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10.1.20

As armas falarão mais alto e ditarão a lei?



«Tornou-se um lugar-comum afirmar que o mundo está a ficar um local perigoso para se viver.

É indesmentível - a ordem que saiu da segunda guerra mundial está a esvair-se e a ser substituída por uma nova ordem ditada pelo desequilíbrio da força militar. Haverá força para contrariar esta tendência? Que reequilíbrios se poderão vir a estabelecer? Os líderes que pugnam por uma nova ordem mundial são exatamente os mesmos que, no plano interno dos seus países, prosseguem políticas de apoio ao armamento dos cidadãos.

A configuração deste universo interno passa, no plano internacional, pela ação militar e o fim do apego à filosofia do atual direito internacional que proíbe a guerra.

Baseado numa superioridade militar/tecnológica, Trump vai-se apresentando como sherif do mundo e ostenta os diversos troféus que vai eliminando.

O assassinato do general iraniano constitui uma ação de guerra contra outro país, com a agravante de ter sido cometido noutro país… Há quem entenda que aquela ação serviria para desviar a atenção dos cidadãos dos EUA do impeachement.

Portugal ficou em silêncio face ao assassinato do general iraniano, mas foi rápido a condenar o ataque militar iraniano aos EUA, igualmente no Iraque e também ele um ato de guerra no território de outro país. Pesos e medidas que não abonam a credibilidade internacional. São precisos Estados coerentes na defesa da paz no meio deste mundo caótico.

Apesar de toda a retórica Trump parece ter abandonado a cadeia das respostas e contra respostas, dado a perigosidade da prossecução desse caminho. Na madrugada de quarta-feira o MNE iraniano já tinha deixado claro que aquela era a resposta, deixando antever o fim da “vingança”, esperando-se que tudo volte a uma certa normalidade em que as conversações substituam o ribombar das armas.

Os tempos, em certa medida, assemelham-se ao período que antecedeu a segunda guerra mundial em que todos se calavam para não enfurecer Hitler…

No Médio Oriente sauditas, iranianos, turcos, russos, e sobretudo os norte-americanos armam os grupos que fazem o seu jogo. Não são aceitáveis teorias que há terroristas melhores que outros. O terrorismo deve ser banido, seja ele qual for, incluindo o de Israel e da Arábia Saudita. Não eram iranianos os que atacaram Nova Iorque, muitos pertenciam à Arábia Saudita, país da origem de Ossama Bin Laden.

Qassem Soleimani não era nenhum anjinho, era o homem da política iraniana para a região da qual os EUA distam a mais de sete mil quilómetros, e apesar disso cercam toda a área por todos os lados acompanhados por tropas da NATO, incluindo portuguesas.

Trump chegou a pontos de ameaçar a destruição de centros culturais e civilizacionais que são pertença da Humanidade. Trump já se apropriou da linguagem do Daesh e das suas mensagens de destruição dos símbolos civilizacionais, arrependendo-se mais tarde, dado a lei internacional o proibir, algo que não lhe deve ter passado pela cabeça, mesmo sendo o Presidente dos EUA.

Nas relações entre Estados a arrogância e a fanfarronice é má conselheira. Vale sempre a pena ter presente que o Iraque tem hoje esta influência iraniana graças a George W. Bush.

Ser o país mais poderoso nos tempos atuais não chega para ser respeitado e admirado. Nem chega para impor ao mundo a sua política.

Por instantes o Presidente dos EUA, embora arengando ameaças, parece ter abandonado para já a sua terminologia catastrófica e belicista acerca do que o Exército dos EUA é capaz de destruir.

Resta apesar de tudo o que não pode nunca morrer - a esperança da paz. Só a melhor consciência dos povos e de cada cidadão aliada a todos os Estados vinculados aos princípios da paz mundial poderá impedir o rumo para a barbárie. Que cada um pergunte a si e a todos se é inevitável o precipício.»

