1.12.08

Entre o prazer e o poder















(Originalmente publicado em Caminhos da Memória)

No ano em que se celebra o 40º aniversário da encíclica Humanae Vitae, de triste memória e ainda mais triste vigência, Miguel Oliveira da Silva dá-nos um importante contributo para a compreensão da temática em questão.

Médico obstreta-ginecologista, professor de Ética Médica e Bioética na Faculdade de Medicina de Lisboa e licenciado em Filosofia, o autor pergunta se a Igreja não deve reconhecer os seus erros, «se não há uma outra ética da sexualidade compatível com a fé» e «porque se calam nesta matéria tantos dos bioeticistas, crentes e não crentes».

Começa por recordar a «oportunidade perdida» que o Concílio Vaticano II foi em temas relacionados com a sexualidade e o significado dramático da publicação da Humanae Vitae e das reacções que provocou, para depois abordar a problemática do ponto de vista da Bioética.

Regressa por fim à discussão das posições da Igreja e, num capítulo deliciosamente intitulado Quem influencia o Espírito Santo?, refere-se a Yves Congar que se perguntava «por que estranha razão o Espírito Santo influencia apenas ou sobretudo o Papa e não a Igreja no seu conjunto».

O livro tem um excelente prefácio do padre Anselmo Borges, retomado em parte num artigo de opinião publicado pelo mesmo no Diário de Notícias. O seguinte excerto resume bem uma interpretação possível das raízes do que está de facto em causa:

«O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados - todos pecam -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.»


Para além de todas as leituras, uma coisa parece certa: mesmo os mais cépticos dificilmente acreditariam, em 1968, dois meses depois do Maio francês, que quarenta anos mais tarde o Vaticano teria ainda o mesmo posicionamento relativamente ao controle da natalidade e ao uso de meios contraceptivos. Mas a realidade aí está para provar o contrário e para justificar o carácter oportuno do livro que Miguel Oliveira da Silva agora publicou.

Miguel Oliveira da Silva, A Sexualidade, a Igreja e a Bioéica. 40 anos de Humanae Vitae, Caminho, Lisboa, 174 p.

10 comments:

Anónimo disse...

Olá, Joana, só para fazer um pequeno reparo, que não é para publicar: o livro é de 2006, não de 2008, isto porque diz "no ano em que..., etc." PS-Livro que, aliás, serviu de mote em alguns círculos para a campanha do Sim no referendo ao aborto.
Um abraço, vou circulando e lendo com prazer.

Joana Lopes disse...

Caro Anónimo (que obviamente me conhece e é bem simpático):

Publiquei mesmo o comentário e não fiz a correcção da data, porque um de nós está equivocado. Tenho o livro à minha frente, a data de publicação é 2008, foi lançado no passado dia 6 de Novembro em Lisboa, falei poucos dias antes com o autor. Aliás, o subtítulo é: «40 anos de HV» que saiu em 1968.

Em 2006, o que MOS publicou tem como título: «Ciência, Religião e Bioética no início da vida».

MC disse...

Oh, Joana, eu não me surpreende nada que vire década sobre década e o Magistério continue a debitar a mesma doutrina.

O Anselmo Borges toca na ferida e bem: Poder. Poder espiritual (controlo das consciências) e poder temporal(Estado do Vaticano, núncios, bens terrenos etc.)

A Igreja que embalou a pedir perdões por algumas das crassas asneiras que fez, espero que um dia o peça muito sentida a tantas mulheres oprimidas por esta moral sexual.

Joana Lopes disse...

Pois, MC, mas apesar de tudo eu sou daqueles que não teria acreditado se, em 1968, me tivessem dito que tudo continuaria na mesma em 2008.

Um abraço

MC disse...

Claro, Joana.

em 68 eu tinha 9 anos. :) imagino que fosse um momento forte de esperança. Mas a esperança vinha do Vaticano ou do "mundo"? Parece que são opositores.
Há dez anos atrás ainda eu acreditava que seria possível. Ou melhor, achava que estava tudo certo. Numa década fiz um grande percurso, do qual ainda não sei o destino...mas isto sou eu que não tenho nada a perder.

Abraço

Joana Lopes disse...

Em 68, as esperanças já vinham mais do «mundo», como diz: das que tinham sido postas no Vaticano II, já pouco restava. Mas esta encíclica foi mesmo, para muitos, a gota de água...

Quanto aos percursos individuais, serão evidentements sempre diferentes. O segredo está em não ter medo e seguir em frente.

MC disse...

obrigada. é o que sinto.

MC disse...

Joana, acabei por citar e linkar o seu post. Dando-lhe ainda outra resposta muito terra-a-terra. :)

Joana Lopes disse...

Então agoira sou eu que agradeço.

Um abraço

Marco disse...

«Porque é que a Igreja Católica ainda tem medo do prazer carnal? Podemos compreender que a Igreja recorda o carácter sagrado da vida. Mas a sexualidade, veiculada através de um amor autêntico, não constitui ela também uma experiência do sagrado?»

Frederic Lenoir, Editorial da revista nº 32 do Le Monde des Religions