31.1.23

Colares

 


Colar «Princesa Distante» em esmalte opaco sobre ouro, diamantes e ametistas, 1898-1899.
Rene Lalique.

Daqui.
.

31 de Janeiro rima com Revolta do Porto

 




.

JMJ: Quando eu julgava que já sabia tudo…

 


E afinal…Os 150 confessionários estarão na «Cidade da Alegria», situada em Belém. Ou seja: peca-se na Trancão e tem-se transportes gratuitos para obter perdão a uns quilómetros? Complicado.
.

Morrer com um sorriso

 


«"A sedação começa e ela não perde o sorriso. As suas netas dizem que a amam e ela despede-se desejando felicidades para todos. São onze e meia e paira no ar um espírito de paz, dignidade, respeito pela vida e pelo processo de morrer que nunca havia experimentado".

Este relato na primeira pessoa do médico espanhol Jesús Medina feita ao jornal "El País" espelha um ato polémico que em Espanha já foi legalizado e que em Portugal o conservadorismo do Tribunal Constitucional ainda não o permitiu. Esta eutanásia, feita a 15 de novembro de 2021, é uma das duas centenas realizadas até hoje no país vizinho. Na altura, Jesús Medina relatou que a paciente pediu que não falhasse com ela, uma idosa de 86 anos com cancro do cólon terminal.

Vale a pena recordar as palavras que o médico resolveu partilhar. "Estamos aqui os três: as duas enfermeiras e eu. Dedicamos alguns momentos para dizermos o quanto estamos nervosos, mas convictos de que estamos a realizar um ato médico, movidos pelo amor e pelo respeito à liberdade individual. No quarto há filhos e muitos netos. O marido é o membro mais frágil da família. Ela está esplêndida com um pijama branco e um roupão florido. Maquilhada, perfumada, com um ramo de flores que as netas acabaram de lhe dar. Ela conforta quem está perto. Está preparada, forte, serena e contraditoriamente parecendo cheia de vida. Ela vai para o quarto e deita-se na cama com bastante naturalidade. Fala connosco num tom jovial sobre detalhes específicos e questões importantes. Agradece-me pelo meu acompanhamento nos últimos meses, conta-me coisas muito bonitas que não consigo reter. Digo-lhe que tivemos uma paixão à primeira vista, que nunca vou esquecê-la". Todos estamos de acordo que a eutanásia é transversal e não tem ideologia. A lei da morte medicamente assistida não pode ser inconstitucional, mas também estamos de acordo que o Parlamento irá fazer o seu trabalho e aprovar uma legislação que proteja quem sofre e quem deseje parar esse sofrimento.»

.

30.1.23

Mudam-se os tempos...

 

.

Gandhi, assassinado há 75 anos

 


Mahatma Gandhi foi assassinado em 30 de Janeiro de 1948, com 78 anos, depois de ter sido o artífice lendário e decisivo dos direitos cívicos que levaram à independência da Índia. Mas nem tudo foi fácil depois e vale a pena ouvir uma curta descrição em «Os Dias da História». 

Raj Ghat, memorial e local onde se encontram as cinzas de Ganghi, em Nova Deli, por onde já passei duas vezes. Continua a ser a grande, a enorme referência do país:



A morte e a multidão de dois milhões de pessoas que terão acompanhado o funeral:



Londres, 20.10.1932, um discurso que ficou célebre:


.

30.01.1937 – Vanessa Redgrave

 


Vanessa Redgrave, essa grande actriz, chega hoje aos 86.

Com participação em mais de 80 filmes e seis nomeações para Óscares, foi também activista política desde muito nova (várias vezes candidata em eleições gerais, entre 1974 e 1979, pelo Partido Revolucionário Trotskista), mantendo-se depois disso sempre ligada a muitas iniciativas de solidariedade e de protesto, como, por exemplo, a uma campanha contra a guerra no Iraque.

Em 1978 recebeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo papel de «Julia» no filme com o mesmo nome, onde actuou ao lado de Jane Fonda e de Meryl Streep. Foi grande então a polémica que o filme provocou e vale a pena ouvir o que ela disse na cerimónia de recepção do prémio:



Julia, 1977:



Julgo que as primeiras imagens dela guardo são de Blow-up (1966) e Isadora (1968):




.

