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3.4.17

Rebenta Canelas?



Desde ontem, muito se fala do Canelas pelas piores razões, mas já em 1973 Luís Sttau Monteiro escrevia sobre o Rebenta Canelas – numa «Redacção da Guidinha», evidentemente.

«Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.»

Suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa, 6 de Outubro de 1973.
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3.4.16

03.04.1926 – Luís Sttau Monteiro



Faria hoje 90. Em jeito de homenagem, uma «Redacção da Guidinha» que descobri hoje por acaso.

Senhores da política:

Oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua senão qualquer dia estão no olho da rua a ouvir o que se disse na rua.

Jornal, 22.09.1978
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3.4.15

Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo



Uma Redacção da Guidinha, de Luís Sttau Monteiro.

«Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãosita primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer o da segunda classe mais uma data de coisas para fazer o da terceira classe e nem digo quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida torturada e maltratada nos tempos antigos se no meu tempo já andassem estas reformas todas no ar eu tinha-me safado muito melhor para começar não tinha tido aulas durante metade do ano por causa da reforma e tinha passado para a segunda classe sem saber fazer contas de multiplicar vai na segunda classe com uns sarilhitos tinha passado para a terceira sem saber fazer contas nem de multiplicar nem de dividir e para entrar no liceu sem eles darem por isso arranjava-se uma dispensasita de exame por não saber ao certo como é que ia ser a reforma é claro que no liceu avançava da mesma maneira não tinha aulas por falta de professores não tinha aulas porque os professores faltavam não tinha aulas porque tinha de ir à cantina não tinha aulas porque os professores estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos alunos não tinha aulas porque os alunos estavam reunidos a tratar dos interesses superiores dos professores não tinha aulas porque os pais se reuniam a dizer que estavam a puxar de mais pelas cabeças dos filhos não tinha aulas porque havia uma grande reunião a pedir ao ministro para não haver aulas não tinha aulas porque era dia de feriado não tinha aulas porque o ministro tinha medo de mandar a gente às aulas não fosse a gente fazer-lhe barulho à porta de casa não tinha aulas porque não me apetecia ir às aulas e ninguém podia mandar-me ir com medo de que eu não fosse apesar da ordem e lá se ia a autoridade não tinha aulas porque não estava na moda haver aulas enfim o que eu quero dizer é que acabava por entrar na faculdade que é para onde eu quero ir sem ninguém perceber que eu não sabia ler nem fazer contas de multiplicar e de dividir com as coisas assim eu tenho a certeza de que chegava ao fim sem abrir um livro o que até me facilitava a vida porque se me obrigassem a abrir um livro eu estava frita por não saber ler e isso de ir às aulas era coisa que eu não fazia porque havia de arranjar maneira de lá não pôr os pés umas vezes não ia porque não havia professores outras vezes não ia porque não gostava deles outras vezes não ia porque estava à espera que fosse resolvido o problema dos transportes em Alcácer do Sal outras vezes não ia porque era dispensada de ir enquanto não viesse a reforma e outras vezes não ia porque não ia e pronto ninguém tem nada com o que faço enfim chegava ao fim do curso e davam-me um canudo todo escrito em latim e um emprego pago em dinheiro português corrente como eu gostava de ser médica porque gosto muito daqueles filmes que há na televisão com aqueles médicos bestialmente simpáticos que fazem discursos às pessoas e que as curam com palavrinhas mansas e compreensão ia para um hospital trabalhar talvez na cirurgia é claro que ao princípio matava umas pessoas para descobrir onde é que elas têm o apêndice e o fígado mas isso que importância tem neste mundo em que há gente a mais? com o tempo e com umas buscas bem organizadas acabava por saber onde é que estava o apêndice de cada um e cortava-o tão bem como se tivesse aprendido porque não há nada como o saber adquirido pela experiência eu calculo que me bastariam duzentas pessoas para ficar a operar apêndices quatrocentas para operar estômagos e umas quinhentas ou seiscentas para operar cabeças ao todo com umas mil mortesitas ficava a cirurgiar tão bem como qualquer que tivesse estudado e não tinha perdido o meu tempo em escolas faculdades e outras velharias o meu azar foi ter ido para a instrução primária antes das pessoas começarem com isto das reformas que vai haver mas não me perco por isso não senhor que não estou para ser prejudicada por coisas de que não tenho culpa nenhuma para já declaro aqui que para o ano não vou às aulas e que se me quiserem chatear vou tocar tambor em frente da casa do ministro e dar berros até ele ficar acagaçado e me dispensar com quatro valores que é o que eu costumo ter escrevendo nos pontos umas coisitas que oiço em casa e de exames nem me falem o que eu quero é uma reforma ampla e boa que não me obrigue a estudar até já ando a combinar cá com uns amigos uma reivindicação que é o ministro dar à gente o canudo logo à nascença montando um posto de entrega de canudos nas maternidades para poupar trabalho aos funcionários e para reduzir a burocracia que está cada vez pior sim porque não se entende esta exigência burocrática de a gente ter de se inscrever em escolas a que não vai para fazer exames que não faz e passar de ano quando a gente passa sem ter de fazer nada para isso neste país há a mania da burocracia.»

