteúdo, quando espremido o palavreado, percebe-se que é oco, que não tem sumo, que é um encadeado de palavras fantasioso, mentiroso, que esconde a realidade e os verdadeiros objectivos de quem fala.

Ora, Sócrates usou a fórmula narrativa porque ele sabe do que fala enquanto artista exímio no uso dessa metalinguagem enquanto primeiro-ministro, tal como Durão Barroso faz antes dele e Passos Coelho e Paulo Portas fazem agora. Uma metalinguagem que é usada também por António José Seguro, que critica o Governo e se apresenta como alternativa, mas recorrendo ao mesmo jogo de sombras da metalinguagem política.

Assim perpetuamos as histórias da carochinha. Porque falar verdade hoje em Portugal era dizer que o objectivo político que está a ser imposto à população portuguesa é o da diminuição do seu poder de compra, baixando o valor do seu trabalho através da redução salarial, do aumento de impostos directos e indirectos e do aumento desemprego. (...)

Pôr fim à metalinguagem poria em causa os interesses dos que realmente detêm o poder. Resta esperar para perceber até quando as populações europeias vão aguentar a situação a que estão a ser submetidas.» 
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15.3.12

O extremismo dos moderados



Foi o primeiro texto que li esta manhã e ganhei o dia. Ao mesmo tempo que senti uma «raiva» imediata por não ser capaz de exprimir, como o Zé Neves, o que assino por baixo da primeira à última linha. 

«Devemos desconfiar das pessoas moderadas. São as menos atentas ao seu próprio extremismo», lê-se logo em epígrafe e eu concordo, para além do aparente soundbyte

Três apontamentos que não dispensam a leitura do texto na íntegra: 

1. As certezas, sem espaço para dúvidas, com que tantos apelam à razoabilidade, à conciliação do inconciliável, à cedência em nome de bens superiores, acabam quase sempre por resultar apenas em desistência pura e simples. No fundo, chega-se sempre à defesa do mal menor, esse conceito verdadeiramente assassino de perspectivas e de novos horizontes! («se aconteceu a alguém acordar com a certeza de que outro mundo era possível, deitar-se-á provavelmente conformado com o menor dos males.»). 

2. A defesa desesperada da necessidade de unir as esquerdas para derrotar a direita apela à moderação dos imoderados e desagua por vezes, contraditoriamente, na ideia de criar um novo partido que, esse sim, conseguiria o milagre desejado. 

3.Por fim a eterna discussão sobre violência ou não violência e aqui limito-me a copy/ paste do que escreveu ZN: «Veja-se o que acontece no debate em torno da questão da violência, que frequentemente serve para que se classifique uma parte da esquerda como moderada e uma outra como não-moderada. Do que neste debate se trata não é tanto de uma oposição entre moderados não-violentos e imoderados violentos. Se perguntarem a um moderado não-violento – um daqueles que rapidamente se apresta a condenar as pedras atiradas por manifestantes atenienses contra a polícia grega porque encontra aí o gesto que inicia o caminho da sociedade rumo ao totalitarismo – se é contra a existência de forças policiais, ele muito provavelmente dirá que não. Ou seja, o nosso moderado não-violento não é contra a violência, mas sim a favor do monopólio estatal da violência, no qual surpreendentemente não vislumbra indício de qualquer perigo totalitário.» 

Matéria para muita e variada reflexão e debate – se debate sobre estas questões fosse realmente desejado, o que não me parece ser o caso. 
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22.8.10

Movimentos sociais e burocratização


O colectivo do Passa Palavra publicou hoje um longo e importante documento que assim resume: «Os movimentos sociais devem ser defendidos, e a melhor forma é impedir o avanço da burocratização. O grande desafio é a generalização das relações solidárias e colectivas estabelecidas directamente na base dos movimentos sociais.»

Que sindicatos e partidos, «com a sua estrutura hierárquica e autoritária», são «propícios à formação de burocracias e opostos à emancipação», parece não oferecer grandes dúvidas. E que, por isso mesmo, há muito quem considere que «o balanço histórico, ainda que sem um veredicto final, tem contabilizado mais fracassos do que sucessos na tentativa dessas organizações se tornarem instrumentos insubstituíveis da luta anticapitalista», também é indiscutível.

Destas possíveis «derrotas», nasceram os movimentos sociais, de larga tradição na América Latina, nomeadamente no Brasil. É deles que este texto trata – das suas características, limitações e vicissitudes. Merece uma leitura mais do que atenta e um amplo debate na respectiva Caixa de Comentários. (É esse o desejo dos autores, que o exprimiram em mails particulares a alguns amigos.)