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4.1.20

Trump - é isto


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Este homem não vai sair de lá sem duas guerras: uma civil e outra (espera-se) regional



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Enquanto a gente por cá se entretém a fazer interpretações mais ou menos escolásticas de frases simplistas, dúplices, sibilinas, em dupla língua orwelliana, sem sentido ou com sentido, cínicas, lugares-comuns, disparatadas, ambíguas, explícitas, mas de um modo geral muito pouco importantes, proferidas pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro, o mundo está perigoso como nunca esteve desde a crise dos mísseis. Esta nossa capacidade para a irrelevância é ela própria assustadora e, embora isso pouco sirva de justificação, é também do conjunto da Europa “civilizada” da Europa do “meio” até ao Atlântico, passando ao lado do “Brexit”.

Este é um dos casos em que os actuais riscos mundiais têm uma interpretação pouco marxista, porque se devem à acção de um indivíduo: Donald Trump e a sua trupe e ao partido de serviçais em que se tornou o Partido Republicano. Claro que tudo em que ele mexe tem razões, racionalidades, explicações estruturais e conjunturais e pode ser interpretado, ou seja, tem um sentido implícito. Mas ele mesmo é irracional, criativo e carismático, no sentido genuíno da palavra cujo uso está muito abastardado, e, por isso, não explicável na sua irredutível singularidade.

Claro que homens racionais, frios, cerebrais, determinados podem ser também muito perigosos, como também o são homens de fé cega, que não conhecem limitações à sua crença, e às suas epifanias, e quase sempre à relação privilegiada que acham que têm com o Divino ou o Destino. Mas podem ser percebidos, interpretados e limitados pelo mundo exterior que os compreende. Trump não; é um caso em que um conjunto de idiossincrasias pessoais, a começar pelo seu narcisismo patológico e pela crença em virtudes próprias quase mágicas, assim como uma ignorância abissal, um simplismo grosseiro e uma agressividade sem limites, todos os defeitos de carácter, um comportamento errático e caótico, se associam a esta pequena coisa — ele é o homem mais poderoso do mundo.

A resposta a Trump é débil para o grau da sua perigosidade. É débil nos democratas nos EUA, é débil nos fracos que o compreendem, mas são cobardes para o defrontar, e é débil nos que o acham que o podem conter mantendo-o à distância. Mas, acima de tudo, é débil em todos os que ainda não perceberam duas coisas básicas: Trump não sai de lá com eleições e, numa esquina qualquer dos dias, na sua política errática, deita mais gasolina para a fogueira para se vingar, ou mostrar poder, ou gabar-se, e a fogueira pode não ser contida a tempo. Na verdade, Trump nem sequer esconde a sua vontade de ser Presidente vitalício, com uma série de tweets em que os anos passam e ele permanece vestido de Capitão América. E também já disse mais do que uma vez que os seus apoiantes não permitiriam o seu afastamento, mesmo em eleições, que teriam de ser necessariamente fraudulentas, e isso provocaria uma guerra civil. E já disse mais: que com ele estão a polícia, as forças armadas e os cidadãos com armas. O que é que é preciso dizer mais?

Mas antes da “guerra civil”, Trump — que não tem uma política externa coerente, com excepção de ser um fantoche de Netanyahu e da extrema-direita israelita, e de M.B.S., o príncipe herdeiro saudita, e, num plano mais global, de Putin — envolve os EUA numa série de actos arriscados que servem os seus sinistros aliados, sem a prudência que eles, apesar de tudo, revelam. O assassinato de importantes generais iranianos, no solo de um país estrangeiro que é seu aliado, e com a violação de todas as regras internacionais, não vem na sequência do assalto à embaixada em Bagdad — vem na sequência da morte de um “contratado” americano, esta figura eufemística do mercenário, seguida de ataques da aviação às milícias pró-iranianas no Iraque e, por fim, à invasão da embaixada, que foi devolvida pelos ocupantes sem vítimas.