Luís Sttau Monteiro, in A Mosca, 22 Junho 1974.
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14.12.14

Afinal, isto não está tão diferente assim...



A pedido de várias famílias, mais uma Redacção da Guidinha, de Luís Sttau Monteiro.

A Graça vai ser um país de turismo

Isto cá na Graça vai de mal a pior por causa dos preços mas a gente esta semana teve uma ideia bestial e vai transformar tudo num país de turismo é o que eu digo a Graça vai concorrer com a Espanha com a França com Portugal e com a Itália para começar mandamos imprimir uns folhetos dizendo COME SPENS YOUR VACATIONS IN GRAÇA BECAUSE LE SOLEIL IS THERE com fotografias de mulheres de biquini de raparigas a beijocarem rapazes e de uns rapazes que não se sabe bem quem é que estão a beijocar nem interessa saber estes folhetos foram copiados dos da pirilândia (Algarve) que parece que trazem fregueses mas não ficámos aí estamos a modificar os nomes das lojas a mercearia A Pérola da Graça passa a chamar-se The Pearl of the Graça a tasca do senhor Pombo que se chama Pombo & Filhos Lda. passa a chamar-se Chez les Fils du Pigeon e a barbearia do senhor Jaime passa a chamar-se D. Juan Hair Stylist mas além disso estamos a fazer modificações na actividade comercial os letreiros das lojas por exemplo vão ser modificados onde o Cruz da taberna tem um letreiro que diz Hoje há passarinhos vamos pôr um letreiro iluminado a néon que diz Today are little birds aujourd'hui avons petites oiseaux onde a Dona Isaura escreveu Tenho fava rica vamos pôr I has rich bean e à porta do snack na lista dos comes e bebes onde está Cadelinhas ao natural e à Bulhão Pato vamos pôr Little bitches the Bulhão Duck way enfim progressos por todos os lados para se ver bem como o nosso espírito de iniciativa é bom basta dizer que vamos ter 2.7 piscinas sem gastarmos um tostão para isso vamos encher de água os buracos das ruas outra iniciativa é criarmos uma zona livre no jardim do largo em que ninguém paga impostos já lá pusemos um letreiro com a frase TAX FREE PUBLIC GARDEN FOR TOURIST e vamos ter uma free shop à saída da Graça do lado que dá para Almirante Reis nessa free shop os turistas podem comprar as nossas especialidades que já estão a ser inventadas por uma comissão eleita por uma outra comissão que por sua vez foi eleita por uma quarta comissão o projecto só ainda não começou porque um dos membros da segunda comissão tinha sido saneado por se ter descoberto que um terceiro primo dele era da União Nacional de Barrotes de Cima e vai o homem conseguiu provar que isso era mentira mas com tanto azar que a prova chegou quando as coisas tinham mudado e agora continua saneado por o tal primo não ter sido da União Nacional de Barrotes de Cima há pessoas com muito azar coitadas mas o que tem graça é que as pessoas que o sanearam da primeira vez são as mesmas que o sanearam da segunda se calhar é por essas e por outras iguais que a minha Pátria se chama Graça é que há quem ache graça a essas coisas enfim os nossos planos não ficam por aqui vamos ter um profissional de chapéu de palha na cabeça encostado à esquina da igreja vamos ter outro profissional a fumar droga à porta do restaurante e vamos pôr em cima das retretes em vez das letras wc que ninguém sabe o que querem dizer grandes cartazes com a palavra WELCOME em tinta fluorescente para não haver erros e para toda a gente fazer o que tem a fazer em lugares próprios porque disso que as pessoas fazem já nós temos a mais fora das retretes o que nos falta para isto tudo acabar em beleza é um fundo de turismo mas isto cá na Graça é como em Portugal os únicos fundos que estão à vista são os dos cofres o que é chato olá se é o que vale é que isso não nos assusta nem nos mete medo antes pelo contrário porque não havendo fundos não há quem os administre nem há economistas a viver à custa da gente e onde não há dessa gente não há decepções o meu Pai anda muito aflito porque chamaram um economista para o emprego dele que até agora não precisara de subsídios nem estava falido e ele diz que a partir de agora está tudo perdido porque a obrigação de qualquer economista que se preza é lixar tudo com os seus conhecimentos teóricos aprendidos na Rua do Quelhas e além disso diz o meu Pai que basta terem de pagar o ordenado ao tal economista para a empresa entrar em crise mas nestes períodos de crise não há outro remédio senão fazer a vontade a quem não sabe nada é por isso que os períodos são de crise enfim para a semana tenho grandes notícias para todos notícias que vão espantar muita gente olá se vão adeus adeus adeus.