Conseguirão esses movimentos sociais evitar a burocratização, pela aplicação dos princípios enunciados no fim do estudo em questão? Seria certamente encontrar a resposta a one million dollar question
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28.2.10

«Nuestros hermanos» nunca brincaram em serviço




José Maria Aznar deixou a presidência do governo espanhol há seis anos e «reformou-se da política» aos 51. Ou talvez não.

Já conseguiu entretanto atingir dois objectivos que tinha definido: manter-se jovem e falar inglês. O primeiro revela-se num físico apurado, com uns quilos a menos e abdominais mais firmes, o segundo num sotaque razoável e numa fluência normal. Tudo bem por aí, portanto.

Tudo igualmente bem quanto à vida numa bela casa nova em Marbella, onde flutua, vá lá saber-se porquê, uma enorme bandeira espanhola.

Tudo ainda melhor para a sua conta bancária, já que cobra cerca de 27.000 por cada uma das muitas conferências que faz e dá aulas em Georgetownn, entre muitas outras tarefas – 224 dias fora de Espanha, em 2009, o equivalente a nove voltas ao mundo.

Através de tudo isto, consolida as suas posições neocon, alinhadas com os seus pares americanos e já bem «à frente» dos conservadores europeus.

Há quem ainda se interrogue sobre fronteiras entre uma actividade política privada e simples tráfico de influências privado? Who cares!

Novidade? Nenhuma mas, desta vez, passa-se mesmo aqui ao lado. Por isso, quando leio tudo isto e muito mais, no El País de hoje, fico a pensar que os nossos ex-, PR’s ou PM’s, são verdadeiros meninos de coro! Um vive a esfalfar-se bem ou mal em Bruxelas, outros dois andam pelo mundo a tratarem de tuberculosos ou de refugiados (meu deus…), há quem se tenha retirado para Chelas e quem não descanse enquanto não se vinga de um milhão de votos que lhe roubaram. E chego mesmo a ter simpatia pelo que continua a defender túneis e congressos.

Pode ser que isto acabe com a próxima leva de ex-, que se aproxima talvez mais depressa do que previsto. Aprendam, se faz favor, olhem para nuestros hetmanos e elevem um pouco o nível da nossa presença no mundo!

17.10.09

A ilusão de que se deixa uma marca na História
















«Afinal, o que fará correr tanto tantos políticos? Lá andam eles e elas a palmilhar o país de cima abaixo, de lés a lés. Dormirão bem e o suficiente? Têm de ouvir o que ninguém gosta. Beijam quem lhes não agrada, enrugadas e mal cheirosas. Apertam mãos sujas. Nas famosas arruadas - que palavra que tão mal soa! -, esbanjam sorrisos, têm de sorrir, sorrir sempre, mesmo sem vontade. Têm de fazer promessas que sabem não poder cumprir. Em vez de esclarecerem os cidadãos, tentam tantas vezes enfeitiçá-los com discursos de sofistas. Claro que a política também é jogo, mas há tanta intriga e inveja e cilada que o espectáculo é, por vezes, pícaro e deplorável...

O poder traz prestígio, mesmo que suposto. E benesses de todo o género. E sedução e luxos e exposição e fama. E precedências e continências nas paradas e guardas de honra. E dinheiro e convívio com os grandes deste mundo. E a ilusão de que se deixa uma marca na História. E a imposição da própria vontade. E a aparência da imortalidade pelos feitos. O poder - quem o repetiu foi um político nosso, famoso - é o maior afrodisíaco.»

Quem o diz é o padre Anselmo Borges, no DN de hoje.

7.3.09

Que venham mais Nunos















A propósito da canonização de Nuno Álvares Pereira, mais uma nota da conferência episcopal, agora para destacar o «homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira», para sublinhar que «são pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises».

Entretanto, anuncia-se que «sendo representante e descendente de D. Nuno, e tendo sido um dos maiores defensores da sua canonização, D. Duarte foi convidado pelo Governo e pelo Vaticano e terá um lugar de destaque na cerimónia».

Pelo caminho, a Assembleia da República aprovou, por maioria, um voto onde é referido que esta promoção a santo «justifica a congratulação não só da Igreja e dos católicos mas de todos os portugueses».

Que venham portanto mais santos, de preferência que tenham matado muitos espanhóis. Darão novos alentos a Duarte Pio, ajudarão certamente a superar futuras crises tóxicas e permitirão que os deputados se congratulem em nosso nome.

Assim, vamos longe. Continuemos, pois – louvando e rindo.

23.2.09

O sindicalismo que não temos











Li há alguns dias um texto sobre o papel que os sindicatos têm e, sobretudo, aquele que deveriam ter e ignoram, que corresponde exactamente ao que desde há muito venho a pensar sobre o assunto (*).

Em resumo e no essencial: «... apesar de passarem mais de 4 meses sobre o começo da crise, os sindicalistas continuam a escudar-se na salvaguarda de postos de trabalho (...), sem contribuírem com soluções, continuam a utilizar a bandeira do combate pós-despedimento, em vez de apresentarem propostas para manter o emprego».

