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25.1.21

Frases de uma noite (2)



Com muito descaramento!
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Frases de uma noite (1)


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Lá vai o português

 



Hoje só me apetece sacudir o pó e regressar aos meus clássicos que já se foram embora e é Cardoso Pires que me acompanha.

«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.

Assim, como?»

José Cardoso Pires, E Agora, José?, 1977
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22.1.21

Voto

 

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Red lips challenge



 

«Mal começou o confinamento, tivemos direito a um red lips challenge nas redes sociais. O porquê desta súbita paixão pelo batom? A resposta ao novo número de circo de André Ventura que, sozinho no palco, decidiu animar a plateia debitando uma litania de caricaturas dos seus adversários políticos. Quando chegou a vez de Marisa Matias, lamentou em tom jocoso a fraca imagem da pobre coitada por, com aqueles lábios muito vermelhos, mais parecer uma coisa de brincar. 

Dada a literacia digital do Bloco de Esquerda e o mimetismo típico destes fenómenos, estavam criadas as condições ideais para uma enchente de bocas vermelhas, com profusão de hashtags e declarações de solidariedade. Politicamente, é fácil desvalorizar o momento como uma mera espuma dos dias, de duração inferior a 24 horas e sem qualquer influência sobre o sentido de voto. 

Mesmo assim, algum ponto sensível o insulto conseguiu tocar. Foram avistadas mulheres para quem a associação a uma candidata proveniente da esquerda está perto da heresia darem-se ao trabalho de desencantar um batom e encarniçar a boca. A questão deixou de ser política e tornou-se pessoal. Para muitas, lembrou-lhes o dia em que ouviram algo de parecido por causa de uma cara com excesso de pintura, uma saia demasiado curta ou um decote mais pronunciado. O mesmo julgamento que está só um passo atrás do “estava a pedi-las” no contexto da violência sexual. O comentário mostra também o quão difícil é encontrar a imagem certa num terreno tradicionalmente masculino como a política. A exigência de uma opção entre ser feminina ou ter poder não só persiste como continua a envenenar a relação das mulheres com a sua própria imagem. 

Depois de um ano a entrevistar dezenas de raparigas entre os 11 e os 16 anos na Europa e nos Estados Unidos, a revista “The Economist” publicou em dezembro um artigo de fundo onde tenta fazer o ponto da situação sobre a adolescência no feminino. A boa notícia é estarmos provavelmente perante um momento privilegiado para se ser uma futura mulher no mundo ocidental. Nunca as adolescentes foram tão livres nas suas escolhas e identidades; nunca tiveram interesses tão diversos e tantas aspirações. É o retrato de uma geração confiante no seu potencial e disposta a mudar o mundo. 

Neste quadro otimista, aparece uma exceção: a relação com a aparência física. Quando o tema passa a ser o seu corpo, a grande maioria das entrevistadas declara-se insegura, sofre com a pressão social e já se sentiu julgada enquanto objeto sexual. Mas nenhuma pretende um sistema onde seja obrigada a escolher entre a forma e a substância. O que desejam é a liberdade de se exprimir através do seu corpo sem estarem sujeitas aos chavões “sê bonita e cala-te” ou “o que tu queres sei eu”. 

No gesto de pintar os lábios em solidariedade com Marisa Matias, é possível ver a exigência da mesma liberdade. Para quem anda sempre a apontar o dedo à vitimização das feministas, devia ser uma boa notícia. Não houve queixas de virgens ofendidas, mas um desafio coletivo. No meu corpo decido eu e ninguém pode retirar daí uma conclusão quanto ao que sou ou quero fazer. Quem não gosta, temos pena. 

Puro simbolismo? Talvez. Mas é bom sinal se revela a forma como as mulheres do futuro estão determinadas a reagir perante julgamentos deste calibre.» 

