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5.8.19

A carnificina americana



«O procurador de El Paso disse que vai investigar a matança como um acto de “terrorismo doméstico”. É evidentemente terrorismo o que se passou em El Paso e poucas horas depois em Dayton. Os investigadores suspeitam também de um crime de ódio – um manifesto atribuído ao atirador diz que quer acabar com os imigrantes.

As carnificinas são comuns nos Estados Unidos, onde a poderosa associação americana em defesa do uso livre de porte de arma ganhou ainda mais força desde que Donald Trump chegou ao poder. Ainda este ano, o presidente assinou uma lei que flexibilizava o acesso a armas a pessoas com doenças mentais. Curiosamente, a Casa Branca recusou-se a revelar a foto oficial desse acordo.

Na América, mata-se mais do que no Iémen. Isto não nasceu com Trump e são co-responsáveis todos os antigos presidentes que nunca conseguiram enfrentar a poderosa corporação pelo uso livre de armas. Mas o discurso de ódio contra as minorias, de que Trump tem feito uso e abuso, é um poderoso incentivo a estas e a novas carnificinas. Beto O’Rourke, um dos candidatos a candidato à nomeação pelo Partido Democrata, dizia ontem que Trump era “um supremacista branco”. Cory Booker, outro candidato democrata, concorda que Trump é um supremacista branco e pede-lhe responsabilidades no massacre. Sim, só um supremacista branco se teria dirigido a quatro congressistas não-brancas, como fez Trump no mês passado, dizendo-lhes “voltem para a vossa terra”. Todo o discurso de Trump é um incitamento aos crimes de ódio. Trump é co-responsável pela chacina deste fim-de-semana.

Mas não é o único responsável: o Congresso americano que se recusa a enfrentar o poderoso lobby das armas é também responsável pela carnificina. No século XXI, os Estados Unidos da América mantêm em vigor leis do tempo do Faroeste e encaram, pelas omissões contínuas que se mantêm, as mortes como uma coisa natural, exactamente como no Velho Oeste. Elisabeth Warren, uma das pré-candidatas do Partido Democrata, pediu “acção urgente para acabar com a epidemia da violência das armas”. Não especificou que acção urgente é essa. Bernie Sanders foi mais longe e apelou ao congresso: “Depois de cada tragédia, intimidado pelo poder da NRA, o Congresso não faz nada. Isso tem que mudar”.

Enquanto isto, o supremacista branco deu as condolências às famílias, via Twitter, e ainda não apareceu em público. Deverá estar a jogar golfe. Afinal, em Maio, num comício, interrogou a assistência sobre o que é que se podia fazer para parar os imigrantes na fronteira com o México. Um dos presentes disse: “Fuzilem-nos”. Trump riu-se. Está gravado em vídeo, para a história.»

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22.3.19

Jacinda Ardern



«Sexta-feira passada, um terrorista — australiano, supremacista branco, 28 anos — atacou duas mesquitas na Nova Zelândia, durante a oração principal da semana, emitindo em directo para o mundo. Cinquenta pessoas morreram.

Foi o ataque mais brutal alguma vez na Nova Zelândia. O país ficou em choque. Mas a Nova Zelândia tem uma primeira-ministra que fez a diferença no mundo. Jacinda Ardern disse que aquelas pessoas atacadas — os muçulmanos — eram “nós”. Foi abraçá-las. Disse que nunca diria o nome do terrorista, que tanto quis notoriedade que matou em directo. E antes de o ataque fazer uma semana, Jacinda Ardern anunciou que ia banir as armas semi-automáticas.

Jacinda é a mais jovem mulher chefe de governo do mundo, tem 38 anos. Filha de uma família da classe trabalhadora, e politicamente trabalhista, foi levada para a política pela tia. Estudou comunicação, foi voluntária numa sopa de pobres em Nova Iorque, viveu em Londres, fazia parte de um painel de 80 pessoas, espécie de orgão de consulta de Tony Blair. Nunca esteve cara a cara com o então líder britânico em Londres, mas questionou-o depois na Nova Zelândia sobre a invasão do Iraque.

No ano passado, Jacinda foi mãe enquanto primeiro ministro em funções e levou o bebé, com três meses, para a Assembleia Geral da ONU. Inédito, histórico.

