Mostrar mensagens com a etiqueta racismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta racismo. Mostrar todas as mensagens

26.5.21

A lição de dignidade da família Coxi



 

«A dignidade, quando nasceu, não era para todos. Durante séculos, o conceito de dignidade aplicava-se apenas a uns poucos, a que hoje chamamos — num vestígio da antiga acepção restrita da palavra — os dignitários. Um cardeal tinha dignidade de cardeal, um duque de duque. Quanto aos outros, que dignidade lhes era reconhecida ou atribuída? Nenhuma.

Demorou muito tempo até que a palavra dignidade ampliasse o seu sentido para abarcar toda a gente. Um primeiro exemplo será certamente o da Oração sobre a dignidade do homem, do renascentista Giovanni Pico della Mirandola, que nasceu em 1463 e foi assassinado em 1494. Começou aí a fazer caminho — um caminho longo e cheio de contra-curvas — a ideia de que todos os humanos têm uma dignidade que lhes advém do mero facto de serem humanos, e não de nenhum privilégio, herança ou cargo. Hoje esta ideia está logo no primeiro artigo da Declaração Universal de Direitos Humanos. Ocupa um lugar central em constituições do pós-guerra como a da República Federal da Alemanha, que declara que “a dignidade humana é inviolável” — não por acaso, porque se entende que os grandes crimes contra a humanidade do século XX foram, desde logo, violações do princípio de que todos os humanos têm dignidade. E está também na nossa Constituição, onde logo no Artigo 1.º se pode ler que “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana”.

E assim não foi coisa pouca o que se decidiu esta semana num tribunal português, no qual se lavrou uma sentença num caso opondo uma família, de nome Coxi, ao partido de extrema-direita Chega e ao seu líder André Ventura. Recapitulemos os factos. Os Coxi são uma família de moradores no Bairro da Jamaica que tirou no início de 2019 uma fotografia com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Na recente campanha eleitoral para as presidenciais, no debate entre o recandidato Marcelo Rebelo de Sousa e o candidato da extrema-direita, este brandiu essa foto — de uma família de gente negra morando num bairro pobre — acusando Marcelo Rebelo de Sousa de se ter feito retratar com “bandidos” e a “bandidagem”. Os Coxi foram assim sujeitos, em pleno debate das presidenciais visto por milhões de pessoas em canal aberto de televisão, a um ataque às suas honras e reputações. Não porque houvesse qualquer indicação de que fossem “bandidos” ou “bandidagem”, mas porque o candidato da extrema-direita terá achado que, sendo os Coxi negros e morando num bairro pobre, não precisariam de ser tratados com a dignidade que têm e merecem.

Os Coxi poderiam ter encolhido os ombros e deixado passar aquele ataque humilhante, atribuindo-o ao triste estado da política e do espaço público na nossa época. Também poderiam ter escolhido ter pedido uma indemnização pecuniária — a que teriam todo o direito — pelos danos aos seus bons nomes e reputação. O caminho que escolheram não foi um, nem o outro, mas o mais trabalhoso: os Coxi foram a tribunal exigir, não dinheiro nem uma indemnização material, mas um pedido de desculpas e uma retractação pública ao político da extrema-direita e ao seu partido. Não quiseram nada de material para eles, mas apenas a garantia de que a justiça defenderia os seus direitos individuais e coletivos à dignidade. Ao fazê-lo (com o apoio voluntário e não-remunerado da sua advogada Leonor Caldeira) os Coxi estiveram a trabalhar por nós todos — pelo nosso direito a um espaço público um pouco mais salubre, menos infetado pelo racismo e pelo oportunismo de vigaristas políticos.

Chegados aqui, o tribunal poderia ter feito o que muitos defendem que se faça com o partido da extrema-direita e com o seu líder — dar-lhe tratamento especial, com o argumento de que se for condenado o senhor se vitimizará. Mas isso significaria o mesmo que dizer que a Lei e a Constituição existem, mas não se devem aplicar por conveniência política, o que daria aos Coxi menos proteção jurídica do que aquela que todos os cidadãos merecem.

