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3.3.13

Ratzinger, o reformado



A Europa está no estado turbulento que conhecemos, de Itália nem vele a pena falar, mas do Vaticano chegam notícias verdadeiramente de um outro mundo sobre tudo o que rodeia a passagem do ex-papa à condição de reformado.

Parece que continuará a ser tratado por «Sua Santidade Bento XVI», mas o anel de ouro que usava, com o seu nome «e, em alto relevo, o apóstolo Pedro pescando sobre uma barca», terá de ser destruído na presença dos cardeias (porquê?...).

Enfim: vai-se o anel, ficam os dedos e os pés também. O que não fica são os belos sapatos vermelhos (que afinal não eram Prada), substituídos já por nove pares de outros, novinhos em folha e agora castanhos, fabricados no México com uma suavíssima pele de bezerro recém-nascido. Não se sabe quantas léguas terá de palmilhar para os gastar, mas adiante.

Tudo isto deve ser importantíssimo para a humanidade em geral e para Fátima Campos Ferreira em particular, mas estejamos sobretudo atentos ao facto de Ratzinger ter deixado de ser infalível no passado dia 28 de Fevereiro às 20:00 (19:00 em Lisboa). Sabe-se lá se não vai andar por aí a dizer que não acredita na Imaculada Conceição ou assim. Ou mesmo, porque não, que deixou de crer na própria infalibilidade do Papa.

(Vídeo sobre sapatos)
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18.2.13

Ide e lede



God has left the building, porque bloggers como o Luís januário já não há muitos.

«Deus já não está no Vaticano. Apenas cardeais, conspirando nos intervalos de uma partida de futebol. Resignaram o Papa ou o Papa resignou-se.» 
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13.2.13

Alemães, muito melhores que os Maias em previsões



Parece que na Alemanha não se fala de outra coisa, a notícia chegou-me por este post da Helena Araújo e é de facto notável: um calendário berlinense com cartoons, que foi impresso em Agosto de 2012, tem esta imagem para o dia 10 de Fevereiro de 2013, véspera da data em que o Papa anunciou a sua renúncia ao cargo.

O Papa ganha um qualquer Totoloto e exclama: «Santíssimo... Amanhã despeço-me!»

Já chovem comentários de toda a ordem, desde a hipótese de a decisão do Papa ter sido influenciada pelo calendário, até ao que dá o título a estes post... 

E quem continua mais ou menos em estado de choque é editor que trabalha há 30 anos no dito calendário: «Quando vi os jornais e ouvi a rádio na segunda-feira, fiquei verdadeiramente assustado!» Não é caso para menos ... 
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Nem que o Espírito Santo descesse em Belém!


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12.2.13

Ratzinger, o progressista de antanho



Com um raio que atacou o Vaticano e o anúncio da resignação de Bento XVI, assistimos ontem ao início de uma telenovela que só terminará certamente daqui a mais de um mês, quando fumo branco anunciar que há um novo chefe para a Igreja. Entretanto, estamos já em pleno Toto-Papa, sobem as cotações nos mercados de apostas e os jornalistas exultam.

Mas talvez valha a pena recuar umas décadas na vida do futuro ex-Papa.

Como é sabido, houve uma clara retracção a nível de Roma nos anos que se seguiram ao encerramento do Vaticano II, que teve lugar em 1965. Mas o que é menos conhecido é que existiu então um fortíssimo movimento de teólogos que não se conformaram com os factos e que reivindicaram o seu direito à liberdade de pensamento e de expressão dentro da Igreja. Exprimiram-no num documento publicado simultaneamente num jornal italiano e num outro alemão, em 16 de Dezembro de 1968: «Declaração sobre a liberdade e a função dos teólogos na Igreja». O texto chegou a 1.360 assinaturas, mas os promotores foram 38 – os principais e mais avançados teólogos ligados ao Concílio, entre os quais... Joseph Ratzinger. (Não é fácil encontrar o referido documento, mas os interessados podem lê-lo aqui.)

