13.3.20

Somos assim



Até ontem, as redes sociais estavam cheios de especialistas em Coronavirus.

Hoje, transformaram-se em conselheiros de saúde pública – só falta decretarem qual a marca de sabão que deve ser usada para lavar as mãos e a que hora se deve ir passear o cão.
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Isto é bom para italianos




Por cá, não se se atinava nem se se cantasse o Hino Nacional ou o Grândola.
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E quando se lê isto logo pela manhã?


«No nosso país (ainda) ninguém morreu da nova gripe mas o nosso governo julga que devido ao contágio as nossas vidas correm um perigo tal que tomou a medida de fechar as escolas. Fechar as escolas, como o leitor se lembra, foi o momento decisivo da Revolução Cultural do Presidente Mao, imitada pela revolta de Maio de 1968 em Paris.»
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Medidas para levar a sério



«Que o encerramento das escolas e das discotecas e a redução da lotação máxima dos restaurantes e dos centros comerciais seja o que faltava para todos perceberem que não estamos num circo nem a brincar quando falamos das vidas de todos nós.

Que as corajosas palavras e as medidas difíceis anunciadas por António Costa sirvam de uma vez por todas para dar validade às recomendações das autoridades de saúde que nos últimos dias temos recebido, mas para as quais muitos portugueses olham com desdém e com escárnio.

Elogie-se o momento em que o país político encontrou equilíbrio num dos momentos mais difíceis da história e que, agora, "a luta pela nossa própria sobrevivência", como, e bem, a classificou o primeiro-ministro, se possa travar com menos pânico e mais racionalidade. Sem idas à praia, sem festas temáticas e sem açambarcamento irracional de bens essenciais. E chegamos também ao ponto em que combater o Covid-19 é também combater o vírus que prolifera na Internet como um tsunami. Que as redes sociais sejam um local de entreajuda e onde a responsabilidade de cada um possa fazer a diferença, e não o habitual desaguar de frustrações e sapiência oca. Porque "há duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta". A frase é do físico Albert Einstein. E lembrei-me dela por um simples motivo: é daquelas expressões que "bombam" nas redes e confere ao autor do post uma espécie de grandeza intelectual e filosófica. Mas nunca pensei que, com mais de 30 anos de jornalismo, a máxima do físico alemão servisse como argumento para entender o comportamento das pessoas neste tempo difícil que vivemos.

Que o fecho das escolas e as quarentenas e, por arrasto, o tempo que todos irão ter mais disponível para passar na Internet não sirva, portanto, para aumentar a parvoíce.»

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Roma, cidade fechada



Sim, não estamos em tempos de «Roma, cidade aberta», caro Rossellini.
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12.3.20

Solidariedade da China



«Já chegaram a Itália nove médicos chineses, que a força das circunstâncias fizeram especialistas em coronavírus, mais 31 toneladas de suprimentos médicos. Após contactos de alto nível entre os governos dos dois países a rapidez de resposta prática da China e da Cruz Vermelha chinesa é impressionante. Eles sabem melhor que ninguém o que a Itália está a passar.»

Via Isabel Sousa Lobo no Facebook.
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Bispo do Porto, um verdadeiro criminoso



É perante factos como este que se chega a ter inveja de ditaduras. Esta criatura devia poder ser detida imediatamente, ao manter a convocatória para um acontecimento inútil num recinto fechado.


«O bispo do Porto, D. Manuel Linda, fez um apelo público na sua página de Twitter para que “todos” os fiéis participassem numa celebração para assinalar os sete anos da eleição do Papa Francisco na catedral daquela cidade, apesar de o principal foco de coronavírus ser precisamente no distrito do Porto.»

P.S. - O bispo cancelou hoje o evento:

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Covid-19 – Estado da arte



O Conselho Nacional de Saúde Pública esteve ontem reunido uma montanha de horas, pariu um rato, lavou as mãos como Pilatos, atirou a decisão de fechar as escolas para as autoridades de Saúde e estas fizeram naturalmente o mesmo em relação ao Governo.

E nós? Para já, continuam a pedir-nos que lavemos muito bem as mãos – como Pilatos.
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Coranavírus: chegou o momento de ir mais longe



«Quem hoje ao final da tarde fosse a um supermercado perceberia que os portugueses, limpando as prateleiras de alimentos, já interiorizaram a gravidade da crise provocada pela covid-19. No entanto, quem na mesma tarde tivesse passado pela linha de Cascais, e olhado para as praias cheias de banhistas em Março, também entenderia que há muitos outros a não querer entender a natureza do problema que vive o país e o mundo. É preciso ser claro: o açambarcamento é errado, mas o instinto dos primeiros é muito mais correcto do que a displicência dos segundos.

Ao longo das últimas semanas, temos visto a mancha do vírus a alastrar-se pelo mundo, o número de contágios e de mortos a aumentar imparável, até ultrapassar os cem mil infectados. A resposta da maioria dos países foi tentar o difícil exercício de equilíbrio entre os custos que podem representar medidas que paralisem a actividade económica e cívica e a necessidade de tentar suster ao máximo as probabilidades de contágio.

Portugal não foi diferente. Seguimos os passos dos conselhos, dos avisos às populações, de procurar isolar as cadeias de contágio, de preparar meios clínicos, de fechar instituições, até de tentar isolar localidades onde irromperam surtos mais significativos. Pelo caminho houve hesitações, declarações contraditórias, quem se adiantasse às medidas das autoridades nacionais, o que não estando isento de críticas não deixa de ser natural, porque ninguém tem um manual escrito para uma situação desta dimensão.

É chegado o momento de ir mais longe, muito mais longe. O exemplo de descontrolo de Itália, onde foram tentadas medidas mitigadoras antes de chegar à quarenta de toda a população, em contraste com o que aconteceu em Macau, onde medidas de isolamento total redundaram em fraquíssimas taxas de infecção, tem de servir de ensinamento.

Paralisar um país nunca será uma medida fácil, mas permitir que o SNS entre em total ruptura, perante o aumento previsível de casos, conduzirá a prejuízos muito semelhantes e, mais importante do que isso, a uma perda de vidas que poderia ser evitada.

Há um inimigo declarado que é preciso eliminar. E é assim que temos de encarar os próximos dias, como um conflito em larga escala contra o vírus, com todas as medidas excepcionais que são justificadas pela situação extraordinária que vivemos, adoptando medidas mais alargadas. Possa cada um dos portugueses, o seu Governo e as autoridades sanitárias estar à altura dos tempos difíceis que são já a realidade de hoje.»

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11.3.20

O'Neill é que sabia



«ó Portugal, se fosses só três sílabas / de plástico, que era mais barato!»

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11.03.1975 - O dia em que começou o PREC



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Covid-19 e UE? «Parolas»


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Há um plano de emergência para o vírus da crise económica?



