4.4.25

Voltam as portas

 


Entrada de um edifício de apartamentos, Paris, 1912.
Arquitecto: Louis Sorel.

Daqui.

04.04.1914 – Marguerite Duras

 


Marguerite Duras em Saigão, actual Ho Chi Minh. Foi uma das grandes escritoras do século XX francês, também realizadora e guionista de filmes, para além de resistente durante a Segunda Guerra Mundial como membro do Partido Comunista Francês.

É vasta a sua obra no domínio da literatura, de início identificada com a corrente do nouveau roman, mas destaco dois livros que nunca esquecerei: L'Amant (1984) e antes, bem antes, Moderato Cantabile de 1958.

Esta última obra viria a ser adaptada para cinema por Peter Brook, em 1960, e quem o viu terá certamente retido as interpretações de Jeanne Moreau e de Jean-Paul Belmondo. Inesquecível também, o guião que Marguerite Duras escreveu para que Alain Resnais realizasse Hiroshima mon amour. E quando há meia dúzia de anos fui ao Japão, e me passeei pelo local que foi vítima de uma das maiores tragédias da humanidade, não me saía da cabeça: «Tu n'as rien vu à Hiroshima!»




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Autárquicas a quanto obrigas…

 


Daqui.

57 anos sem Luther King

 


O comboio do progresso está a descarrilar?

 


«Talvez pessoalmente assustado com as alterações políticas, culturais, artísticas, sociais e tecnológicas que a partir da Revolução Industrial se sucediam a grande velocidade, com sucessivas marés de vanguardas revolucionárias, vanguardas financeiras, vanguardas industriais, vanguardas tecnológicas, vanguardas científicas e vanguardas artísticas a revolucionar vários aspetos da vida e a criar novos focos de conflito, o historiador francês Daniel Halévy crismou a expressão “aceleração da história” para defender que todas estas mudanças parecem fazer comprimir o tempo histórico, encurtando muito o intervalo entre acontecimentos importantes e relevantes.

Halévy foi um inicial apoiante do governo de Vichy na França ocupada pelos nazis, admirava o conservadorismo e nacionalismo de Maurras e escreveu em 1948 Essai sur l’accélération de l’histoire, onde explicava essa sua análise.

O medo reacionário da mudança que, no fundo, Halévy espelhava com a tese de o ser humano ser incapaz de acompanhar, absorver e acomodar tal velocidade de transformação, foi indiretamente recuperado por pensadores posteriores, muitos deles rotulados de progressistas, sobretudo quando começaram a espantar-se com os efeitos da internet e da globalização, que ainda aumentaram mais a velocidade de tudo o que se passa à nossa volta.

Por exemplo, o alemão Hartmut Rosa fala de “alienação temporal” de cada um de nós por causa da aceleração do tempo; outro alemão, Ulrich Beck, defende que vivemos numa “sociedade de risco”, com crises políticas, sociais, climáticas, tecnológicas e financeiras que nenhum governo consegue controlar; o francês Paul Virilio inventou a “dromologia” (“dromas” quer dizer corrida em grego) que advoga ser uma ciência para o estudo dos efeitos da velocidade das novas tecnologias; o polaco Zygmunt Bauman acha que esta velocidade de transformações torna tudo efémero, instável, incerto e volúvel, seja para as sociedades, seja para os indivíduos, e chamou-lhe “modernidade líquida”; a norte-americana Shoshana Zuboff denuncia a extraordinária velocidade de acumulação de riqueza das grandes empresas da sociedade digital e escreveu A Era do Capitalismo de Vigilância onde aponta empresas como a Google e Facebook como “ladras” dos dados pessoais, empresarias, científicos e artísticos de todos nós, para gerarem gigantescos lucros e transformarem a sociedade, controlando consumos, ações e pensamentos dos indivíduos (“ai” a inteligência artificial!).

Em 100 anos a lista de pensadores pessimistas sobre os efeitos desta aceleração da história cada vez maior e mais ampla cresce igualmente a grande velocidade mas, apesar de todos os avisos, de todos os diagnósticos e de todas advertências, nada desacelera, nada pausa, nada corrige a rota.