Trata-se de um ataque muito violento contra a Congregação para a Doutrina da Fé, a mesma que foi presidida muito mais tarde por Ratzinger até ser eleito papa (onde ganhou a alcunha de «rottweiler de Deus»), com uma descrição pormenorizada de muitas exigências, quanto a modo de funcionamento e a direitos considerados fundamentais. Um pequeno excerto para se ver o «tom»:

«Os teólogos abaixo-assinados vêem-se constrangidos e na obrigação de chamar abertamente e pela mais grave forma a atenção para o facto de a liberdade dos teólogos e da teologia ao serviço da Igreja, reconquistada pelo Segundo Concílio do Vaticano, não dever ser hoje posta em perigo. [...] Pretendemos que se respeite a nossa liberdade todas as vezes que, pela palavra ou por escrito, comunicamos as nossas convicções teológicas fundamentadas e o fazemos pela aplicação do melhor do nosso saber e da nossa consciência.»

Quando e porquê se retraiu o ainda actual Papa? Hans Küng, um velho compagnon de route e, mais tarde, epicentro de fortes divergências, pensa que Ratzinger se assustou muito com as repercussões do Maio de 68 e que terá iniciado aí a sua «involução».

Talvez mas julgo que não só. Já o escrevi dezenas de vezes e repito: «Com a distância que o tempo cria, parece hoje evidente que o Concílio não desiludiu por acaso ou por engano. O que se passou foi que a Igreja, ao mais alto nível, recuou, num sábio exercício de sobrevivência. A pesada pirâmide sobreviveu a um terramoto – abanou, mas não ruiu. A grande diferença em relação ao que se passou muito mais tarde numa outra pirâmide, a da União Soviética, foi que a Igreja resistiu quando percebeu que estava ameaçada. Durante o Concílio, também ela arriscou uma glasnost, uma abertura à sua maneira. Iniciou então um tímido aggiornamento, mas travou-o a tempo de não deixar que ele se transformasse em perestroika

Como muitos outros, Ratzinger entrou nesta onda, a partir do final da década de 70, e nunca mais fez marcha atrás. Muito pelo contrário. E destes quase oito anos de reinado, apesar de algumas iniciativas talvez louváveis, ficará a marca de um triste e nocivo conservadorismo, no início de um século, que tanto teria beneficiado de rasgos de audácia e de coragem de uma pessoa inegavelmente inteligente e culta e com a projecção universal que a função lhe concedeu.

A sua despedida, em latim, no ano da graça de 2013, foi mais do que simbólica: falou para dentro e só uma jornalista o entendeu.
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15.8.11

Alguém acredita que Bento 16 vá condenar a ditadura franquista?


Por ocasião da próxima visita do papa a Madrid, a «Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica» pede à Igreja, em carta dirigida aos bispos espanhóis, que a visita papal seja marcada pelo gesto simbólico de condenação da ditadura franquista.

«Dada la cercana relación de la institución religiosa con los militares sublevados contra el gobierno de la República el 18 de julio de 1936, la asociación de víctimas considera la vista papal una "buena oportunidad" para que la jerarquía eclesiástica española "asuma con madurez y responsabilidad las consecuencias de su apoyo a la dictadura y su colaboración en la constitución de un régimen que causó enormes daños a miles de ciudadanos".

"La iglesia trabajó con los golpistas en la guerra; ayudó localmente a planificar la represión" (…) "La Iglesia católica fue uno de los grandes pilares del régimen y muchos de sus miembros miraron para otro lado cuando, en la retaguardia, los pistoleros de falange asesinaban a decenas de miles de civiles".

La visita de Ratzinger es una "oportunidad inmejorable" para rechazar el "colaboracionismo franquista, condenarlo y reparar, en la medida de lo posible, el terrible daño que la dictadura causó a millones de personas".»

Dadas as posições de Rouco Varela e seus amigos, e de um papa «em cruzada contra o laicismo», é altamente improvável (só para não dizer impossível) que o pedido expresso nesta carta seja atendido, ou mesmo lido... Mas fica registado para a história – como ficará, certamente, o silêncio com que será acolhido. E isso é importante: outros dias virão e justiça será feita.