«Com milhões de pessoas fechadas em casa um pouco por toda a China e a atividade económica reduzida ao mínimo, a fábrica do mundo está fechada. Só como exemplo, Shandong, cidade que acolhe refinarias responsáveis por um quinto das importações de crude chinesas, está praticamente parada. Monstros comerciais e industriais estão paralisados. Os efeitos económicos vão ser colossais. O Japão (os Jogos Olímpicos estão em risco), a Coreia do Sul e grande parte da Ásia estão a ser fortemente afetados. Pensem noutras crises, como a causada pela implosão do mercado imobiliário nos EUA, e facilmente perceberão que é pouco ao pé do que se pode avizinhar. Uns idiotas, na Europa, nos EUA e em Portugal, chegaram a especular sobre as vantagens económicas da crise na China. Não lhes ocorreu que antes de cá chegarem os clientes perdidos pela China viria o próprio vírus.

Esqueçam a Ásia. Pensem na Europa. Em Itália, em estado de sítio e fechada. Na Alemanha lenta, em Espanha em pânico. Imaginem o efeito de milhares e milhares de pessoas em quarentena, de empresas a meio gás, das escolas e universidades fechadas, da redução do consumo. Toda a economia europeia disfuncional. Prolonguem isto por meses. Imaginem que impacto terá na economia.

Esqueçam a Europa. Fiquem só em Portugal. Nem precisam de pensar em tudo o que vai funcionar pior ou na despesa pública que será necessária para travar o vírus. Ainda pouco aconteceu e a pressão política (ou aproveitamento político, depende do ponto de vista) já começou. E é quando isso acontece que se tomam decisões absurdas e irracionais para acalmar jornalistas e opiniões públicas mais impressionáveis.

Mas esqueçam a economia em geral. Pensem apenas no turismo, em que baseámos grande parte da nossa recuperação, apesar de tantos avisos sobre a enorme fragilidade dessa escolha. Bastaria um atentado para deitar tudo por terra, disse-se. Não nos lembrámos de um vírus. Não precisam de grande esforço para imaginar nada. A Bolsa de Turismo de Lisboa foi adiada para maio. Querem maior sinal do que vai acontecer do que o que é dado pelo próprio sector? Só nos resta rezar para que isto passe antes do verão.

Acho que já perceberam o meu ponto. Vem aí uma crise económica. Como anunciam as bolsas em queda a pique, vem aí uma brutal crise económica. Enquanto tentamos travar o vírus com os instrumentos que temos, sacrificando a economia em nome de vidas ou da segurança – escolha mais do que compreensível –, há quem tenha o dever de preparar a ressaca económica do coronavírus. A Europa já deu sinal de que será tolerante com derrapagens orçamentais que resultem do combate à epidemia. Não vos digo que é pouco. Digo-vos que é nada. Que é quase um insulto. A Europa tem de preparar uma resposta coletiva a isto, não deixando de novo, como fez com a crise de 2008, cada um sozinho a enfrentar, com instrumentos naturalmente diferentes, a crise que se avizinha. Para descobrir, no fim, que se tivesse agido a tempo teria evitado uma crise à escala continental. A metáfora do esforço coletivo para conter o vírus é excelente para não repetir os erros de 2008. Não se deixa instalar o pânico, esperando que a maleita destrua os que têm menos defesas. Faz-se um esforço coletivo para conter a epidemia. A Europa tem de começar já a discutir um plano europeu de relançamento económico. Para estar preparada quando a crise chegar. Não há segundas oportunidades. Se cometerem os mesmos erros de 2008 podem esquecer o projeto europeu. Os fantasmas que nos atormentam há mais de uma década tomarão de vez o poder. Comecem já, antes que seja tarde.

Portugal começou, e é caso para dizer que a receita é a de sempre: reduzir obrigações fiscais das empresas, que virão depois a ser pagas pelos contribuintes em IRS, facilitar o lay-off, levando a perda de um terço do salário dos trabalhadores abrangidos e rigorosamente plano nenhum para animar a economia. Como de costume, quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Talvez volte a falar desta sina.»

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10.3.20

Também podemos rir um pouco...



Via Insónias do Carvão no Facebook.
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Boris Vian - Seriam 100 (10.03.1920)



Boris Vian faria hoje 100 anos e morreu antes de chegar aos 40. Escritor, engenheiro mecânico, inventor, poeta, cantor e trompetista, também anarquista, teve uma vida acidentada e ficou sobretudo conhecido pelos livros de poemas e alguns dos seus onze romances, como L’écume des jours e L’automne à Pékin.

Especialmente célebre ficou também uma canção – Le déserteur – , que foi durante muitos anos uma espécie de hino para todos os que recusavam participar em guerras, incluindo muitos portugueses. Lançada durante a guerra da Indochina, foi grande o seu impacto e acabou mesmo por ser proibida por antipatriotismo, na rádio francesa, pouco depois do início do conflito na Argélia.

Nunca esquecerei quando Le déserteur cumpriu a função da mais improvável das marchas nupciais, no casamento de um amigo, em Bruxelas, no fim dos anos 60.


(Serge Reggiani : Dormeur du Val , de Arthur Rimbaud, e Le déserteur de Boris Vian.)

Mais:



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Aprender a viver com a incerteza radical



«O voo de um bando de estorninhos é um espectáculo fascinante. É-o por motivos estéticos, mas também científicos. Não existe um maestro que guie a acção daqueles milhares de pássaros. A coreografia única que produzem em conjunto baseia-se em regras simples de comportamento. Cada ave reage ao que fazem as outras que a rodeiam. O resultado é imprevisível: mesmo que tivesse a inteligência de um humano, nenhum estorninho saberia para onde iria o bando a seguir. Mas a imprevisibilidade - e a enorme complexidade que emerge a partir de regras tão simples - não conduz ao colapso do grupo. O bando mantém-se coeso e o resultado é impressionante.

As sociedades humanas têm muitas parecenças com um bando de estorninhos. Tentem regressar a Dezembro passado e lembrar o que se previa para 2020. Na lista não constava o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani às mãos dos EUA, que pôs os mercados financeiros em transe logo no início de Janeiro. Nem a extensão do contágio internacional do novo coronavírus, cujos danos começam a ser evidentes. Nem o efeito do desentendimento entre a Arábia Saudita e a Rússia sobre o preço do petróleo. Ainda nem vamos a um quarto do ano e já estes e outros episódios nos obrigam a repensar muitas decisões.

Há diferenças importantes entre as sociedades humanas e um bando de estorninhos, é certo. Entre nós, há hierarquias bem definidas. Há leis e regras bem mais complicadas, umas escritas outras não. Há memórias estruturadas do passado, que influenciam as nossas escolhas. Há uma luta activa mais ou menos organizada pelas ideias, que ajuda a moldar regras e comportamentos. Em alguns aspectos, estas características tornam as sociedades humanas mais previsíveis do que um bando de pássaros. Noutros, pelo contrário, aumentam a complexidade e a imprevisibilidade.

