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30.1.20

Nigel Farage, André Ventura e os "homens reais"



«Imagine uma fábrica de burocratas com uma linha de montagem que tem todas as peças necessárias. Pega-se no tronco, encaixam-se as pernas, depois os braços e, por fim, a cabeça. A cor do cabelo pode variar. Temos duas opções à escolha: moreno ou louro. Pente três a toda a volta, grande em cima, para dar aquele aspeto ondulado que está na moda. Temos gordinhos, mas o modelo com mais saída é o magro. Daqueles que correm todos os dias às seis da manhã, faça chuva ou faça sol, antes do banho e antes de vestirem o fato azul escuro. Ao final da tarde, vão todos beber um copo ao pub mais perto do trabalho, antes de irem para casa.

QI? Muito elevado. Fazem contas como ninguém, são autênticas enciclopédias ambulantes e, quando falam, quase nunca fogem do guião. Normalmente não têm solução para nada, mas são óptimos a problematizar, fazem relatórios ao pequeno almoço, escrevem estudos ao almoço e são incríveis a organizar conferências e a fazer apresentações. Quase sempre para plateias que já estão evangelizadas, mas isso agora não interessa nada. Só não são perfeitos porque, se fossem, não eram humanos.

A caricatura - exagerada como são quase todas - dos burocratas que tomam conta das principais instituições políticas contrasta com uma outra caricatura - mais falsa que exagerada - dos chamados "homens reais". Não são políticos como os outros. Não. Nada disso. Eles são homens do povo, falam a sua linguagem e dizem "as verdades". Essa é que essa. Há quem lhes chame populistas, mas são só calúnias. Eles não são populistas, são homens com H grande, daqueles que adormecem e acordam a pensar em pessoas. Pessoas - não é cá ciganos, nem pretos e muito menos gays. São "homens reais", muito corajosos, que vão lá para a televisão e para o parlamento e dizem a verdade toda àquela cambada de burocratas.

Esta semana, enquanto andava pelos corredores do Parlamento Europeu, cruzei-me com estas duas caricaturas políticas: os burocratas - eles são mesmo todos iguais - e os "homens reais" (alguns bastante surreais, por sinal). Naquele dia, Nigel Farage, o político britânico que mais lutou pela saída do Reino Unido da União Europeia, fazia a sua última conferência de imprensa e a sua última intervenção no plenário como eurodeputado. Egocêntrico, como qualquer populista que se preze, cheio de frases feitas e soundbytes que não significam nada, com muitas mentiras à mistura, Farage não fez nada que não tivéssemos já visto, nos últimos anos, vezes sem conta. Só que, desta vez, com uma enorme diferença: ele falava na condição de vencedor. O "homem real" venceu o burocrata.

Ao mesmo tempo que Nigel Farage anunciava a festa do Brexit - continuando a não explicar aos britânicos o que os espera -, de Lisboa chegavam notícias, várias, sobre esta forma que os "homens reais" têm de fazer política. André Ventura, que já tinha o ego a dar horas, decidiu comentar uma ideia ridícula de Joacine Katar Moreira - continua em alta, a deputada - com todo o seu racismo. Se alguém ainda tinha dúvidas, Ventura arrumou com o assunto de vez: é racista e com muito orgulho. Francisco Rodrigues dos Santos, o novo líder do CDS, também já começou a dar um ar da sua graça e decidiu fazer uma piada de mau gosto com a deputada do Livre.

Tudo alta política. E, sobretudo, política daquela que interessa às pessoas. Ainda ninguém ouviu de André Ventura ou de Francisco Rodrigues dos Santos uma única ideia sobre o Serviço Nacional de Saúde, a crise demográfica ou as alterações climáticas. Mas ao nível do insulto, das piadas e do discurso populista, a competição à direita promete ficar renhida.

E eis o que me preocupa. Que os burocratas não percebam que estes "homens reais" estão a chegar às pessoas de uma forma muito mais eficaz. Que mentir, inventar, insultar dá muito menos trabalho do que explicar uma lei, uma decisão ou uma política que teve de ser estudada e pensada. O que me preocupa é ter de reconhecer o profissionalismo político destes "homens reais", que sabem exatamente para quem estão a falar e como as pessoas precisam de se identificar com alguém, de terem uma referência, de encontrarem um salvador - enquanto os burocratas continuam a comunicar entre eles, a admirarem-se entre eles e só olham para o eleitorado em período de eleições.

O que me preocupa é que os chamados "homens reais" estão a vencer. No Reino Unido, em Itália, no Brasil, em Espanha e em Portugal. Enquanto os burocratas continuam, business as usual, como se nada estivesse a acontecer. O que me preocupa é que os democratas, sejam eles mais ou menos burocratas, em Bruxelas, em Portugal e um pouco por todo o mundo, não compreendam que combater os populismos com as mesmas armas não significa responder aos populistas, mas às pessoas.»

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12.12.19

Os extremos tocam-se? (II)



«A tese de que os “populismos” engordam graças ao apoio daqueles que Hilary Clinton chamava os “deploráveis”, que, de tão culturalmente incapazes, perderam a batalha da globalização e, na sua raiva, votavam antes numa esquerda demagógica e populista e agora votam na direita populista, é de um simplismo preguiçoso e demagógico. Este gasto discurso de que “os extremos se tocam” (António Barreto repete-o todas as semanas nas páginas deste jornal), de que comunistas e fascistas são iguais e que, por o serem, dividem entre si o apoio dos politicamente “incompetentes”, é parte do (ainda mais velho) discurso liberal elitista de que a cidadania é, não um exercício efetivador de direitos, mas um processo de inculcação, no final do qual a maioria da sociedade (as classes populares, isto é, os que trabalham mas que não devem sequer decidir sobre o trabalho que fazem) adotam os valores e a mundivisão das elites, reconhecendo-lhes o direito ao governo da sociedade; isto é, os pobres aprendem a acreditar no que os ricos deles pensam, reconhecendo a inferioridade inerente à sua “incompetência”.

Antes de mais, o erro de crer que o mapa do voto da extrema-direita reproduz o do voto comunista e/ou da esquerda radical decorre de uma perceção irrealista de que os operários vota(va)m quase todos à esquerda, como se todos fizessem efetivamente uma opção política de classe, como se não houvesse voto de direita no mundo operário e, sobretudo, no eleitorado popular do mundo rural. Os estudos de sociologia eleitoral da extrema-direita que não se limitam a procurar nos dados da realidade confirmação para o preconceito elitista de que os trabalhadores pouco escolarizados passaram de um extremo ao outro, têm mostrado como a extrema-direita se enraiza sempre nos setores da pequena burguesia ameaçados de perda de estatuto socioeconómico (pequenos proprietários, assalariados pessimistas), atraindo numa segunda fase o voto punitivo de segmentos do mundo suburbano desindustrializado, sobretudo entre os precários sem enquadramento sindical e que recusam a identidade política construída à esquerda pelas gerações operárias mais velhas. Em França, o mais estudado dos casos de país com extrema-direita e PC fortes, é evidente a não coincidência dos territórios de implantação de um e outro setores, com a antiga Frente Nacional a disputar o voto tradicional da direita em regiões ricas (Leste, Côte d’Azur) e deprimidas (resto da Provença, mundo rural) e a fracassar onde o PCF era mais forte (região parisiense, Maciço Central e Limousin, salvo no Norte desindustrializado).