(Fonte)
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8.8.11

Bento 16: podia vir a Espanha como turista


Eu sei que o seu reino não é deste mundo, mas não deixa de impressionar que nada altere estes programas de périplos megalómanos de Bento 16, um pouco por toda a parte e, para a semana, aqui mesmo ao lado, em Espanha: mais de um milhão de pessoas, 50 milhões de euros, sete toneladas de terços, até papel higiénico à maneira, etc., etc., etc.

As reacções começaram desde há muito, mas intensificaram-se, naturalmente, nos últimos dias.

Os «indignados» do Movimento 15M calendarizam uma série de acções de protesto e preparam-se para participar numa manifestação convocada por diversos grupos de cristãos e de ateus.

Mas não são os únicos. Vale a pena seguir reacções mais institucionais, como as da Izquierda Unida - terceira força em número de votos, a nível do país, nas eleições legislativas de 2008, e que, cordatamente, define para si própria «o objectivo de transformar gradualmente o sistema capitalista num sistema socialista democrático» (nada de muito «revolucionário», portanto). Tem negado, veementemente, que não venham a estar envolvidos dinheiros públicos e denuncia as isenções fiscais concedidas pelo Governo às empresas participantes. Contesta as alterações à programação da RTVE durante três dias e os respectivos custos, em carta dirigida ao seu presidente: «Le parece adecuada a la dirección de RTVE una alteración tan importante de su programación por la visita de ámbito privado, y no en calidad de jefe de Estado, de Don Joseph Aloisius Ratzinger dado que nuestra Constitución establece la existencia de un Estado aconfesional?» E faz propaganda da sua campanha com o cartaz que ilustra este post.

Num outro registo, Antonio Aramayona publica no site da Attac Espanha, uma «Carta al señor Ratzinger» absolutamente deliciosa. A não perder. Não resisto e transcrevo o primeiro parágrafo:

«Tengo entendido que usted tiene intención de volver a España el 18 de agosto. En nuestro país recibimos unos 53 millones de turistas al año, que contribuyen a nuestra economía con lo que van dejando en hoteles y chiringuitos. Esos turistas pagan de su bolsillo sus vacaciones y viajes de negocios, por lo que no entiendo que su viaje cueste más de 50 millones de euros y usted no pague un solo céntimo, pues 25 millones lo pagamos todos los españoles a través del dinero público del Estado y el resto es aportado por empresas privadas, con las consiguientes desgravaciones. En otras palabras, señor Ratzinger, usted tiene el mismo derecho que cualquier otro turista a visitar España, pero debería pagarlo de su bolsillo o abstenerse de viajar de gorra.»

Ler o resto aqui.
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11.7.11

«Não será como Fátima por deficit de pastorinhos no distrito» (*)


… mas estão já inscritas mais de 440.000 pessoas para a Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar, em Madrid, de 16 a 21 de Agosto, por ocasião da visita de Bento XVI.

Muitas organizações reclamaram pelos 50 milhões de euros previstos para custos (é muito dinheiro…), mas Rouco e os seus amigos já vieram explicar que nada sairá dos cofres públicos, mas sim de contribuições de empresas e dos próprios peregrinos, e que se prevê que entrem em Espanha 100 milhões de euros - «Sua Santidade como propaganda turística», até e portanto.

Há preços diferentes de inscrição, conforme a suposta «riqueza» dos diferentes países de origem, sem que se diga em que grupo se integram os peregrinos dos intervencionados pelo FMI…: [«Los peregrinos del grupo A (Italia, Qatar, Estados Unidos) pagan entre 210 euros - por alojamiento, inscripción y comida - y 45 euros si solo hacen inscripción de fin de semana. España tiene estas tarifas. En el grupo B (Arabia Saudí, Argentina o República Checa), las tarifas oscilan entre 163 y 40 euros. El grupo C (Angola, Afganistán, Macedonia o Paraguay) paga entre 122 y 30 euros.»]