Tal como no caso dos estorninhos, é possível reconstruir a sequência de casualidades que levou a cada um dos eventos referidos. Esse tipo de análise histórica e institucional ensina-nos muito sobre o funcionamento das sociedades humanas. No entanto, só por um improvável acaso alguém teria conseguido prever cada um deles, quanto mais tudo o que já se passou nos últimos dois meses.

Ainda há quem acredite que a previsão é o objectivo último da ciência. Nas escolas de Economia, por exemplo, os alunos são educados para acreditar na bondade de modelos formais que visam projectar as economias no futuro. Pelo contrário, têm pouco ou nenhum espaço para aprender sobre processos que se verificaram no passado em contextos específicos. Os modelos formais são úteis, sem dúvida. Mas estaríamos mal se as decisões fundamentais para a vida em sociedade se guiassem apenas - ou fundamentalmente - por eles.

Numa decisão pouco habitual, a OCDE anunciou que iria cancelar a publicação dos seus principais indicadores económicos avançados no início de Março, devido à incapacidade de prever neste momento os efeitos do novo coronavírus na economia mundial. Até lá, os governos terão de tomar decisões sem o conforto destas previsões oficiais.

Na verdade, as instituições internacionais também não têm capacidade para prever com o mínimo de precisão os impactos de uma descida abrupta do preço do petróleo, num contexto mundial marcado por níveis de endividamento público e privado sem precedentes históricos, por tensões políticas prolongadas em vários países produtores de petróleo, ou pela preocupação dos EUA face ao rápido desenvolvimento tecnológico da China. Isto não impede a OCDE de ir actualizando as suas previsões ao longo do ano - e ainda bem. O problema não está nas previsões, mas no uso que fazemos delas.

O conforto que muitos encontram nas previsões exactas dos modelos económicos é conveniente, mas é falso. Os responsáveis do futuro não podem ser ensinados apenas a construir modelos que assumem níveis de certeza que não existem. Igualmente importante é aprendermos todos a lidar a com a incerteza radical que caracteriza as sociedades humanas. Pelo menos tanto como os movimentos de um bando de estorninhos.»

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Max von Sydow




Ficará para sempre ligado a Ingmar Bergman no baú das nossas memórias.

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9.3.20

Menino vem à janela...


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A vida é cheia de surpresas



Quem nos diria que, no dia em que comemora o quarto aniversário da tomada de posse como presidente da República, Marcelo iria fazer um teste para saber se nele se alojou um bicharoco?

Hipocondríaco como se confessa, é bem capaz de nunca mais querer andar por aí aos beijinhos e de isso condicionar a decisão quanto a uma segunda candidatura!
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Cancelamento



Por razões óbvias, este evento não terá lugar na data prevista.
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O PS tornou-se cavaquista?



«Quem diria que as “forças de bloqueio” tão caras à retórica ressentida de Cavaco Silva quando era primeiro-ministro – e que visavam especialmente o então Presidente Soares – estão de regresso pela boca do PS, desde a presidente do grupo parlamentar socialista, Ana Catarina Mendes, até ao presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, tendo na mira os partidos da oposição ou entidades como o Tribunal de Contas? Que razões oblíquas levam o PS a adoptar uma expressão que, no seu primitivo tempo cavaquista, era entendida pelos socialistas como um mau exemplo de desconforto com a natureza diversa, plural e até conflitual da democracia? Como se explica esta eventual e tão estranha metamorfose do velho cavaquismo no actual socialismo?

As respostas a estas interrogações não são lineares até porque implicam situações, psicologias e comportamentos variados. Mas a explicação global para o regresso das “forças de bloqueio” talvez se resuma a um clássico infeliz da história das democracias: a arrogância e a displicência do poder – de um poder que se fecha sobre si mesmo, se julga infalível ou se torna avesso ao diálogo e à negociação com os opositores ou outras instâncias políticas e judiciais. Um poder que, para cúmulo, alimenta a auto-ilusão de ter negociado o que nunca verdadeiramente negociou.

Tudo isso é ilustrado através de três exemplos recentes: as polémicas sobre o aeroporto do Montijo, as PPP na Saúde e a escolha dos candidatos do PS ao Tribunal Constitucional – tendo as duas últimas tido como resultado inevitável a derrota parlamentar do Governo. No primeiro caso, houve uma inexplicável precipitação e uma insustentável ligeireza (que fez o Governo esquecer, por exemplo, a necessidade de negociar com as autarquias da área do aeroporto, devido a uma lei – porventura disparatada – do Governo Sócrates). No segundo caso, temos uma história de contornos opacos e muitíssimo duvidosos que os responsáveis políticos capricharam em ocultar (o que, obviamente, a tornou um objecto político inviável). E, no terceiro, deparamos com a escolha absurda de Vitalino Canas, uma personagem de perfil mais do que controverso, para um cargo da mais elevada responsabilidade político-judicial (escolha também rejeitada, aliás, por deputados do PS).

Estes são três casos de falta de bom senso político elementar e, por isso, indefensáveis, mesmo que o PS possa ter razão de queixa no que se refere ao oportunismo calculista das oposições (nomeadamente do PSD em relação ao aeroporto do Montijo, um projecto aprovado pelo Governo de Passos Coelho). Aliás, dada a forma como tratou os três dossiers, o PS só pode queixar-se de si próprio, estando obrigado a fazer um urgente exame de consciência ético-político para evitar cair em novas armadilhas em forma de “forças de bloqueio”.

Como salientou o Presidente da República, por ocasião dos 30 anos do PÚBLICO, “naquilo que o sistema político e social – e é bastante – está descolado da realidade, é preciso mudar de vida enquanto é tempo”, até porque não se pode começar uma legislatura com “um estado de espírito de fim de legislatura". É um recado para toda a gente, mas que compromete em primeiro lugar António Costa, mergulhado numa governação “caso a caso, em cima da hora, no último segundo”, uma governação aparentemente cansada de si mesma, talvez porque não se adaptou ao fim da “geringonça” e vive na ilusão – ou na frustração – de ter uma maioria absoluta que não conseguiu conquistar. Ou será por causa – diria Cavaco – das “forças de bloqueio"?»

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O naufrágio moral da Europa



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8.3.20

Sempre neste dia


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Comentários para quê



Crianças sírias na terra de ninguém, a fronteira entre a Turquia e a a Grécia.
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São Tomé e Princípe, a crónica da morte anunciada da Catarina



«São Tomé e Príncipe tem sido um país mergulhado na miséria crescente, sem futuro e com o crescimento descontrolado da natalidade, infelizmente pelas piores razões: a poligamia masculina e o abandono das crianças e das mães e pela ausência do planeamento familiar. A organização não-governamental que “mais” actua por lá, mais parece governamental que não-governamental.

