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31.8.20

Sem palavras



«A Associação Alzheimer Portugal deixou, este domingo, um apelo às autoridades de saúde para que tenham especial atenção com os pacientes que sofrem de demência, no contexto da pandemia de Covid-19.

Nos últimos meses, perto de uma dezena de idosos com demência foram proibidos de entrar com acompanhante nos hospitais por causa das medidas de contenção da Covid-19 e acabaram mais tarde por ser dados como desaparecidos, depois de receberem alta hospitalar sem que os familiares tivessem conhecimento.»
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28.8.20

Situaçã ode Contingência?


Esta ameaça de Situação  de Contingência a mais de duas semanas de distância lembra-me uma velha história. Um pobrezinho bate a uma porta e diz à dona e casa que está cheia de fome. Ela pergunta-lhe se ele gosta de peixe frito na véspera e ele responde, entusiasmado, que adora. A senhora diz-lhe que volte no dia seguinte porque acabou de o fritar.

Entretanto, haverá quase vinte dias para os portugueses espalharem o vírus, à voltas por Portugal porque ainda têm os filhos em férias, e os ingleses podem desembarcar em massa no Algarve e beberem uns litros de cervejolas até tarde na noite. Deve ser essa a ideia. Boa tarde e boa sorte.
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26.8.20

Entre PM e Ordem dos Médicos, a saga continua




«O conflito entre a Ordem dos Médicos (OM) e o primeiro-ministro não acabou, afinal. Depois de muitos médicos terem ficado insatisfeitos com as declarações de António Costa no final da audiência com a OM — queriam um pedido de desculpas público —, o bastonário Miguel Guimarães enviou nesta quarta-feira de madrugada uma nota aos 50 mil profissionais do país na qual diz que António Costa “não relevou a mensagem de retractamento da mesma forma enfática” que usou na reunião e acusa-o de não ter transmitido “integralmente e fielmente” aquilo que “minutos antes tinha reconhecido” no encontro.

Quanto à assistência prestada pelos médicos dos centros de saúde aos idosos residentes em lares, o entendimento é diferente do do Ministério da Saúde. “Estes devem acompanhar os utentes das suas listas nos vários ciclos de vida, nomeadamente quando estão numa Estrutura Residencial para Idosos, quando o apoio configure uma situação de domicílio, como sempre o fizeram até à data”. Se isto não significa que os médicos de família deixem de acompanhar os residentes "das suas listas nos vários ciclos de vida, nomeadamente quando estão numa estrutura residencial para idosos, quando o apoio configure uma situação de domicílio, como sempre o fizeram até à data”, a regra deve ser a de que os lares do sector social e privado passem a “ter apoio médico contratado para garantir que os seus utentes são acompanhados de forma regular”.»
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24.8.20

Butão, un país num conto de fadas?



Nem tudo é perfeito neste país, bem longe disso, mas não há muitos que se pareçam com ele.


«Bem recentemente, com a ameaça do COVID-19 a globalizar-se, ficou mundialmente célebre a simpatia com que acompanhou o primeiro caso da doença registado no país: um turista norte-americano de 76 anos, a quem, em seu nome, foram oferecidos pijamas e cobertas de seda. Como o doente não mostrasse sinais de melhoria, foi-lhe proporcionado o regresso aos Estados Unidos no avião real com um conforto e cuidado impossíveis de outro modo. Quando finalmente melhorou, os médicos norte-americanos não tiveram dúvidas em afirmar que o tratamento recebido no Butão tinha-lhe salvo a vida.»
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23.8.20

Neste Portugal dos Pequenitos


Estive umas horas fora das redes socais, entro e vejo, «post» sim «post» não, uma tempestade porque Costa, numa gravação de um aparte em off, terá chamado «gajos cobardes» a médicos. Ficaram muito admirados? E a sério que isto é o tema mais importante do universo no dia 23.08.2020? Se calhar até pode vir a ser e, pelo sim pelo não, já fiz «download» de um vídeo de 29 segundos, não vá ele valer uns milhões num leilão da Christies’ no século XXII.
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17.8.20

