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3.8.17

Salazar, 03.08.1968 – A cadeira era de lona e tombou para trás



Franco Nogueira, Salazar, o último combate, vol. VI, p. 377:


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27.7.17

O velho foi à viola



«Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.
Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.
Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu. «Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando. Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?» Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!» Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.
A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.
Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.»

Diana Andringa


(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo, coordenada por António Simões do Paço.)
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28.5.17

28.05.1926 – A «Revolução Nacional»



Recordo a data quase todos os anos, não só para preservar a memória, mas porque deixou marcas que ainda hoje sofremos na pele – conscientemente ou nem por isso.

Em 1926, um dia terrível e decisivo na nossa História marcou o fim da 1ª República e esteve na origem do Estado Novo. Todos os anos havia comemorações, mas duas ficaram na memória.

Foi num outro 28 de Maio, mais concretamente em 1936, no 10º aniversário da «Revolução Nacional», que Salazar proferiu um discurso que viria a ficar tristemente célebre: «Não discutimos a pátria...»



Ainda num outro aniversário – no 40º, em 1966 – o chefe do governo, então com 77 anos, viajou pela primeira vez de avião até ao Porto (entre os outros passageiros, acompanhado pela governanta) para assistir às celebrações que tiveram lugar em Braga.



Não se ouve, neste vídeo, uma frase do discurso que deixou o país suspenso: «Eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargura no Governo». Mas Salazar continuou: «Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade da pátria».

E ficou – até que uma cadeira cumpriu a sua missão histórica.
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30.10.15

Fossem outros os tempos



Sem internet, redes sociais, liberdade de imprensa, etc., etc., talvez os protagonistas da cerimónia a que assistimos esta manhã, no Palácio da Ajuda, pudessem manter a ilusão de que estão / vão mesmo exercer as funções para que foram nomeados. Como não é o caso... temos pena.

(Imagem: Franco Nogueira, Salazar. O último Combate (1964-1970), vol. VI, p.427.)
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28.10.15

Será que este discurso de Salazar não se parece com nada?



Sensação de déjà vu desde o fim da semana passada. Encontrei o motivo:

«Para mobilizar 23% do eleitorado, as oposições fizeram a maior coligação e a mais completa junção de esforços de que há memória e tiveram de aceitar a cooperação, senão a preponderância directiva, de elementos comunistas. Os que sobrevivem do chamado partido democrático, monárquicos liberais ou integralistas desgarrados, socialistas, elementos da Seara Nova, o directório democrato-social, vestígios dos partidos republicanos moderados, alguns novos, sedentos de mudança, e os comunistas – todos poderiam unir-se, como fizeram, mas só podiam unir-se para o esforço da subversão, não para obra construtiva. Não se pode ser liberal e socialista ao mesmo tempo; não se pode ser monárquico e republicano; não se pode ser católico e comunista – de onde deve concluir-se que as oposições não podiam em caso algum constituir uma alternativa e que a sua impossível vitória devia significar aos olhos dos próprios que nela intervinham cair-se no caos, abrindo novo capítulo de desordem nacional.» 

António de Oliveira Salazar, União Nacional, 01-07-1958, a propósito das eleições a que concorreu Humberto Delgado, que se tinham realizado em 8 de Junho. 
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12.8.15

12.08.1963 – «Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem»



Foi em 12 de Agosto de 1963, duas semanas depois de o Conselho de Segurança ter condenado a política colonial portuguesa, que Salazar fez um importante discurso – «Vamos a ver se nos entendemos» – , na RTP e na Emissora Nacional.

Mas seria esta frase, rebuscada bem no seu estilo, que ficaria na lista das citações históricas do ditador: «Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem».



«Sem hesitações, sem queixumes, naturalmente como quem vive a vida, os homens marcham para climas inóspitos e terras distantes a cumprir o seu dever. Dever que lhes é ditado pelo coração e pelo fim da Fé e do Patriotismo que os ilumina. Diante desta missão, eu entendo mesmo que não se devem chorar os mortos. Melhor: havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem

aqui e aqui mais duas partes do discurso.

Nada disto deve ser esquecido: 1963 foi anteontem, há muito sangue que ainda nos corre nas veias. 
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12.8.14

«Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem»



Foi em 12 de Agosto de 1963, duas semanas depois de o Conselho de Segurança ter condenado a política colonial portuguesa, que Salazar fez um importante discurso – «Vamos a ver se nos entendemos» – , na RTP e na Emissora Nacional.

