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31.8.20

Sem palavras



«A Associação Alzheimer Portugal deixou, este domingo, um apelo às autoridades de saúde para que tenham especial atenção com os pacientes que sofrem de demência, no contexto da pandemia de Covid-19.

Nos últimos meses, perto de uma dezena de idosos com demência foram proibidos de entrar com acompanhante nos hospitais por causa das medidas de contenção da Covid-19 e acabaram mais tarde por ser dados como desaparecidos, depois de receberem alta hospitalar sem que os familiares tivessem conhecimento.»
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26.8.20

Era uma vez um lar



«A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

O meu estágio, note-se, não era na fundação. Mas eram as enfermeiras do centro de saúde da cidade que lá se deslocavam para fazer as dezenas de pensos diários. E, quando entrei numa camarata imensa, cheia de senhoras idosas acamadas, quase todas demenciadas e profundamente emagrecidas, nem fui capaz de perceber por que é que ali cheirava tanto a morte e a decomposição. Só quando começámos a destapar as feridas que lhes cobriam os corpos, literalmente da cabeça aos pés, é que percebi que tinha acabado de me confrontar, pela primeira vez, com o lugar onde a dignidade termina.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.

Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.

Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.

Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.

Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.

A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

Para que Reguengos não se repita. Nunca mais.»

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23.8.20

Lares: um inferno inevitável?



«O problema não é de agora, mas temos o hábito de fazer os debates à boleia de tragédias e do espaço de atenção que elas criam. Seremos capazes de, para lá das circunstâncias, olharmos para a raiz do problema e encontrarmos caminhos alternativos?

Em Portugal, temos muito poucos cuidados formais para as pessoas mais velhas: só 12,8% das pessoas idosas beneficiam de uma resposta no âmbito da rede de equipamentos sociais (incluindo lares, apoio domiciliário e centros de dia). O Estado investe mais de 600 milhões de euros por ano em acordos de cooperação com IPSS para respostas sociais na área da velhice, mas elas funcionam num esquema de monopólio do setor social privado. Temos imensas carências e o Estado nunca assumiu a provisão direta das respostas. É um “Estado financiador”, com competências de fiscalização cuja concretização fica muito aquém do necessário. Além disso, a escassez da oferta faz com que haja um volume preocupante de respostas clandestinas: cerca de 35 mil pessoas residem em 3.500 lares clandestinos. Ou seja, quase 30% dos cerca de 125 mil residentes em lares no nosso país vivem em instituições que funcionam sem enquadramento legal.

Quem trabalha nos lares dedica-se aos outros num contexto difícil, em que ao esforço e entrega profissionais correspondem salários colados ao salário mínimo, a ausência de carreiras e de valorização profissional, turnos pesados e uma sobrecarga laboral sem compensações. Precariedade, baixos salários e excessiva rotatividade são a regra num setor em que as mulheres são a larga maioria e onde a formação em contexto de trabalho praticamente não existe. No paradigma que temos, prevalece um modelo biomédico, com atividades limitadas, infantilização dos utentes, pouco investimento na qualificação dos profissionais, acompanhamento pouco individualizado e reduzido, com frequência, à higiene pessoal, às refeições e à medicação.

Não vale a pena olhar para o lado. Estamos a assistir a uma tragédia nos lares: na Europa, cerca de metade dos mortos por COVID são residentes em estruturas residenciais para pessoas idosas. A falta de profissionais, a falta de condições, a ausência de testes atempados garantidos pelos poderes públicos, a não aplicação plena das medidas de contingência, a própria arquitetura que dificulta o isolamento (quartos partilhados, equipamentos partilhados, etc.), a ausência de uma intervenção consistente no campo da saúde, o fechamento defensivo das instituições, ajudam a explicar o que se passa.

