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22.9.18

Mapplethorpe censurado em Serralves? Um país de pacóvios




«A demissão surge depois de a administração ter limitado a maiores de 18 anos uma parte da exposição dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, comissariada por Ribas, e ter imposto a retirada de algumas obras com conteúdo sexualmente explícito.»

Só para maiores de 18 anos??? Para além de tudo o que já foi dito, isto só me faz lembrar a história de uma avozinha que explicava a dois netos que eles tinha sido trazidos de Paris por uma cegonha e que um disse ao outro, ao ouvido: «Deixa a velhinha morrer na inocência!». Mas em que século vivem? E censura de algumas obras, mesmo para adultos? Pobre país…


(Muito curiosa em vir a conhecer a reacção de Pacheco Pereira, membro do Conselho de Administração de Serralves.)
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1.9.18

O admirável mundo novo e a sua companheira a censura



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«O incremento da censura na Internet, em particular nas redes sociais, é uma tendência perigosa, que vai a par com legislação destinada a “proteger-nos” do racismo, do ódio nacionalista, da violência verbal, que desde a Constituição, aos surtos de indignação com apelos censórios, é tudo destinado a criar um mundo fofinho e higiénico que não existe na realidade.

Há muita coisa que se pode fazer para combater o problema combinado das fake news – teorias conspirativas – boatos perigosos – boatos atentatórios da personalidade – linguagem de ódio – uso da Internet para fins de manipulação profissionalizada por serviços de informação e agências de comunicação, etc., e tudo é melhor do que a censura que começa a generalizar-se e depois a normalizar-se. Censura essa que merece o aplauso da multidão do “politicamente correcto”, que preza pouco a liberdade. A liberdade que existe para os outros poderem dizer as coisas que mais me repugnam.

Em primeiro lugar, é preciso separar as coisas: separar os crimes das opiniões, por afrontosas que sejam; as acções bélicas de “propaganda negra” ou outras usadas pelos servições de informação, que são também crimes, do uso de linguagem violenta e odiosa; a incitação ao crime, que é também um crime, das obscenidades racistas e outras. Ou seja, simplificando, tratar os crimes como crimes e deixar o resto para a liberdade de expressão, insisto, mesmo que a consideremos repugnante.

No plano do crime, a legislação precisa de evoluir e adaptar-se a esta nova realidade, mas a regra é sempre a mesma: o que é crime cá fora é crime lá dentro. Deve-se facilitar a identificação dos autores mesmo anónimos em casos de investigação de crimes, e perceber que os crimes de abuso de liberdade de expressão, calúnia, ataques insultuosos, devem ter legislação expedita e exemplar. As fornecedoras de serviços de redes sociais devem assumir a responsabilidade por não permitir a manipulação de identidades, e devem ser capazes de identificar com clareza junto das autoridades quem esteja a cometer crimes em linha.

O uso de anonimato deve manter-se na base do princípio de que alguém está a denunciar (whistleblowing) algo que pode ser um crime, ou uma malfeitoria ou uma prática inaceitável e deve ser protegido de retaliações, mas não é justificado para a cobardia da opinião. Já o uso de pseudónimos é legítimo e deve ser protegido, desde que, quando haja crimes, seja possível aceder ao nome verdadeiro. Eu sei que tudo isto é complicado e há meios eficazes de dar a volta ao anonimato, mas quem o sabe fazer é um número pequeno dos habitantes que pululam as redes sociais e que, na maioria dos casos, são muito rudimentares na protecção da sua identidade. E deviam perceber que há consequências para as brincadeiras que colocam em linha.

