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18.8.10

«Falam como se fossem homens»


Ler na íntegra, para crer, este texto de Domingos (Freitas do) Amaral, no CM. Quando se escreve assim com 42 anos, tendo um «antigamente» tão recente, nem dá para imaginar o que irá por aquela cabeça quando tiver mais 20. Nem como era aos 15, em plena década de 80, poucos anos depois do 25 de Abril.

«Antigamente, a uma rapariga com ares rudes e masculinos, que gostava de andar à pancada ou de jogar futebol, chamava-se "Maria Rapaz". Era um termo carinhoso para caracterizar aquilo que se considerava uma raridade, com ligeiros laivos de excentricidade. Mas, isso era antigamente. Agora, as coisas mudaram. (…). As conversas entre raparigas, pelo que deduzi, eram uma espécie de competição sobre as actividades que elas praticavam com os namorados, sendo que as que mais impressionavam eram as que mais "coisas" tinham feito.

De repente, dei por mim a pensar que, na época em que eu tinha 15 anos, conversas destas só existiam entre os rapazes. (…) É essa a grande transformação dos últimos vinte anos nas relações entre os homens e as mulheres. Agora, as mulheres são todas "Marias Rapazes". Não porque gostem de andar à pancada ou jogar futebol, e muito menos porque tenham ar masculino, mas porque falam como se fossem homens.»

Segundo a Wikipedia, o autor não é um ilustre desconhecido nem um produto das Novas Oportunidades: «Nasceu a 12 de Outubro de 1967, em Lisboa, Portugal. Filho do político de direita Diogo Freitas do Amaral. Depois de se ter formado em Economia, pela Universidade Católica Portuguesa, e de ter feito um mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Estados Unidos, decidiu seguir uma carreira como jornalista. Trabalhou no extinto jornal O Independente durante onze anos, além de ter colaborado com várias outras publicações, como o Diário de Notícias, Grande Reportagem, City, Invista e Fortuna. Colaborou também com a Rádio Comercial e com a estação televisiva SIC. Actualmente, é o director da revista portuguesa GQ e foi durante sete anos director da Maxmen. Colabora também com o Diário Económico e colaborou igualmente com a revista Grazia.»

Tem cinco livros publicados (até li um deles…) e, last but not the least, a cereja em cima do bolo, que talvez explique tudo: «É apoiante confesso de Salazar, do Fascismo e do Benfica.»

N.B. – O Benfica não tem culpa.
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5.7.10

Ide e sede felizes


Quais foram algumas das grades realizações da humanidade? Inventar a roda, a máquina a vapor, electricidade, a imprensa, o telefone ou mesmo a internet? Desenganem-se: foi o casamento, a «única forma eficaz de transmitir a civilização» - para César das Neves, como já deve parecer evidente.

Somos péssimos: admiramos e promovemos «promiscuidade, adultério, divórcio e união de facto», inovamos «furiosamente em contraceptivos e procriação artificial». Contribuímos para «a decadência social», porque «não só a fertilidade atingiu na Europa níveis de extinção da espécie, mas a solidão, depressão, traumas infantis, agressividade, suicídio chegaram a níveis patológicos».

Last but not the least, a situação a que se chegou é pior ainda do que aquela em que os pais tudo decidiam pelo «futuro do clã, alianças tecnológicas ou interesses de herança», porque o que se faz hoje «implica a extinção da sociedade».

Tivéssemos nós, os culpados dos males do universo, um mínimo de escrúpulos nas nossas mais que conspurcadas consciências e estaríamos armadilhados com cilícios, na fila de espera de um qualquer confessionário – digo eu, apesar de tudo muito intrigada por César das Neves não ter falado hoje do crime da homossexualidade. Algo de podre se passa neste reino longe da Dinamarca.
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28.12.09

A vida é bela!



















… e não, não se trata do filme de Roberto Benigni, mas sim de uma empresa de sucesso, que terá facturado 10 milhões de euros este ano.

Por razões que não vêm ao caso, na véspera de Natal, esperei enregelada que o escritório da dita empresa abrisse para satisfazer um pedido de alguém que não podia ir comprar uma última prenda de Natal (só depois descobri que podia ter ido à FNAC…). Poucos minutos mais tarde, os empregados não tinham mãos a medir.

O que se compra? Vouchers – para tudo o que se possa imaginar, desde «Fugas Gourmet» a 139,90 euros, «Rafting no Sado» a 49,90 ou «Spa a Dois» por 119,90. Também «Wine Taisting», «Passeio de Charrete», até «Noites em Pousadas de Juventude» (!...) e centenas de outras ofertas.