É preciso repensar todo o modelo que temos de cuidados para os idosos. Privilegia-se a institucionalização, que é inevitavelmente uma rutura com o quotidiano e uma limitação da autonomia das pessoas. Privilegia-se a externalização para instituições privadas impulsionadas pelo Estado, que as financia por via dos acordos de cooperação, havendo em consequência uma demissão da provisão pública, que alimenta uma rede de intermediários e de promiscuidade de interesses que dificulta o controlo e a intervenção direta em momentos de crise. Muitos lares não respeitam os rácios de trabalhadores definidos pela lei, o que é mais flagrante no período noturno e na área da saúde. Há uma separação artificial entre cuidados sociais e cuidados de saúde, que leva a que cada tutela e cada Ministério empurre as responsabilidades para o outro. No debate público dos últimos dias, a Ministra do Trabalho desvalorizou as suas responsabilidades de fiscalização e, no campo político, poucas têm sido as vozes que vieram responsabilizar os dirigentes das IPSS. Nestas, a solidariedade e a abnegação de muitos convivem com o favor político, com esquemas de gestão questionáveis, com a ausência de transparência, o enriquecimento ilícito à custa dos utentes e uma qualidade de serviços muito pouco escrutinada.

São necessárias medidas imediatas para mitigar e conter a pandemia nos lares: equipas multidisciplinares (com as autoridades de saúde, a segurança social e a proteção civil) que visitem todos os lares, incluindo os que não estão licenciados); envolvimento dos profissionais e dos utentes nestes processos; testes à Covid, nomeadamente na reabertura dos centros de dia e no regresso aos lares dos profissionais que estiveram de férias; espaços alternativos para acolher pessoas que estejam em lares sem condições, equipas em espelho e circuitos separados para positivos e negativos; um plano de contratação de equipas de apoio domiciliário (podíamos começar com um número idêntico ao programa lançado para os lares: 15 mil profissionais), para que seja possível evitar a institucionalização e domiciliar alguns dos utentes; reforço imediato das equipas de fiscalização e inspeção da Segurança Social.

Mas este é o momento de um debate que vá além do imediato. É preciso repensar profundamente o modelo de cuidados que temos. Precisamos de equipas locais de intervenção nas casas das pessoas mais velhas, de modo a garantir as adaptações infraestruturais nas habitações que permitam às pessoas permanecer o máximo de tempo em casa (exemplos: isolamento térmico, banheiras rebaixadas, escadas acessíveis…). Precisamos de reformular o conceito Centro de Dia e de muito mais apoio domiciliário, alargado em número de trabalhadores envolvidos, no tipo de apoio prestado, nos horários e nos dias em que funciona. Precisamos de apoio aos cuidadores informais para além dos 30 concelhos em que funcionam atualmente os projetos-piloto. Precisamos de apostar noutros modelos institucionais (mais humanos, mais pequenos, mais respeitadores da biografia e da individualidade das pessoas) e sobretudo num plano de desinstitucionalização, que oriente o dinheiro que existe para respostas de autonomia, com um programa para a criação de projetos de co-housing (formato já previsto na lei de bases da habitação e que há anos é aplicado nos países nórdicos), respostas comunitárias nas aldeias (por que razão não se tornam as próprias aldeias infraestruturas de cuidados alternativas aos lares?) e em todo o território, com habitação autónoma e centros comunitários que sejam espaços de convívio. Precisamos de garantir a participação das próprias pessoas idosas em todo este debate.

Se não formos capazes de o fazer agora, quando o faremos?»

11.8.20

O vírus do abandono


«Cerca de 40% das mortes por covid em Portugal aconteceram nos lares. Numa carta enviada ontem ao primeiro-ministro, o Sindicato Independente dos Médicos classifica de "criminosa" a inação do Estado relativamente a estas estruturas, considerando que faltam planos de contingência e "não existem orientações nem regras claras" quanto aos procedimentos de atuação em caso de surtos. "Acima de tudo, como é que foi possível o Estado Português, através do ministério que tutela lares, não exercer a sua função fiscalizadora"?, questionam os médicos. (…)

Na habitual conferência de imprensa onde diariamente são comunicados os óbitos, o secretário de Estado da Saúde informou ontem que há neste momento surtos ativos em 72 lares, com um total de 545 idosos infetados. Quantos desses lares serão como o de Reguengos de Monsaraz? E quantas outras mortes já não terão sido - ou serão ainda - provocadas pelo vírus do abandono?»