Na biografia que escreveu sobre Salazar, Franco Nogueira dedica-lhe várias páginas e quem tiver em casa o volume V pode dar uma vista de olhos pelas páginas 504 a 509. É todo um tratado para explicar que «também somos, além do mais e a melhor título que outros, uma nação africana» e para atacar «os governos comunistas que pretendem destruir o Ocidente» e de outros que querem captar a simpatia africana, «contra a vontade dos próprios».

Mas seria esta frase que ficaria na lista das citações históricas do ditador: «Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem».

Este foi o único registo sonoro que encontrei do excerto em questão:



«Sem hesitações, sem queixumes, naturalmente como quem vive a vida, os homens marcham para climas inóspitos e terras distantes a cumprir o seu dever. Dever que lhes é ditado pelo coração e pelo fim da Fé e do Patriotismo que os ilumina. Diante desta missão, eu entendo mesmo que não se devem chorar os mortos. Melhor: havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem.»

Mas há aqui e aqui mais duas partes do discurso.

Inútil recordar tudo isto? Não é, não é...
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4.12.13

Direito à desobediência



Não sou grande apreciadora das crónicas de Baptista-Bastos, mas a que hoje publica no DN é bem certeira:

«Salazar afastou-nos da política. Alegava que percebíamos pouco ou nada dos enredos que determinavam o processo histórico. (...)

Promovia a ascensão dos ambiciosos, sobretudo dos que abjuravam dos ideais, e a história dos seus governos está repleta dessa gente. Alguns, mantinham uma relativa ética republicana, de onde procediam, e do ideário maçónico, do qual se não tinham completamente dissociado.
Esta caracterização tem semelhanças, nada abusivas, com o político actualmente no poder. É apenas uma verificação histórica. Acontece um porém: Salazar era culto e bom manejador da língua. Frequentador, com mão diurna e mão nocturna, dos padres António Vieira e Manuel Bernardes, consumia pelo menos 36 horas a redigir os discursos mais importantes. O que nos calhou agora é aquilo que tem provado à exaustão. Mas a consciência antidemocrática é comum aos dois. Por muito que este encha a boca com a palavra "democracia", ele e sua prática são quase um sacrilégio, enquanto o outro só a proferia raramente e, claro!, para a escarmentar.
Somos responsáveis por um e por outro. Muito respeitadores por quem nos desrespeita, nos violenta e nos agride com mentiras e omissões, os nossos protestos quedam-se na obediência à estrutura "orgânica", por natureza cumpridora e legalista. (...)

Os episódios ocorridos na escadaria do Parlamento, e na "invasão" de quatro ministérios, representam veementes censuras ao recalcamento que este Governo nos aplica. O direito à desobediência impõe-se, quando o poder cria formas e estimula métodos contrários aos princípios das próprias noções de convivência social.» (Realces meus.)
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12.9.13

Funcionários públicos: dantes é que eram bons



«Assim se viu ressuscitar esse velho tipo de funcionário que conhece todas as minúcias do seu trabalho, só pensa no desempenho da sua função, se entusiasma com a boa ordem e aperfeiçoamento dos serviços, é progressivo, é zeloso, é exacto, não tem horas de serviço porque são todas, se é necessário, e sobretudo tem o espírito de justiça e o amor do povo. (...)
Perante credores ou devedores do Estado, esse funcionário não é altaneiro, nem arrogante, nem imensamente superior; é mestre e guia, antes de ser juiz e severo executor da lei. Vive no seu lugar, porque vive para o seu lugar; é respeitado porque se respeita; sente-se digno porque se sabe útil, e mesmo no baixo da escala, nos mesteres mais humildes, ele pode tocar a perfeição, segundo o pensamento de Junqueiro: pode ser-se sublime a varrer as ruas.»

António Oliveira Salazar, Discursos e Notas Políticas, III 1938-1943, Coimbra Editora, 1959, pp. 284-285.

Era tão mais fácil se tudo fosse ainda assim, não era? 
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3.8.13

Cadeira de Salvação Nacional



E, há 45 anos, também era Sábado. 

 (Franco Nogueira, Salazar, o último combate, vol. VI, p. 377)
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27.7.13

Da União Nacional à Moção de Confiança – dois 30 de Julho, a 83 anos de distância



Quando na próxima terça-feira for discutida na Assembleia da República a Moção de Confiança apresentada pelo governo, «celebrar-se-á» o 83º aniversário da criação da União Nacional, anunciada ao país em 30 de Julho de 1930 por um Manifesto que a definiu e por um importante discurso de Salazar. Porquê «União» e não «Partido»? Porque os partidos tinham dividido os portugueses e era necessário que estes estivessem unidos.