Felizmente, não foi este o caminho seguido. A juíza que julgou o caso deu como provada a violação dos direitos de personalidade dos Coxi e condenou o político de extrema-direita e o seu partido a publicar pedidos de desculpas e retractações públicas nos mesmos canais onde as declarações ofensivas foram produzidas. Se não o fizerem no prazo de trinta dias, o partido e o político pagarão cada um setecentos e cinquenta euros de multa por cada dia de atraso. Se repetirem as declarações ofensivas, pagarão cinco mil euros por cada vez que o fizerem.

E assim, graças aos Coxi, o nosso ambiente fica um pouco mais saudável e a nossa política menos indigna. Caros Aurora, Fernando, Higina, Hortencio, James, Julieta e Vanusa Coxi, queiram por favor aceitar deste vosso concidadão o meu muito obrigado.»

.

18.5.21

Qual o mal de chamar "preta", afinal?

 


«Que o caso do take da Lusa sirva para que de uma vez se perceba que a linguagem é o princípio e o fim de tudo, o campo de batalha onde se travam todas as guerras. E que não pode haver "imparcialidade" ou sequer ingenuidade no jornalismo em termos de direitos humanos.»

«O que está aqui em causa não é pois só Hugo Godinho e o seu "preta". É o que raio se pensa que é o jornalismo. O que raio se pensa que é o racismo. O que raio se pensa que é a linguagem. Tudo, portanto.»

Fernanda Câncio no DN.
.

14.5.21

Racistas, nós?

 


Uma das notícias do dia: a Agência Lusa identificou suplentes do PS a uma eleição, sendo uma pessoa identificada como "preta". Aparentemente (não fui verificar), vários jornais fizeram copy/paste sem pestanejar, agindo como robôs não inteligentes. Assim vamos, num país onde nem a sensibilidade ao racismo fez ainda o seu caminho.

(O editor de Política já pediu a demissão.)
.

18.3.21

Memória histórica

 


«Nem todos os portugueses partilham o sentimento de hiperidentidade que o Eduardo Lourenço elogiou na passagem da ditadura para a democracia. A crítica histórica é sentida por alguns como um atentado ao ser coletivo, enquanto a crítica literária, inclusive de autores que se distinguiram pelo julgamento corrosivo do seu mundo contemporâneo, como Eça de Queirós, levanta imediatamente um coro de protesto. O património literário ou histórico não é uma relíquia; Eça ironizou sobre o tema. Existe uma hipersensibilidade negativa que não parece espontânea, faz parte do jogo político mais recente.

A crítica é inerente ao devir de uma nação, não existe nem pode existir uma visão uniforme do que somos hoje e do que fomos no passado. Qualquer país é atravessado por divisões sociais com interesses divergentes e mesmo antagónicos, que se refletem em visões conflituosas do passado e do presente. É dessa dinâmica que se faz uma nação enquanto dimensão coletiva de um povo com património linguístico e cultural multidirecional, em permanente construção e reconstrução.

Quando organizei com o Diogo Ramada Curto o livro A memória da nação (1991), a ideia era justamente compreender as múltiplas dimensões de um devir histórico modelado por relações de poder em constante negociação, direitos contra privilégios, regimes de propriedade, formas religiosas e configurações culturais que contribuíram para formas plurais de identidade. Esse projeto era inspirado por três autores, Pierre Nora, que publicara os Lugares de memória, um vasto estudo coletivo do património francês como marca identitária, Alphonse Dupront, interessado na história do mito da cruzada e na fabricação do sentimento nacional, e Eric Hobsbawm, o historiador inglês mais influente do século XX, que estudou processos de invenção do passado. Embora a dimensão de classe social e de construção histórica estivessem presentes, a dimensão de género e a dimensão étnica ou racial não estavam assimiladas.

A diferença entre memória histórica, baseada na análise crítica do passado, e a memória coletiva, necessariamente plural, em permanente mudança em função das realidades do presente, que impõem reorganizações e amnésias na perceção do passado, ficou contudo clara. Existem intersecções entre a memória histórica e a memória coletiva, pois as políticas da memória desenvolvidas pelos poderes públicos procuram celebrar acontecimentos e erigir monumentos que consagrem os fundamentos dos respetivos regimes.