O Jornal, 18 Maio 1979. 
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3.6.14

As desgraças cá da Graça



Se Sttau Monteiro ainda andasse por aí, matéria não lhe faltaria para novas «Redacções da Guidinha». Mas as antigas continuam actuais – essa é que é essa!

«Cá na Graça toda a gente pensa que a vida é uma coisa muito triste que aconteça o que acontecer as coisas caminham para pior que não há bem que sempre dure que o pior ainda está para vir e que a gente está sempre lixada já a minha avó que Deus tem coitadinha quando alguém dizia que Deus lhe tinha mandado uma desgraça dizia logo Não te queixes de Deus que se não houvesse Deus havia outra coisa qualquer para te lixar pessoas são assim pessimistas porque nunca lhes aconteceu nada de bom e nunca lhes aconteceu nada de bom porque os reaças nunca deixaram que lhes acontecesse uma coisa boa no tempo dos meus antepassados que Deus tem coitadinhos as coisas já eram assim cá na Graça apesar do povo fazer o que podia quando foi dum chamado Mestre de Aviz a malta foi para a rua aos berros e correu dum lado para o outro a fazer comícios a favor dele e vai fizeram-no rei e tudo correu bem durante uns tempos mas a verdade é que passados esses tempos que foram bem curtos as coisas começaram a correr mal outra vez porque engatavam cá a malta da Graça para ir nas caravelas coitadinhos e eles lá iam e muitas vezes não voltavam e quando chegavam ao fim das viagens não tinham ganho para pagar a prestação da casa ao J. Pimenta desse tempo que era um chamado Infante D. Henrique que era uma espécie de Tenreiro que em vez de peixe congelado tinha congelado bocados de África que lhe rendiam uns pilins bestiais enfim desgraças! nessa altura o Algarve era promovido por esse D. Henrique porque estas coisas passaram-se antes de haver Torralta mas a verdade é que mesmo nesse tempo aquilo era caro de mais para a malta da Graça lá ir passar as férias e mesmo que fosse barato não ia porque as pessoas tinham medo de serem apanhadas pelos angariadores de trabalho voluntário nas caravelas tal como agora têm medo de serem apanhadas pelos donos dos restaurantes e dos hotéis que lhes ficam com tudo e mais alguma coisa nessa altura foi apanhada muita malta da Graça mas é que mesmo muita e ninguém mais lhe pôs a vista em cima se algum dia rasparem o fundo do mar no Cabo da Boa Esperança dão com uma data de esqueletos "made in Graça" olá se dão! nesse tempo de desgraças enquanto o tal infante D. Henrique mais os sócios da Torralta da época enchiam a barriga de coisas boas vindas de África como cocos bananas e amendoins cá a malta da Graça rapava uma fome danada e comia um naquito de pão quando o apanhava a jeito mal constava que o tal infante tinha tido mais uma glória e tinha descoberto mais um sítio a malta fugia a sete pés para não ir lá parar porque era certo e sabido que quem ia malhar com os ossos às fortalezas gloriosas era a malta da Graça e quem lá morria com fome e febre era a malta da Graça e quem lá dava o corpo ao manifesto quando havia combates era a malta da Graça sim porque esse Tenreiro D. Henrique não levantava o rabo de Sagres que era o Hotel Alvor desse tempo mas as desgraças da malta da Graça não ficaram por aí não senhor quando um chamado D. António que era prior do Crato que não sei onde é