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6.3.12

Ser comunista em 2012



Andava eu pelo Oriente, à procura de um outro texto, e esbarrei neste, de Santiago Zabala, cuja leitura recomendo vivamente.

Quando parece haver medo até de usar alguns termos (neste caso, «comunismo»), e tantos, insuspeitos, pretendem reduzir o horizonte à defesa de realidades bem menos estimulantes e que não regressarão a passados gloriosos (um capitalismo «melhorzinho», a «social-democracia»…), são textos como este que abrem novas avenidas para a esperança.

Alguns excertos:

«Ser comunista em 2012 não é uma escolha política, mas uma questão existencial. Os níveis globais de desigualdades políticas, económicas e sociais, que vamos atingir este ano por causa das lógicas de produção do capitalismo, não são apenas alarmantes mas ameaçam a nossa própria existência.

Embora alguns argumentem que não é necessário regressar ao comunismo para reconhecer estas emergências existenciais, pode ser que ele seja uma teoria prática útil, dado o significado que hoje adquiriu. É precisamente na sua grande fraqueza como força política que o comunismo pode ser recuperado como uma verdadeira alternativa ao capitalismo. O facto de ter virtualmente desaparecido da política ocidental, como programa eleitoral, não implica que não seja válido como motivação social ou alternativa. O que quero sublinhar é que ser hoje um comunista (ou um «protestor») não é necessário apenas pelas ameaças existenciais do capitalismo, mas tornou-se possível também pelo falhanço do comunismo soviético. (…)

O comunismo enfraquecido que temos em 2012 não aspira a construir uma outra União Soviética, mas propõe modelos democráticos de resistência social fora dos paradigmas intelectuais que dominaram o marxismo clássico.»
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19.8.11

O golpe de Agosto


Sobre a tentativa de golpe de Estado na União Soviética, em 19 de Agosto de 1991, leia-se um conjunto de textos - para todos os gostos e muitos paladares…

- No Der Spiegel (a não perder):

- Do PCP, com data de ontem:

- De Miguel Portas, hoje no Facebook:

Ao cair do pano
Há 20 anos o sector mais conservador do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) tentou um golpe de Estado contra o seu secretário-geral e presidente do país, Michail Gorbatchev. A operação, dirigida pelo vice-presidente, pelo Ministro da Defesa e por altos responsáveis da polícia politica (KGB), teve contornos de farsa. Foi tão mal gizada que Gorbachev foi informado da sua preparação pelo presidente dos EUA e, não acreditando na aventura, estava de férias quando tudo se passou. A 19 de Agosto os golpistas anunciaram que Gorbachev tinha sido afastado por “motivos de saúde”, mas não houve repressão nem detenções e o “plano”, se existia, dispensara a tomada militar de posições estratégicas... Menos de 24 horas depois era óbvio que a operação se saldara num estrondoso fracasso. O vencedor do conflito estava na rua com os moscovitas que se mobilizaram em defesa das liberdades recentemente adquiridas com a Perestroika. Era tão bêbado quanto ambicioso. É Boris Ieltsin que, a 22 de Agosto, ilegaliza o PCUS. A União Soviética dissolve-se em Dezembro desse ano. No seu amadorismo e desespero, os golpistas tinham acabado de acelerar uma história que já só podia acabar mal. Eles são bem a caricatura do fim de um regime que acabou por levar consigo o homem e as forças que tinham, in extremis, procurado renovar o socialismo. Não houve fins felizes.