O conflito em torno das comemorações do centenário do Infante D. Henrique em 1960, que deixou traços no Padrão dos Descobrimentos e no arranjo da Praça do Império, opôs uma visão da história baseada na religião e nos homens providenciais, clara apropriação salazarista do passado, a uma visão da história baseada na dimensão coletiva da emigração em massa (um milhão e meio até ao início do século XIX, numa população que variou de um a três milhões), onde os interesses económicos e comerciais desempenharam um papel decisivo, sem esquecer a religião. A visão elitista do salazarismo, que bem cuidou dos interesses dos ricos, como assinalou Eduardo Lourenço, está expressa na fonte da Praça do Império, com os brasões de armas das casas nobres que teriam feito a expansão portuguesa. Nunca defendi a demolição destes monumentos por duas razões: o Padrão dos Descobrimentos foi objeto de um bom trabalho de adaptação, memorialização e atualização de programa, enquanto a fonte deve lá ficar como testemunho de um regime ditatorial e elitista que não pode inspirar ninguém com a cabeça no século XXI. Não falo sequer da proposta de restauro dos jardins kitsch com a heráldica colonial, é simplesmente ofensiva dos países africanos e asiáticos com quem devemos ter boas relações.

O projeto de 1991, que recusava a apropriação da linguagem da nação pela extrema-direita nostálgica, que eu distingo da direita liberal, precisa de ser atualizado. Nos últimos 30 anos Portugal aprofundou a sua relação com a União Europeia, embora a economia tenha registado uma relativa estagnação desde os anos 2000, agravada pela crise financeira de 2008 e pela crise da covid-19 em 2020. Esta relativa estagnação tem suscitado tensões numa população que criou expectativas de uma vida melhor que não têm sido satisfeitas. A desigualdade económica e social entre ricos e pobres, que se atenuou até ao final dos anos de 2000, aumenta de novo, com a apropriação de boa parte da riqueza por 1% da população mais rica. A emigração tem tido altos e baixos, mas em relação ao total da população Portugal tem uma das taxas mais elevadas de saídas acumuladas. Por fim, a imigração, que teve um pico com a independência dos PALOP, continua a fluir para cobrir as necessidades de trabalho agrícola que não atraem os portugueses, responder a condições políticas insuportáveis noutros países, e aproveitar as novas oportunidades de Visa Gold e impostos preferenciais para reformados estrangeiros.

Embora não existam estatísticas sobre a nova realidade racial da população portuguesa, é evidente que o impacto de duas gerações de imigrantes com diferentes origens exige um esforço de integração. A memória histórica das realidades da nossa própria emigração multicontinental pode ajudar. O debate em torno do racismo não pode ser varrido como um problema artificial, tornando equivalentes racistas e antirracistas, manobra maliciosa de naturalização e justificação da discriminação. Acusar de fratura da identidade nacional a denúncia do racismo é uma tentativa de calar os que sofrem e estão do lado da lei. Os últimos estudos económicos sobre discriminação racial, como o de Heather McGhee em relação aos Estados Unidos, certamente com problema mais fundo, mostram a importância de políticas de desenvolvimento integradas.

Todos conhecemos as sondagens europeias mais recentes que indicam 60% da população portuguesa com opiniões racistas. A minha definição de racismo envolve duas componentes, preconceito contra descendência étnica combinado com ação discriminatória. A maioria da população não está envolvida na discriminação de minorias, mas o problema deve ser tratado com toda a seriedade, pois existem crimes racistas regulares, como o assassinato recente de Bruno Candé, os constantes ataques físicos e verbais a dirigentes associativos e jogadores de futebol, as pichagens insultuosas nas paredes de associações e escolas, a interrupção de sessões escolares com mensagens racistas. As crianças devem ser protegidas de traumatismos que ficam para a vida.

As sondagens revelam, antes de mais, a ignorância da norma antirracista que prevalece no mundo desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 1948, a qual influenciou a nossa constituição e legislação penal, baseadas na noção de dignidade e igualdade de todos os seres humanos. Trata-se de uma falha clamorosa de educação cívica para a qual o Conselho de Educação já alertou e que exige ação do ministro responsável.»

.