nem quero saber resolveu salvar a Pátria que estava a ser atacada pelos espanhóis quem foi para o caneiro de Alcântara levar bumba no toutiço foi a malta da Graça porque os nobres e os cavaleiros e os mais accionistas das empresas do tempo cavaram por todos os lados e puseram-se do lado dos espanhóis sim quem foi falecer prematuramente a Alcântara foi a malta da Graça mais tarde veio um chamado D. Miguel Cazal Ribeiro ou qualquer coisa parecida que tinha ao seu serviço uma data de arruaceiros votados à defesa dos bons princípios e vai esses para defenderem os bons princípios davam com os cacetes nas cabeças da malta da Graça havia noites que o barulho das cacetadas era tão grande que até parecia que estalavam foguetes sim porque é certo e sabido que quando é preciso salvar o País quem leva com a cachaporra é a malta da Graça isto é tão certo como dois e dois serem quatro esse D. Miguel salvava a Pátria todos os dias e nessa altura como não havia bancos nos hospitais a malta da Graça tinha de curar as salvações da Pátria com que ficava no corpo com papas de linhaça e pupú de galinha enfim desgraças e mais desgraças vai a certa altura a malta da Graça que ainda tinha uns optimismos escondidos lembrou-se de fazer uma coisa chamada a República para ver se virava a moeda e durante uns tempos até a mudou mas depois veio outro salvador da Pátria chamado Salazar que não gramava a malta da Graça por nada deste mundo e que resolveu salvá-la outra vez ena pai ena pai ena pai que rica salvação! a primeira coisa que esse Salazar fez foi pôr adesivo na boca da malta toda para ela não falar a segunda coisa foi chamar os netos do tal D. Miguel e metê-los numa coisa que houve chamada pide que era um grupo de caceteiros que usava pistolas e metralhadoras em vez de cacetes e que metia a malta da Graça numa estância de Verão que esse Salazar tinha em Caxias enfim mais desgraças de maneira que não espanta que a malta da Graça agora ande com medo de ser salva outra vez sim porque se há coisas que a malta da Graça não aguenta é outra salvação como as antigas agora ou a salvação é diferente ou a malta da Graça acaba de vez porque não há ninguém que aguente tanta salvação o que eu quero dizer com isso é que a malta da Graça está de olho vivo a ver o que acontece porque está farta de curar as feridas das salvações e desta vez gostava que as coisas corressem de outra maneira por enquanto anda cheia de esperanças mas começa a dizer que há discursos a mais e feitos a menos no tempo do salvador Salazar que o Diabo tem levavam a malta ao futebol para distrair e para ela não pensar no que está a acontecer agora não a levam ao futebol não senhor mas há muitos futebóis diferentes e em matéria de distracções há futebóis em que não há bolas e que nem sequer são nos campos de futebol como há maneiras de pôr a malta a berrar sem ser a dar vivas ao Eusébio a malta da Graça já berrou tanta coisa no decorrer da sua vida que para ela as palavras são como as caganitas de cabra nos montes nem as come nem as apanha nem as leva a sério é por isso que está a ver menos televisão a ouvir menos rádio e a voltar aos cafés palavras leva-as o vento e agora o vento deve andar cheio delas porque a malta da Graça já está a meter algodão nos ouvidos de tanta palavra que para aí anda no ar.»