Foi esta a mulher a quem, há uma semana, coube responder no momento em que o seu país viveu o mais brutal ataque de sempre. E foi esta a mulher que, na sua resposta, não só emocionou o seu país, e convenceu adversários políticos, mesmo, como emocionou o mundo e deu-lhe um espelho onde ver a diferença. O que a distingue de pesadelos como Trump.

Nos jornais estado unidenses sucedem-se os textos sobre como Jacinda Ardern, a líder daquele remoto país, está a mostrar à maior potência do mundo como lidar com tiroteios em massa, com licença de armas e a sua multiplicação, com ataques terroristas, com os autores dessse ataques e com as suas vítimas.

Mais, está a mostrar ao mundo como lidar com o racismo, e como o terrorismo pode vir de qualquer lado, está a vir do supremacismo branco, dos racistas que se sentiram tão encorajados por Trump, e nele votaram.

A Nova Zelândia é o antípoda para quem está na Europa ocidental. Mas Jacinda mostrou que a Nova Zelândia é um eixo do mundo, um centro para onde líderes políticos das ditas potências devem olhar, para aprender. Ela é, na verdade, o antípoda de Trump ou Bolsonaro, dos xenófobos na Hungria ou na Itália. E como precisamos de antípodas assim.»

Alexandra Lucas Coelho

Ouvir AQUI.
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18.3.19

A origem do mal



«Primeiro, incredulidade. Vê-se o cano da arma, a disparar sem descanso, como se fosse tudo de brincar. Lá em casa há jogos assim. O jogador adivinha-se, não se vê, faz-nos deixar adivinhar. Pode ser qualquer um por detrás daquele metralhar. São jogos, têm nomes, e há sempre uma guerra no jogo onde se mata sem se sentir e uma guerra fora do jogo, entre pais e filhos, a limitar e a ceder para voltar a limitar e a ceder.

Depois o horror. Aquela matança em direto nas redes sociais não é de brincar. É um fanático que prime o gatilho, em imagens sucessivas de gritos de morte e de pessoas-pessoas a caírem. E a arma carrega uma e outra vez. Sangue verdadeiro. Loucura verdadeira, a trazer à memória essa outra matança numa escola brasileira, de motivações diferentes, ambas de um mundo ensandecido que não conseguimos compreender.

Mas temos de tentar. A começar no papel dos media, que está sempre a ser questionado, dentro e fora das redações. É exatamente aqui que o papel da mediação e do escrutínio deve ser valorizado. O vídeo do atirador da Nova Zelândia esteve horas online em várias plataformas. Sem filtros, sem edição, sem contexto. Como se fosse o ambiente de jogo em streaming em que atualmente milhões de crianças e jovens em todo o Mundo jogam. Foi num desses jogos que o terrorista diz ter aprendido o nacionalismo étnico.

O papel dos media não é ignorar essa realidade. Mas é ter sentido de responsabilidade na informação que publicam. Editando, cortando o que deve ser cortado, explicando o que deve ser explicado. Contribuindo para uma leitura crítica do contexto em que o ódio germina, não para a sua exibição voyeurista.

Sobra a origem do mal. As motivações raciais e religiosas. No manifesto publicado online pelos terroristas percebem-se as referências alusivas a outros ataques e a mensagem anti-imigração não podia ser mais clara. E essa é uma reflexão que, não sendo nova, nos é muito cara e próxima. A Nova Zelândia é considerada uma das nações mais seguras do Mundo. O que potencia a mensagem de que não há espaços seguros. O extremismo e a intolerância crescem em diferentes geografias, temos tido demasiados exemplos disso. E num momento tão relevante para a Europa, em que vamos ter eleições e desafios como o Brexit, não podemos desviar-nos das batalhas que realmente importam.»

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17.3.19

Este terrorismo



«Terrorismo é terrorismo, no Médio Oriente ou nos nossos antípodas. Não lhes chamem loucos, não os tratem por atiradores, chamem-nos terroristas, tratem-nos por assassinos. Mas saibamos medir o nosso tremor europeu à sua real escala e perceber como à medida que o Daesh perde força os ataques de extrema-direita aumentam. Como ontem na Nova Zelândia.

Os números são assustadores e os relatos medonhos. 49 mortos contados à hora do almoço cá, noite lá, quando à porta do hospital se amontoavam familiares em angústia sem saberem se os corpos dos seus se encontravam entre os cadáveres desfeitos por outros. Sincopadamente, na praça de espera, alguém cortava o silêncio com um grito. A má notícia chegava, uma de cada vez.

