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20.11.18

A discussão inexistente



«Há uma história antiga que tem muito que ver com a situação portuguesa actual. Quando George Bernard Shaw, dramaturgo e prémio Nobel da Literatura, falava de arte a um empresário teatral este falava-lhe de dinheiro, e quando Shaw falava de dinheiro aquele falava-lhe de arte. A dúvida metódica portuguesa actual confunde-se com dívida. Quando António Costa fala de touradas fala de dinheiro e quando Manuel Alegre fala de corridas de touros esquece-se do dinheiro. No fundo, o alarido nacional à volta de o IVA das touradas ser de 6% ou 13% não tem que ver com a discussão séria que poderia haver: devem, ou não, existir touradas? Mas, como sempre, em Portugal mistura-se tudo para que, depois, não se tome uma decisão sobre nada. Dela vai sobrar apenas Manuel Alegre, a "voz moral" que sempre conviveu com o "status quo" partidário quando lhe convinha. Nada mais. Discute-se touradas como se fosse uma questão de "civilização" ou de "liberdade", mas evita-se fazer a definitiva pega de cernelha: que política de cultura se quer para Portugal? Que estratégia deve ser seguida? E como é que ela pode e deve ser paga?

Não há, como se sabe, uma ideia de política cultural para o país. Exceptuando alguns "árbitros do gosto" que por aí cirandaram, a evocação da cultura serviu apenas, durante décadas, para a classe política pendurar na lapela nomes que lhes davam "credibilidade" antes das eleições. Nunca a cultura foi considerada como um pilar estratégico da nação. Pensa-se nos monumentos em momentos de turismo sedento, mas fora dessas eras de excitação, ficam a apodrecer (basta ir ao Palácio da Ajuda, sede do Ministério da Cultura, para ver como o património é tratado no país). Fala-se de estratégia audiovisual, mas é tudo para inglês ver. A sorte é haver criadores e artistas que são uma espécie de aldeias de Astérix num país que despreza a cultura, a sua história e a sua memória. Não se discute cultura: grita-se por causa das touradas e, brevemente, do tiro aos pombos. Enquanto isso o país torna-se analfabeto. E fica feliz com isso.»

Fernando Sobral
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3.4.18

A opção cultural



«"Les Demoiselles d'Avignon", de Picasso, inaugurou o modernismo na pintura há pouco mais de um século. O quadro de Picasso foi uma ruptura entre o passado e o presente. O modernismo foi, nas artes, a vitória da forma sobre o conteúdo. Inspirou, sem o saber, o olhar da política nacional sobre a cultura. Tudo é forma, nada é conteúdo. Os resultados dos apoios da DG Artes à área do teatro exemplificam como funciona o pronto-a-vestir em que se transformou o arbítrio do gosto aliado à celebrada burocracia bafienta que costuma decidir as propostas. O amor à cultura, que sucessivos políticos professam antes das eleições, esbate-se rapidamente com o tempo. Até porque a cultura deixou de garantir conforto moral a quem quer liderar um país. Uma "selfie" ao lado de um craque de futebol garante mais exposição mediática do que uma foto com os melhores actores ou dramaturgos nacionais. A cultura é, há muito, um sector desvalorizado em Portugal. É quase uma nostalgia pouco perdoável. A culpa não é só dos políticos: é de toda a sociedade. Basta olhar para a comunicação social portuguesa e ver que espaço se dá à cultura. A cultura tornou-se um fóssil.

Agora é recordada porque os monumentos maltratados atraem turistas. E o turismo, sabe-se, é agora o Harry Potter do país. Ninguém parece pensar que a criação cultural interligada com o património existente funciona como as duas faces da moeda de desenvolvimento e modernidade de uma nação. São locomotivas de uma sociedade mais criativa e, por isso, capaz de abrir novas avenidas sociais e económicas. Custa a perceber, no meio desta transformação da cultura num parque temático decadente, o que ainda motiva o ministro da Cultura a manter-se no cargo. A não ser que goste de ser uma versão nacional de um modelo do museu de cera de Madame Tussauds. Mas cada um escolhe o seu lugar no mundo. A opção cultural há muito que desapareceu de uma sociedade portuguesa que empobreceu na sua alma. As decisões da DG Artes são apenas o triste epílogo de tudo isso.»

