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7.9.23

Emprego e salários na rentrée

 


«Estamos no início de um novo ano político, tempo que a Comunicação Social gosta de designar por rentrée. O Governo prepara o Orçamento do Estado (OE) e as políticas que o acompanharão, dando sinais de fechamento e de medo em se abrir à sociedade. A Direita surge com um programa de mínimos assente em três componentes: i) agitar algumas bandeiras sem ir ao fundo dos problemas porque não tem resposta para eles, como estão a fazer com os impostos; ii) influenciar o Governo no sentido de este ser “bem-comportado” perante os poderes dominantes no plano nacional, europeu e internacional; iii) ir tratando da questão presidenciais 2026 na perspetiva de esse órgão de soberania continuar ocupado por alguém do seu espaço político. Os partidos à Esquerda parecem surgir com uma ação política mais clarificadora das relações entre as agendas social e política.

A Direita começou a acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa conseguirá - deitando mão do seu populismo e do atrevimento que por vezes roça o golpe constitucional - subverter o papel do presidente da República e fazer da Presidência uma espécie de governação alternativa ou corretora. A discussão do Orçamento do Estado e a retoma dos trabalhos da Assembleia da República vão tornar mais evidentes estes jogos em curso e o seu distanciamento das respostas aos reais problemas das pessoas.

Uma análise à realidade económica e social conduz-nos a afirmar que o OE para 2024 deve ser acompanhado por compromissos efetivos para se qualificar o perfil de especialização da economia e o de desenvolvimento do país: ou temos um novo impulso de industrialização, em setores e em condições inerentes ao tempo em que estamos, ou definhamos. Por outro lado, precisamos de um OE que interprete os compromissos de uma sociedade democrática organizada no que é estruturante da vida das pessoas: a garantia dos direitos à saúde, à educação e formação, à habitação, à justiça, à proteção social, a uma justa distribuição da riqueza, ao trabalho e salário dignos, a rendimentos mínimos que permitam fugir à pobreza. Para isso servem, também, as políticas públicas.

A Escola inicia o novo ano letivo com os alunos carregados de expectativas e sonhos, mas o Governo teima em tratar mal os professores. Os tribunais reabrem em clima de tensão com parte dos seus trabalhadores e os cidadãos sentem o sistema de justiça entupido. Na saúde a situação é idêntica. Retoma-se a atividade laboral em pleno, com os trabalhadores sem vislumbrarem negociações salariais que lhes reequilibrem os rendimentos. Grande parte dos empresários continuam focados na promoção do individualismo e em trapaças sobre o mérito e o talento. Não aproveitam as qualificações e competências dos trabalhadores e não inovam de facto, como prova o fraco investimento que é feito por posto de trabalho.

A melhoria dos salários anda de mãos dadas com a evolução da qualidade do emprego. Numa entrevista ao “Expresso”, no passado dia 30, Paulo Pedroso, profundo conhecedor de políticas de emprego e de proteção social, afirmou, partindo de algumas observações, designadamente sobre a distribuição funcional do rendimento, que “há margem para um aumento real dos salários em 20%”.

O país ganharia muito se este objetivo fosse colocado no plano da utopia do realizável, agora. A turbulência do debate económico, social e político transformar-se-ia num impulso criativo e modernizador. O Governo pode e deve dar o tiro de partida começando a valorizar os salários dos trabalhadores da Administração Central e Local.»

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27.3.23

Inflação: a resposta está nos salários

 


«Estou curioso para saber como o Governo conseguirá garantir que a descida do IVA nos produtos essenciais tenha um efeito diferente do que teve em Espanha, onde os preços não só não desceram como, recentemente, tiveram um novo aumento acentuado, engolindo as perdas do Estado. Ou diferente do efeito que tiveram as descidas do IVA na restauração ou do ISP nos combustíveis. Quando os dogmas são os da ideologia da moda, a negação prática da sua eficácia parece ser indiferente.

Só espero que esta descida não dependa de compromissos de honra de empresas que somaram 675 milhões de euros em coimas da Autoridade da Concorrência por concertação de preços. A julgar pela intemperada arrogância com que reagiram, não há razões para acreditar que estejam para aí viradas. Parece-me que os herdeiros ofendidos estão mais inclinados a colher os frutos políticos dos excessos impreparados do ministro da Economia.