O lar de Reguengos e o preço de encerrar um país pobre



«Não é apenas em Portugal que os lares são os espaços mais sensíveis para esta pandemia. Cá, acrescem problemas como a pouca qualificação dos funcionários e os lares ilegais. Será a justiça a avaliar o que a lei pode punir, caso se confirme a macabra conclusão do relatório da Ordem dos Médicos que a ministra decidiu que não valia a pena ler antes de dar uma entrevista em que este seria, previsivelmente, um dos temas principais. Não é todos os dias que se descobre que pessoas institucionalizadas morreram desidratadas. Por isso, é justo que as falhas na fiscalização e a responsabilidade política da ministra em relação ao que aconteceu no lar de Reguengos dominem o debate público. Sobretudo depois da entrevista catastrófica que deu ao Expresso.

Mas é bom recordar que a responsabilidade primeira é da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, proprietária do lar e dirigida pelo presidente da Câmara. É injusto sublinhar o trabalho extraordinário do sector social quando corre bem e ficar pelas responsabilidades de fiscalização do Estado quando corre mal. Quando se trata de transferir funções sociais do Estado o sector social está acima de qualquer suspeita, mas quando há ganhos políticos a tirar de uma tragédia lá se descobre que também nele reina a promiscuidade com interesses partidários (e económicos, e religiosos). Porque este é um problema transversal ao país, não apenas no Estado.

Sei que todos preferiam ficar por aqui. Mas há uma culpa coletiva que pesa sobre os nossos ombros. Alimentamos um equívoco há meses: o de que instigar o medo nas pessoas levaria a que se preocupassem mais com os mais vulneráveis, a começar pelos velhos. Nunca foi assim nas pandemias. Para além de revelarem as fragilidades que já existem na sociedade, elas tendem a exibir os instintos mais primários e egoístas. E é por isso que os velhos de Reguengos foram abandonados. Porque o medo foi instigado até à crueldade. É verdade que, pelo menos ali, os problemas nem sequer começaram com o covid. Ele só agudizou o abandono. Ali e um pouco por todo o lado. O isolamento em relação às famílias e à sociedade nunca poderia ser bom para os mais velhos. Era só mais fácil, no meio do pânico.

Agora, que começa a vir à superfície o preço encerrar um país pobre em casa e nos lares, serão os que exigiram que isso se fizesse depressa, em força e sem ponderações os mais lestos a procurar os culpados pelos custos do confinamento. As doses cavalares de medo, que a absurda repetição quase diária em telejornais do número de mortos e infetados alimentou, tem forte responsabilidade no abandono destes velhos. E nos muitos que morreram por não procurarem ou não encontrarem apoio médico noutras doenças. E nas crianças roubadas do seu crescimento saudável. E no suicídio económico do país.

Estou nos antípodas da irresponsabilidade de um Bolsonaro ou de um Trump. Há uma pandemia e temos de ter cautelas. Mas a morte pela cura está mesmo a consumar-se. E estas mortes terão de pesar na consciência de quem, mesmo depois delas, não tenha a coragem de correr alguns riscos no regresso ao mínimos de normalidade. Comecemos por nos redimir abrindo todas as escolas, já em setembro, apoiados em estudos que nos dizem que é isso mesmo que temos de fazer.

Quanto aos lares, espero que este macabro episódio (que, como escreveu o Henrique Raposo, mobilizou menos indignação do que a tragédia de Santo Tirso) tenha pelo menos servido para deixar claro que o isolamento dos velhos nos lares é um crime. Morrer velho por causa de uma pandemia é, desde que às vitimas tenha sido dado o direito de escolha lúcida e informada, uma tragédia. Mas faz parte das tragédias humanas. Morrer abandonado e desidratado é uma inaceitável crueldade. Todos acabaremos por morrer, mas as mortes não são todas iguais. Pelo menos no que dizem da sociedade em vivemos.»