Fernando Sobral
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4.7.17

A novela do Convento de Tomar – The End




«O inquérito defende que a ideia de uma "destruição parcial" do Convento de Cristo, aludida na reportagem televisiva que suscitou a instauração do mesmo, mais que manifestamente exagerada, é errada. "As situações descritas" no programa Sexta às 9, da RTP, "'carecem de rigor e revelam desconhecimento científico'", lê-se na nota de imprensa emitida pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC). Ainda assim, é anunciada uma revisão do Regulamento de Utilização de Espaços patrimoniais, "com o propósito de uniformizar critérios de utilização".» 
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15.6.17

Alugar monumentos históricos?



Há trinta e tal anos, quando as vacas eram mais gordas, os animais já não falavam, mas as redes sociais ainda não o faziam, a empresa onde eu então trabalhava alugou a Galeria dos Espelhos de Versailles para um jantar onde estiveram largas centenas de pessoas, talvez mais de mil. A direcção de Versailles terá encaixado uma boa maquia (como era corrente fazê-lo), tudo aconteceu sem problemas, um jantar provoca muito menos desgaste do que milhares de visitantes, que invadem aquele espaço todos os dias, e não me parece que a História de França tenha saído maculada. (Citei este exemplo, mas podia citar muitos outros, nas mais variadas partes do mundo.)

Vem isto a propósito do rasgar de vestes de uns tantos pela «profanação» de monumentos históricos, alugados para actividades deste tipo ou semelhantes, da «indignidade» que isso significa. Financiar a cultura assim? Mas que horror! Penso, nomeadamente, num artigo que acabo de ler, no esquerda.net, e que me parece de um fundamentalismo absolutamente insuportável e mesmo ridículo.

P.S. - Não estão em causa todos os cuidados e todas as condições contratuais a serem consideradas. E para o peditório da questão de Tomar já dei o que tinha a dar e não é isso que está aqui em discussão. 
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24.11.16

António Gedeão, 24.11.1906


Rómulo de Carvalho / António Gedeão nasceu num 24 de Novembro – de 1906. Foi um grande professor de Química, que os seus alunos do Liceu Liceu Pedro Nunes e do Liceu Camões nunca esqueceram, estudioso e grande divulgador da História da Ciência, razão pela qual se celebra hoje, data do seu nascimento, o Dia Nacional da Cultura Científica.

Também poeta, autor de numerosos livros e do texto que deu vida à inesquecível canção Pedra Filosofal. Um pretexto como qualquer outro para a ouvir de novo, com a beleza de sempre e oportuna, hoje como em 1969, quando Manuel Freire musicou o poema publicado em Movimento Perpétuo (1956).



Fica também este manuscrito com parte do poema «Como será estar contente», publicado em Máquina de Fogo, 1960:


Lançar os olhos em volta, / moderado e complacente, / e tratar com toda a gente / sem tristeza nem revolta? / Sentir-se um homem feliz, / satisfeito com o que sente, / com o que pensa e com o que diz? / Como será estar contente?

Deve haver qualquer mecânica, / qualquer retesada mola / que se solta e desenrola / no próprio instante preciso, / para que um homem de carne, / de olhos pregados no rosto, / possa olhar e rir com gosto / sem estranhar o som do riso. (...)
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8.10.16

Uma oportunidade e um problema



«Portugal nunca teve e não tem uma estratégia concertada e esclarecida de promoção global. Lugar pequeno também nas mentalidades, onde proliferam os invejosos e os incompetentes, promove-se por compadrio e só muito raramente por mérito. Escapar a esta mecânica é ficar isolado, na cultura ou nas empresas. (…)

Temos finalmente um Governo positivo e mobilizador após um ciclo depressivo que quis empobrecer o país económica e mentalmente. Tudo considerado, estamos num tempo de crescimento da autoestima coletiva que abre muitas oportunidades e novos desafios. A escolha de Guterres vem dar mais um poderoso e altamente significativo contributo a esse momento.

O Governo de António Costa cumpriu o primeiro ano repondo salários, melhorando ainda que ligeiramente a situação económica dos portugueses. Foi essa a promessa, foi essa a base do acordo à esquerda. Mas agora é necessário fazer um "upgrade". No segundo e restantes anos do mandato, é preciso ir mais longe e apostar em força na inovação tecnológica pois só ela pode superar os atavismos da nossa economia.

Nesse processo o papel da cultura é fundamental. É hoje evidente a importância decisiva que a criação artística tem na inovação tecnológica, não só porque a tecnologia atual é altamente criativa em si mesmo, mas porque assenta em ideias inovadoras, matéria de que se faz a arte. (…)

Sempre afirmei que a cultura era o maior problema dos nossos governos, de esquerda ou direita. O atual não é exceção. Porque nunca se entendeu que mais do que exposições, peças de teatro ou filmes, cultura hoje é contribuir decididamente para a construção do futuro. A visibilidade que Guterres dá ao país poderia ser importante para uma alteração profunda do modo como entendemos a cultura em tempo de globalização tecno-criativa. Mas para isso era preciso renovar radicalmente o próprio entendimento do que é cultura hoje e a natureza das suas práticas. Precisamos de uma revolução cultural. Mas não vejo que ela esteja a acontecer.»