Talvez estes pessimistas estejam totalmente errados mas, se olhar para as notícias das últimas semanas, entre as reações às taxas alfandegárias de Trump e o kit com canivete suíço da Comissária Europeia Hadja Lahbib; entre mais matanças de palestinianos e o descarado saque das riquezas da Ucrânia; entre a corrida aos armamentos e a ameaça da guerra nuclear; entre a degradação da democracia e o prenúncio norte-americano de ocupação da Gronelândia; entre líderes da União Europeia claramente estupidificados e líderes portugueses significativamente alienados... parece-me que, pelo menos, esta conclusão é válida: neste mundo acelerado pelo maravilhoso comboio do capitalismo digital, a velocidade estonteante de más decisões políticas está, com grande rapidez, a levar-nos ao descarrilamento global.»


3.4.25

Casca de ovo

 


Par muito raro de vasos de porcelana casca de ovo Rozenburg Den Haag, São as últimas peças de porcelana casca de ovo que sairiam da fábrica, pouco antes de seu encerramento definitivo em Agosto de 1914.
Pintados por Samuel Schellink em Julho de 1914.

Daqui.

Uma resposta da Provedora do Telespectador da RTP

 


Tendo apresentado um protesto pelos termos da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo, acabo de receber esta resposta:

. Exma Senhora Joana Lopes,

Cerca de 1900 pessoas enviaram-me protestos contra a entrevista feita por José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo. Bastaria uma queixa para eu lhe dar atenção, mas neste caso foi atingido um número inusitado. O assunto foi debatido na praça pública por diferentes comentadores e jornalistas, com opiniões contraditórias, e ocupou um espaço imenso e intenso nas redes sociais.

Depois de analisar todas as entrevistas desta fase pré-eleitoral, considero que a de Paulo Raimundo foi objetivamente mal sucedida e não permitiu esclarecimentos sobre as posições do PCP. Foi claramente diferente de todas as outras. O jornalista é suficientemente experiente para ter entendido como bordão o “não” que repetidamente Paulo Raimundo usou antes das respostas. Todos teríamos ficado a ganhar se tivesse partido para abordar outros temas em vez de transformar a entrevista num debate sobre uma única questão.

Não faz parte das minhas atribuições, como me foi proposto - ou mesmo exigido - por muitos telespectadores, despedir, abrir processos disciplinares, afastar ou tomar algum tipo de decisão sobre a vida profissional de quem trabalha nesta casa. As minhas funções são, aliás, explicitadas no Estatuto dos Provedores. Mas posso e devo assinalar situações em que considero que o serviço público não foi cumprido. Neste caso, é essa a minha opinião.

O próximo programa Voz do Cidadão é dedicado à série de entrevistas a dirigentes partidários das últimas semanas, contando com a participação de António José Teixeira, José Rodrigues dos Santos e João Adelino Faria.

Com os melhores cumprimentos
Ana Sousa Dias
Provedora do Telespectador

03.04.1926 – Luís Sttau Monteiro



Faria hoje 99. Em jeito de homenagem, uma «Redacção da Guidinha». 

Senhores da política:

Oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua senão qualquer dia estão no olho da rua a ouvir o que se disse na rua.

Jornal, 22.09.1978
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O silêncio dos idiotas úteis

 


«Uma das primeiras medidas das primeiras frenéticas semanas de Trump na Casa Branca foi mandar apagar das publicações das agências públicas dos EUA toda e qualquer referência às alterações climáticas.

Agora, a mira censória apontou para às universidades. A Universidade de Duke, que recebeu 863 milhões de dólaresno último ano, tem os fundos federais em risco. A Johns Hopkins anunciou o despedimento de mais de dois mil funcionários, depois de perder 800 milhões. Uns cortes serão técnicos, outros resultaram de represália política. É o caso da Universidade de Columbia, que perdeu 400 milhões por não ter proibido manifestações de solidariedade para com Gaza.

Foi à boleia de uma nadadora transgénero que Trump congelou 175 milhões destinados à Universidade da Pensilvânia. Um corte com impacto em investigação em saúde pública, ciência fundamental e medicina de ponta.

A administração federal limitou drasticamente as “despesas gerais”, que sustentam edifícios, laboratórios, energia e pessoal técnico, sem os quais a investigação científica é impossível. A Universidade do Estado do Michigan já anunciou que suspendeu um centro de investigação médica por falta de fundos.