A precariedade, o medo permanente do desemprego, da deslocalização, da desqualificação, instalou-se no mundo do trabalho ao mesmo tempo que se procurou impor a ideia da irreversibilidade das grandes escolhas económicas que aceleraram o crescimento da desigualdade e da pobreza. O resultado lógico foi a abstenção de velhos e jovens trabalhadores (sobretudo destes), agravada pelas crises das esquerdas – a de grande parte dos partidos comunistas, que já começara antes da implosão dos regimes do socialismo real mas que se agravou com esta; e a da social-democracia, velozmente a caminho do mesmo neoliberalismo que a expulsou do poder nos anos 80 e que levaria à sua bancarrota política nos anos 2010. A crise dos sistemas de representação tem obrigado a que voltemos a estudar a desigualdade social como fator decisivo no comportamento político. O caso britânico é dos mais reveladores: depois de o foco ter sido colocado durante muitos anos na quebra da participação eleitoral, os estudos dos últimos anos verificaram que “as desigualdades de classe relativamente à participação eleitoral cresceram significativamente”, a tal ponto que se tornaram mais visíveis no campo da participação que no da opção política (Heath, 2016). Neste sentido, “a mudança principal [no comportamento eleitoral das classes trabalhadoras] não é tanto a reemergência do voto de classe mas do não-voto de classe” (Evans&Tilley, 2017), isto é, da abstenção de classe. Para só falar de duas cidades, compare-se os 32% de abstenção nas últimas eleições na freguesia lisboeta com mais alto rendimento médio (Belém) com os 50% em Camarate, Unhos e Apelação (Loures); ou os 31% em Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e os 44% em Campanhã (Porto).

Afinal, o problema não é de extremos: é de desigualdade. É de fazer com que quem se sente injustiçado desista de procurar justiça.»

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6.7.19

Maneiras de reconhecer um populista português moderno



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«1. Os populistas modernos são, na sua maioria, de direita. Ou melhor, a sua acção comunica mais facilmente com partidos, organizações, homens de direita. Na Europa, nos dias de hoje, os movimentos e governantes populistas, seja no Brexit, seja na Alemanha, Polónia, Hungria, Itália e França, estão todos à direita do espectro político. Podem ficar muito incomodados com esta afirmação, mas é assim. Não foi sempre assim, nem será sempre assim, mas hoje é assim.

2. O paralelo entre o populismo de direita e um inventado “populismo de esquerda” é uma das características do populismo moderno, que precisa de companhia para mostrar que vai mais longe do que a direita. É vulgar ver em artigos de opinião essa comparação, mas é descuidada e falsa. As posições do PCP, do BE podem ser demagógicas, insustentáveis, irrealistas, mas não são populistas. Querer acabar com a propriedade privada, querer aumentos de salários, querer mais regalias para os sindicatos, atacar patrões e grandes empresas, defender causas “fracturantes”, são posições político-ideológicas muito distintas do populismo. No entanto, se tomadas em abstracto, estas podem emigrar para o discurso de direita. Alguns dos grandes populistas americanos como o Padre Coughlin e Huey Long na Luisiana fizeram alguns dos mais radicais discursos anticapitalistas.

3. A demagogia é uma componente importante do discurso populista, mas demagogia e populismo não são a mesma coisa. A demagogia está presente em todo o espectro político da direita à esquerda e, por si só, não caracteriza o discurso populista. Este caracteriza-se principalmente pela dicotomia “nós” (o povo) e “eles” (os políticos, os poderosos).

4. Em Portugal, o populismo entrou pela primeira vez numa campanha eleitoral nas últimas eleições europeias. Os cartazes do Chega/Basta, que se encontram ainda colocados, são os primeiros a chegar ao espaço público com palavras de ordem claramente populistas. Foi só começo.

5. O terreno português do populismo é dominantemente o das redes sociais e do tipo de interacção que elas propiciam. Mas já passou daí para certos programas televisivos e para certo tipo de articulistas justicialistas, que vivem da “denúncia” e da indignação moral, e, basta fazer uma lista dos casos, para ver como são selectivos e dúplices na indignação. Em todos os casos têm audiências. O populismo ainda não passou nem para o voto, nem para a rua, embora seja uma questão de tempo.

6. O tema central do populismo é a corrupção, a real, a imaginária e a inventada. A corrupção é o estado natural da política e dos políticos, de “eles”. Ao não se distinguir entre a corrupção real e a inventada, o discurso torna-se genérico e sistémico. Ao atacarem o “regime” e o “sistema” perceba-se que consideram a democracia o terreno ideal para a corrupção. Não é. É a ditadura, mas não vale a pena lembrar-lhes isso.

7. No populismo português o tema da corrupção é ainda mais dominante. Os partidos e movimentos na direita que quiseram utilizar outros temas do populismo contemporâneo, como seja a emigração, a islamofobia, ou temas conexos, falharam.

8. O populismo concentra os seus ataques nos procedimentos da democracia, vistos como uma forma de empecilhos para combater o “crime” e a “corrupção”. Isso inclui os direitos de defesa, as garantias processuais e, em particular, o ónus da prova, a obrigação de ser de quem acusa, que tem que provar.

9. Os seus heróis são magistrados e juízes. Não todos, mas alguns. E alguns comentadores, alguns blogues, alguns jornais, alguns programas de televisão.

10. O populista é um activista do ad hominem. Quando fala e quando escreve enuncia nas suas falas e nos seus títulos nomes de pessoas. Depois passa dos nomes, para a família, para os amigos, para os companheiros de partido e por fim para “eles”. Os critérios da culpa são por contiguidade, familiar em primeiro lugar, relacional, e partidária. A culpa é nomeada pessoalmente e depois torna-se colectiva. É de X, nome no título para vender, e porque é de X, é de “eles”.

11. Os populistas votam mais facilmente em determinado tipo de corruptos conhecidos ou até condenados, cuja política lhes parece próxima, do que “neles”. Várias eleições em Portugal mostram que a aparente indignação contra a corrupção, é muito pouco genuína, e tem componentes políticas que implicam a duplicidade.

12. Os populistas estão sempre zangados, vivem num estado de excitação patológica, porque eles são sérios e o resto do mundo é desonesto, ladrão e corrupto. Quanto mais afastados do poder, - por exemplo quando a conjuntura política favorece os “corruptos” no seu entender, - maior é a zanga. Existe uma forte sensação de impotência na zanga.

13. Quando os populistas, os políticos que eles gostam, os partidos que eles gostam, estão mais próximos do poder, a zanga transforma-se em arrogância e autoritarismo.

14. Os alvos dos populistas são aquilo que eles designam como elite. Os políticos, os funcionários públicos, os professores, os médicos, os enfermeiros, os motoristas, os sindicalistas, os que fazem greve. É uma lista absurda, mas é a dos “privilegiados”. Embora na elite se incluam os banqueiros caídos em desgraça, quase nunca são referidos os principais grupos económicos, as famílias ricas e poderosas, os escritórios de advogados, os consultores financeiros, os dirigentes desportivos e os jogadores de futebol. No quadro de valores de um populista, fugir ao fisco por parte de um político, merece prisão perpétua, mas é uma mera infracção num jogador de futebol.

15. Os populistas vivem do apodrecimento do sistema político democrático, da oligarquização dos partidos políticos, da indiferença ou do compadrio dos estabelecidos com a corrupção, da corrupção realmente existente, mas as suas soluções são piores do que os problemas. E são, na sua maioria, anti-democráticas e autoritárias. Há um micro-Bolsonaro dentro deles, mesmo quando juram não quererem nada com ele.»
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13.4.19

“Nós” (o povo) e “eles” (os políticos)



«As discussões sobre a existência de populismo em Portugal resultam quase sempre na resposta de que este não existe. Os partidos populistas, como o Chega, nunca foram às urnas e não há movimentos populistas capazes de chegar à “rua” com mais do que dezenas de pessoas, como foi o caso recente da tentativa de fazer uns “coletes amarelos” portugueses, mesmo contando com um núcleo duro que incluía os lesados do BES e o PNR. Mas a resposta é errada: o populismo em Portugal está a crescer e, mesmo que ainda não tenha “rua”, domina as “redes sociais”, que são, para muita gente, a única informação que consomem e o único sítio onde “debatem”. Domina também cada vez mais a discussão pública, impregna o discurso político do Presidente da República e dos partidos parlamentares, e está cada vez mais estabelecido na comunicação social, a começar pelas televisões e a acabar na imprensa, mesmo na intitulada de referência.