Luís Sttau Monteiro
A Mosca, 19 Outubro 1974
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20.5.14

Benfica



Para esquecer a campanha eleitoral durante uns minutos, mais uma «Redacção da Guidinha», de Luís Sttau Monteiro. E não podia vir mais a propósito, quando Benfica é o centro de Portugal e não só.

«Lá para o fim do mundo onde a terra não acaba porque ainda há a Venda Nova e a Reboleira e a Amadora e onde o mar não começa porque fica longe como burro fica a aldeia de Benfica que alguns chamam de Malfica porque fica tão longe que os transportes não chegam lá senão depois de uma data de horas de viagem em que morre gente em que se dá à luz e em que se fazem e desfazem casamentos e em que se apanha tanta pisadela e tanto beliscão que se chega lá a Benfica com os pés e o cu numa lástima a minha prima Amélia que vive lá depois de um ano de viagens teve de mandar vir um cu de plástico da América porque o dela tinha-se gasto quem quiser ir de Lisboa a Benfica de carro pode ir pelo mapa pela bússola ou à sorte o pior é que se for à sorte não chega lá mas também não perde nada com isso porque a única coisa que lá há é o Jardim Zoológico e como Lisboa agora é toda ela um jardim zoológico quem é que quer ir ver o de Benfica? Outra maneira de uma pessoa que vai para Benfica de carro se entreter é ir contando os polícias de trânsito que estão por lá aos magotes ao fim da tarde o que explica o facto de haver tanto roubo em Lisboa porque se está mesmo a ver que os polícias foram todos parar à Polícia de Trânsito para caçar mais qualquer coisita aos automobilistas o meu pai diz que entre o Governo aumentar os preços das gasolinas a Polícia de Trânsito a caçar multas e os buracos das ruas a darem cabo das suspensões o diabo que escolha é tudo uma cambada de ladrões enfim estas coisas não se podem dizer senão começam logo a acusar a gente de estar a criar entraves ao Governo quando se está mesmo a ver que o Governo é que passa a vida a criar entraves à gente a gente anda tão entravada tão entravada tão entravada que não sabe o que há de fazer à vida é por isso que há tanta gente em Benfica é uma forma de emigração como qualquer outra só que para a nossa desgraça os emigrantes que vivem em Benfica não têm o carinho das autoridades o senhor Presidente da República não fala deles quando bota o discurso sobre as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e no Dia de Camões não se lembraram deles e nem mandaram lá um senhor das Forças Armadas botar falação patriótica isto é uma injustiça por um lado mas é uma sorte por outro sim porque sempre se safaram de ouvir mais uma falação diz-se que o senhor Presidente da República agora que veio do Brasil vai em visita oficial a Benfica se isso é verdade ele que venha de helicóptero porque se vier de transporte público só cá chega lá pelo século XXII de qualquer forma há qualquer coisa que não se entende porque nossos bravos militares já não andam de helicóptero como andavam durante o prec que andavam sempre de helicóptero com um ar muito apressado e muito cómico como se andassem a salvar a Pátria e isso enriquecia muito o folclore nacional e punha a gente a rir não havia nada mais engraçado do que vê-los sair dos helicópteros de blusões negros com um ar bestialmente bélico eu tenho pena que isso tenha se acabado porque isto é um país triste e nessa altura era divertido só era pena não andar ainda por cá o senhor Eça de Queiroz que se esse