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19.1.21

Um cheirinho a alecrim

 

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Três razões



 

«Começou a eleição do próximo presidente da República. Para quem, à esquerda, ainda não decidiu ou pensa votar Marcelo Rebelo de Sousa no dia 24, deixo três notas: 

1. A "geringonça", criada para travar o programa de empobrecimento de PSD/CDS, foi um exemplo da capacidade de convergência entre o PS e os partidos à sua esquerda. A marca que deixou foi a de um acordo fundado em medidas concretas e não em vazias geometrias de poder. Em 2016, a candidatura da Marisa Matias puxou por essa convergência, deu-lhe voz. Em 2021, sabemos que contamos com a sua determinação para construir as pontes que valham para proteger o país, sem sectarismos mas com exigência. 

2. Para haver convergências é necessário um projeto político. E o projeto político de Marcelo é a continuidade. A sua capacidade de diálogo esgota-se quando insiste em defender os lucros do setor privado da saúde, quando desvaloriza a crise ambiental, quando se conforma com o privilégio da banca ou quando defende as leis laborais da troika. Marcelo será sempre a convergência em torno do que existe, e por isso o presidente foi tão importante na relação de forças que impediu novos entendimentos à esquerda sobre a saúde, o trabalho ou a banca. Em 2021, o SNS precisará, como nunca, de um entendimento, um pacto à esquerda, que lhe permita recuperar a capacidade e chegar a todas as pessoas que dele precisam. Esse é o Contrato para a Saúde, proposto pela Marisa desde o primeiro dia da sua campanha. 

3. Chamemos os bois pelos nomes. Ventura é um oportunista, mas um oportunista que integra um movimento internacional de extrema-direita, onde está acompanhado por Trump (que procura imitar em palavras e gestos) e Bolsonaro, mas também por Le Pen, por Salvini, entre outros movimentos políticos protofascistas, como o de Viktor Orbán, na Hungria. O seu programa não é só de ataque aos direitos e liberdades civis, começando pelos imigrantes e pelas mulheres. O autoritarismo de Ventura serve uma ambição pessoal, mas também um projeto económico violento de privatização dos serviços públicos e desmantelamento do contrato social. Não se combate a extrema-direita banalizando-a, como fez o PSD ao celebrar um acordo de poder com o Chega, rapidamente ratificado por Marcelo. A luta pela democracia contra o medo exige um horizonte de esperança que só a força das lutas emancipadoras pode trazer, como vimos pela mobilização das mulheres contra o ódio de Ventura na última semana. 

A luta pela democracia exige a possibilidade de nos juntarmos em torno da ideia de serviços públicos fortes, de justiça na economia e de proteção no trabalho. 

Depois das eleições, o país continuará a precisar das convergências para proteger a saúde e o emprego e da força para combater a extrema-direita oportunista. Esse é o compromisso da Marisa, antes e depois das eleições.» 

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17.1.21

#VermelhoemBelém



 

«Os símbolos não são coisa pouca para a humanidade: é a capacidade de criá-los, de representar o real através deles, que nos distingue dos outros animais. Num símbolo condensa-se, em determinados momentos, toda uma história, neles se sintetiza um processo, um conflito, com eles se mobiliza uma causa. São usados como arma para ofender, para oprimir, para marcar, para estigmatizar. São reivindicados como expressões de luta, de libertação, de resistência. São disputados nos seus significados. 

Não é de agora que o batom vermelho está nessa liça. No século XVIII, havia ainda quem considerasse que pintar a cara era “obra do diabo” e sinal de “feitiçaria” e, no parlamento britânico, um deputado chegou mesmo a propor uma lei contra as mulheres que usavam batom. O medo masculino de uma feminilidade não tutelada fez com que, nas narrativas conservadoras desses tempos, os lábios coloridos de vermelho fossem codificados (e publicamente censurados) como a manifestação de uma moral duvidosa ou de uma heresia face aos bons costumes. Na realidade, o que assustava os machos da época (e porventura os de hoje) era que ele pudesse ser um sinal de independência e de autonomia das mulheres sobre o seu corpo. 

Não será por isso muito surpreendente que, na passagem do século XIX para o século XX, as sufragistas tenham adotado o batom vermelho como símbolo de rebelião. Elas, que se atreviam a lutar por essa ideia escandalosa de que as mulheres – e não só os homens – deveriam ter o direito ao voto, carregavam também nos lábios o batom vermelho que chocava os homens do poder e desafiavam o monopólio masculino da política. Depois disso, em outras épocas, o mesmo símbolo se fez arma de resistência. Contra o ódio público que Hitler lhe tinha, usar batom vermelho (cuja produção nos países Aliados, ao contrário de outros produtos, não foi interrompida durante a II Guerra Mundial) era também uma afirmação contra o fascismo. 

