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14.9.18

Da caixa de Pandora ao contentor de Serena



«Já muito se disse acerca do que terá acontecido no mais recente incidente desportivo envolvendo a tenista Serena Williams durante a final do torneio US Open. Mas ainda estamos longe de desmontar as reações geradas fora do jogo. São essas reações, muito mais do que o comportamento de Serena Williams ou o profissionalismo do árbitro Carlos Ramos, que revelam da extensão do problema que tantos ânimos exaltou.

Muitos dos comentários ao sucedido insistem na tentação de descredibilizar poderosos regimes de poder que atravessam o quotidiano, fazendo-se valer de argumentos pouco sérios: não é sexismo porque a adversária era uma mulher; não é racismo porque a adversária não era caucasiana; não é discriminação porque houve manifestamente comportamento faltoso; não é injusto porque o árbitro é irrepreensível no cumprimento das regras. Há até quem acuse Serena Williams de ridicularizar o feminismo, colocando em causa reivindicações sérias. Não será preciso todo um semestre letivo para que se perceba que argumentos deste calibre mais não são do que uma forma de desconversação. Serena indignou-se contra um sistema que a impede de agir – e de agir mal, não é isso que está em causa – de forma idêntica aos seus pares masculinos. Trata-se de perceber se, em campo e fora dele, a reação desencadeada é idêntica em conteúdo e em dimensão quando tenistas homens e tenistas mulheres agem de forma incorreta. E é apenas isto, o que já não é pouco, que está em causa. Ora, já vários tenistas homens e mulheres, bem como associações desportivas, vieram a público reconhecer aquilo que se designa por duplo padrão, ou seja, que de facto a punição a Serena foi superior à que sucedeu noutros casos tão ou mais sérios com tenistas homens. Entre exemplos que se multiplicam, o muito recente apoio por parte de Steve Simon, diretor geral do circuito feminino, veio fortalecer a posição de Serena.

Quando um dia a poeira baixar e conseguirmos falar deste episódio sem soltar todos os males da caixa ou do contentor, talvez possamos reconhecer que sempre estivemos afinal de acordo nisto: queremos menos pessoas rudes em campo (mesmo que tenham razão, mesmo que a tenham perdido) e menos trolls machistas na vida, tout court.

Mas este episódio extravasa em tanto a final deste torneio que restringir a análise à minúcia dos factos e ao escrutínio da arbitragem é perder de vista a floresta tomada por árvore.

Para que não surjam dúvidas: o sexismo que Serena denuncia não é protagonizado pela sua adversária que ganhou justamente; tão-pouco terá sido o juiz da partida a criá-lo, cujo profissionalismo sob pressão parece inquestionável. Contudo, há a montante desta final do US Open um sistema de duplo padrão sexista que é implementado de forma assumida ou tácita, e negar a sua existência é desonesto.

Há comprovadamente sexismo e racismo no mundo do desporto, e a Serena sabe disso melhor que a esmagadora maioria das pessoas que, à boleia deste episódio, se sentiram autorizadas a debitar todo um manancial de insultos até então encaixotados. Não se percebe de onde vem tanta raiva sem se perceber o que jaz a montante do jogo.

Aquilo a que temos assistido na última semana demonstra que não admitimos a Serena o direito a estar errada sem que a punição mais torpe, pejada de tiques sexistas e outros, se solte pelas redes sociais, conversas de café e debates televisivos. A incidência de adjetivos como descontrolada, exagerada, birrenta, histérica e mimada não tem precedentes e remete-nos para outros cenários, que tão bem conhecemos, em que o duplo padrão moral que usa dois pesos e duas medidas para avaliar o mesmo comportamento em mulheres e homens se faz sentir. Haverá certamente exceções que permitirão confirmar esta regra: não me recordo de termos semelhantes para classificar maus comportamentos desportivos protagonizados por homens descritos como descontrolados, exagerados, birrentos, histéricos e mimados. Esta elucidativa incidência de padrões argumentativos reforça em tudo a denúncia de sexismo no desporto que Serena protagoniza. Infantilizar as mulheres configura uma fórmula gasta de descredibilização machista.

E se uma mulher zangada abre uma caixa de Pandora, uma mulher negra zangada abre todo um contentor.