O grande problema do Governo tem um nome: professores

 


«Passa nesta segunda-feira um ano desde que as eleições legislativas deram a vitória ao PS com maioria absoluta e não se pode dizer que os últimos meses, desde a posse em finais de Março de 2022, tenham sido desafogados para António Costa e os seus ministros. E não o foram, em parte, porque a política (ou antes, a politiquice) está a ganhar às políticas.

O que tem distraído os portugueses da crise inflacionária e contribuído para a sua falta de confiança nas instituições não são as políticas erradas que o executivo tem escolhido. À falta dessas, o espaço tem sido tomado por histórias como: os milhões da indemnização de Alexandra Reis; a fita do tempo que Pedro Nuno Santos reconstituiu; as eventuais incompatibilidades de membros do Governo e do Parlamento; as supostas luvas nas autarquias; os ajustes directos sem controlo; processos intermináveis que levantam suspeitas sem as concretizar em tempo útil; e, mais recentemente, o esbanjamento que alguns de nós querem levar a cabo numa Jornada Mundial da Juventude que se realiza dentro de 183 dias em Lisboa.

Se retirarmos estes casos (ou este caos) da equação, o que está neste momento no centro do furacão é uma classe profissional que acumula anos de cansaço, de sensação de desrespeito e de esquecimento. Os professores tornaram-se o grande problema que o Governo tem para resolver, ao ponto de terem iniciado uma greve inédita, por tempo indeterminado e de consequências imprevisíveis, até para a imagem pública dos próprios.

A manifestação deste fim-de-semana, a lembrar os tempos da troika, mostra muito mais do que o estado de desmotivação da classe docente. Mostra o desespero. Cada professor é uma história de desencanto com a profissão, com o sistema educativo, com os sucessivos governos e com as suas próprias perspectivas de futuro. Pensar que se podiam descongelar carreiras como se nada tivesse ficado perdido funcionou como um longo rastilho de uma bomba que está agora a explodir. Afinal, os professores não se esqueceram disso e, para eles, a questão parece longe de estar ultrapassada — apesar de o Governo insistir que, do seu lado, a porta para recuperar os anos de serviços congelados está definitivamente fechada.

Seis anos, seis meses e 23 dias. De acordo com a Fenprof, é este o tempo perdido. Há muito mais coisas em causa para os sindicatos, algumas em negociação, mas esta é a pedra no sapato dos docentes desde que Pedro Passos Coelho deixou de ser primeiro-ministro. Em 2019, ainda com a “geringonça”, o tema quase fez cair o Governo, que chegou a ameaçar com eleições antecipadas quando a oposição se juntou para aprovar a recuperação desses anos. Acabou por não acontecer, com uma pequena grande ajuda do PSD de Rui Rio.

Agora, em maioria absoluta, o cenário é totalmente diferente. Em teoria, ninguém pode obrigar o PS e o executivo a fazerem o que não querem (na prática, há as maiorias sociais de que falou Catarina Martins no domingo, que podem fazer estragos). Mas até já entre os socialistas há quem tenha percebido que o problema não é irrelevante. Neste domingo, em entrevista à Lusa, Carlos César aconselhou o Governo a debruçar-se “e atender a esses problemas”, sobretudo os que resultaram dos anos da pandemia. “É altura de, caso a caso, resolvermos esses problemas. Alguns estão a ser resolvidos – e de certeza que o problema dos professores também começará a ter um desenho na sua resolução que vai permitir-lhes terem confiança num processo que não seja interrompido de recuperação daquilo a que entendem ter direito”, acrescentou o presidente do PS.

Está na hora de Governo e oposição discutirem soluções em vez de entrarem numa espécie de campeonato da desonestidade. Está na hora de as políticas voltarem ao centro da política.»

.

29.1.23

Palácios

 


Palácio Gresham, Budapeste, 1904-1906.
Arquitectos: Zsigmond Quittner e Jozsef Vago.


(Agora Hotel "Four Seasons")

Daqui.
.

Lagosta ou carapau

 



Para rir ou para chorar.
.