Um terrorista de extrema-direita assassinou dezenas de muçulmanos.

O seu manifesto, que os jornais não publicaram para não servir os intentos propagandistas dos perpetradores, é claro nisso: no ódio aos imigrantes, na xenofobia, na apologia do que os anglo-saxónicos chamam supremacismo branco. Na arma de fogo estavam escritos os nomes de outros assassinos de muçulmanos, de migrantes. Nomes de neonazis.

Talvez nos tenhamos habituado à sucessão de tragédias no mundo e tenhamos perdido a escala. O número de ataques e de vítimas mortais está em queda, depois do pico de quase 33 mil mortes no mundo em 2014. Foram 19 mil em 2017. Desses, mais de quatro mil no Afeganistão como no Iraque, mais de mil na Nigéria, na Somália como na Síria. Todos países envolvidos em conflitos armados. É no Médio Oriente e no Norte África que se concentram mais ataques, com muçulmanos a sofrer com o fanatismo de outros muçulmanos. Na Europa, houve 204 vítimas mortais (Portugal é um dos quatro países onde não houve vítimas mortais de terrorismo nos últimos 20 anos, juntando-se a Chipre, Islândia e Suíça). Nos Estados Unidos e no Canadá morreram 85.

Todos estes dados constam do relatório do Índice Global de Terrorismo 2018, que mostra as razões mas também as diferenças. E é lá que já estava escrito que há um fenómeno a emergir, o da extrema-direita. Na América do Norte e na Europa Ocidental não há guerras e o terrorismo não tem a dimensão do que sucede noutras regiões, sendo aqui motivado sobretudo por razões de radicalização religiosa, por alienação social e por desigualdades económicas. Mas é aqui, no Ocidente, e em países maioritariamente brancos, como a Nova Zelândia é, que ataques de terroristas de extrema-direita nos surpreendem.

A política é tanto parte da causa como parte da consequência deste terrorismo. Porque os discursos securitários e as políticas nacionalistas, as decisões xenófobas e a palavra populista criam espaço para si mesmos. O ódio alimenta-se do medo. Trump não é um fantoche, Putin não é uma flor e na Europa que ambos querem entalar e enlatar a extrema-direita ganha votos e os antieuropeístas ganham lugares. Se a União Europeia se cinde, se os extremistas a tomam a cavalo de Troia, não vamos desta para melhor, mas vamos disto para pior.»

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17.12.18

Da ilusão da segurança



«Estava, como habitualmente, nos trabalhos da sessão plenária de Estrasburgo quando soube, ainda antes de ser notícia, que estava a haver um tiroteio no centro da cidade. É impossível não sofrer quando há tragédias, quando há mortes e ferimentos graves de pessoas que se limitavam a viver a sua vida ou a fazer o seu trabalho. É também evidente que toca ainda mais fundo quando, entre as pessoas atingidas, estão pessoas de quem sabemos os nomes, conhecemos ou nos cruzámos, como o jornalista italiano que estava a fazer a cobertura do mercado de Natal ou o músico polaco que integrava o movimento da música pela paz.

Talvez pelo facto de estar a decorrer o mercado de Natal, que é dos mais visitados do mundo, e na sequência das manifestações dos coletes amarelos, à chegada para a esta sessão plenária esperava-nos um aparato de "segurança" muito superior ao habitual. Os acessos ao Parlamento com mais controlo, a ter de se mostrar identificação não apenas à entrada como antes de entrar no perímetro da instituição, e a verificação das carteiras e das mochilas em cada um dos acessos ao centro da cidade, mas alargando o perímetro do centro em relação ao ano anterior. Ainda assim, o tiroteio aconteceu.

Pensei bastante sobre isto. O tiroteio decorreu na altura do ano em que a cidade está mais vigiada e, teoricamente, mais protegida. Esta coisa de nos armarmo-nos até aos dentes e de com isso se promover uma ideia de suposta segurança não é mais do que isso, armarmo-nos até aos dentes e promover uma ideia de suposta segurança. Como? Com mais militares nas ruas, mais forças policiais, mais seguranças, mais armas. Vê-los cria a ilusão e essa imagem naturaliza-se como sendo "a segurança". Devo confessar que a mim sempre me pareceu um sinal de profunda insegurança e que não percebo a ideia de que mais armas na rua são sinónimo de mais segurança. Pergunte-se aos familiares e aos amigos dos milhares de pessoas que todos os anos perdem a vida nos Estados Unidos ou no Brasil como é que encher as ruas de armas lhes trouxe mais segurança. Pergunte-se aos familiares e amigos das mulheres assassinadas todos os anos em Portugal ou em Espanha se ter armas em casa lhes trouxe mais segurança.