A asfixia vai continuar até que todos se curvem ao poder de Trump. Columbia foi a primeira, anunciando que vai alterar o seu código de conduta.

Na sua campanha para o Senado, há quatro anos, J.D. Vance pôs todas as cartas na mesa: “As universidades são o inimigo”. E comparou-as à Matrix: “Muito do que impulsiona a verdade e o conhecimento, tal como o entendemos neste país, é determinado, apoiado e reforçado pelas universidades. Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?”

Ninguém levou a sério, porque as universidades são o motor da inovação que torna a América líder nas áreas de ponta da economia do conhecimento. Como lembra Fareed Zakaria, os EUA representam cerca de 4% da população mundial e 25% do seu produto interno bruto, mas têm, conforme as classificações, entre 64% e 72% das 25 melhores universidades do mundo.

O GUIÃO HÚNGARO

Como Anne Applebaum explicou em “Crepúsculo da Democracia”, os novos autoritários não precisam de abolir as instituições, basta controlarem-nas. Orbán transformou universidades públicas húngaras em “fundações privadas” geridas por aliados do regime. Foi a fachada de autonomia que garantiu a obediência.

Nos EUA, o caminho será diferente, mas o objetivo é o mesmo. E o ataque à liberdade académica usa o mantra que tantos repetiram em nome da liberdade: a ideologia de género, o politicamente correto, o “cancelamento” de tradições e o antissemitismo representado por qualquer apoio à causa palestiniana.

Quando a “elite” liberal resiste ou contraria a política do governo, já sabe que contará com retaliações de Trump, que promete vingar os anos em que os conservadores se sentiram oprimidos pelo discurso das elites: se as universidades respondem em tribunal, o Departamento de Justiça e Segurança Interna ordena a punição do respetivo escritório de advogados.

Nem o poder judicial escapa, com Trump a exigir o afastamento do juiz que tentou bloquear centenas de deportações ilegais. Faz sentido: o sistema que os homens do dinheiro combatem é o que nos tem defendido do seu poder. Como explicou a juíza Marjorie Rendell, a justiça não tem o poder da espada ou da bolsa, depende apenas do respeito. Sem ele, nenhum Estado de Direito resiste.

Tribunais, imprensa e universidades. Trump cumpre à risca o guião seguido na Hungria e, antes dela, na Polónia.

O argumento é sempre o mesmo: não pode ser um poder não eleito a limitar a vontade popular. Para o braço de ferro com a Justiça, escolheu as deportações. Primeiro, divide-se o mundo entre o “povo puro” e uma “casta corrupta”, legitimando o ataque às instituições que contrariem a expansão do poder da verdadeira casta. Depois, transformam-se os adversários políticos em inimigos existenciais. Por fim, criam-se realidades alternativas, alimentadas por redes sociais e canais de propaganda, onde factos deixam de importar e tudo pode ser justificado.

CENSURAR O PENSAMENTO E A MEMÓRIA

Seguindo o guião de todos os movimentos autoritários, reescreve-se a realidade. Palavras como “igualdade”, “diversidade”, “racismo”, “discurso de ódio” e, pasme-se, “mulher” são apagadas de sites governamentais. Trabalhos académicos são censurados por incluírem termos “proibidos”. Currículos escolares são vetados. Os académicos tentam contornar o uso de certos temas para não verem o financiamento dos seus projetos automaticamente bloqueado. As palavras moldam a realidade e, na América “grande outra vez”, as mulheres e as minorias devem saber o seu lugar.

Isto, para alem de um movimento de censura de livros, liderados por grupos organizados, que recebem dinheiro da direita política. Só no ano letivo de 2023-2024 foram banidos 10 mil livros das escolas e bibliotecas. Como explicou o professor Peter Carlson, da Green Dot Public Schools, grande parte “aborda diretamente a identidade e não se conforma com a identidade hegemónica”. Mas a censura dos olhos das crianças vai até livros como “Maus” e “Diário de Anne Frank”, que nos habituámos a ter como fundamentais na nossa formação cívica. Não se trata apenas de inviabilizar grupos, mas de apagar parte da história.

Nos últimos anos, fui fazendo advertências quanto à esquerda que se deixa entrincheirar em identidades fechadas e incompreensíveis, desprezando a opressão e a desigualdade económica e social. Considerei e considero que a deriva identitária da esquerda resulta da sua própria desistência, uma cedência à lógica individualista do neoliberalismo, onde a biografia pessoal substitui o programa político, a culpa substitui a persuasão, as minorias cada vez mais estreitas substituem a maioria social trabalhadora.