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10.8.20

Vamos sequestrar os velhos por quanto tempo?



«Ainda nos idos de março, estava a pandemia no início, fiquei comovido com a forma como os portugueses se mobilizavam para proteger os seus mais velhos e doentes, que são os principais grupos de risco da covid. Rapidamente passou a comoção. Dada a histeria coletiva e a perceção totalmente distorcida do risco envolvido com a doença, convenci-me de que, afinal, a generalidade dos portugueses estava era preocupada consigo mesma ou, vá lá, com os seus familiares. Nada disto é científico, claro, eram perceções.

A reação pública, ou a falta dela, às mortes no lar de idosos de Reguengos de Monsaraz aumenta a minha convicção. Nesse lar houve um surto de covid, vários foram os infetados, não apenas entre os idosos, e acabaram por morrer 18 pessoas. No entanto, ficámos a saber, a maioria das mortes não resulta dessa doença, mas sim da falta de cuidados médicos. Os velhos morreram desidratados e, quando finalmente receberam assistência médica, tinham as suas doenças crónicas agravadas. Morreram porque foram abandonados à sua sorte. O que se seguiu? Gritos histéricos nas redes sociais? Não. Gritos histéricos dos partidos da oposição? Não. Palavras de conforto de Marcelo Rebelo de Sousa? Não. Mensagem grave, em direto para o telejornal das 20h, da Ministra da Saúde, da diretora-geral da Saúde ou da ministra do Trabalho e da Segurança Social? Não. Admito que me possa ter falhado alguma notícia, mas de facto não assisti a nenhuma comoção nacional. Nem pouco mais ou menos. Apenas nos disseram que o Ministério Público ia abrir um inquérito.

Esta ausência de choque com a morte de velhos abandonados à sua sorte mostra que não eram eles a nossa preocupação quando tirámos as crianças e jovens das escolas e nos enfiámos em casa. Mostra também que tão perigoso como a covid (ou, na verdade, mais) é o nosso medo. Mostra também o quão certeiro foi o Gato Fedorento quando em 2007 nos disse que os velhos não deviam ser despejados nas ruas, mas sim no Velhão, “o sítio onde deitamos os velhos fora quando já não precisamos deles.”



Neste momento, muitos velhos estão num regime de sequestro nos lares de terceira idade. Não podem, de facto, sair, porque se saírem a sua reentrada está vedada. Não podem receber visitas a não ser à distância, pelo que não podem sentir sequer um toque ou um carinho dos seus filhos. Como as visitas estão altamente condicionadas, a sua frequência é agora muito menor, apenas podendo ver os seus familiares de forma muito espaçada. Pelo menos em alguns lares, não sei se todos, a entrada está vedada a crianças até aos 12 anos de idade, pelo que nem grande parte dos netos podem ver.

O caso de Reguengos de Monsaraz leva-me a desconfiar que todas estas medidas não são para proteger os velhos, mas sim para preservar os responsáveis dos lares de eventuais chatices. Assim, podem sempre alegar que fizeram tudo o que era possível.

Não sei se não seria preferível a morte a tal sorte. De qualquer forma, seja com que intenção for, está na altura de perguntarmos com cada vez mais insistência: e se não houver vacina eficaz? Vamos manter os velhos sequestrados no lar durante quanto tempo? Até deixarem de reconhecer os netos?»