Não me passa pela cabeça que o primeiro-ministro tenha escolhido propositadamente a data de 30 de Julho em jeito de comemoração (por todas as razões e até porque, para tal, tinha de ter um mínimo de referências de memória histórica, que não tem), mas há algo de sinistro na total falta de sensibilidade, ou na ignorância, que ontem revelou ao utilizar a expressão «união nacional» para qualificar a necessidade de «convergência» – a mesma necessidade que o texto da Moção realça falando de «concertação» e de «coesão».


Para Passos Coelho, a oposição só não é um empecilho se deixar de o ser de facto, quando se concertar com a coligação governamental e com ela se tornar num todo coeso, em tudo o que for importante.

Estou certa de que o primeiro-ministro deixaria escapar um suspiro de inveja se lesse esta passagem de um discurso que o seu mais brilhante antecessor proferiu, em 7/2/1942, na véspera da reeleição de Óscar Carmona, candidato único à Presidência da República: «Por felicidade do País, ao desempenhar-se do encargo constitucional da eleição, não tem que escolher – felizes as nações que nos momentos cruciais da sua vida não são obrigadas a escolher, e às quais a Providência com desvelado carinho dispõe os acontecimentos e suscita as pessoas de modo tão natural a-propósito que só uma solução é boa e essa a vêem com nitidez no íntimo da sua consciência todos os homens de boa vontade! Felizes porque não se debatem em dúvidas angustiosas, porque não se arriscam em desmedidas contingências, felizes sobretudo porque não se dividem!» 
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23.7.13

Uma sina traçada na palma da mão?



Isto foi escrito em 1928. Comentários para quê.

«Podem e devem fazer-se esses sacrifícios? Eu reputo-os imprescindíveis; direi mais, eles têm de fazer-se: a nós só compete escolher a forma de fazê-los. (...)
Mas não tenhamos ilusões; as reduções de serviços e despesas importam restrições na vida privada, sofrimentos, portanto. Teremos de sofrer em vencimentos diminuídos, em aumentos de impostos, em carestia de vida. Sacrifícios, e grandes, temos nós já feito até hoje, e infelizmente perdidos para a nossa salvação; façamo-los agora com finalidade definida, integrados em plano de conjunto, e serão sacrifícios salutares.»
António de Oliveira Salazar, 9/6/1928

85 anos depois o que nós andámos para aqui chegar.
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22.7.13

E como as frases são como as cerejas



Para completar o post anterior, em comentário a uma frase de Cavaco Silva no discurso de ontem:

«E na unidade resultante da sua integração e da concordância profunda dos seus interesses, ainda que às vezes aparentemente contrários, não há que separá-los ou opô-los, mas que subordinar a sua actividade ao interesse colectivo. Nada contra a Nação, tudo pela Nação.»
António de Oliveira Salazar, 21/10/1929 
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20.5.13

Subsídio para desempregados?



De vez em quando, tropeça-se por acaso em textos com oito décadas que mostram como há mentalidades que vêm de muito longe e que imprimiram carácter.
Os termos utilizados no discurso são hoje diferentes, a sua concretização talvez mais difícil, mas a «ética» subjacente é fundamentalmente a mesma. Ou não?

«O subsídio sem o trabalho compensador desmoraliza os indivíduos, torna-os indolentes, comodistas, completamente inúteis à vida duma sociedade. O subsídio a troco de trabalho, pelo contrário, não desabitua os homens da sua função natural dentro da vida e enriquece o País com o acabamento e a iniciação de obras públicas que são de utilidade para todos. Desta forma, o imposto do desemprego não se torna tão pesado ao contribuinte, porque, além de sarar uma chaga social que o deve incomodar, vai encontrar-se em melhoramentos que ele próprio reclama há muito tempo.»

António Oliveira Salazar, 1932
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14.2.13

Respeitinho


@João Abel Manta

«A repressão é a resposta para a minoria que não respeita os sinais, as regras explícitas ou implícitas, as rotinas do enquadramento, da submissão, da conformação à ordem estabelecida. Para a maioria que é levada a obedecer, basta que se saiba que a repressão existe e que actua sobre os infractores (O realce é meu.)
Fernando Rosas, Salazar e o poder 

Este parágrafo foi escrito a propósito do passado mas ainda se aplica aqui e agora – e de que maneira. Velhos e novos temos ainda nos genes vestígios de um respeitinho e de um espírito de submissão salazarentos, bem alimentados por meio século de censura, e que estão sempre prontos a entrar em acção quando um poder mais musculado deles sabe tirar partido. 
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