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24.3.17

Há 55 anos, o Dia do Estudante



Há cinco anos, comemorámos o 50º aniversário do Dia do Estudante, hoje seremos muitos a voltarmos à cantina velha para festejarmos o 55º. Recordo um texto importante, aprovado por mais de 400 pessoas, em 24.03.2012.

24.3.15

1962, o Dia do Estudante e uma geração que vai desaparecendo



O dia 24 de Março de 1962, os que o antecederam e todos os que se seguiram constituíram um marco importante na luta contra o fascismo no início da sua penúltima década e forjaram a vida de uma geração de estudantes, que vai naturalmente desaparecendo, mas que se reuniu em massa há três anos para assinalar o cinquentenário dos acontecimentos.

Em jeito de homenagem, retomo um comentário de José Medeiros Ferreira, um dos grandes activistas de 62 (era então Vice-Presidente da Pró-Associação da Faculdade de Letras de Lisboa ), que participou nas comemorações de 2012 e que morreu há um ano. Neste vídeo, fala da ruptura entre a Universidade e o regime, que a Crise Académica significou, e relata alguns episódios relacionados com a proibição do Dia do Estudante.


(Em A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007)

Há poucos meses, deixou-nos Manuel Lucena, também ainda presente no encontro de 2012, ele que foi o redactor de serviço de grande parte dos comunicados relacionados com a Crise Académica. (Para já não falar de Vítor Wengorovious e de muitos outros que partiram antes.)

Republico um texto que Manuel António Pina escreveu há três anos e que foi divulgado no Jornal de Notícias:.

50 anos depois

Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.
Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.
Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.



Les étudiants ont manifesté, / Par la police, ont subi des sévices. / Ils étaient à Lisbonne, au Portugal. / Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang. / Les bourgeois de la ville ont renié publiquement / 40 années de gouvernement.

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P.S. – Clicando na etiqueta «CRISE 1962», tem-se acesso a uma longa lista de textos publicados neste blogue. 
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24.3.14

A Crise Académica – há 52 anos



Em mais um aniversário do Dia do Estudante de 1962, e do início da chamada Crise Académica, e na semana em que desapareceu um dos seus protagonistas – José Medeiros Ferreira – retomo um vídeo que fez parte de uma grande reportagem realizada pelo Expresso, há dois anos, para comemorar o 50º aniversário dos acontecimentos.

Uma das pessoas que pode ser ouvida no vídeo é precisamente José Medeiros Ferreira. Aqui fica, em jeito de muito simples homenagem. Há cada vez mais «vazios» que nunca mais serão preenchidos.



Retomo também um texto, então escrito por outro grande ausente, e publicado no Jornal de Notícias: Manuel António Pina.

50 anos depois
Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.
Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.
Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.


Les étudiants ont manifesté, / Par la police, ont subi des sévices. / Ils étaient à Lisbonne, au Portugal. / Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang. / Les bourgeois de la ville ont renié publiquement / 40 années de gouvernement.

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24.3.13

Um (mau) ano passou depressa



Em 24 de Março de 2012, comemorámos o 50º aniversário da Crise Académica de 1962.

Lia-se então, num grande cartaz que ocupava uma parede do hall da reitoria da Cidade Universitária de Lisboa: «Portugal era um país triste – Há 50 anos». Sem dúvida de modo diferente do que no início da década de 60, hoje também é. E está agora bem mais triste do que há um ano.

Nesse dia, mais de 400 pessoas aprovaram, por aclamação, um texto em que repudiavam cargas policiais no Chiado, ocorridas dois dias antes, «com uma violência desmedida e desproporcionada».