Do mesmo modo, é perigoso instituir, como cada vez mais acontece, formas de policiamento da linguagem. Usar, como se diz nos EUA, a n-word, nigger, chamar “macacos” aos jogadores negros, acompanhado os insultos, por gestos simiescos, chamar “monhé” ao primeiro-ministro, chamar “paneleiros” aos homossexuais e “fufas” às lésbicas, e por aí adiante, por muitas fúrias verbais que suscite, cabe no meu entendimento da liberdade de expressão. Nada tenho contra as tempestades de resposta – quem não se sente não é filho de boa gente – mas sou completamente contra a censura do Estado, do Facebook, do Google e do Twitter, que pretende criar um muro sanitário para as ofensas e, ao fazê-lo, entram num processo censório que sabemos como começa, mas não sabemos como acaba.

Já outra coisa é escrever que o “senhor A roubou o dinheiro da cooperativa B” quando se trata de uma falsidade. Ou quando, de forma organizada, as empresas de comunicação que fazem campanhas negras a favor de empresas ou pessoas denegrindo os seus adversários ou competidores. Infelizmente, isto é cada vez mais comum e “invisível” usando comentários dirigidos, manipulando os sites que avaliam restaurantes ou hotéis, ou disseminando falsa informação. Isto tem que ser tratado como fraude. A essas pessoas, eu levava-as a tribunal, e às empresas a mesma coisa e, em ambos os casos, pedia indemnizações vultuosas, que é o que mais os afecta.

O problema do que hoje se está a passar nas “redes sociais” e nas páginas de comentários não moderadas é o completo falhanço de várias instituições do Estado e da sociedade, a começar pela absoluta desadequação da educação e das escolas, ao mundo real em que desde crianças, aqueles que se pretende “educar” vivem. Depois, a sociedade, a comunicação social, deviam obrigar-se, primeiro a si próprias, e ao público em geral a dar prioridade à verificação dos factos. Se o Info-wars, ou Trump, ou a Fox News, ou um site racista português, ou um comentador do Facebook do PÚBLICO, disserem que Obama não é americano e é muçulmano, dupliquem o site com uma nota dizendo que é uma falsidade. A verificação sistemática, continuada e séria é a melhor maneira de combater as fake news. Dá trabalho, é difícil e o sucesso não está garantido, mas é melhor do que a censura.

Pode-se dizer que os mecanismos que garantem o sucesso da circulação de falsidades têm vantagem sobre a verdade porque o lubrificante que as faz circular tem a ver com outras coisas, com a polarização e radicalização política, com o ressentimento social, com o incremento nas redes sociais do tribalismo, com as iliteracias, a ignorância agressiva das redes e a propensão para as conspirações. É verdade, mas a censura não é resposta. A última coisa que quero é que o Estado ou as grandes empresas tecnológicas, que fazem o mal e a caramunha, me “protejam” do ruído do mundo e me tratem como uma criancinha. O que eu quero é que os adultos vão à luta, denunciem as falsidades, que os jornalistas façam investigações sobre as fileiras racistas, homofóbicas, violentas, que denunciem os seus mentores, que a escola não se ponha com deslumbramentos tecnológicos e ensine a “ler” a Internet e a televisão, que a “conversação” na sociedade e nos media não tenha um átomo de complacência com este admirável mundo novo. Mas tudo menos a censura.»
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20.8.18

A censura feita pelo Facebook, Google, etc.



«Não me sinto confortável com aquilo que a maioria das pessoas acha bem: os donos das principais "redes sociais" (com excepção do Twitter) estão a fazer censura a páginas de notícias falsas, páginas individuais e de grupo consideradas promotoras de ódio, racismo, teorias conspirativas, etc. Parece-me um caminho perigoso, alimentado por uma espécie de complexo de culpa pelo que permitiram no passado. Agora querem lavar as mãos prometendo que apenas passam no crivo dos novos censores, páginas limpas, sanitárias e sem mácula. Aliás o zelo censor é muito mais fácil do que o zelo na protecção da privacidade, visto que estas redes sociais são negócios que vivem da informação privada que as pessoas irresponsavelmente e por ignorância lhes dão. O caso da Cambridge Analytica e da utilização de big data para fazer perfis eleitorais e depois orientar a propaganda, as provocações, os boatos e as falsidades é muito mais grave do que as conspirações do InfoWar.