Vejamos as verdades, o mundo não-Trump. Que o Irão é um país que patrocina milícias em todo o Médio Oriente desde o Líbano ao Iémen é verdade. Que a sua capacidade de construir armas nucleares existe e é inaceitável por Israel também é verdade. Mas que o conflito com a Arábia Saudita, um dos países patrocinadores do terrorismo mundial, põe frente a frente dois adversários parecidos um com o outro, e com um fundamento religioso muito antigo pela hegemonia no islão, é verdade. Que os sauditas fazem o mesmo que o Irão, patrocinando milícias e combatentes clandestinos em todo Médio Oriente, mais uma vez é verdade. Que o Irão é uma teocracia, sem liberdades e democracia, é verdade. Mas na comparação consegue, imaginem, ganhar à Arábia Saudita, onde ainda há menos liberdades e muito menos diversidade do que no Irão. Por fim, quanto à questão nuclear, o acordo com o Irão obtido pela comunidade internacional com enormes dificuldades estava a ser cumprido, e os EUA acabaram com ele, numa das suas reviravoltas políticas que só tem uma explicação: dar cabo de tudo o que Obama tinha conseguido.

Face a este homem perigoso, deviam olhar para Churchill na Segunda Guerra e não para Chamberlain, porque é a falta de uma reacção forte e decidida das democracias que permite a Trump fazer o que quer. Um dia acordam com o fogo à porta e vão ler sobre o “estado do mundo” num tweet matinal com erros de ortografia.»
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24.9.19

1.9.19

O russo é um génio



«Andava eu ausente em partes incertas e destituídas de notícias quando me chegou aos ouvidos o rumor da notícia da compra da Gronelândia pelo Donald. Ou pela América do Donald, que inclui o conjunto de deploráveis da senhora Clinton, coisa mais ofensiva de dizer do que elogiar os supremacistas broncos, perdão, brancos, fine people, very fine people. Pois o Donald, sem mais nem porquê, achou que era um bom negócio. Já a compra da ilha de Manhattan aos índios se tinha revelado um bom negócio, pelo menos para ele, os índios saberiam lá construir arranha-céus e torres com os nomes em cima. Torre Águia Branca Voadora ou Torre Grande Touro Sentado, um disparate. Trump Tower é imbatível. E, já agora, experimentem a linha de bonés e acessórios de golfe das montras da dita, um mimo de merchandising.

Voltando à Gronelândia, aquilo é tudo gelo e mais gelo e uns esquimós gordinhos de que mal se vê a cara com as peles. E os cães dos trenós. O que aqui interessa ao Donald e à grande América dele são os recursos naturais por baixo do gelo e a exploração de novas rotas, as autoestradas do Ártico, uma bem-aventurança das alterações climáticas. Pois o Donald já tinha uns esquemas combinados com os filhos para pôr a terrinha a render. Uns prédios de família, com vistas glaciais sobre os ursos polares mortos e embalsamados, mostra museológica do passado, terraços com piscina aquecida, ginásio e hotéis para o sol da meia-noite. E uns casinos, uma meia dúzia. Já os índios americanos tinham ido nesta conversa e viviam agora nas reservas com os rendimentos dos casinos, que davam e chegavam para as suas bebedeiras e para a Kentucky Fried Chicken e o Big Mac. Eram todos uns psicopatas deprimidos. O que fazer com os esquimós? E os cães?