Creio que, em 2013, o conteúdo de uma  hipotética moção seria outro mas bem mais duro, com ou sem cargas policiais em pano de fundo. Porque o país está pior do que há um ano e continua portanto a ser válida a frase que correu então imprensa e telejornais: «Os jovens de 1962 não podem tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura»
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12.4.12

Desenhar a liberdade numa cela de Caxias



(Pintura de Mário Silva, feita em Caxias, em 1962)

Regresso à Crise Académica de 1962 porque João Gaspar, editor-executivo do Jornal Universitário de Coimbra «A Cabra», me enviou agora este texto. Faz parte de um número especial daquela publicação – «50 anos de Dia do Estudante»  – que eu já tinha referenciado.


Em 62, estudantes disseram que não ao regime, vaiaram o reitor e ainda desenharam a democracia numa cela de Caxias. Esta é a história de gente que se fez candeia no meio da desgraça.
 
Quatro da manhã e o ambiente na sala é tenso. O receio espalha-se pelos olhos dos presentes e não há espaço para muitas falas. Os colegas que manifestavam apoio ao cerco na rua já haviam sido dispersados brutalmente pela polícia. 

Vão espreitando à janela. Lá fora, já conseguem ver as carrinhas da PSP. O cerco aperta-se e as movimentações sugerem que a barricada vá ser arrombada. Reúnem-se todos na sala e sentam-se no chão à espera de ouvir o estrondo de cadeiras e mesas a cederem à entrada da polícia de choque. São uns gorilas, homens de negro dos pés à cabeça, de capacete, armados até aos dentes, e que aparecem em tantas histórias como carrasco de rebeldias durante o Estado Novo.

O coração apressa-se e o estrondo ouve-se. A barricada é abatida pela força e os polícias de preto apressam-se a chegar à sala onde 150 estudantes estavam sentados. Num impulso repentino, imposto pelo medo do embate, meia dúzia de estudantes levanta-se e começa a cantar “A Portuguesa”. Todos os outros imitam o gesto. No meio, vozes tremelicam de tantos nervos. A polícia de choque hesita e fica sem saber o que fazer. Pára diante dos estudantes, de pé, a entoarem o hino nacional. O cântico acaba e os polícias começam a encaminhar os estudantes para fora do Palácio dos Grilos, que não oferecem resistência. Evita-se a pancada. O comandante da polícia, reconhecendo, entre os estudantes, Mário Silva, dirige-se a ele:

-Estão aqui todos?

-Sim, senhor comandante.

Mentia. Uns quantos tinham-se escapulido para o sótão. Mostram-se documentos e vai toda a gente em carrinhas para o quartel da Guarda Nacional Republicana, na Avenida Dias da Silva. 

Os cerca de 150 estudantes fazem fila à espera de saber o que os espera. São identificados e revistados um por um. Tiram-se fotografias e impressões digitais. A certa altura, aparece o implacável inspector Sachetti, conhecido de tantos que lá estavam. Põe uma secretária e pede para que se faça uma fila com os estudantes. Fica à frente, a separar trigo de joio. Na secretária, rodeado de papéis com o carimbo da PIDE, Sachetti faz perguntas breves e curtas, num ar de satisfação. Finalizado o interrogatório, escolhe para que lado vai o estudante. Chega a vez de José Augusto Rocha, velho conhecido de Sachetti, de tantas vezes que foi exigir a libertação de colegas presos. Sachetti sorria em traços largos, tamanho era o ódio que tinha a José Augusto Rocha. Emanava a perfumes, como sempre. Um cheiro imundo. Impecavelmente vestido, careca, cara redonda, sem pescoço, entroncado. Eis Sachetti e José Augusto Rocha, frente a frente. 

-Finalmente apanhei-o! – diz, triunfal.

José Augusto Rocha, não se intimida com Sachetti, que até já tinha prendido dois dos seus próprios sobrinhos.

-Veremos no futuro… 

Nessa madrugada de 19 para 20 de Maio, vai na primeira carrinha para Caxias. Juntam-se a ele mais 38, enquanto quatro raparigas ficam presas na sede da PIDE em Coimbra. Os restantes estudantes saíam, em liberdade.