Leonel Moura

6.9.16

Marcelo e Elena Ferrante



«É uma revolução cultural na política e na sociedade que Marcelo pretende. Contra governos incultos.

Muitas vezes os políticos portugueses fazem piruetas em volta da cultura. Não tendo a graciosidade dos dançarinos dos "Ballet Russes", estatelam-se no soalho. Especialmente por omissão face àquilo que se costuma reconhecer como determinante para a saúde de uma sociedade democrática e que é, ao mesmo tempo, um valor económico. Talvez por isso Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu, elegantemente, a António Costa e a Passos Coelho a leitura dos livros de Elena Ferrante. Porque, referiu, este tipo de leitura melhora o "enriquecimento cultural" da classe política, coisa que todos sabemos é deficitária.

A sugestão de Marcelo não é inocente. Sabe que o gosto pela cultura não floresce por milagre na sociedade portuguesa. Nem a classe política a engole porque saiu num pacote da Farinha Amparo. O resto da mensagem veio depois: "eu não entendo que se possa ser governante sem se apostar na cultura".

Claro que Marcelo sabe: a cultura é uma espécie de gambozino dos Governos; acende em noites quentes. Marcelo acerta em dois alvos: pede aos políticos para olharem mais para a cultura e para serem mais cultos e incentiva os portugueses a lerem a autora, cujas obras são mais do que as histórias de duas amigas. Ferrante fala de duas mulheres que durante décadas têm de lidar com a incerteza económica, com os favores políticos, o machismo, o crime organizado, o poder dos sindicatos e da Igreja frente a um Estado ausente, à injustiça e à pobreza.

Ferrante é hábil a transformar pequenos eventos pessoais em temas de reflexão pública. E é isso que Marcelo quer: os livros da autora italiana falam de uma sociedade que evolui de forma muito parecida com a portuguesa. Lendo-a, os portugueses podem questionar a sua própria vida e a da sociedade que os rodeia. É uma revolução cultural na política e na sociedade que Marcelo pretende. Mas isso choca com políticas seguidas exemplarmente por governos de direita e esquerda: os bilhetes de museus pagam 23% de IVA. Os livros são um produto de luxo. Cultura?»

4.9.15

A pobreza cultural



«Portugal está mais pobre e não apenas em termos da dívida, do défice e do rendimento. Está mais pobre na educação e na cultura.

Este período pré-eleitoral está repleto de discussões sobre o vazio. Não tem havido um debate sério sobre o modelo de sociedade "low-cost" implementado durante estes quatro anos, onde parte substancial da população vive com um rendimento mínimo (quando não está desempregada), com um reflexo sério sobre a economia interna. (...)

Os partidos políticos, da posição e da oposição, têm obviamente ideias diferentes sobre a cultura (aquilo que, no fundo, nos distingue enquanto nação autónoma). Entre a direita e a esquerda há uma visão oposta sobre o valor da cultura: aquela aposta sobretudo na rentabilização da oferta patrimonial ou cultural, nunca a vendo como investimento; esta aposta no investimento mas, muitas vezes, acaba refém das patrulhas ideológicas e dos "clubes de amigos" que dele vivem. Nenhum discute seriamente o valor do audiovisual no espaço da língua portuguesa e global e nos riscos que podem advir de quem tem financiado esta cadeia de produção deixar de o fazer e fazer implodir todo um sector, como poderá ser no espaço televisivo. Tudo isso tem como fundo a questão da intervenção do Estado na cultura, algo que o actual Governo acha obviamente um disparate, não entendendo que o Estado tem de impulsionar a criatividade e o questionar, porque de outra forma as sociedades estagnam e tornam-se pantanosas. 

Mas nesta sociedade onde todo aquele que é considerado um "intelectual" é visto com desconfiança, já nada espanta. Este é o reflexo do modelo económico americano que se reforçou após a II Guerra Mundial. E onde a ciência (gerida por tecnocratas e por quem quer sobretudo rendimento) passou a guiar a humanidade. Partindo do pressuposto que o faz melhor do que os saberes tradicionais ou criativos. Mas os EUA não dispensam a cultura popular como o seu grande meio de propaganda e forma de conquistar espaço político, como se vê hoje na China. Isso ao contrário de Portugal onde a nossa pobreza se estende hoje à oferta cultural, que o Governo acha que deve existir apenas se tiver mecenato ou apoio privado por detrás. Mas, claro, num país de vistas curtas isso também não se debate. Não se compreende que é dos universos criativos que nascem muitas vezes as grandes alterações e vantagens económicas de uma cidade ou de um país. Mas nada surpreende: a incultura reinante na nossa elite política não faz prever nada de substancialmente diferente num futuro próximo.»