Paradoxalmente, em Portugal, as consequências destes acontecimentos longínquos foram marcantes à esquerda. O apoio da direcção do PCP aos golpistas desencadeia uma cadeia de acontecimentos que viria a acelerar os movimentos de recomposição na esquerda portuguesa. Com efeito, foi esse apoio que levou à convocação, pela primeira vez na história daquele partido, de uma assembleia pública de comunistas à revelia das instâncias partidárias. Nunca se tinha visto tal afronta ao “centralismo democrático” no PCP. Os “críticos” tinham produzido documentos e criado uma associação que envolvia não comunistas. Mas nunca tinham arriscado uma infracção frontal aos Estatutos. Em pleno mês de férias, mobilizaram-se 200 militantes. Porque se realizavam eleições um mês depois, Álvaro Cunhal deixou os inevitáveis procedimentos disciplinares para Outubro, mês em que são expulsos os membros mesa da reunião. Foi a dualidade de critérios patente na decisão – uns expulsos, todos os outros inocentados – que me levou a sair do partido onde militara durante 18 anos. Tinha estado na decisão, tinha estado na assembleia e só não fora expulso porque ficara na plateia...

A custo, o PCP sobreviveu à sua crise. Quanto aos críticos, seguiram caminhos diversos. Alguns acabaram por ficar no PCP. Outros, os mais conhecidos, aderiram ao PS. E outros ainda, em regra mais jovens e inquietos, fizeram a travessia que os levaria, anos mais tarde, ao Bloco de Esquerda.
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21.12.09

Já com algum atraso, parabéns camarada!















Estaline teria completado 130 anos no passado dia 18 e «Memorial», uma associação de defensores dos direitos humanos na Rússia, lançou uma campanha para que os seus crimes sejam juridicamente apreciados e valorizados. Já não é sem tempo!!!

Recorde-se que «Memorial» ganhou este ano o prémio Sakhrov. Um dos seus líderes, Arseni Roguinski, sublinha agora a urgência de «desestalinizar» o país como medida indispensável para que seja possível construir «um futuro normal».

Entretanto, o Partido Comunista da Rússia tinha pedido que, a propósito da efeméride, não manchassem a memória do ditador: «Quisiéramos que ese día cesen las discusiones acerca de ciertos errores de la época estalinista, para que la gente reflexione sobre la figura de Stalin como creador, pensador y patriota.»

Certos erros? Mas onde é que eu já ouvi isto???

13.11.09

E não se trata apenas de contar os mortos
















«A verdade dos números, porém, é complexa e jamais será decifrada na sua totalidade. O que não significa a anulação de um dever de memória para com os milhões de seres humanos, “marcados todos como traidores” como escreveu o prisioneiro-poeta Alexander Tvardovsky, que não se compadece com leituras negacionistas ou manipuladoras. Sabemos de que maneira, do lado dos complexos doutrinários que procuram moldar artificialmente a História, quando a realidade não cabe no argumento se distorce a realidade. É isto que tem procurado aplicadamente fazer o actual esforço revisionista e desculpabilizador dos métodos e das metas do Gulag.»

De um artigo de Rui Bebiano, Rever e desculpabilizar o Gulag, publicado no Público de hoje e que pode ser lido, revisto e aumentado, em A Terceira Noite ou nos Caminhos da Memória.

11.11.09

«Ismos» e «anti-ismos»


















A blogosfera voltou ao seu melhor como espaço de debate, como há muito não acontecia - sobretudo no 5 Dias, mas não só. À esquerda, foram muitos os que nos últimos dias legitimamente sentiram um impulso para uma espécie de «confissões» ou «testemunhos» de fidelidades e infidelidades, certezas e grandes pontos de interrogação, e que daí partiram para discussões mais teóricas. Excelente não se estivesse a assistir também, no meu entender, a verdadeiros malabarismos conceptuais e terminológicos que, longe de ajudarem a pensar, mascaram por vezes as verdadeiras questões – complicadíssimos esforços para salvar o que não tem salvação, para conciliar o inconciliável, que acabam muitas vezes na defesa do indefensável.

É nestes momentos que regresso às minhas origens académicas:
«What can be said at all can be said clearly and what we cannot talk about we must pass over in silence.» - Ludwig Wittgenstein

Ou, numa versão bem mais antiga, para francófilos:
«Ce que l'on conçoit bien s'énnonce clairement et les mots pour le dire arrivent aisément.» - Nicolas Boileau