Um abalo sem-medo

Não foi preciso 62 para José Augusto Rocha ganhar a consciência de que aquela liberdade tinha muito pouco disso mesmo. Na sua cabeça rodopiavam desde muito cedo os ensinamentos de António Sérgio. Ainda estudante liceal em Viseu, devorou os oito volumes de ensaios do filósofo português. O neorrealismo português, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, era também de leitura obrigatória. Percorriam-se livrarias à procura de obras escondidas, trocavam-se depois à socapa, distribuíam-se panfletos e ensaios franceses rodavam de dono. Os olhos perdiam palas. 

27.3.12

As fotos eram a preto e branco e hoje são a cores (3)


(Clicar para ler)

Na sua coluna semanal no Público, que desta vez incidiu sobre O Dia do Estudante de 1962, António Correia de Campos inseriu este comentário sobre a actuação das forças policiais no passado dia 22 de Março, estabelecendo o paralelo entre a actuação das mesmas agora e há cinquenta anos. 

Há quem considere esta comparação, que outros já fizeram, inadequada pelo simples facto de vivermos hoje em democracia. Como se esta estivesse adquirida para todo o sempre pelo simples facto de termos eleições livres e não estivesse em perigo quando aqueles que têm por missão defendê-la abusam desmedidamente da força que lhes é confiada. 


Foi o que fizeram na passada 5ª-feira. E é por isso que não tenho medo de uma acção armada de Otelo, que não acontecerá. Mas tenho medo deste governo e da polícia do meu país. 
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26.3.12

Também um livro



100 Dias Que Abalaram O Regime - A Crise Académica de 1962, Tinta da China, 2012, 152 p. 

Coordenação de Artur Pinto, textos de: Alexandre Alves Costa, António Sampaio da Nóvoa, Carlos Campos Morais, Eurico Figueiredo, Fernando Rosas, João Marecos, Jorge Sampaio, José Augusto Rocha, José Maria Brandão de Brito, José Marques Felismino, José Medeiros Ferreira, Manuela Bernardino, Maria Benedicta Monteiro, Ruben de Carvalho e Teresa Tito de Morais. 
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As fotos eram a preto e branco e hoje são a cores (2)



«Puxo» para post autónomo um comentário de Diana Andringa àquele que publiquei esta manhã:

«Mais cette fois c'était leur chair, c'était leur sang, les bourgeois de la ville ont renié publiquement 40 années de gouvernement...»

Seria bom que os dirigentes e os membros do serviço de ordem da CGTP ouvissem a Collette Magny e percebessem que esses jovens indignados e espancados são também a nossa carne e o nosso sangue – e os defendessem em vez de os isolar. Como defenderam, nas crises académicas da década de 60, professores inesquecíveis como Lindley Cintra e muitos, muitos dos bourgeois de la ville

Foi bom ver os de 62 lembrar essa solidariedade entre gerações. O pior que nos poderia acontecer era evoluir como as personagens da canção de Brel... (Precisamente Les bourgeois.)


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As fotos eram a preto e branco e hoje são coloridas



Não foram apenas mais de 400 pessoas que exprimiram a sua indignação perante as recentes cargas policiais, em almoço festivo que comemorava o 50º aniversário de um Dia do Estudante em que também houve bastonadas. Outras vozes se vão juntando à comparação entre duas situações separadas por cinco décadas, como a de Manuel António Pina, hoje, no JN.  

50 anos depois

Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.

Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.

Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.



«Les étudiants ont manifesté,
Par la police, ont subi des sévices.
Ils étaient à Lisbonne, au Portugal.
Mais, cette fois, c’était leur chair, c’etait leur sang.
Les bourgeois de la ville ont renié publiquement
40 années de gouvernement»
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25.3.12

O copiógrafo



A memória também é feita de objectos. Na exposição ontem inaugurada na Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, no quadro das comemorações do Dia do Estudante em 1962, está esta máquina – um copiógrafo a stencil – que foi um instrumento precioso ao serviço da liberdade de informação durante a Crise Académica. 

