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30.3.20

Manolis Glezos



Manolis Glezos morreu hoje com 97 anos. Herói nacional pela participação na resistência grega à ocupação nazi (ficou célebre a subida à Acrópole de onde arrancou a bandeira nazi e içou a grega), activíssimo durante a Ditadura dos coronéis (onze anos de prisão e quatro de exílio), eleito eurodeputado do Syriza em 2014 (erguendo-se sempre contra as medidas de austeridade da troika no seu país).

Encontrei no meu blogue este vídeo de Junho de 2016, onde Glezos responde a Martin Schulz depois de este fazer um discurso em tom de «mea culpa», em nome da Europa, pelas promessas falhadas a Portugal e Espanha passados 30 anos desde a adesão à CEE e de ter acrescentado que, pelo menos, estes dois países tinham hoje uma democracia estabilizada.



«I very much regret that I am forced again to talk about you personally. A short while ago we heard a nice rhetoric that corresponds to reality regarding the dictatorships in Spain and Portugal. But today the free Greece, a country that expresses the will of the Greek people in order to carve its own path, meets the fierce reaction from the three institutions, the troika, as well as by your side. And that strikes me. Who gave you that right? As a person you have the right to intervene and say anything, but as President of the European Parliament I think you do not have the right to express the European Parliament and to intervene in Greece trying to strangle it. All lenders, hands off Greece. Those who think that they can subjugate the Greek people are mistaken.»
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19.12.19

Refugiados na Grécia: crianças que dizem que querem morrer



«A BBC lançou esta quarta-feira uma pequena reportagem em vídeo, gravada na ilha de Lesbos, na Grécia, onde uma psicóloga se torna protagonista - pelas piores razões. É Angela Modarelli, dos Médicos Sem Fronteiras, que conta para as câmaras o que as crianças que ali vivem lhe contam nas consultas.

Moria é o maior campo de refugiados na Europa, ocupam-no principalmente sírios. Foi construído em 2015 e tem capacidade para pouco mais de 2000 pessoas, mas neste momento tem perto de 18 mil. Os últimos três meses foram particularmente difíceis no campo porque o fluxo de migrantes voltou a crescer imenso - as pessoas querem chegar antes que se abata sobre o Mediterrâneo o inverno a sério.

“Cheguei aqui e comecei a ouvir crianças com sete e oito anos a dizer que queriam morrer. Não pensei que fosse algum dia fosse ouvir tal coisa”, diz a especialista na reportagem.

As imagens mostram várias crianças a caminhar pelo campo enlameado, com alguma comida em sacos, sandálias em vez de botas quentes. Vêem-se mulheres com os filhos ao colo e também elas estão praticamente descalças. A certo ponto, os Médicos Sem Fronteiras são chamados à Clínica Pediátrica e Modarelli conta à BBC que o caso mais sério, naquele dia, era o de um adolescente que tinha “começado a magoar-se a si próprio” e que “diz que lhe apetece repetir esse ato porque o faz sentir-se melhor”.

“As crianças em idade pré-escolar batem com a cabeça na parede consecutivamente ou então arrancam os cabelos, os que têm entre 12 e 17 anos fazem mal a eles mesmos, automutilam-se, e começam a falar do seu desejo de morrer”.»

(Daqui)


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6.9.19

Yanis Varoufakis




Já agora...

«“I’m thinking of uploading the recordings to the internet. After all, I was the only one who respected privacy, everyone else leaked. It would be good for Europe’s historical archive, ” Varoufakis said, speaking on to protothema FM.»
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31.7.19

Ai, a igreja grega… (sim, com minúscula)




«A racist incident against children with multiple disabilities took place in North Greece, when a priest refused to give them the communion. The man claimed that these children “do not understand” and therefore “may spit the communion out.” (…)

P.S. that the priests and the Greek Orthodox Church walk through the Greek streets blindfolded is not a secret. The priest may exposes racist behavior against children with disabilities, however, he has certainly no spiritual concerns to cash his salary as a public servant, a salary paid by the parents of exactly these kids.»
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8.7.19

Como é que se diz ingratos em grego?