10.4.15

E a cultura?



«A recente morte de Manoel de Oliveira e de Herberto Hélder, que motivaram horas de abertura nos telejornais televisivos e a semântica do nada dos políticos pesarosos, poderiam dar a noção que Portugal é um País sitiado pela dívida e pelo défice, mas florescente em termos culturais. Um equívoco. O panorama televisivo, onde a generalidade dos portugueses bebe o seu conhecimento, é revelador da mediocridade reinante. A cultura portuguesa serviu sempre como medalha da classe política em tempos eleitorais, perante a própria comiseração dos criadores, muitos deles a encararem a produção cultural como uma obrigação única do Estado. (...) Os homens falam mais a partir de "smartphones" do que entre si, as frases foram substituídas por "slogans" no Twitter. As leituras são superficiais e feitas na internet. O património só é encarado em termos de lucro turístico. Nada que admire: as nossas elites são há muito um exemplo de falência cultural. (...)

Numa era em que a sociedade de emprego desapareceu (mas ainda se finge que é um desígnio político), em que a economia de mercado foi substituída em parte por uma economia especulativa, em que a sociedade de consumo foi transformada num fosso em que os que têm muito consomem pouco e os que desejam o consumo não têm dinheiro para o fazer, a cultura deixou de fazer parte das prioridades. Porque é-se alguém de sucesso pelo que se tem, não pelas ideias que traz ou partilha. (...)

A fraca inteligência da elite política nacional, pobre até na forma como se despediu de Manoel de Oliveira e Herberto Hélder, mostra o desastre em que vivemos. Tudo ficou exemplarmente explicado quando o ministro Aguiar-Branco disse, sobre a morte de Silva Lopes, que "era uma felicidade ter partido no mesmo dia de Manoel de Oliveira".»

Fernando Sobral

4.4.15

Da hipocrisia dos vivos



José Pacheco Pereira, no Público de hoje:

«Não há tão bom revelador do que é a elite portuguesa do que a maneira como trata os mortos que entende serem “seus”. O festival de hipocrisia que avassala Portugal sempre que morre um consagrado “consensual” revela as nossas enormes fragilidades no espaço público, e uma mistura de reverência oca, de ignorância, de imenso provincianismo e de uma ritualização pobre e subdesenvolvida. E aqui os media e o poder político vivem em simbiose total.

Merecem Eusébio, Herberto Helder, Manoel de Oliveira, José Silva Lopes, as homenagens dos portugueses? Merecem sem dúvida, mesmo do “país” se o houvesse. Só que não merecem estas “homenagens” político-mediáticas que tornam cada uma destas figuras peças de cera de um museu morto, que se empacotam numa prateleira logo que termina a exploração da sua morte e venha o esquecimento.

Deixemos Eusébio que tem características especiais, uma das quais ser, nesta lista, o único conhecido pelo povo e o mais “sentido” pelo povo, em Portugal, mas principalmente em Moçambique. (...) Todos os outros são praticamente desconhecidos pela maioria dos portugueses, e se formos falar da sua obra, então são tão remotos ao comum do povo como Xenófanes de Cólofon. (...)

Se se quer ajudar as pessoas a compreender o valor de Oliveira ou Herberto Helder, ou melhor ainda, a serem “tocados” pelas suas obras, naquilo em que a criação nos muda, troco dias de mensagens, votos de pesar, funerais nacionais (e agora até a obrigação de colocar os corpos no Panteão...) e luto oficial, por medidas minimalistas que ajudem a que se conheça a poesia portuguesa ou o cinema nacional. (...)

Estas [disciplinas escolares ]atiram alunos, que nunca leram um livro, para os Maias do Eça, cujo vocabulário, metáforas, histórias mitológicas ou bíblicas desconhecem de todo, ou a aprender nomenclaturas gramaticais que são decoradas e esquecidas no dia seguinte, ou a atirar estudantes para Descartes e Kant (imaginem!) sem qualquer cultura geral seja do que for.