tivesse tido tempo de os descrever antes de morrer a rir a gente tinha ficado com uma literatura mais rica e esses dos helicópteros sempre tinham enriquecido a literatura do País porque com as falações que fazem não chegam lá nem lá nem a parte nenhuma isto quem não tem helicóptero não tem nada e quem tem helicóptero tem tudo mais vale ter um helicóptero na mão do que dois a voar filho de helicóptero sabe nadar helicóptero escondido com o rabo de fora helicóptero a helicóptero a galinha enche o papo quem não quer ser helicóptero não lhe veste a pele basta de helicópteros que de helicópteros andamos todos fartos olá se andamos só não anda farto de helicópteros quem tem saudades de andar de helicópteros e nós que os pagávamos mas não andávamos neles não temos saudades nenhuma eu quando vejo um helicóptero fico a tremer com medo que eles voltem só tenho pena de não haver helicópteros para Benfica por causa da tal qualidade da vida sim porque como é que se pode falar da qualidade da vida de uma pessoa que se levanta às seis e meia da manhã para chegar às nove ao emprego de que sai às seis para ir a correr para a bicha do autocarro ver se consegue chegar a casa às oito para comer uma bucha fria porque está toda a gente tão cansada que ninguém tem coragem para ir aquecer o carapau familiar sim quem é que pode falar da qualidade da vida às pessoas assim ou pedir-lhes que vão a museus e a concertos e a exposições coitados eles não chegam a casa em estado de ir a parte nenhuma o que eles querem é mandar toda a gente àquela parte enfim vou continuar a falar de Benfica e vou indicar as instituições de Benfica para os turistas que lá quiserem ir a principal instituição cultural de Benfica é a pastelaria Califa onde se juntam os intelectuais da região para beberem bicas e para comerem pastéis de Belém têm todos pêra pelo menos os que têm barba e há alguns que têm bigodes e barba toda a gente sabe que a barba dá um ar bestialmente intelectual é por isso que é bestialmente fácil saber quem é que é intelectual e quem não é a regra é simples os verdadeiros intelectuais não têm barba o único que tem é o Júlio Caldeireiro mas esse é especial porque não é um intelectual full-time digamos que faz o seu biscate de intelectual mas que o resto do tempo está na Brasileira e basta isso para não ter direito ao cartão do sindicato ora na Califa todos têm barba o que dá logo a entender à gente que aquilo é a Brasileira de Benfica o que é o mesmo que dizer que nenhum intelectual lá põe o chispe há vinte anos outra instituição de Benfica é o Nilo que é um café que há lá não me lembro de mais nada e estou farta de escrever adeus.»

O Jornal, 16/6/1978
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6.5.14

Sttau Monteiro: a primeira «Redacção da Guidinha» em liberdade



Quem já era crescido entre 1969 e 1980 não terá esquecido as Redacções da Guidinha que Luís Sttau Monteiro publicou, primeiro no suplemento do Diário de Lisboa, «A Mosca», e mais tarde em O Jornal.

À procura de outra coisa, esbarrei hoje por acaso neste texto que julgo corresponder à primeira «redacção» publicada depois do 25 de Abril, mais concretamente no Diário de Lisboa de 11 de Maio de 1974.

Pode ser lida AQUI. Vale a pena. 
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22.1.13

A Graça está uma desgraça



Descoberto no fundo de um baú, este excerto de uma redacção da Guidinha, de Luís Sttau Monteiro. Escrita há 40 anos?