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2.5.20

Carta aberta e esperançosa às gerações mais velhas


«Espero que sejamos capazes de tratar-vos como iguais, usando de compaixão, mas não de condescendência. Isso significa termos consciência de que entre vós estão muitas pessoas que contribuíram para as profundas desigualdades sociais e a precariedade laboral com que ainda se debate a nossa sociedade, flagelos como a violência doméstica e o racismo sistémico, ou a crise climática em que está mergulhado o planeta. No entanto, entre vós estão também as pessoas que construíram a democracia em que vivemos; que conquistaram a liberdade de que agora beneficiamos; que foram perseguidas, presas e torturadas pela ditadura fascista em nome dos direitos que hoje nos são garantidos; que construíram o Sistema Nacional de Saúde que hoje vem em nosso socorro; que se bateram pela igualdade e pela justiça; que pesquisaram e puseram a ciência ao serviço do nosso bem-estar; que trabalharam a terra e desenvolveram as indústrias; que criaram as obras artísticas a que hoje chamamos o nosso património cultural; que se sacrificaram, com um sorriso, em nome das gerações futuras, migrando, trabalhando, educando, pesquisando, semeando, defendendo, criando, cuidando de um futuro que agora é o nosso presente. Estar na vossa presença é estar em face da substância das pessoas e do povo que somos. Devíamos cuidar melhor do que fizeram por nós.»
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21.4.20

Uma sociedade que não respeita os mais velhos não se merece


Carta Aberta ao primeiro-ministro, ministra da Saúde, ministra do Trabalho e da Solidariedade Social e directora geral da Saúde.

«Há vozes que nos incomodam.

Aparentemente desencadeadas por declarações que repudiamos, feitas no passado Domingo de Páscoa pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, multiplicam-se, agora, as opiniões que, igualmente sem qualquer fundamento científico, vão no sentido de, com uma “aparente” intenção de protecção sanitária, afirmar que as pessoas mais velhas poderão ter de ficar em confinamento até ao final do ano. Quem profere ou defende tais declarações não mede o alcance do que diz. Estão a ser visadas pessoas que podem estar frágeis, carentes de afecto, longe de familiares ou amigos, mas também tantas outras que, com a mesma idade, estão enérgicas, com todas as faculdades activas, com vidas bem preenchidas e úteis à família e à comunidade. Umas e outras têm coração e têm sentimentos e não gostam nem aceitam que as ameacem de isolamento.

Confinar pessoas mais velhas durante meses seguidos configura um grave atentado aos Direitos Humanos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição da República Portuguesa. Acresce que muitas dessas pessoas vivem em lares e Estruturas Residenciais para Idosos, conservando a sua autonomia e o uso de todas as suas capacidades, pelo que tal confinamento contribuiria para um agravamento da sua saúde mental e da sua própria segurança, uma vez que a redução forçada da sua mobilidade aumenta o risco de acidentes. E o mesmo se aplica aos que vivem sós e afastados das suas famílias.

A ameaça da covid-19 não se vai evaporar com o achatamento da curva epidémica. Qualquer plano de levantamento de restrições tem que contemplar, necessariamente, todas as faixas etárias. O confinamento sem fim à vista não é solução, muito pelo contrário é o caminho mais curto para a demência senil ou uma sentença de morte antecipada para idosos que hoje têm autonomia.

Não aceitamos referências estigmatizantes que criem na sociedade a ideia, mais ou menos subtil, de que as pessoas mais velhas, apenas pela sua idade, não são bem vindas no espaço público e poderão constituir um factor acrescido para a expansão da pandemia. Não aceitamos um regime de confinamento que coloque os mais velhos isolados física e socialmente. Cidadãs e cidadãos de pleno direito, cumpriremos as medidas consideradas necessárias para conter e minorar a propagação do vírus no contacto social. Uma sociedade que não respeita os mais velhos não se merece. Nenhum poder democrático pode roubar a autonomia, a dignidade, o direito de decisão e o prazer de viver dos seus cidadãos. O sonho comanda a vida em qualquer idade. Perder a capacidade de sonhar é morrer. É contribuir para agravar o fosso entre os jovens e os mais velhos É este o nosso apelo!