Até ver, a descida de IVA, depois de uma provável primeira descida nos preços, terá o mesmo efeito contra a inflação que estão a ter as subidas das taxas de juro: nenhum. Mesmo que resultasse, o cabaz alimentar essencial, calculado pela DECO, passou de 183 para 230 euros, um aumento de 25,6%. Se viesse a ser refletida no preço final, não me parece que uma quebra de 6% se aproximasse do que é necessário.

DE ONDE VÊM OS AUMENTOS?

Dizem as associações empresariais e as grandes cadeias que, fruto da guerra entre dois dos maiores produtores alimentares do planeta, cereais, carne ou fruta têm subido em toda a Europa, e não apenas em Portugal. É verdade, a questão é que em Portugal sobem ao nível apenas encontrado nos países de Leste, paredes meias com a fronteira ucraniana ou russa. Em dezembro de 2022, os preços alimentares estavam 20% mais caros em Portugal, 15% em Espanha, 13% em Itália e França, 15% na Dinamarca e Bélgica. Apenas a Alemanha, um país onde a fatura energética tem pesado sobremaneira, regista o mesmo valor de Portugal.

O petróleo está ao preço do Natal de 2021, o gás natural de setembro de 2020, e mesmo os preços do trigo estão abaixo dos registados há mais de um ano e os fertilizantes de outubro de 2021, a cair, quase ininterruptamente, desde abril de 2022. Os custos de produção começam a ter as costas largas.

Como se explica neste post, que cita um estudo sobre a inflação e os lucros, os aumentos das margens, estejam eles onde estiverem a acontecer, costumam ser obtidos através da redução de custos, e não pelo aumento de preços. Mas quando os custos afetam um sector inteiro, isso funciona como coordenação para aumentos de preços. O impulso inicial foram os aumentos de preços nas matérias-primas e os constrangimentos na oferta em bens e serviços como os chips e o transporte marítimo. Depois o aumento da energia.

MÉTODO CRUEL

Entre grandes superfícies, transporte e produtores, todos passam a batata quente para o vizinho. É provável que cada um vá picando o seu bocadinho, aproveitando o aumento geral. Até é admissível que os produtores estejam a conquistar algum poder negocial. Uma coisa é certa: o dinheiro não está a ir para os salários dos trabalhadores das grandes superfícies. O acordo assinado com os sindicatos, e que está a ser seguido pela maioria das principais cadeias, garantiu um aumento médio de 4,8%, um valor muitíssimo abaixo da inflação. A perda não é compensável por prémios que, ao contrário da inflação, não ficam para o futuro.

Quanto aos salários em geral, não só não se confirmou, no último ano, o suposto risco de uma espiral inflacionista com esta origem, o disco riscado usado para os conter e aumentar ainda mais a transferência de recursos do trabalho para o capital, como o Banco Central Europeu divulgou um estudo demonstrando que “as margens das empresas, e não os salários, foram o principal motor de subida de preços na Zona Euro no ano passado”. Em Portugal, por cada 10 euros de valor gerado, menos de quatro são salários e quase 5,5 remuneração do capital.

Conhecedora desse documento, a número um do BCE fez um discurso referindo por 14 vezes a necessidade de contenção salarial, ignorando olimpicamente o aumento das margens. Na ata da reunião de fevereiro do BCE a palavra “salários” aparece 52 vezes, enquanto “lucro” e “margens” aparecem uma vez cada, na mesma frase. Dizer que é preciso arrefecer a procura, quando estamos a falar de bens alimentares, é a expressão moderna do “Não há pão? Comam brioches”. Aliás, o BCE pediu aos governos europeus para começarem a preparar o fim do apoio às famílias. É para impor a miséria a ver se a procura de bens essenciais baixa?

Concentrar na diminuição do poder de compra da população a resposta a uma inflação causada pelo aumento da energia e da comida, bens pouco ou nada afetados pelo aumento das taxas de juro, é uma escolha política. O antigo vice-presidente do BCE Vítor Constâncio tem vindo a alertar para o “método cruel e doloroso” como o banco central está a abordar a inflação. “Os lucros estão a ganhar e têm conduzido a inflação, seguindo-se os impostos e só depois os salários", escreveu no Twitter, pouco depois de partilhar dados que mostram como as margens de lucro nos EUA atingiram valores desconhecidos desde o rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Robert Reich escreveu: “a inflação que estamos a experimentar não se deve aos ganhos salariais do excessivo poder dos trabalhadores. Deve-se a ganhos de lucro do excessivo poder corporativo. São os lucros, não os salários, que precisam de ser controlados.”