«(...) Isto aqui na Graça em matéria de fé está uma desgraça é que está mesmo uma desgraça porque ninguém acredita em nada mais dia menos dia o meu Bairro passa a chamar-se Desgraça não sei o que aconteceu às pessoas mas a verdade é que a gente dá-lhes uma notícia boa e elas sorriem com o ar triste de quem não acredita no que está a ouvir o que é engraçado é que se a gente lhes der uma notícia má acreditam logo veio cá um senhor dizer que isto ia de bem para melhor e que para o ano ainda ia estar melhor e toda a gente ouviu e mudou de conversa é que não sei o que aconteceu à gente cá da Graça mas a verdade é que isto é assim mesmo já ninguém acredita em nada e toda a gente anda triste triste triste triste tão triste que a minha Graça está cada vez mais parecida com o cemitério dos Prazeres em dia de Finados eu até vou mais longe: a minha Graça está a transformar-se num Cabo da Roca gigantesco cheio de gente que não acredita em nada nem mesmo nas virtudes da meditação o perigo é se o cabo não aguenta com o peso e damos todos com os focinhos na água mas enfim como somos todos filhos de navegadores ainda nos podíamos safar mas é que já nem acreditamos em que sabemos nadar sim já não acreditam isto vai cada vez pior e de qualquer forma esta minha ordem é estúpida sim porque a gente aqui na Graça tem lá dinheiro para ir meditar para o Cabo da Roca não era para lá que ia não senhor a não ser talvez em vacances quando viesse do sítio para onde ia se tivesse dinheiro para ir a qualquer sítio e isso o que é triste é que nem sequer já temos dinheiro para irmos ao Cabo da Roca ou até outro cabo qualquer meditar no dinheiro que não temos.»

Em A Mosca, 27 de Outubro de 1973 
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22.7.12

J. H. Saraiva numa «redacção da Guidinha», de Sttau Monteiro



Crítica «fininha» (a que era possível em tempos de censura) ao programa que a RTP exibia há cerca de um ano (*). 

 «E vai a gente julgou que tinha aparecido um filmito novo de propaganda porque vimos escrito no quadradinho O TEMPO E A ALMA e julgámos que era propaganda de relógios ou de detergentes porque o tempo lava mais branco principalmente em matéria de almas mas não senhor era propaganda do Camões mas não era para vender nada era só para a gente ficar a saber que ele não tinha um olho mas que isso não lhe fez falta nenhuma porque tinha outras coisas bestiais o meu pai que nestas coisas é bestialmente culto chamou-me e disse anda cá Guidinha vem aprender estas coisas para não ficares burra (...) tudo isto enfim tudo correu bestialmente bem até o doutor Saraiva começar a falar no Infante D. Henrique porque a partir daí foi um sarilho bestial primeiro porque ele disse que o que eu aprendi na escola quando ele era ministro não é verdade e eu aproveitei para dizer ao meu Pai uma coisa que eu até acho bestialmente certa sim o que eu disse foi o pai vê que não vale a pena estudar na escola? aprendi aquilo tudo e afinal é mito e agora querem por força que aprenda equações mas eu não vou nisso porque aposto que daqui a dois anos o senhor ministro da Educação vem dizer que as equações eram mitos e não vale a pena a gente cansar a cabeça com mitos.» 

(*) Luís Sttau Monteiro, O meu pai foi preso, «A Mosca», suplemento do Diário de Lisboa, 4 de Novembro de 1972. 

(Agradecimento ao Rui Almeida por me ter recordado esta «redacção».) 
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5.4.11

Eleições no Rebenta Canelas


Regresso aos clássicos. Neste caso, a Luís Sttau Monteiro e a uma das suas célebres «Redacções da Guidinha, publicadas entre 1969 e 1980, primeiro no suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa, depois em O Jornal.

Temos falta de verdadeiros humoristas no Portugal de hoje…

«Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.»

Suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa, 6 de Outubro de 1973
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11.11.07

Disto e daquilo principalmente daquilo


Há alguns meses, publiquei aqui uma das «Redacções da Guidinha», de Luís Sttau Monteiro.