«Há muitas explicações para a derrota eleitoral do Syriza. Vão desde o acordo sobre o nome da Macedónia do Norte até à má gestão do combate aos mortíferos fogos de 2018, passando pelas acusações de ter prometido resistir à União Europeia e no final acabar por negociar com esta um terceiro resgate à Grécia. Mas, na realidade, a Alexis Tsipras o eleitorado fez pagar o ter sido o rosto da austeridade, necessária mas brutal num país que é mais pobre do que durante anos as estatísticas nacionais fizeram crer. E Kyriakos Mitsotakis surge como o rosto da esperança, um político em teoria sem culpas na crise, se bem que o mesmo não se pode dizer da Nova Democracia, que ganhou com cerca de 40% e que graças ao bónus de deputados para o vencedor deverá ter maioria absoluta.

Entrevistei Tsipras em finais de 2017, quando ele já olhava com ansiedade para o ano que ia entrar e que significava para a Grécia a saída do período sob assistência financeira estrangeira. Convidado de uma reunião em Lisboa dos socialistas europeus, o político que veio da extrema-esquerda dizia ter o governo de António Costa como modelo. Pretendia manter as contas públicas sãs, mas não deixar de olhar para a questão social. Precisava era de tempo, para mostrar que depois do fim da austeridade o Syriza seria capaz de mostrar fidelidade aos que votaram nele para tornar a Grécia menos desigual.

O tempo não foi suficiente. Um ano sem a tutela de fora permitiu que Tsipras relançasse a economia e reduzisse o desemprego. Mas soube a pouco aos gregos. Os jovens não apreciam trabalhos mal pagos, as famílias de classe média revoltaram-se contra a pesada fatia dos sacrifícios que recaiu sobre elas, pois aos magnatas gregos sempre foi difícil obrigar a pagar os impostos que deviam.

Mitsotakis promete manter as contas equilibradas mas fazer mais pelo crescimento da economia, de modo a poder aliviar os impostos. Beneficiou do desgaste de Tsipras e também de a Nova Democracia nunca ter sido punida como o antigo Pasok pela governação irresponsável de há uma década que levou aos pedidos de resgate. Vai estar agora muito sob observação, tem de mostrar resultados. Mas é um convicto europeísta e isso é bom.

Curiosamente, o novo primeiro-ministro vir de uma das três grandes dinastias políticas gregas (pai antigo primeiro-ministro, irmã ex-ministra dos Negócios Estrangeiros, sobrinho atual presidente da Câmara de Atenas) não gerou receio no eleitorado. A personalidade cativou, assim como as garantias de combater o nepotismo. E, afinal, a Nova Democracia é um partido conservador e boa parte da sociedade grega é nacionalista e tradicionalista.

Quanto ao Syriza, os 30% de votos mostram que veio para ficar enquanto partido de poder. Tsipras fez bem quando se libertou de Yanis Varoufakis, economista-estrela que chegou a ser ministro das Finanças. Optou pelo pragmatismo, preferindo negociar com Angela Merkel do que acusar a chanceler alemã de todos os males da Grécia. Aliás, tem com Merkel em comum o empenho em ajudar a resolver a crise dos refugiados, que têm a Grécia como porta de entrada e a Alemanha como destino. E, como mostra a sua proximidade com o primeiro-ministro português, está cada vez mais inserido no campo da social-democracia europeia. Talvez hoje veja os gregos como ingratos, não quer dizer que não vá voltar a tentar conquistá-los.»