Mas nunca me enganei no alvo, que, na cedência à agressividade conservadora, permitiu que qualquer sentido de decência e justiça levasse com o ferrete “woke”. Sempre soube que a guerra cultural reacionária fingia lutar pela liberdade de expressão sem nunca ter querido menos do que apagar a emergência de novas vozes. Dividir poder provoca sempre ressentimento. E a doutrinação misógina de rapazes adolescentes, alimentada por uma indústria conservadora de youtubers e podcasters, criou o exército de apoio ao retrocesso civilizacional a que assistimos. E esse retrocesso nunca é responsabilidade dos que se libertam e exigem o seu quinhão de poder e visibilidade.

A VITIMIZAÇÃO DO PODER

Nas duas últimas décadas, ouvimos humoristas milionários queixarem-se, em programas da Netflix, da censura que os oprimia. Sentiam-se cancelados por haver quem, no uso da sua liberdade, se indignava, com ou sem razão, por eles dizerem o que sempre se disse. Não sabiam que a resistência à censura tem menos glamour e proveito. Se querem saber o que é, aqui a têm. Não costuma vir de minorias perseguidas, mas de quem tem a bolsa e a espada para a impor. É por ela ser brutal que o ruído do protesto é menor.

A resistência a quem realmente tem o poder de realmente censurar paga-se realmente cara. Por isso já não ouvimos os que se agitavam contra a “brigada do politicamente correto” e os que viam em qualquer boicote estudantil uma ameaça à sua liberdade. Já não têm de enfrentar milhares de puritanos indignados que apelam a boicotes nas redes sociais. Agora é o poder que nunca deixou de o ser a usar o aparelho do Estado para voltar a calar os que foram calados por milénios.

Agora é a sério e, por isso, calaram-se os queixumes com a “cultura de cancelamento”. É claro que estes idiotas úteis nunca apoiaram Trump. Até o detestam. Apenas foram justificando a ascensão da barbárie de quem nunca deixou de ter o poder sobre os excessos de quem nunca o teve. É por isso que são idiotas. Convencidos de que combatiam a elite, aliaram-se à elite que dispensa a democracia para perpetuar o poder que nunca quis largar. É por isso que lhe foram úteis.»


Dois Moedas?

 


2.4.25

Mais perfume

 


Frasco de perfume de vidro camafeu. 
Émile Gallé.


Nelma Serpa Pinto

 


Entrevistou ontem, na SIC N, Pedro Nuno Santos e adoptou uma versão 2.0 do que José Rodrigues dos Santos fez com Paulo Raimundo na RTP. Só faltou piscar o olho à saída.

Não sei se está planeado que enfrente Mariana Mortágua, mas tome um calmante e faça melhor os TPCs. Pode sair o tiro pela culatra no seu estatuto de estrela ascendente na SIC.

02.04.1976 - 49 anos e uma Constituição

 


Naquele 2 de Abril, os deputados da Assembleia Constituinte, eleitos em 25 de Abril de 1975, deram por concluída a elaboração da Constituição. Esta foi então aprovada com os votos a favor dos partidos representados no Parlamento, com a excepção dos 16 deputados do CDS que votaram contra.




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Mortágua e os debates

 


Se fosse eu a decidir, ia Francisco Louçã ou Fernando Rosas.

Le Pen: guardem os foguetes que as notícias não são boas

 


«Não conheço a legislação em causa e não me vou envolver no debate jurídico em torno da condenação de Marine Le Pen. Olhando de fora, tenho dúvidas quanto à pena de prisão num caso desta natureza, e ainda mais quanto à inelegibilidade, que deveria ser absolutamente excecional. Essas dúvidas só são agravadas pelo facto de a sua aplicação ter lugar antes de o processo transitar em julgado. Imagino que isto corresponda à lei francesa, mas recordo que François Fillon teve um caso que, sendo menor na sua dimensão, até era mais grave em profundidade: a sua mulher era dada como falsa assessora. Perdeu as eleições presidenciais por isso. Não foi impedido de concorrer.