As Associações de Estudantes tinham montado uma estrutura que assegurava a publicação praticamente diária de comunicados, tarjetas e panfletos e que organizava a respectiva distribuição. Esta garantia que os materiais chegassem a todas as faculdades praticamente à mesma hora. 

Imprimir durante a noite, quase sempre em locais diferentes, exigia um árduo trabalho, pois muitos copiógrafos eram manuais – noites inteiras a dar à manivela! A «produção» era depois reunida pelas equipas de distribuição, através de um código que identificava o local de recolha: fazia-se uma chamada a partir de uma cabine telefónica para um determinado número e recebia-se uma resposta em que era dito que se ligasse para um outro número, fictício. Eram os dois últimos algarismos deste, que identificavam o tal local de recolha. 

A PIDE nunca conseguiu descobrir este esquema de funcionamento, que durou meses. 

(Adaptação de um texto publicado num jornal editado para assinalar o 50º aniversário.) 
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24.3.12

Carga policial de 22 de Março – Moção de censura aprovada pelos protagonistas de 1962



Texto aprovado por aclamação, por mais de 400 pessoas que se reuniram na Cidade Universitária de Lisboa para comemorarem o 50º aniversário da Crise Académica de 1962:

MOÇÃO

Há 50 anos, a indignação perante uma carga policial sobre estudantes que pretendiam comemorar o Dia do Estudante deu origem ao luto académico que hoje aqui evocamos. 

Há dois dias, vimos nas televisões as imagens de polícias carregando de novo sobre jovens, com uma violência desmedida e desproporcionada. Mais vimos o espancamento de jornalistas, pondo em risco a isenta cobertura da carga policial. 

Os jovens de 1962 não podem tolerar em democracia o que repudiavam em ditadura. Assim, os participantes na Crise Académica de 1962, reunidos na Cantina da Cidade Universitária em 24 de Março de 2012, decidem: 

- Manifestar o seu repúdio pelos actos de violência policial verificados em Lisboa e no Porto a 22 de Março de 2012; 

- Dar conhecimento desse repúdio a Suas Excelências o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro; o Ministro da Administração Interna, o Inspector-Geral da Administração Interno e o Sr. Provedor de Justiça, assim como aos órgãos de Comunicação Social. 

Cantina da Cidade Universitária 
24 de Março de 2012
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A Crise de 1962 vivida também no Secundário



Com autorização da autora, republico este texto de Helena Cabeçadas

 Liceus e Luta Política – 1962/1965

As greves e o movimento estudantil de 1962 despertaram-me para a política e para a luta antifascista. Nessa altura eu tinha 14 anos e estava no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, mas a minha irmã mais velha já estava no 1º ano do Técnico e participava com entusiasmo no movimento estudantil de contestação ao regime. Eu e algumas das minhas amigas, da mesma idade, fugíamos do Liceu para ir assistir aos plenários, na Cidade Universitária. Não estávamos integradas no movimento associativo liceal e tínhamos imensa pena de não estar ainda na Universidade. Tentávamos disfarçar que vínhamos do Liceu, as batas enroladas dentro das pastas, com receio que os universitários nos mandassem embora. E ficávamos quase em êxtase a ouvir os dirigentes associativos de então, os seus discursos inflamados, tanto mais apreciados quanto mais radicais.

Foi, pois, com grande entusiasmo que, no ano lectivo seguinte (1962/63), já no Liceu Rainha D. Leonor, aderi à Comissão Pró-Associação dos Liceus. Vivia-se, nessa altura, uma certa euforia, apesar das expulsões decorrentes das greves estudantis de 62. Abriam-se brechas fundas no regime – com a guerra colonial nas suas diferentes frentes de luta, o movimento estudantil cada vez mais radicalizado, a grande jornada de luta que fora o 1º de Maio de 1962… tudo isto nos dava a esperança de um fim próximo da ditadura.

