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14.5.20

Dos velhos, ainda


«A solução evocada de eventual confinamento dos “nossos idosos” até ao fim do ano ou, quem sabe, até que apareça uma vacina, sob pretexto de os proteger e de assim também proteger o resto da sociedade é, do meu ponto de vista, uma afronta. Uma afronta do mesmo calibre da que propõe o confinamento de um determinado grupo étnico, ou de uma região por eventualmente ser povoada por gente “menos educada”. Trata-se de generalizações abusivas que não têm em conta o princípio base de uma sociedade livre e democrática, composta por indivíduos diferentes uns dos outros e com igual direito à liberdade de dispor de si próprio, no respeito dos mesmos condicionalismos que tocam a todos, e não por um aglomerado fragmentado de grupos, etnias, regionalismos, sujeitos cada um a tratamento diferente. 



Esther Mucznik
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2.5.20

Carta aberta e esperançosa às gerações mais velhas


«Espero que sejamos capazes de tratar-vos como iguais, usando de compaixão, mas não de condescendência. Isso significa termos consciência de que entre vós estão muitas pessoas que contribuíram para as profundas desigualdades sociais e a precariedade laboral com que ainda se debate a nossa sociedade, flagelos como a violência doméstica e o racismo sistémico, ou a crise climática em que está mergulhado o planeta. No entanto, entre vós estão também as pessoas que construíram a democracia em que vivemos; que conquistaram a liberdade de que agora beneficiamos; que foram perseguidas, presas e torturadas pela ditadura fascista em nome dos direitos que hoje nos são garantidos; que construíram o Sistema Nacional de Saúde que hoje vem em nosso socorro; que se bateram pela igualdade e pela justiça; que pesquisaram e puseram a ciência ao serviço do nosso bem-estar; que trabalharam a terra e desenvolveram as indústrias; que criaram as obras artísticas a que hoje chamamos o nosso património cultural; que se sacrificaram, com um sorriso, em nome das gerações futuras, migrando, trabalhando, educando, pesquisando, semeando, defendendo, criando, cuidando de um futuro que agora é o nosso presente. Estar na vossa presença é estar em face da substância das pessoas e do povo que somos. Devíamos cuidar melhor do que fizeram por nós.»
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21.4.20

Uma sociedade que não respeita os mais velhos não se merece


Carta Aberta ao primeiro-ministro, ministra da Saúde, ministra do Trabalho e da Solidariedade Social e directora geral da Saúde.

«Há vozes que nos incomodam.

Aparentemente desencadeadas por declarações que repudiamos, feitas no passado Domingo de Páscoa pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, multiplicam-se, agora, as opiniões que, igualmente sem qualquer fundamento científico, vão no sentido de, com uma “aparente” intenção de protecção sanitária, afirmar que as pessoas mais velhas poderão ter de ficar em confinamento até ao final do ano. Quem profere ou defende tais declarações não mede o alcance do que diz. Estão a ser visadas pessoas que podem estar frágeis, carentes de afecto, longe de familiares ou amigos, mas também tantas outras que, com a mesma idade, estão enérgicas, com todas as faculdades activas, com vidas bem preenchidas e úteis à família e à comunidade. Umas e outras têm coração e têm sentimentos e não gostam nem aceitam que as ameacem de isolamento.

Confinar pessoas mais velhas durante meses seguidos configura um grave atentado aos Direitos Humanos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição da República Portuguesa. Acresce que muitas dessas pessoas vivem em lares e Estruturas Residenciais para Idosos, conservando a sua autonomia e o uso de todas as suas capacidades, pelo que tal confinamento contribuiria para um agravamento da sua saúde mental e da sua própria segurança, uma vez que a redução forçada da sua mobilidade aumenta o risco de acidentes. E o mesmo se aplica aos que vivem sós e afastados das suas famílias.

A ameaça da covid-19 não se vai evaporar com o achatamento da curva epidémica. Qualquer plano de levantamento de restrições tem que contemplar, necessariamente, todas as faixas etárias. O confinamento sem fim à vista não é solução, muito pelo contrário é o caminho mais curto para a demência senil ou uma sentença de morte antecipada para idosos que hoje têm autonomia.