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13.8.20

O medo não pode ter tudo



«Somos humanos na exata medida em que nos relacionamos, estabelecemos relações sociais. Nunca tivemos dúvidas desta circunstância que nos diferencia dos restantes seres. Mas as coisas estão a mudar. O vírus, que nos apanhou de surpresa, mais do que a ameaça do risco de morte, parece roubar-nos a humanidade, uma longa história de partilha de afetos. Empurra-nos para a solidão, para um egoísmo securitário. Quantas vezes dou comigo, hesitante, sem saber o que fazer, sem ter a certeza se deva procurar aquela pessoa querida ou se ao fazê-lo estarei a causar um problema - a ternura a tornar-se ameaça.

Ficamos assim, por opção consciente ou apenas por constrangimento, longe de quem gostamos. Além do fim do abraço, um gesto tão antigo que a higiene sanitária proíbe, escondemos o rosto, recolhemos a casa, comodamente, para afugentar a peste. No fundo, julgamos que o outro prefere estar longe de nós. O medo, o medo vai ter tudo?

Em mais de 30 anos, este verão, o convívio que a minha família faz todos os verões numa serra do Minho ficou ensombrado. O receio de contágio, contagiar o outro ou ser contagiado, está a provocar o que nenhuma circunstância, mesmo as mais trágicas, alguma vez ousou alcançar. Desistir de estarmos juntos, de inventar jogos para os mais pequenos, de fazermos a desforra do jogo de damas que perdemos no ano anterior. De nos rirmos, de ouvir o discurso jocoso a fechar a festa e nomear os "mordomos" para a do ano seguinte. Senti que pertencia à família quando fui pela primeira vez a esta festa ao ar livre, quando levei comigo os meus pais, e com os meus filhos ao longo do ano preparamos a reunião fraterna. Se este ano não formos à serra da Cabreira com um belo farnel, é aos mais novos desta enorme família que estamos a roubar alguma coisa. Não deixemos que o vírus nos vença. O medo não pode ter tudo.»

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11.8.20

O vírus do abandono


«Cerca de 40% das mortes por covid em Portugal aconteceram nos lares. Numa carta enviada ontem ao primeiro-ministro, o Sindicato Independente dos Médicos classifica de "criminosa" a inação do Estado relativamente a estas estruturas, considerando que faltam planos de contingência e "não existem orientações nem regras claras" quanto aos procedimentos de atuação em caso de surtos. "Acima de tudo, como é que foi possível o Estado Português, através do ministério que tutela lares, não exercer a sua função fiscalizadora"?, questionam os médicos. (…)

Na habitual conferência de imprensa onde diariamente são comunicados os óbitos, o secretário de Estado da Saúde informou ontem que há neste momento surtos ativos em 72 lares, com um total de 545 idosos infetados. Quantos desses lares serão como o de Reguengos de Monsaraz? E quantas outras mortes já não terão sido - ou serão ainda - provocadas pelo vírus do abandono?»

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10.8.20

Custos da pandemia



«Cerca de 186 mil precários perderam o emprego no segundo trimestre comparativamente a igual período de 2019.»

«Menos 122 mil jovens empregados o que equivale a dois terços da destruição de emprego total no ano que termina no segundo trimestre de 2020.»

«O grupo dos licenciados (com ensino superior completo) [sem emprego]: este quase duplicou de tamanho. São atualmente cerca de 66 mil, mais 89% do que no ano passado.»
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Vamos sequestrar os velhos por quanto tempo?



«Ainda nos idos de março, estava a pandemia no início, fiquei comovido com a forma como os portugueses se mobilizavam para proteger os seus mais velhos e doentes, que são os principais grupos de risco da covid. Rapidamente passou a comoção. Dada a histeria coletiva e a perceção totalmente distorcida do risco envolvido com a doença, convenci-me de que, afinal, a generalidade dos portugueses estava era preocupada consigo mesma ou, vá lá, com os seus familiares. Nada disto é científico, claro, eram perceções.