Querem comemorar os nossos mortos consagrados? Ajudem os vivos a percebê-los e não a colocá-los numa prateleira, receando que o que haja de subversivo na sua criação saia de lá e chegue à rua. O poder precisa de múmias e não de arte ou cultura, e, nestes dias, a indústria de mumificação está em pleno.»
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7.3.15

Não é a cultura, estúpido!



«Molière, no século XVIII, alertou com humor fulminante para um facto: a crescente hegemonia dos algarismos sobre o discurso político. Desde então esse momento, que servia para pôr as pessoas a rir nas peças de teatro, tornou-se uma realidade.

A vida actual perpetua o sonho de Molière e, por isso mesmo, na sua arquitectura em que os números fazem o papel de pessoas, a cultura, o valor do tempo, a ética ou a sensibilidade são valores dispensáveis. É por isso que a discussão central na Europa é hoje sobre a austeridade e a dívida e não sobre os desastrosos efeitos pessoais que a obsessão pelos números tornou irrelevante. (...)

Nada que admire: a memória cultural tornou-se dispensável porque isso faz parte da ideologia hoje reinante onde as ideias se resumem a 140 caracteres de Twitter. A erosão da paciência conjuga-se, em Portugal, com a forma como aqueles que ocupam cargos de relevo no sector público (ou mesmo no privado) convivem com os erros que cometeram, por acção ou por omissão. Entre as desculpas de Pedro Passos Coelho por causa das suas dívidas à Segurança Social à interminável lista de esquecidos do caso BES/GES/PT, que têm passado pelo Parlamento, há de tudo para todos os gostos. Isto para não irmos mais atrás, a outras legislaturas. Isto é a consequência dos números se terem sobreposto às ideias políticas, a essência da democracia.

Quando se percebe que a política de intervenção em países como Portugal, Grécia ou Irlanda foi desenhada e desenvolvida por técnicos sem noção da realidade e sem escrutínio democrático (perante o olhar fascinado de Durão Barroso e dos seus pares), percebe-se onde chegou o sistema. É claro que a hora das decisões aproxima-se: a Alemanha, uma economia exportadora, está prestes a vender mais para fora da União Europeia do que para este espaço. Quando isso acontecer tudo se tornará mais explícito nesta Europa pobre de cultura e de sentido de Estado.»

Fernando Sobral

29.1.14

Cultura da Crise



«Só existe hoje uma crise na cultura (do cinema ao teatro, das artes plásticas à pesquisa de ponta) porque existe uma cultura da crise. (...)

Tal como no tempo da Inquisição, quando a nossa elite intelectual e comercial foi expulsa por um catolicismo fundamentalista, sem cuidar dos danos para os interesses do País e do império que tal hemorragia iria causar, temos hoje um Governo que saúda a emigração forçada de dezenas de milhares de jovens licenciados, sem avaliar o que significa regredir décadas na criação de uma massa crítica capaz de imaginar e construir novas saídas para a crise nacional. (...) Quarenta anos de democracia quase venceram esse estigma [do analfabetismo], o que não foi possível foi derrubar a iliteracia funcional de uma falsa elite, que dentro do Estado manda sem mérito para tal.»

Viriato Soromenho Marques

24.11.13

Eles não sabem, nem sonham



Rómulo de Carvalho / António Gedeão nasceu num 24 de Novembro – de 1906. Professor de Química, que os seus alunos do Liceu Liceu Pedro Nunes e do Liceu Camões nunca esqueceram, estudioso e grande divulgador da História da Ciência, razão pela qual se celebra hoje, data do seu nascimento, o Dia Nacional da Cultura Científica.

Também poeta, autor de numerosos livros e do texto que deu vida à inesquecível canção Pedra Filosofal, que continua a atravessar gerações. Um pretexto como qualquer outro para a ouvir de novo, com a beleza de sempre e oportuna hoje como em 1969, quando Manuel Freire musicou o poema publicado em Movimento Perpétuo (1956).


Fica também este manuscrito com parte do poema «Como será estar contente», publicado em Máquina de Fogo, 1960:


Lançar os olhos em volta, / moderado e complacente, / e tratar com toda a gente / sem tristeza nem revolta? / Sentir-se um homem feliz, / satisfeito com o que sente, / com o que pensa e com o que diz? / Como será estar contente?

Deve haver qualquer mecânica, / qualquer retesada mola / que se solta e desenrola / no próprio instante preciso, / para que um homem de carne, / de olhos pregados no rosto, / possa olhar e rir com gosto / sem estranhar o som do riso. (...)
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28.10.12

Adeus, Francisco José


O cineasta Luís Filipe Rocha dirige hoje, no Público (sem link), uma implacável carta aberta ao ex-secretário de Estado da Cultura. E não é só FJV e este governo que estão em causa, mas toda a política de cultura (ou a falta dela) também nos executivos anteriores. 