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29.9.18

Refugiados: um prémio merecido para a Grécia




Tsipras: «We are proud because at the time when other countries in Central Europe were building walls and fences, the Greeks opened their hearts».
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30.8.18

Altos cargos e pequenos homens



«O famoso discurso proferido pelo presidente Lincoln na inauguração do cemitério nacional de Gettysburg, a 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da grande batalha travada nesse local, e 18 meses antes do final da sangrenta Guerra Civil norte-americana, é a marca de água de um grande homem. São 272 palavras proferidas em menos de dois minutos, por um líder político que refundou os EUA, reinventou a instituição do presidente federal e reacendeu, temperado com o custo do seu sacrifício supremo, o farol mítico da atração universal dos EUA.

O recente discurso de Mário Centeno, na condição de presidente do Eurogrupo, durou um minuto e dez segundos, ligeiramente menos do que a alocução de Lincoln, mas o seu significado não poderia ser mais oposto. Pelas suas palavras e pelos seus atos, Lincoln elevou-se muito acima do importante cargo de presidente dos EUA, que também pode ser apoucado como ocorre agora com Donald Trump a uma escala que julgaríamos impossível.

Os grandes líderes são sempre maiores do que os cargos que ocupam, mas no caso de Mário Centeno, o economista português que criticava as limitações estruturais da zona euro e que exibia os erros e os sacrifícios inúteis das medidas de austeridade, eclipsou-se completamente. O que se viu e escutou foi um Jeroen Dijsselbloem ou um Wolfgang Schäuble a falar usando o rosto do ministro português como máscara.

Contudo, uma mensagem diferente não teria sido uma missão impossível. Centeno poderia ter atenuado o estilo simplificador do publicitário que exalta a qualidade do produto, neste caso a alegada recuperação económica e política da Grécia, subestimando a imensa dor e os danos irreversíveis causados por uma década maldita. Mas o que é verdadeiramente imperdoável, e constitui uma irreversível confissão de irrelevância por parte de Centeno, é a pequena frase em que o presidente do Eurogrupo atribui as causas das desgraças helénicas exclusivamente às suas "más políticas do passado" (bad policies of the past).

Para deixar o campo aberto para outras leituras, Centeno poderia ter referido sobre a ação da troika algo como "erros de um processo de aprendizagem", ou até mencionado "responsabilidades partilhadas".

Todavia, ao ilibar totalmente as instituições europeias (Conselho Europeu, Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Eurogrupo, Parlamento Europeu), bem como os grandes países, Alemanha e França, de qualquer ónus no mais repugnante processo de humilhação e empobrecimento de um povo na Europa desde 1945, Centeno fez recuar o relógio da União Europeia até 2008.

Como se não tivéssemos aprendido nada e tudo tivesse sido esquecido, como se o sofrimento passado tivesse sido inútil perante as imensas tarefas que a nau europeia terá de assumir se não quiser naufragar nas tormentas que se aproximam.

A tragédia grega foi a primeira demonstração inequívoca do erro matricial da zona euro, um erro contra o qual o chanceler Kohl advertiu no Bundestag, em novembro de 1991: uma união monetária não sobreviverá se não for suportada por uma união política. Quando George Papandreou, num gesto de lisura kantiana, revelou a realidade das contas públicas gregas no final de 2009, em vez de receber aplauso e solidariedade foi submetido ao fogo cerrado do longo holocausto da austeridade e do esbulho helénicos.

Centeno mostrou que pode subir ainda mais alto. Merece a confiança desta elite europeia que odeia a verdade e exulta com o preconceito.»

28.8.18

Grécia – Crianças refugiadas tentam suicidar-se




Na Grécia, esse país que alguém felicitou recentemente por ter tido uma «saída limpa» da crise e que fica sozinha com refugiados nos braços.

«As Nações Unidas e o ministério da Saúde da Grécia já foram informados. Mas o representante do governo grego em Moria, George Matthaiou, atira responsabilidades para a União Europeia. "Nós não conseguimos lidar com isto. A situação na Grécia é conhecida. Quero ajudar, mas não posso fazer nada porque a União Europeia fechou as fronteiras".»
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25.8.18

Pode um vídeo “simpático” ressuscitar o troikismo?