Também, e ao contrário do que se passa em muitos outros países, os nossos sindicatos não se ocupam dos desempregados e, volto a citar, não «mantém um serviço de aconselhamento», não «cuidam de qualificação e requalificação profissional e da recolocação no mercado de trabalho».

Mas não só. «O mundo mudou, as indústrias mudaram, e os Sindicatos têm que mudar. Foi assim em boa parte do mundo, mas em Portugal, no sindicalismo, como nas associações patronais, ficámos agarrados ao passado.». «O problema é encarar de frente os novos sistemas de trabalho, a flexibilidade, as novas polivalências, as novas profissões, os novos horários de trabalho respeitando as cargas de trabalho, no principio de que deve ser o trabalho a adaptar-se ao homem e não o contrário».

Entre nós, estas organizações transformaram-se «na maioria dos casos, em apêndices dos partidos políticos, calendarizando as suas lutas e ou submissões, conforme os interesses destes». Causa ou consequência, o centro da questão passa certamente também por aqui.

Tudo isto me parece de tal modo evidente que só posso aconselhar a leitura do texto na íntegra. O problema é demasiado sério para que lhe passemos ao lado – o nosso interesse não é mais do que um puro dever da mais elementar cidadania.

(*) O autor do texto é António Chora, da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa e dirigente do Bloco de Esquerda.

15.2.09

Cada país tem os Kim-jong-il que consegue










Sócrates foi reeleito ontem secretário-geral do PS com 96,43% dos votos. Há poucos dias, Portas obteve 96,1% no CDS, recentemente o PC escolheu Jerónimo quase por unanimidade (apenas 4 abstenções).

No caso do BE, a moção subscrita por Louçã para a Mesa da Convenção obteve 78,7%. Melhor, melhor... bem me parecia.

11.12.08

Movimento Esperança Portugal

O Movimento Esperança Portugal (MEP) já tem algum tempo de vida, mas o seu nome voltou agora à baila com a nomeação de Laurinda Alves como cabeça de lista para as eleições europeias. Gostos não se discutem, cá por mim começaram mal porque detesto a figura pública, o seu inenarrável blogue e muitas outras coisas. Consolo-me assinando por baixo o texto de um mail ontem recebido: «Sim, por favor dêem algo que fazer à rapariga - o mais longe possível do país». E dá também para a blogosfera se divertir: vão ver o que é o C.A.L.A. que vale a pena.

Adiante porque quero falar a sério. Li as 78 páginas do programa do MEP. Como acontece com todo e qualquer partido, está lá tudo, sobre todos os assuntos, com conteúdos não significativamente diferentes de todos os outros que se dizem «ao centro».

O que impressiona neste caso, da primeira à última página, é a linguagem e o que ela revela. Será provavelmente uma originalidade desejada, mas arrepia porque parece mais um Tratado sobre Virtudes destinado a escuteiros do que qualquer outra coisa - «... um projecto de matriz humanista, na sua expressão personalista», que «tem na pessoa humana o princípio, o centro e o fim de tudo» (p. 9), que quer «cultivar uma sociedade de confiança» (p 11), que acredita «mais em pontes do que em rupturas», que prefere «vitórias partilhadas a vencedores e vencidos», que se diz «famílio-cêntrico» (p. 36), sem dizer se é explicitamente contra a despenalização do aborto (mas subentende-se que sim).

Não quero deixar de transcrever os títulos das «sete prioridades da acção política» (p. 27): «Mesa com lugar para todos»; «Uma sociedade de famílias»; «Cultura de pontes»; «Desenvolvimento humano sustentável»; «Democracia mais próxima do cidadão»; «Um mundo interdependente e solidário».

Tudo se agrava (digo eu) quando é definida «uma visão integrada da Economia e do Trabalho» nos seguintes termos: «É fundamental promover uma aliança entre trabalhadores (incluindo gestores aos vários níveis), empresários, accionistas e outros actores relevantes, para se atingirem vitórias comuns» (p. 46). Harmonia, paz e amor, portanto. Começo a sentir que me tomam por parva.

Para finalizar e resumir, o MEP propõe para Portugal, no século XXI: «SER MELHOR», «em tudo, sempre e independentemente da circunstâncias». Fialmente, o admirável mundo novo!

À primeira vista não dá para levar muito a sério, mas pode vir a ter a sua importância. Há sempre um PRD no horizonte, pronto a rivalizar com D. Sebastião.

Hino do MEP:

3.9.08

Dúvidas

ADENDA (*)

Alguém me pode explicar, como se eu fosse uma militante de base do CDS, para que serviu o pedido de demissão de um VP, que até o «núcleo duro» do partido desconhecia?