Alugam-se janelas para melhor avistar o espectáculo e enumeram-se «detalhes estrambólicos» ligados á visita como, por exemplo, as sete toneladas de terços destinados às mochilas dos participantes, que um grupo de 150 mulheres está a produzir numa pequena fábrica do Equador, ou um desafio de futebol de beneficência (lá estaremos, representados pelo nosso Futre…)

Enfim: «eles» saberão se daqui virá muito bem à humanidade, ou mesmo aos jovens crentes, mas será sem dúvida o mundo do espectáculo em todo o seu esplendor. Com algum espírito de sacrifício, digo eu: deve estar fresquinho, em Madrid, em meados de Agosto…

(Fonte, entre outras)

(*) Diz a Izquierda Unida.
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15.4.10

O longo caminho de Joseph Ratzinger


Não é a primeira vez que Hans Küng critica o pontificado de Bento16, mas fá-lo com uma especial clareza e veemência numa «Carta aberta aos bispos católicos de todo o mundo», publicada hoje em El País.

Agora com 82 anos, começa por recordar que ele e Ratzinger foram os dois teólogos mais novos do Concílio Vaticano II, e descreve depois, detalhadamente, os motivos da desilusão que tem vindo a ter com a actuação do seu ex-colega na Universidade de Tübingen, que não só «relativiza os textos conciliares e os interpreta de forma retrógrada (…) como se situa expressamente contra o concílio ecuménico que, segundo o direito canónico, representa a autoridade suprema da Igreja católica».

Pararia por aqui aconselhando apenas mais uma leitura, não fosse dar-se o caso de me lembrar muito bem de Hans Küng e de Ratzinger durante o Vaticano II, não só pelo que escreveram e subscreveram (já  lá chego), mas porque o primeiro esteve em Portugal em Abril de 1967, para fazer duas conferências, uma em Lisboa e outra no Porto sobre «A liberdade dentro da Igreja». Eram tão «revolucionárias» então as esperanças que sobravam do Concílio, encerrado dois anos antes, que os eventos em questão até meteram PIDE, identificação de matrículas de carros, entre as quais o de Mário Soares, etc. etc. (Escrevi em tempos algo sobre este assunto, que os mais interessados poderão ler aqui.)

Mas o que me interessa é chegar a Ratzinger, numa tentativa para que se entenda de onde ele vem, o que talvez permita uma melhor leitura da «desilusão de Hans Küng e uma menor «desculpa» para as posições que o papa hoje toma.

29.3.10

Magister dixit?


Eu gostava que alguém me explicasse o que é que Anselmo Borges escreveu de tão extraordinário, no artigo publicado há dois dias no DN, para que tantas almas - cristãs, agnósticas ou ateias - o citem e louvem com incomensurável veneração. Disse o mínimo e o óbvio que milhares de pessoas repetiram, nos últimos dias e no mundo inteiro.

A diferença reside apenas no facto de ser do conhecimento público que ele é padre, eu sei, e é isso que contesto, porque é o velho argumento de pseudo-autoridade, que vem nestes momentos ao de cima, incrustado que está no mais profundo das nossas entranhas. Pseudo-autoridade já que, segundo julgo saber, ele não exerce qualquer função de chefia que lhe permita, amanhã, entregar um eventual padre pedófilo aos tribunais ou afastá-lo de funções. O cidadão Anselmo Borges - teólogo, filósofo e professor universitário -, limitou-se a escrever, e bem, um artigo de opinião, que não assina como padre. Mas o que passou a ter importância foi o que se sabe acerca do mensageiro e não propriamente a mensagem. Sem que  o dito mensageiro tenha qualquer responsabilidade, como é óbvio.

Se amanhã o padre Anselmo Borges vier dizer que, enquanto tal, se recusa a participar em cerimónias durante a visita de Bento16 a Portugal, ou pedir a resignação do papa e explicar porquê, aí, sim, citá-lo-ei com a maior das admirações.

P.S. - O Miguel Serras Pereira adaptou o texto dos dois comentários que aqui deixou e transformou-o em post publicado agora no Vias de Facto. A discussão passa para um outro patamar.

26.3.10

Soma mas segue?