UM PASSO TÍMIDO, MAS CERTO, DO GOVERNO

A resposta são aumentos salariais ao nível da inflação. O Governo só pode começar pelos funcionários públicos e as carreiras que suportam serviços públicos essenciais para o país, travando a perda do rendimento disponível nos últimos anos. Que o Estado dê o exemplo, levando a que os privados vão atrás. Aí, podem seguir o exemplo de gestores e cargos de topo, que se aumentaram em média 9,6%. O que é bom para eles é bom para todos.

Não estamos seguramente a falar da atualização de 1% para trabalhadores do Estado. Ainda assim, é um primeiro passo. Sobretudo graças ao aumento do subsídio de refeição em 15,4%, subindo também a isenção fiscal sobre este subsídio, o que terá efeito também no privado. Assim, os funcionários públicos com menores rendimentos serão mais beneficiados. Com o apoio mensal de 30 euros para famílias mais carenciadas, o aumento do Indexante de Apoios Sociais (IAS) em 8,4% e o aumento do abono de família em 15 euros por criança haverá uma ainda tímida transferência do excedente orçamental para as famílias mais pobres, num movimento correto de alguma redistribuição.

Os mais pobres são punidos por esta crise de forma desproporcionada, porque os produtos que mais aumentam são os alimentares (dos 8,2% de aumento médio de preços face ao mês de fevereiro do ano passado, 4,6 pontos percentuais foram à custa dos bens alimentares e bebidas), que correspondem a uma proporção muito mais significativa dos seus gastos. Qualquer medida regressiva, como descer o IRS que não pagam, aumentaria ainda mais a regressividade da crise. Se esta inflação é regressiva todas as medidas devem ser progressivas para não aumentarem ainda mais a desigualdade. Medidas para a classe média devem estar concentradas, por exemplo, na mitigação aos efeitos do irresponsável aumento das taxas de juro, como o apoio ao pagamento das prestações da casa, que as atinge de forma especialmente dura.

Ao contrário da descida do IVA, aumentos salariais e de apoios sociais vão no caminho certo. Mas os trabalhadores não devem ficar à espera de medidas administrativas do Estado. A sua arma negocial, também no privado, é a força sindical e a greve. Sem isso, viverão cada vez mais de subsídios. Os apoios especiais podem ser importantes, mas não podem continuar a compensar a perda de salário. É insistir num modelo económico e social que premeia a pior moeda na nossa economia. O risco é termos o Estado a dar apoios passageiros para almofadar a descida permanente do salário real.

NÃO É UMA FATALIDADE, É UMA ESCOLHA

Verdades feitas e indesmentíveis como as que nos dizem “a inflação afeta sobretudo os mais pobres e os trabalhadores” não resultam de leis naturais. Resultam de escolhas políticas de quem acha que os preços devem evoluir sem interferência externa ao mercado, mas quando há sinais de que os salários os vão acompanhar, como inevitavelmente acompanhariam quando os custos de quem trabalha aumentam e o desemprego está baixo, começa a agitar com o perigo da “espiral inflacionista”, mesmo sabendo que essa espiral vem de outro lado, onde não quer tocar. A inflação não seria um problema grave para quem trabalha se os seus salários não perdessem valor. Só que o padrão de vida do trabalhador médio da zona do euro caiu 5%, em 2022.

Esta é a primeira grande crise inflacionista sem poder sindical. Os salários sobem abaixo da inflação porque, através da liberalização das leis laborais impostas, entre outros, por alguns dos políticos que hoje dirigem o BCE mascarados de técnicos (como Luis de Guindos ou Christine Lagarde), os trabalhadores ficaram numa posição de crescente fragilidade negocial. E porque, para além dos aumentos cada vez mais irracionais das taxas de juro, as únicas políticas contra a inflação apostam em reduzir consumo (até de bens essenciais) e aumentar o desemprego, com o objetivo de reduzir a pressão nos salários e mantê-los abaixo da inflação.

Não é de agora. Estes momentos são utilizados para acelerar uma transferência de recursos do trabalho para o capital que, na Europa, dura desde a última grande crise inflacionista dos anos 70 – os trabalhadores europeus ficavam com 70% do produto, hoje ficam com 56% - e, em Portugal, pelo menos desde o início deste século, com agravamento acentuado depois de 2010. É isto que tem de mudar. Sem luta, o salário será substituído pela esmola do Estado, quando houver excedente orçamental para isso.»