O risco aumenta. O consumo de álcool aumenta. A pobreza é gritante. No meio disto, a criminalidade dispara. O desemprego também e a saúde é uma catástrofe. O que pensa desta tragédia um primeiro-ministro caído do céu, e o que faz pelo povo que diz ser seu, se não garante nada aos nacionais? A credibilidade morreu. E nem o petróleo que as petrolíferas querem explorar lhes garante segurança ou sustentabilidade financeira. A miséria é cada vez maior. O naufrágio do Anfrititi mostrou um Governo que abandona o seu povo. Foi a mim que o Governo regional do Príncipe pediu para confortar famílias dizimadas. Lavadas em lágrimas. Determinado jornal português assediava-me pelo sensacionalismo, para lhe “confirmar a morte de uma portuguesa”. Tinham morrido afogadas cerce de 60 pessoas, santomenses como eu. Não havia portugueses como eu sou também. Nada foi feito pelo Governo central. Cada um decide em causa própria. Não promovem a saúde nem garantem a segurança.

Turismo? Não me esqueço da turista alemã brutalmente violada no sul, por três santomenses. A morte da Anabela com 17 anos. Sem diagnóstico. Morreu nos braços da minha filha Francisca. Agora, a morte da Catarina. Não podemos continuar a ignorar a gravidade desta miserável situação!

O alarme instalou-se com um ensaio de pré-ditadura em 2016. Apelei à intervenção do primeiro-ministro de Portugal, pessoalmente e depois através de um artigo no PÚBLICO. Sou preta. Daquele tipo que nasceu imperfeita. E não tenho culpa. Mas visto com orgulho a pele que tenho, a raça e o sangue das minhas veias e da terra em que nasci. Mas não compreendo, 45 anos depois da independência, como se assassina cruelmente uma mulher, portuguesa, indefesa, à catanada, que não é preta como eu. Portugal nada diz. E São Tomé e Príncipe em silêncio de sepulcral. A morte da Catarina, indefesa, não pode ser silenciada. Exijo um ponto final no projecto da corrupção e das miseráveis condições de saúde, socioeconómicas e de criminalidade violenta, associada ao consumo de álcool, a disparar.

Durante as eleições, em 2018, defendi o regresso à democracia. Apoiei Bom Jesus, sem carisma. Acreditava que era um bom homem. Honesto. Carregado de sonhos para o país que me viu nascer. Coloquei-me à frente dos ninjas que se preparavam para abater jovens manifestantes. Hoje, olho para um povo desesperado que me envergonha e coloca nas redes sociais um corpo de uma mulher esquartejada no seu local de trabalho. E pergunto: o senhor primeiro-ministro não se envergonha da pasta que lidera? Acha que este é um país melhor do que aquele que herdou?

Caro António Costa, estive com o ministro Augusto Santos Silva. Elogiou o estudo que liderei em São Tomé e Príncipe quando da visita do Presidente da República de Portugal. Esses resultados acabaram com ameaças de morte e contra a minha integridade física. Acima da minha nacionalidade, sou mãe de três filhos. Gostava de morrer quando Deus quiser. Posso? A Catarina, da minha idade, foi brutalmente assassinada no seu local de trabalho. Liguei ao Tiziano e à Mari, seus patrões, italianos. E vocês, grande Governo de um democrático Portugal, o que fazem para defender a Catarina? E a Embaixada de Portugal? Além de estrangulada e invadida, Portugal não vai defender um conceito que a justiça de São Tomé engoliu? Tenho a morte prometida. Talvez seja um aviso à vossa navegação. Está tudo bem. Enquanto discutem a covid-19 com muita propaganda à mistura, convinha abrir os olhos. E ver.»

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7.3.20

Marcelo: isto só visto, não se inventa



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Covid-19: um tema inesperado nas presidenciais americanas


«Inesperadamente, este pode vir a ser o novo grande debate americano. Se a covid-19 atingir os Estados Unidos com gravidade, vai ser tema quente da campanha eleitoral, uma notícia pouco agradável para Donald Trump.

Diz a CNN que a América tem meios para pôr em quarentena os suspeitos mas não tem meios para tratar os doentes que não tenham bons seguros. Num caso de epidemia é inaceitável a discriminação entre ricos e pobres. “É muito provável que o coronavírus venha a ser um protagonista de primeiro plano na campanha eleitoral para a Casa Branca”, prevê a socióloga Nadia Urbinati, que ensina nos EUA. (…)

A Administração Trump nada fez para responder à eventualidade de um grande surto nos EUA. Pior, Trump desvalorizou os riscos. “É a sua presidência que está em risco pela covid-19, mais do que a sua vida”, avisa Ferguson. O coronavírus ainda mal desencadeou a queda dos dominós.»

Jorge Almeida Fernandes
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Em Macau foi assim: um caso exemplar




Esta descrção corresponde exactamente ao que me foi contando uma amiga, também portuguesa, que lá vive: uma experiência exemplar.

(Se ao clicar no link der erro, tente de novo.)

A ler também: O que aprendemos até agora sobre o Covid-19?
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O fim do compromisso



«Há uma certa estranheza na nossa estabilidade e resiliência institucionais. Quatro décadas após o pacto MFA/partidos, os partidos que tiveram representação parlamentar na Constituinte mantêm-se no Parlamento. É uma singularidade portuguesa que ajuda a explicar a razão pela qual, apesar de tudo, nos mantemos governáveis. Mas os sinais de que as coisas estão a mudar são significativos.

Temos hoje muito mais partidos na Assembleia da República que, no entanto, não substituíram os da fundação da democracia. Por si só, mais pluralidade traz mais representatividade social e não obriga a que as condições de governabilidade se deteriorem — na maioria dos nossos parceiros europeus as coligações são a regra. Não há nenhuma incompatibilidade entre fragmentação partidária e capacidade de compromisso.

Tanto é assim que em Portugal não foi a fragmentação partidária que diminuiu o espaço para o compromisso. Aliás, pode até dar-se o caso de a diluição progressiva do espaço de diálogo entre bloco central ter promovido a emergência de novos partidos. A questão é séria e a repetição do triste espetáculo entretanto dado pela Assembleia da República na votação de escolhas que dependem de maiorias robustas de 2/3 dos deputados só a agrava.

A este propósito tem sido muito enfatizada a proposta — de facto inexplicável — de Vitalino Canas para o Tribunal Constitucional. Surpreende que o PS tenha avançado com o nome e que o próprio não tenha tido a perceção do erro. Quando olhamos para o perfil dos 57 juízes do TC apercebemo-nos de que só excecionalmente e nos anos 80 é que tivemos deputados nestas condições — e, naturalmente, nunca ex-porta-vozes. A regra são magistrados e professores universitários. E faz sentido que, independentemente de inclinações políticas dos juízes, se busquem nomes que deem sinais de autonomia face aos partidos que os indicam e que correspondam a um espaço alargado de compromisso (daí a exigência de maioria qualificada).

Mas o problema é que não foi só a lista para o TC que chumbou. Uma vez mais foi rejeitado o nome de Correia de Campos, presidente em exercício do Conselho Económico Social, assim como a lista conjunta PS/PSD (sublinho conjunta) para o Conselho Superior de Magistratura.