Pouco depois, com 15 anos, aderi ao Partido Comunista, a única força política antifascista organizada na altura. Tenho a noção, hoje, de que teria aderido a qualquer outro partido ou grupo organizado antifascista que me tivesse surgido, fosse socialista, comunista ou anarquista, tal era o meu desejo de me empenhar na luta pela liberdade e pela democracia.

Claro que, para nós, adolescentes, era uma aventura excitante estar numa organização clandestina, ter um pseudónimo e actividades secretas tendo, ainda por cima, um objectivo último exaltante: a construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. Sentíamo-nos heroínas de filme ou de romance (falo no feminino porque a minha experiência directa se passava, de facto, num universo adolescente feminino). O anticomunismo violento do regime salazarista ainda mais exacerbava a atracção que a actividade clandestina do PCP exercia sobre nós. Claro que ler Marx era uma tarefa difícil e maçadora e Lenine ainda pior, mas também não nos eram exigidas tais leituras que, aliás, não estavam disponíveis porque eram proibidas. Recebíamos o jornal do partido, o “Avante” e tínhamos que o distribuir, às escondidas, nas caixas do correio ou em locais que não dessem muito nas vistas. Era uma tarefa divertida porque tinha os seus riscos, fazíamo-la aos pares e, quando surgia alguém nas escadas do prédio, fingíamos, para disfarçar, que estávamos a namorar.

Hoje é o dia



Passe a publicidade: a «Revista» do Expresso de hoje traz uma longa e excelente reportagem sobre a Crise Académica de 1962, dirigida por José Pedro Castanheira e baseada na visita que tenho vinda a referir.

(Na foto, o grupo que visitou todos os lugares relacionados com os acontecimentos.)
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23.3.12

22 Março de 2012 / 24 de Março de 1962 – 50 anos e assim estamos



Quem anda às voltas com os factos ligados ao 50º aniversário do Dia do Estudante, e passou a tarde de ontem em manifestações nas ruas de Lisboa, não pode deixar de associar cargas policiais, separadas por cinco décadas, mas que nem por isso se tornaram menos brutais e desproporcionadas. 

Do Castanheira de Moura ao Chiado vão poucas dezenas de quilómetros e, pelos vistos, ligeiras diferenças de comportamento. Não foi para aqui chegarem que muitos lutaram contra a ditadura e o que está a acontecer é absolutamente inadmissível em democracia. 

E quem cala consente, agora como há cinquenta anos. 

P.S. - Para os mais novos que, eventualmente, ignorem factos e referências ao passado, deixo um pequeno relato, tirado de uma entrevista feita a Fernando Rosas e José Medeiros Ferreira, em 1997. 

«José Medeiros Ferreira - Repentinamente, não só há a proibição do Dia do Estudante pelo ministro Lopes de Almeida (…), mas a cidade universitária aparece ocupada pela polícia de choque [24 de Março de 1962]. 
Fernando Rosas – Facto sem precedentes na história do regime. 
José Medeiros Ferreira – Facto sem precedentes, pelo menos para aquela geração de estudantes. (…) E eu lembro-me muito bem, que os dirigentes tinham uma relação de diálogo, como se diria hoje, com o professor Marcelo Caetano, foram a casa do professor Marcelo Caetano que era o reitor da Universidade Clássica (…) dizer o que estava a acontecer, que havia polícia de choque na universidade, na cidade universitária e ele ficou, genuinamente, aborrecido e até irado. Telefonou ao ministro do Interior, Santos Júnior, na nossa frente, pedindo-lhe para ele retirar a polícia de choque e quando desligou o telefone garantiu-nos que a polícia de choque iria retirar (…) Isto é na manhã do dia 24 de Março de 1962, exactamente. Mas quando lá chegamos a polícia de choque, de facto, estava a principiar a entrar nas carrinhas, mas não saíram da cidade universitária. (…) 
José Medeiros Ferreira – (…) Portanto, convocamos os estudantes para a tarde no Estádio Universitário, um outro espaço novo que existia portanto também na cidade universitária. (…) Até por volta das seis horas, a polícia não saiu da cidade universitária. Aliás, cercou de certa maneira de novo o estádio universitário e o professor Marcelo Caetano, talvez pensando que assim resolvia a situação, terá convidado ou pelo menos dito que o melhor era os estudantes irem jantar ao restaurante Castanheira de Moura. (…) A cantina é fechada e (…) quando os estudantes se dirigem para o restaurante há uma carga de polícia muito forte (…). 
Fernando Rosas – Os estudantes saem em manifestação. 
José Medeiros Ferreira – E os estudantes saem em manifestação e são carregados no Campo Grande pela polícia de choque que criou, obviamente, um facto mobilizador muito grande. (…) Imediatamente, os dirigentes associativos promovem uma reunião das reuniões interassociações na Associação de Económicas.»
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21.3.12