A reação pública, ou a falta dela, às mortes no lar de idosos de Reguengos de Monsaraz aumenta a minha convicção. Nesse lar houve um surto de covid, vários foram os infetados, não apenas entre os idosos, e acabaram por morrer 18 pessoas. No entanto, ficámos a saber, a maioria das mortes não resulta dessa doença, mas sim da falta de cuidados médicos. Os velhos morreram desidratados e, quando finalmente receberam assistência médica, tinham as suas doenças crónicas agravadas. Morreram porque foram abandonados à sua sorte. O que se seguiu? Gritos histéricos nas redes sociais? Não. Gritos histéricos dos partidos da oposição? Não. Palavras de conforto de Marcelo Rebelo de Sousa? Não. Mensagem grave, em direto para o telejornal das 20h, da Ministra da Saúde, da diretora-geral da Saúde ou da ministra do Trabalho e da Segurança Social? Não. Admito que me possa ter falhado alguma notícia, mas de facto não assisti a nenhuma comoção nacional. Nem pouco mais ou menos. Apenas nos disseram que o Ministério Público ia abrir um inquérito.

Esta ausência de choque com a morte de velhos abandonados à sua sorte mostra que não eram eles a nossa preocupação quando tirámos as crianças e jovens das escolas e nos enfiámos em casa. Mostra também que tão perigoso como a covid (ou, na verdade, mais) é o nosso medo. Mostra também o quão certeiro foi o Gato Fedorento quando em 2007 nos disse que os velhos não deviam ser despejados nas ruas, mas sim no Velhão, “o sítio onde deitamos os velhos fora quando já não precisamos deles.”



Neste momento, muitos velhos estão num regime de sequestro nos lares de terceira idade. Não podem, de facto, sair, porque se saírem a sua reentrada está vedada. Não podem receber visitas a não ser à distância, pelo que não podem sentir sequer um toque ou um carinho dos seus filhos. Como as visitas estão altamente condicionadas, a sua frequência é agora muito menor, apenas podendo ver os seus familiares de forma muito espaçada. Pelo menos em alguns lares, não sei se todos, a entrada está vedada a crianças até aos 12 anos de idade, pelo que nem grande parte dos netos podem ver.

O caso de Reguengos de Monsaraz leva-me a desconfiar que todas estas medidas não são para proteger os velhos, mas sim para preservar os responsáveis dos lares de eventuais chatices. Assim, podem sempre alegar que fizeram tudo o que era possível.

Não sei se não seria preferível a morte a tal sorte. De qualquer forma, seja com que intenção for, está na altura de perguntarmos com cada vez mais insistência: e se não houver vacina eficaz? Vamos manter os velhos sequestrados no lar durante quanto tempo? Até deixarem de reconhecer os netos?»

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9.8.20

Índia: o drama que se previa




«A Índia ultrapassou os 2 milhões de casos do novo coronavírus e é o terceiro país do mundo com o maior número de infetados - depois dos Estados Unidos e do Brasil. (…) No entanto o número pode estar subestimado, visto que as autoridades indianas não testam pacientes assintomáticos.»
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8.8.20

França 2078 - com optimismo


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Democracia e futuro normal



«Continuamos, justificadamente, a ter medo da covid-19, mas há por aí outros vírus perigosos que sorrateiramente se vão instalando.

A associalização e o confinamento militante em que vamos sendo acantonados tornam-nos tolerantes perante violações de direitos individuais e coletivos, e produzem uma sociedade apática.

A má gestão e a não resolução de grandes problemas socioeconómicos, como aqueles com que nos deparamos, geram perigosos subprodutos. No plano político, projetos ultraconservadores e fascistas. No plano social, um crescente de microconflitos, de falsas disputas e clivagens: nas relações entre gerações, potenciando disfunções e ruturas; no trabalho, aproveitando condições diferenciadas dos trabalhadores ou colocando o setor privado contra o público, para incapacitar a ação coletiva e intensificar a exploração; nas relações entre maiorias e minorias e entre culturas, para gerar intolerâncias e ódios.