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12.7.22

É fazer as contas

 


«António, chamemos-lhe assim, recebe o salário mínimo nacional: 705 euros. Desconta, como todos nós, para a Segurança Social. No caso dele, 77,55 euros por mês. O valor líquido mensal é de 625 euros. António é licenciado, em marketing. Trabalha como vigilante numa daquelas empresas a que, erradamente, chamamos de "segurança". Faz o turno da noite, da meia-noite às oito da manhã. Quando "tem sorte", fica com o horário da tarde, das 16.00 à meia-noite. Como entra à meia-noite, tem de ter carro próprio.

Os transportes públicos, ainda que estivessem integrados, e conjugados, não lhe cobrem o horário. O carro, tem 15 anos, comprado em segunda mão. Paga, por mês, 150 euros de empréstimo. De cada vez que vai, agora, encher o depósito, são cerca de 100 euros. Cinquenta litros vezes dois euros. Quase um sexto do salário é para atestar. Como tem de abastecer duas vezes por mês, são 200 euros. Por mês. Mais os 150 euros da prestação. (…) Paga renda. Fora da cidade, onde conseguiu uma casa por 200 euros. Aliás, um "pequeno T1", como diz a canção. António, só em despesas fixas, só para ter onde dormir e forma de chegar ao trabalho despende 550 euros. Recebe 625.

António tem de conseguir comer, ter luz e água em casa, gás no fogão, telefone e televisão com o que lhe sobra - 75 euros mensais. Dois euros e pouco por dia.

Como recebe mais de 540 euros por mês, António vive (?) acima do limiar da pobreza. Não conta, portanto, para as estatísticas com que governos e oposições, patrões e sindicatos, se debatem no Parlamento e na Concertação Social. Tem casa, trabalho, carro. O Estado, magnânimo, dispensa-o de pagar IRS. É, portanto, um cidadão bem na vida, já que é proprietário de um bem móvel. Com o que lhe sobra depois de pagas as despesas fixas com a casa e o carro - recordo, 75 euros - ou tem água e luz, ou come. António gostava de ser pai. Gostava de ter um carro elétrico, porque a energia é mais barata que o combustível e ele preocupa-se com o ambiente. Gostava de poder viajar, ir a um restaurante, nem, que fosse uma vez por mês. Comprar um livro, ver um concerto ou ir a um festival de música. Ou ir ao teatro, ao cinema, ao museu. A vida de António resume-se a ir de casa para o trabalho, do trabalho para casa. E a fazer contas. Contas de subtrair. É certo que tem um contrato de trabalho e recebe 14 salários e não doze. Esse dinheiro "a mais", generosamente acordado na Concertação Social, serve para pagar as contas já citadas - revisão, pneus, óleo, portagens e outras avarias inesperadas. Para sermos corretos, os 75 euros que lhe sobram, a juntar a cerca de 1300 de dois meses extra, chegam aos dois mil cento e cinquenta euros... por ano. Não chega a 200 euros por mês.

É fazer as contas.

António já passou dos trinta. Quase todas s noites, sai de casa depois das 23.00, chega ao trabalho pouco antes da meia-noite. Pelas nove da manhã está de regresso a casa e vai dormir. Acorda a meio da tarde. Come uma refeição, simples e em casa. E espera pelas onze da noite para ir, outra vez, de olho aberto, vigiar um escritório vazio. "Tem sorte". Não apanha chuva, nem sol, é um bom "posto", aquele no escritório. Podia estar numa fábrica e ter de fazer rondas no exterior, com o calor do verão e o frio e chuva do inverno. Podia estar numa obra, a evitar que alguém roubasse máquinas e materiais de construção. Podia estar numa estação de metro a lidar com passageiros fora de horas, sem-abrigo, bêbados e meliantes. Nada disso. Está "quentinho", o escritório tem ar condicionado, nunca acontece nada de noite. Ele e o telemóvel, com o wi-fi do escritório ligado, passam a noite juntos. Como tem tempo, António é bem informado. Lê muito, sabe o que se passa em Portugal e no mundo. Consegue discutir política, tecnologia, filosofia, música e cinema. Mas não tem com quem. Os amigos têm "horários normais" e António, que gostava de ter um filho, uma família, uma casa com mais que um quarto, um carro elétrico, jantar fora ou sair à noite, pelo menos de vez em quando, fica em casa.