Gente com este aspeto esquisito e os olhos em bico, baixinhos, sem saberem falar um inglês decente, não pode ser usada como criadagem. Dá mau tom. E os CEO das multinacionais amigas, que iriam explorar os recursos naturais, incluindo a terra rara para lixar a China, não iriam apreciar criados anões e meninas de vida fácil com um metro de altura. Fora os olhos em bico. Os esquimós cheiram a óleo de foca e só servem para isso, caçar focas. Haveria que arranjar-lhes uma reserva e exterminá-los lentamente, de tédio e melancolia e decrepitude. Com os índios deu resultado. Iam desaparecendo. Quem dera que os mexicanos e os latinos todos pudessem ser metidos na mesma cena. Mas eram muitos, demasiados. Uns filhos da mãe que se multiplicavam como coelhos. Quanto aos cães, punham-se a render no turismo, voltinhas de trenó com os lorpas para cima e para baixo. Até caírem, iam rendendo. Como os cavalos.

A proposta foi bem apresentada à Dinamarca, com todo o protocolo Trump que se resume a uma twittada de madrugada, quando a digestão do hambúrguer e da Coca-Cola pesa, e quando o Donald está farto das loiras da Fox News, raparigas que já foram um dez mas agora não passam de um sete. Desde que correram com o Roger Ailes aquilo deteriorou-se espetacularmente. Quem quer apalpar aqueles estafermos? E andam a contratar jornalistas a sério, caramba, o filho do Murdoch estava doido. Num tweet de génio, como todos são, o Donald concluiu que o negócio se faria. A Dinamarca estava farta de gastar dinheiro em subsídios com os esquimós que não rendem um chavo com as focas deles. Seria justo e normal que os dinamarqueses dessem um salto de contentes por o Tio Sam os livrar do embrulho.

Pois os dinamarqueses, muito armados em marqueses, reagiram mal. Que era um absurdo, disse aquela primeira-ministra, nota quatro, loura desmaiada, não se admiraria o Donald se fosse lésbica, os nórdicos têm a mania das lésbicas no Governo, que era uma humilhação, e que ele, o Donald, era um desbocado. O Donald? O Presidente dos Estados Unidos da América? Não se diz ao Presidente da America Great que ele é absurdo. Bate-se a bola baixinho, aquilo é a América, não é a Europa. E o Donald cancelou a viagem de Estado ao país com a melhor qualidade de vida do mundo, apesar dos sanguessugas dos esquimós. E até estes oleosos entraram na conversa para dizer que não estavam à venda. Não senhor. Olhem, vão vender o vosso óleo de foca à China, que eles compram, compram tudo.

E já agora que falamos na China, o que andam os chineses a fazer senão a comprar meio mundo? Só que vão lá com falinhas mansas, fecham o negócio e chamam àquilo investimento estrangeiro. Um porto aqui, uma praia ali, mais os recursos naturais e as redes energéticas. Compram, tal e qual o Donald quer fazer, mas untam umas mãos e deixam os governos vendedores ficar bem na fotografia, as tretas da soberania nacional de que os falidos dos europeus tanto gostam.

A verdade é esta. Os ricos compram os pobres, sempre assim foi e sempre assim há de ser. Mas dantes, quando os países tinham colónias, uma pessoa podia comprar tudo e ninguém vinha com manias de independência, o índio vendia Manhattan ou o Alasca e empochava o dinheiro para gastar em álcool e drogas. Agora eram só paninhos quentes. E já que falamos do Alasca, o Donald também tem umas ideias, aquilo nunca foi suficientemente explorado e rentabilizado, e com o degelo havia que começar a extrair o petróleo e abrir as rotas aos navios. Esta cena do clima é uma bênção para a terra, embora o Donald ache que são tudo patranhas. Há dinheiro a fazer com o aquecimento. Muito. Dinheiro para o manter no poder por muitos e bons anos.

Daqui a uns meses ia repetir a proposta aos dinamarqueses. O Donald nunca se ofende, é um negociante. Deixá-los amolecer. No estado em que a Europa está, com aquele socialismo todo, seriam os europeus a pedir batatinhas. Oh, Donald, compra-me lá os esquimós que eu vendo barato. Com sorte, ainda metia no pacote uns casacos de peles para a Melania e a Ivanka, uma coisinha para usarem nas viagens de Estado à Rússia. O Putin é que sabia. Quando ele lhe disse pela primeira vez, já reparaste que a Gronelândia era um bom negócio para vocês, ele nem tinha reparado. Um bom negócio como? O russo explicou. E, no fim, disse, lixas os europeus. A Crimeia ficou-me caríssima em material de guerra. Devia ter comprado em vez de invadir. Com aquele sorrisinho dele, o russo era um génio.»