Uma nota final acerca de vitimização. O estatuto de Serena enquanto grande atleta tem sido utilizado como forma de destituição negando-lhe o direito a sentir-se como se sentiu, vitimada, como se, por se tratar de uma atleta extraordinária, estivesse porventura acima de qualquer possibilidade de ataque sexista ou de outra índole. As vítimas não podem ser mulheres fortes e vencedoras. Já conhecemos esta mesma forma de pensamento aplicada a mulheres assertivas que denunciam os seus agressores em casos de violência doméstica, assédio ou violação. As vítimas têm que parecer vítimas para serem credíveis. A ingenuidade de se pensar que o patriarcado ou o racismo se rendem perante uma campeã sobre-humana é alarmante e ensina-nos acerca do tanto que está ainda por fazer.» 

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7.6.08

Síntese perfeita

Só a Miss Woody é capaz de publicar um post sobre ténis durante a primeira parte do Portugal-Turquia e só eu, certamente, é que o leio durante a segunda.


Navratilova-Graf-Henin?
Pois com certeza...«deixando para trás, felizmente, o lastro da história destinado ao conforto e à projecção dos sonhadores».

(Mas estou com um olho no futebol e Portugal meteu um golo agora mesmo!!!)

21.5.08

Sem Henin

Até que enfim! Há vários dias que estava à espera deste post! Por estas paragens, só nós duas é que vamos sentir a falta de Justine Henin, Miss Woody.

O resto do mundo estará a ver, horas e horas por dia, vinte e dois rapazolas e alguns senhores com apitos e bandeirinhas. Com uma bola, sim, mas enorme, feiíssima, às caneladas, sem raquetes - e sem sossego.

22.1.08

Break point


Reuters

Eu sei que quase ninguém vê ténis por estas bandas (a não ser, evidentemente, a Miss Woody).

Mas não há nada melhor para suportar um Prós e Contras do que entremeá-lo com o Open da Austrália, assentar depois arraiais para ver um bom encontro entre Serena Williasm e Jelena Jancovic, ir dormir umas quatro ou cinco horas e voltar para o grande embate entre Justine Hénin e Maria Sharapova - «uma final antecipada», como os comentadores gostam de ir dizendo para preencher tempos mortos. (Só elas, aliás, me fariam acordar para ver televisão às 8:30 da manhã!)

Adoro ténis e sou «espectadora frequente» há muitos anos – desde que o Eurosport veio ter comigo, quando vivi na Bélgica nos anos 80 e por cá só havia RTP’s – e não cesso de me espantar com os progressos das artes, das técnicas e da energia, que tornam quase pueris as imagens de um passado relativamente recente.

Ganhou Sharapova, merecida e significativamente, por 6-4 e 6-0. Mas deu pena ver partir Justine, essa grande senhora do ténis feminino.

Venceu a menina bonita, muito bonita (que recebe, por ano, muito mais do que Paulo Teixeira Pinto), contra a campeã feiosa e discretíssima, que não perdia há 32 matches e que se mantém como nº1 mundial – resta saber por quanto tempo.

As noitadas continuarão nos próximos dias – obviamente.

10.9.07

E ninguém vê ténis?


As últimas jornadas de ténis do US Open, em Nova Iorque, foram soberbas. Não me arrependo das longas noitadas que fiz, sobretudo na última semana, porque vi jogos absolutamente fora de série. Acabaram por vencer, como era de esperar, Federer e Justine Henin, mas o mais importante foi a qualidade do ténis praticado. Que modificações, que progressos nos últimos vinte anos!

Notícias curtas nos jornais, nos blogues que frequento nem uma referência.
Dezenas de opiniões, como é hábito, sobre futebol – treinadores de teclado nunca faltam. Mas agora choveram também mil comentários sobre um grupo de matulões que consegue meter bolas em cestos e um outro que perdeu logo mas é orgulho da raça por ser amador entre profissionais. Só porque vestem a camisola das quinas? Porque cantam o hino? Vai tão forte assim o espírito lusitano?

O mal deve ser meu. Impressiono-me pouco com a portugalidade dos actores.
Não estremeço perante um pífio monumento a Diogo Cão na Namíbia, nem mesmo no Portugal dos Cristãozinhos na Velha Goa.