E aqui chegados, em 2021, de novo o vermelho assusta e perturba os que têm medo das mulheres sem medo. Das que desafiam, pelas causas que defendem, o sistema patriarcal e a sua estrutura de desigualdade. Das que ocupam os lugares da política ao arrepio da lógica dominante da competição, das que não se adaptam nem conformam à substituição do debate por uma espécie de concurso de varonia ou de campeonato de boçalidade, das que são avaliadas (de uma forma que os homens não são) a partir de julgamentos sobre a sua aparência ou frivolidade que dizem sempre muito mais dos avaliadores do que das avaliadas. 

Marisa Matias sabe bem o que é lidar com a cultura do autoritarismo marialva – e fazer-lhe frente. Ela é a criança de Alcouce que, contra todas as probabilidades sociológicas e por conta de um Estado Social de que se orgulha e pelo qual luta, chegou onde muitos gostariam que, ainda hoje, pessoas da sua origem e condição não chegassem. Marisa, a “campeã do clima” no Parlamento Europeu, a deputada reconhecida pelo seu trabalho em defesa da saúde pública ou contra os paraísos fiscais, a pessoa que, há mais de dez anos, se tem empenhado em dar visibilidade ao trabalho invisível das cuidadoras informais, está habituada a lutar contra a indiferença e a enfrentar podres poderes, em Portugal e noutros países. 

A onda de solidariedade com Marisa Matias que se tem levantado desde ontem é, pois, mais do que merecida. Através dela vemos o que temos de melhor em nós próprios. Os lábios pintados, de mulheres e homens solidários de tantas opiniões, são muito mais que lábios pintados. São uma afirmação democrática e uma arma contra o ódio. Que dessa vaga faça parte, entre tantas, Ana Gomes, mulher cuja fibra de combate e a integridade de princípios são indiscutíveis, só admira quem não conheça ambas. Nenhuma delas hesitaria em mostrar que é na cooperação e na solidariedade que se faz a diferença contra todos os autoritarismos. Nessa atitude, há uma lição maior nesta campanha, com um alcance que vai além de aritméticas eleitorais. 

Para mim, a Marisa é também esta lição. É essa força maior que faz diferença na política, agora e depois. Contra a boçalidade, o orgulho no que somos. Contra o extremismo, a radicalidade dos direitos humanos. Contra o marialvismo, a capacidade de atear a força da solidariedade feminista. Contra as desigualdades, o bem comum, a justiça social e a justiça climática. É isso tudo que representam os lábios vermelhos de Marisa. E eu quero #VermelhoemBelém. 

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16.1.21

Marcelo e lábios vermelhos

 


Ainda não perdi a esperança de ver Marcelo, homem de consensos, sair à rua em campanha com lábios vermelhos pintados na máscara!
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Salgueiro Maia e lábios vermelhos



 

«Quando me mexem nesta fotografia, costumo ficar chateado.... mas se é para meter o coiso na ordem e contribuir para a normalidade democrática, tudo bem! Até pode ser que o coiso saia do armário, afinal, a criatura também já festejou o 25 de Abril!»

Alfredo Cunha no Facebook
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15.1.21

Lábios vermelhos respondem à boçalidade de Ventura

 



(Daqui)
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#VermelhoemBelem

 


«O Twitter está pintado de vermelho, de batom vermelho e a razão chama-se Marisa Matias. André Ventura, esta quarta-feira, decidiu atacar os adversários e afirmou que a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda “não está tão bem em termos de imagem” e “pinta os lábios como se fosse uma coisa de brincar”. Se o tom de vermelho não agrada ao líder do Chega, o mesmo não se pode dizer dos utilizadores do Twitter que levaram a hashtag #vermelhoembelem ao trending da rede social. Centenas de imagens de pessoas com batom vermelho (…) estão a ser partilhadas como uma forma de apoio à eurodeputada que concorre nestas eleições presidenciais.» (Observador

Ana Gomes já se juntou à iniciativa, com um vídeo no Twitter e também o Facebook está hoje cheio de posts no mesmo sentido.
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14.1.21

André Ventura



 

(Abrir o link para ver o vídeo.) 