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19.4.20

Era só para lembrar que os idosos são pessoas autónomas


«Não se pode esperar com enorme tranquilidade que homens e mulheres acima de 65 anos fiquem fechados em casa ou em lares por meses e meses, sem direito ao mundo exterior, sem direito ao afeto, sem direito a escolher. Quando estivermos em período de regresso à normalidade, as pessoas idosas não podem ser condenadas a morrer da precaução. Pelo contrário, temos de as respeitar enquanto cidadãos e cidadãs capazes de fazerem as suas escolhas, livres naquilo que não afete terceiros, gente que ainda quer ser gente. (…) 

Não podemos aceitar que se fale dos idosos como um terceiro neutro, um grupo mudo, destinatário silencioso, sem voz, de normas hipotéticas de isolamento de meses e meses como se a saúde fosse o único valor a proteger, como se cada idoso e cada idosa não tivesse direito, como qualquer pessoa, ao seu plano de vida.» 

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14.4.20

Pandemia e o empacotamento de velhos



«As notícias já não são bem notícias, são uma espécie de roleta russa que nos vai revelando o número dos que não tiveram sorte. O mundo acorda e deita-se à espera de melhores dias que tardam. As pestes matam e corroem a alma aos que ficam.

Entretanto, nas águas negras do infortúnio, as televisões encontram o seu melhor mundo. Por ali passam todos os números da desgraça. Muitas vezes com rostos. Outros com os números que falam de óbitos e de mais casos, incluindo os que estão nos cuidados intensivos e até dos recuperados. Os donos dos microfones têm o poder de nos dizer o que eles nos querem dizer.

Mas também, diga-se em abono da verdade, que se não fosse a covid-19 os velhos não existiam. Estavam nos tempos correntes empacotados em lares (estranha palavra que quer dizer atualmente despensa, mas que na origem significava as divindades protetoras da família – ainda me lembro de na infância se referir a ir para Penates, outros deuses protetores da casa), à espera que num fim-de-semana um familiar à vez os fosse visitar. Um velho, num mundo de sucesso, vale pouco. É uma canseira ter de pagar a um lar para ter um velho, pois num mundo de lufa-lufa um velho não dá lucro, apenas prejuízo. Num mundo dirigido pela implacável mão justiceira do mercado, o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para o inventário.

A covid veio mostrar que afinal o mercado tem de ser ajustado, pois os velhos afinal têm um valor que não é completamente residual, antes constituem um nicho de mercado.

Ao morrerem como tordos são notícia porque, apesar do frenesim da vida, as famílias ainda se lembram dos velhos empacotados ao pé de outros velhos que aguardam pacientemente que chegue o dia de alívio dos que os depositaram em casas de repouso. As televisões sabem quanto vale em termos mediáticos a morte dos velhos em tempos de covid.

Na verdade, a morte de um velho, em tempos normais, não é grande notícia, não passa do esperado.

O que pode estar a acontecer é que ainda não se tenha extinguido a memória do familiar encavalitado noutros velhos em casas de repouso. E a televisão vai dando conta da via-sacra dos velhos infetados a caminho de onde os queiram, pois nem sempre se consegue empacotar nas devidas condições um velho, e muito menos um velho com covid.

Nestas circunstâncias, é sempre algo de muito apetecível verificar como desempacotar velhos que já não podem continuar a repousar nos lares onde estavam a aguardar a visita do familiar, muitas vezes escolhido à sorte entre os tais familiares.

Os espectadores adoram ver estas coisas em direto, falta claro o cheiro a sujo, a urina, mas o velhinho ali está a passar um mau bocado porque, afinal, não repousava na casa do repouso; apodrecia.

A pandemia trouxe para a tona dos dias o quanto valem os velhos em termos mediáticos. O seu valor, que andava muito por baixo, subiu um pouco.

Se não fosse a cegueira do mundo, talvez os que não são velhos tivessem tempo para pensar que um dia chegará a casa do empacotamento. A pandemia confina, fecha, mas pode abrir os olhos. É certo que os olhos só veem o que querem, mas se olharem e virem no presente o futuro aprenderão muito. A cegueira é a arma dos donos do tempo frenético. Outro tempo virá. O que mais tem o tempo é tempo; os velhos, não.»