Alguma vantagem terá tido...
DN

(*) Pior a emenda que o soneto.

23.6.08

Avós
















Sim, eu também fui ao Porto quando os meus netos por lá nasceram e iria à Cochinchina se fosse caso disso.

Mas teria ficado em Lisboa se fosse candidata à presidência da Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica e a Estrada da Luz tivesse uns buracos sobre os quais era importante que eu dissesse qualquer coisa.

Vem isto também a propósito de um texto de Vasco Barreto. Leitura absolutamente obrigatória.

15.6.08

Rãs e camionistas

















Nuno Brederode Santos hoje, no DN:

«De Verões malditos está o meu Inverno cheio. Contudo, vivemos cada um deles com o pasmo de um apocalipse sem causas, uma praga de rãs, um ajuste de contas com deuses que não são nossos.

(...) Estamos a um ano de eleições. Há cultores da "rua" que, de há tempos, vêm reclamando - servindo-se de boas e de más razões - que ela traz consigo uma legitimidade própria, paralela à das instituições democráticas. A chamada "governabilidade" das maiorias absolutas esbarra frequentemente neste pequeno contratempo: tudo o que não se consegue fazer no Parlamento arreia os cabazes na praça e o jargão de feira suburbana demonstra-nos em directo o que vale a retórica das gravatas. (...)

É certo ser esse, hoje, o discurso da pior direita. Precisamente a que não tem moral para o dizer, porque, na sua desordenada gula eleiçoeira, tanto cavalga a desordem como a reposição da ordem. Mas isso é o que sucede a quem puder jogar no preto e no vermelho: ganha sempre. Mas ganha sempre numa cor aquilo que perde na outra. Não vai longe: só dá para contar aos netos que ganhou, sonegando o outro tanto que perdeu.»

13.6.08

Quando Junho ainda nem vai a meio














Hoje, este texto do Luís dispensa todos os esforços para se escrever qualquer coisa de jeito.

«Durante três dias, as estradas, em alguns pontos nevrálgicos do país, foram controlada por façanhudos que impediram a circulação de mercadorias. A polícia do Estado assistiu com benevolência. Habituada a dar porrada em trabalhadores fabris e estudantes faltava-lhe o cacete adequado e não actuou, nem seguramente recebeu ordens para tal. Agressões, atropelamentos mortais, destruição de bens, incêndios, foram consentidos com placidez. Enquanto os jagunços ocupavam a rua, o governo negociava com os representantes engravatados do sector. E repunha-lhes os lucros à custa dos restantes cidadãos, mais preocupados em encher os depósitos de carros e discutir o contrato de Scolari com o Chelsea.

Em plena crise a Galp aumentou o preço dos combustíveis. Mas não se ouviu nenhum grito de revolta, nem foi conhecida nenhuma acção responsável dirigida contra os distribuidores ou os produtores de petróleo.

A paralisação foi decidida, executada e dirigida por pequenos e médios patrões, com organização rudimentar. Os aparelhos sindicais clássicos que tinham mobilizado 200.000 pessoas na semana anterior assistiram, como o resto do país, ao espectáculo. Dos aparelhos sindicais neo-clássicos ninguém espera verdadeiramente nada.

Os partidos parlamentares estiveram a comemorar o dia não-se-sabe bem de quê. Os partidos de esquerda parlamentar fizeram declarações pavlovianas sobre a gaffe pavloviana do Presidente. A líder da oposição, economista de obra conhecida, esteve calada.

Os teóricos da alterglobalização fizeram ponte.

O Dr. Vital Moreira escreveu um artigo em louvor da economia de mercado regulada pelo Eng.º Sócrates e o dr. Loureiro fez um negócio milionário com peixe congeladono fim do prazo de validade.

Quando se esperava que os partidos explicassem aos eleitores a crise que encena os próximos episódios da civilização baseada no mercado, no individualismo e nos combustíveis fósseis, e apresentassem medidas para a dominar, houve futebol, história fedorenta, medalhas de metal sem valor em peitos sempre feitos e outros mais ingénuos.

Os jovens não acreditam na crise. Os jovens têm uma religião que tem como pilares os supermercados cheios de comida, o depósito de gasolina e os concertos de cerveja. A crise de Junho foi vivida como uma interrupção da festa, uma ressaca antes dos festivais de Verão.

Os mais velhos são jovens retardados. Como se vê nas reportagens do Europeu, os mais velhos olham para o lado antes de gritar, para ver como gritam os mais novos.

Os mais velhos dos mais velhos querem é que os deixem.

Os mais novos dos mais novos vão ser entregues aos pais biológicos.

Eu sei de um sítio com uma horta, água limpa, um falcão peneireiro nos céus. Não tenho é gasolina para lá chegar».