Haverá motivos para os deputados não serem capazes de formar maiorias em torno destas matérias ou até entreterem-se, em número aliás significativo, a votarem nulo (será que estamos perante adultos com responsabilidades que rabiscam em boletins de voto?), mas, no essencial, o que temos é um indicador avançado de degradação institucional: os partidos não são capazes de alcançar compromissos em torno de nomes para órgãos que asseguram a estabilidade do regime. Ora, se não são capazes de se entenderem sobre estas matérias como é que podemos esperar do PS e do PSD compromissos que, independentemente da alternância no poder, estabilizem opções sobre educação, saúde, fiscalidade ou obras públicas?»

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6.3.20

Self Corona


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Lavar as mãos com Brahms



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06.03.1927 - O dia em nasceu Gabo



Gabriel Garcia Márquez faria hoje 93 anos e morreu há seis. Foi certamente um dos escritores da minha vida e, durante muitos anos, respondia à tal pergunta parva sobre o livro preferido entre todos referindo Cien años de soledad. Em espanhol, sim, porque não esperei pela tradução para o ler, assim que saiu em 1967. Não sei se foi o «melhor livro escrito em castelhano desde Quixote», como terá dito Pablo Neruda, mas foi certamente um marco.

Pelo caminho, ficaram Os Funerais da Mamãe Grande, O Outono do Patriarca, O Amor nos Tempos de Cólera e muitos outros. Até que, em 2002, me precipitei de novo para a primeira edição, em espanhol, de Vivir para contarla, relato romanceado das memórias da infância e juventude de GGM. A prometida continuação nunca veio (o que foi anunciado como um primeiro volume pára em meados da década de 50). Releio hoje o que escreveu como epígrafe do livro: «La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla.»

Foi nesta cama dos avós, em Aracataca, que veio ao mundo. Estive lá em 2012, sempre à espera de encontrar algum membro da família Buendía ao virar de uma esquina, um qualquer José Arcádio ou um dos muitos Aurelianos… Foi em Aracataca que se inspirou para criar a mítica aldeia de Macondo, de Cem anos de solidão.

Em rigorosa «peregrinação», fiz um desvio de dezenas de quilómetros para chegar a essa localidade, hoje com 45.000 habitantes, feia e infelizmente desmazelada, que não honra como devia o que de mais importante deu ao mundo (a não ser pela boa conservação precisamente na moradia em que «Gabo» nasceu,
actualmente transformada num pequeno museu que justifica, sem dúvida, a deslocação e a visita).

«Gabo» foi pela última vez a Aracataca em 2007, para uma tripla comemoração: dos seus 80 anos, do 40º aniversário da publicação de Cem anos de solidão e do 25º da atribuição do Nobel da Literatura.

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No Notícias Magazine de 28.04.2013, Ricardo J. Rodrigues publicou uma belíssima crónica sobre a estadia de Gabriel García Márquez em Lisboa, em Junho de 1975, o que pensou, por onde andou, com quem esteve. O texto está online e merece leitura.


Vale tudo pelo progresso?



«O ‘pós-desenvolvimento’ é uma corrente de pensamento que surgiu nas décadas de 1980 e 1990 e que tem vindo a ganhar influência desde então, criticando a ideia de ‘desenvolvimento’ enquanto ideologia e discurso legitimadores das violências cometidas em nome do progresso: destruição ambiental, mercantilização das relações sociais, homogeneização cultural. A crítica é deliberadamente provocadora e a meu ver excessiva, desvalorizando os ganhos bem reais que a combinação de ganhos de produtividade, reivindicações populares e conquistas democráticas permitiu trazer a muitos povos do mundo: a extensão da longevidade, a redução sem precedentes da mortalidade infantil, a expansão do acesso ao conhecimento, a erosão de relações sociais atávicas que também elas envolviam violência e dominação.

É no entanto um alerta importante no meio da quase unanimidade em torno da ideia de progresso, um grilo da consciência que nos recorda a enorme quantidade de vezes em que o apelo à ideia de desenvolvimento é feito para fechar o debate democrático e não para promovê-lo, para legitimar relações de dominação e para justificar a destruição de habitats e ecossistemas. Se é certo que o crescimento económico moderno permitiu as conquistas e progressos que referi no parágrafo anterior, é igualmente verdade que está indissociavelmente ligado a impactos ambientais com uma escala sem precedentes que constituem hoje uma ameaça existencial para a Humanidade, bem como à subordinação do conjunto das esferas sociais à lógica mercantil.

Tudo isto são problemas e questões frequentemente discutidas no âmbito dos estudos do desenvolvimento com referência a contextos do Sul global, mas que obviamente dizem respeito à generalidade dos contextos. E vêem-me aqui à cabeça a propósito das repetidas ocasiões em que o atual governo tem invocado as ideias de progresso e desenvolvimento para fazer avançar projetos com impactos significativos sobre habitats e comunidades, procurando fechar o debate democrático em vez de abri-lo e procurando impor soluções de forma opaca em vez de sujeitá-las ao escrutínio democrático.

Nas páginas da edição portuguesa do "Le Monde Diplomatique", o especialista em alterações climáticas Luís Fazendeiro tem ao longo dos últimos meses tratado com grande detalhe e rigor várias casos bem conhecidos da opinião pública que exemplificam isto mesmo. Um deles é o caso das dragagens de milhões de metros cúbicos do fundo do estuário do Sado a fim de expandir a capacidade do porto de Setúbal, envolvendo um elevado risco de poluição das águas, das pradarias marinhas e das praias circundantes, que avançou, sem estudos adequados ou consultas públicas verdadeiramente democráticas, a despeito de uma petição assinada por mais de 13 mil cidadãos e de uma recomendação em contrário da Assembleia da República.

Veja-se também o caso da extração de lítio no norte do país, em que a estratégia do governo, legitimada por argumentos em torno da urgência da transição energética, tem envolvido, segundo a Quercus, repetidos desrespeitos pelos instrumentos legais e defesa do ambiente, ocultação de impactos e divulgação de documentos evasivos. Ou o caso do aeroporto do Montijo, em que o governo pretende à força impor uma solução que envolve um impacto significativo sobre populações humanas e ecossistemas protegidos, de forma opaca e autoritária, sem uma fundamentação adequada ou uma avaliação estratégica das diferentes alternativas.

Em vários destes casos, as legítimas preocupações populares e os mecanismos de salvaguarda dos direitos das populações e da preservação dos ecossistemas têm sido encarados como obstáculos incómodos a ultrapassar, saltando-se por cima das instituições e abafando-se o debate democrático. Em Setúbal, as autoridades camarárias, favoráveis ao projeto, terão segundo algumas fontes convocado funcionários camarários para encher o salão onde decorreu a discussão pública do projeto de dragagem, de modo a impedir a presença de outros cidadãos. No caso do aeroporto de Montijo, o governo considera avançar com alterações casuísticas ao diploma legal que impõe a concordância dos municípios envolvidos, apesar deste mecanismo servir precisamente para prevenir impactos locais desproporcionados e obrigar à consideração equilibrada dos interesses daqueles que serão afetados de forma mais significativa.