O populismo define os temas, marca o tempo dos temas muito para além da habitual febre de “novidade” comunicacional, condiciona o seu tratamento e apresenta as suas soluções de que cada vez mais políticos e jornalistas têm dificuldade em se afastar, até porque muitas vezes concordam com elas. A tendência adversarial do jornalismo junta-se a muita cobardia política, de gente acossada e que sabe que não tem moral para falar alto contra a maré populista. O resultado é um debate público inquinado, dominado pelo pathos, quase sem logos, até porque há pouco ethos circulante.

A génese do populismo dos dias de hoje, em democracia, está nesta dicotomia: o povo é intrinsecamente bom, altruísta, honesto, trabalhador, desprovido de más intenções, verdadeiro, deseja o bem para todos, e os “políticos” são o exacto oposto, maus, egoístas, desonestos, preguiçosos, mal-intencionados, mentirosos e desprovidos do sentido de solidariedade, só de interesse próprio. Esta dicotomia não é verdadeira, e acima de tudo é antidemocrática.

Vem, no caso português, de uma longa tradição de demonização da política, dos partidos e da democracia, que encontrou na nossa história sempre mais duros críticos da democracia do que da ditadura, numa tradição intelectual que vem da Grécia antiga. São discípulos de Platão e dos críticos gregos da democracia ateniense, e que, como muitos intelectuais no século XIX e XX, salvo raras excepções, a maioria das quais americanas e europeias de Leste, namoraram sempre mais ideias e regimes como fascismo e o comunismo, do que a “porca” da democracia, demasiado vulgar para lhes dar o papel de “conselheiros” que eles sempre pretenderam. Em Portugal, isso sempre fragilizou a tradição liberal e democrática, na monarquia e na República, e páginas de Ramalho e caricaturas de Bordalo foram usadas pela propaganda do Estado Novo. À ideia da “porca da política”, a que se contrapunha a obsessão do “consenso” e da “unidade orgânica de todos os portugueses”, para além dos partidos e do voto, foi dada consistência propagandística pela Censura durante 48 anos, e ela está mais metida dentro das nossas cabeças do que se imagina.

O que há de novo sobre esta péssima tradição é que a conversação democrática é duramente atingida pela crise das mediações, em particular do debate a partir de factos e não de boatos, maledicências e falsidades, muitos deles colocados deliberadamente por profissionais da desinformação, beneficiando da crise da comunicação social e do ascenso de uma nova ignorância agressiva que serve o populismo como o pão para a fome de comer. Não estamos perante um renascer do fascismo, como alguns dizem, mas de um fenómeno novo que acompanha outras transformações sociais num conjunto complexo, impulsionado por interesses, por manipuladores da democracia, como alguns serviços secretos, pela ganância de algumas empresas tecnológicas e pela apatia e mesmo medo colectivo em lhe fazer frente.

Substituir a democracia pela demagogia é mais fácil do que travar este processo. Políticos em democracia, fragilizados pela corrupção, pela ignorância, pela partidocracia e pela cobardia de ceder às ondas na moda são os últimos a servir de barreira. E o resultado é que as pressões populistas dão origem a soluções erradas, ou porque punitivas, ou porque ilegais, ou porque ineficazes, ou porque perversas, gerando novos problemas, piores dos que os que se desejam combater.

Já estou a ouvir o sussurro e os berros – e então “os políticos” não têm culpa (uma palavra fundamental do discurso populista) de nada? Têm, têm todas as culpas que os populistas lhes apontam, só que não são “todos”, nem são “os políticos”, como se fossem uma classe à parte. E só no contexto da democracia, dos partidos, das escolhas, do voto, isto se pode melhorar.

Só que estas afirmações não servem apenas para adornar e “moderar” o discurso – devem ser tomadas a sério e na sua substância, ou seja, devem ser um elemento fundamental e estrutural da narrativa sobre a política em democracia. Basta esta diferença gigantesca – não são “todos”, não são todos iguais e só a democracia permite corrigir – para se falar em “democratês” e não em “demagogês”.»

José Pacheco Pereira
(Sem link, recebido por mail.)
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3.4.19

O perigo do populismo que vem da direita



«Parece haver uma espécie de consenso nacional de que o populismo, por cá, não vingou. Tirando alguns pequenos epifenómenos, como o de Marinho e Pinto há cinco anos - que implodiu rapidamente -, nenhum dos chamados partidos populistas teve, até hoje, expressão eleitoral, ao contrário do que aconteceu noutros países europeus, e isso descansa-nos. Mas é um erro pensar assim.

Se o populismo não vingou, até agora, em Portugal, isso deve-se sobretudo a dois grandes fatores: à inversão do ciclo económico e à solução governativa da geringonça que, se tivesse corrido mal, corria mesmo muito mal. Mas tendo corrido bem - na medida em que aguentou uma legislatura -, acabou por dar alguma sustentação aos chamados partidos do regime, sobretudo ao PS. Entre a reposição de rendimentos, uma economia a crescer, o desemprego a cair, o diabo do populismo não teve grandes hipóteses de furar. O que não significa que ele não esteja aí... à espreita.

Há várias evidências de que esta ameaça se mantém viva. Bastaria estar atento às redes sociais - o ecossistema favorito deste tipo de movimentos populistas - para perceber a rapidez com que eles se multiplicam e a linguagem cada vez mais irascível que usam. É o ódio que lhes alimenta os likes e as partilhas. Mas é a cobardia que melhor os define.

Há, no entanto, outros riscos, que são exatamente os mesmos que existiam há quatro anos, quando António Costa virou o tabuleiro político em Portugal e se fez primeiro-ministro, com a ajuda do PCP e do Bloco. Ao trazer, pela primeira vez, estes dois partidos para "dentro do sistema", Costa conseguiu evitar fenómenos populistas vindos, sobretudo, da extrema-esquerda - sim, que o populismo está longe de ser um exclusivo da direita. Não por acaso, o Bloco perdeu recentemente 25 militantes, em desacordo com a linha que o partido tem vindo a seguir. E as dificuldades internas que Jerónimo de Sousa tem enfrentado, por ter dado a mão ao Partido Socialista, também não serão por acaso.

A verdade é que a geringonça, mesmo tendo cumprido e ultrapassado as primeiras expectativas, parece não ter conseguido recuperar a confiança do eleitorado nos chamados partidos do sistema. Basta olhar para as sondagens e perceber que, apesar de todo o dinheiro que foi devolvido às famílias, dos empregos criados, dos números do défice, a maioria absoluta do PS parece cada vez mais difícil. Basta olhar para a base eleitoral do BE, do PCP, do PS, do PSD e do CDS, e constatar que ela é praticamente a mesma de há quatro anos. Basta olhar para a abstenção e confirmar que, se não perderem eleitorado, os partidos do regime terão muitas dificuldades em conquistar novos votos.

Uma das ameaças tem que ver, precisamente, com o xadrez político que sair das próximas eleições. Se levarmos a sério as declarações de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa, de que a geringonça, neste modelo, é irrepetível, um PS a governar em minoria - e a ter de negociar à esquerda e à direita - aumenta o potencial de risco de instabilidade política. E essa pode ser uma primeira brecha para o populismo.