A fazer contas.

N. do A.
António é uma personagem de ficção. Mas, atenção, qualquer semelhança com a realidade de Portugal em 2022, não é mera coincidência.»

15.6.22

Bem prega Frei Costa, mal se queixa Frei Saraiva

 


«Perante uma plateia de jovens, António Costa fez um apelo: que o salário médio crescesse 20% nos próximos quatro anos. Como não explicou se falava do rendimento real, não sei se grande parte disso não seria comido pela inflação. Mas é indiferente, porque o apelo, como prova a forma descuidada em que foi feito, não é para levar a sério.

Perante uma inflação prevista no Orçamento de 4%, que já está nos 8%, o Governo impôs um aumento salarial de 0,9% aos funcionários públicos. E não consta que nas empresas de que o Estado ainda é o principal acionista se tencione contrariar esta lógica. Isto corresponde a uma brutal queda do salário real. E se compararmos com as previsões do aumento previsto da produtividade, será a maior perda de peso do trabalho no rendimento nacional deste século. Pior do que no pior ano da troika. Tem razão António Saraiva, da CIP: bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz.

Fernando Medina e António Costa têm defendido esta brutal perda de rendimentos com o argumento da cautela. Não sabemos o que aí vem. O efeito mimético é óbvio. Se o Estado, com mais informação, adia a decisão de aumentar salários, por que não o fariam os privados? Se este não é o bom momento para garantir que os salários da função pública acompanhem a inflação, deixando os trabalhadores em situações impossíveis – vem aí o aumento das prestações da casa graças à eutanásia económica imposta pelo BCE, que deixarei para outro texto –, também não o é para estes apelos. A diferença é que os apelos saem de graça.

Outro argumento contra o aumento dos salários da função pública é que isso contribuiria para uma espiral inflacionista. Esta inflação tem origem externa e na oferta, não interna e na procura. Usar a redução dos salários reais em Portugal para conter esta inflação é como tentar abater um míssil com uma fisga. O efeito dos aumentos salariais seria marginal numa inflação com origem no aumento do preço dos combustíveis e dos cereais e na rutura logística e de produção chinesas. Mas, se fosse verdadeiro, como raio valeria para a função pública e não para o privado?

ABAIXO DA PRODUTIVIDADE

Os presidentes da CIP e da CCP não reagiram bem. João Vieira Lopes acusou Costa de se comportar como um “sindicalista”, o que, na arqueológica visão de alguns dirigentes associativos dos patrões portugueses, corresponde a um insulto. Noutros países é função respeitada. Aparentemente, está com medo do que a quebra do poder de compra fará às empresas que representa e por isso não quer aumentar salários. Tendo em conta que o poder de compra depende dos salários, é o que se chama ter visão.

António Saraiva criticou a óbvia incoerência de António Costa e explicou que isto não vai lá com manuais de instruções para as empresas e para a economia. Mas faz sentido recordar que, desde 1999, a produtividade aumentou 14% e a remuneração real só aumentou 6%. E se não fosse a pandemia, em que a economia parou, mas os apoios públicos mantiveram os empregos e os salários, a diferença seria ainda maior. Se as contas do Governo para o Orçamento do Estado estivessem certas, estes números passariam, no fim de 2022, para um aumento da produtividade, desde o início do século, de 18% e um aumento da remuneração real de 5%. Ou seja, os trabalhadores não têm sido proporcionalmente beneficiados pelo aumento da produtividade e continuarão a não o ser. Vivem abaixo das suas possibilidades para outros viverem acima.

É preciso dizer que esta discrepância não é um fenómeno exclusivamente nacional. De 1950 a 1970, a produtividade dos EUA cresceu 79% e os salários reais 76%. Muito próximo. De 1980 até 2019, a produtividade cresceu 113% e os salários reais apenas 50%. É por isso que, graças ao desequilíbrio de poder imposto pelo neoliberalismo de Reagan e Thatcher e pela destruição dos sindicatos em que se empenharam (a sindicalização no Reino Unido era de 50% e agora é de 20%, nos EUA era de 25% e agora é de 5%), o homem mais rico do mundo é trinta vezes mais rico do que homem mais rico de 1955. Não é mais engenho, é porque a esmagadora maioria deixou de beneficiar de forma equilibrada do crescimento para que contribui.