13.3.21

Carta aberta de Mamadou Ba ao primeiro ministro

 

«Há dias, quando o primeiro-ministro (PM), em entrevista a este jornal, se pronunciou sobre o avanço do populismo fascista e pretensas “guerras culturais em torno do racismo ou da memória histórica”, demonstrou até onde podem ir o seu taticismo político e a simplificação do debate sobre a questão racial e sua relação com o passado colonial. Escolheu rematar com uma lamentável equiparação (e personalização) entre forças neofascistas e o movimento antirracista: “nem André Ventura nem Mamadou Ba representam aquilo que é o sentimento da generalidade do país. Felizmente.” E daí prossegue para a estafada ladainha lusotropicalista, convocando acriticamente a dita miscigenação, o diálogo intercultural, etc.»

Continuar a ler AQUI.
.

5.3.21

António Costa

 


António Costa, Público, 05.03.2021

E o. primeiro ministro também não representa aquilo que é o sentimento generalizado do país. Felizmente.
.

A coragem de Mamadou Ba

 


«Mamadou Ba tem quase um metro e noventa, é corpulento e exibe um sorriso meio irónico, meio desafiador que parece dizer “eu vim para vos lixar a cabeça.” Sabe-se como, em geral, os brancos não gostam de negros impertinentes. A arrogância é uma característica deplorável, mas num negro ela torna-se quase inaceitável. Querem um exemplo? Ljubomir Stanisic, o último macho-alfa do planeta, tão seguro de si que quase explode de confiança. Desbocado, temerário, agressivo, parece um homem sempre pronto a recorrer à violência e que, por isso mesmo, e só por isso, não tem de recorrer à violência. Resultado? É uma estrela. Pagam-lhe milhões. Se fosse um negro? Deus nos livre!

O negro aceitável é humilde, bondoso, dócil, submisso. Pode ser intratável, mas apenas no raio limitado das suas competências. Por exemplo, o foco, a obstinação, o fervor maníaco de um Nélson Évora em competição é valorizado porque é lúdico, canalizado para uma atividade de regras estabelecidas e indiscutíveis. Fora isso, preferimos um Obikwelu, um tipo desarmante de tão simpático e genuíno, mas cujas características – que nada me faz acreditar que não sejam genuínas – tocam no nosso subconsciente: “este preto não é perigoso.”

Com Mamadou Ba a história é outra. Pela sua postura, pela sua função desestabilizadora, é uma ameaça à tranquilidade geral. Como se recusa a encaixar no tipo narrativo mais conveniente para a maioria da população – branca – é quase a personificação do negro malévolo, perigoso, vingativo, eventual assaltante ou violador, o “turra”, o negro insubmisso, ingrato, que recusa as migalhas da misericórdia branca e exige ser tratado como um homem e, assim, cria um abalo sísmico no interior de um sistema em que o negro que levanta a voz é sempre mais ameaçador que um branco – porque o branco nem sequer tem de levantar a voz.

Adversários e inimigos de Mamadou Ba gostam de dizer que é um provocador, retirando dessa forma substância e conteúdo à sua intervenção política. Ba seria apenas um agitador, alguém que se diverte a chatear os outros. E é possível que haja esse lado de provocação, mas o que é que quase certo é que, numa sociedade como a nossa, a tolerância para com um provocador negro é infinitamente inferior à reservada aos provocadores brancos.

Que se saiba, Mamadou Ba nunca usou de violência física nem advoga qualquer tipo de violência, não é líder de um grupo terrorista nem, que eu tenha conhecimento, alguma vez ameaçou alguém. Mas é uma ameaça ao sossego, a um certo consenso podre acerca do lugar apropriado para os negros na nossa sociedade. É normal que muitos canalizem para ele o ódio que têm de conter noutras circunstâncias e com outras personagens, que o vejam como uma ameaça porque ele, ao falar como fala, ao intervir como intervém sendo negro em Portugal, é um sujeito raro.

Muitos acusam-no de contribuir para a destruição da harmonia social ao inventar uma questão racial que não existe. Mas a maior ameaça a essa suposta harmonia social é a própria existência dele nos termos por ele escolhidos. E as reações a essa postura destroem o mito da harmonia social que é apenas a ideia de que harmonia é cada um se manter no lugar que lhe está destinado. E Mamadou Ba não aceita isso.