É certo que nem sempre é fácil alcançar um equilíbrio adequado entre interesses locais, regionais e nacionais e entre a promoção do emprego e da atividade económica e a preservação dos ecossistemas e do bem-estar das populações. Porém, este governo parece deixar-se levar em demasiados casos pela voragem do progresso a todo o custo, mostrando uma tendência sistemática para compactuar com exercícios de supressão do debate democrático e de ultrapassagem dos mecanismos legais e institucionais de controlo. O Ministro do Ambiente, de quem a maioria de nós esperaria que atuasse como provedor dos ecossistemas, da preservação ambiental e da ação climática dentro do executivo, parece estar mais frequentemente do lado oposto da barricada. E tudo isto é feito invocando ideias de progresso, desenvolvimento e interesse nacional que são formuladas de forma muitas vezes parcelar, míope e autoritária. Do governo de um país democrático, especialmente um que se afirma socialista e ambientalmente consciente, exige-se mais humildade democrática e mais disponibilidade para escutar e atender às preocupações de todos.»

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5.3.20

É possível vencer as Fake News?




É possível vencer as fake news? Com o jornalista Paulo Pena, autor de "Fábrica de Mentiras", da Editora Objectiva, Daniel Oliveira conversou sobre a indústria das fake news que, em Portugal, ainda está no início mas já é um excelente negócio. Com sites registados no estrangeiro e sem proprietários identificáveis, as suas mentiras virais, associadas a plágio descarado, dão um lucro incrível em publicidade direccionada.
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Greta Thunberg



Intervenção completa de Greta Thunberg no Parlamento Europeu,, legendada em português.
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O que não é Bernie será o que não é Trump para ser o que não é Presidente?



«A desistência de Amy Klobuchar e Pete Buttigieg, nas vésperas da super terça-feira, depois da vitória folgada de Joe Biden nas primárias da Carolina do Sul, fez o ex-vice-presidente ressuscitar como único candidato centrista capaz de enfrentar Bernie Sanders. O voto em Biden foi, para muitos eleitores democratas que esta terça-feira falaram com os jornalistas, um voto no centrista que restava na corrida. Nem contrariado nem entusiasmado.

Umas horas antes de se conhecerem os primeiros votos, o “New York Times” considerava muito provável que Biden vencesse no Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee e Virgínia. Que Bernie vencesse na Califórnia (tendo passado a ser, depois da desistência de dois candidatos do centro e a permanência de Warren, improvável que conseguisse a totalidade dos delegados, por mais ninguém ultrapassar os 15%), Colorado, Utah e o seu estado, o Vermont. Estavam em disputa Maine, Massachusetts, Minnesota e Texas (que o apoio de última hora de Beto O’Rourke a Biden pode ter desequilibrado). Todas as vitórias de um e de outro se confirmaram (sendo a mais relevante em delegados, de longe, a Califórnia). E dos estados que estavam em dúvida, Biden ganhou tudo, apesar disso ter acontecido, em geral, por margens pequenas, sobretudo no Texas e Maine. Sanders teve o pior resultado dentro dos resultados que foram previstos.

Bernie Sanders continua na corrida. A vantagem de Biden em delegados não chega a ser esmagadora. Quando escrevo ainda se distribuem alguns, mas está próximo dos 60. Está tudo longe de estar fechado, mas Bernie perdeu o momento. Determinante para a vitória de Joe Biden na Carolina do Sul e em vários dos estados que ontem votaram foram os eleitores negros, sobretudo os mais velhos – enquanto latinos e jovens votaram em Bernie. De certa forma, esse voto não é bem de Joe Biden. É voto de Obama que se transfere para ele por associação. Elizabeth Warren ficou em terceiro lugar no seu próprio estado. Se verá se faz o que devia ter feito anteontem: desistir para o candidato mais bem colocado do campo progressista. Não foi esse o sinal que deu ontem, o que é surpreendente tendo em conta a dimensão da sua derrota e os efeitos que a sua permanência tem.

Para além de todas as diferenças políticas entre Joe Biden e Bernie Sanders, há uma fundamental: a capacidade de Bernie Sanders mobilizar uma campanha resulta de uma adesão a si, ao seu discurso e às suas propostas, não de uma recusa de Donald Trump, a um mal menor ou a uma simpatia difusa. E isso é fundamental para estas eleições. Porque não há uma luta pelos moderados no confronto com Donald Trump. Os moderados que detestam Trump votarão contra Trump. Aliás, Bernie tem, dizem todos os dados em cada uma das primárias abertas, mais simpatia de eleitores independentes e republicanos do que Joe Biden. A luta contra Trump é a uma luta pela mobilização. E não vejo pior característica do que ser o que restou para vencer Bernie.

A verdade é que o mainstream do Partido Democrata, que se virou para Biden, depois para Buttigieg, depois para Bloomberg e finalmente de novo para Biden, uniu-se em torno de um sobrevivente, não de um candidato. Segundo as sondagens à boca da urna, grande parte dos eleitores decidiu o seu voto nos últimos dias. Ao contrário do voto em Sanders, o voto do centro foi um voto no que restava. No entanto, Bernie Sanders não conseguiu resistir às desistências centristas, que deram ânimo a Biden. Joe Biden sai desta terça-noite reforçado e Bernie Sanders em pior forma. Como aconteceu há quatro anos, a cúpula do partido e a comunicação social que lhe está próxima farão neste campanha o que fizeram até aqui, agora com um candidato claro para apoiar. Aposto as minhas fichas numa nomeação de Joe Biden.

Se Biden for o candidato democrata não é difícil antever o que serão as eleições. Iguais às últimas. A receita é a mesma, os eleitores são os mesmos, os ignorados são os mesmos, os frustrados continuarão os mesmos. Os democratas preferem continuar a representar o que cada vez mais norte-americanos sentem ser o “sistema” e isso pode determinar, mais uma vez, a sua derrota. Não chega não ser Trump para vencer. Não chegou em 2016, não deve chegar em 2020. Se a grande qualidade de Biden nas primárias é não ser Bernie e a grande qualidade nas eleições for não ser Trump, o seu provável defeito será o de não ser presidente. Porque, limitando a não ser aquele contra quem concorre, nunca mobilizará os que desistiram da democracia. Todos apostam, no entanto, numa qualidade de Biden: afinal de contas, não é Hillary.»

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Até que enfim!


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4.3.20

Salário pago a 100%


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Saber mais sobre obre o Covid 19




Relatório completo AQUI.
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O preço dos refugiados



«Em 2016, a União Europeia atirou uma montanha de dinheiro para os braços do regime turco, garantindo, de forma provisória mas eficaz, que se estancasse uma fuga desenfreada de refugiados em direção ao Velho Continente.

