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6.7.18

África é um país?



«Como moçambicana migrante, procuro acompanhar os desenlaces políticos no meu país e na região, o que nem sempre é fácil. Das páginas disponíveis on-line, uma das minhas favoritas é Africa is a country [África é um país], um espaço de sátira à persistência de representações coloniais e sobre a diversidade de problemas do continente no presente. Há alguns anos, Binyavanga Wainaina num artigo cáustico desvelou as heranças coloniais presentes em muitas descrições sobre África, sobre um continente com cerca de 1,2 mil milhões de pessoas e culturas muito diferentes entre si, e que são frequentemente tratadas como uma só, como um único país. No campeonato mundial de futebol, a decorrer ainda, participaram várias equipas africanas, representando vários países. Porém, na maioria das análises eram apresentadas como ‘equipas africanas’. Só que a Coreia ou o Japão, selecionados pelo continente asiático, mas não são chamados de ‘equipas asiáticas’.

PUB Uma discussão sobre as representações de alteridade sugere que se trata de representações políticas, com um largo lastro histórico. O conceito predominante de África é por demais homogeneizante, contendo realidades diversas e bastante heterogéneas. De modo semelhante, não existe uma Europa ou uma Ásia como entidade única.

A história hegemónica de África contem ainda uma forte carga de violência epistémica, fruto da persistência das referências da biblioteca colonial. As omissões, os esquecimentos, as ausências, as fabricações e os estereótipos, que resultam na distorção e negação da historicidade da humanidade africana, impossibilitam uma leitura mais complexa das decisões, intervenções, resistências e autonomias. Falar sobre África significa questionar e desafiar crenças de estimação, pressupostos declarados e múltiplas sensibilidades.

A construção de representações sociais do continente africano é reificada pelo uso de categorias conceptuais como tribo(s) e etnia(s), tradicionalismo(s), doenças endémicas, atraso, subdesenvolvimento, instabilidade política, categorias que exigem uma reflexão sobre o seu conteúdo. Um denominador comum é a pobreza da África na produção de conhecimento. A ‘pobreza’ de África está relacionada, como vários sublinham, com a sua produtividade intelectual. Este facto pode ser avaliado a partir das referencias a África em publicações internacionais (muito alta, mas maioritariamente produzida fora do continente) e os fracos investimentos (por governos africanos) em pesquisa e desenvolvimento. Numa das suas crónicas, o escritor moçambicano Mia Couto referia-se à situação de Moçambique, dizendo que “a maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos”. A pobreza no campo da produção de conhecimento representa um perigo para o futuro de Moçambique, atingindo diretamente a atual geração de moçambicanos e as gerações futuras. Por outro lado, é também verdade que muito tem sido escrito sobre a complexidade social e histórica de Moçambique. Podem os moçambicanos ser ouvidos, também, como agentes ativos de produção de conhecimento sobre o seu país, sobre o continente e o mundo?

O moderno colonialismo atuou simultaneamente como ‘missão civilizadora’ e ideologia baseada numa epistemologia que procura legitimar a dominação e a exploração do ‘outro’. Este projeto assentou na conceção do ‘outro’ não como indivíduo ou parte de uma comunidade - com as suas economias, estruturas de poder e saberes -, mas como uma representação homogénea, imaginada em função dos objetivos políticos e das fantasias dos colonizadores. Esta é a visão dominante sobre ‘África’, reiterada por Nicolas Sarkozi (então presidente de França), num discurso proferido no Senegal, em 2007, onde afirmou que:

A tragédia da África é que o homem africano não entrou ainda o suficiente na história. O camponês africano, que há milénios convive com as estações do ano, cuja vida ideal é estar em harmonia com a natureza, conhece apenas o eterno recomeço do tempo pontuado pela repetição sem fim dos mesmos gestos e ações. Mesmas palavras.

Pensar o continente africano, como parte do mundo, requer uma outra perspetiva epistemológica, em que a diversidade do continente encontre eco e dê forma ao sentido de ser e sentir África no plural. Este desafio encontra eco nas Epistemologias do Sul, a proposta de Boaventura de Sousa Santos para que se ultrapasse o peso das representações sobre os outros, para que se reconheça o Sul global na sua diversidade. Esta proposta, como o autor sublinha, tem por objetivo permitir que os grupos sociais oprimidos representem o mundo por si mesmo, nos seus termos, pois somente assim serão capazes de mudá-lo de acordo com suas próprias aspirações. A luta pela história, arte, literatura, e outras formas de conhecimentos africanos continua, pois, no século XXI, ecoando o desafio de vários políticos e académicos africanos, pela descolonização mental, pelo reconhecimento do lugar das múltiplas Áfricas no mundo. Significa conhecer as histórias e os desejos dos jogadores das várias equipas nacionais africanas que participaram no campeonato do mundo de futebol de 2018.»