Mesmo não sendo este constante afastamento entre o aumento da produtividade e o aumento dos salários reais uma realidade exclusivamente nacional, o que Costa propôs, na sua intervenção inconsequente, não está desfasado da realidade económica portuguesa. Se o peso dos salários no nosso PIB correspondesse aos mesmos 48% do conjunto da riqueza que vigoram em média na UE, o esforço seria proporcionalmente o mesmo, adaptado às nossas capacidades. Não é mais do que aguentamos, é a proporção do que se pratica na Europa aplicada à nossa realidade. Lembram-se da hecatombe anunciada com o aumento do salário mínimo? Não aconteceu.

SEM MAGIA, COM ILUSIONISMO

A inconsequência é que estas coisas não dependem de apelos, mas de políticas. António Saraiva tem a solução mágica num dos países mais desiguais da Europa: pagar menos impostos (os que pagaram os apoios às empresas durante a pandemia). Não houve nenhuma grande reforma fiscal nos últimos anos. Não são os impostos que explicam um rendimento que nunca sobe tanto como a produtividade. Como a nossa carga fiscal está abaixo da média europeia – e o esforço no pagamento de salários também –, é difícil argumentar que é aí que está o problema. O primeiro problema é a perda de poder negocial dos trabalhadores e as leis que subordinam o trabalho, impostas pela troika e ainda em vigor. O segundo tem a ver com a estrutura da nossa economia.

O primeiro problema deve ser o Governo a resolver. E a verdade é que no mesmo momento em que propõe começar um projeto piloto para a semana de trabalho de quatro dias (uma ideia que se fosse para levar a sério seria interessante e que podem conhecer melhor na entrevista que fiz ao economista Pedro Gomes), limpou da Agenda do Trabalho Digno grande parte das propostas que contrariavam a precariedade e reforçavam a contratação coletiva. Como os aumentos salariais dependem da economia e da negociação para partilhar os seus ganhos, Costa não está a fazer nada nesse campo.

Quanto ao segundo problema, é uma pescadinha de rabo na boca. Ela é evidente quando os hoteleiros que cobram, no Algarve ou em Lisboa, tarifas de estadia que não estarão uns 20% ou 30% abaixo das cobradas em cidades como Berlim, se queixam da falta de trabalhadores a quem pagam muitíssimo menos do que se paga na Alemanha. E com péssimas condições de trabalho e preços de habitação incomportáveis (também voltarei ao tema).

As vulnerabilidades da nossa economia têm razões estruturais, históricas e até externas. E é sintomático que a análise sobre a estagnação em que Portugal entrou nos últimos vinte anos se concentre sempre nas pequenas guerrilhas partidárias enquanto se ignora o maior terramoto económico da história recente do país – a adesão a euro. Mas os salários baixos são consequência, mas também causa. Uma economia que se baseia em baixos salários é uma economia que não acrescenta valor. Que não pode aproveitar o investimento feito em formação. Que se tem de concentrar em serviços rentistas, para onde as privatizações dos anos 90 canalizaram o capital). O baixo salário é um mau hábito concorrencial que alimenta maus gestores e más empresas.

O aumento do salário médio não é só um imperativo de justiça social. É um imperativo económico num país que tem um mercado interno raquítico e que nunca poderá competir com a mão de obra (cada vez menos) barata chinesa e precisa de absorver a mão de obra que andou a formar. Um governo decidir que esse objetivo é nacional é mais do que justo. Só não o é para quem gostava que o Estado se limitasse a baixar impostos, distribuir fundos europeus e privatizar os serviços que ele próprio construiu ou empresas apetitosamente monopolistas. Ou a acabar com apoios sociais para que os desempregados que não conseguem emigrar aceitem trabalhar com salários miseráveis.

Para quem acha que os governos ainda servem para alguma coisa, este é um objetivo óbvio. O problema é quando percebemos que, desde 2011, incluindo tempo de Costa, o salário dos funcionários públicos cresceu abaixo dos privados. E que o Estado se dedicou a reduzir, na lei, a capacidade negocial dos sindicatos. Com palavras não se fazem milagres. Mas faz-se ilusionismo: enquanto se baixam salários reais dos funcionários públicos, os do privado sobem na retórica do debate político.»

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