Actividades perfeitamente honestas e aliciantes, portanto - nada a opor. Mas o que me impressiona é o «empacotamento». Oferece-se um LFT104 a alguém que decide depois se quer dar um passeio de burro na Madeira, ter uma aula de surf ou ver um pôr-do-sol no Aqueduto das Águas Livres. No fundo, uma maneira simpática de dar 24,90 euros. Esquisito… Sinto que há algo que está a escapar-me.



Então não é?

9.12.09

É pró menino e prá menina
















Saiu há poucos dias em França um documentário do belga Patric Jean – «La domination masculine» –, que pretende demonstrar (uma vez mais…) como as sociedades continuam a ser patriarcais.

Um exemplo? No filme, mostra-se a um grupo de adultos um vídeo com um bebé de nove meses a chorar. À pergunta «Porque chora esta menina?», vem a reposta: «Ela está triste, sofre, precisa de ser consolada». Mas para «Porque chora este menino?», a história é outra: «Ele foi contrariado, quer alguma coisa, está furioso». As meninas são frágeis, podem estar tristes, os rapazes são coléricos e afirmam a personalidade.

Numa outra cena, parece que se discute a diferença entre brinquedos para rapazes e para raparigas.

Nem de propósito. Li isto precisamente ao chegar a casa, depois de uma investida frustrada para compras de Natal numa grande superfície e a verdade lá está nua e crua: o mundo cor-de-rosa de Nenucos, Barbies e Hello Kitty de um lado, os Gormiti, Spider-Men e Transformers do outro. E até o Lego passou a ser muito menos andrógino. Tudo muito mais sofisticado mas, no fundo, como há trinta anos.

Faz-se o quê? Contraria-se e dá-se só livros didácticos, globos terrestres e puzzles com paisagens? Com que efeitos práticos, para além da boa consciência, política e «feministamente» correcta?

O problema está bem a montante, mesmo ainda a léguas de distância, e é aí que tem de ser resolvido. Entretanto, «elas» safar-se-ão como nós nos safámos e pode ser que a ex-hipotética menina de nove meses venha a ter, aos 50, uma personalidade bem mais forte do que o ex-hipotético rapazinho que se transformará eventualmente num tristonho hipocondríaco a precisar de ser consolado…

20.2.09

Com dedicatória para uma juíza de Torres Vedras





















Sempre ouvi falar desta portaria mas nunca a tinha visto (leiam até ao fim).

Hoje vale pela anedota, mas há sempre uns puritanos à espreita ao virar de uma qualquer esquina. Cuidado com eles porque são certamente os mesmos que fizeram ontem campanha contra o aborto, estão hoje contra o casamento de homossexuais e lutarão amanhã contra a eutanásia. Mesmo que não pareça, com algumas nuances, está tudo ligado. Ou estarei enganada?


(A imagem foi roubada ao casoual.)

2.11.08

Costumes que já foram brandos

Jorge Fiel, hoje no DN:

«Aos olhos da Igreja Católica, Sá Carneiro viveu em pecado com Snu. Paulo Portas, o líder do nosso partido mais conservador, é um solteirão. Haider, o líder da extrema-direita austríaca, era homossexual. Manuela Ferreira Leite, a líder do PSD, está separada. José Sócrates, o primeiro-ministro e líder do moderado PS que recusou o casamento gay, é divorciado.
Curiosamente, só os líderes dos dois partidos da extrema-esquerda do nosso arco parlamentar, Jerónimo e Louçã, mantêm casamentos que preenchem os requisitos exigidos pela Igreja e por um presidente que publicitou estar a engolir um sapo quando ratificou a nova Lei do Divórcio. Já chega de hipocrisia, não acham?»


Não será tanto assim porque não acredito que Louçã e Jerónimo de Sousa sejam casados pela Igreja (e daí?...) e, portanto, aos olhos desta, vivem amancebados - é assim que se diz. Como era também o caso de Mário Soares e de Jorge Sampaio. (Quem não se lembra do célebre episódio em que o papa recusou recebê-lo com a mulher, exactamente por esse motivo, e não, como se disse por aí, por ele ser divorciado de um primeiro casamento: para a Igreja, este não tinha existido porque era apenas civil tal como o segundo.)

Assim sendo, quem nos resta? Pois Cavaco Silva, evidentemente, virtuoso e impoluto. Mas que, um dia destes, engolirá muitos mais sapos, olhando de soslaio para a flor de laranjeira das fotos de casamento.