O outro risco - que, associado ao anterior, pode tornar-se desastroso - tem que ver com uma eventual inversão do ciclo económico. Que ninguém sabe quando acontecerá, mas toda a gente sabe que virá. Uma nova crise económica, mesmo que vinda de fora, num país onde a dívida ainda é assustadoramente grande, onde tantas reformas ainda estão por fazer e onde o número de grandes empresas é cada vez menor, pode ter efeitos políticos devastadores.

Por fim, o terceiro grande risco vem do centro-direita. Podemos começar por lembrar que foi o PSD de Passos Coelho que criou André Ventura. E agora que a criatura quer comer o criador é também com ele que o partido vai ter de não só disputar o eleitorado abstencionista, mas tentar, ao mesmo tempo, não perder votos.

A implosão do PSD, enquanto partido agregador deste espectro político, tem múltiplas razões, quase todas elas já abundantemente analisadas. Do discurso do diabo que não veio à total ausência de discurso, foi um tiro. Daí às convulsões internas, divisões, deserções, sejam elas de dentro para fora ou feitas internamente, o PSD tem vindo, progressivamente, a perder a mão de um espaço político que era seu e não se tem revelado capaz de travar esta tendência, quanto mais de a evitar.

Talvez essa seja uma das grandes missões de Rui Rio. Será também essa, porventura, a ambição de Pedro Santana Lopes, com o Aliança. E é, seguramente, esse o objetivo enunciado pelos vários movimentos que têm nascido como cogumelos dentro do próprio PSD, mesmo que alguns deles não estejam a conta-nosr tudo.

A verdade, porém, é que, no centro-direita, continua a falhar o essencial: uma estratégia para o país, um discurso e um líder suficientemente carismático para recuperar a confiança do eleitorado.

A continuar assim, há uma porta que fica cada vez mais escancarada aos populistas. Abutres que se alimentam dos fracos, dos famintos, dos descontentes e dos revoltados. E se é verdade que o populismo pode vir de qualquer lado - ou de lugar nenhum, como se viu no Brasil -, não é menos verdade que, em Portugal, o risco, neste momento, é muito maior no centro-direita.»

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14.2.19

Populismo de izquierdas o caudillismo amable?



«La hipótesis populista comparte un objetivo con cualquier formación política: alcanzar el poder. Pero tiene un método peculiar. El método es trazar una línea entre un ellos y un nosotros. Allí los malos, y nosotros, el buen pueblo, aquí. No hay que matizar mucho. Lo importante es trazar la línea de separación. El populismo sólo funciona con enemigos. Cuanto más sencillos sean esos enemigos, mejor. Como el populismo no tiene detrás ideología, enemigo puede ser cualquiera: los banqueros, pero también los inmigrantes, los sindicatos, el Estado social, la izquierda, los ignorantes. Para el populismo es mejor que el enemigo sea la izquierda a que sean los banqueros. Porque les genera menos problemas y en ese viaje les van a ayudar los medios. Si odias a los poderosos te la pueden devolver, pero si odias a la izquierda, te terminas aliando con la derecha en ese objetivo.

La metodología en el populismo se basa en una idea: hay unas pocas personas elegidas que son las únicas que pueden cambiar las cosas.Quienes defienden el populismo piensan, claro, que ellos forman parte de esas personas elegidas. Por eso les sobran los partidos y cualquier grupo democrático que les pida cuentas. Ellos, los elegidos, deciden. Y que nadie les moleste. Los elegidos identifican a los elegidos, de manera que sus equipos siempre están formados por los que han recibido la luz. Y los elegidos, como parte de la cofradía de los que saben, no pueden ser sustituidos por nadie elegidos por partidos o por la gente. Porque el conocimiento, la experticia, la experiencia, dicen, no se vota. Aunque los elegidos, no nacieran sabiendo y, con mucha probabilidad, fueran elegidos en sus primer cargo público por los partidos. Al final, los que saben toman decisiones sobre Venezuela, sobre urbanismo, sobre la libertad de expresión sin consultar a nadie.

Como el corazón del populismo es tener mando, deben allanar cualquier obstáculo para llegar. No hay un plan de país, sino de acceso al poder. Sobran los programas, las ideas y, por supuesto, los militantes. Sólo necesitan soldados. Es mera táctica constantemente. Por eso el populismo fascina a todos los periodistas. A los inteligentes los primeros cinco minutos. Al resto les dura algo más el encandilamiento. Si se quiere entender a los populistas hay que entender que lo que buscan por encima de cualquier otra cosa es colocarse en algún puesto de poder. Con eso dan por amortizado todo, en primer lugar el compromiso ideológico. Esa antigualla. Por eso los populistas dan esos saltos mortales. Ayer podían estar con grupos anarquistas, trotskistas, con el 15M y hoy estar dispuestos a pactar con Ciudadanos, esos que gobiernan con VOX.

Los populistas dicen que necesitan significantes vacíos. Hablar de nada. Defender solo “marcos ganadores”. A los significantes vacíos, ellos, con su genio, luego los rellenan con lo que quieran. Pero no dicen la verdad. Tienen como blasón estar en posiciones de poder a cualquier precio y por eso, para ellos, siempre pesa más gestionar lo existente que cambiar lo existente. Y por eso siempre son amables con lo que hay. No molestar al poder. En nombre de esa gestión de lo existente, la “competencia virtuosa” lleva a mirar siempre, invariablemente, a la derecha. En Madrid y en España. Mirar al PSOE y luego a Ciudadanos. A esa unión de un PSOE derechizado y de un Ciudadanos que puede gobernar con VOX, el populismo “de izquierdas” les ofrece votos que antes estaban en el margen izquierdo del tablero. ¿Cuántos? Me temo que pocos para la coalición pero suficientes para golpear a la izquierda ¿Para qué? Pues para mandar.

¿Hasta dónde está dispuesto ese viaje populista a ceder con tal de acceder al poder? Pues, como diría una lectura correcta de Laclau, hasta cualquier parte. El populismo, como una manera de hacer política, solo debe ser un momento de impugnación, un momento de tumbar el viejo régimen aprovechando la ventana de oportunidad destituyente. Pero, si no deja paso a un momento constituyente, a un momento donde mande el programa, se convierte en una excusa para sustituir a las élites por otras que dicen que son mejores que los partidos pero que, al final, terminan haciendo todo lo malo de los partidos pero sin ninguno de los controles. Entregar toda la confianza a personas que no responden ante nadie no parece muy sensato. Y el populismo termina siendo otro camino por donde se cuela la derecha en la política democrática.»

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9.12.18

Os populismos do nosso tempo



«Não há dia que passe sem que ouçamos a palavra “populista”. Trump é “populista”. Os "coletes amarelos" em Paris são “populistas”. O "Brexit" só podia ter existido em resultado de uma campanha de desinformação “populista”. É verdade que existe hoje um mal-estar na democracia que não existia há poucos anos atrás. Mas se queremos perceber as causas do que se está a passar diante dos nossos olhos em Paris, Washington, Brasília ou Manila, temos que começar por fazer luz sobre a natureza do fenómeno a que chamamos populismo. Infelizmente, há mais confusão do que certezas neste momento.

Há dias, o jornal Guardian avançava com a seguinte definição: “Um partido é considerado populista se apresenta a vida política como uma luta entre uma massa de cidadãos virtuosos e uma elite mal-intencionada e venal. Os partidos populistas, obviamente, assumem-se como representantes do bem ('nós', 'o cidadão comum') contra o mal ('eles', 'as elites')."