Não o escondo, nem uso gatafunhos para lhe esconder o nome: há que ver e ouvir André Ventura. Que o provável futuro presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa – continue a afirmar que uma besta como esta pode vir a fazer parte de um governo, ou de uma maioria parlamentar que o apoie, diz bem do estado a que chegámos.
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Uma eleição inconstitucional?

 


«A primeira vez que li a notícia avançada pelo PÚBLICO, a 23 de Novembro, de que as cidadãs e os cidadãos que contraíssem covid-19 nos dez dias anteriores às eleições presidenciais seriam proibidos de votar fiquei estupefacto. Seria mesmo verdade que os preparativos para que um acto eleitoral seja seguro em pandemia incluíam proibir o exercício de um direito constitucional como é o direito ao voto? Certamente os actores políticos iriam reagir e encontrar uma solução que protegesse um direito constitucional tão fundamental. 

Parece que estava errado. A medida avançou e está em vigor. 

Em resposta a um email que enviei em finais de Dezembro à Comissão Nacional de Eleições a questionar sobre esta questão, recebi uma arrepiante confirmação: “caso fique infectado [com covid-19] e seja decretado confinamento após dia 14 de Janeiro, não poderá votar”. Por coincidência, com 22 anos, estas serão as primeiras eleições presidenciais em que irei poder participar – mas parece que há uma hipótese demasiado real de ver esse meu direito negado. É algo contraditório o constante apelo ao voto por parte de tantos políticos – especialmente o voto jovem – quando não têm problema algum em ver esse mesmo direito negado. 

Apesar da expectável onda de indignações nas redes sociais em finais de Novembro, a medida continua em vigor. Silenciosamente avança a preparação de uma medida de supressão do voto. Nas estimativas da altura do artigo deste jornal, mencionava-se que poderia afectar aproximadamente 50 mil pessoas. Na altura o número médio de casos eram cinco mil, não dez mil. Faça as contas. 

Em que país vivemos onde consideramos aceitável vedar a milhares e milhares de portugueses o direito ao voto, consagrado na Constituição? Que democracia é esta? Uma democracia fraca, possivelmente a mostrar sintomas de uma outra doença: os da apatia política. 

Lei Orgânica n.º3/2020 

Na resposta que recebi da CNE, fiquei a saber que esta medida só se tornou possível devido à aprovação em Assembleia da República da lei orgânica n.º 3/2020, que vem possibilitar o voto antecipado aos cidadãos e cidadãs que contraiam o coronavírus, mas apenas se o confinamento seja decretado até ao décimo dia antes das eleições. É também a lei que diz que se contrair o coronavírus depois de dia 14 de Janeiro, será proibido de votar. Lembre-se desta lei. Lembre-se ainda que foram os deputados e deputadas desta legislatura que consideraram a mesma razoável. 

Na minha pequena edição de bolso da Constituição da República Portuguesa, fui procurar como seria possível uma lei orgânica sobrepor-se à Constituição. Não sendo uma pessoa da área de Direito, questiono-me seriamente: como pode uma lei orgânica sobrepor-se à Constituição? Fui relembrado que o estado de emergência em que vivemos permite a suspensão de determinados direitos. Mas a medida em questão trata-se de um caso inaceitável de subversão do intuito deste (recorrente) estado de emergência. 

Lendo o ponto 6 do artigo 19.º da nossa Constituição, aprendemos que a “declaração do [...] estado de emergência é adequadamente fundamentada e contém a especificação dos direitos, liberdades e garantias cujo exercício fica suspenso”. Estará prevista nesta declaração de estado de emergência a suspensão de direito ao voto para alguns? Admito que não a li. Se constar lá, é inadmissível. Se não estiver, não tornará esta lei orgânica inconstitucional? 