A voz às mulheres de 1962



Para não os perder de vista nos labirintos nem sempre preservados dos jornais online, aqui ficam mais dois vídeos divulgados pelo Expresso. Foram gravados no passado dia 13, durante a visita aos locais da Crise Académica de 1962, que já anteriormente referi.

No primeiro, Isabel do Carmo sublinha a participação das estudantes nos acontecimentos de há 50 anos.

No segundo, Maria João Geraldo fala da estadia das estudantes detidas no Governo Civil de Lisboa, já detalhadamente relatada neste blogue pela Helena Pato.



Gostei de ver por dentro um edifício onde nunca tinha entrado e que tem um belíssimo pátio. As celas (muitíssimo rudimentares, diga-se de passagem) estavam vazias quando as visitámos, mas tinham sido utilizadas na noite anterior. Subterrâneos da vida desta cidade, que não conhecemos mas que permanecem vivos apesar do tempo que passa.

Fonte: (1) e (2)

Para além de Lisboa



.. também houve Dia do Estudante, em 1962.

Número especial da revista de Coimbra «A Cabra», em formato pdf. Ler e descarregar AQUI.
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20.3.12

Revisitar o passado



(Jorge Sampaio e Medeiros Ferreira recordam, na varanda da Reitoria, o dia em que convenceram Marcello Caetano a deslocar-se à mesma para falar aos estudantes, em 1962.) 

Há cerca de uma semana, o Expresso convidou um grupo de protagonistas da Crise Académica de 1962 para recordarem os respectivos acontecimentos, percorrendo os diversos locais relacionados com os mesmos: da Cantina Universitária a um quartel da Parede, passando pela Reitoria, pelo Estádio Universitário, pelo Governo Civil e por Caxias.

O jornal começou agora a publicar o que se passou, com a divulgação de algumas entrevistas – hoje a António Ribeiro (filho do mítico professor Orlando Ribeiro) e a Medeiros Ferreira – e incluirá, no próximo Sábado, uma longa reportagem.



Foi uma iniciativa interessante por parte do Expresso e gratificante para quem nela participou. Fiz parte do grupo e irei comentando alguns episódios, mas quero, desde já, precisar o seguinte: a minha participação na Crise de 1962 foi puramente tangencial porque eu era então estudante em Lovaina e não em Portugal. Por puro acaso, estive umas semanas em Lisboa, o que me permitiu viver a primeira fase da luta. (Mais tarde, quando se deu o episódio da greve da fome e da prisão dos estudantes, no início de Maio, tinha já regressado à Bélgica.)