Uma definição mais vaga era difícil. Este mínimo denominador comum populista é insuficiente, e aumenta a confusão. Não explica, por exemplo, se os “populistas” são os políticos que usam a oposição entre “nós” e “eles”, se os eleitores que neles votam, ou se ambos. Daqui à vilipendiação daqueles que insistem em votar de forma “errada” (os “deploráveis” de Hillary Clinton) é um pequeno passo. A falta de precisão e clareza pode levar a que se ignorem as causas do atual descontentamento com as nossas democracias. Na realidade, se continuarmos a ignorar a natureza do fenómeno político mais importante do nosso tempo, o mais provável é que acabemos por agravar os problemas que lhe deram origem. A única alternativa realista é tentar compreender porque é que as pessoas insistem em protestar e votar nos candidatos “errados” ou “perigosos”. Para isso, é necessário perceber a natureza do populismo.

O populismo não é uma cor partidária, como a ideologia. Dizer-se que “o partido A é populista” ou que “o partido B não é populista” é um erro, tal como é espúrio contar o número de vezes que o político C usa a palavra “povo”. O populismo é uma forma de fazer política. Significa isto que todos os partidos e políticos, de A a Z, podem comportar-se de forma populista, dependendo das circunstâncias. E quanto melhor percebermos como o populismo funciona, melhor perceberemos as suas causas e se devemos estar preocupados.

Um político age de forma populista se falar às emoções e aos interesses de um eleitorado que se sinta, por exemplo, indignado com a crescente desigualdade de distribuição de rendimentos. É injusto que assim seja, e basta que alguém o diga com todas as letras para levar as pessoas que se sentem injustiçadas a sair de casa para votar ou protestar. Mas a lógica populista não acaba aqui. Se acabasse, nada distinguiria populismo de movimentos como o Black Lives Matter e a sua justa indignação contra o racismo.

O populismo nasce daqui, mas só se desenvolve quando se decide apontar as responsabilidades por esta situação a um certo grupo. Quem este grupo é ao certo não interessa. O que importa é assacar a responsabilidade, quando não mesmo a culpa, quer seja à caravana de emigrantes ou à elite capitalista, pelos problemas reais que as pessoas enfrentam no seu dia-a-dia. Os “emigrantes” ou os “ricos” são alvos fáceis porque ambos podem ser vistos como rivais na procura de emprego, no acesso à saúde, ou no aumento do rendimento: é porque “eles” ficam com tudo e não sobra nada que “nós” estamos a passar mal. É neste ponto que o populismo ameaça a democracia. Se nos opormos a “eles” se torna mais importante do que sabermos o que “nós” queremos vir a ser, a cooperação e o compromisso tornam-se muito difíceis, se não mesmo impossíveis.

Paradoxalmente, é exatamente aqui que reside a virtude do populismo. Democratas e populistas falam a mesma linguagem. Ser-se democrata é falar e agir em nome do “povo”. É igualmente em nome do povo, um novo povo a construir a partir do cumprimento das promessas democráticas de igualdade e respeito próprio, que um político age de forma populista. Nem uns nem outros são saudosistas. Ambos falam ao futuro. Mas se os democratas aceita projetos coletivos a médio e longo prazo, à luz dos quais tornam aceitáveis sacrifícios “aqui e agora”, os populistas propõem-se cumprir as promessas democráticas num futuro imediato, com fórmulas simplistas quando não demagógicas. Isto sucede porque a indignação, o desespero, por vezes mesmo a inveja, alimentam-se de circunstâncias reais da vida de todos os dias. Este sofrimento vive no presente, não nas memórias de erros passados ou oportunidades perdidas; promessas a longo-prazo, sobretudo as tecnicamente muito complexas, são vistas com desconfiança. É “aqui e agora” que se tem que pôr termo a este sofrimento imerecido. É por isto que o populismo é um barómetro da saúde da democracia e, simultaneamente, um dos seus mais perigosos inimigos.

Até por esta relação ambivalente que o populismo tem com a democracia é fundamental tentar compreender melhor como funciona. Podemos começar precisamente por evitar perguntar se há partidos populistas entre nós – uma pergunta não só errada, como estéril – e tentar perceber antes em que circunstâncias certos partidos, movimentos ou políticos tentam conquistar votos convencendo os seus eleitores de que os problemas que estes enfrentam se devem a outro grupo de eleitores – e não à ação de quem os governa ou representa. O facto desta lógica populista de fazer política ser feita, por norma, em nome de um novo Portugal “mais moderno”, “mais justo” e “mais solidário” torna a destrinça entre populismo e democracia muito difícil. Mas confundi-los acarreta custos elevados. Continuar a ignorar o sofrimento imerecido da maioria da população, em particular os mais desfavorecidos e sem voz. Continuar à procura de “partidos populistas”, à medida que no nosso sistema político a forma populista de ganhar votos se reforça sem que alguém se pareça dar conta. Continuar a minar a confiança em projetos coletivos com fôlego e rasgo, quase sempre postos de lado entre nós em favor de remendos habilidosos só porque se atenta nos custos político-financeiros a curto prazo e se desvaloriza os seus benefícios a longo prazo.»

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28.11.18

Prevenir o populismo em Portugal



«O jornal britânico The Guardian decidiu estudar a fundo os populismos na Europa. Para tal pediu a 30 cientistas políticos de várias universidades do mundo para classificar os partidos que concorreram a eleições legislativas nacionais. De seguida, somou os votos das formações consideradas como populistas em cada ano e analisou a sua evolução ao longo das últimas duas décadas. Concluiu assim que entre 1998 e 2018 o peso eleitoral dos populismos no Velho Continente passou de 7% para 25%. Portugal surge neste estudo como uma das pouquíssimas excepções onde o populismo não teve até aqui qualquer sucesso eleitoral relevante. Duas questões se colocam: a que se deve a excepcionalidade lusa? E o que pode ser feito para prevenir o vírus de chegar a Portugal?

Segundo o Guardian, um partido é considerado populista se apresenta a vida política como uma luta entre uma massa de cidadãos virtuosos e uma elite mal-intencionada e corrupta. Os partidos populistas, obviamente, assumem-se como representantes do bem ("nós", "o cidadão comum") contra o mal ("eles", "as elites"). Posto nestes termos, o populismo tanto pode ser de direita (isto é, autoritário e conservador, em termos económicos e/ou de costumes) como de esquerda (ou seja, progressista e tendencialmente democrático). No caso europeu, o aumento do peso dos partidos europeus assim classificados está relacionado fundamentalmente com organizações de direita ou ideologicamente mal definidas (como o movimento italiano 5 Estrelas), sendo os casos da Grécia (Syriza) e de Espanha (Podemos) as principais excepções de populismos de esquerda.

O diário britânico pediu também aos especialistas consultados para identificar as principais causas da ascensão dos populismos. A lista é extensa, mas há elementos a destacar.

Ao longo da história, as grandes crises financeiras (como a que teve lugar em 2008-2009) deram recorrentemente origem à desestabilização dos sistemas políticos, levando à emergência de novos movimentos e partidos. Não é de espantar. A ocorrência deste tipo de crises é habitualmente antecedida da formação de grandes fortunas associadas a fenómenos especulativos, alimentados por sistemas financeiros pouco regulados e por poderes políticos coniventes, quando não deslumbrados com o ritmo de acumulação de riqueza de uma pequena elite. Quando a crise chega, trazendo custos sociais profundos e prolongados, as perdas são suportadas pelo conjunto da população. A impotência, a incapacidade ou a falta de vontade dos poderes instalados para minimizar a duração e os custos sociais da crise, para penalizar os comportamentos que lhe deram origem e para introduzir reformas institucionais que previnam a sua repetição, facilitam a emergência de todos os tipos de movimento de protesto e de revolta contra os poderosos.