Do mesmo modo, custam-me as leituras simples. Quer saber-se sempre qual a nacionalidade dos criminosos e das vítimas. Quando se confirma, como até hoje, que a nacionalidade de todos os criminosos é europeia, vai-se até à origem. A origem serve para confirmar que têm família não europeia, de preferência do Médio Oriente ou de África. Já quanto às vítimas, ficamo-nos pela referência restrita da nacionalidade, de preferência europeia. E de que serve isto? Serve para alimentar outra ilusão, a de que se acabarmos com as migrações acabamos com a insegurança.

Ambas as teses não são apenas falsas, são perigosas. Não resolvem nenhum dos problemas estruturais que vivemos e agravam-nos. Há algum tempo, eu escrevia que a UE até poderia sobreviver a uma crise social, mas não sobreviveria a uma crise identitária. Eis que estamos perante uma equação que as junta e não se vê solução à vista. As políticas que nos trouxeram aqui são as mesmas que vendem estas ilusões. Demos a volta à equação e comecemos por duas outras premissas: só a paz nos pode salvar da guerra, só a eliminação das desigualdades nos pode salvar da insegurança. Que tal ter antes estes pontos de partida?»

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15.10.17

E a Somália lá tão longe




Se houvesse 10% deste número de vítimas num país europeu, tínhamos horas e horas de televisão sobre o caso. Assim… who cares? O telejornal das 20:00, na RTP1, dedicou um minuto ao acontecimento.
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25.8.17

A grande estratégia do medo



«O terrorismo moderno, tal como o mais idealista que Joseph Conrad nos trouxe em "O Agente Secreto", deseja sobretudo acertar na alma do inimigo, fazendo com que o medo e o terror o leve à confusão e que passe a utilizar mal as suas forças.

O terrorismo actual é uma estratégia de características militares em que se pretende ganhar uma guerra através do medo e da confusão do adversário. Não é uma guerra clássica, com exércitos e Estados em confronto. É feita de meios pouco convencionais (aliados a outros mais esperados), como se tem visto em Barcelona ou em França. Quem recorre ao terrorismo sabe que não ganha uma guerra convencional. Os alvos são cada vez mais diferentes: antigamente supunha-se que os alvos dos terroristas seriam as comunicações, os arsenais, os dirigentes políticos e militares. Hoje são cidadãos anónimos. Os ataques destinam-se a causar o medo na população civil, a fazer tremer os pilares da sociedade civil que sustentam as democracias. É um outro estilo de espectáculo aterrador, tal como já tinha sido de alguma maneira o ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque. Os terroristas pretendem sobretudo utilizar o poder adversário e a sua força para o vencer. Derrotá-lo no mundo da comunicação e da percepção. O terrorismo é uma estratégia militar que deseja a mudança numa situação política causando sobretudo o medo. Em vez de causar danos materiais. O medo é a arma essencial de quem utiliza estas tácticas de terrorismo.

Ninguém duvida que estes terroristas (ligados ao Daesh) nunca conseguirão vencer o Ocidente. Mas podem moer as suas sociedades, torná-las mais radicais e xenófobas. A nova vaga do populismo cresce com o terrorismo e com as guerras nos limites do império ocidental que trazem refugiados de todos os tipos em busca da sobrevivência. E aqui coloca-se uma questão: entre a necessidade de derrotar o terrorismo e as formas legítimas e democráticas de o fazer qual é o caminho estreito onde se podem mover as democracias? Entre as medidas preventivas, dissuasoras e estruturais há muito espaço para limitar os direitos dos cidadãos em nome da segurança. Como manter esse equilíbrio. É aqui que joga o poder teatral dos ataques nas grandes cidades, com meios pouco habituais, contra multidões indefesas e incapazes de reagir a um perigo desconhecido. O Ocidente só perderá esta guerra se começar a cometer erros e centrar-se em guerrilhas internas é uma boa forma de isso ser possível.