Claro que os sistemas legais são diferentes, mas nada disto tem que ver com a situação de Donald Trump ou de Jair Bolsonaro. Sempre achei um erro afastar Trump das eleições através nos tribunais por questões que não fossem a invasão do Capitólio. O mesmo se aplica a Bolsonaro. É a tentativa de golpe de Estado que o devia impedir qualquer um de concorrer. Nestes casos, a justiça deve ser implacável. Quem recusa os resultados eleitorais e o poder democraticamente sufragado viola o fundamento das eleições e, assim sendo, não pode participar no jogo.

Seja qual for o entendimento jurídico, não vejo razão para celebrar as consequências políticas desta sentença. Tem tudo para ser trágico. E com o tempero, especialmente apetitoso para a extrema-direita francesa, de a acusação vir de Bruxelas. Não é por acaso que Jean-Luc Mélenchon, apesar de sublinhar a gravidade da condenação, veio contestar a inelegibilidade. Primeiro, porque espera conquistar-lhe alguns votos. Depois, porque sabe que esta decisão pode ser um presente envenenado para a democracia.

Jordan Bardella é considerado, por 59% dos eleitores da União Nacional, melhor líder do que Marine Le Pen, que tem a preferência de apenas 37%. Junte-se a esta preferência a vitimização face a um ataque vindo de fora, e temos o caldo perfeito.

O que me deixa triste é ver a mesma Europa que se mostra incapaz de regular as redes sociais ou afastar a Hungria da UE em permanente busca de atalhos para travar a ascensão da extrema-direita. Atalhos que a própria não deixará de aproveitar. Isto não vai correr bem. Se Le Pen não concorrer, como é quase certo que não concorra, Bardella poderá fazer uma campanha ainda mais forte. Se concorrer, Le Pen irá a votos como vítima perseguida por Bruxelas. Ache cada um o que achar desta sentença, não vejo razões para lançar foguetes.

Nisto, só tem graça uma coisa: ouvir o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, dizer que os caminhos da Europa são cada vez mais a “violação das normas democráticas”. De facto, não é tão eficaz como o encarceramento seguido de “acidente” de Alexei Navalny. Seria mais limpo atirar a senhora de uma varanda. Nisso, as democracias europeias ainda têm muito a aprender com Putin.»


1.4.25

Chá

 


Lata para guardar chá prateada e esmaltada, com tampa interna em cortiça. Cerca de 1910.
Fabergé.

Daqui.

Se até estes...

 


29 anos sem Mário Viegas

 


Mário Viegas nasceu em 1948 e morreu, muito novo, em 1 de Abril de 1996.

Fundou companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e em duas séries televisivas inesquecíveis: «Palavras Ditas» (1984) e «Palavras Vivas» (1991).

Impossível não recordar a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros:



Ainda actual o Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP. (Candidatou-se também à Presidência da República.):



E... a nêspera, claro:


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A queda (provisória) de Marine Le Pen

 


«A condenação de Marie Le Pen levanta uma primeira questão: trata-se de aplicar a justiça, “doa a quem doer”, ou de uma sentença política para a afastar das eleições presidenciais de 2027?

La Pen defende obviamente a segunda interpretação. Após o primeiro julgamento em Novembro de 2024, lançou uma campanha de denúncia da Justiça, acusando os magistrados de impedir que sejam os cidadãos a eleger os seus representantes. Na iminência de se ver fora da eleição presidencial, clamou: “É uma pena de morte política.”

Mas Marine falou também contra si mesmo. Em 2013, depois de assumir a presidência da Frente Nacional (hoje, União Nacional), exigiu “penas de inelegibilidade vitalícia para os condenados por desvio de fundos públicos”.

Toda a extrema-direita europeia se solidariza com Marine. O porta-voz de Vladimir Putin denuncia as crescentes violações das regras democráticas na Europa Ocidental. No actual clima criado pela escalada de Trump contra o Estado de Direito, o caso Le Pen terá renovadas repercussões internacionais. E o americano Elon Musk não podia faltar: "Quando a esquerda não consegue ganhar pelo voto democrático, abusa do sistema legal para aprisionar seus rivais. Essa é sua estratégia padrão ao redor do mundo.”

Aos que denunciam o “governo de juízes”, responde, no Le Monde, o magistrado Vincent Sizaire. “A ordem jurídica republicana não pode ser mais clara. Numa sociedade democrática (…) com o primado da lei, ninguém pode pretender beneficiar de um regime de excepção, e os eleitos ainda menos que os outros.”