Em termos políticos, não concordo em quase nada com Mamadou Ba e acho que a atomização da sociedade em pequenas células identitárias é nefasta e contraria os princípios de uma verdadeira democracia e de uma República. Há dias, estava a ouvi-lo na televisão e acho que não concordei uma única vez com ele. Mas admiro-lhe a coragem e o desassombro. Num país de subalternos e medrosos, não é coisa pouca.» 

.

28.2.21

Mamadou Ba – Aqui em Carne e Osso

 


O meu contributo AQUI.

«Mamadou, tu ficas. Como eu fiquei.
Nasci no mesmo continente que tu. Portuguesa de segunda, mas branca. E isso fez toda a diferença porque nunca me mandaram para a minha terra.
Hoje, estamos ambos neste país que é nosso e que precisa que continues a lutar para que seja melhor, para que os nossos filhos e os nossos netos tenham uma vida mais decente e de cabeça erguida. Para a frente, Mamadou, estamos contigo e o teu futuro é o nosso também.
Joana Lopes

.

A irreversível descolonização de mentalidades

 


«Sou do tempo do lixo nas praias tolerado. Das touradas enaltecidas como um grande espectáculo. Do fumar nos aviões como sinal de requinte. Do casamento gay proibido. E do mito do país bom colonizador e integrador.

São apenas alguns exemplos. Outros haveria. No meu tempo de vida tenho vindo a assistir a mudanças profundas na forma como olhamos as questões ambientais. As touradas, com mais ou menos ruído, amanhã ou daqui a uns anos, irão acabar. O fumar em aviões provoca sorrisos hoje. Pessoas do mesmo sexo podem casar. A descolonização política já aconteceu. Falta cumprir-se a difícil descolonização de mentalidades.

Ela está em marcha há anos. É um processo, como todas as mudanças, com fases de avanços e recuos, adormecimentos e efervescências, durante muitos anos remetida para circuitos académicos, educacionais ou culturais, e agora também presente no espaço público como um todo.

As camadas de discussão variam muito — às vezes parecendo muito amadurecida na voz de alguns actores, mas na maior parte das vezes, embrionária, porque só agora está a chegar a alguns sectores da população. Uma coisa parece certa. Não existe, neste momento, forma de fugir ao debate sobre a colonização e o pós-colonialismo, e todas as estruturas racistas que daí emergiram.

E ele é irreversível até porque muito já mudou. É daí que surgem parte das polémicas com a linguagem e os símbolos. Não se trata de mudar o nome das coisas ou de apagar o passado e a história, mas de renomear a transformações já desencadeadas, pela revelação de outras lembranças que foram sendo ocultadas ao longo do tempo ao abrigo das representações dominantes.

Nos últimos dias, a propósito da petição para a deportação de Mamadou Ba, do voto de pesar no parlamento português pela morte de Marcelino da Mata ou da polémica em torno do Padrão dos Descobrimentos trazido por Ascenso Simões, foi isso em grande medida que se verificou. O que surpreende no meio disto tudo é a quantidade de auto-intitulados “moderados” que insistem em falsas simetrias, como se fosse possível comparar quem passa o tempo a reafirmar um discurso nacionalista, que vai facilmente buscar pontas soltas às representações oficiais supostamente neutras (do Estado, do ensino ou dos rituais quotidianos), com quem põe em causa essas narrativas hegemónicas, adicionando-lhe outras camadas de entendimento e quebrando pactos de silêncio sobre vidas violentadas, revisitando memórias para a sua reconstrução.

Acredito que isso acontece por razões diversas. Alguns porque se sentem postos em causa nos seus privilégios, baseados nas desigualdades estruturais, no tocante à classe, género ou raça, até porque está tudo ligado: colonização, opressão e exploração. Esses revelam-se até mais obstinados do que nunca, na sua rejeição da história, sentindo-se ameaçados. Mas também é justo dizer que outros simplesmente não tiveram condições para entender na plenitude o que está a acontecer.