O New York Times parece estar a apostar no papel de uma espécie de arauto para um eventual impeachment de Bento16. Depois deste artigo de ontem, pelo menos mais dois, hoje: Memo to Pope Described Transfer of Pedophile Priest e Pope May Be at Crossroads on Abuse, forced to Reconcile Policy and Words.

E começa-se a ler, um pouco por todo o lado: «Le pape doit démissionner s'il a couvert des prêtres pédophiles».

Entretanto, em Inglaterra, que Bento16 visitará no fim deste ano, não se brinca em serviço.

Nós por cá? Todos bem.

25.3.10

De quando as histórias da Casa Pia começam a parecer quase inócuas


Apesar de avisado por vários bispos americanos que, inclusive, sublinharam as eventuais consequências negativas para o Vaticano, um padre americano foi mantido em funções apesar de ter abusado sexualmente de mais de 200 crianças surdas.

Se este caso é anterior à presidência, pelo actual papa, da Congregação que se ocupa destas questões, sabe-se agora que se contam por milhares aqueles de que teve conhecimento durante o seu «reinado» que durou 24 anos (de 1981 a 2005) - incluindo este.

Há poucos dias, falei de encobrimento por parte das autoridades da igreja, sem ainda ter consciência da sua extensão. Este artigo do New York Times explica, detalhadamente, o carácter excepcional deste caso que chegou aos tribunais. Os outros estão ainda nos cofres do Vaticano.

22.3.10

Pedofilia e água benta - Adenda


Ontem, quando falei de encobrimento de abusos sexuais por parte da ICAR, não media a extensão do mesmo.

Entretanto, via Diário Ateísta, cheguei a uma carta, não de tempos pré-históricos mas de 2001, em que o cardeal Ratzinger, enquanto perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, define que «ofensas» estão reservadas ao Tribunal Apostólico da Congregação a que então presidia, especificando que «casos deste tipo estão sujeitos a segredo pontifício». Entre eles, «o delito cometido por um sacerdote contra o Sexto Mandamento do Decálogo com um menor de 18 anos».

Comentários, para quê.

(A carta de Ratzinger pode ser lida aqui na íntegra, em inglês.)

P.S. Cartoon publicado no Libération, envaido pelo Jorge Conceição

21.3.10

Pedofilia e água benta


Já muito foi escrito sobre a carta que o papa dirigiu anteontem aos católicos da Irlanda (na íntegra, em espanhol, aqui), a propósito de pedofilia. Que ele se diga consternado e exprima remorsos e arrependimentos colectivos por tudo o que agora vem à luz do dia, não só na Irlanda mas um pouco por todo o mundo, talvez seja importante mas diz-me muito pouco. E é certamente música para violinos de orquestras celestiais que, numa secção intitulada «Medidas concretas para abordar a situação», a primeira seja que «a Quaresma deste ano se considere um tempo de oração» (…), com um convite para que seja «oferecida para esse fim, durante um ano, desde agora até à Páscoa de 2011, a penitência das sextas-feiras».

Mas dou importância, sim, e estou 200% de acordo, com alguns porta-vozes das reacções das vítimas, que se indignam por Bento16 não ter reconhecido o papel da igreja no encobrimento de tudo isto, durante décadas ou mesmo séculos. Também quando dizem ser absolutamente inaceitável que o cardeal Brady, principal responsável da igreja irlandesa, não assuma a sua parte de responsabilidade e não resigne, e que bispos e padres implicados no escândalo continuem a exercer as suas funções.

Mais ainda, e como muito bem pergunta o incansável Hans Kung: não seria este o momento adequado para o próprio Bento16 se reconhecer como co-responsável directo, ele que foi arcebispo de Munique entre 1977 e 1982, local e época onde, sabe-se agora, houve centenas de casos de abusos?

Nada disso aconteceu ou vai acontecer. Dentro de dois meses, o papa já terá vindo a Portugal, numa vista não só religiosa mas também de Estado, que deveria, mas não vai ser, um pouco chamuscada por tudo isto.