 «Caro Francisco José Viegas, acreditando nas notícias publicadas, desejo-lhe as melhoras. 

Nunca percebi como é que um escritor pode aceitar ser secretário da cultura de um Governo como o que temos. Como é que um escritor se pode sujeitar a um tão triste papel, a uma tão melancólica e insignificante sinecura? Por amor ao carro preto e aos estofos de couro? Por cupidez pelo estatal cartãozito de crédito? Por inebriamento com as alfombras da corte? Pela viagrice bimba que se diz que o poder provoca? Pelo arranjinho futuro? Por vaidade paroquial e familiar? Por vingança? Ingenuidade? Lirismo? Humor negro? Fidelidade amiguita? Nunca percebi. Não sei se um português tão suave como você escreverá algum dia memórias, mas, se tal acontecer, peço-lhe, por favor, que explique aos seus leitores por que aceitou ser secretário da Cultura de um Governo destes. 

É verdade que os dois Governos anteriores a este de que você fez parte desconsideraram a Cultura como nenhum outro Governo o havia feito em democracia. Até ao patetismo extraordinário de o ex-primeiro-ministro reconhecer publicamente, entre mandatos e em campanha eleitoral, que se tinha borrifado de alto para a cultura durante o mandato inteiro, mas que ia emendar-se. Em quase 40 anos de vida democrática não me recordo de algum outro Governo que tanto tenha desprezado e ostracizado a cultura como os dois Governos do senhor engenheiro Sócrates. Os seus três “ministros da cultura” foram os mais irrelevantes e nulos de todos os que conheci desde 1976. Ninguém deu por eles, para além das famílias e dos amigos, e, infelizmente, daqueles agentes e criadores culturais que desde 2005 começaram a sentir a negligência, o desinteresse e a grosseira ignorância a abaterem-se inexoravelmente sobre eles. 

Mas exactamente por esse lastro dos Governos anteriores e pela composição e ideário do novo Governo, não era previsível para todos que a cultura iria ser ainda mais destratada? Não era evidente, com este Governo, a assumida intenção de menosprezar de vez e, se possível, para valer, a cultura e os seus agentes e criadores? Não era óbvio o desdém ideológico e maninho, por isso mesmo fatal, ao despromovê-la e subordiná-la a este primeiro-ministro? 

Para desfrutar de um ano e tal de mordomias e regalias pacóvias (e precárias...) você teve de colocar mais uns valentes tijolos no túmulo da nossa vida cultural, que tão pifiamente os Governos anteriores começaram a cavar, e de ficar, no pedestal da nossa pindérica iconografia governamental, ao lado dos irrelevante e nulos seus antecessores. Com uma pequena mas não despicienda agravante: mais do que eles, você teve de prometer impossíveis, de desfazer possíveis, de disfarçar, de sorrir seraficamente e de dizer adeus de longe. 

Adeus, Francisco José, até sempre, que, apesar dos Governos, o país dura, e dura, e dura... Votos de melhor saúde e de longa vida.» 
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2.10.12

1% para a Cultura



«O tempo de pôr fim a este rumo de desastre é o tempo de hoje. Tempo de protesto e de recusa. Tempo de mobilização de toda a inteligência, de toda a criatividade, de toda a liberdade, de toda a cólera contra uma política que chama “austeridade” à imposição de um brutal retrocesso histórico. Defender a Cultura é uma das mais inadiáveis formas de fazer ouvir todas as vozes acima do medíocre ruído dos “mercados”. Manifestamo-nos em defesa da cultura. E agiremos em conformidade.» 


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19.6.12

Cultura e Futuro



Sessão Pública, hoje, 19 de Junho 
Início pelas 18h - Jardim de Inverno/Teatro São Luíz 

Intervenções de:
-José Luís Ferreira, diretor artístico Teatro São Luíz
-António Capelo, actor
-Catarina Martins, actriz e encenadora (deputada do BE)
-Nuno Artur Silva, autor e produtor
-Kalaf, músico e poeta
-Imagens de Pauliana Valente Pimentel, fotógrafa
-João Canijo, realizador
-Inês de Medeiros, actriz e realizadora (deputada do PS)
-Rui Vieira Nery, musicólogo
-António Pinto Ribeiro, programador geral Programa Gulbenkian Próximo Futuro
-Raquel Henriques da Silva, investigadora e professora universitária

Debate Público


Carta - 'Cultura e Futuro'  

O património cultural e o acesso à criação artística contemporânea constituem valores de civilização inerentes às democracias modernas. Os direitos à identidade e à diversidade cultural, à participação na vida cultural, à livre criação e fruição artísticas, à cooperação cultural internacional, são direitos culturais reconhecidos pela UNESCO, que investe os Estados na responsabilidade de construir políticas públicas que assegurem o seu pleno exercício. No Portugal democrático, a efectivação dos direitos culturais constitui uma tarefa fundamental do Estado, a par dos direitos económicos e sociais e da promoção do bem-estar, da qualidade de vida da população e da igualdade real entre portugueses, conforme estipulado na Constituição da República. 