Não é fácil pormo-nos em causa, individualmente ou colectivamente. No entanto, neste caso, existem razões para optimismo. A descolonização de mentalidades vai mesmo acontecer, por entre tensões, retrocessos, incompreensões e alguns excessos. Não só por isso, mas também porque hoje existe nitidamente uma nova geração que está disponível para lidar com os traumas coloniais, a história violenta do colonialismo, o racismo e a sua articulação com outras sujeições, abrindo brechas por entre a negação, o mito do bom colonizador e o romantismo do país integrador. Somos cada vez mais.»

.

25.2.21

Mamadou Ba

 


Que atire a primeira pedra a Mamadou Ba depois de ouvir esta entrevista de 26 minutos, ontem, na TVI24.
.

Foi você que falou de “cancelamento”?



 

«O “cancelamento” de figuras públicas por causa de opiniões consideradas menos corretas é muito popular nos Estados Unidos. Ondas de julgadores usam as redes sociais e o espaço público para banirem alguém por alguma coisa que disse ou defendeu, obrigando-o a ceder, a mudar de posição ou a fingir que mudou. Ou a calar-se. A conversa é mais difícil do que parece. Qualquer pessoa tem o direito a reagir a uma opinião que lhe desagrada ou repugna. A democracia vive disso. Quando isso passa a ser viral os efeitos podem ser devastadores. E, no entanto, cada um dos que reage não faz mais do que usar a sua liberdade de expressão. Cabe-lhe distinguir se participa num linchamento que serve para criar medo de falar ou num debate livre com contraditório.

Também não é indiferente a função da pessoa que é contestada. Se for alguém que ocupa um cargo de relevância política, o escrutínio das suas opiniões é inerente à sua função. Exigir que as pessoas não avaliem as suas opiniões é querer amputar a democracia de conteúdo. Os políticos não são meros gestores. O que pensam e dizem conta. É o que mais conta, aliás.

Para se vitimizarem, sectores mais conservadores da nossa sociedade importaram de forma bastante amplificada as dores das vítimas da cultura de cancelamento nos EUA. Mas basta passear pelas redes sociais para perceber como o debate é um pouco deslocado. Sim, há uma cultura de trincheira que se instalou em todo o lado, onde a persuasão foi substituída pelo julgamento, a opinião livre pelo tribalismo e o argumento pelo insulto. À esquerda e à direita. Mas, tirando em alguns nichos no Twitter e alguns artigos de jornais, o “politicamente correto” é um produto gourmet de consumo limitado em Portugal. Mesmo na Academia, é quase irrelevante. Se há madraças políticas neste país, são as faculdades de economia, onde pontos de vista ideológicos são impostos como se de ciência exata se tratasse. Ainda recentemente tivemos sinais da dificuldade que essas faculdades têm em ver o seu nome associado à livre expressão do pluralismo.

Na semana passada, os mártires do “politicamente correto”, com posição hegemónica no espaço de opinião, dedicaram-se a rasgar as vestes por causa do escrutínio a posições que o novo presidente do Tribunal Constitucional deixou escritas sobre assuntos de relevância constitucional. Não escrevi sobre o tema porque nem ele me aquece muito nem, no início, achei que um artigo escrito há onze anos tivesse relevância suficiente. Quando todos os artigos surgiram ficou evidente um padrão de opinião. Legitima e livre, mas nem por isso irrelevante quando tem relação com o cargo que o jurista agora ocupa. Respeitar a liberdade de expressão não é tornar as opiniões inconsequentes. Isso é, aliás, desrespeitá-la. Quando são públicas e se relacionam com a função num determinado cargo público, devem ser debatidas e escrutinadas.

Enquanto as supostas vítimas do “politicamente correto” se queixam de qualquer crítica feita em qualquer rede social, sem qualquer consequência que não seja a legítima manifestação de discordância de cada um, acontecem coisas realmente graves neste país. Verdadeiras tentativas de cancelamento, mas em versão musculada.

Trinta mil pessoas assinaram uma petição, que levarão ao Parlamento, propondo a deportação de um cidadão português por ter chamado criminoso de guerra a Marcelino da Mata. A contestação é esta afirmação é legítima e livre, a consequência que propoem é reveladora. Não sei quantos xenófobos haverá em Portugal. Mas trinta mil já são seguros. Porque quem acha que um português que nasceu noutro país merece pena diferente pelo uso da sua liberdade de opinião do que quem nasceu em Portugal assume-se sem margem para dúvidas como xenófobo. Acha que há cidadãos de segunda, com liberdades de segunda e opiniões de segunda, dependendo do lugar onde nasceram.