Francisco Louçã no Expresso Economia de 24.08.2018: 

«O vídeoo de Mário Centeno sobre a Grécia tem várias leituras possíveis, desde a sua intenção (uma promoção para a almejada carreira internacional) ao seu conteúdo e impacto.

Que lições, faz favor?

O conteúdo merece ser escrito em pedra. Houve um processo do qual “todos aprendemos as lições”, começa por dizer o presidente do Eurogrupo, acrescentando logo que “isso agora é História”. Admita-se que possa haver alguma mensagem cabalística por revelar, pois não foi esclarecido o que seriam as tais saborosas “lições”, mas, se forem as referências subsequentes às “más políticas do passado” na Grécia, estaremos em puro dijsselbloemês. No mesmo dicionário cabe o paternalismo da “responsabilidade” acrescida que agora incumbe aos gregos. Mas o mais significativo é que, segundo Centeno, “a economia foi reformada e modernizada” com as medidas de austeridade, mesmo sabendo-se que “estes benefícios ainda não são sentidos em todos os quadrantes da população”, mas “gradualmente, serão”. “Por isso, bem-vindos de volta”, um sorriso e está cumprida a função, assim tipo moralista, como agora se diz.

Sobre o fracasso da política europeia imposta à Grécia já escrevi a minha opinião aqui há poucas semanas. Notei então que Moscovici, um socialista francês, se tinha excedido no paternalismo bacoco (Ulisses volta à pátria, escrevia o homem) mas que Regling, do mecanismo europeu que vai gerir os dinheiros, mostrava a mão dura que vai garantir a agiotagem. O facto é que a economia da Grécia foi destroçada, sobrevive com um surto de turismo barato e é um barco de papel lançado ao mar à espera de um milagre que se tornará num pesadelo na primeira oscilação dos mercados. O elogio do “regresso à normalidade” por Centeno é, por isso, uma forma de endossar uma política que o Governo português repetiu até à exaustão que achava errada.


A direita, o centro e a esquerda depois da austeridade

Confesso por tudo isto que agora me interessa mais o significado das respostas a Centeno, que definem contornos velhos e interessantes da política portuguesa, mas também algumas novidades.

A direita aferrou-se ao assunto. Argumento: o ministro é contraditório, apoia na Grécia o que diz rejeitar em Portugal. Tudo certo. Mas este argumento é um berbicacho para o CDS e o PSD. Primeiro, porque o que criticam a Centeno não é o que faz, mas é não dizer o que faz, porque no seu sucesso só estaria a completar o que a direita iniciou, essa austeridade que é o caminho da virtude. Ora, é pueril atacar um governo por fazer o que o próprio crítico entende estar certo.

Na questão grega, outra vez a mesma efervescência: “duas caras”, diz Miguel Morgado, “duas caras”, protesta com originalidade João Almeida. Mas de que cara é que gostam e qual odeiam? A austeridade portuguesa foi ótima, a grega mais exagerada, dizem, mas Centeno é continuador de Vítor Gaspar e por isso é dos nossos, logo detestamo-lo. Que haja alguém nesta direita que ache que esta conversa move o eleitorado é um sinal fatal de perda de sentido da realidade. Morgado e Almeida, que estavam de turno no comentário estival, aproveitam todas as oportunidades para lembrar ao milhão de eleitores que lhes fugiram em 2015 que estão contentíssimos com aquela política que levou Portugal a agravar a recessão. Tudo previsível, portanto.

Na esquerda, alguma desilusão. O PCP fez o comunicado do costume, o problema é o “embuste” da União Europeia. E é, mas o problema é também quando não se discute o problema. O Bloco preferiu dizer que a tese implícita de Centeno, o sucesso do programa grego, seria “insultuosa para os gregos e esclarecedora para os portugueses”. Será assim tão claramente? Em todo o caso, faltou a pedagogia do debate. O discurso de Centeno mereceria mais perguntas: se este é o “regresso à normalidade”, se é assim que a “economia é reformada e modernizada”, então vale mesmo o corte nos salários e pensões? E a privatização dos portos, aeroportos, energia e banca, e a destruição dos serviços públicos? Porque essas são as questões que importam sempre que há uma crise e, isso sim, serve de “lição” para Portugal.