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9.8.19

Estes seres nem merecem a designação de «humanos»!




«Jordan Anchondo morreu no Walmart de El Paso, no Texas, quando se lançou sobre o seu bebé para o proteger das balas. A americana e o marido, André, foram duas das vítimas do tiroteio que matou 22 pessoas naquela cidade no passado sábado e cujo autor deixou um manifesto no qual garantia querer matar "o maior número possível de mexicanos". O bebé, de dois meses, sofreu ferimentos ligeiros, causados pelo peso da mãe. Mas está bem de saúde. (…)

O bebé, que já teve alta depois de sofrer pequenas fraturas em alguns ossos, foi levado ao hospital, onde posou ao colo de Melania. Mas em vez dos rostos sérios que a história trágica do menino exigia, tanto o presidente como a mulher surgem sorridentes na imagem. O presidente até faz um gesto com o polegar para cima.»
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23.7.19

Trump e a estratégia do racismo



«A questão racial nos Estados Unidos tem estado omnipresente no debate político norte-americano, desde a fundação do país até à atualidade.

Na génese dos EUA, a casta dominante dos WASPs (acrónimo que em inglês significa Branco, Anglo-Saxão e Protestante), descendente dos primeiros colonizadores europeus do território, tratou de assegurar os privilégios políticos, económicos e sociais face aos demais grupos étnicos. Numa primeira fase os imigrantes europeus não protestantes (e.g. irlandeses, italianos, polacos), foram-se emancipando e, posteriormente, outros tantos grupos étnicos conquistaram o seu espaço nos EUA. Atualmente encontram-se afro-americanos, latinos, judeus, ou asiáticos em todo o tipo de profissões e cargos públicos.

Contudo, importa não esquecer que os EUA são de facto um país jovem. Ainda estão presentes os ressentimentos decorrentes dos grandes conflitos que marcaram a década de 60 do século XX, com o movimento dos direitos civis, ou mesmo a própria Guerra Civil Americana, que ocorreu cem anos antes, onde a questão racial foi um dos temas centrais.

Recentemente o Presidente Donald Trump reanimou o tema de forma calculista, com o polémico tweet dirigido às congressistas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley. Mas não foi o primeiro presidente norte-americano a fazê-lo. A história política dos EUA é fértil em exemplos semelhantes não só do lado republicano, mas também do lado democrata com conhecidos líderes como George Wallace, Governador do Alabama, que até ao final dos anos 70 do século anterior defendeu o segregacionismo de forma populista para agradar ao eleitorado do seu estado.

Apesar das alterações políticas e legislativas que decorreram, a questão racial está longe de estar arrumada no sótão da curta história dos EUA e Donald Trump aproveitou-se disso. Ao contrário do que alguns dos seus críticos pensam, Trump não é um político amador e desajeitado que comunica irrefletidamente. O presidente norte-americano é exímio na forma como decide qual deve ser a agenda política e mediática. Ele coloca os americanos e o mundo a discutir aquilo que ele entende que deve ser discutido no momento.

Trump já está em campanha eleitoral. As suas declarações são pensadas com um único objetivo – ganhar as eleições presidenciais do próximo ano. O “convite” de Trump para as congressistas democratas saírem dos EUA teve várias intenções: posicionar o Partido Democrata o mais à esquerda possível, obrigando-o a fazer a defesa das quatro congressistas conectadas com a ala de esquerda mais radical do partido; seduzir o eleitorado supremacista branco tradicional e a geração mais moderna da alt-right; e retirar da agenda temas que prejudicam a sua eleição (nomeadamente a prisão do seu amigo de longa data Jeffrey Epstein e a investigação sobre o seu alegado envolvimento na intervenção russa durante as eleições de 2016).