É um caminho muito perigoso e institucionaliza como normal a censura, daquilo que não gostamos nem concordamos, aquilo mesmo que na Constituição americana era o pilar básico da liberdade de expressão. A liberdade de expressão não é para o que consideramos conveniente, com que aceitamos e concordamos, para exactamente aquilo que, dito de forma directa, nos mete nojo. Começar a separar o que se pode dizer daquilo que não se pode dizer acaba por caminhar para a cabeça das pessoas e mata a liberdade. Claro que eu sei que o problema não está apenas nos conteúdos, mas na utilização das "redes sociais" como máquinas de guerra, manipuladas por especialistas na desinformação que em vários pontos do mundo, e não só Moscovo, há muito perceberam o potencial de controlo na Internet.

Mas há outras formas sem ser a censura. O que é crime deve ser tratado como crime, e a defesa face a boatos, falsidades, e insultos deve permitir e facilitar as condenações, mesmo que isso implique diminuir drasticamente o anonimato. O anonimato profundo, protegido, justifica-se nalguns casos, mas não para 90% dos frequentadores das redes sociais. Podem usar pseudónimos, mas o nome deve ser detectável caso haja delitos de opinião e abusos. Mas a principal arma é a educação, desde o jardim-de-infância que as crianças, assim como os adultos, devem conhecer o jogo perigoso em que estão metidos. Não é fácil, porque muito do que acontece nas redes sociais é impulsionado por tendências de fundo da sociedade, mas parece-me bem melhor do que a censura.

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17.12.17

17.12.1974 – Abolição da censura



Foi nesta data que foi extinta a Comissão de Censura aos livros e publicações em Portugal. Não me lembrava de que tinha durado tantos meses depois do 25 de Abril.
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14.11.14

«Análise Social» – agora sem censura



Pronto para distribuição, o célebre número da «Análise Social», objecto de tantas discussões. Sem cortes.  


«O ensaio visual do sociólogo Ricardo Campos vai afinal fazer parte da revista, segundo deliberou o Conselho Científico do ICS, contra o seu director. » 
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29.10.14

«Análise Social» – tema do dia



Quando li a notícia, pensei imediatamente em Adérito Sedas Nunes: «Um dos mais importantes cientistas sociais portugueses do século XX, foi fundador, durante as décadas de 1950 e 1960, da moderna Sociologia em Portugal. Ajudou a criar, em 1962, o Gabinete de Investigações Sociais, o primeiro centro de investigação inteiramente dedicado às Ciências Sociais. Em 1963 foi fundador e primeiro director da revista Análise Social, a mais antiga e prestigiada neste domínio em Portugal.»

Embora sem ter nada a ver, profissionalmente, com a área da Sociologia, lembro-me bem da verdadeira pedrada no charco que constituíram a criação do Gabinete de Investigações Sociais e o lançamento da Análise Social e a oportunidade que criaram para tantos, conhecidos e até amigos próximos, nesse terrível país cinzento do início da década de 60.

E que diz a referida notícia de hoje, no ano da graça de 2014? Que a Análise Social foi suspensa pelo director do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, José Luís Cardoso, por conter um «ensaio visual» com texto de Ricardo Campos, intitulado «A luta voltou ao muro», acompanhado de fotografias de graffitis em paredes de alguns centros urbanos. O referido director considerou estar-se em presença da utilização de «linguagem ofensiva».

Ver para crer: a versão deste número da revista chegou a estar online, já foi retirada, mas pode ser vista aqui.Os exemplares em papel foram recolhidos dos postos de venda.

Negue-se ou não, estamos na presença de censura pura e dura (estúpida, ainda por cima), 51 anos depois de um acto de coragem, académico e de cidadania, ter conseguido furar anos de chumbo. Duro de engolir, mas é isso mesmo.