Deixo a questão para os especialistas. Mas não me venham argumentar que suspender o direito ao voto a milhares de portugueses é proporcional, razoável ou qualquer adjectivo que escolham para florear a situação. É inaceitável. 

Um cenário surreal: candidatos impedidos de votar

Serão as primeiras eleições na história do país em que um candidato ou candidata a Presidente da República poderá ser impedido ou impedida de votar nas eleições a que se candidata. Isso mesmo. Nada nos garante que nenhum dos candidatos não se encontre nessa situação. Já imaginou o surreal que seria? Afinal de contas, não há uns mais do que outros, os candidatos e candidatas têm que obedecer à mesma lei que vigora como toda a gente. 

Aproveito ainda para relembrar que tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Ana Gomes já tiveram contactos de risco. O actual Presidente e novamente candidato tem estado esta semana em isolamento e também Ana Gomes teve de se isolar em período de pré-campanha. Mesmo num cenário de confinamento absoluto, é expectável e compreensível que outros candidatos ou candidatas possa contrair covid-19. O mesmo se aplica a pessoas a trabalhar em cada candidatura, a quem seria particularmente injusto ver o seu direito ao voto negado. Injusto e desnecessário, porque este cenário poderia ser prevenido. Com preparação. 

Outro cenário que me causa uma certa apreensão são os eleitores infectados, eventuais casos pontuais, que decidam desobedecer às ordens de confinamento. O que impede isto de acontecer? Nenhum agente de autoridade está a vigiar quem coloca o pé fora de casa em quarentena (e bem). Não será certamente a mesa de voto a verificar quem deveria estar em isolamento profiláctico e quem não. 

Portanto, como se fiscaliza esta medida? Não se fiscaliza, como de costume neste país. 

Para além de inconstitucional, a medida é ineficaz no seu objectivo. Em nada impede um eleitor absolutamente determinado a votar (e capaz de ignorar o seu papel enquanto agente de saúde pública) de sair porta fora e deslocar-se à sua mesa de voto. Se os deputados e deputadas tivessem o mínimo de respeito pelo eleitorado, teriam pensado em soluções que evitassem de modo eficaz que as pessoas com teste positivo tivessem de se deslocar para votar. O extraordinário é que a operação foi pensada: é o voto porta-a-porta. Mas talvez por motivos logísticos ou outros inimagináveis consideraram que seria razoável limitar este método de voto para quem só souber que está infectado até dia 14 de Janeiro. 

Ao leitor em casa pergunto: se ficar infectado depois de dia 14 e antes das eleições, irá de bom grado aceitar que não poderá votar? 

Eu certamente não o aceitarei de bom grado – mas cumprirei por um sentido de responsabilidade, que acredito que qualquer pessoa deve ter. Seria incapaz de colocar a vida de outros em risco. Mas fá-lo-ei profundamente revoltado por ver um direito meu negado – por falta de preparação daqueles que tinham e têm a responsabilidade de o preparar e que tiveram dez meses para o fazer. 

Sentir-me-ei roubado.» 

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11.1.21

Polígrafo dixit

 


«Quando se falou sobre o Orçamento do Estado de 2021, João Ferreira criticou o BE. “Reconheço insuficiências na resposta do Orçamento, já o disse várias vezes. Agora eu valorizo muito aqueles que não desistem a meio de nenhum combate. E valorizo que tenha sido possível, por intervenção nomeadamente do PCP, incluir no Orçamento do Estado investimento no Serviço Nacional de Saúde em contratação de mais profissionais, em contratação de mais meios e equipamentos, na construção de infraestruturas, algumas delas aguardadas há muito tempo”, disse. 

Na resposta, Marisa Matias contrapôs com os números dos médicos: “Eu, tal como o João Ferreira, também não gosto nada de quem desiste nem a meio, nem no fim. E por isso é que eu disse e repito que se toda a esquerda tivesse sido firme, nós podíamos já neste momento ter parte desses problemas resolvidos no Serviço Nacional de Saúde. É isto que eu quero dizer, porque nós chegámos agora ao final do ano de 2020 com menos 961 médicos no Serviço Nacional de Saúde.”»
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