«O Tempo e o Modo» – 60 anos

 


O primeiro número saiu em 29 de Janeiro de 1963. Alguns recordarão a importância que teve o lançamento desta revista, como plataforma de um diálogo possível em tempos de censura bem dura, na sociedade portuguesa daquele início da década de 60. Pessoalmente, tive a sorte de nela participar.

António Alçada Baptista, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira, todos católicos, concretizaram um projecto que, desde o seu início, foi aberto à colaboração de não crentes, o que hoje parece absolutamente trivial, mas que esteve longe de o ser e foi mesmo objecto de uma votação. Não resisto a resumir o que então se passou: antes de a dita votação se efectuar, foi rezada uma Avé-Maria para que o Espírito Santo iluminasse os presentes. A decisão, pela positiva, foi tomada por cinco votos a favor e dois contra, o que permitiu que tivessem sido colaboradores, desde o início, Mário Soares, Salgado Zenha, Jorge Sampaio e Sottomayor Cardia, entre outros. Este episódio, hoje dificilmente compreensível, revela bem o peso da mentalidade então vigente e a importância histórica dos que contra ela lutavam – «abertura» passou a ser um dos sinais de marca de O Tempo e o Modo.

Em 1964, por ocasião do primeiro aniversário da revista, António Alçada Baptista comentou, bem à sua maneira: «O Tempo e o Modo pretendeu ser essa mesa onde as pessoas se conheceram e à volta da qual alguns se quiseram sentar. Depois, e à mesma mesa sentados, acharam que era possível falar. Conversados, reconheceram que muitas preocupações lhes eram comuns e que, talvez, ao tentarem resolvê-las, o poderiam fazer em equipa.» (O Tempo e o Modo, nº 12, Janeiro de 1964, p. 1.)

Foi longa e atribulada a história da revista, publicada entre 1963 e 1977. Actualmente, estão disponibilizados online todos os números das diversas fases.
.

Quem tem medo da guerra colonial?

 


«PS, PSD e Chega chumbaram uma proposta do Bloco de Esquerda de desclassificação de documentos militares anteriores a 1975 por três razões diferentes, mas todas elas injustificadas. Os socialistas entendem que os historiadores devem ter acesso a todas as fontes documentais para fazerem o seu trabalho, mas também garantem que são poucos os documentos daquela época que estão classificados e que estes apenas se encontram na Marinha. Pois bem. Certamente que quem estuda a guerra colonial terá muito interesse em saber o conteúdo dessa escassa documentação que continua secreta e porque é que ela se mantém nesse estado.

O PSD e Chega não estão preocupados com a escassez dos textos classificados. O que mais os apoquenta são os efeitos que o seu conhecimento público poderá ter na “abertura das feridas” que a guerra colonial inevitavelmente provoca na sociedade portuguesa. Esta proposta de desclassificação do BE, que se refere especificamente ao período da guerra colonial, entre 1961 e 1974, tem tudo para que tal aconteça. Mas o oposto não resolve nada. Quem faz História não é o BE.

Por fim, a desclassificação contribuiria para o “achincalhamento das forças armadas”. O Parlamento optou por manter o estado de negação, fingir que o trauma não existe, ignorar que um regime repugnante fez muitas vítimas inocentes cá e lá, em nome de uma guerra sem razão. Apesar do chumbo, as feridas vão continuar abertas e silenciosas, e não se trata de denegrir quem foi obrigado a combater em África, mas sim de conhecer as circunstâncias históricas em que tal aconteceu.

Todas as guerras são traumáticas. E nem todos os países se sentiram à vontade para confrontar a sua memória, como é o exemplo clássico da Alemanha Ocidental do pós-guerra. A catarse espanhola do Governo de Pedro Sánchez sobre a guerra civil e as vítimas do franquismo é um acto de justiça com a memória destas e com os seus familiares, uma forma de melhor desvendar o passado e de sanar, de uma vez por todas, as tais feridas abertas.

Depois do cinquentenário do massacre de Wiriyamu em Moçambique, quando as principais figuras do Estado assumiram essa ferida, não há muitos argumentos para continuar a persistir no tabu. Ele permanece, como explica o historiador Manuel Loff, porque ainda há protagonistas da guerra que estão vivos e porque ainda há quem encontre legitimidade na dominação colonial. Só faz o luto a sério quem tem coragem de o enfrentar.»

.