No caso europeu a ascensão dos populismos foi facilitada por dois factores adicionais. Primeiro, a forma desastrosa como as autoridades europeias lidaram com a crise, hesitando em tomar medidas anticíclicas, lançando sinais contraditórios sobre o rumo a seguir, privilegiando a estabilização do sistema financeiro através de resgates de bancos privados ao mesmo tempo que impunham políticas recessivas à escala continental, forçando os países a adoptar regras laborais e sociais não validadas democraticamente, e adoptando uma retórica autoritária face a governos não alinhados com as orientações emanadas do centro. A juntar a isto, o continente europeu viu-se a braços com uma crise de refugiados que não teve capacidade de gerir e que foi aproveitada por movimentos xenófobos para difundirem as suas mensagens baseadas na desconfiança e no ódio ao outro.

A grande crise financeira e as crises europeias referidas proporcionaram o contexto ideal para a rápida expansão dos populismos. No entanto, o fenómeno vinha de trás e muitos dos factores que o propiciam não são assim tão recentes. Entre eles incluem-se a aproximação ideológica e programática entre partidos do centro-esquerda e do centro-direita, a deriva sensacionalista dos meios de comunicação (passando a ideia que tudo são escândalos e conflitos) e o individualismo reinante nas sociedades contemporâneas, onde o sentimento de pertença a uma comunidade é cada vez mais diluído.

Quando as pessoas sentem que o destino está fora de controlo, quando a percepção de desordem é geral, quando os cidadãos perdem a confiança nos líderes políticos e nas instituições democráticas, estão criadas as condições para o sucesso dos populistas. O surgimento de líderes carismáticos, de preferência apoiados em partidos bem organizados e/ou generosamente financiados, é muitas vezes a última peça em falta para que tenham lugar as transformações políticas a que temos assistido.

Diferentes factores explicam que o populismo não tenha (ainda?) vingado em Portugal. Sem grande base científica para o fazer, diria que foi uma combinação de características estruturais (cultura menos individualista, longevidade de um sistema partidário ideologicamente plural, um nível suficiente de confiança dos cidadãos nas instituições), de opções políticas (esforço deliberado dos partidos para preservarem a sua identidade e diferenciação, preocupação dos dirigentes políticos em manter uma imagem de proximidade às populações) e de sorte (escassez de líderes credíveis e carismáticos para protagonizar eventuais populismos, ausência de grandes surtos migratórios num curto espaço de tempo).

Os factores referidos podem ajudar a prevenir a emergência futura de movimentos populistas bem-sucedidos em Portugal, mas estão longe de o garantir. Desde logo, porque as opções políticas podem mudar e a sorte é por definição incerta. Mas também porque a ocorrência de novas crises traumáticas não está garantida e a UE não tem hoje melhores condições políticas para lidar com tais eventos do que teve na última década.

Ainda assim, há passos que podem ser dados por diferentes actores sociais para reforçar a resistência do sistema político português face a populismos indesejáveis. Os responsáveis políticos podem e devem preocupar-se com o bom funcionamento das instituições democráticas e com a percepção pública das mesmas, sendo intransigentes com comportamentos menos éticos e contrários ao interesse geral. Os jornalistas podem e devem resistir à tentação do sensacionalismo, fazendo acompanhar a necessária denúncia do que funciona mal com a valorização do que há de positivo no funcionamento das instituições nacionais. Por fim, os cidadãos no seu conjunto podem e devem ser exigentes com os seus representantes - e ainda mais com aqueles que aparecem em público garantindo que estão a falar em nome dos "de baixo".»

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21.11.18

O populismo entre nós



«O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Não faltam em Portugal sinais de propensão ao populismo de base territorial às mais variadas escalas. É o norte contra o sul. É o interior contra o litoral. São os arquipélagos contra o continente. É o Porto contra Lisboa. São as cidades médias contra as metrópoles de Lisboa e Porto. É Guimarães contra Braga, Viseu contra Coimbra e várias outras cidades médias contra outras urbes de dimensão semelhante. São os subúrbios contra o centro das cidades. São as zonas rurais contra as zonas urbanas nos municípios do interior. São, enfim, grande parte dos municípios contra os outros, ou os bairros e as freguesias contra os vizinhos do lado.

Os porta-vozes do populismo territorial não vêm geralmente de fora do sistema político-partidário existente, ainda que procurem distinguir-se dele. Alberto João Jardim, o caso mais destacado, foi durante décadas eleito como cabeça-de-lista, líder regional e dirigente nacional de um dos maiores partidos portugueses. Os inúmeros presidentes de câmara, presidentes de juntas de freguesia, presidentes de regiões autónomas ou comissões de desenvolvimento regional e deputados que produziram discursos mais ou menos populistas baseados na defesa dos interesses ou da identidade dos "seus" territórios - Daniel Campelo, conhecido como o "deputado limiano", foi outro caso marcante - vieram quase sempre do seio dos principais partidos e, em geral, neles se mantiveram. De fora do sistema político nenhum exemplo se aproxima de Pinto da Costa, que porém nunca concretizou a ameaça velada de se envolver directamente na vida política.

Como escrevi acima, existem bons motivos para o surgimento de vozes que reivindicam mais e melhor para os diferentes territórios. Em qualquer país os responsáveis políticos tendem a dar mais atenção às cidades onde se localizam os centros de poder do que às regiões mais distantes. Qualquer que seja a zona do mundo ou a escala geográfica, o poder nunca está homogeneamente distribuído pelo território e quem está mais longe dos centros de decisão quase tem menos influência na distribuição de recursos. A representação dos interesses e das aspirações de base territorial é por isso necessária à construção de uma democracia inclusiva, tal como o são as representações dos interesses de classe, de grupo profissional, de etnia, de género, etc. Ainda é mais assim em Portugal, um dos países com maior nível de centralização de poderes entre as economias mais avançadas.

Se existem bons motivos para as reivindicações de base territorial, não faltam casos em que a suposta defesa das populações locais ou regionais é usada como instrumento por quem prossegue interesses essencialmente particulares. Muitas vezes os representantes do populismo territorial, falando em nome de todos os conterrâneos e evocando uma identidade colectiva distintiva, acusam os poderes centrais de se apoderarem dos recursos que são de todos, quando eles próprios concentram recursos que estão muito mal distribuídos nas suas regiões. Muitas vezes, a reivindicação da descentralização de poderes tem menos que ver com o reforço da coesão social e da democracia inclusiva - que em muitos casos poderia sair prejudicada caso as reivindicações fossem satisfeitas - do que com a pretensão de grupos locais de verem o seu poder aumentado para benefício próprio.

Não julguemos que este risco é menor em Portugal por ser uma nação antiga e relativamente homogénea. Oitocentos anos de história implicam que o país teve muito tempo para se organizar como mercado unificado. Quando há forte integração económica há especialização produtiva entre regiões. Quando as regiões produzem bens e serviços distintos, as suas economias evoluem a ritmos diferentes. Diferentes ritmos de crescimento económico e de criação de emprego entre regiões criam parte das condições sobre as quais o populismo territorial assenta.

Os argumentos do populismo territorial chegam a ser caricatos: se a economia da "nossa" terra está a crescer relativamente pouco é porque as outras não têm solidariedade; se está a crescer acima da média é porque os outros "nos" estão a puxar para trás. De uma forma ou de outra, os "outros" são sempre acusados de extrair recursos que são "nossos". Os argumentos podem ser risíveis e a lógica subjacente é frequentemente perversa, mas hoje sabemos que isso não impede o sucesso deste tipo de populismo.