Para além de assistir a horas e horas de plenários, tive uma «missão» curiosa. Era amiga pessoal dos professores Lindley Cintra e Maria de Lourdes Belchior, dois dos poucos que estiveram sempre do lado dos estudantes, e eles pediram-me que fizesse algumas acções de pequena «espionagem», como, por exemplo, ver se a polícia já tinha encerrado a Cantina numa determinada noite, julgo que na véspera do projectado Dia do Estudante. Não tinha, fê-lo logo a seguir a eu ter sido a última pessoa que lá jantou – vi-a chegar. LC e MLB esperavam-me num carro escondido nas matas próximas, temia-se que fossem presos nessa noite e Lindley Cintra convenceu a Mª de Lourdes a não ir para casa mas sim a «refugiar-se» algures perto de Bucelas. (Inimaginável? Mas era assim...) Para lá fui com ela e de lá vinha, todas as manhãs, para a Cidade Universitária. E ia sabendo as notícias do lado dos professores e transmitindo-lhes o que se passava na rua.

Embora «protagonista» puramente secundária, faço a tal ponto parte daquela geração, e daquela época, que passei, desde há muito, a membro integrante e permanente de um grupo que se reúne pelo menos uma vez por ano (com grande prazer e a maior das honras, devo dizê-lo). E, por isso mesmo, falo agora quase todos os dias deste 50º aniversário.

Os mais novos entenderão dificilmente, julgo, a importância existencial destas realidades para quem as viveu. Mas que tudo isto se tenha passado há 50 anos, isso, sim, é que parece irreal!
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19.3.12

Um, dois, três… vamos lá, outra vez!



Texto de Helena Pato, enviado para republicação neste blogue. 

Mesmo sendo pouco dada a saudosismos, tenho essa noite na memória, e não só eu, pois que quando nos encontramos – os da geração de sessenta – e falamos do antigamente na universidade, vem sempre à baila a prisão dos 1.500. Mil novecentos e sessenta e dois. 

1962 foi um período marcante para todos nós envolvidos, de uma maneira ou outra, na Resistência à ditadura, para o movimento associativo e para o regime. 

Estávamos às centenas, sentados no chão por tudo o que era espaço ocupável na cantina da Cidade Universitária de Lisboa. Reclamávamos a possibilidade de comemoração do Dia do Estudante e havia, na cantina, um grupo de umas dezenas de jovens universitários em greve de fome. Era o culminar de uma luta que vinha de muito antes. 

Pela noite dentro, foram chegando mais estudantes que vinham juntar-se a nós. Isto porque, ao cair da noite, começou a correr que a PIDE ia aparecer e fazer prisões assim que a maioria dos que, durante o dia, ali haviam permanecido fosse para casa. Perante este «diz-se que», quem ia embora não foi e desencadeou-se um movimento de telefonemas (de cabines) para colegas ausentes, a chamá-los «para a frente de batalha». Com excepção das meninas dos lares universitários, quase não ficou colega por contactar. «Liga à Emília, eu falo aos jornalistas do República…» Acordados eles e as famílias pela noite dentro, os apoiantes do movimento associativo começaram a chegar. Viam-se entrar, como que estremunhados. Em alguns casos, tinham-se escapado de sapatos na mão, pelo corredor da casa fora, fugindo ao controlo paternal – elas, sobretudo, que a moral vigente não lhes dava cobertura em saídas nocturnas. Um pé-de-vento. Chegaram muitos. Não admitiam que, no dia seguinte, viessem dizer – como era costume do governo – que apenas uma minoria, sem significado, estava naquela luta. Não era verdade, a Universidade de Lisboa, na quase totalidade dos alunos e muitos, muitos docentes, apoiava os dirigentes do movimento associativo, o que era evidente nas reuniões plenárias em que apareciam aos milhares. Por isso, logo que começou a circular que naquela noite ia tudo dentro, até os habitualmente mais difíceis de convencer a agirem se levantaram da cama e foram para lá. 

O previsto – e que durante a noite era já aguardado por todos – aconteceu mesmo. O regime não aguentou nem a pressão da contestação, em crescendo na universidade, nem a coesão dos dirigentes e do movimento estudantil. 