Estávamos no auge da guerra síria. Ancara aceitou o cheque de seis mil milhões de euros e acionou o travão, erguendo um muro na fronteira que ajudou a salvar a face da diplomacia europeia e a reforçar a influência de Erdogan, mas que apenas mitigou o problema de fundo. Agora, quatro anos volvidos, o travão deixou de travar. A Turquia abriu as fronteiras com a Grécia, num ato inqualificável de retaliação política (porque quer que o Ocidente tome as suas dores no conflito com a Síria e com a Rússia), e a Europa vê-se novamente na frágil condição de salvadora circunstancial de uma mole humana desesperada. Sem estratégia comum, correndo atrás de uma fatalidade. Assombrada pelo fantasma de uma revisitada crise humanitária.

De resto, era apenas uma questão de tempo até Bruxelas ser confrontada com a debilidade de um "negócio" que usou vidas humanas como moeda de troca. E que, agora, se socorre dessas mesmas vidas para obter ganhos políticos e militares. Em 2016, a Europa negociou com a "Turquia boa", cooperante; agora, a mesma Europa vitupera a "Turquia má", vingativa. Em ambas as situações, a resposta de Bruxelas foi a mesma e aparentemente a única possível: passar um cheque gordo como paliativo. Em 2016, o dinheiro assumiu a forma de uma fronteira; em 2020, com a aprovação de uma ajuda de 700 milhões de euros à Grécia, assume a forma de uma boia. Pelo meio, Atenas pede que o problema seja de todos os europeus, e não apenas seu, mas ameaça os refugiados com gás lacrimogéneo e balas.

Na ausência de uma estratégia comunitária de apoio ao asilo e acolhimento de refugiados, a Europa continuará a ser o elo mais fraco de um braço de ferro em que todos perdem. Uns mais do que outros, é certo. Uns a reputação, outros, os do costume e em muito maior número, a vida.»

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3.3.20

Excepcionalidades



Leio isto no Expresso de hoje. Se bem percebo, não há qualquer medida excepcional para as pessoas infectadas pelo vírus, ou seja: verão a sua remuneração reduzida com as regras das baixas habituais.

Concretamente, se alguém está em isolamento profiláctico recebe 100% do salário, mas se, meia dúzia de dias depois, se verificar que está infectado passa a receber menos. Será lógico em termos legais. Mas é razoável? A intuição diz-me que isto terá de ser reconsiderado.
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Ventura, três erros em quatro palavras



O homem só apresentou a candidatura Á PREVIDÊNCIA DA REPUBLICA!
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Quando um espirro abala o mundo



«Muito se tem escrito sobre a matéria, havendo até quem tenha previsto com notável precisão a ocorrência deste episódio em romances publicados há algumas décadas. A indústria da comunicação vive de boas histórias e esta é, sem dúvida, uma daquelas que tem condições para ser alimentada diariamente e por muito tempo.

Não quero de forma alguma desvalorizar os dramas humanos de todos aqueles que foram contagiados, especialmente dos que morreram. Nem tão-pouco negar a importância de medidas preventivas tomadas pelos diferentes governos para impedir o alastramento da doença. Mas importa referir que os efeitos que esta crise sanitária está a ter na economia global são de uma enorme gravidade, provocando danos irreparáveis e claramente desproporcionados face à realidade que lhe deu origem.

A economia vive ciclos em que os períodos de crescimento e a prosperidade se sucedem a outros marcados pela recessão ou pela estagnação. A sua duração nem sempre é explicada com racionalidade ou encontra fundamento na atividade económica. Muitas vezes são as expetativas do mercado que condicionam a sua evolução ou a ocorrência de factos não previstos que a determinam. Uma intervenção militar, um ato terrorista, uma guerra comercial entre potências, a ocorrência de uma catástrofe natural ou de uma crise sanitária global em animais ou em seres humanos, são exemplos de causas que têm condições para provocar um abalo muito forte nos principais alicerces da economia mundial.

Algumas evidências sobre a globalização estão agora à vista de todos. A inexistência de fronteiras e a velocidade incontrolável a que circula a informação aí estão. O foco das empresas e dos empresários, em especial das multinacionais, numa gestão orientada para a maximização dos recursos e do lucro acentuou a dependência das regiões do mundo que propiciam condições de preço mais vantajosas independentemente da forma como o conseguem.

Estamos a viver, depois da crise do subprime em finais de 2007, um prolongado ciclo de crescimento económico sendo evidente a valorização dos índices bolsistas, o desenvolvimento do setor do transporte aéreo e do turismo, a reconfiguração dos modelos de negócio sobre ativos imobiliários, a proliferação de fundos de investimento que dispersam o capital por todo o lado, o continuado aumento do consumo com recurso ao crédito agora mais rápido ainda devido às transações eletrónicas online, e tantas outras manifestações de prosperidade que aqui poderia referir. Apesar da repetição de múltiplos erros cometidos no passado, a ganância humana parece não ter limites. Defendem alguns, pelo menos desde 2017, que nova crise económica global se adivinhava e que o mundo parecia não se querer preparar para o que aí vinha. O certo é que, com maior ou menor arrefecimento pontual, as economias foram registando progressos assinaláveis e o equilíbrio global não tem sido ameaçado.

Não pretendo sugerir que a crise do coronavírus e os desproporcionados efeitos que está e continuará a ter sobre a economia global foram preparados para "limpar" o sistema e dar inicio a um novo ciclo. Mas a verdade é que ficou bem evidente, para quem ainda tinha dúvidas, que vivemos num mundo cada vez mais frágil, inseguro e exposto a riscos que verdadeiramente ninguém prevê, monitoriza ou controla.»

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Constança Cunha e Sá


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2.3.20

A tragédia dos refugiados




«A Plataforma considera que é "absolutamente urgente que Portugal reforce a sua capacidade de acolhimento para que possa não só receber mais refugiados, mas também garantir-lhes uma resposta rápida e digna". "A PAR mostra-se, desde já, disponível a acolher os requerentes de asilo e refugiados que se encontrem em território grego e a colaborar com o Governo português na identificação de obstáculos e no reforço da capacidade de acolhimento portuguesa".»
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Luis Sepúlveda – estado de saúde


Entretanto, em Portugal, ninguém se interessa por Luis Sepúlveda que «permanece em estado grave». Os mansos portugueses o que desejam é não espalhar o pânico. Lavam as mãos e querem é sossego…

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Centeno: si yo fuera Maradona



«Há uma música de Manu Chao que diz uma coisa simples: "Se eu fosse Maradona viveria como ele". O nosso ministro das Finanças prefere a metáfora de Ronaldo, mas Cristiano ainda alcançou o estrelato das músicas dos grandes artistas. Quero dizer com isto que, se eu fosse ministro das Finanças e pudesse escolher um momento para sair, seria este. Centeno teve quatro anos a seu a favor e soube merecer a sorte. E quando não conseguia os golos com o pé, usava a mão (cativações) como fez o eterno Diego Armando Maradona.



Um milagre como o dos últimos quatro anos não se repete indefinidamente. E ele não está para aturar isto - com alguma razão. O clima social mudou de tal forma que já ninguém se lembra dos tais sacrifícios feitos para chegarmos a taxas de juro negativas para Portugal nos mercados (lembrete: continuamos a devorar dívida - vale 120% do PIB - que tem de ser refrescada todos os meses).