Num momento em que se discute - e ainda bem - a descentralização de competências para as autarquias e se volta a falar de regionalização em Portugal, é conveniente não minimizar os riscos associados ao populismo de base territorial. Os maiores perigos para a preservação de uma sociedade decente vêm frequentemente de onde não estamos a ver.»

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24.8.18

Os dilemas dos liberais



«Por estes dias o liberalismo voltou a ser a palavra da moda em Portugal. Várias facções discutem quem é mais liberal e emergem possíveis partidos liberais como se fossem cogumelos.

Rapidamente irão, como fez a extrema-esquerda nos seus mais brilhantes momentos de loucura, discutir quem é mais liberal. Santana Lopes surge como "liberal" e diz-se inspirado em Macron mas, no fundo, o que está em causa é uma profunda reorganização do centro-direita e da direita em Portugal. O PSD de Rui Rio é hoje um partido em busca de ideias e de uma estratégia clara (excepto transformar agora jornalistas em "inimigos públicos"). Assunção Cristas, apesar dos esforços, não descola. Há assim um espaço órfão que necessita de cuidados políticos. Resta saber se é com discursos "liberais" ou com populismo. Tudo isto nos lembra a carta que António Alçada Baptista escreveu a Marcelo Caetano em 1970. Dizia ele: "Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas". Pouco mudou. Um dos principais problemas é que muitos dos defensores do "liberalismo" em Portugal só olham, quando lhes convém (e não estão à espera da mão aconchegadora do Estado para os seus negócios), para a parte económica do conceito ideológico. Tudo é reconduzido ao mercado. O resto é varrido para debaixo da mesa.

A esquerda conseguiu (quando não se adaptou a ele, como foi o caso da "Terceira Via") transformar o liberalismo numa caricatura do capitalismo explorador. Só que o verdadeiro liberalismo não defende verdades absolutas. Tem um denominador comum (a ideia de liberdade) e de que esta é o valor supremo e indivisível. Não é apenas liberdade política ou económica, mas também cultural ou social. Como se pode ser liberal quando se dinamita a possibilidade de mobilidade social através de políticas de empobrecimento generalizado e de salários baixos como fonte de "competitividade"?

Como se pode ser liberal quando se apela ao nacionalismo?

Karl Popper dizia que o progresso era deixar para trás a tribo. E a tribo de hoje é o regresso do nacionalismo. Como se pode ser liberal quando se crê, de forma semelhante à marxista-leninista relativamente ao estado, que o mercado resolve todos os problemas? Nem Adam Smith, Popper ou Isaiah Berlin disseram alguma vez isto.

O mercado pode resolver problemas económicos. Mas para o progresso é preciso progresso cultural e social. Ao crer-se que o mercado é uma fórmula mágica, os "liberais" tornam-se eles próprios dogmáticos, o contrário da ideia de liberdade que está na essência do verdadeiro liberalismo. A questão é que para ganhar eleições os verdadeiros liberais têm de criar emoções fortes. E aí estão em desvantagem face aos populistas. É este o dilema das diferentes facções "liberais" que, em Portugal, buscam um lugar ao sol no meio do deserto ideológico mais à direita. Resta saber se descobrem a fórmula do poder.»

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24.7.17

Culpabilização nacional: um populismo



«Agora que vai esfriando uma parte da demagogia que se alimentou do dramático incêndio em Pedrógão Grande e do ridículo roubo de armas numa unidade militar, talvez se justifique um olhar introspetivo sobre a forma como a nossa sociedade transforma dramas e problemas num espetáculo de que muitos se aproveitam inescrupulosamente. Tudo serve para criar um reality show, inclusive para retirar dividendos políticos e para aparecer teatralmente nas imagens da televisão com ares de sofrida piedade, à custa da dor de outros. Há algo estruturalmente errado e insensível no nosso país.

Os portugueses adoram os dramas e as crises em que possam treinar essa sublime capacidade que, em esquizofrenia coletiva, consiste em desesperadamente culpabilizar alguém, torturar alguém no pelourinho público sob os holofotes da comunicação social, exigir responsabilidades (naturalmente, “até às últimas consequências”), destruir imagens e respeitabilidades, linchar, assassinar o carácter de alguém em público, exigir demissões, julgar na rua e condenar, num país que, desta forma, não é um Estado de Direito. (…)

Perde-se a serenidade e mesmo a sanidade. Políticos e comunicação social pressentem uma imediata predisposição popular para uma nova telenovela dramática que prenderá as atenções do país durante algum tempo, e imediatamente cavalgam a corrente onda de demagogia fácil. É um “Populismo à Portuguesa”. Mas é também uma patologia que seria mais adequada a um qualquer país culturalmente atrasado. (…)

Aparecer nos locais dos dramas facilmente rende visibilidade nas televisões. Toda esta coreografia de vaidades, interesses políticos e interesses mediáticos é, afinal, parcialmente assente na indireta exploração da dor e dos dramas reais de outros. Para muitos, este espetáculo reality show configura um pequeno período de êxtase de visibilidade pública. Resta saber se tudo isto, à custa de sofrimento de alguns, é moral. (…)

Esse facto concorre para se compreender como o nosso país é tão facilmente submergido por ondas de demagogia que pretendem ganhar dinheiro e lucros políticos com dramas, erros e desastres, cavalgando o que todos eles pressentem estar a mobilizar popularmente. Por isso, por definição, esta é uma demagogia populista.

Em momentos de delírio demagogo, culpabilizador e inquisitorial, torna-se perigoso cultivar a lucidez e a independência de espírito e de análise. Mas nenhuma sociedade é inteligente, civilizada e arrojada quando segrega o medo de se manter a lucidez em lugar da fácil demagogia. (…)

Um último comentário sobre a primitiva crença nacional que consiste em acreditar na vantagem de “ondas de demissões”. Só quem nunca liderou, e não sabe liderar, não compreende que, depois de um grande erro cometido, provavelmente a pessoa mais preparada para evitar esse erro no futuro é quem o cometeu, se tiver tido a inteligência e a humildade de reconhecer e aprender com o erro. E no que refere ao conceito duvidoso (mas mediático) de “retirar consequências políticas” (isto é, demissões teatrais que o país do reality show adora), imagino já que, se o superior de alguém que errou se demitir, subsequentemente o mesmo deverão fazer o superior daquele, o ministro, depois o primeiro-ministro e o Presidente da República que os empossou ou os manteve em funções. Demissões em cascata, “retirando consequências políticas”. Seria uma irracionalidade (ou, quem sabe, uma singular oportunidade para reinventar o país?).»

19.3.17

O contágio do populismo não acabou



«O populismo perdeu nas legislativas holandesas, como já antes tinha perdido nas presidenciais austríacas, contrariando uma grande parte dos prognósticos feitos até às vésperas dos dois sufrágios. Mas nem por isso a ameaça desapareceu nem desaparecerá, mesmo que Le Pen seja derrotada em França e a extrema-direita permaneça com um estatuto minoritário na Alemanha. Se a grande mobilização do eleitorado holandês foi decisiva para impedir Wilders de conquistar o primeiro lugar nas urnas, é também um facto que o discurso populista e xenófobo contagiou a mensagem do vencedor das eleições, o primeiro-ministro Mark Rutte, e dos partidos de direita e do centro que deverão constituir a base da futura coligação governativa. (…)

Em geral, a Europa mostra-se hoje muito menos tolerante à recepção dos imigrantes e receia pela segurança das suas fronteiras e das suas sociedades. O medo do terrorismo tende a confundir-se com o medo do outro – do diferente, do muçulmano – e ultrapassa a racionalidade e os factos objectivos, como é possível constatar na Holanda, um país que ficou conhecido pela sua abertura em matéria de costumes e onde vigora um ambiente raro de prosperidade económica e paz social. Talvez por isso mesmo, os holandeses temem que, no cenário de um mundo em convulsão, a sua bolha de progresso e segurança possa ser rompida pelas ameaças externas (percepcionadas também como internas).