Após o polémico tweet, uma sondagem realizada pelo USA Today/Ipsos relevou dois dados importantes: a popularidade de Trump junto do eleitorado republicano aumentou 5% e desceu 2% junto dos democratas; e 70% do eleitorado republicano considera existir má-fé por parte de quem acusa alguém de ser racista. Estes resultados permitem concluir que Trump conseguiu polarizar o debate e cerrar fileiras junto do Partido Republicano para o combate que se advinha cada vez mais aceso. Esta é a guerra que Trump quer levar para as próximas eleições presidenciais – “nós” contra “eles”, em que o “nós” é uma personificação do verdadeiro cidadão americano, liderado por Trump.

O alegado racismo de Trump, alimentado por declarações sugestivas, é uma estratégia que serve o propósito de mascarar o seu populismo clássico.

Trump parte na dianteira da corrida eleitoral. O presidente norte-americano lidera as sondagens para as presidenciais, num momento em que o Partido Democrata ainda não escolheu o seu candidato. Subestimar a sua estratégia e comprar a sua guerra resultará numa reeleição fácil em 2020.»

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19.7.19

«Deram-lhe o Nobel porquê?»



«A pergunta que Trump coloca a Nadia Murad, refugiada yazidi e Prémio Nobel da Paz em 2018, aquando da sua visita à Casa Branca, diz mais sobre a atenção que o presidente norte-americano dedica aos assuntos internacionais humanitários do que sobre a sua inóspita e habitual falta de tacto. Habituado a cuspir palavras, os últimos dias de Trump têm feito salivar os mais abjectos racistas e xenófobos, colocando a opinião pública dos EUA num patamar de extremismo e radicalização que dificilmente deixará de ser transportado como nota maior para as próximas eleições presidenciais em 2020.

A pedra de toque pode mesmo ser a toque de caixa. "Send her back" ("enviem-na de volta"), foi o cântico racista inflamado por Trump no seu discurso na Carolina do Norte, a propósito da congressista democrata Ilham Omar, nascida na Somália mas cidadã norte-americana desde os 17 anos. Eis o gatilho para os mais fracturantes e definidores temas da campanha eleitoral que se avizinha: racismo, patriotismo e os conflitos culturais. Donald Trump é bem capaz de testar umas palavras em espanhol na campanha, como muitos candidatos democratas já ensaiaram nos dois debates televisivos do mês passado, mas pode mesmo ser o inglês que o trame.

"Trump on tweets" é cada vez mais um parente próximo de "Trump on acids". Se é verdade que a comunicação singular e sintética do presidente tem já uma longa folha de serviço de atrocidades e nem isso o impediu (pelo contrário) de ganhar eleições, também é revelador que o racismo dos seus mais recentes tweets domingueiros o tenha agora baptizado com um cognome pouco abonatório: "un-American". Numa sondagem anteontem revelada, uma clara maioria dos americanos considera as suas declarações ofensivas e anti-americanas. Trump não esconde a vontade de enviar para os países de origem quatro mulheres que têm sido, a alto e bom som, vozes críticas da administração norte-americana. Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Ayanna Pressley e Rashida Tlaib têm muitas coisas em comum: americanas, democratas, congressistas, demasiadamente jovens e com origens étnicas insuficientemente arianas para o gosto presidencial. A bola de neve destas eleições pode muito bem ser às cores.

Qualquer processo de destituição de Trump, nesta fase, é um presente envenenado. A vitimização e a demagogia habitual encarregar-se-ão de retirar dividendos de qualquer tentativa de "impeachment". Assistiremos a Trump com exposição ao desgaste. O cântico algo russo "lock her up" ("prendam-na"), atirado a Hillary Clinton nas eleições de 2016, pode agora ser vingado em bom inglês com sotaque. "Send him back".»