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28.1.14

África deles – China e Japão



África é, neste momento, motivo de tensões, políticas e diplomáticas, entre o Japão e a China. A caminho de Davos, o primeiro-ministro japonês visitou a Etiópia, a Costa do Marfim e Moçambique e o ministro dos Negócios estrangeiros chinês passou também pela Etiópia, para além do Senegal, Gana e Djibouti.

O Japão acusa o seu eterno rival asiático de apenas querer explorar recursos naturais e de criar pouco emprego (sabe-se que muitas das grandes obras, em países africanos, são executadas por trabalhadores levados da China), o governo de Pequim recorda as atrocidades cometidas pelos nipónicos durante a Segunda Guerra Mundial e argumenta com números da atualidade: em 2012, o volume de comércio da China, em África, foi sete vezes superior ao do Japão.

Os africanos assistem e vão tirando partido destas novas formas de colonização, com outras etiquetas, de que não podem de modo algum prescindir.

(Fonte, entre outras)

Só para falar da Etiópia, longe parecem ir os tempos em que o Japão podia evocar as velhas relações entre os dois países, não só mas também por ambos terem saído vencedores contra investidas militares europeias (o primeiro na Batalha de Tsushima e o segundo na de Adwa) e assinarem por isso um Tratado de Amizade e Comércio, em 1930. E se é verdade que essas boas relações foram interrompidas porque o governo japonês não ajudou os etíopes na segunda guerra destes contra a Itália de Mussolini (1935-1938), acabaram por ser reatadas, a partir dos anos 50.

Hoje, falam muito mais alto os cifrões: África está a ficar chinesa. E, contra factos, há cada vez menos argumentos. 
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29.7.11

E a Somália? (2)

E a Somália?


Noruega? O horror, sem dúvida. Aqui perto, com europeus como nós, num país rico, o inesperado que faz correr milhões de caracteres em jornais, blogues e redes sociais. Nada contra, (quase) tudo a favor.

Mas será que isso justifica a aparente indiferença perante os ecos que nos chegam de uma tragédia mil vezes maior, num país martirizado como a Somália? O que vamos sabendo passou a trivial?

– 12 milhões de pessoas ameaçadas pela fome.
– 3,7 milhões vítimas da seca, das quais 2,2 milhões ainda não receberam ajuda.
– 18.000 crianças malnutridas (em breve, serão 25.000), das quais 50 morrem por dia.




Ler: ACNUR: "Lo que hacemos en Somalia no es suficiente".
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12.7.10

África perdeu um velho aliado – morreu Basil Davidson


Basil Davidson, «jornalista radical na grande tradição anti-imperial» e historiador britânico, dedicou alguns anos da sua vida à luta pela independência das antigas colónias portuguesas em África. Foi o primeiro repórter a acompanhar a guerrilha contra Portugal, em Angola e na Guiné-Bissau, e a chamar assim a atenção do mundo para uma realidade então praticamente desconhecida.

No jornal Guardian, pode ser lido um longo resumo biográfico. Num blogue de Moçambique, recorda-se a dívida daquele país para com Basil Davidson:

«Era igualmente um revolucionário, usando o seu saber e influência para denunciar e atacar as más concepções que a velha Europa tinha sobre o Continente Africano, bem como a opressão a que alguns sujeitavam os seus povos, dentro do próprio velho continente. Foi dos mais destacados membros de um movimento de solidariedade europeu a favor da liberdade que muitos de nós ainda procuravam nos anos 1960. Particularmente no caso de Moçambique, Davidson foi um apoiante fervoroso e incondicional da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), que em 1964 começou com a guerra que dez anos depois iria aniquilar o colonialismo no nosso país.(…)
“Apesar de ter sido conhecido como um historiador dedicado à causa de África, Basil Davidson era solidário com todos os povos que lutavam pela liberdade em todo o mundo. No caso das antigas colónias portuguesas, sobretudo nós e os nossos irmãos de Angola e da Guiné (Bissau), foi um grande amigo e camarada”, comentou Marcelino dos Santos, que conheceu o falecido historiador na casa deste em Londres, antes do início da luta armada que a FRELIMO desencadeou para demover o colonialismo em Moçambique desenvolvia.»

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26.6.10

BUALA – cultura contemporânea africana


Um sítio a visitar, com muito para ler, para ver, para aprender,

Buala.org é o sítio da associação cultural Buala.
Trata-se do primeiro portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa, com produção de textos e traduções em francês e inglês.