Os terroristas de hoje jogam com a lógica da resposta desproporcionada de quem tem o maior poder. O objectivo do Daesh é que o Ocidente responda sem tino a estas provocações. Atacando às cegas e causando dor nas sociedades onde consegue angaria simpatia. Pelo meio deste jogo ficam as atrocidades e os inocentes. A ideia é que o Ocidente se derrote a si próprio. A resposta deve ser pensada numa lógica desta terrível "sociedade do espectáculo" onde actua o terrorismo actual. O jogo é mais interessante. O terrorismo quer mudar os equilíbrios do poder político numa altura em que têm apenas algum poder militar. Por isso colocam aos Estados um desafio quase impossível: que estes demonstrem ser capazes de proteger os seus cidadãos da violência. E que para isso, baralhem as cartas políticas da estabilidade, e entrem numa vertigem alucinada e lhes forneçam um trunfo inesperado. O terrorismo joga com o impacto teatral da imagem: matar 14 pessoas em Barcelona vale mais do que liquidar 200 na Nigéria ou 500 no Iraque em termos do que os cidadãos ocidentais intuem. Ao considerarem que é impossível haver qualquer acto de violência política dentro das suas fronteiras, algo que é imanente ao Estado moderno, os países (especialmente os ocidentais) têm de actuar. E é esperando por passos errados que os terroristas anseiam.»

Fernando Sobral

18.8.17

Ramblas



«La única calle de la tierra que yo desearía que no acabara nunca, rica en sonidos, abundante en brisas, hermosa de encuentros, antigua de sangre, es la Rambla de Barcelona.»

Federico García Lorca
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10.8.16

1.8.16

Segurança no aeroporto de Lisboa?



Oiço dramatizar a falta de segurança manifestada na curta fuga dos quatro argelinos e pasmo.

Qualquer pessoa pode aceder à área de partidas daquele aeroporto, seja ou não passageiro, passear-se por um espaço enorme, onde circulam centenas ou mesmo milhares de pessoas, sem que haja qualquer tipo de controle de pessoas ou bagagens. (Este só existe, para os passageiros, depois de fazerem check-in e quando pretendem aceder às portas de embarque.) Ou seja: qualquer aprendiz de terrorista tem ali um tapete vermelho ao seu dispor, para fazer o que quiser – se é que me faço entender. O mesmo se diga para a área das chegadas.

E faz-se este teatro todo por uma situação como aquela que envolveu aqueles quatro gatos pingados… 
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Democracia e luta contra o terrorismo



«A luta contra o terrorismo autoriza, em termos de governação e de política interna, todas as medidas autoritárias e todos os excessos, incluindo uma versão moderna de "autoritarismo democrático", que teria como alvo, para além de organizações terroristas propriamente ditas, todos os que se opõem a políticas globalizadoras e neoliberais. Hoje, é por isso de temer que a caça aos “terroristas” provoque – como estamos a ver na Turquia após o estranho golpe de Estado fracassado de 16 de Julho - deslizes e ataques perigosos às principais liberdades e direitos humanos. A história ensina-nos que, sob o pretexto de combater o terrorismo, muitos governos, mesmo democráticos, não hesitam em reduzir o perímetro da democracia. Atenção ao que aí vem. Podemos ter entrado num novo período da história contemporânea em que volte a ser possível dar soluções autoritárias a problemas políticos...»
Ignacio Ramonet 

Na íntegra AQUI.
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30.7.16

A França numa deriva perigosa




«Une partie de la société civile peut toujours hésiter à donner des armes à M. et Mme Tout-le-Monde, même bien encadrés : "Il y a un risque, évidemment, à armer des gens qui ne sont pas forcément équilibrés", dénonce Noël Mamère, député écologiste de Gironde. "On entraîne les citoyens dans une spirale sécuritaire infernale. Il faut arrêter cela."» 
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Vítimas do terrorismo?



26.7.16

Hollande: mais valia ter pensado antes de falar



Depois do crime que teve hoje lugar numa igreja da Normandia, de que foi vítima um padre, ouvi na France 24 que Hollande terá prometido proteger todas as igrejas católicas. Foi recordado pela jornalista, que estava em estúdio, que existem 45.000 em França.