Finalmente, a resposta mais significativa de todas veio do PS, precisamente do seu anterior porta-voz, João Galamba, no mais duro dos comentários. Disse-se que foi voz única, mas o silêncio deve ser medido não tanto por não ter havido outras críticas escritas, mas muito mais pelo silêncio constrangido dos dirigentes do PS. Só depois de muita celeuma é que Ana Catarina Mendes lá veio tecer loas ao presidente do Eurogrupo, limitando-se a dizer que ele é muito importante e evitando o assunto melindroso, explicando que ela não gosta da austeridade (mas ele gosta se for na Grécia). O embaraço é visível, afinal não foi nada disto que disseram na campanha eleitoral.


A troika é um debate dentro do governo

Há nestes debates uma revelação e isso é importante. Há pelos vistos quem tema o peso da aliança Centeno-Santos Silva no Governo, e que sinta que, se assim for, a política vai sendo conduzida por atoardas cínicas de um ministro anónimo nos jornais, mais uma austeridade que se sente irracional (o ministro das Finanças ir ao Parlamento responder na comissão de saúde pelo atraso dos concursos de médicos especialistas para poupar uns tostões, ou adiar investimentos que serão depois mais caros, por exemplo).

A cruz do problema é que, ao elogiar a troika na Grécia, o ministro está também a dizer que, afinal, quando a economia aperta, a receita tem que ser a mesma de sempre. Note-se que a chave da austeridade na Grécia era a mesma da de Portugal: aumentar impostos e cortar rendimentos. E que o congelamento de pensões mais o corte em prestações não contributivas mais a redução da TSU patronal estavam no programa de Centeno e que teriam sido cumpridas se o PS tivesse tido maioria absoluta em 2015. Assim, se há coisa que o episódio do vídeo “simpático” demonstra é que estas velhas obsessões com a troika cortista se mantêm na “propaganda norte-coreana” da austeridade.»
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21.8.18

Grécia: um enorme falhanço




«Greece has been a colossal failure. It is a tale of incompetence, of dogma, of needless delay and of the interests of banks being put before the needs of people. And there will be long-term consequences.»

E acaba de se saber que o desemprego subiu para 22,29%, apesar da época de Verão.

Parabéns Mr Centeno Hyde. Dr. Centeno Jekyll deve estar de férias, orgulhoso das suas performances.
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28.7.18

Mati ou o fim dos paraísos da nossa infância



«Para os quatro milhões de habitantes de Atenas, a bela costa ática sempre foi uma fonte de conforto. Praias sem fim, algumas coroadas por ricas florestas e águas cristalinas. Não admira por isso que tanta gente, quando Atenas sofreu nos anos 50 e 60 um rápido processo de urbanização anárquica, tenha decidido comprar um bocado de terreno perto do mar. Era um oásis para a classe média.

Ao caminhar entre carros e casas destruídas pelo fogo na vila de Mati, à beira mar, com o cheiro perturbador a plástico e madeira queimada a encher-me as narinas, é-me difícil reconhecer os locais que visitei tantas vezes na infância. Uma tia minha tinha uma pequena casa no porto vizinho de Rafina e no início dos anos 80 passei lá uma série de fins de semana com os meus primos, indo dar um mergulho a Mati, o sítio mais bonito ali perto. Era o nosso paraíso de verão, um tempo cheio de gelados, castelos de areia e o aroma de melancias frescas servidas em caixas de plástico. Mais tarde, ia para lá quando não tinha aulas, em saídas com amigos para um dia de praia.