Buala significa casa, aldeia, a comunidade onde se dá o encontro. A geografia do projecto responde ao desenho da proveniência das contribuições, certamente mais nómada que estanque. A língua portuguesa, celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e Áfricas, dialoga com o mundo.

Buala.org pretende inscrever a complexidade do vasto campo cultural africano em acelerada mutação económica, política, social e cultural. Entendemos a cultura enquanto sistemas, comunidades, acontecimento, sensibilidades e fricções. Políticas e práticas culturais, e o que fica entre ambas. Problematizar questões ideológicas e históricas, entrelaçando tempos e legados. No fundo desejamos criar novos olhares, despretensiosos e descolonizados, a partir de vários pontos de enunciação da África contemporânea.

Buala.org concentra e disponibiliza materiais, imagens, projectos, intenções, afectos e memórias. É uma plataforma construída para as pessoas. Uma rede de trabalho para profissionais da cultura e do pensamento. Artistas, agentes culturais, investigadores, jornalistas, curiosos, viajantes e autores, todos se podem encontrar e habitar este Buala.

(Também no Facebook)
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11.6.10

África do Sul: a degenerescência do ANC


No dia em que (quase) todos «se instalam» no tal Cabo, cheios de esperanças, leia-se, pelo menos nos intervalos dos jogos, este texto publicado no excelente «Passa Palavra».

«O ANC, partido que liderou todo o processo de libertação nacional, tornou-se, ao fim destes anos de poder, um perigo evidente para a integridade da sociedade sul-africana. Em vez de um projecto político colectivo de transformação da sociedade, é hoje um instrumento de “progresso pessoal” de uma elite, com o consequente agravamento das desigualdades. (…)

Pode ser verdade que o peixe começa a apodrecer pela cabeça, mas é essencial compreender que a degenerescência do ANC não resulta apenas do aumento do poder de uma elite predadora dentro do partido. Houve um tempo em que se acreditou que o poder era um projecto político colectivo que iria transformar a sociedade de baixo para cima. Agora percebe-se, em todos os níveis do partido, que ele é um meio para a incorporação pessoal numa determinada minoria que se aproveita das crescentes desigualdades da sociedade. De certo modo, este processo, mesmo que conduzindo a uma desracialização da hegemonia, não deixa muito espaço para a esperança numa sociedade melhor, se a isso limitarmos as nossas aspirações.»

Na íntegra, aqui.
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6.6.10

Entretanto, na China (2)


Como adenda a este meu post, leia-se um importante artigo publicado no Público de hoje: China: a fábrica do mundo também quer ter carro e casa própria
«A China já se está a preparar para produzir em outsourcing daqui a duas décadas. É clara a sua influência em África e o cruzamento com empresários e bancos africanos. Conhecemos poucas marcas mundiais chinesas e podem testá-las nesta região antes de as lançar no mercado global. África será a fonte de mão-de-obra barata (O sublinhado é meu.)
Parece evidente que isto acontecerá. Até quando serão os africanos os elos mais fracos desta terrível engrenagem?
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4.4.10

Dakar ou Pyongyang


Como marco para a comemoração do seu 50º aniversário, o Senegal inaugurou ontem m uma estátua gigantesca, maior que a da Liberdade em Nova Iorque e colocada no topo de uma escadaria com 250 degraus.

Neo-realista mais do que q.b., obra de coreanos que trouxeram arte e engenho e facilmente substituíram Kim Jong pela representação de uma família que mostra ter-se libertado da escravatura e do obscurantismo. Enfim, a globalização no pior dos seus esplendores.

Mil protestos não se fizeram esperar, pela exorbitância da despesa e não só: uns identificam símbolos maçónicos, os muçulmanos (mais de 90% da população), não gostam dos trajes ligeiros da mulher, as feministas reprovam que esta apareça atrás do homem…

E Lépold Senghor, sem qualquer espécie de dúvida, a dar meia dúzia de voltas no túmulo.


3.4.10

Mais gente como nós


In The Hands of God from Mustafa Davis on Vimeo.

This is a short film I made while in the Mulanje District of southern Malawi. Its the intimate story of a father and son. The film has very little dialogue. I wanted to let the compelling images tell this story so as not to take away from the purity of it.
This film was not scripted. These are real life characters that I was fortunate to have had the chance to meet. I simply turned my camera towards them and the story told itself.
The music is "Over The Pond" by Album Leaf. It a beautiful song that I felt reflected both the beauty and sorrow of the film.


(Via Nene Paraíso no Facebook)