Milhares de franceses sofreram de condenações de inelegibilidade por análogos delitos. Entre eles, figuras políticas de primeiro plano: o socialista Henri Emmanuelli, em 1996; Jean-Marie Le Pen, por várias vezes, o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, em 2004, Nicolas Sarkozy, em 2020, ou o antigo primeiro-ministro François Fillon, em 2020, este com 10 anos de inelegibilidade.

Claro que, no caso de Marine, há uma diferença fundamental. Declarou o primeiro-ministro, François Bayrou, antes de conhecer a sentença: “Se Marine Le Pen não puder apresentar-se, há o risco de um choque na opinião pública.” É evidente, já que ela está no topo das sondagens presidenciais. Jordan Bardella, o presidente do partido de Le Pen, lançou um apelo a uma “mobilização geral e pacífica”.

É previsível que estale uma nova crise política em França, onde a situação do Governo é particularmente vulnerável. Surge também num crítico momento político para a Europa, em conflito crescente com a América de Trump e a braços com a guerra na Ucrânia.

A arma do referendo

A queda (provisória) de Marine Le PenMarine Le Pen tem uma carreira política de excepção. Logo após suceder ao pai, Jean-Marie Le Pen, na liderança da Frente Nacional, em 2011, muitos disseram: ela é muito mais perigosa do que “o abominável” Jean-Marie Le Pen, porque, ao contrário dele, quer o poder.

“É guiada por uma única ideia, a conquista do Eliseu”, explicou o historiador Nicolas Lebourg. Para aceder ao poder, propôs-se destruir o sistema bipolarizador (esquerda-direita) da V República, criando uma nova direita por ela hegemonizada. Tratou de “devorar” a direita tradicional, gaullista e liberal. E conseguiu a “desdiabolização” da extrema-direita.

Qual a síntese do programa presidencial? Antes das presidenciais de 2022, prometeu que a primeira medida simbólica seria retirar a bandeira europeia de todos os edifícios públicos franceses.

Sabendo que se fosse eleita não teria uma maioria parlamentar, o seu modelo seria o do recurso maciço ao referendo, para contornar o Parlamento, de modo a ir impondo as grandes metas do partido, da imigração aos privilégios dos franceses, passando por um progressivo divórcio com a União Europeia.

Marine Le Pen sofre o primeiro grande desaire da sua carreira no momento que a contra-revolução de Trump lhe parecia abrir uma esplendorosa avenida para os seus desígnios. Resta-lhe, como sempre, a vitimização.»


Os três fundadores

 


31.3.25

Palácios

 


(Este já passou por aqui, mas esta fotografia é extraordinária!)

Palácio dos Ventos (Hawa Mahal), Jaipur, Índia. 1799 (obras de renovação em 2006, eu vi-o em 2005).
Projecto de Lal Chand Ustad.

Daqui.

Montenegro soma e segue

 


Notícia AQUI.

Quem tem ética passa fome

 


«Era aceitável que Luís Montenegro continuasse em funções se fosse ministro de um outro qualquer primeiro-ministro? Não.

Se o primeiro-ministro fosse, por exemplo, Jorge Moreira da Silva ou Miguel Morgado, já o teriam demitido da pasta que ocupasse desde as primeiras notícias sobre a empresa.

Agora, quando o Expresso revela que o escritório de Luís Montenegro, que trabalhava para a Câmara de Espinho, fez pareceres a defender a empresa de construção ABB contra a própria câmara, o caso sobe um patamar. O próprio Luís Montenegro terá assinado um dos pareceres favoráveis ao empreiteiro que depois lhe forneceu o betão para a sua casa de luxo em Espinho. Isto são coisas normais?»


Au revoir, Madame!

 


“Se falhei muito, dêem-me maioria, para falhar melhor”

 


«Na semana passada, Ângela Silva deu-nos a oportunidade de encontrar uma utilidade política para estas eleições absurdas. Depois de especular sobre vários cenários, concluiu que qualquer um deles só teria uma saída útil se a AD saísse reforçada. Reforçada para ter “uma distância de respiração que funcione como airbag de sobrevivência e lhe permita prosseguir o trabalho que deixou a meio, provando o que vale”. E concluiu: “é esta, vendo bem, a melhor forma das eleições de dia 18 não serem uma inutilidade”. Não tenho dúvidas de que esta é a única razão por que Montenegro nos forçou esta crise: o pior momento reputacional coincidia com o melhor momento económico e orçamental.