Portugal está hoje equipado de museus, bibliotecas, arquivos, teatros, cineteatros, orquestras, património histórico, material e imaterial, bem como de uma rede de artistas, criadores, programadores, técnicos e produtores, complexa e de reconhecida excelência nacional e internacional. No entanto, todo este edifício apresenta enormes fragilidades. Os investimentos em infraestruturas e em formação não foram acompanhados por uma estruturação mínima da partilha de encargos e responsabilidades, da definição de cartas estratégicas e de regras de gestão independentes dos poderes imediatos. 

Neste momento, como resultado de uma governação abertamente hostil à ideia de serviços públicos de cultura e que usa a crise como alibi, assistimos a uma rápida e progressiva desprofissionalização no setor cultural, ao fechamento das agendas culturais e à desagregação da identidade social dos equipamentos públicos. O desinvestimento do Estado, nas diversas dimensões das políticas públicas para a cultura, nega, efectivamente, o acesso dos cidadãos à cultura e desbarata o investimento feito nesta área no Portugal democrático. 

O acesso à cultura, na dupla dimensão da criação e fruição, é essencial ao desenvolvimento. O Estado não pode iludir as suas responsabilidades na promoção do acesso ao património cultural, ao conhecimento, à qualificação, à participação cidadã. E não pode também desresponsabilizar-se pelo acesso à criação artística, que constrói o património cultural do futuro e é o instrumento de construção das narrativas próprias, das identidades múltiplas da nossa vida colectiva. Um povo sem acesso ao património cultural e à criação artística é um povo colonizado, sem os instrumentos básicos para se conhecer e, portanto, formular a sua singularidade. 

Ao contrário daquilo que enuncia o discurso corrente, é precisamente nos momentos de crise, como o que vivemos, que as políticas públicas para a Cultura ganham renovada atualidade. A Cultura é um instrumento fundamental de construção de uma qualquer ideia de futuro, quer do ponto de vista simbólico, enquanto conjunto de valores e práticas que têm como referência a identidade e a diversidade cultural dos povos e que compatibiliza modernização e desenvolvimento humano, quer do ponto de vista económico. A produção cultural dinamiza uma série de cadeias produtivas que lhe permitem multiplicar o investimento público como nenhum outro sector. E é ainda um elemento estratégico da economia do conhecimento. 

O discurso económico, instituído e incentivado pela tutela, tem procurado submeter a cultura e a criação artística a conceitos redutores que tendem para uma hegemonização da oferta concentrada em grandes produtores e distribuidores de conteúdos. É sistematicamente esquecido que a economia do conhecimento, baseada na criatividade, é bem-sucedida apenas quando construída sobre uma forte e complexa rede de infraestruturas e agentes culturais que só políticas públicas podem garantir. O paradigma norte-europeu, tido por exemplo de sucesso, acontece graças a um adquirido fundamental e politicamente consensual de investimento público na cultura e na criação contemporânea, que permitiu às indústrias culturais e criativas uma aposta arriscada na inovação, com fracassos e sucessos. 

Torna-se pois imperativo que a densa e complexa rede pública dos serviços de cultura se qualifique no imediato e se torne operativa, de modo a cumprir o espírito da Constituição onde o Estado Português se obriga, em colaboração com todos os agentes culturais, a incentivar e a assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de acção cultural, bem como a corrigir as assimetrias existentes no País e a articular a política cultural e as demais políticas sectoriais. É necessário um novo paradigma de gestão desta rede complexa de equipamentos e agentes culturais, cuja concretização exige responsabilidade governativa real e compromisso orçamental, onde a justiça da partilha e a ética da responsabilidade presidam às tomadas de decisão. O património cultural e a criação artística contemporânea constituem parte do melhor que existe na representação externa da imagem de Portugal. Urge viabilizar a internacionalização desta materialidade e deste imaginário, apoiar a produção contemporânea e, sobretudo, viabilizar aos cidadãos portugueses o usufruto do seu capital simbólico e cultural. 