A esmagadora maioria das pessoas sente necessidade de segurança e estabilidade, de condições de sociabilidade, de uma economia a funcionar. Contudo, a expressão "retorno à normalidade" pode ser uma mera ilusão ou ter interpretações subversivas. O futuro nunca foi nem será retorno ao passado. Porém, podem surgir recuos e dolorosos retrocessos civilizacionais, camuflados de alternativa ou de modernidade no início do seu percurso.

O futuro constrói-se a partir das condições concretas em que nos encontramos. Pessoas, empresas e instituições não têm possibilidade de projetar o dia de regresso às condições existentes nas vésperas da pandemia que, em muitos casos, pura e simplesmente, não existirão mais. É preciso conter os duros impactos sociais e económicos da pandemia, mas é um erro grave deixar para depois as políticas estratégicas de recuperação da economia. Aqueles impactos vão prolongar-se mais do que era expectável. Por outro lado, a retoma das atividades das empresas e dos serviços tem de ser progressiva (mesmo com resultados pobres ou negativos) para que exista criação de valor, se possam realizar reconversões de atividades, reestruturações de empresas e capacitação dos trabalhadores. Essa retoma é necessária para se criarem novos projetos e para posicionar melhor a nossa economia nas cadeias de valor em processos de mudança.

Se ficarmos pelo atentismo no "retorno à normalidade" podemos ter a certeza de que, rapidamente, chegaremos a uma situação em que os défices da nossa matriz de desenvolvimento e as fragilidades do Estado se agravarão, acompanhados pelo aumento exponencial do desemprego, pelo aprofundamento das injustiças, das desigualdades e da pobreza. Um cenário pesado para a esmagadora maioria dos portugueses pode ser um maná para estratégias de enriquecimento assentes em baixos salários, na apropriação de fundos coletivos e na amputação de direitos laborais, sociais e democráticos.

Neste tempo de exaltação da frugalidade e da moderação, lembremos quão frugais são os trabalhadores e o povo, e que a moderação nem sempre é uma virtude. Por vezes é tão-só a forma ardilosa de não incomodar as maiorias dominantes. Uma certa moderação e pretenso cavalheirismo, muito invocados por certas elites, deram cobertura a gestões danosas, a compadrios e corrupção, que nos custam hoje dezenas de milhares de milhões de euros.»

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7.8.20

Assim vai a globalização




«Fábricas têxteis de grandes retalhistas, como Primark, H&M e grupo Inditex, estão a despedir trabalhadores nas suas fábricas asiáticas. A justificação dada relaciona-se com os efeitos da pandemia de covid-19, mas um novo relatório da Business and Human Rights Resourse Centre (BHRRC, Centro de Recursos Empresariais e de Direitos Humanos, em português) indica como causa o sindicalismo dos empregados, avança o The Guardian, citando o documento.»
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Liberdade sob ameaça



«"Foi transportado num autocarro, escoltado por um carro policial com os rotativos ligados, para o hotel, ali chegado foi encaminhado para a zona do check-in, tendo-lhe sido atribuído o quarto, altura em que foi informado que não podia sair do quarto, onde teria de permanecer durante os próximos 14 dias. Foi informado que as refeições seriam fornecidas pelo hotel em três momentos definidos do dia, havendo duas alturas em que podia solicitar refeições/snacks adicionais. Acatou o que lhe foi indicado, verificando que havia um agente da PSP à porta de entrada do hotel".

Que crime cometeu este homem? Nenhum. E foi vítima de procedimentos próprios de um estado totalitário. A descrição, atrás citada, plasmada no acórdão do Tribunal Constitucional que declarou inconstitucional a quarentena obrigatória à chegada aos Açores, decretada pelo Governo regional, devia fazer-nos arrepiar e motivar ampla reflexão. Ela prova como o medo ganha terreno, tolhe-nos, aceitamos que nos privem da mais básica liberdade sem protesto. A reboque do vírus institucionaliza-se o controlo e a repressão. É bom lembrar que da parte do Governo de Lisboa não se ouviu uma palavra em relação à decisão do executivo liderado pelo socialista Vasco Cordeiro.