Não aceitamos referências estigmatizantes que criem na sociedade a ideia, mais ou menos subtil, de que as pessoas mais velhas, apenas pela sua idade, não são bem vindas no espaço público e poderão constituir um factor acrescido para a expansão da pandemia. Não aceitamos um regime de confinamento que coloque os mais velhos isolados física e socialmente. Cidadãs e cidadãos de pleno direito, cumpriremos as medidas consideradas necessárias para conter e minorar a propagação do vírus no contacto social. Uma sociedade que não respeita os mais velhos não se merece. Nenhum poder democrático pode roubar a autonomia, a dignidade, o direito de decisão e o prazer de viver dos seus cidadãos. O sonho comanda a vida em qualquer idade. Perder a capacidade de sonhar é morrer. É contribuir para agravar o fosso entre os jovens e os mais velhos É este o nosso apelo!


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19.4.20

Era só para lembrar que os idosos são pessoas autónomas


«Não se pode esperar com enorme tranquilidade que homens e mulheres acima de 65 anos fiquem fechados em casa ou em lares por meses e meses, sem direito ao mundo exterior, sem direito ao afeto, sem direito a escolher. Quando estivermos em período de regresso à normalidade, as pessoas idosas não podem ser condenadas a morrer da precaução. Pelo contrário, temos de as respeitar enquanto cidadãos e cidadãs capazes de fazerem as suas escolhas, livres naquilo que não afete terceiros, gente que ainda quer ser gente. (…) 

Não podemos aceitar que se fale dos idosos como um terceiro neutro, um grupo mudo, destinatário silencioso, sem voz, de normas hipotéticas de isolamento de meses e meses como se a saúde fosse o único valor a proteger, como se cada idoso e cada idosa não tivesse direito, como qualquer pessoa, ao seu plano de vida.» 

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14.4.20

Pandemia e o empacotamento de velhos



«As notícias já não são bem notícias, são uma espécie de roleta russa que nos vai revelando o número dos que não tiveram sorte. O mundo acorda e deita-se à espera de melhores dias que tardam. As pestes matam e corroem a alma aos que ficam.

Entretanto, nas águas negras do infortúnio, as televisões encontram o seu melhor mundo. Por ali passam todos os números da desgraça. Muitas vezes com rostos. Outros com os números que falam de óbitos e de mais casos, incluindo os que estão nos cuidados intensivos e até dos recuperados. Os donos dos microfones têm o poder de nos dizer o que eles nos querem dizer.

Mas também, diga-se em abono da verdade, que se não fosse a covid-19 os velhos não existiam. Estavam nos tempos correntes empacotados em lares (estranha palavra que quer dizer atualmente despensa, mas que na origem significava as divindades protetoras da família – ainda me lembro de na infância se referir a ir para Penates, outros deuses protetores da casa), à espera que num fim-de-semana um familiar à vez os fosse visitar. Um velho, num mundo de sucesso, vale pouco. É uma canseira ter de pagar a um lar para ter um velho, pois num mundo de lufa-lufa um velho não dá lucro, apenas prejuízo. Num mundo dirigido pela implacável mão justiceira do mercado, o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para o inventário.

A covid veio mostrar que afinal o mercado tem de ser ajustado, pois os velhos afinal têm um valor que não é completamente residual, antes constituem um nicho de mercado.

Ao morrerem como tordos são notícia porque, apesar do frenesim da vida, as famílias ainda se lembram dos velhos empacotados ao pé de outros velhos que aguardam pacientemente que chegue o dia de alívio dos que os depositaram em casas de repouso. As televisões sabem quanto vale em termos mediáticos a morte dos velhos em tempos de covid.

Na verdade, a morte de um velho, em tempos normais, não é grande notícia, não passa do esperado.

O que pode estar a acontecer é que ainda não se tenha extinguido a memória do familiar encavalitado noutros velhos em casas de repouso. E a televisão vai dando conta da via-sacra dos velhos infetados a caminho de onde os queiram, pois nem sempre se consegue empacotar nas devidas condições um velho, e muito menos um velho com covid.

Nestas circunstâncias, é sempre algo de muito apetecível verificar como desempacotar velhos que já não podem continuar a repousar nos lares onde estavam a aguardar a visita do familiar, muitas vezes escolhido à sorte entre os tais familiares.