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29.3.20

Teimosias e isolamentos



«Caríssimos, tenho ouvido e lido muito sobre a “teimosia” dos mais velhos, que não deixam de sair de casa e não respeitam o isolamento social. No entanto, fico um pouco surpreendida por não ter lido nem ouvido ninguém (nem mesmo o Dr. Daniel Sampaio) referir aquilo que me vai no pensamento e que aqui partilho convosco. Pelo que me apercebo, a nossa população idosa, na sua ampla maioria, conhece involuntariamente o isolamento há muitos anos: há muitos anos que vive uma vida que não escolheu e para a qual toda a vida que teve antes não a preparou. A sua noção de quotidiano foi moldada na ideia de uma estrutura familiar coesa, de uma casa cheia (em qualquer condição financeira, em qualquer situação de harmonia ou de desarmonia). E essa estrutura familiar coesa não era algo que para eles fosse minimamente questionável.

A vida encarregou-se de lhes mostrar o quanto estavam enganados: a família foi-se separando, eles foram ficando cada vez mais sozinhos entre as suas quatro estreitas paredes ou enfiados em lares ou residências como numa arrecadação, como roupa que deixou de servir, como electrodoméstico que se avariou, como objecto inútil. Sem recursos emocionais que os preparassem para enfrentar o seu novo estado, viram-se a afundar no poço da solidão, incrédulos de que ninguém percebesse a ignomínia que lhes estava a ser feita. Aos poucos, muito lentamente, foram construindo a sua minguada rede de salvação, saindo da sua reclusão forçada para um passeio, uma compra, uma troca de palavras com os vizinhos, empurrando com mãos ambas o momento de voltar a enfiar-se nas paredes cada vez mais estreitas das suas casas, adiando o encontro com aquele fantasma de abandono que os atormenta mesmo quando cabeceiam, mesmo quando nele não pensam.

Agora que a espada de Dâmocles está sobre a cabeça de todos nós, os que nada sabem de isolamento vêm ter com eles para, em coro, manifestarem a sua preocupação por não se isolarem nestes dias de crise. Confesso que eu não sei o que lhes vai na cabeça, mas imagino que pensarão que a sua preocupação chega tarde, que teria sido útil há muitos anos quando lhes teria evitado a mastigação difícil e demorada de uma vida que foram forçados a ter. Não recriminam, pois eles próprios compreendem como as circunstâncias do dia-a-dia se alteraram drasticamente ao longo das últimas décadas, mas subconscientemente não aceitam que lhes seja exigido mais um isolamento forçado dentro do seu isolamento vivido. Para eles, não se trata de um período de contenção que dura semanas. Para eles tornou-se na sua história de vida.

Será preciso muito carinho e persuasão para que também eles cerrem fileiras nesta fase, mas creio que isso só será conseguido se lhes for acendida a vela da esperança de que a preocupação dos seus e dos outros (todos nós) ultrapassará a linha temporal do vírus, lhes será companhia num “depois” que, por muito difícil que venha a ser, será sempre mais fácil se não se sentirem sozinhos.

Gostaria que entre as transformações que esta pandemia irá causar na sociedade, venha a constar a da melhor atitude perante os idosos, que, caso as pessoas se esqueçam, é o adjectivo identificativo que corresponderá a quase todos a partir de um dado momento. Acredito que, a acontecer, desse novo paradigma poderá nascer um melhor futuro para todos.

Enfim, caríssimos: Fiquem em casa e não se esqueçam deles... nem agora nem depois.»

Luísa Venturini no Facebook
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28.3.20

Paredes brancas e chão liso o dia inteiro



«Acredito que se calhar, aqui, estou mais protegida do que aí fora. Mas a protecção não é conforto nenhum. Por causa da solidão. Isto é paredes brancas e chão liso o dia inteiro — eles são muito cuidadosos com a limpeza e às vezes a vida com um bocadinho de sujidade é melhor.»