Em nome do vírus, e do medo de ser contagiado e de contagiar, estamos a soçobrar a uma tirania. Um tirania a transformar cada um de nós no polícia do outro, a deixar que o Mundo se feche, a viver virado para o interior de si próprio, da sua casa, da sua família mais restrita. Em suma, a aceitar docilmente que nos vigiem, que acompanhem os nossos passos, como se isso nos pudesse salvar. Ao contrário do apregoado por muitos, não sairemos melhores desta crise de saúde pública. Pelo contrário. Se nada fizermos, acordaremos num Mundo perigoso e totalitário. Já aconteceu outras vezes.»

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3.8.20

É bom que nos preparemos



«Se há coisa que aprendemos à força com esta pandemia compressora foi não fazer planos de rigorosamente nada: a verdade à segunda-feira pode ser de uma enorme imprecisão à sexta.

Na forma como o vírus muda, nos alvos preferenciais do contágio, na evolução da nossa saúde e na dos nossos, no sentido das medidas restritivas e, sobretudo, nas projeções económicas. Neste particular, estamos a confundir com naturalidade os pessimistas com os catastrofistas e os otimistas com os ignaros. Só podia ser assim, porque em algum momento desta narrativa vertiginosa ambos estiveram certos e errados.

Viveremos, provavelmente até ao final do mês, numa espécie de bolha artificial. Com setembro, começaremos a conhecer a verdadeira dimensão da hecatombe. O brutal encolhimento do PIB no segundo trimestre do ano (que reflete o período do Grande Confinamento) foi quatro vezes pior do que o pior da troika. Recuámos vários anos em escassos meses. Acresce que a retoma está a ser mais tímida do que o esperado, o turismo exaspera (o Algarve viveu mesmo o pior julho de sempre), as exportações estão congeladas e, no princípio, no meio e no fim, ainda temos de lidar com a progressiva erosão da força modificadora do Estado. Não por acaso, ouvimos o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, reconhecer que, findos os apoios públicos mais significativos na manutenção artificial do tecido económico, vão aumentar as insolvências e os desempregados.

O Estado foi a salvação de uma fatia considerável do país, mas o oxigénio está a acabar. E vem aí o inverno. E com ele a gripe sazonal e a ameaça cada vez mais certa de uma segunda vaga da pandemia. Ora, para acorrer a tudo será preciso um investimento adicional no Serviço Nacional de Saúde. Mais despesa.

A aparente sensação de normalização que nos foi dada pelo desconfinamento não deve entorpecer o nosso sentido de compromisso. A batalha é de todos os dias, reflete-se nas pequenas ações, gestos e cuidados. Temos de estar preparados para o que aí vem mesmo que não saibamos o que nos espera. Porque se formos forçados a parar tudo outra vez, não tenho a certeza de que o queiramos, ou possamos, fazer. Se chegarmos a esse extremo, teremos certamente outro entendimento sobre o valor da doença e da cura.»

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2.8.20

Para memória futura



The Guardian traz hoje esta fotografia de desembarque de passageiros do aeroporto de Hong Kong e tudo leva a crer que não se trata de ETs, mas sim de humanos terrenos.

Os loucos anos 20 são estes – os nossos.

(parece que a foto foi tirada em Março, e não agora, mas tanto faz para o caso.)
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1.8.20

Sacrificar tudo para combater um vírus



«Entrego à quinta a crónica de sábado. Esta semana, não foi exceção e, de acordo com o que se sabe hoje (quinta-feira), amanhã (sexta) o INE divulgará as suas estimativas sobre a evolução do PIB no segundo trimestre do ano. É provável que o leitor saiba mais do que eu. De todo o modo, a não ser que haja uma boa surpresa, o PIB deu um tombo de todo o tamanho. Provavelmente entre os 12 e os 15%.