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4.1.19

Um ano muito trumpiano



«No final de 2017, a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os republicanos no Congresso impuseram um corte de um bilião de dólares nos impostos das empresas, parcialmente compensado por aumentos de impostos para a maioria dos americanos no meio da distribuição de rendimentos. Mas, em 2018, o júbilo da comunidade empresarial dos EUA com este bodo começou a dar lugar à ansiedade em relação a Trump e às suas políticas.

Um ano atrás, a ganância desenfreada dos líderes empresariais e financeiros dos EUA permitiu-lhes superar a sua aversão a grandes défices. Mas agora eles estão a ver que o pacote de impostos de 2017 foi a fatura fiscal mais regressiva e extemporânea da história. Na mais desigual de todas as economias avançadas, milhões de famílias americanas em dificuldades - e as gerações futuras - estão a pagar cortes de impostos para bilionários. Os Estados Unidos têm a esperança de vida mais baixa entre todas as economias avançadas e, no entanto, a fatura fiscal foi elaborada para que mais 13 milhões de pessoas no país não tenham seguro de saúde.

Como resultado da legislação, o Departamento do Tesouro dos EUA prevê agora um défice de um bilião de dólares para 2018 - o maior défice num ano de paz e não recessivo em qualquer país desde sempre. E, como se isso não bastasse, o prometido aumento do investimento não se concretizou. Depois de dar alguns brindes aos trabalhadores, as empresas canalizaram a maior parte do dinheiro para recompras de ações e dividendos. Mas isso não é particularmente surpreendente, pois o investimento beneficia da segurança e Trump vive no caos.

Além disso, como a legislação fiscal foi aprovada à pressa, ela está cheia de erros, inconsistências e lacunas para interesses particulares que foram inseridas quando ninguém estava a ver. A falta de amplo apoio popular da legislação praticamente garante que grande parte será revertida quando os ventos políticos mudarem, e isso não foi passou despercebido aos donos de empresas.


29.12.18

Prendam o Trump! E não faltam motivos para isso



José Pacheco Pereira no Público:

“Lock her up! Lock her up!”
(Grito de guerra dos comícios de Trump contra Hillary Clinton)

Só há uma coisa importante sobre a qual se pode escrever hoje em dia: o Presidente dos EUA, Donald Trump. Dele vai depender quase tudo o que se passa no mundo em 2019: a crise da Europa, a paz do mundo, a situação no Médio Oriente, a corrida aos armamentos, a contínua ascensão de Putin, a economia global, as instituições como a ONU, a Unesco, a UNICEF, as agências humanitárias internacionais, a nova guerra cultural contra as mulheres e a comunidade LGBT, a independência e a separação dos poderes nos EUA, a politização da justiça e das forças armadas, a democracia em muitos países, a democracia nos EUA, de um modo geral o grau de violência que o mundo vai ter sob todas as formas.

Muitos destes conflitos não foi Trump que os criou, mas em todos Trump acrescentou factores de agravamento e, nalguns casos, trouxe as franjas mais radicais para o seu lado, para o centro dos conflitos de uma forma que era inimaginável há poucos anos. Os supremacistas brancos, os grupos racistas anti-imigrantes, as redes e os locais de conspiração e calúnia (como o InfoWars e o Breitbart) junto dos quais a comunicação social mais tablóide brilha de sensatez e limpeza, os “operadores políticos” especialistas em operações de desinformação (como Roger Stone), os agentes estrangeiros que, ao serviço dos seus governos, oferecem a desinteressada ajuda a Trump para ganhar eleições e atacar os seus adversários com hackers e fake news e mesmo os assassinos sauditas legitimados pelos cheques da compra de armamento.