P.S. - Na imagem à direita, a primeira página do nº1 da Análise Social (1963). (Daqui.)
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22.6.14

A censura que não temos e a que nasceu entretanto



Faz hoje 88 anos que foi instituída a censura prévia à imprensa em Portugal, pela ditadura militar saída do golpe de 28 de Maio. Como é sabido, iria durar 48 anos.

Vivemos agora com liberdade de expressão e dispomos de uma diversidade de meios de acesso à informação com que nem sequer podíamos sonhar nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril. E, no entanto...

Num texto que escrevi para a edição portuguesa de Le Monde Diplomatique, e que reproduzi mais tarde neste blogue, chamei a atenção para um interessante conceito definido por Ignacio Ramonet em A Tirania da Comunicação (1). Segundo o autor, existe actualmente uma «censura democrática» que se introduz subrepticiamente nos países livres onde se respeita o direito de expressão e de opinião. Não se concretiza em cortes ou proibições, mas sim «na acumulação, na saturação, no excesso e na superabundância de informações», que permitem artifícios, mentiras e silêncios, que toldam a transparência do que é transmitido. A informação é tanta que pode ser dissimulada ou truncada, sem que se chegue a perceber o que falta, e torna-se mesmo naturalmente incontrolável. Voluntária ou involuntariamente, acaba por ser manipulada.

A pressa e a leveza com que quase tudo é abordado, e muitas vezes reduzido a puros soundbites, acabam por influenciar muitíssimo a opinião pública, aquela que está para além das elites, sempre minoritárias, que são capazes de filtrar o que lêem, o que vêem e o que ouvem. É assim que estamos. É útil não esquecer.

(1) Ignacio Ramonet, A Tirania da Comunicação, http://pt.scribd.com/doc/2230907/IGNACIO-RAMONET-tirania-da-comunicacao, p.13. 
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30.4.12

Se isto é o que parece



…ou seja: se João Paulo Guerra foi «dispensado» pelo Económico, é menos um excelente cronista que deixo de ler quase todos os dias. Nada que me espante, confesso… 
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16.11.11

Não discutimos a pátria


Ocupada ontem noutras arenas, só muito tarde li umas das mais badaladas notícias do dia: as declarações de João Duque, à margem de um relatório sobre o futuro da serviço público de televisão e rádio.


Mas foi ainda mais claro e preciso sobre o papel do governo:

«Se quiser manipular mais ou manipular menos, opinar, modificar, é da sua inteira responsabilidade. Porque estamos convencidos que o faz a Bem da Nação, porque foi sufragado e foi eleito para isso.»
(Transcrito do som publicado aqui.)

Com boa vontade, prefiro crer que o «A Bem da Nação» de João Duque está ao nível do «Dia da Raça» de Cavaco Silva – gafes de quem não tem memória nem sensibilidade. Mas repito: com (muito) boa vontade.

Pior, muito pior, é que o desgraçado governo que temos tenha escolhido alguém que conhece muito bem e que, descaradamente, aconselha a ressurreição da censura. Sim, porque é disso que se trata, explícita e claramente. Há outra etiqueta para «manipular, opinar e modificar» informação?

Já outros o pensaram e disseram, por outras palavras. Há 75 anos.


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20.2.09

Com dedicatória para uma juíza de Torres Vedras





















Sempre ouvi falar desta portaria mas nunca a tinha visto (leiam até ao fim).

Hoje vale pela anedota, mas há sempre uns puritanos à espreita ao virar de uma qualquer esquina. Cuidado com eles porque são certamente os mesmos que fizeram ontem campanha contra o aborto, estão hoje contra o casamento de homossexuais e lutarão amanhã contra a eutanásia. Mesmo que não pareça, com algumas nuances, está tudo ligado. Ou estarei enganada?


(A imagem foi roubada ao casoual.)