Teresa Barriga, 79 anos, a viver num lar em Lisboa.
Público, 28.03.2020
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19.1.20

Este país não é para velhos!



«A Ponte Choluteca, nas Honduras, tem por baixo um leito seco e ao lado corre o rio com o mesmo nome, desviado durante o furacão Mitch. Esta é a imagem da inadequação do nosso sistema de saúde para tratar os nossos idosos, particularmente os mais frágeis e com múltiplas doenças crónicas. Estes doentes, que são os grandes utilizadores dos sistemas de saúde, representam cerca de 5% da população mas 40% a 50% das despesas em saúde. Este silver tsunami, como é apelidado na literatura internacional, é particularmente avassalador em Portugal, porque temos uma esperança de vida superior à média europeia, somos dos países com menor número de anos de vida saudável depois dos 65 anos (6,7 anos para as mulheres e 7,9 para os homens, em 2017) e também porque somos dos países, a nível mundial, onde a esperança de vida mais vai crescer.

Encontrar respostas para este problema tem sido uma prioridade da Organização Mundial da Saúde e de muitos países, no entanto, Portugal continua a ignorá-lo.

Estes doentes são complexos, a resposta é complexa e ninguém tem a solução milagrosa. Passará seguramente por mais prevenção, mais literacia, pela modificação dos comportamentos de risco, por melhores condições económicas, mas também por mudar o modelo atual de cuidados. Os hospitais que temos, fragmentados em silos dedicados a órgãos ou sistemas, já não servem, precisamos de modelos departamentais geridos por internistas que assumam a coordenação dos cuidados a estes doentes. O apoio que lhes é dado, quando são internados nos serviços cirúrgicos, é reativo e geralmente tardio; deveríamos ter equipas de internistas sediadas nos serviços cirúrgicos que os tratassem de uma forma proativa, preventiva e atempada. As enfermarias, onde prevalece a praga das infeções hospitalares, são inseguras e um ambiente adverso para os idosos. Necessitamos de programas de hospitalização domiciliária que conservem os doentes na sua casa ou nos lares. Os cuidados que estamos a prestar a esta população são fragmentados, episódicos, através das urgências hospitalares e com programas centrados em doenças. É urgente mudar este paradigma e prestar cuidados integrados e centrados nas pessoas. Esta resposta tem de ser multidisciplinar e de natureza sociossanitária, envolvendo também os recursos da comunidade, porque é cada vez mais difícil separar os problemas de saúde dos problemas sociais. Algumas destas mudanças já começaram em alguns hospitais do SNS.

Também a nossa formação médica é inadequada: fomos treinados para diagnosticar, não para avaliar a cognição, a capacidade funcional ou o risco de queda. Ensinaram-nos a prescrever, mas os idosos precisam que lhes simplifiquemos a medicação, fomos educados para tratar, mas precisamos aprender a cuidar e a aliviar o sofrimento, aprendemos a reanimar, mas temos de saber respeitar a dignidade da morte, e, sobretudo, temos de conhecer os doentes, quais as suas preocupações e prioridades, em vez de nos limitarmos a catalogá-los por doenças.

Finalmente, uma das mais graves e mais ignoradas discriminações de género, que é a das mulheres na velhice: as mulheres vivem mais seis anos que os homens, em muitos casos são mais novas que os maridos, têm menos um ano de vida saudável depois dos 65 anos e auferem pensões inferiores em cerca de 30% às dos homens. Muitas mulheres são as cuidadoras da família, às vezes abandonando precocemente os seus empregos. Mas quem cuida das mulheres quando ficam sozinhas? Quem as apoia quando têm de ser cuidadoras? A formação e a remuneração dos cuidadores, que são, na sua grande maioria, mulheres, poderia amenizar esta discriminação. Urge que os partidos e os decisores políticos elejam a resposta aos doentes idosos, crónicos e complexos como uma prioridade!»

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