Os subscritores deste documento afirmam a necessidade de um compromisso alargado em torno de uma ideia estratégica de cultura e de relação com a criação artística, que agregue as forças políticas, mas, sobretudo, os cidadãos enquanto primeiros destinatários de toda a atividade artística e cultural.
Este compromisso não pode deixar de incluir uma dimensão orçamental – negligenciável no cumprimento das metas de redução do défice, dada a dimensão quase nula que assume no presente – que deverá passar pela inclusão de programas específicos para a cultura no plano de investimentos que resultará da reprogramação do QREN. 

Deverá, no entanto, transcender essa dimensão orçamental, conferindo prioridade à articulação de responsabilidades entre o Estado central e as Autarquias, à enunciação de prioridades no restabelecimento de um tecido criativo com um mínimo de escala e de capacidade de desenvolvimento de projectos, à definição clara de regras de gestão independente da rede pública de serviços de cultura, ancoradas numa estabilidade que permita o desenvolvimento de planos de acção plurianuais e, finalmente, à normalização das relações do Estado com os agentes independentes. 

Lista de primeiros subscritores AQUI
Novas subscrições devem ser enviadas para culturaefuturo@gmail.com 
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28.5.12

A cultura é barata




Activistas de norte a sul do país saíram esta madrugada à rua para reivindicar a falta de investimento no sector Cultural. Sob o mote "a Cultura é barata", exibiram frases em várias sedes da EDP e BPN com o objectivo de mostrar aos portugueses quais é que têm sido as escolhas políticas nos últimos anos e o que representam para o sector cultural.

Mais aqui e aqui.
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9.10.11

Era uma vez a Cultura


Vi ontem esta entrevista que António José Teixeira fez a Francisco José Viegas (FJV), secretário de Estado da Cultura. Muito haveria a dizer sobre a mentalidade subjacente à abordagem de quase todos os temas abordados, mas restrinjo-me ao que está a ter hoje mais impacto: a questão da gratuitidade da entrada nos museus, concretizada neste momento entre as 10 às 14 horas de Domingo, e que o governo terá decidido eliminar reduzindo-a a um dia por mês (avançar para o minuto 47:14).



FJV afirmou que apenas 36% das entradas são pagas e que o ideal seria que essa percentagem subisse para 80. Certamente que o diferencial não corresponde à gratuitidade semanal de 4 horas e fica-se à espera de perceber se também serão eliminados os actuais descontos (questão abordada en passant…) e as entradas gratuitas em visitas das escolas. É bem provável…

FJV declarou também, sem pestanejar, que a decisão tinha sido tomada depois de ouvidos os responsáveis principais dos museus. Acontece que estes já vieram negá-lo, categoricamente, por exemplo na pessoa de Luís Raposo, presidente do Conselho Internacional de Museus, que ouvi esta tarde, em trânsito, na TSF. (Vale a pena escutá-lo.)

«Desde Julho que estamos a pedir uma audiência ao secretário de Estado e ela ainda não foi concedida, e sei, pelo contacto que tenho com a outra associação de museus, que existe em Portugal, que também ainda não foram recebidos. Portanto, não sei a que representantes de profissionais dos museus se refere o secretário de Estado quando diz que os recebeu», revelou o presidente do ICOM, acrescentando que este «é caso único porque é tradicional e da boa praxe democrática que se ouçam os profissionais representativos como é o nosso caso».

«Isso é uma situação que não existe em parte nenhuma do mundo civilizado, do mundo ocidental. Estaríamos numa situação perfeitamente sui generis de procurar que 80% das pessoas que se deslocam aos museus tenham de pagar bilhete.»

Assim vamos e estamos conversados. Com mais inverdades (para quê não ser meiga…) e decisões de vão de escada, que, segundo os responsáveis ouvidos, têm impactos muito negativos e um retorno financeiro irrisório. Porquê e para quê? Showing off para alemã ver?

P.S. - Ouvir também o do antigo director do Instituto de Museus e Conservação.
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7.9.11

(In)visível


É uma nova revista que será lançada em breve, unicamente através da net, e que «tem por objectivo principal a criação de novas interpretações acerca de temáticas culturais e sociopolíticas a partir de um tratamento multidisciplinar entre variadas linguagens, de forma a alargar o acesso ao conhecimento a um público mais vasto».

«A relevância de um projecto editorial neste âmbito justifica-se a partir da constatação da ausência de espaços públicos de comunicação que estabeleçam um diálogo acessível acerca de temas que aqui consideramos “invisíveis”.»

Informação detalhada AQUI.
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