A ser verdade, François Hollande quis dizer o quê, exactamente? Uma afirmação destas é tão disparatada que não passa de uma pura confissão de impotência (e de incompetência). 
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22.7.16

Ainda não vimos nada



«O fascismo islâmico alimenta-se da violência aleatória e banal. Não tem propriamente um programa político para lá da submissão, voluntária ou imposta, a preceitos religiosos irracionais, como o são todos. Visa a criação de uma nova idade das trevas, antiliberdade, anticonhecimento, anti aquilo a que chamamos civilização e não necessariamente só a ocidental. (…)

As declarações dos políticos europeus a cada vez que há um atentado são patéticas. Falam dos ataques cobardes, os quais na verdade são atos de coragem ainda que estúpidos e criminosos; apelam à serenidade e manutenção do "nosso" estilo de vida, quando na realidade já se vive na insegurança e medo de sair à rua; e que irão combater por todas as formas esta ameaça, o que objetivamente não fazem quando, sob a capa da religião, se permite uma sistemática e bem montada máquina de recrutamento de jovens muçulmanos e, não menos importante, se promovem regimes, empresas e negociatas que apoiam e financiam o ISIS e outros grupos similares.

O desfecho deste jogo será contudo bastante acelerado quando suceder o inevitável. As armas convencionais, as singelas facas, darão um dia lugar a algo mais substancial e mortífero. O grande risco, reconhecido por todos, está na utilização por um destes suicidas de um engenho nuclear, biológico ou químico, ou seja, as chamadas armas de destruição maciça. Eliminando de uma só vez uma considerável parte da população de uma grande cidade. (…)

Em suma, incapazes de resolver o problema indo à raiz, acabando de vez com as cumplicidades de alguns bem conhecidos aliados, travando a ganância dos negócios de armas e do petróleo que alimentam o fascismo islâmico em toda a sua extensão, os dirigentes europeus colocam em sério risco os seus povos ao mesmo tempo que militarizam as soluções. Mais, arriscam o desfecho, pois a guerra sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba. A possibilidade de uma escalada é evidente.

A Europa já está a sofrer muito com este conflito insano. A radicalização da política, manifesta no aumento da extrema-direita, da xenofobia, discriminação e racismo, mas também nas posições dos chamados moderados, está a tornar o nosso quotidiano insuportável. Não foi para isto que ao longo dos séculos tanta gente lutou para criar um mundo mais livre e melhor. Para todos.»

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19.7.16

A teoria do terror



«Woody Allen, num dos seus melhores momentos, olhou para a II Guerra Mundial através das memórias de um barbeiro dos líderes nazis. Estes dividiam-se sobre a bombástica notícia de que Churchill estava a pensar deixar crescer as patilhas.

Speer e Goering divergiam sobre se Hitler devia deixar crescer as patilhas primeiro, ou não. O almirante Donitz tinha uma ideia atómica: cortar o fornecimento de toalhas quentes a Inglaterra. O absurdo tomava conta da guerra. Nada de especial: poucos dias antes do horror de Nice descobriu-se que o Presidente François Hollande pagava, com dinheiro público, a um barbeiro, 9.895 euros por mês para manter o seu cabelo e patilhas atraentes e a barba perfeitamente escanhoada.

O absurdo é a nossa realidade. Tudo isso diz muito do mundo em que vivemos e que caminha por uma cama de pregos sem que a maioria de nós sejamos faquires. Nice, como muitos outros atentados que são apenas um rodapé nas notícias porque são em Bagdade, Áden ou Lagos, faz-nos enfrentar com mais atenção os dois lados da civilização actual: o mundo real e o paralelo. Ambos se cruzam nos telejornais, mas estão longe, tal como os burocratas de Bruxelas não sabem o que se passa nas ruas de Lisboa ou Atenas.

Chegou o lado negro da globalização: o terrorismo global. É diferente daquele dos anarquistas de inícios do século XX ou mesmo do terror estatal que o estalinismo, o nazismo, o maoismo ou as ditaduras latino-americanas implementaram. Nesses tempos, mesmo com "danos colaterais", havia alvos definidos, especialmente os que pensavam de forma diferente ou tinham poder. Hoje não. O terrorismo do Daesh é diferente. Deixaram de importar as ideias. A única coisa crucial é destruir qualquer identidade comum, seja ser sírio ou francês, seja ser cristão ou xiita, seja viver em Alepo ou Nice. Não é o pensamento individual que se quer fazer desaparecer. É a lógica de comunidade e de formas de vida básicas como estar numa esplanada ou viajar de comboio. É um terror mais sórdido. Que nada tem que ver com Woody Allen.»

Fernando Sobral

17.7.16

Nice: tributo




Londres, 15.07.2016, na abertura dos célebres BBC Proms, no Royal Albert Hall.
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