Já no trimestre anterior, de acordo com as estimativas do INE, o PIB tinha caído 2,3% relativamente ao primeiro trimestre de 2019. O que assusta é que toda a quebra se deveu a março. Não temos dados mensais para o PIB, mas temos outros e muitos mostram que, nos primeiros dois meses do ano, a economia funcionava bem. Por exemplo, as exportações de bens, em janeiro, tinham aumentado 4% face a janeiro do ano anterior. Em fevereiro, tinham aumentado ligeiramente. Março foi o primeiro mês de queda. Caiu 13%. Olhando para o índice de horas trabalhadas na indústria, observamos um aumento de 10% em janeiro, em fevereiro uma estagnação e, no mês seguinte, uma quebra de 4%.

O mau mês de março foi suficiente para levar a uma quebra no PIB trimestral superior a 2%. No segundo trimestre, teremos, não um mau mês, mas sim três meses péssimos. Para se ficar com uma ideia, as exportações de bens, que em março tinham caído 13%, caíram 40% em abril e maio. Fala-se muito na quebra do turismo, mas nem procurei esses dados para não me deprimir mais. Os números do PIB para o segundo trimestre, que, repito, não conheço, deverão alertar-nos para a necessidade de a economia recuperar. Caso contrário, será uma catástrofe. Mas, dada a forma como discutimos o combate à covid, parece-me que não temos essa noção.

Desde março, o nosso conhecimento evoluiu em diversos sentidos: sabemos que a doença é menos grave do que se temia, somos mais eficazes no seu tratamento e as consequências económicas do confinamento são muito mais devastadoras do que as antecipadas. Bem sei que agora todos pensam que desde o início sabiam que ia ser uma catástrofe, mas não é verdade. Quando, em meados de março, num programa de TV, eu disse que, na melhor das hipóteses, o PIB de 2020 cairia 5%, a maioria das reações que recebi era a de que estava a ser catastrofista. Quando, a 21 de março, o Expresso fez uma sondagem a 10 economistas, daqueles muito famosos, um deles previu um crescimento de 1% para este ano.

Face a nova informação, é razoável rever as nossas políticas. Se o vírus, afinal, é mais manso, se a terapêutica melhorou e se o confinamento é desastroso, a atitude racional é não reagir de forma igualmente draconiana caso haja uma nova vaga.

Infelizmente, racionalidade e histeria são incompatíveis. E, neste momento, observamos essa histeria em vários domínios. No terceiro período, que agora acabou, dez das escolas reabertas fecharam por causa de alguns casos de covid. O que é extraordinário é que bastava haver um caso que viesse de fora da escola para a encerrar. Uma que fechou sem haver nenhum caso. Simplesmente, a histeria era tanta que um surto num lar de idosos levou ao fecho da escola e das creches dessa região. E, tendo o líder do principal sindicato de professores a gritar nas ruas que os professores não serão “carne para covid”, não é de esperar que haja mais razoabilidade no próximo ano.

Na Madeira, obrigam as pessoas a andar de máscara mesmo na rua. Em Leiria, criou-se a polícia anti-covid para patrulhar o concelho, dizendo a toda a gente para usar máscara na rua. Isto em pleno Verão. Como diz o meu irmão, chegaremos ao Outono com cara de cu.

Por todo o país, os parques infantis continuam fechados. As discotecas vão fechar às 8h da noite — eu nem sabia que abriam antes disso, para ser sincero. Hospitais públicos e privados funcionam a meio gás, alguns nem isso, por causa da covid. Para garantir que os hospitais não deixam de funcionar por causa do coronavírus, impede-se que os hospitais funcionem. É um curto-circuito na lógica.

Tudo isto é desproporcional. Era bom que nos convencêssemos de que a covid não desaparecerá. Vai haver novos casos e não podemos entrar em histeria de cada vez que forem reportados. O medo do desconhecido é real, mas compreendam que a reação das democracias a uma crise económica e social como a que estamos a provocar também é desconhecida. Falar em quebras do PIB a rondar os 15% é falar do risco de, em breve, haver milhares de portugueses a passar fome. Tenham noção.

Fico com a ideia de que os fundos da União Europeia têm tido um efeito péssimo na discussão pública. Parece que a recuperação económica dependerá desses fundos. Lamento, mas não. A recuperação económica dependerá de voltarmos a trabalhar e a produzir. Tudo o resto é paliativo.»

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