Entretanto, a fragmentação da paisagem política holandesa que emergiu das últimas eleições reflecte outra tendência europeia em curso – e que parece prestes a explodir em França, onde a alternativa mais plausível a Le Pen, Emmanuel Macron, questiona as fronteiras entre a esquerda e a direita tradicionais (que ficariam ambas excluídas, pela primeira vez, da segunda volta das presidenciais, um verdadeiro abalo sísmico na história moderna do país). (…)

De qualquer modo, a derrota de Wilders ou Le Pen não elimina magicamente as raízes do contágio populista introduzido pelo Brexit e por Trump através da Europa e do mundo.»

Vicente Jorge Silva

11.3.17

O grande abandono



Excertos do texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Falar dos pobres é politicamente intangível, toda a gente fala dos pobres, mesmo que não nada por eles. E é verdade que os mais pobres sofreram muito com estes anos de política da troika, mas, como as suas expectativas não eram grandes, ficaram no seu gueto cuidadosamente vigiado pela assistência caritativa a que a política de direita os remeteu. O papel do Estado na criação de um elevador social que lhes desse a esperança de sair da pobreza foi travado e eles ficaram ali, onde já estavam, numa redoma social, que a política do Governo PSD-CDS quis acima de tudo manter com receio da agitação social.

Mas, como muitas vezes acontece, a agitação social veio de outros lados, não da parte mais de baixo da escala social. Se analisarmos esses anos, as únicas organizações com algum sucesso em alargar a mobilização social e política foram do “meio” da escala social: os “precários” de diferentes associações, com muitas ligações ao Bloco de Esquerda, e os “reformados” da Apre!, que representavam um sector da “classe média”, profissões liberais, funcionários públicos, muitos que tinham sido eleitores do PSD e do PS. A isso se deve acrescentar, por justiça, e no meio de enormes dificuldades e num período de refluxo, a CGTP e os sindicatos. Sobre estes últimos repito o que já disse: imaginem o que seria o mundo laboral e a legislação do trabalho se não fosse a resistência sindical, e, mesmo assim, muito perderam com a aplicação mais durável e com maior sucesso e zelo do programa da troika pelo Governo PSD-CDS. (…)

Há um factor que convém ter em conta – é que a direita está a perceber mais depressa do que a esquerda a essência do “trumpismo”. Ainda não é capaz de mobilizar esse descontentamento, porque está muito acantonada socialmente e o populismo precisa de líderes e protagonistas vindos da televisão, que escasseiam. Mas caminha para aderir ao seu modus operandi naquilo que é mais perigoso – o discurso social e a “pós-verdade” que circula pelas redes sociais.

Não é de agora a proximidade da direita portuguesa ao programa de Trump, já vem de antes, mas falta-lhe a componente populista. Quando se vê um conjunto de cartazes da Juventude Popular, já com alguns anos, é patente a proximidade. Aliás, enquanto o CDS passou a Partido Popular, e depois de novo a CDS-PP, a antiga Juventude Centrista mudou para Juventude Popular e por aqui ficou. Esses cartazes falam de “liberdade”, “segurança” e “impostos”, mas em que termos? A “liberdade” é: “A nossa geração não precisa de subsídios. Só queremos que nos deixem trabalhar.” A “segurança” é: “O Estado protege os criminosos. Quem nos protege a nós?” Os “impostos” são: “Dois milhões de pessoas com rendimento mínimo. Quem pensas que anda a pagar essa avareza?” Para além dos jovens populares não saberem o que significa “avareza”, não se ficam por aqui. Há outros cartazes com imagens, com jovens muito “betos” para serem eficazes fora do círculo social do CDS, mas mesmo assim esclarecedores: “Trabalhas toda a noite num bar para pagares a faculdade, o Estado tira-te 20% para dar a quem não quer trabalhar.” “O Estado rouba-te os sonhos e distribui-os por quem nada quer fazer.” E uma defesa do cheque-ensino ao modo da secretária de Trump para a Educação, Betty DaVos.

Portanto, o programa está cá, falta apenas o salto populista. O abandono a que foram deixados os trabalhadores, os pequenos empresários, os operários, uma massa de gente a quem tiraram o futuro e amachucaram o presente geram ressentimento que, como a água, segue o caminho mais fácil. Ele encontra-se no olhar para a casa limpa e composta que espera os refugiados e não precisa dos mastins da extrema-direita para lhe indicar os alvos. Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS, os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as “causas fracturantes” do Bloco de Esquerda, e a “linguagem de pau” do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia.» 
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21.1.17

Trump, como nunca o vimos (quer dizer: como presidente dos Estados Unidos)



José Vítor Malheiros foi «dispensado» do Público, mas tem as redes sociais à sua disposição. Transcrevo o excelente texto que divulgou no Facebook:

«Nos últimos anos, quase sempre a propósito do aparecimento e do sucesso de certas organizações políticas nacionalistas na Europa, temos falado muito de populismo, tentando clarificar o conceito, debatendo o seu rigor ou ambiguidade, discutindo a correcção e utilidade da sua aplicação a esta ou àquela organização, a este ou àquele discurso, a esta ou àquela prática política.

O discurso de tomada de posse (não, não se diz inauguração) do presidente Donald Trump (custa a dizer, mas é o que o homem é) contribui para esclarecer a discussão porque é um perfeito exemplo de discurso populista, a exemplo de mais uns quantos feitos maioritariamente nos anos 30 do século passado.

A marca de água do populismo é a ideia de que a soberania reside no povo (até aqui estamos todos de acordo) mas que a vontade popular não se pode exprimir correctamente através dos sistemas de representação e de mediação da democracia representativa, pois estes foram capturados por elites que os deturparam, desviaram da sua função e os usam para seu benefício pessoal.

O discurso populista não avança propostas para melhorar a democracia e para a libertar das mãos dos grupos que capturaram os mecanismos de expressão da vontade popular e de governação democrática, mas apresenta sempre um grupo, um líder, como capaz de interpretar os desejos e sentimentos do povo e de os transformar em acção política de forma inorgânica.

A entidade “povo” (com este ou outro nome) aparece sempre no discurso populista como algo de puro e homogéneo, sem divisões ou interesses divergentes no seu seio, sem conflitos internos, e todos os problemas e divergências que aparecem na sociedade são atribuídos a inimigos externos, “outros” que não o povo. O populismo identifica em geral as elites “afastadas do povo” (os políticos, os media, os intelectuais, os artistas) como a causa de todos os problemas e obstáculos a eliminar para a “purificação” do sistema - usando com frequência um léxico higienista - e exige ainda inimigos externos que constituem o maior perigo, para cujo combate devem ser mobilizadas todas as forças.

A existência destes inimigos internos e externos justifica, por sua vez, por razões de eficácia, a concentração de poder nas mãos do líder e dos seus próximos, intérpretes esclarecidos da vontade do povo.

Não foi por acaso que não houve, no discurso de Trump, uma referência aos partidos, ao Congresso, a quaisquer outras organizações nacionais ou internacionais. O discurso não pretendia avalizar qualquer outra forma de interpretação da vontade popular que não fosse simplesmente o instinto do líder, não pretendia promover qualquer forma de exercício do poder que tivesse a mínima característica institucional ou fosse sequer escrutinável.