Comparar o escrutínio, absolutamente natural em democracia, de posições sobre matérias constitucionais de um presidente do Tribunal Constitucional aos apelos de deportação por delito de opinião é um insulto à nossa inteligência. Defender a liberdade de expressão não é defender a indiferença perante a opinião. É defender que o escrutínio se faz dentro das regras democráticas.

Na mesma semana, André Ventura espalhou um vídeo de uma aula à distância, captado ilegalmente, para acicatar o ódio dos seus apoiantes contra um professor devidamente identificado, sem qualquer instrumento de defesa, que referiu uns factos que ele acha que não podem ser referidos nas aulas. Apesar de tudo, não nos podemos queixar. Por cá, ainda não se prendem rappers pelo conteúdo das suas músicas.

Há uma total dessintonia entre a vitimização de um sector político da sociedade e o seu comportamento. Perante qualquer critica, queixam-se do cancelamento e da censura do “politicamente correto”. Mas para os que se atrevem a confrontar as suas posições exigem processos disciplinares e deportações. O objetivo da vitimização militante e da intimidação agressiva é o mesmo: ficarem a falar sozinhos. Foi sempre o que fizeram na História. Até chegarem ao poder e usarem meios mais eficazes. Não é que nos escondam ao que vêm. A deportação é, como foi no passado, o mais simpático que têm para oferecer.»

.

23.2.21

As manifestações racistas passaram para outro patamar

 


«Uma sessão organizada pela Associação de Estudantes da Escola Secundária de Camões, via Zoom, foi interrompida por várias pessoas com ataques racistas e neonazis. Segundo o "Público", a sessão tinha como tema "A Influência da Escravatura no Sistema e o Racismo Institucional", contava com a colaboração de um grupo de alunos africanos e foi interrompida pouco depois de ter início.

De rosto disfarçado, os infiltrados mostraram imagens de suásticas e de pessoas negras violentadas. No vídeo que ficou gravado ouvem-se sons de macacos e várias vozes, em inglês, a dizer "preto volta para África". Foram ainda desenhadas suásticas nos rostos de pessoas negras e de quem estava a falar.»


.

1.12.20

01.12.1955 – O dia em que Rosa Parks recusou levantar-se

 


No dia 1 de Dezembro de 1955, em Montgomery, a parte da frente de um autocarro reservada a passageiros brancos já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa Parks se levantasse e cedesse o seu na secção dos negros. Rosa recusou, foi presa e o seu acto passou a ser um marco importante na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. 

A história está bem resumida neste vídeo: 



E Pete Seeger não a esqueceu:


.

25.8.20

Racismo e Xenofobia



«"Racismo" é semanticamente mais abrangente (teoria, atitude, sistema político ou social), implica a crença de que algumas "raças" são superiores e a tentativa de racionalização dessa crença. Por seu turno, a xenofobia é apenas sentimento, preconceito, muito menos orgânica e teorizada do que o racismo (nomeando o medo ou fobia do diferente, do desconhecido, digo eu).

Seguramente os especialistas em história e ciências sociais justificarão estes factos lexicológicos. Eles permitem demonstrar que o léxico acompanha e testemunha os avanços das sociedades e do pensamento e, ainda, que as línguas vivas acolhem naturalmente as palavras de que necessitam em cada momento e se enriquecem também deste modo.»
.

21.8.20

O fim da ingenuidade


«Pensar, num mundo hiperconectado, que este ódio não se propagaria a Portugal, é ser-se ingénuo ou optar por deliberadamente fazer vista grossa. Em entrevista recente ao “Público”, Álvaro Vasconcelos, do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa, considera que se ultrapassou uma linha vermelha e que o “discurso racista do Chega na Assembleia da República criou as condições políticas” para a escalada que estamos a assistir. “O discurso racista mata, é violência e foi-se banalizando em Portugal, foi assumido pelo Chega, teve a cumplicidade de muita gente da sociedade portuguesa, sem que as instituições da República fizessem um repúdio frontal”.»

.