Que Montenegro forçou esta crise já não é matéria de opinião. O airbag mediático permitiu que desistisse da vitimização ou da responsabilização da oposição pela crise política. Foi o próprio que, depois de semanas a tentar culpar PS e Chega pela crise, assumiu que queria estas eleições. Disse-o num programa de entretimento, onde deu a grande entrevista política da pré-campanha, escolhendo um apoiante como entrevistador, como escolhera o Observador para o escrutinar e os concorrentes com quem debater. Foi a votos porque esta era a tal oportunidade. Posso apostar que, daqui a uns dias, estará a pedir uma maioria “confortável” (com “distância de respiração”) para governar, apesar de ter governado quase sem resistência.

Desde o dia seguinte às eleições que digo o que era, na realidade, óbvio: o plano do governo era ser empurrado e cair, seguindo o guião de 1985-1987. Nem disfarçaram, para dizer a verdade. O discurso de Montenegro, na tomada de posse, foi um desafio para ser derrubado. O que me parece extraordinário é que revelações éticas comprometedoras, que deveriam obrigá-lo a lutar pela sua própria sobrevivência política, tenham sido tratadas como uma oportunidade para criar a desejada crise política e reforçar a maioria de governo. Rebenta a escala do cinismo.

Numa semana, Montenegro confessou que quis ir a eleições, decidiu que vai faltar a três debates e escolheu Hernâni Dias, o secretário de Estado que foi afastado por ter criado duas imobiliárias quando mudava a lei dos solos, para liderar a lista de Bragança. É um dos poucos cabeças de lista que não é ministro. Depois de ser criticado por não seguir o exemplo daquele que afastou, Montenegro garante uma coerência retroativa, reabilitando o “imprudente” Hernâni. Também reabilitou os acusados do processo Tutti-Frutti, que não podiam escolher candidatos autárquicos, mas participaram na escolha dos candidatos às legislativas.

Este à vontade de Montenegro, caricato em quem vai a votos sob maior escrutínio ético, resulta da convicção de que o bom momento económico e orçamental (distribuição de dinheiro) garante benevolência e a multiplicação de notícias oferece o cansaço. A notícia sobre uma investigação judicial que o envolve, num processo onde uma empresa com relação com a sua casa parece ter sido beneficiada na obra mais cara de Espinho pelos pareceres do seu escritório (que tinha a autarquia como cliente), já não teve o impacto da avença. E, no entanto, estão ali vários indícios sobre as relações “empresariais” e partidárias que ligam Espinho, Braga, câmaras do PSD, construtoras e Montenegro. Todas as pistas indicam o mesmo perfil. Mas há um instinto de negação coletiva que não parece querer voltar a lidar com gente assim.

Se, resultado de umas eleições provocadas por estes casos, Montenegro reforçar a sua votação, concluindo-se que a ética nada conta para os eleitores, o à vontade passará a ser à vontadinha. E preparamos um caldo perigoso para o fim do ciclo que começa em maio. Se assim for, até já tenho a frase para o próximo outdoor da AD, com a cara de Luís Montenegro: “Se falhei muito, dêem-me maioria, para falhar melhor”.»


30.3.25

EUA: boa pergunta

 


30.03.1922 – Gago Coutinho e Sacadura Cabral




Dizem-nos que somos os melhores dos melhores em tudo e aqui está uma das provas. Reza a história que Gago Coutinho e Sacadura Cabral iniciaram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul em 30 de Março de 1922 e que chegaram a Fernando Noronha, depois de várias etapas e muitas aventuras. No dia 11 de Maio, data deste exemplar de O Século, descolaram daquela ilha – e muitas outras peripécias se seguiram. O Editorial do jornal e uma série de textos que preenchem a primeira página são absolutamente extraordinários, tanto quanto a forma como quanto a conteúdo. 

«Estua mais forte o sangue nos corações lusíadas. Uma aura emocional desprende-se das almas e flutua e adeja e liberta-se para o Alto, em ânsia e em êxtase.