A vida não lhes corria mesmo nada de feição com as inúmeras greves operárias desse ano e agora eram até os meninos da burguesia a criar-lhes problemas? Só faltava essa… Decidiram cortar o mal pela raiz – que já era tarde – e antes de perderem totalmente o controlo da situação, prenderam de uma assentada 1.500 jovens – na esmagadora maioria, oriundos das classes sociais tradicionalmente afectas ao regime (era, não esqueçamos, a Universidade enormemente elitista do início da década de 60). Zás! Tudo «dentro». Intimidados por esta acção repressiva, talvez os pais tivessem mão nos seus filhos. 

18.3.12

A crise académica, 50 anos depois — e agora?



Um importante texto de Jorge Sampaio, Secretário-Geral da RIA (Reunião Inter-Associações) em 1961/1962, publicado ontem no Expresso (sem link). 

Comemora-se agora a o cinquentenário da crise académica de 62. Seria, porém, redutor ficarmos no agridoce conforto de nostalgias, pois essa data – e o que significou – pede-nos sobretudo a pedagogia de um inventário e o dever de um testemunho. E isto porque, ao olharmos para trás, voltamos a sentir que essas foram horas de aprendizagem de vida e de cidadania, de múltiplos desafios, de inevitáveis testes de carácter. Mas foi também um raro momento de unidade, em que muitos descobriram como construir o triunfo da razão sobre a força, ou da justiça sobre a prepotência. 

Vale, por isso, a pena assinalar, sobretudo junto das novas gerações, alguns fundamentos de uma crise académica que lhes parecerão anacronicamente absurdos. Quando em março de 1962 se procurou comemorar o dia do estudante, o regime escondia mal as feridas acusadas pela perda de Goa, pela insurreição em Angola, pelo frustrado assalto ao quartel de Beja, e por vários indícios de desgaste postos a nu pela falhada tentativa do general Botelho Moniz. Tudo isto se começava a refletir numa nova dinâmica do movimento associativo que, em Lisboa, congregava mais de uma dúzia de associações e organismos autónomos, coordenados por uma estrutura informal - a RIA (reunião interassociações). O ato da inauguração do edifício da reitoria dera já um sinal: coubera-me não aceitar, como representante dos estudantes, a censura ao texto que me propunha ler, o que motivaria a ausência institucional do corpo discente na cerimónia. A posterior proibição do dia do estudante atuou como faísca, ao mostrar a face arbitrária do governo, a arrogância do seu comportamento pela recusa do diálogo e pela desautorização do reitor, num atropelo à então débil autonomia da universidade. Depressa se abriram as portas da crise: encerramento de instalações, presença e repetidas cargas da polícia de choque na cidade universitária, maciças concentrações de protesto de estudantes no Estádio Universitário (a que inesperadamente se juntaria o reitor Marcelo Caetano) e na Alameda da Universidade, um justamente famoso jantar de confraternização de estudantes e alguns professores, por convite pouco antes feito pelo reitor devido ao fecho da cantina, o qual originaria nova carga e consequentes correrias. De tanta inabilidade de um governo acossado, surgiria uma inédita unidade de estudantes e professores: demissão do reitor e dos diretores da Universidade Clássica; comunicado do Senado (apenas formado por docentes) defendendo a autonomia universitária; e a decisão, com o magnífico apoio de Coimbra, de iniciar o luto académico. A crise, entre recuos, faltas de palavra e endurecimento do governo, persistiria até julho, e, na barricada universitária, as associações, sob a coordenação da RIA, iriam atravessar dias arrebatados, numa febril cooperação e capacidade organizativa cuja eficácia ainda hoje me surpreende. Foi um tempo repartido por reuniões pela madrugada fora; pela desmontagem das notas oficiosas através de comunicados informativos que a PIDE nunca conseguiu calar; por experiências de alguma incipiente clandestinidade e encontros vagamente conspirativos; pela mobilização de apoios de intelectuais e artistas; e, para vários, o primeiro contacto com a prisão.