A tudo isto soma-se essa coorte de mentirosos profissionais, manobradores de todos os dinheiros sujos, como o director de campanha de Trump, o advogado e “facilitador” de Trump, vários assessores e homens de confiança da campanha, e o responsável pela Segurança Nacional, todos a caminho da cadeia. Se a isso somarmos os mentirosos comprovados, os esquecidos de quantas vezes falaram com os russos, teríamos que acrescentar a família Trump, os filhos e o genro. Resumindo e concluindo: é uma pena os portugueses não conhecerem gente como Stephen Miller, um dos principais conselheiros de Trump, solitário porque os adultos de serviço foram saindo um a um, porque, em meia dúzia de minutos, percebiam o que eu estou a dizer.

Como é possível escrever tudo o que escrevi sem qualquer risco de contestação, sem qualquer possibilidade de alguém me acusar de calúnia? Pura e simplesmente porque é tudo pura verdade e não há sequer muita controvérsia sobre estas acusações e descrições. Como é que fazendo tudo isto o homem pode continuar a ser Presidente dos EUA? Como é que Trump é capaz de ter feito tanta coisa negativa, qual super-homem do Mal? A resposta é simples: é Presidente dos EUA, o homem mais poderoso do planeta, e não responde a nada a não ser ao seu próprio narcisismo e aos mecanismos do narcisismo, sondagens, audiências, aos bajuladores e sicofantas, e está cada vez mais preso no casulo do seu Ego doentio.

Para se perceber Trump é obrigatório ler os seus tweets, com as suas obsessões à flor da pele, os seus erros de ortografia, as suas frases incompreensíveis, as suas calúnias e insultos, a chantagem directa a pessoas, instituições e países, o estilo autocrata e vaidoso – tudo o que ele faz é o melhor do mundo –, a ignorância, a incompetência e a profunda e explicita violência do homem. Em Portugal podia ser ditador de um pequeno café ou dirigente desportivo, para já. Mas no Brasil já poderia ser Presidente. O “para já” não me conforta.

Eu passei o ano entre a explicação racional, a explicação do que ele faz e do seu sucesso e insucesso, e a tentação do irracional, Trump não é bom da cabeça. Cada vez mais penso que são as duas coisas. O que é mais grave é que toda a gente nos EUA que o conhece e com ele contacta sabe que é assim. Suspeito aliás que mesmo na sua base mais fiel, há muita gente que sabe que ele não regula bem.

Claro que ele representa muitos interesses económicos, financeiros, americanos e internacionais, como nos lembram os marxistas, mas não é só isso. Há um factor cultural que está para além disso, que é americano e mundial e que homens como Steve Bannon tentam transformar numa nova internacional, Trump mostrou a força da negatividade, um dos mecanismos base do populismo moderno. Conseguiu uma coisa que até agora lhe tem garantido imunidade, mesmo para os actos mais graves quotidianos: conseguiu ser o azorrague dos inimigos de muita gente, a emanação da vontade de vingança e ódio, o cavaleiro andante de muito ressentimento. E nos dias de hoje isso é muito poderoso. Trump foi a todas as cloacas da vida que se manifestam nas redes sociais e fê-las correr a céu aberto e inundar mesmo as terras que eram sadias e limpas. Ele é o primeiro político típico do século XXI.

Já o escrevi e repito-o: Trump não vai abandonar o poder a bem mesmo que perca as eleições. Ele encontrará uma qualquer teoria da conspiração porque é incapaz de admitir sequer que ele, o “génio estável”, possa perder uma eleição. E nas chamas tribais que ele incendeia todos os dias isso é um risco de guerra civil. Não como as do passado, mas as modernas, as que vão das igrejas evangélicas aos hackers de Moscovo, passando pelas redes sociais e pelo ataque à liberdade de imprensa e por juízes políticos. Não sei como vai ser, mas não vai ser bom e se a gente não usa todas as armas da democracia vai perder.»
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