Hora santificada esta. Hora terníssima e religiosa, em que o espírito da Raça ampara e impele as suas polarizações mais belas para um infinito de glória. (…)

De novo a mais bela aventura da nossa Raça, para uma das maiores de todas as idades, a águia lusitana se libra, fitando o Sol, desafiando os elementos, orgulhosamente, dominadoramente. (…)
E uma saudade há-de cair dolente sobre a pedra tumular dessa «Lusitânia» de Sonho. Rico sarcófago para uma ânsia de infinito – o Oceano! Digna lágea sepulcral essa dos Rochedos – que desafiam os séculos – para um Sonho grande – que assombrou o mundo!»

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Bloco central?

 


«Um futuro entendimento pós-eleitoral ao centro, desejado por muitos, apresenta uma dificuldade: os líderes atuais das duas maiores forças políticas são incompatíveis. Talvez mudar as lideranças resolva o problema — elege-se um social democrata mais aberto e um socialista mais cinzento et voilà, obtém-se uma maioria zen que governará no virtuoso caminho do meio. Entende-se bem o desejo de estabilidade, sendo, como são, tão cansativos os soluços da democracia. Mas há ainda pior do que esse cansaço: os tempos, em geral, não se apresentam estáveis e só um grande delírio de excecionalidade permite supor o contrário. Os portugueses, muito precisamente, terão de reconhecer a trepidação, não podendo persistir na ideia salazarenta de que a sua geografia de arrabaldes os salva das convulsões do mundo. Somos europeus e estamos na luta.

Os resultados de décadas de políticas neoliberais, onde impera a liberdade para acumular capital, sem olhar a meios ou a impactos, estão finalmente à vista. A direita vê-se tomada pelo seu extremo, sem ideias de como pode fechar as brechas e a porosidade do seu corpo ideológico, por onde o populismo entra e se instala. Em vez de olhar com atenção para o seu papel no que está a acontecer no mundo, a direita escolhe antes cultivar a arte de sacudir o capote, num jogo pueril de atribuição de culpas a outros, com forte preferência pelos socialistas e pela esquerda, entendida como um todo, numa inimizade pavloviana, sem substância.

Uma das críticas mais comuns que os conservadores fazem à esquerda é a de esta nunca ter feito um mea culpa dos seus erros passados, nomeadamente os cometidos pelos seus extremos — e não deixam de ter razão. E, portanto, não deve a direita incorrer na mesma falha ética. Nesse caso, pode ir começando a tirar notas sobre como pedir desculpa pelo futuro que nos bate à porta: veja-se, só para começar, o assalto plutocrata à democracia americana e o presumível destino de Gaza, ambos resultantes de políticas dos seus extremos.

A nível nacional, a solução do bloco central, ainda que apetecível, talvez não passe de um modo preguiçoso e barrigudo de empurrar as questões que nos dividem e que precisam de clarificação, antes de negociadas e/ou diluídas. Não é verdade que sejam apenas migalhas aquilo que divide conservadores e progressistas. A título de exemplo, a direita, toda ela, passou décadas a negar a evidência científica das alterações climáticas, bloqueando por sistema as forças que, atempadamente, queriam trazer o assunto para a mesa, enquanto protegia a indústria fóssil de quaisquer restrições. (Nos EUA, apenas 12% dos republicanos consideram que lidar com as alterações climáticas deve ser uma prioridade). Como este exemplo, tantos outros.

Na verdade, pode ser inconciliável o que hoje nos divide. Quantas questões terá o bloco central de enterrar para coexistir? Como será a política ambiental desta maioria? E como se concilia uma procura compassiva do outro, com uma posição desapiedada, assente na convicção de que somos como lobos à espreita?

Entretanto, em grandes outdoors, a extrema-direita pede que lhe demos uma oportunidade, ao fim de 50 anos de democracia. É um pedido estranho, porque parece ignorar que estivemos 48 anos a lutar por nos livrarmos dela. Já foi, já era, e o tempo, graças a Chronos e ao empenho de todos, avançou. Esta luta, pelo movimento constante e progressista dos ponteiros, dá-se hoje em nome da própria sobrevivência da espécie. Isso ou a irrelevância do homo stupidus, reduzido a uma aventura efémera. Há que rever programas – e fazer escolhas.»


Montenegro soma e segue