Os espectadores adoram ver estas coisas em direto, falta claro o cheiro a sujo, a urina, mas o velhinho ali está a passar um mau bocado porque, afinal, não repousava na casa do repouso; apodrecia.

A pandemia trouxe para a tona dos dias o quanto valem os velhos em termos mediáticos. O seu valor, que andava muito por baixo, subiu um pouco.

Se não fosse a cegueira do mundo, talvez os que não são velhos tivessem tempo para pensar que um dia chegará a casa do empacotamento. A pandemia confina, fecha, mas pode abrir os olhos. É certo que os olhos só veem o que querem, mas se olharem e virem no presente o futuro aprenderão muito. A cegueira é a arma dos donos do tempo frenético. Outro tempo virá. O que mais tem o tempo é tempo; os velhos, não.»

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29.3.20

Teimosias e isolamentos



«Caríssimos, tenho ouvido e lido muito sobre a “teimosia” dos mais velhos, que não deixam de sair de casa e não respeitam o isolamento social. No entanto, fico um pouco surpreendida por não ter lido nem ouvido ninguém (nem mesmo o Dr. Daniel Sampaio) referir aquilo que me vai no pensamento e que aqui partilho convosco. Pelo que me apercebo, a nossa população idosa, na sua ampla maioria, conhece involuntariamente o isolamento há muitos anos: há muitos anos que vive uma vida que não escolheu e para a qual toda a vida que teve antes não a preparou. A sua noção de quotidiano foi moldada na ideia de uma estrutura familiar coesa, de uma casa cheia (em qualquer condição financeira, em qualquer situação de harmonia ou de desarmonia). E essa estrutura familiar coesa não era algo que para eles fosse minimamente questionável.

A vida encarregou-se de lhes mostrar o quanto estavam enganados: a família foi-se separando, eles foram ficando cada vez mais sozinhos entre as suas quatro estreitas paredes ou enfiados em lares ou residências como numa arrecadação, como roupa que deixou de servir, como electrodoméstico que se avariou, como objecto inútil. Sem recursos emocionais que os preparassem para enfrentar o seu novo estado, viram-se a afundar no poço da solidão, incrédulos de que ninguém percebesse a ignomínia que lhes estava a ser feita. Aos poucos, muito lentamente, foram construindo a sua minguada rede de salvação, saindo da sua reclusão forçada para um passeio, uma compra, uma troca de palavras com os vizinhos, empurrando com mãos ambas o momento de voltar a enfiar-se nas paredes cada vez mais estreitas das suas casas, adiando o encontro com aquele fantasma de abandono que os atormenta mesmo quando cabeceiam, mesmo quando nele não pensam.

Agora que a espada de Dâmocles está sobre a cabeça de todos nós, os que nada sabem de isolamento vêm ter com eles para, em coro, manifestarem a sua preocupação por não se isolarem nestes dias de crise. Confesso que eu não sei o que lhes vai na cabeça, mas imagino que pensarão que a sua preocupação chega tarde, que teria sido útil há muitos anos quando lhes teria evitado a mastigação difícil e demorada de uma vida que foram forçados a ter. Não recriminam, pois eles próprios compreendem como as circunstâncias do dia-a-dia se alteraram drasticamente ao longo das últimas décadas, mas subconscientemente não aceitam que lhes seja exigido mais um isolamento forçado dentro do seu isolamento vivido. Para eles, não se trata de um período de contenção que dura semanas. Para eles tornou-se na sua história de vida.

Será preciso muito carinho e persuasão para que também eles cerrem fileiras nesta fase, mas creio que isso só será conseguido se lhes for acendida a vela da esperança de que a preocupação dos seus e dos outros (todos nós) ultrapassará a linha temporal do vírus, lhes será companhia num “depois” que, por muito difícil que venha a ser, será sempre mais fácil se não se sentirem sozinhos.

Gostaria que entre as transformações que esta pandemia irá causar na sociedade, venha a constar a da melhor atitude perante os idosos, que, caso as pessoas se esqueçam, é o adjectivo identificativo que corresponderá a quase todos a partir de um dado momento. Acredito que, a acontecer, desse novo paradigma poderá nascer um melhor futuro para todos.

Enfim, caríssimos: Fiquem em casa e não se esqueçam deles... nem agora nem depois.»

