Em mais um aniversário da invasão de Praga, retomo um texto que foi escrito para este blogue há pouco mais de dois anos. A sua autora é Rosa Ventura, filha de Cândida Ventura e de Américo de Sousa, dirigentes históricos do PCP.
Cheguei a Praga com 17 anos, em Julho de 1969, naturalmente entusiasmada e feliz com a ideia de ir viver com a minha mãe, finalmente ao fim de tantos anos, e num país socialista.
Levaram-me para um hotel luxuoso situado no centro da cidade. Nunca vira nada de semelhante e, perante o meu espanto, explicaram-me que era assim que recebiam as entidades políticas estrangeiras importantes e as suas famílias.
Desconhecia, por completo, o que se tinha passado em 1968 e ninguém me falou então do assunto. Integrada num grupo de estudantes de várias nacionalidades, fui para uma espécie de palácio, em regime de internato, para participar num curso intensivo de checo. Só podíamos sair uma vez por semana, mas foi durante essas saídas que conheci jovens checos.
Foi também então que começaram as surpresas. Eu que, em Portugal, tinha participado em manifestações contra a guerra do Vietname e contra os Estados Unidos, fui encontrar ali, num país dito socialista, pessoas da minha idade que só pensavam em fugir para qualquer parte e que adoravam os americanos. Contaram-me então o que se passara um ano antes. Havia uma tristeza e uma revolta enormes em relação à invasão russa cujas marcas nas fachadas da Praça Venceslau eram bem visíveis – e sê-lo-iam por muito tempo. Eu tentava falar-lhes da nossa ditadura, da falta de liberdade, das prisões, mas explicavam-me que lá era igual.
Para mim, tudo isto foi muito dramático, mas quando tentei discutir o assunto com quem de direito, foi-me dito que não podia ter opinião nem meter-me “onde não era chamada”.
Durante cinco anos, vivi na cidade mais linda da Europa com um povo fantástico, uma cultura geral impressionante, aprendi a gostar de música clássica, de teatro, de museus, de história e, sobretudo, a NÃO querer aquele socialismo para Portugal.
Tudo isto é muito pessoal, muito emocional e pouco político, mas foi a experiência do fim da minha adolescência, toda ela feita de descoberta de contradições – e de muitas mentiras.
...
...