(Pintura de Mário Silva, feita em Caxias, em 1962)
Regresso à Crise
Académica de 1962 porque João Gaspar, editor-executivo do Jornal
Universitário de Coimbra «A Cabra», me enviou agora este texto. Faz parte de um número especial daquela
publicação – «50 anos de Dia do Estudante» – que eu já tinha referenciado.
Em 62, estudantes
disseram que não ao regime, vaiaram o reitor e ainda desenharam a democracia
numa cela de Caxias. Esta é a história de
gente que se fez candeia no meio da desgraça.
Quatro da manhã e o ambiente na sala é tenso. O receio espalha-se
pelos olhos dos presentes e não há espaço para muitas falas. Os colegas que
manifestavam apoio ao cerco na rua já haviam sido dispersados brutalmente pela
polícia.
Vão espreitando à janela. Lá fora, já conseguem ver as
carrinhas da PSP. O cerco aperta-se e as movimentações sugerem que a barricada
vá ser arrombada. Reúnem-se todos na sala e sentam-se no chão à espera de ouvir
o estrondo de cadeiras e mesas a cederem à entrada da polícia de choque. São
uns gorilas, homens de negro dos pés à cabeça, de capacete, armados até aos
dentes, e que aparecem em tantas histórias como carrasco de rebeldias durante o
Estado Novo.
O coração apressa-se e o estrondo ouve-se. A barricada é
abatida pela força e os polícias de preto apressam-se a chegar à sala onde 150
estudantes estavam sentados. Num impulso repentino, imposto pelo medo do
embate, meia dúzia de estudantes levanta-se e começa a cantar “A Portuguesa”.
Todos os outros imitam o gesto. No meio, vozes tremelicam de tantos nervos. A
polícia de choque hesita e fica sem saber o que fazer. Pára diante dos
estudantes, de pé, a entoarem o hino nacional. O cântico acaba e os polícias
começam a encaminhar os estudantes para fora do Palácio dos Grilos, que não
oferecem resistência. Evita-se a pancada. O comandante da polícia,
reconhecendo, entre os estudantes, Mário Silva, dirige-se a ele:
-Estão aqui todos?
-Sim, senhor comandante.
Mentia. Uns quantos tinham-se escapulido para o sótão. Mostram-se
documentos e vai toda a gente em carrinhas para o quartel da Guarda Nacional
Republicana, na Avenida Dias da Silva.
Os cerca de 150 estudantes fazem fila à espera de saber o
que os espera. São identificados e revistados um por um. Tiram-se fotografias e
impressões digitais. A certa altura, aparece o implacável inspector Sachetti,
conhecido de tantos que lá estavam. Põe uma secretária e pede para que se faça
uma fila com os estudantes. Fica à frente, a separar trigo de joio. Na
secretária, rodeado de papéis com o carimbo da PIDE, Sachetti faz perguntas
breves e curtas, num ar de satisfação. Finalizado o interrogatório, escolhe
para que lado vai o estudante. Chega a vez de José Augusto Rocha, velho conhecido
de Sachetti, de tantas vezes que foi exigir a libertação de colegas presos.
Sachetti sorria em traços largos, tamanho era o ódio que tinha a José Augusto Rocha.
Emanava a perfumes, como sempre. Um cheiro imundo. Impecavelmente vestido, careca,
cara redonda, sem pescoço, entroncado. Eis Sachetti e José Augusto Rocha,
frente a frente.
-Finalmente apanhei-o! – diz, triunfal.
José Augusto Rocha, não se intimida com Sachetti, que até já
tinha prendido dois dos seus próprios sobrinhos.
-Veremos no futuro…
Nessa madrugada de 19 para 20 de Maio, vai na primeira
carrinha para Caxias. Juntam-se a ele mais 38, enquanto quatro raparigas ficam
presas na sede da PIDE em Coimbra. Os restantes estudantes saíam, em liberdade.
Um abalo sem-medo
Não foi preciso 62 para José Augusto Rocha ganhar a
consciência de que aquela liberdade tinha muito pouco disso mesmo. Na sua
cabeça rodopiavam desde muito cedo os ensinamentos de António Sérgio. Ainda
estudante liceal em Viseu, devorou os oito volumes de ensaios do filósofo português.
O neorrealismo português, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, era também
de leitura obrigatória. Percorriam-se livrarias à procura de obras escondidas,
trocavam-se depois à socapa, distribuíam-se panfletos e ensaios franceses
rodavam de dono. Os olhos perdiam palas.