Há tantos leitores que chegam a este blogue à sua procura (sobretudo, vá lá saber-se porquê, nas últimas semanas), que resolvi divulgar mais uma. Poderá ser uma boa leitura para um Domingo de Novembro...


Disto e daquilo principalmente daquilo

Não não não ele há coisas que não se fazem a uma menina ingénua como eu que ainda nem sequer estudou biologia e organização política e que ainda está na idade de comer gelados e de chupar bombons e de fazer chichi atrás de uma árvore sem os guardas se chatearem sim porque não é só cá na Graça que há velhinhos não senhor também os há noutros sítios e o pior é que um dia fico assim o que peço quando isso acontecer é que não me deixem fazer nada nem abrir o bico porque uma coisa é a gente ser velho porque tem de ser e outra coisa é a gente ser velho e dar vontade de rir como dava o meu Avô que Deus tem se o tiver sim porque não há certeza nenhuma dele estar na tal mão de Deus não senhor porque se havia uma pessoa difícil de apanhar era ele quando se raspava de casa para fazer discursos nas esquinas sobre isto e sobre aquilo principalmente sobre o Benfica que era o clube de que ele gostava muito mas como a gente sabia como ele era dávamos pela falta dele seguíamo-lo porque aqui na Graça o povo ri que é uma coisa doida se calhar não é aqui na Graça se calhar o povo ri em toda a parte porque o povo é muito dado ao riso mas isso é capaz de ser política e eu em política não me meto não senhor para não estragar a vida ao meu Pai lá na repartição de maneira que o melhor é mudar de assunto mas ainda dentro deste assunto quero dizer isso da sardinha deve ser mentira porque a sardinha está cara como burro e o povo já teve de a deixar agora só se ri com o carapau do besugo do peixe-espada e dos jaquinzinhos que estão cada vez mais caros e o preço deles dá cada vez menos vontade de rir ai meu Deus que lá vou eu outra vez a falar de preços assim lá tramo o meu pai na repartição nestas coisas não há como estar calado mas como é que uma pessoa pode estar calada enfim muda de assunto Guidinha que ainda te arrependes ora vamos lá então a mudar de assunto e a falar duma coisa que ninguém mesmo que tenha má vontade possa dizer que é política este ano o Verão está muito bom há muita gente na praia já vi um cão de coleira fazer chichi na areia nas piscinas também há muita gente e nas ruas também e nos parques também cá a Graça está cheia de gente só cá não estão os que foram embora lá porquê não sei só se for por maldade sim porque há muita gente com a maldade entranhada que não sai nem com sabão-macaco outra coisa que se vê muito cá na Graça é o povo a rir de felicidade ri-se que é uma coisa doida principalmente na véspera da partida a Graça é muito estranha não há quem a entenda senão quem a entenda mas o melhor é eu mudar outra vez de assunto porque as pessoas são muito sensíveis e podem pensar que eu estou a falar de coisas de que não estou a falar como por exemplo de elefantes já que falei de elefantes explico que são uns bichos que têm um nariz enorme mas é que mesmo enorme mas no meio daquela cabeçona em que têm o nariz tem muito pouco miolo.

A Mosca, 11 Agosto 1973




1.6.07

As «Redacções da Guidinha»


@ André Carrilho, 2004


Entre 1969 e 1980, Luís Sttau Monteiro (1926-1993) publicou as suas célebres «Redacções da Guidinha», primeiro no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa, depois em O Jornal.

Com um estilo e um tipo de humor absolutamente originais, os seus textos eram tentativas permanentes de fintas à Censura, como é bem patente na «Redacção» abaixo transcrita, que foi publicada em A Mosca de 6 de Outubro de 1973. Recorde-se que, no fim desse mês, iriam realizar-se eleições para a Assembleia Nacional, com as habituais dificuldades para as diferentes oposições fazerem as suas campanhas.


Eleições no Rebenta Canelas

Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.