Pela primeira vez o Governo de Costa vai ter más notícias simultâneas: abrandamento da economia, das exportações, aumento dos gastos com saúde e, sobretudo, menos turismo.

Chegou então a hora de dizermos adeus ao "défice zero". Quase ninguém terá saudades. É uma política que, definitivamente, não dá votos nem é popular (como poderia sê-lo?) A ideia de gastar menos não pega em lado nenhum. Só sabemos viver em crescimento.

O Governo está, ainda por cima, a desperdiçar uma enorme oportunidade de acelerar a libertação dos fundos comunitários já aprovados. Há um colapso da máquina do Estado nos diversos ministérios, que se acentua nesta fase final de utilização do pacote comunitário 2014/2020. Há uma verdadeira dessincronia entre a realidade e o Terreiro do Paço. Os empresários estão a ferver e ninguém os ouve.

Mário Centeno olha para tudo isto e vê o alinhamento das estrelas. Há uma balbúrdia política instalada. É verdade que as aprovações parlamentares "à la carte" são democráticas, mas nem por isso deixam de ser muitas vezes profundamente demagógicas. Não havendo quem defenda o "menos", só restam os poderosos lobbies que ganham com o crescimento de "mais despesa".

Ora então, é hora de dizer adeus. Citando o popular Clemente, sobre Centeno:

"Vais partir, naquela estrada, onde um dia chegaste a sorrir". E avancemos para um novo capítulo: a mais colossal obra do império, capaz de absorver investimento público como nenhum outro: Alcochete, o aeroporto. Uma obra que, definitivamente, nos colocará na senda "Sócrates" a todos os títulos.»

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O mundo na mão de loucos!



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1.3.20

Luis Sepúlveda e apelo da DGS




16h25 - Apelo da DGS a quem esteve em “contacto próximo” com Luis Sepúlveda:

A Direção-Geral da Saúde recomenda a todas as pessoas que estiveram em “contacto próximo” com o escritor Luis Sepúlveda e a sua mulher que liguem para a linha SNS 24 – 808 24 24 24.

A DGS entende, como "contacto próximo" as seguintes situações:

- Tenham estado em contato de proximidade (  < 1 metro ) ou em ambiente fechado;
- Tenham viajado em conjunto no mesmo carro;
- Lhes tenham prestado cuidados de saúde; 
- Lhes sejam coabitantes 

“Caso de “contacto próximo” seja confirmada pelos profissionais de linha SOS24, as pessoas em causa não necessitam de se dirigir aos serviços de saúde, permanecendo calmas em casa, e aguardar o contacto da Autoridade de Saúde que estabelecerá as condições de vigilância”, acrescenta o comunicado da DGS.

Keep Calm


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Não é possível prever quase nada na História



José Pacheco Pereira no Público:

«Um homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásia. Vasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto. Podia encher páginas e páginas disto.

Pensem sobre cada um destes factos e andem 30 ou 20 anos para trás e vejam quantos destes acontecimentos seriam previsíveis. Com muito esforço encontramos dois com alguma similitude com eventos passados, o que significa que existe uma débil recorrência: um, mais um falhanço de governos com a construção de uma grande obra pública por uma combinação de negligência e arrogância; outro, a precedente epidemia da gripe das aves, mas mesmo assim muito mais mitigada do que a actual do coronavírus. Mas a maioria é efectivamente surpresa, não se estava à espera e não se previu. Embora possa haver algumas tendências de fundo, no essencial a História é sempre surpresa e é por isso que os homens sábios da política e da acção devem ler Clausewitz. Adaptado aos tempos modernos, isso significa que se se quer atravessar um deserto sólido de chão duro porque não chove há 500 anos, o bom comandante de tanques prepara-se para a chuva e lama.

Fazer planos e previsões dá-nos a sensação psicológica que dominamos o futuro, mas o ruído é a voz da natureza. É por isso que esta coluna se chama o “ruído do mundo”.»
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Para as agendas


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29.2.20

Da série «Grandes títulos»




Não se assustem, a conferência não é sobre anãs, a reunião é que tem um formato reduzido.
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O aeroporto do absurdo



«Há muitos motivos que explicam os atrasos do país. A inexistência de um novo aeroporto não é certamente um deles, mas o processo que tem envolvido a escolha da sua localização talvez dê contributos para compreender os nossos males endémicos.

Sou um de muitos portugueses que nada sabem sobre opções para a construção de um novo aeroporto, mas que está ciente de dois factos: a Portela está estrangulada (o ano passado serviu 30 milhões de passageiros, quando a sua capacidade é de 22 milhões) e a escolha de uma localização raia o absurdo. Trata-se em qualquer país de um processo complexo. Só que dificilmente se encontrará outro caso em que longos períodos de estabilidade nas opções dão lugar a alterações repentinas.

A Portela foi inaugurada em 1942. Desde 1958, já lá vão seis décadas, que se pondera a sua relocalização. Logo em 1971, consideradas quatro opções na margem sul do Tejo (Fonte da Telha; Montijo; Porto Alto e Rio Frio), foi escolhida a de Rio Frio como complemento. Depois, com o choque petrolífero e a democracia, o projeto do novo aeroporto ficou suspenso. Quando regressou em 1982, numa prospeção não condicionada, foram consideradas 12 alternativas, e a solução apontada foi a Ota, agora a norte de Lisboa. Já em 1990, voltaram os estudos, desta feita, comparando Ota com Rio Frio.

Em 2005, com dezenas de estudos feitos, avança-se para a construção da Ota, a CIP insurge-se com a escolha e patrocina uma avaliação para encontrar soluções alternativas. Emergem, então, o Poceirão, Faias e Alcochete. Pelo caminho, cai a Ota e, em 2007, testa-se Alcochete como alternativa. O LNEC defende a opção e o Presidente da República empurra o Governo para abandonar a sua decisão. Chega a troika e a PàF troca Alcochete pelo Montijo, ou seja, a solução Portela +1, proposta em 2007 pela Associação Comercial do Porto. Passa-se do “novo aeroporto” para “aeroporto complementar”. Privatiza-se a ANA, que não pára de obter dividendos, e avança-se para o Montijo financiado pela Vinci — porque é um erro desmantelar a Portela e fundamental ter uma solução em tempo útil. Agora são duas autarquias e a Ordem dos Engenheiros que se opõem a uma escolha que já atravessou dois governos, de cores diferentes.

Confuso, não é? Mas resulta claro que a incapacidade de decidir é endémica e que temos um Estado fraco e que alimenta ilusões de autoridade, procedimentos pouco transparentes que todos podem influenciar e bloquear (autarquias, privados, sociedade civil e corporações profissionais), sem que daí resultem ganhos de racionalidade nas soluções. Não temos aeroporto, mas em alternativa, em cinco décadas, herdámos uma manta intrincada de tensões sociais e políticas que nos paralisam. Alguma coisa não correu bem em todo este processo. Temo que não seja específico da construção de um novo aeroporto.»

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