10.3.10

Vem aí o papa


O Miguel Serras Pereira inaugurou a sua participação no «Vias de Facto» misturando reis de Lewis Caroll com papas de Roma e eu pego no mote, a propósito da visita de Bento16, que se aproxima a passos largos. Vamos lendo notícias sobre pompas e circunstâncias, construções de palas e convívios culturais, com um vago encolher de ombros sobre o seu verdadeiro significado.

Em Inglaterra, que o papa só visitará no segundo semestre deste ano, já há protestos. Por cá, sei agora que há quem esteja a planear uma reunião para discutir o assunto, sem ter ainda percebido de que tipo de iniciativa se trata concretamente.

E, no entanto, motivos não faltam para contestar não só a forma que a visita  vai aparentemente revestir, mas o papel negativo que este papa tem tido no mundo, tanto ou mais do que alguns outros.

Voltarei certamente a este tema, mas ao ouvir falar de vindas de papas a Portugal, vem-me sempre à memória a primeira visita que um papa alguma vez fez a este país: Paulo VI, em 1967, no 50º aniversário das supostas aparições em Fátima.

Nas hostes dos então chamados «católicos progressistas», em que eu me integrava (sim, para quem passe por aqui e não me conheça de outras paragens, vêm daí as minhas raízes contestatárias), foi grande a consternação desde que começou a ser ventilada a hipótese de essa visita vir a ter lugar, já que se temia que ela funcionasse como uma quebra do isolamento internacional a que Portugal estava sujeito, sobretudo desde o início da guerra em África, e como um aval às orientações políticas do governo de Salazar.

2.3.10

Vem aí um papa (1)


Ainda faltam mais de dois meses, mas já começou a levantar-se o véu sobre o muito que nos espera com a visita de Bento 16 a Portugal.

Fiquei hoje a saber que a conferência episcopal está a «negociar» com o governo tolerâncias de ponto ou feriados para as datas em que o papa por aqui andará: 11 e 12 de Maio para Lisboa, 12 e 13 para Leiria e 14 para o Porto. Nada está decidido mas espero para ver - com curiosidade.

Não me recordo de feriados decretados por visitas oficiais de reis ou de presidentes da república (talvez quando Isabel II veio a Portugal, em 1957?) e nem me passa pela cabeça que o governo possa encarar a viagem de um papa numa outra qualidade que não seja a de chefe do Estado do Vaticano.

Claro que nem Bento 16, nem os bispos, nem os católicos portugueses podem ser responsabilizados pelo facto de a senhora de Fátima não ter decidido aparecer num 5 de Outubro para festejar a República, então recentemente proclamada, ou num 1º de Maio com a previsão de que um dia viria a ser feriado em Portugal. Mas isso é um problema deles: da dita senhora e dos seus fiéis.

Assim sendo, e salvo melhor opinião, resta a quem quiser ir até ao Terreiro do Paço, à Cova da Iria, ou à Avenida dos Aliados, a hipótese de gastar uns dias de férias. E não é de desprezar a disponibilidade de 10,5% de desempregados que bem precisam de protecção celestial.


P.S. 1 – Realizo, neste momento, que devo chegar a Lisboa (vinda do Butão...) dois dias antes do início desta epopeia. Azar o meu porque, por pouco, escaparia ao espectáculo, mas felicidade porque não assistirei às duas últimas semanas de preparativos! Garrafa meia cheia, portanto.

P.S. 2 - «O problema é que o mesmo poderá dizer João Gabriel, porta-voz do Benfica, outro Estado dentro do Estado e religião com mais de 7 milhões de fiéis em Portugal e arredores, em vista da participação de "todos" (portistas e sportinguistas incluídos) nos festejos de cada vitória e nas lamúrias de cada derrota.» (Manuel António Pina)

14.1.10

«O papa quer falar connosco»
















«Tenho sempre a agenda bastante preenchida, mas se ele quiser podemos ir beber umas bijecas. Tenho é muito para lhe dizer, se ele me quiser ouvir com a mesma paciência que eu tenho tido para o ouvir.»

Ricardo Alves