Luísa Venturini no Facebook
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28.3.20

Paredes brancas e chão liso o dia inteiro



«Acredito que se calhar, aqui, estou mais protegida do que aí fora. Mas a protecção não é conforto nenhum. Por causa da solidão. Isto é paredes brancas e chão liso o dia inteiro — eles são muito cuidadosos com a limpeza e às vezes a vida com um bocadinho de sujidade é melhor.»

Teresa Barriga, 79 anos, a viver num lar em Lisboa.
Público, 28.03.2020
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19.1.20

Este país não é para velhos!



«A Ponte Choluteca, nas Honduras, tem por baixo um leito seco e ao lado corre o rio com o mesmo nome, desviado durante o furacão Mitch. Esta é a imagem da inadequação do nosso sistema de saúde para tratar os nossos idosos, particularmente os mais frágeis e com múltiplas doenças crónicas. Estes doentes, que são os grandes utilizadores dos sistemas de saúde, representam cerca de 5% da população mas 40% a 50% das despesas em saúde. Este silver tsunami, como é apelidado na literatura internacional, é particularmente avassalador em Portugal, porque temos uma esperança de vida superior à média europeia, somos dos países com menor número de anos de vida saudável depois dos 65 anos (6,7 anos para as mulheres e 7,9 para os homens, em 2017) e também porque somos dos países, a nível mundial, onde a esperança de vida mais vai crescer.

Encontrar respostas para este problema tem sido uma prioridade da Organização Mundial da Saúde e de muitos países, no entanto, Portugal continua a ignorá-lo.

Estes doentes são complexos, a resposta é complexa e ninguém tem a solução milagrosa. Passará seguramente por mais prevenção, mais literacia, pela modificação dos comportamentos de risco, por melhores condições económicas, mas também por mudar o modelo atual de cuidados. Os hospitais que temos, fragmentados em silos dedicados a órgãos ou sistemas, já não servem, precisamos de modelos departamentais geridos por internistas que assumam a coordenação dos cuidados a estes doentes. O apoio que lhes é dado, quando são internados nos serviços cirúrgicos, é reativo e geralmente tardio; deveríamos ter equipas de internistas sediadas nos serviços cirúrgicos que os tratassem de uma forma proativa, preventiva e atempada. As enfermarias, onde prevalece a praga das infeções hospitalares, são inseguras e um ambiente adverso para os idosos. Necessitamos de programas de hospitalização domiciliária que conservem os doentes na sua casa ou nos lares. Os cuidados que estamos a prestar a esta população são fragmentados, episódicos, através das urgências hospitalares e com programas centrados em doenças. É urgente mudar este paradigma e prestar cuidados integrados e centrados nas pessoas. Esta resposta tem de ser multidisciplinar e de natureza sociossanitária, envolvendo também os recursos da comunidade, porque é cada vez mais difícil separar os problemas de saúde dos problemas sociais. Algumas destas mudanças já começaram em alguns hospitais do SNS.

Também a nossa formação médica é inadequada: fomos treinados para diagnosticar, não para avaliar a cognição, a capacidade funcional ou o risco de queda. Ensinaram-nos a prescrever, mas os idosos precisam que lhes simplifiquemos a medicação, fomos educados para tratar, mas precisamos aprender a cuidar e a aliviar o sofrimento, aprendemos a reanimar, mas temos de saber respeitar a dignidade da morte, e, sobretudo, temos de conhecer os doentes, quais as suas preocupações e prioridades, em vez de nos limitarmos a catalogá-los por doenças.

Finalmente, uma das mais graves e mais ignoradas discriminações de género, que é a das mulheres na velhice: as mulheres vivem mais seis anos que os homens, em muitos casos são mais novas que os maridos, têm menos um ano de vida saudável depois dos 65 anos e auferem pensões inferiores em cerca de 30% às dos homens. Muitas mulheres são as cuidadoras da família, às vezes abandonando precocemente os seus empregos. Mas quem cuida das mulheres quando ficam sozinhas? Quem as apoia quando têm de ser cuidadoras? A formação e a remuneração dos cuidadores, que são, na sua grande maioria, mulheres, poderia amenizar esta discriminação. Urge que os partidos e os decisores políticos elejam a resposta aos doentes idosos, crónicos e complexos como uma prioridade!»

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