Trinta anos depois, ao descer as mesmas estradas, percebo que quando somos novos passa-nos muita coisa despercebida. O cenário idílico de casinhas nos pinhais implica que o Governo não teve qualquer controlo sobre o desenvolvimento urbanístico na zona. As casas mais pequenas são provavelmente clandestinas. As maiores, com mais de um piso, têm normalmente licença de construção — dada sabe Deus como. Os bares perto ou sobre o mar são completamente ilegais. As pessoas morreram queimadas por não poderem atravessar as ruas estreitas; um carro, abandonado no meio do pânico, foi suficiente para bloquear toda a circulação. As pessoas morreram queimadas pelos mesmos pinheiros de cuja sombra gozavam nos dias quentes de verão. Foram o rastilho para o fogo que destruiu as suas casas. Tudo aconteceu tão depressa que só os primeiros a fugir, ou que conseguiram chegar à praia, sobreviveram. Alguns, como o grupo de 26 pessoas encontradas mortas num campo, não conseguiram passar, por não haver um caminho sem uma casa ou um bar a bloqueá-lo.

À medida que são identificados os cadáveres dos mortos pelo fogo ou por afogamento (alguns tentaram afastar-se a nado das chamas) e as famílias podem por fim chorar os seus, as conversas na Grécia viram-se outra vez para as causas desta tragédia insuportável. A mesma conversa de 2007, quando 77 pessoas foram mortas pelo fogo no Peloponeso. Este foi o segundo desastre natural em Ática, em menos de um ano: 23 pessoas perderam a vida em novembro numa cheia na cidade de Mandra a oeste de Atenas.



26.7.18

Grécia: tragédia e tristeza




Quem acompanhou de perto o processo grego, há três anos, como foi o meu caso, não esqueceu certamente o nome de Zoe Konstantopoulou e o que se seguiu, depois do OXI no referendo e da aceitação do terceiro resgate. Tudo isto é muito triste, para além de toda a tragédia que está a atingir a Grécia!

«Eu era membro do Syriza e presidente do Parlamento no primeiro governo. Não era só próxima. Era alguém que, de coração, acreditava naquilo que estávamos a fazer. Estou na triste posição de constatar que Tsipras não só tinha escolha, como fez a escolha de trair o povo e entregar o país e que fez essa escolha muito antes das eleições de 2015. Lamento imenso que tenhamos sido todos defraudados, sinto-me frustrada por ele ter defraudado toda a população, não só os seus camaradas e o seu partido. Tenho a certeza, porque estava na presidência do Parlamento na altura, que os dois relatórios que o Comité para a Verdade sobre a Dívida Grega produziu a dizer que a dívida grega era ilegal e devia ser anulada nem sequer foram usados por Tsipras. Ele também não honrou o mandato do povo. Não estamos a falar de escolhas em abstrato. As pessoas foram chamadas a votar [no referendo de 5 de julho de 2015] e votaram "Não" a mais austeridade. Tsipras violou esse "Não", transformou-o em "Sim" e assim tem estado a governar nos últimos três anos. Se ele tinha escolha? Tinha. E fê-la. A sua escolha foi manter-se no poder e, por isso, ficará nas páginas negras da História. O povo grego não esquecerá. O Tsipras em quem confiaram, o Tsipras que representava esperança, traiu-os da forma mais cínica possível.»
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24.7.18

E quanto à Grécia




«“Portugal não é a Grécia”, repetíamos desesperados em 2010 e 2011, com medo “dos mercados”. É verdade, não éramos. Mas hoje, neste preciso dia, somos. Somos países que ardem, onde se morre nas chamas em casa e a fugir delas nos carros. Somos países a fingir estratégias nacionais e irrelevantes na Europa, que nos quer para postal. Lá chegaremos, a esse debate, sem procurar culpas nem encontrar desculpas, esperando que nessa hora se entenda que isto não são casos nem acasos. É um planeta mais quente, é uma União Europeia mais fria, são Estados fracos e enfraquecidos pelos seus próprios sistemas políticos, administrativos e orçamentais»
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